Esta versão foi traduzida do inglês pelo Complexe Systémique com a ajuda da inteligência artificial. Em caso de dúvida, prevalece a versão original.
Journal of Child Psychology and Psychiatry · Violência
A violência entre pais reaparece, trinta anos depois, no modo como os filhos criam os próprios filhos? Com base no ensaio Fast Track, iniciado em 1991 com crianças agressivas desde a pré-escola, a equipe de Duke acompanhou três gerações. No grupo-controle, a violência conjugal vista na infância se torna parentalidade violenta, que pesa sobre os netos. Dez anos de intervenção multinível romperam esse elo.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Interromper a transmissão intergeracional da violência ao longo de três gerações: o ensaio clínico randomizado Fast Track com crianças com problemas de conduta precoces, de Laura Gorla, W. Andrew Rothenberg, Jennifer Godwin e o Conduct Problems Prevention Research Group, publicado na Journal of Child Psychology and Psychiatry (Wiley) (2026), doi: 10.1111/jcpp.70133, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela é apresentada em forma de lista; as figuras foram colocadas onde os resultados as mencionam; os quadros da revista (“What's known?” etc.) foram reunidos no quadro do resumo e as declarações nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
A violência não se limita a uma única geração, mas persiste ao longo de várias, e pode ser interrompida por uma intervenção preventiva multinível.
Laura Gorla, W. Andrew Rothenberg, Jennifer Godwin e o CPPRG
Resumo
Contexto. Os mecanismos da violência doméstica são frequentemente transmitidos entre gerações, o que representa um problema global que exige atenção especial. Este estudo investiga a transmissão intergeracional da violência por parceiro íntimo (VPI) e da violência parental contra a criança (VPC) e se a participação numa intervenção preventiva multinível (Fast Track) interrompe essa transmissão.
Métodos. Em escolas de ensino fundamental de alto risco nos Estados Unidos, crianças consideradas de alto risco para comportamento agressivo, com base em escores de triagem do corpo docente e dos pais, foram designadas, conforme a escola, para uma intervenção de 10 anos ou para um grupo-controle. O ensaio Fast Track foi registrado no clinicaltrials.gov (NCT01653535) e se concentrou nas práticas parentais e nas habilidades intrapessoais, interpessoais e acadêmicas das crianças. Das 891 crianças originais, 374 pessoas com filhos menores de 18 anos (n = 191 no grupo de intervenção, n = 183 no grupo-controle) relataram, aos 34 anos, sua experiência de violência doméstica e o ajustamento psicológico dos filhos.
Resultados. A via mediadora intergeracional que vai de VPI elevada na primeira geração a VPC elevada na segunda e a mais dificuldades globais de saúde mental na terceira foi estatisticamente significativa no grupo-controle, mas não no grupo de intervenção.
Conclusões. A VPI foi transmitida entre gerações por meio de sua influência sobre a VPC, com efeito negativo sobre a saúde mental da terceira geração. Ainda assim, a participação na intervenção Fast Track interrompeu esse ciclo. Esses achados sugerem a importância de políticas de apoio a intervenções preventivas na infância.
Palavras-chave: intergeracional, violência por parceiro íntimo, violência parental contra a criança, intervenção
O que se sabe
O que há de novo
O que importa para a prática
No mundo, 27% das mulheres de 15 a 49 anos que já tiveram um relacionamento sofreram violência por parceiro íntimo ao longo da vida (Sardinha, Maheu-Giroux, Stöckl, Meyer, & García-Moreno, 2022; Organização Mundial da Saúde, 2021). Cerca de 90 milhões de crianças vivas hoje sofreram violência sexual, e 1,6 bilhão de crianças enfrentam regularmente punições violentas e agressão psicológica em casa (UNICEF, 2024). Só nos Estados Unidos, estima-se que 10 milhões de pessoas sejam afetadas pela violência doméstica a cada ano, e mais de 25% das crianças estadunidenses são expostas à violência familiar ao longo da vida (Finkelhor, Turner, Ormrod, & Hamby, 2009; Huecker, King, Jordan, & Smock, 2025). Infelizmente, a violência é muitas vezes subnotificada e não documentada (Felson & Paré, 2005) e se espalha pelas relações no ambiente familiar, passando de geração em geração (Kerr & Capaldi, 2019; Rothenberg, 2019) em culturas do mundo todo (Lansford, Rothenberg, & Deater-Deckard, 2022).
