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Australian and New Zealand Journal of Family Therapy · Terapia familiar

Incentivar as relações locais que constroem solidariedade: pensar sistemicamente a terapia familiar e a mudança climática

O que a terapia familiar deve fazer com a ecoansiedade e os desastres climáticos? Mark Furlong, do Bouverie Centre (Universidade La Trobe, Melbourne), recusa-se a vê-los de saída como patologia individual. O ensaio contrapõe o self autônomo da psicologia dominante ao self relacional do pensamento sistêmico e se apoia na epidemiologia social para defender a missão tradicional da disciplina: ajudar a construir vínculos confiáveis e éticos.

Autores Mark Furlong (Bouverie Centre, Universidade La Trobe, Melbourne, Austrália)Primeira publicação Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, 22 de julho de 2025Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Incentivar as relações locais que constroem solidariedade: pensar sistemicamente a terapia familiar e a mudança climática, de Mark Furlong, publicado na Australian and New Zealand Journal of Family Therapy (Wiley) (2025), doi: 10.1002/anzf.70005, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Os pontos-chave foram colocados no quadro do resumo. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

O vocabulário da saúde mental individual, na maioria das vezes, não é a melhor linguagem para narrar os altos e baixos esperados da vida.

Mark Furlong

Resumo

Na vida cívica e na prática profissional, a mudança climática tem implicações importantes. Esta contribuição tenta “fechar o circuito” entre o pessoal e o profissional numa leitura sistêmica da relação entre terapia familiar e mudança climática. O texto parte de uma questão prática: como formular, na terapia, as demandas em que um desastre ambiental imediato, ou a perspectiva de uma degradação progressiva, ocupa lugar central? Reconhecendo o significado profundo da mudança climática, desenvolvem-se três campos. Primeiro, apresentam-se dados sobre as duas concepções contrastantes de saúde e bem-estar que parecem imediatamente pertinentes. Segundo, a compreensão dominante do self é contraposta a uma visão sistêmica do self. Terceiro, resumem-se as pesquisas da epidemiologia social sobre a importância das relações pessoais. Argumenta-se que essas pesquisas confirmam a missão que a terapia familiar tradicionalmente cumpriu: ajudar as pessoas para quem trabalhamos a construir vínculos éticos e confiáveis. Na conclusão, apresenta-se uma recomendação afirmativa: no contexto da mudança climática, a contribuição singular da disciplina para a construção de relações torna esse serviço especialmente importante.

Pontos-chave

  • Na vida cívica e na prática profissional, a mudança climática tem implicações importantes. Esta contribuição examina três campos relacionados para apresentar uma leitura sistêmica da relação entre o fenômeno da mudança climática e a prática da terapia familiar.
  • Uma questão-chave é esta: como formular, na prática, as demandas em que um desastre ambiental imediato, ou a perspectiva de uma degradação progressiva, ocupa lugar central? Um exame detalha como as atribuições relativas à mudança climática constroem os significados particulares que as pessoas atendidas dão aos problemas que trazem.
  • Um segundo campo relevante para a prática considera duas concepções contrastantes de saúde e bem-estar. Essas duas interpretações estão ligadas (i) à compreensão dominante de que o self é uma unidade autônoma e (ii) à visão sistêmica de que o self é essencialmente relacional.
  • Encontrar um equilíbrio entre esses polos contrastantes, entre autonomia e relacionalidade, é uma preocupação central da prática. A questão é especialmente atual porque, num amplo leque de tradições terapêuticas, a prioridade herdada tem sido privilegiar a autonomia e minimizar a importância da interdependência.
  • À medida que a mudança climática se acelera, a missão da terapia familiar de melhorar a qualidade das interdependências das pessoas atendidas se torna cada vez mais urgente. As pesquisas da epidemiologia social sobre a importância das relações pessoais para a saúde e o bem-estar validam essa missão.

1. Introdução

A reportagem era categórica. Uma “explicação convincente” (Dalton e O’Malley 2025, 24) para a escala e a ferocidade dos incêndios que então devastavam Los Angeles podia ser encontrada num estudo acadêmico recém-publicado. O estudo saiu numa revista de prestígio, a Nature Reviews, apenas dois dias antes do início dos incêndios (09.01.25). Além de propor uma formulação geral que dava sentido às “violentas oscilações sazonais entre chuvas catastróficas e secas extenuantes” vividas no mundo inteiro, o estudo examinava, de modo inquietante, um cenário de incêndio para a região de Los Angeles que espelhava muito de perto o incêndio que de fato estava ocorrendo (Swain et al. 2025).

