Cinema · Gourou
Em 28 de janeiro de 2026, “Gourou” estreou nos cinemas. Yann Gozlan encena, com Pierre Niney, a ascensão de um coach de desenvolvimento pessoal que se torna massivamente influente, numa sociedade em busca de sentido em que o sucesso individual é quase sagrado.
Não vou fazer uma crítica de cinema. O que me interessa é o objeto social que o filme põe na mesa: o estado das nossas necessidades psíquicas coletivas… e o estado do mercado do “acompanhamento” em sentido amplo — coaching, terapias, psicologia, aconselhamento conjugal. Porque, quando uma sociedade começa a comprar sentido, ela também compra, às vezes, uma relação de autoridade. E é aí que as coisas podem descarrilar.
O que acho certeiro no ponto de partida de “Gourou” é o clima: um cansaço moral difuso, uma ordem de dar certo, e aquela pequena ideia tóxica que paira — “se não estou conseguindo, é porque estou fazendo errado, ou porque não sou suficiente…”. Nesse contexto, a promessa de transformação pessoal se torna muito poderosa. Não apenas “vou ficar melhor”, mas “vou me tornar alguém”. E quanto mais total é essa promessa, mais ela atrai. O filme conta exatamente o momento em que a promessa deixa de ser apoio e vira um dispositivo que captura.
Há uma cena no filme que aponta uma pergunta que vejo circular com frequência nas redes: aquela em que se tenta encurralar o coach com uma questão aparentemente simples.
Muitas coisas têm efeitos terapêuticos sem serem terapia: o esporte, um sono melhor, uma alimentação mais estável, recuperar a confiança, reencontrar poder de agir… Se quisermos esclarecer, uma definição de referência do coaching (ICF) o descreve como uma parceria, num processo estimulante e criativo, que visa maximizar o potencial pessoal e profissional.
A terapia
Visa antes de tudo a saúde psíquica e relacional: sofrimento, sintomas, segurança, às vezes trauma ou transtornos.
O coaching
Visa antes de tudo o alcance de objetivos: transição, desempenho, decisões, competências, organização.
Só que, na vida real, isso é mais poroso do que parece. Um coaching pode fazer emergir sofrimento. Uma terapia pode ajudar a esclarecer objetivos. O que faz a diferença não é um tema — “estamos falando de autoconfiança, logo é terapia” —, mas sim a finalidade, o enquadre e, sobretudo, o nível de responsabilidade clínica. É isso também que mantém tão viva a questão de saber quem tem o direito de cuidar.
Uma parte do campo do acompanhamento continua muito heterogênea: níveis de formação muito variáveis, posturas muito diferentes, promessas às vezes prudentes… e às vezes delirantes. Essa heterogeneidade aparece preto no branco quando se olha o trabalho de proteção do consumidor: a DGCCRF, órgão francês de defesa do consumidor, numa investigação sobre o “coaching de bem-estar”, registrou um volume importante de irregularidades, sobretudo quanto à informação dada ao público a respeito de competências, títulos e menções valorizadoras.
O que guardo como principal ponto de alerta — no coaching como na terapia — não é “o método X” ou “a profissão Y”. É a mecânica relacional: esse acompanhamento aumenta a autonomia, ou constrói uma dependência de uma pessoa, de um grupo, de uma visão de mundo? A MIVILUDES, órgão francês que acompanha os desvios sectários, define o desvio sectário como a aplicação de pressões ou de técnicas que visam criar, manter ou explorar um estado de sujeição psicológica ou física, privando uma pessoa de parte do seu livre-arbítrio, com consequências danosas.
Coach ou terapeuta: retomo-os aqui como uma grade de vigilância. Um ponto isolado não basta para concluir. Mas, quando eles se somam, a coisa fica preocupante.
Fala-se muito dos desvios, e com razão, mas fala-se pouco dos sinais de confiabilidade. Para mim, há um que deveria ser inegociável e que costuma faltar nos debates: a capacidade de dizer com clareza quais são as suas qualificações, a sua formação, as suas referências e os seus limites.
Um acompanhamento sério é, muitas vezes, bastante antiespetacular.
A pergunta mais protetora
No fundo, “coach ou terapeuta” não é a melhor pergunta. A mais protetora é: esse acompanhamento me torna mais autônomo, mais livre, mais capaz de escolher e de pensar por mim mesmo?
Desenvolvo essas referências, com o filme como pano de fundo, no vídeo abaixo — em francês.
Como citar este artigo
Besse, J. (2026, 8 de fevereiro). 'Gourou': o filme que questiona as profissões do acompanhamento. Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/gourou-o-filme-que-questiona-as-profissoes-do-acompanhamento
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