A violência doméstica se refere a danos físicos, psicológicos, sexuais ou emocionais dentro da família, incluindo a violência por parceiro íntimo (VPI) e a violência parental contra a criança (VPC). Tanto a exposição direta (ser vítima) quanto a indireta (testemunhar a vitimização de um membro da família) à violência doméstica têm efeitos prejudiciais no desenvolvimento infantil (Gilbert, Widom, Browne, Fergusson, & Webb, 2009). Pessoas que sofreram ou testemunharam violência doméstica têm mais probabilidade de alcançar menor escolaridade (Boden, Horwood, & Fergusson, 2007), cometer atos criminosos (Lansford et al., 2021) e apresentar problemas internalizantes e externalizantes (Jaffee, Moffitt, Caspi, Taylor, & Arseneault, 2002; Tan & Mao, 2023). Sofrer violência doméstica e a exposição a práticas parentais nocivas e violentas também aumentam o risco de praticar violência em relacionamentos posteriores (Riedl et al., 2019; Salo, Appleton, & Tracy, 2022), de se envolver amorosamente com pessoas violentas (Li, Zhao, & Yu, 2019) e de usar práticas violentas com os próprios filhos (Lotto, Altafim, & Linhares, 2023; Savage, Tarabulsy, Pearson, Collin-Vézina, & Gagné, 2019). A violência doméstica é frequentemente transmitida entre gerações (Belsky, Conger, & Capaldi, 2009; Fitzgerald, London-Johnson, & Gallus, 2020; Kerr & Capaldi, 2019; Rothenberg, 2019). A ideia de que pessoas que sofreram violência doméstica podem, mais tarde, exercer violência como parceiras e como mães ou pais foi explicada como transmissão intergeracional da violência (Madigan et al., 2019), com mecanismos e efeitos da violência passando dos avós aos pais (primeira e segunda gerações, G1 e G2) e depois dos pais aos filhos (terceira geração, G3).
Dados os efeitos adversos da violência doméstica sobre o desenvolvimento das gerações atuais e futuras, é crucial identificar fatores de proteção contra seus efeitos concomitantes e longitudinais. Participar de intervenções para prevenir a violência e aumentar as relações familiares positivas pode oferecer essa proteção (Pasalich, Fleming, Spieker, Lohr, & Oxford, 2019). Programas voltados à adoção de comportamentos parentais positivos, dirigidos a amostras de alto risco (como crianças que apresentam cedo problemas de conduta emergentes e crescentes) para prevenir comportamentos agressivos, ou que interrompem as trajetórias dos problemas da infância à psicopatologia adulta, podem romper a transmissão intergeracional da violência. No entanto, são escassos os estudos longitudinais, multinível e multicomponentes que exploram como as intervenções têm efeitos duradouros sobre diferentes gerações (Livings, Hsiao, & Withers, 2023). Preenchemos essa lacuna testando se a participação numa intervenção preventiva multinível (o programa Fast Track, Conduct Problems Prevention Research Group [CPPRG]) rompe a transmissão intergeracional da violência por parceiro íntimo e da violência parental contra a criança ao longo de três gerações.
A intervenção Fast Track, lançada no início dos anos 1990, baseava-se em teorias ecológicas e desenvolvimentais segundo as quais a violência crônica costuma surgir quando as crianças são expostas a adversidades múltiplas e sucessivas (como viver num bairro perigoso, enfrentar um ambiente doméstico hostil e não ter apoio na escola). À medida que esses fatores de risco interagem e se amplificam, eles se acumulam com o tempo e acabam criando uma condição adversa persistente, com efeitos potencialmente duradouros (McMahon et al., 1999). Dado o efeito cumulativo desses fatores, oferecer uma intervenção abrangente e multicomponente, que envolva famílias e escolas, é vital para romper as trajetórias que levam dos problemas de conduta na infância à violência na vida adulta (Bierman, 2002). Por isso, a intervenção Fast Track buscou prevenir a violência ao longo da vida em crianças de 5 anos identificadas por pais e corpo docente como apresentando, já na pré-escola, agressividade precoce, comportamento disruptivo e outros problemas de conduta. As famílias e as crianças foram incluídas no programa não por histórico de violência doméstica, mas por problemas de comportamento elevados e importantes nas crianças, identificados na triagem tanto pelo corpo docente quanto pelos pais. Embora a intervenção Fast Track não tratasse especificamente da VPI, ela buscava prevenir a violência ao longo da vida abordando de forma abrangente os principais fatores de risco nos diferentes períodos do desenvolvimento, visando as habilidades intrapessoais, interpessoais e acadêmicas das crianças e as habilidades e comportamentos parentais. Combinava, do 1º ao 10º ano escolar, treinamento abrangente dos pais em manejo do comportamento, treinamento das crianças em habilidades sociais e cognitivas, reforço escolar, visitas domiciliares e um currículo universal para reduzir ambientes de sala de aula tumultuados e caóticos.
O Fast Track teve efeitos positivos em vários aspectos da vida de pais e filhos desde os primeiros anos. Em comparação com o grupo-controle, as crianças e os pais que receberam a intervenção apresentaram menos problemas de comportamento agressivo e reduziram o uso de punição física durante o ensino fundamental (Bierman et al., 2004; CPPRG, 2011; McMahon et al., 1999). Quem recebeu a intervenção se envolveu menos em atos infracionais na adolescência (CPPRG, 2007, 2010), e a intervenção reduziu significativamente a necessidade de serviços de saúde geral e mental até os 18 anos (Jones et al., 2010). Na vida adulta, as pessoas que participaram do Fast Track apresentaram menos problemas externalizantes e condenações criminais (Dodge et al., 2015; Godwin & CPPRG, 2020; McCabe et al., 2024; Sorensen et al., 2016) e tiveram menos probabilidade de usar punição corporal com os próprios filhos (Sorensen et al., 2016). Embora todos esses resultados demonstrem os efeitos protetores da intervenção Fast Track contra comportamentos violentos, o presente estudo é o primeiro a incluir três gerações, avaliando assim os efeitos do Fast Track sobre a violência doméstica num horizonte de tempo mais amplo.