O argumento do estudo era que o aquecimento do planeta estava gerando uma “esponja atmosférica” em expansão exponencial, já que uma atmosfera mais quente absorve cada vez mais umidade. Essa evolução aponta uma mudança qualitativa, pois faz parte de um processo de retroalimentação amplificadora que a equipe de pesquisa chamou de “chicotada hidroclimática”: um novo padrão distribuído ao acaso, que derruba a homeostase estabelecida, definida pelas estações. No ponto seguinte do ciclo, uma esponja atmosférica sobrecarregada descarrega de forma inesperada episódios de chuva acima da média, incluindo enchentes mais frequentes. Essa precipitação extrema gera um crescimento fora de época nos campos e nas florestas. Numa seca posterior, essa enorme massa vegetal seca rapidamente e se torna um barril de pólvora carregado de combustível.

Familiarizado com os conceitos básicos (circuitos de retroalimentação, homeostase e morfogênese, distribuição não linear), o pensamento sistêmico não se perturba com a ciência da mudança climática. O difícil é integrar essa compreensão à própria epistemologia pessoal e à prática profissional. Consciente de que algumas pessoas argumentariam que essas duas esferas devem permanecer separadas, o que se segue procura “fechar o circuito” (Wender 1968, 40) entre o pessoal e o profissional no contexto de um projeto atual e complexo: qual é a relação entre a terapia familiar e a mudança climática?

2. Qual é o nome correto?

Onde a “terapia familiar” e a “mudança climática” poderiam ter uma relação? Um ponto de partida óbvio é considerar as situações clínicas. Num primeiro caso, a pessoa terapeuta pode receber uma pessoa, um casal ou uma família em grande sofrimento, que viveu diretamente um desastre.

Não haveria surpresa nesse tipo de demanda. Segundo uma revisão sistemática publicada na Frontiers in Psychiatry, os eventos (ambientais) agudos podem agir por mecanismos semelhantes aos do estresse traumático, levando a “padrões psicopatológicos bem compreendidos” (Cianconi et al. 2020, 74). Essa equipe observa também que:

Os efeitos da mudança climática podem ser diretos ou indiretos, de curto ou de longo prazo. Além disso, as consequências da exposição a eventos meteorológicos extremos ou prolongados também podem ser tardias, abranger transtornos como o estresse pós-traumático ou até ser transmitidas às gerações seguintes (74).

Esse resumo parece ter autoridade. Falando na terceira pessoa, a equipe assegura a quem lê que a resposta a eventos agudos segue “padrões psicopatológicos bem compreendidos”. Embora formulada sem ambiguidade, essa afirmação é mais instável do que se declara, pois a mudança climática é uma variável que está desestabilizando muito do que se tomava como certo. Essa ação desreguladora inclui abalar as ortodoxias psiquiátricas, padrões de pensamento que tendem a descontextualizar, e esvaziar de sentido muitos dos problemas apresentados na clínica.

O desfecho de um evento é mediado pelo contexto desse evento e pelo sentido que as pessoas envolvidas lhe atribuem. No campo do abuso sexual infantil, por exemplo, reconhece-se que a traição da confiança potencializa o impacto de uma agressão: quem ocupa posições de responsabilidade tem um poder especial de trair a confiança fundamental que lhe foi dada, e o desfecho é pior do que se a agressão viesse de uma pessoa desconhecida qualquer. Se mantivermos o interesse pela importância do contexto e do sentido, quais são as implicações quando uma pessoa, um casal ou uma família em sofrimento passou, digamos, por um incêndio terrível?

Se as pessoas afetadas entendem esse evento como resultado do carma ou do destino, como expressão da vontade de Deus ou como um simples exemplo de má sorte, é provável que esse tipo de interpretação produza um desfecho biopsicológico diferente do que se produz quando o evento é entendido como resultado, digamos, da negligência das autoridades locais. O que coloca a questão da interpretação em primeiro plano é que a ciência do clima liga a frequência e a gravidade de eventos tradicionalmente classificados como “desastres naturais” a uma categoria de causalidade inteiramente diferente: a antropogênica. Essa reformulação pode afetar de modo significativo os desfechos subjetivos. Na medida em que isso acontece, é de esperar que os chamados “padrões psicopatológicos bem compreendidos” citados pela equipe mencionada acima sejam mais aleatórios do que a ortodoxia prevê. Os povos originários são o exemplo por excelência: se a própria comunidade costeira está sendo progressivamente inundada, é inteiramente lógico atribuir esse desastre às consequências ecológicas desencadeadas pela espoliação colonial (Cox 2023).