O presente estudo examina a transmissão intergeracional da violência por parceiro íntimo e da violência parental contra a criança e se a participação na intervenção Fast Track interrompe essas trajetórias. Buscamos entender como experiências passadas de exposição à violência na família G1-G2 influenciam a violência exercida na vida adulta pelas pessoas de G2, como parceiras e como mães ou pais, e afetam o desenvolvimento dos filhos de G3. Testamos também se a intervenção Fast Track funcionou como fator de proteção para as pessoas de G2 expostas à violência na infância, interrompendo potencialmente a transmissão intergeracional da violência. Primeiro, levantamos a hipótese de que pais e mães de G2 com experiências de violência na família G1 teriam maior risco de comportamentos violentos com parceiros e filhos e teriam filhos de G3 com pior ajustamento psicológico. Segundo, levantamos a hipótese de que pais e mães de G2 que participaram da intervenção Fast Track relatariam níveis mais baixos de violência contra parceiros e filhos do que pais e mães do grupo-controle. Terceiro, esperávamos que, para quem participou da intervenção Fast Track, os efeitos negativos da violência na infância fossem interrompidos entre as gerações, preservando o bem-estar da geração seguinte.
Escolas de ensino fundamental de alto risco (n = 53) foram selecionadas para o Fast Track com base nas taxas de criminalidade e pobreza do bairro, em Durham (Carolina do Norte), Nashville (Tennessee), na Pensilvânia rural e em Seattle (Washington). Nessas escolas, o corpo docente fez a triagem de comportamento agressivo de 9.594 crianças da pré-escola em três coortes consecutivas (1991–1993). As crianças com escores entre os 40% mais altos de cada coorte e local foram selecionadas para uma segunda triagem, feita pelos pais, dos problemas de comportamento em casa. Os escores de triagem do corpo docente e dos pais foram padronizados e combinados num escore de gravidade do risco. O recrutamento começou pela criança de escore mais alto e continuou até atingir os tamanhos de amostra previstos por local, coorte e grupo. Em cada local, as escolas foram divididas em um a três conjuntos pareados, e um conjunto de cada par foi designado aleatoriamente para a condição de intervenção e o outro para a condição controle. Aceitaram participar 91% das famílias recrutadas, o que resultou numa amostra de 891 crianças de G2 (grupo de intervenção, N = 445; grupo-controle, N = 446; ver a Figura 1, diagrama CONSORT, e CPPRG, 2020, para mais detalhes). Na seleção, a idade média das crianças era de 6,58 anos (DP = 0,48). A raça variava (crianças negras, 51%; brancas, 47%; outras, 2%), e 69% eram meninos.

Obtiveram-se o consentimento escrito dos pais e o assentimento oral das crianças. A partir de 1992, pais e mães de G1 (Midade G1 no primeiro relato = 30,70 anos (DP = 6,44); pessoas negras, 48,51%; brancas, 49,75%; outras, 1,74%; 97,51% mulheres) relataram suas práticas parentais e seus comportamentos de violência por parceiro íntimo quando as crianças de G2 tinham 6, 13 e 14 anos. As pessoas de G1 recebiam remuneração pelas entrevistas. Em 2020–2021, quando as crianças originais de G2 já eram adultas e tinham 34 anos, 374 pessoas de G2 (92% das elegíveis; n = 191 no grupo de intervenção, n = 183 no grupo-controle) foram convidadas a responder a um questionário sobre sua relação amorosa (se houvesse) e sua parentalidade com os filhos de G3. Também forneceram informações sobre a saúde mental dos filhos (as crianças de G3) se tivessem ao menos um filho com menos de 18 anos e vivessem 20% ou mais do tempo com ele, ou relatassem vê-lo ou se comunicar com ele ou com a pessoa responsável por sua guarda mais de uma vez por mês (ver a Figura 1 para dados de perda de seguimento); as práticas parentais e as medidas de saúde mental correspondentes foram aplicadas a uma única criança de G3 por família, sorteada (Midade G3 = 9,37 anos, DP = 4,37; 52% meninos). As pessoas participantes responderam ao questionário por um link enviado por e-mail, por telefone ou presencialmente, e receberam uma compensação modesta.
Os componentes da intervenção foram oferecidos às duas primeiras gerações (pais e mães de G1 e crianças de G2) do 1º ao 10º ano escolar, com as primeiras sessões começando em outubro do 1º ano. Durante o ensino fundamental, todas as famílias do grupo de intervenção receberam a oferta de treinamento parental com visitas domiciliares, reforço escolar e habilidades sociais. Em particular, intervenções de grupo de 2 horas, com pais e mães de G1 e crianças de G2, eram realizadas na escola aos sábados ou à noite em dias úteis e incluíam, simultaneamente, treinamento de habilidades sociais das crianças e treinamento de pais e filhos em manejo do comportamento (60 min), tempo de convivência entre pais e filhos (30 min) e reforço escolar (30 min; Bierman et al., 2017). Essas intervenções de grupo eram semanais no 1º ano, quinzenais no 2º ano, mensais do 3º ao 5º ano e ocorriam quatro vezes por ano no 6º ano. Além disso, um currículo universal de aprendizagem socioemocional aplicado pelo corpo docente (Kusché & Greenberg, 2020) foi oferecido às crianças de G2, com média de 2 a 3 lições por semana, em todos os locais até o 5º ano, exceto em Durham (Carolina do Norte), onde fusões de escolas após o 1º ano impediram a continuidade. No 5º e 6º anos, as crianças de G2 participaram de um programa de transição para os anos finais do ensino fundamental e de quatro grupos de pais e jovens sobre temas do desenvolvimento adolescente (álcool, tabaco, drogas, tomada de decisão). No 7º e 8º anos, foram realizados oito fóruns para informar as crianças de G2 sobre oportunidades profissionais, habilidades para a vida e emprego de verão. Do 7º ao 10º ano, intervenções individualizadas com pais e mães de G1 e crianças de G2 visaram a supervisão parental, as amizades, o desempenho escolar e a cognição social (CPPRG, 2020). As famílias do grupo-controle foram acompanhadas ao longo do tempo e responderam a todos os questionários, mas não receberam nenhuma intervenção (podiam, portanto, buscar outros serviços se necessário). Todos os procedimentos foram aprovados pelos comitês de ética institucionais das universidades participantes. As instruções para solicitar e usar os dados do Fast Track estão disponíveis em https://fasttrackproject.org/requesting‐and‐using‐data‐2/.
A participação de pais e crianças na programação e a fidelidade de implementação foram altas. No 1º ano, 96% dos pais e mães e 98% das crianças compareceram a pelo menos uma sessão de grupo. Dessas pessoas, 79% dos pais e mães e 90% das crianças participaram de ao menos 50% das sessões programadas. A participação caiu ligeiramente ao longo dos anos (sobretudo por mudanças de residência) e, do 7º ao 10º ano, a intervenção continuou com pelo menos 80% de todas as crianças. A alta fidelidade foi garantida por manualização, treinamentos regulares entre os locais e supervisão clínica semanal (Dodge et al., 2015).
Quando as pessoas de G2 tinham 34 anos, a saúde mental das crianças de G3 foi medida por relato de pais e mães de G2 com o Questionário de Capacidades e Dificuldades (SDQ; Goodman, Lamping, & Ploubidis, 2010; Goodman, 2001), uma medida normatizada de 25 itens destinada a captar dificuldades de saúde mental infantil. Pedia-se a pais e mães que indicassem se era 0 = falso, 1 = mais ou menos verdadeiro ou 2 = verdadeiro que o filho tinha apresentado um comportamento nos últimos 6 meses. Os 25 itens se dividem igualmente em 5 subescalas. No presente estudo, usamos apenas os 20 itens relativos a problemas de comportamento e não investigamos a subescala pró-social. Essas subescalas incluem problemas de conduta (α = 0,68), sintomas emocionais (α = 0,70), hiperatividade/desatenção (α = 0,80) e problemas de relacionamento com pares (α = 0,54). Os itens de cada subescala foram somados para gerar os escores das subescalas. Examinamos também o escore total de dificuldades, que soma os itens de todas as subescalas (α = 0,85).
A VPI e a VPC em G1, assim como a VPC em G2, foram derivadas da Conflict Tactics Scale (Straus, 1979). A Conflict Tactics Scale pergunta com que frequência a pessoa usa comportamentos específicos com o filho ou com a pessoa parceira, numa escala de 0 = nunca a 6 = quase todos os dias. Este estudo derivou as medidas de VPI e VPC em G1, e de VPC em G2, de duas subescalas da Conflict Tactics Scale que podem ser calculadas a partir das interações entre o casal parental e entre pais e filhos: (1) a subescala de agressão verbal, com 6 itens (por exemplo, “gritou, insultou ou xingou”, “ameaçou atirar alguma coisa”), e (2) a subescala de agressão física, com 4 itens (por exemplo, “empurrou, agarrou ou deu um empurrão”, “bateu ou tentou bater”). Os escores das subescalas correspondem à média dos itens.
A VPI em G1 foi medida pelos relatos de pais e mães de G1 sobre a própria agressão física e verbal contra a pessoa parceira e, quando disponíveis, pelos relatos das pessoas parceiras de G1 sobre a própria agressão física e verbal contra o pai ou a mãe de G1, coletados quando a criança de G2 tinha 6, 13 e 14 anos. Criou-se uma medida composta de VPI calculando um escore médio de todos os relatos de agressão física e verbal de pais, mães e pessoas parceiras de G1 nos três momentos. Esse escore composto se justificou por consistências internas muito altas e fortes correlações positivas entre a agressão física de pais/mães e pessoas parceiras de G1 nos três anos (α = 0,75, r = 0,58, p < 0,01), entre a agressão verbal nos três anos (α = 0,77, r = 0,74, p < 0,01) e entre uma medida composta de agressão verbal e de agressão física (α = 0,80, r = 0,73, p < 0,01).
A VPC em G1 foi medida da mesma forma, pelos relatos do pai ou da mãe e da pessoa parceira de G1 sobre a agressão física e verbal contra o filho, coletados quando a criança de G2 tinha 6 a 8 anos e 13–14 anos. Como para a VPI em G1, criou-se uma medida composta de parentalidade violenta calculando um escore médio de todos os relatos disponíveis nesses momentos. Como a medida composta de VPI em G1, essa medida apresentou alta consistência interna (α = 0,77) e correlações positivas entre os comportamentos agressivos do pai ou da mãe e da pessoa parceira de G1 (r = 0,35, p < 0,01).