Um segundo tipo de demanda diz respeito a pessoas que não viveram diretamente um desastre climático, mas que sofrem com o que percebem como a deterioração do meio ambiente. Na maioria das vezes, esse estado de espírito é chamado de “ecoansiedade” (Vukičević e Liu 2024). Há muito debate sobre como descrevê-lo; Kaplan (2020, 83), por exemplo, pergunta: “A síndrome de estresse pré-traumático ligada ao clima é uma condição real?”. Uma série de termos disputa espaço nessa interseção. Young (2021), por exemplo, sustenta que “transtorno climático” é o melhor descritor geral e defende também a legitimidade de formulações centradas na impotência frustrada, na depressão, na angústia e no luto. Poderíamos fazer outra pergunta: em vez de sinal de patologia, a preocupação com a mudança climática não seria uma consciência adequada? Esse estado de espírito pode até ser uma resposta sã e sensata a um desastre que se descontrola (Furlong 2022b).

Se o termo preferido for ecoansiedade (Robbins e Moore 2013), um número crescente de estudos publicados nas últimas décadas teve essa preocupação como foco principal. Essa visibilidade acadêmica crescente espelha, em linhas gerais, a atenção midiática quase incessante provocada pela sucessão de incêndios, enchentes e secas “sem precedentes” ocorridos no mesmo período. Não surpreende, portanto, que uma parcela significativa da população tenha ficado (mais ou menos) preocupada, e mais ou menos atormentada, pelo espectro da mudança climática. Esse estado de ansiedade só aumentou, porque muitas dessas pessoas, talvez a maioria, não acreditam que ações significativas estejam sendo tomadas para atenuar, e menos ainda para evitar, o colapso climático iminente. Nesse ponto, o maior estudo científico do gênero já realizado constatou que a inação percebida dos governos estava na raiz da “ansiedade climática (que) afeta a vida cotidiana e o funcionamento de 45% das crianças e jovens pesquisados no mundo” (Hickman et al. 2021, 863).

Muitas pessoas do campo da saúde pública argumentam que a ecoansiedade é uma crise de saúde mental. Há quase 15 anos, por exemplo, no Asia-Pacific Journal of Public Health, Blashki et al. (2011) instavam os serviços de saúde a se preparar para o impacto que a mudança climática teria sobre a população, tanto a diretamente atingida quanto a que tem conhecimento do problema, mas até agora não foi diretamente afetada. O Climate Council of Australia (2023) apresenta um argumento semelhante ao sugerir que a maioria (80%) da população australiana é afetada por saber da maior frequência das ondas de calor, 47% pela das enchentes, 42% pela dos incêndios florestais, 36% pela das secas e 29% pela das tempestades destrutivas.

A distinção feita acima, entre um grupo que não foi diretamente atingido pela mudança climática e outro que foi, pode parecer conveniente, mas é fenomenologicamente insustentável. Por exemplo, assim como quem assina este texto, muitas pessoas na Austrália continental (e em outros lugares) continuam sofrendo pelo fato de os incêndios de 2018-2019 na Área de Natureza Selvagem da Tasmânia, Patrimônio Mundial, terem destruído uma floresta primária antiga e insubstituível. Ao contrário do que supõe uma compreensão ingênua, esse luto parece indelével e não diminuiu com o tempo. O relato de que algumas pessoas que moram em Mallacoota continuam lutando ativamente, cinco anos depois dos incêndios devastadores que a cidade viveu e apesar de esforços muito intensos para reduzir seu sofrimento, fala dessa verdade inquietante (Mounsey 2025).

3. O que é uma resposta de inspiração sistêmica?

Uma resposta à incidência crescente da ecoansiedade seria oferecer terapia “no varejo”, isto é, distribuir em massa um programa terapêutico. Antes de considerar essa ideia, uma questão prévia, de interesse central para a prática da terapia familiar, requer atenção: qual é o status diagnóstico, e portanto a “tratabilidade”, da ecoansiedade? Um terapeuta que se declara sistêmico, e que tem projeção internacional, oferece uma porta de entrada para a questão de como enquadrar melhor o “transtorno climático”: trata-se de uma doença, de uma condição, de uma neurose ou talvez de um simples desajuste?

O respeitado formador Michael Yapko conduziu há alguns anos (13.04.16), no Bouverie Centre, em Melbourne, um workshop intensivo de um dia intitulado “Trabalhar sistemicamente com indivíduos”. Na parte aberta a perguntas, perguntaram-lhe como ele compreenderia uma pessoa que chegasse ao seu consultório atribuindo ao impacto da mudança climática o sofrimento e a preocupação significativos que vivia. A questão era se, na visão do Dr. Yapko, essa demanda seria sinal de patologia ou se o estado de espírito dessa pessoa seria mais bem compreendido como uma resposta racional a uma situação perturbadora. Sem nenhuma ressalva, ele respondeu que o estado de espírito dessa pessoa evidenciava a presença de um problema psicológico específico e tratável.

A formulação de Yapko está longe de ser universal. Em vez de evidência de patologia, uma visão ecológica sustenta que é angustiante testemunhar o adoecimento do planeta. Essa perspectiva foi explorada de várias maneiras. Por exemplo, o termo solastalgia foi cunhado por Glenn Albrecht, pesquisador dos efeitos psicossociais da degradação ambiental. Suas pesquisas indicam que muitas pessoas relatam uma perda generalizada de bem-estar associada à consciência de que seu ambiente está danificado (Albrecht et al. 2007). Resultados semelhantes foram relatados em muitos lugares. Quando os rios e lagos de povos indígenas, no Brasil ou na Nigéria, são envenenados, a população local tende a viver uma perda difusa de vitalidade e de bem-estar. O mesmo acontece com quem vive em Tuvalu ou em outra ilha do Pacífico prestes a ser submersa. A resposta a esse trauma pode se parecer com uma doença, mas, de uma perspectiva ecológica, reduzir esse estado a uma doença ou a um transtorno é um contrassenso.

No fundo, essa diferença diz respeito a como o self é concebido. Yapko, por exemplo, parece se apoiar na visão psicológica dominante segundo a qual o self saudável é uma unidade delimitada e autônoma que, se bem ajustada, sente que exerce controle sobre seu ambiente. Em contraste com o “self agêntico” ajustado popularizado por Bandura (1997, 2008), uma pessoa considerada subótima ou desajustada, com um transtorno ou uma deficiência, pode ser terapeuticamente reprogramada para alcançar um grau adequado de autoeficácia. (Vale notar que a imagem de Bandura teve uma influência prodigiosa: um indicador da escala de sua difusão é que seu texto-chave de 1997 foi citado mais de 125 mil vezes.)

Pode-se contrapor a essa visão agêntica do self a posição relacional (Matthews 2006)1. Amplamente compartilhada pelos feminismos, pela antropologia, pela teoria crítica, pela teoria dos sistemas e pelo senso comum, essa perspectiva se resume assim:

… a pessoa não deve ser entendida como uma entidade separada e atomizada, embora possa viver o mundo dessa forma, mas como parte dos processos sociais que constituem a sociedade. Na sua formulação mais famosa dessa posição, Marx escreve que a essência humana “não é uma abstração inerente ao indivíduo isolado (mas), em sua realidade… é o conjunto das relações sociais” (Leonard 1984, 23)

É essa segunda premissa, a de que o self é um “conjunto das relações sociais”, que orienta o que se segue. Talvez a ideia-chave contida nessa premissa seja a de que os seres humanos são interdependentes, e não independentes. As abordagens sistêmicas defendem enfaticamente essa visão:

Quanto mais um sistema desenvolve sua complexidade, mais pode desenvolver sua autonomia e multiplicar suas dependências. Construímos nossa autonomia psicológica, individual e pessoal por meio das dependências que sofremos. (Morin, citado em DiNicola 1997, 200)

Por mais contraintuitiva que pareça de início, uma perspectiva sistêmica tem implicações progressistas em vários níveis. Esse âmbito inclui o modo como se pode compreender o “bem-estar”.

4. O que é estar bem?

Mais do que simples ausência de patologia, a concepção herdada de saúde, no setor de saúde e assistência, baseia-se numa avaliação profissional do “indivíduo” em relação a um critério ou a este ou aquele conjunto de indicadores. A formulação psicológica padrão, por exemplo, enfatiza critérios como lócus de controle interno, autorregulação emocional e assim por diante. Essa abordagem está bem resumida na noção de “self agêntico” mencionada antes (Bandura 1997, 2008).