No questionário aos 34 anos, a VPC em G2 foi avaliada com a mesma versão da Conflict Tactics Scale descrita para G1 (ver abaixo [sic]), enquanto uma versão modificada da escala foi usada para a agressão física e verbal contra a pessoa parceira. A VPI em G2 foi medida somando a frequência com que as pessoas de G2 relataram ter praticado algum de 5 atos de violência (por exemplo, “você gritou ou berrou com a pessoa parceira”) ou ter sofrido algum de 15 atos de violência por parte da pessoa parceira (por exemplo, “a pessoa parceira deu um soco, bateu, chutou ou deu um tapa em você”) nos últimos 12 meses, numa escala de 0 = nunca, 1 = uma vez, 2 = 2 vezes, 3 = 3 vezes ou mais. Essa medida composta apresentou alta consistência interna (α = 0,79). O questionário de G2 aos 34 anos não incluía relatos das pessoas parceiras de G2 e foi aplicado num único momento. A medida composta de VPC em G2 foi a média dos relatos de pais e mães de G2 sobre a própria agressão física e verbal contra o filho. Essa medida também apresentou alta consistência interna (α = 0,76).
Foram realizadas análises de caminhos no Mplus versão 8.2 (Muthén & Muthén, 1998–2017) para investigar as questões do estudo. Especificamente, foram estimados modelos de caminhos em que a VPI e a VPC em G1 prediziam cada uma a VPI e a VPC em G2 e as dificuldades de saúde mental das crianças de G3, e em que a VPI e a VPC em G2 também prediziam as dificuldades de saúde mental das crianças de G3. Esses caminhos foram analisados em modelos multigrupo para testar se diferiam conforme a condição de intervenção. Primeiro, oito caminhos foram restringidos a ser iguais entre o grupo de intervenção e o grupo-controle: (1) VPI em G1 predizendo VPI em G2, (2) VPC em G1 predizendo VPC em G2, (3) VPI em G1 predizendo VPC em G2, (4) VPC em G1 predizendo VPI em G2 e os seguintes caminhos predizendo as dificuldades de saúde mental das crianças de G3: (5) VPI em G1, (6) VPC em G1, (7) VPI em G2 e (8) VPC em G2. Depois, um a um, esses caminhos foram liberados para variar entre os grupos, e a diferença de ajuste foi comparada por um teste qui-quadrado com 1 grau de liberdade. Se o teste mostrasse melhor ajuste com o caminho livre entre os grupos, ele permanecia sem restrição. Assim, foi possível identificar exatamente quais vias intergeracionais diferiam entre o grupo de intervenção Fast Track e o grupo-controle. As 29 covariáveis pré-intervenção e demográficas listadas na Tabela S1, assim como a idade e o sexo das crianças de G3, foram examinadas como possíveis variáveis de controle (ver www.fasttrackproject.org; Bierman et al., 2004; CPPRG, 2007). Controlar as 29 covariáveis ao examinar simultaneamente os construtos de G1, G2 e G3 levava à subidentificação do modelo; por isso, só as covariáveis significativamente associadas a cada um dos construtos de G1, G2 e G3 em correlações de ordem zero foram controladas nas análises principais (ver as notas das Figuras 2 a 6). A condição de intervenção foi codificada como 0 = membro do grupo-controle, 1 = membro do grupo de intervenção.
Em cada modelo de caminhos, as medidas contemporâneas foram correlacionadas entre si (por exemplo, as medidas de G1 entre si), e qualquer uma das 29 covariáveis que surgisse como correlato significativo nas correlações de ordem zero das medidas referentes à primeira, segunda e terceira gerações foi incluída no modelo. Usaram-se procedimentos de estimação por máxima verossimilhança robusta para levar em conta a assimetria ou a curtose das variáveis e garantir uma análise por intenção de tratar. Cabe notar que 35% das pessoas de G2 (n = 141) tinham dados faltantes em pelo menos uma das medidas de G1, G2 ou G3. No entanto, as pessoas de G2 com e sem dados faltantes não diferiam quanto ao grupo (intervenção ou controle) nem em nenhuma das variáveis de VPI, VPC ou dificuldades de saúde mental das crianças de G3. Todas as 403 pessoas de G2 com dados sobre construtos de G1, G2 ou G3 (mesmo com dados parcialmente faltantes) foram incluídas em todas as análises.
Foram estimados cinco modelos de caminhos de estrutura idêntica, cada um explorando uma das 4 subescalas do SDQ ou o escore total que captava as dificuldades de saúde mental das crianças de G3. Em cada um dos cinco modelos, o comando MODEL INDIRECT do Mplus foi usado para captar as vias mediadoras que vão da VPI e da VPC em G1 às dificuldades de saúde mental das crianças de G3, passando pela VPI e pela VPC em G2 (Muthén & Muthén, 1998–2017). O comando MODEL INDIRECT calcula o efeito mediador pelo método do produto dos coeficientes e estima os erros-padrão pelo método delta (Muthén & Muthén, 1998–2017).