Oriundas de tradições teóricas particulares, construções muito diversas da saúde se apoiam na mesma premissa: o indivíduo está, ou não está, apto a cumprir sua função em relação aos critérios que determinada filiação privilegia. Por exemplo, as abordagens psicanalíticas se propõem a ajudar as pessoas em análise a “alcançar a ambivalência”, as terapias centradas na emoção procuram ajudar as pessoas atendidas a estar em fluxo emocional e as abordagens reichianas visam rigidezes musculares problemáticas. Ainda menos empírica é a noção de “autorrealização”. Para o presente exercício, esse ícone autárquico é mencionado porque descarta categoricamente a importância do vínculo, tal como a comida e o abrigo, como uma “necessidade de deficiência” (Maslow 1954).

Um critério único tende a atravessar as descrições de saúde apresentadas tanto na mídia técnica quanto na popular: em tempos difíceis, os indivíduos precisam ser resilientes. Segundo essa visão, é essencial conseguir se recuperar, aguentar firme e se recusar a desanimar. Essa ideia é reciclada em pareceres especializados, depoimentos pessoais e campanhas de saúde pública: segundo o Victorian suicide prevention framework 2016–2025, o objetivo-chave é “construir resiliência” (Victorian Government n.d.). Rose e Lentzos (2017) vão além. Segundo essa análise, a resiliência se tornou uma especificação-chave do que é ser pessoa e um imperativo moral coercitivo a serviço da governamentalidade. Outras críticas também estão surgindo. Em The Resilience Myth, por exemplo, Chemaly (2024) desmonta o clichê machista de que a “garra” individual basta. Sem o menor constrangimento, a valorização da resiliência parece apenas renomear e reciclar o ideal de “caráter” tão popular nos relatos de Rudyard Kipling sobre o heroísmo masculino da era vitoriana.

Uma compreensão sistêmica adota outra abordagem. Por exemplo, Bruce Daisley (https://www.makeworkbetter.info/p/quick-fix-wellness-courses-dont-work), que ocupou uma vice-presidência no Twitter, contestou a premissa de que a resiliência é um atributo que os indivíduos têm ou não têm:

A verdadeira resiliência está num sentimento de estar junto, de união com quem nos cerca num empreendimento comum (1).

Antes de considerar a relevância dessa ideia para a prática da terapia familiar, é lógico tentar apresentar um esboço, uma sugestão, do significado da mudança climática. Mais precisamente, se o termo “colapso climático” substituir “mudança climática”, o que está em jogo?

5. Enquadrar um tema sem fronteiras: o significado da mudança climática

Durante milênios existiu uma homeostase entre:

  • regularidades climáticas (padrões de chuva, variações de temperatura etc.) e
  • eventos climáticos irregulares adversos (secas, tempestades, enchentes etc.).

Em linhas gerais, nessa homeostase, os desvios desse padrão ocorriam com frequência e intensidade aceitáveis. Assim como outras formas de vida, os seres humanos naturalizaram esse padrão como base de nichos de vida sustentáveis e favoráveis. Nas últimas décadas, a homeostase herdada sofreu perturbações crescentes. Essa perturbação se manifesta na perda das regularidades, assim como na frequência e na intensidade crescentes de cada categoria de evento climático adverso: calor, inundação, incêndio, enchente, tempestade e seca. A natureza, ao que parece, já não é “normal”2.

Fenômenos dinâmicos como a mudança climática não produzem consequências lineares: como o padrão está se perdendo, como o clima está ficando mais “entrópico”, é menos possível prever com precisão qual será o impacto da mudança climática em lugares específicos e em momentos determinados. Tendo isso em conta, e reconhecendo também que a mudança climática não tem fronteira temporal nem geográfica, a trajetória que acabará por se desenhar é, em grande medida, incerta. Ainda assim, é possível formular generalizações probabilísticas, tendências.

Uma tendência-chave diz respeito à presença crescente de “eventos sem precedentes”. Por exemplo, cientistas registraram um pico prodigioso da temperatura média do oceano no Círculo Polar Ártico. Da mesma forma, como se noticiou com frequência, temperaturas atmosféricas médias nunca vistas foram registradas em muitos lugares, na Austrália e em outras partes. Esses resultados não devem ser vistos como eventos “sem precedentes” isolados, pois, em cada dimensão da expressão do clima (calor, enchentes, tempestades, secas e incêndios), documenta-se um padrão de medições “fora da curva”.