A subamostra de pais e mães de G2 e a amostra inicial de G2, bem como as amostras de intervenção e controle de pais e mães de G2, só diferiram num total de 8 dos 58 testes de diferenças pré-tratamento e demográficas entre os grupos (ver a Tabela S1). Especificamente, os homens de G2 e as pessoas de G2 com escores mais altos de problemas externalizantes ou de competência social aos 6 anos tiveram menos probabilidade de participar aos 34 anos. No grupo de intervenção aos 34 anos, as pessoas de G2 tinham, aos 6 anos, escores mais baixos de satisfação com as amizades, mas escores mais altos de competência social e escores mais baixos de risco de comportamento externalizante do que as pessoas do grupo-controle. Dessas diferenças, só o fato de a pessoa de G2 ser homem estava significativamente associado a alguma medida de VPI ou VPC em G2 ou a algum problema de saúde mental das crianças de G3. Essa variável foi controlada em todas as análises pertinentes.
A Tabela S2 apresenta estatísticas descritivas e correlações de ordem zero das principais variáveis do estudo. Os índices finais de ajuste global aparecem ao pé de cada figura e indicam que cada modelo se ajusta excelentemente aos dados (por exemplo, CFI/TLI ≥ 0,95, RMSEA ≤ 0,06, SRMR ≤ 0,08; Hu & Bentler, 1999). As seções de resultados resumem os principais achados; as estimativas exatas dos parâmetros estão nas Figuras 2 a 6, e o Apêndice S1 descreve completamente os resultados de todos os modelos. Todas as estimativas relatadas são padronizadas, e todos os achados estatisticamente significativos resistiram à correção de Bonferroni (Bonferroni, 1936), exceto dois (indicados abaixo).
Após os testes de diferença de qui-quadrado, os modelos que prediziam (1) o total de dificuldades do SDQ das crianças de G3 (Figura 2), (2) os problemas de conduta (Figura 3) e (3) a hiperatividade (Figura 4) tiveram melhor ajuste quando o caminho da VPI em G1 para a VPC em G2 foi liberado para variar entre o grupo de intervenção Fast Track e o grupo-controle (para mais detalhes, ver o Apêndice S1). Isso indica que a magnitude dessa via variou entre o grupo de tratamento FT e o grupo-controle. Os modelos finais estão representados nas Figuras 2 a 4.



Os três modelos confirmam nossa primeira hipótese, de que as pessoas de G2 com experiências de violência na família G1-G2 exerceriam mais violência na família adulta G2-G3, com pior ajustamento psicológico dos filhos. Especificamente, para as pessoas de G2 do grupo-controle, quando pais e mães de G1 relatavam mais VPI quando essas pessoas tinham de 6 a 14 anos, elas exerciam mais VPC aos 34 anos, o que estava associado a mais dificuldades globais de saúde mental, problemas de conduta e hiperatividade nas crianças de G3.
Esses modelos também confirmaram nossa segunda hipótese, de que a intervenção Fast Track protege contra essa transmissão intergeracional da violência e suas consequências. Especificamente, nos três modelos, uma VPI mais alta em G1 predisse uma VPC mais alta em G2 no grupo-controle, mas não no grupo de intervenção Fast Track (Figuras 2 a 4; Tabela 1). Consequentemente, as vias mediadoras intergeracionais da VPI alta em G1 para a VPC alta em G2 e para mais dificuldades de saúde mental nas crianças de G3 foram estatisticamente significativas no grupo-controle (efeito indireto sobre o total de dificuldades do SDQ = 0,93, EP = 0,45, IC 95%: 0,03–1,83, p = 0,04; sobre os problemas de conduta = 0,27, EP = 0,13, IC 95%: 0,01–0,53, p = 0,03; sobre a hiperatividade = 0,24, EP = 0,12, IC 95%: 0,005–0,48, p = 0,05), mas não no grupo de intervenção (efeito indireto sobre o total de dificuldades = –0,35, EP = 0,30, IC 95%: –0,95 a 0,25, p = 0,25; sobre os problemas de conduta = –0,11, EP = 0,09, IC 95%: –0,29 a 0,07, p = 0,23; sobre a hiperatividade = –0,09, EP = 0,08, IC 95%: –0,25 a 0,07, p = 0,25). Os três efeitos representaram mediação completa: o efeito direto da VPI em G1 sobre o total de dificuldades, os problemas de conduta e a hiperatividade do SDQ nas crianças de G3 deixou de ser significativo quando essa via mediadora foi levada em conta.
Tabela 1 — Efeitos totais, diretos e indiretos para cada via VPI em G1 → VPC em G2 → dificuldade de saúde mental em G3
Para cada via mediadora: efeito total, efeito direto e efeito indireto (erro-padrão) com seu p, no grupo-controle e depois no grupo de intervenção Fast Track.
* e negrito: estatisticamente significativo em p < 0,05. SDQ: Questionário de Capacidades e Dificuldades. Para simplificar, a violência por parceiro íntimo e a violência parental contra a criança em G1 e G2 foram denominadas “VPI G1”, “VPC G1”, “VPI G2” e “VPC G2”; da mesma forma, as variáveis do SDQ das crianças de G3 foram denominadas “SDQ em G3”.