Há quem argumente que um padrão de atividade constantemente fora da variação normal não pode ser conciliado com a imagem benigna evocada pelo termo “mudança climática”. Considerando que esse termo pode ser eufemístico, até mesmo um contrassenso, há quem proponha que os termos “ruptura climática” ou mesmo “colapso climático” descrevem com mais verdade o que está em curso, pois captam com mais exatidão a desregulação cada vez mais vivida. Um nível de perturbação como esse é difícil de conceber. Em parte, porque a noção de “colapso climático” pertence a uma classe de fenômenos que Timothy Morton, em sua filosofia, chamou de hiperobjetos (Morton 2013). Esses fenômenos são tão massivamente distribuídos, tão poderosos e totalizantes em sua complexidade que desafiam a compreensão. Por quê?

Nossa socialização nos ensinou a supor que objetos e eventos estão situados no tempo e no espaço. Os hiperobjetos, neste caso o colapso climático, transcendem a localização e a fixidez temporal. Essa inespecificidade desafia o senso comum. A dificuldade intelectual se aprofunda pelo fato de que o colapso climático implica a perda de um padrão enraizado. Em termos climáticos, esse padrão implicava historicamente um estado estável, uma qualidade de homeostase que existia entre traços regulares (o ciclo das estações) e uma distribuição esperada de eventos irregulares (secas, tempestades) que ocorriam com frequência e intensidade esperadas e aceitáveis. Supunha-se que esse estado fosse permanente, e ele foi naturalizado como nosso quadro de referência.

A estrutura herdada, nosso nicho de hábitat, foi perturbada por aportes antropocêntricos nos últimos 200 anos. A perda de padrão resultante, chamada de “entropia” no vocabulário da teoria dos sistemas, aparece em graus de desorganização em cascata, nos quais o novo normal é a irregularidade. Eventos que aconteciam uma vez a cada cem anos se aglomeram, as secas desafiam as médias sazonais, as condições de pirocumulonimbos propagam incêndios.

Lenton et al. (2022, 2025) propõem que a mudança climática perturbará muitos dos “nichos” que foram os hábitats, os espaços de vida sustentáveis, nos quais as populações humanas viveram historicamente. Essa pesquisa concluiu que a mudança climática:

já colocou ~9% das pessoas (> 600 milhões) fora desse nicho. Até o fim do século (2080-2100), as políticas atuais, que levam a um aquecimento global de cerca de 2,7 °C, podem deixar um terço (22%-39%) das pessoas fora do nicho (1238).

Se o que foi dito acima for trazido à mente, se o significado da mudança climática/colapso climático for o contexto, a totalidade com que se depara é profundamente incompatível com o mundo tomado como certo por tanto tempo. Essa diferença chocante não produzirá “padrões psicopatológicos bem compreendidos” (Cianconi et al. 2020, 74). Estar “fora do nicho” é uma preocupação, qualquer que seja o problema apresentado.

6. Achados da epidemiologia social e dos determinantes sociais da saúde

Concorde-se ou não, na terapia familiar, com a ideia de que os seres humanos são “conjuntos de relações sociais”, os achados da epidemiologia social e dos estudos sobre os determinantes sociais da saúde trazem a mesma mensagem: na medida em que a terapia familiar tem como ofício construir a base relacional das pessoas atendidas, ela deve continuar fazendo o que faz. Mais do que um comentário ou uma conclusão reconfortante, há um argumento empírico sólido, e em rápido crescimento, que sustenta essa afirmação.

Por exemplo, especialistas em epidemiologia social constataram que a incidência de doenças como as cardiovasculares, a demência, o acidente vascular cerebral e o câncer diminui quando as pessoas têm uma base relacional firme. Nos bons tempos, uma base relacional forte tende a afastar a doença e, se a doença ocorre, um estoque de relações confiáveis atenua seu impacto, assim como favorece a recuperação (Berkman et al. 2014). Os estudos sobre o desfecho de pessoas sem filiação segura reforçam esse ponto: “… a solidão (está) na lista de fatores de risco para problemas de saúde e morte precoce, bem ao lado do tabagismo, da obesidade e da falta de exercício” (Cacioppo e Patrick 2008, 108).