Quanto a outros achados significativos, nos três modelos e nos dois grupos, níveis mais altos de VPC em G2 estiveram associados a mais dificuldades globais de saúde mental (Figura 2), problemas de conduta (Figura 3) e hiperatividade (Figura 4) nas crianças de G3. Além disso, nos dois grupos e nos três modelos, a VPI e a VPC em G1 estiveram fortemente correlacionadas. Nos três modelos, porém, a VPI e a VPC em G2 estiveram fortemente correlacionadas no grupo-controle, mas não significativamente no grupo de intervenção. Nenhum outro caminho desses modelos foi estatisticamente significativo.
Como nos Modelos 1 a 3, o modelo dos sintomas emocionais do SDQ das crianças de G3 (Figura 5) teve melhor ajuste quando o caminho da VPI em G1 para a VPC em G2 foi liberado para variar entre os grupos, o que indica que a magnitude desse caminho variou significativamente entre o grupo de tratamento FT e o grupo-controle (Figura 4 [sic]).

Diferentemente dos Modelos 1 a 3, porém, as hipóteses 1 e 2 só foram parcialmente confirmadas. Mais uma vez, uma VPI mais alta em G1 predisse uma VPC mais alta em G2 no grupo-controle, mas não no grupo de intervenção Fast Track. Nos dois grupos, porém, a VPC em G2 não esteve significativamente associada aos sintomas emocionais do SDQ das crianças de G3. Em vez disso, uma VPI mais alta em G2 esteve significativamente associada a mais sintomas emocionais nas crianças de G3 nos dois grupos, embora a significância estatística dessas duas associações positivas não tenha se mantido após a correção de Bonferroni (p = 0,02–0,04, acima do p corrigido de 0,0125). Assim, esses resultados confirmaram parcialmente a hipótese 1, porque o comportamento violento em G1 (na forma de VPI) predisse o comportamento violento em G2 (na forma de VPC) no grupo-controle, e confirmaram parcialmente a hipótese 2, porque a participação no Fast Track protegeu contra esse vínculo no grupo de tratamento. Nenhuma das hipóteses, porém, foi plenamente confirmada, porque a parentalidade violenta em G2 não esteve associada aos sintomas emocionais das crianças de G3; consequentemente, a via mediadora da VPI em G1 para a VPC em G2 e para os sintomas emocionais das crianças de G3 não foi estatisticamente significativa nem no grupo-controle (Tabela 1; efeito indireto = 0,11, EP = 0,07, IC 95%: –0,25 a 0,03, p = 0,11) nem no grupo de intervenção (Tabela 1; efeito indireto = –0,04, EP = 0,05, IC 95%: –0,14 a 0,06, p = 0,40).
Os resultados do modelo dos problemas de relacionamento com pares do SDQ das crianças de G3 (Figura 6) foram semelhantes aos dos modelos do total de dificuldades, dos problemas de conduta e da hiperatividade, pois o ajuste foi melhor quando o caminho da VPI em G1 para a VPC em G2 foi liberado para variar entre os grupos, o que indica uma diferença significativa na magnitude desse caminho entre os grupos. A significância dos caminhos individuais desse modelo reproduziu a dos modelos do total de dificuldades, dos problemas de conduta e da hiperatividade. Especificamente, para as pessoas de G2 do grupo-controle, quando pais e mães de G1 relatavam mais VPI quando essas pessoas tinham de 6 a 14 anos, elas exerciam mais VPC aos 34 anos, o que estava associado a mais problemas com pares nas crianças de G3. A intervenção Fast Track, porém, protegeu contra essa transmissão intergeracional da violência, pois o vínculo entre a VPI em G1 e a VPC em G2 só foi significativo no grupo-controle, e não no grupo de intervenção.

O modelo dos problemas com pares das crianças de G3 diferiu dos modelos do total de dificuldades, dos problemas de conduta e da hiperatividade quando se examina a via mediadora intergeracional completa. A via da VPI em G1 para a VPC em G2 e para os problemas com pares das crianças de G3 não é estatisticamente significativa nem no grupo-controle (Tabela 1; efeito indireto = 0,24, EP = 0,13, IC 95%: –0,02 a 0,50, p = 0,07) nem no grupo de intervenção (Tabela 1; efeito indireto = –0,10, EP = 0,08, IC 95%: –0,26 a 0,06, p = 0,21). Portanto, como no modelo dos sintomas emocionais, as hipóteses 1 e 2 só são parcialmente confirmadas no modelo dos problemas com pares das crianças de G3.
Examinamos a transmissão intergeracional da VPI e da VPC, seus efeitos sobre a terceira geração e o papel da intervenção Fast Track como possível fator de interrupção dessa trajetória intergeracional. Nossos resultados mostraram que a violência por parceiro íntimo foi transmitida entre gerações por meio de sua influência sobre a violência parental contra a criança. De fato, pais e mães de G2 que testemunharam VPI elevada entre os próprios pais (as pessoas de G1) durante a infância e o início da adolescência tendiam a agir com mais violência com os filhos (as crianças de G3). Essa trajetória intergeracional tem efeitos adversos sobre o bem-estar da geração seguinte, pois as crianças de G3 sofrem mais dificuldades psicológicas e apresentam mais problemas de conduta e hiperatividade. No entanto, a participação na intervenção Fast Track interrompeu essa transmissão intergeracional da violência.