Além das preocupações médicas imediatas, relações seguras sustentam os seres humanos em circunstâncias adversas. Que vínculos não provisórios e não condicionais tenham essa capacidade é algo validado empiricamente pelo Harvard Study of Adult Development, estudo multigeracional. Esse projeto longitudinal único conclui que as relações positivas importam mais para a saúde e a felicidade do que os genes, o QI, a situação financeira e o status social de uma pessoa (Waldinger e Schulz 2023). A respeitabilidade científica dessas afirmações (e de outras afins) ganhou uma aparência ainda mais oficial quando o Surgeon General dos Estados Unidos publicou recentemente um parecer de 70 páginas sobre a importância da conexão social (Murthy 2023).

Um conjunto de dados de fácil acesso é coerente com esse resumo. Para o propósito atual, as relações são mais valiosas quando são seguras e éticas. Estando ou não nas imediações de um desastre climático, recomenda-se uma prática que ponha em ato a ideia de que o bem-estar humano avança na medida em que as relações pessoais são justas e estáveis.

Com esse objetivo, surge uma especulação: é possível reenquadrar a saúde e o bem-estar em termos sistêmicos? Por exemplo, em vez de privilegiar uma visão estreita de “saúde mental privada”, uma alternativa seria enquadrar a questão em termos, digamos, de responsabilidade ética e de qualidade das interdependências da pessoa. Da mesma forma, poderiam ser considerados enquadramentos como “bem-estar interpessoal”, “a ética da vida relacional” ou “um equilíbrio dinâmico entre autonomia e orientação para o outro”. A premissa dessa especulação é que o vocabulário da saúde mental individual, na maioria das vezes, não é a melhor linguagem para narrar os altos e baixos esperados da vida.

O argumento é o seguinte:

  • em muitas situações, “saúde mental” é um enquadramento problemático, porque privatiza, em vez de contextualizar, o campo da atenção;
  • o que se entende como a saúde mental de uma pessoa é muitas vezes um epifenômeno, uma construção enganosa, que não capta o essencial;
  • o essencial é que as teorias feministas, transculturais e críticas concordam que é preciso haver um equilíbrio entre o self relacional e o self autônomo, mesmo que nossa ideologia atual fetichize “o indivíduo”;
  • focar demais “o eu”/“minha saúde mental” pode ser uma prioridade ilusória que, a longo prazo, se revela contraproducente. Prescrever mais “autocuidado”, por exemplo, pode ser como tentar se secar com uma toalha molhada.

Um enquadramento mais sistêmico e relacional da saúde e do bem-estar faz especialmente sentido num ambiente de degradação climática. Um enquadramento assim pode apoiar o desenvolvimento da solidariedade e da camaradagem que serão necessárias nesse ambiente. Em alguma medida, essas formulações também oferecem um contraponto às imagens cada vez mais militaristas da saúde e do bem-estar individuais (Furlong 2017). Essas imagens (imponha-se, assuma o comando, se você não ganha, você perdeu) lembram de modo pungente a frase atribuída a Jiddu Krishnamurti: “não é sinal de saúde estar bem ajustado a uma sociedade profundamente doente”.

7. Coda: encarar a mudança climática

Na seção de “Negócios” do mesmo jornal diário citado no primeiro parágrafo desta contribuição, saiu uma matéria intitulada “Sob pressão do GOP, BlackRock deixa grupo climático em meio a êxodo de Wall Street” (Brush e Kishan 2025). A matéria descreve os esforços poderosos empreendidos pelo Partido Republicano e por entidades a ele afiliadas para forçar instituições de investimento a se retirar dos compromissos que tinham assumido com a iniciativa Net-Zero Asset Managers (NZAMi). O ponto central da matéria era a notícia de que uma aliança pioneira de 325 gestoras de ativos estava cada vez mais em frangalhos. Uma organização paralela, a Net Zero Banking Alliance, grupo que incluía o Goldman Sachs e o JPMorgan Chase, também estaria sob ataque e teria sofrido “um êxodo em massa de seus membros norte-americanos”.

No início, os membros desses dois grupos tinham se comprometido a “impor metas ESG (ambiente, sustentabilidade e governança)” às empresas com as quais faziam negócios. Essa aliança, segundo a matéria, está agora se desfazendo sob a pressão de uma campanha movida por figuras políticas dos Estados Unidos, por exemplo Ken Paxton, Attorney General do Texas. Esses adversários acusavam os membros da coalizão pró-clima de reprimir a produção de carvão, de práticas colusivas e de terem concebido uma coalizão essencialmente anticoncorrencial. Por trás dessas acusações havia uma posição mais básica: a alegação de que a ansiedade diante do colapso climático não passa de histeria woke, já que os argumentos da ciência do clima seriam uma farsa. Segundo a matéria, a NZAMi tinha inicialmente a assinatura de empresas que supervisionavam um volume de recursos capaz de mudar o jogo, cerca de 50 trilhões de dólares. Agora, ao que parece, o controle das forças pró-clima sobre as organizações que administram esses recursos está escapando, devido à eficácia da campanha contra a ação climática.

Essa é uma má notícia. Mesmo sem ter acompanhado a NZAMi ou a mobilização mais ampla em torno do ESG, a deserção de grandes gestoras de ativos representa uma reviravolta cruel, já que não existe planeta B. O que parecia muito promissor há apenas um ou dois anos, que uma alavanca poderosa ainda pudesse segurar um muro em queda, foi atacado por um antagonista implacável. Na medida em que isso é verdade, as pessoas que defenderam uma ação pró-clima vinda do grande capital, e que nela depositaram esperança, sofreram um duro golpe. Essa situação perturbadora convoca o melhor de nós para agir com coragem e com uma esperança refletida (Wiseman 2021), sabendo que pensar a mudança climática inevitavelmente coloca o psiquismo em risco. Esse estado de espírito é despertado de modo chocante diante da contradição que se comunica quando se consideram as duas matérias de jornal citadas: a primeira diz a quem lê que a mudança climática está inevitavelmente trazendo tragédias cada vez mais frequentes, e a segunda que hoje temos menos chances do que há um ano de desacelerar, e menos ainda de reverter, a degradação do clima. Na vida cívica e na prática profissional, essa situação é difícil de suportar, mas é necessário enfrentá-la (Matthews 2006).

Complexe Systémique: a reter

O texto tem o mérito de levantar uma questão que a clínica costuma evitar: o que acontece com o problema apresentado quando seu contexto é um clima que se desregula? Em vez de classificar a ecoansiedade entre os transtornos, o ensaio lembra um dado sistêmico básico: o sentido que uma família dá a um desastre, fatalidade ou negligência humana, pesa sobre seus efeitos. A crítica ao self “agêntico” e à resiliência individual acerta o alvo: prescrever mais “autocuidado” a pessoas que vivem uma perda coletiva é, na imagem do artigo, como tentar se secar com uma toalha molhada. A resposta proposta é ao mesmo tempo modesta e exigente: continuar fazendo o que a terapia familiar sabe fazer, fortalecer vínculos seguros, justos e locais, que a epidemiologia social associa à saúde. Trata-se de um ensaio, sem vinheta clínica nem dados próprios, e sua parte final, sobre as finanças climáticas, pertence mais ao engajamento cívico do que à clínica. Ainda assim, oferece um quadro para acolher o sofrimento climático sem psiquiatrizá-lo. Para ler junto com a entrevista com Cynthia Hansen sobre a recuperação pós-desastre e com o artigo sobre Gregory Bateson, para quem a mente já era ecológica.

Notas do original

1 The ecological self, de Freya Mathews (Matthews 2006), talvez seja o texto-chave que examina esse tema.

2 A descrição da mudança climática apresentada nesta contribuição se baseia na pesquisa feita por quem assina o artigo para um projeto sobre a relação entre situação de rua e mudança climática. Ver The Council to Homeless Persons (2024). Esse projeto, por sua vez, se inspirou em Furlong (2022a).

Agradecimentos. Publicação em acesso aberto viabilizada pela Universidade La Trobe, no âmbito do acordo entre a Wiley e a Universidade La Trobe, via Council of Australian University Librarians.

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Tradução não oficial em português de Incentivar as relações locais que constroem solidariedade: pensar sistemicamente a terapia familiar e a mudança climática, de Mark Furlong, Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, vol. 46, no 3 (2025), doi: 10.1002/anzf.70005, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Encouraging the Local Relationships That Build Solidarity: Thinking Systemically About Family Therapy and Climate Change”, publicado em Australian and New Zealand Journal of Family Therapy (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Furlong, M. (2025). Incentivar as relações locais que constroem solidariedade: pensar sistemicamente a terapia familiar e a mudança climática (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/incentivar-as-relacoes-locais-que-constroem-solidariedade-pensar-sistemicamente-a-terapia-familiar (Obra original publicada em 2025 em Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, 46(3), e70005 (2025); republicada em 2025 por Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/anzf.70005)

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