Curiosamente, não se encontraram vínculos intergeracionais entre formas de violência do mesmo domínio: a VPI em G1 não esteve associada à VPI em G2, nem a VPC em G1 à VPC em G2. Embora essa via intergeracional direta estivesse ausente, surgiram correlações significativas entre VPI e VPC na primeira geração nos dois grupos e, na segunda geração, só no grupo-controle. Esses achados sugerem que, embora VPI e VPC estivessem relacionadas de forma concomitante na primeira e na segunda gerações, só as associações cruzadas entre VPI e VPC foram transmitidas entre gerações, prejudicando o ajustamento psicológico das crianças de G3. Esses resultados reforçam a compreensão da violência doméstica como um fenômeno complexo, no qual pode ser difícil separar exposição direta e indireta e distinguir diferentes formas de violência (Riedl et al., 2019; Thi, Zimmerman, Pocock, Chan, & Ranganathan, 2022). Ainda assim, as associações entre VPI e VPC só foram transmitidas entre gerações no grupo-controle, o que sugere o papel da intervenção Fast Track na redução da via de transmissão intergeracional da violência. Curiosamente, o Fast Track agiu como fator de proteção não só entre gerações, mas também dentro de uma mesma geração: em pais e mães de G2, a violência contra a pessoa parceira e contra os filhos não esteve significativamente correlacionada.
No conjunto, esses achados estão em linha com pesquisas anteriores que mostram que pessoas com histórico pessoal de violência doméstica têm maior probabilidade de praticar comportamentos violentos contra parceiros e filhos, perpetuando um ciclo de violência com efeitos adversos entre gerações (Belsky et al., 2009; Fitzgerald et al., 2020; Riedl et al., 2019; Rothenberg, 2019; Salo et al., 2022). Também estão em linha com estudos anteriores sobre os efeitos nocivos da VPC no ajustamento psicológico infantil (Jaffee et al., 2002; Oram et al., 2022; Vu, Jouriles, McDonald, & Rosenfield, 2016). Até onde sabemos, o presente estudo é o primeiro a combinar dados longitudinais prospectivos sobre VPI e VPC ao longo de três gerações, testando também os efeitos de uma intervenção sobre a transmissão intergeracional da violência. Ele revela que a intervenção Fast Track rompe o ciclo da violência ao eliminar a transmissão da VPI de G1 na forma de VPC em G2 e ao reduzir a associação entre VPI e VPC em G2. Essa capacidade pode decorrer dos objetivos do Fast Track: prevenir a violência ao longo da vida abordando de forma abrangente os principais fatores de risco nos diferentes períodos do desenvolvimento e visando várias dimensões, como as habilidades intrapessoais e interpessoais de crianças e pais. Especificamente, o Fast Track enfatizou o desenvolvimento de habilidades interpessoais e competências emocionais nas pessoas de G2. Essas habilidades incluíam a capacidade de formar e manter relações positivas com pares, regular e comunicar com eficácia as próprias emoções e resolver conflitos de forma construtiva. Por meio de grupos de amizade, grupos de pais, convivência entre pais e filhos e visitas domiciliares, os componentes do Fast Track visavam as habilidades pró-sociais das crianças, a expressão e a compreensão das emoções, a percepção acurada das intenções alheias, o controle da raiva, bem como o afeto e o apoio dos pais e a redução de uma disciplina dura e punitiva (CPPRG, 2020; McCabe et al., 2024). Essas competências são amplamente reconhecidas como fundamentais para um ajustamento psicológico positivo ao longo da vida, pois protegem contra o desenvolvimento de padrões comportamentais agressivos e violentos (Lansford et al., 2006; Lösel & Farrington, 2012; Siegel, 2013). Trabalhos anteriores mostraram que os impactos do Fast Track sobre a psicopatologia posterior das pessoas de G2 podem ser explicados por melhorias em suas habilidades sociais e de autorregulação na infância (Godwin et al., 2020; McCabe et al., 2024; Sorensen et al., 2016), que podem depois prevenir comportamentos parentais violentos na vida adulta (Rothenberg et al., 2023, 2024). Esse papel protetor da intervenção multinível do Fast Track confirma achados anteriores de que intervenções psicológicas dirigidas tanto a pais quanto a filhos podem reduzir a violência doméstica e aumentar o bem-estar dos membros da família (Livings et al., 2023).
Curiosamente, embora a intervenção tenha interrompido a transmissão da violência da VPI em G1 para a VPC em G2 e, depois, da VPC em G2 para os desfechos das crianças de G3, a via entre a VPC em G2 e as dificuldades de saúde mental das crianças de G3 continuou significativa. Vários fatores podem explicar esse achado. Primeiro, outras variáveis-chave podem ter papel nessa via e merecem investigação. Por exemplo, é possível que as tarefas de desenvolvimento enfrentadas pelas crianças em 2020–2021 tenham características diferentes das vividas pelas pessoas de G2 nos anos 1990. No contexto das mudanças sociais atuais, como a transformação dos valores familiares, a puberdade mais precoce e relações sociais mais fluidas, a influência da violência parental sobre a saúde mental das crianças pode ser um pouco diferente, alterando os efeitos duradouros da intervenção. Além disso, é possível que as crianças de G3 cujos pais mantêm comportamentos parentais violentos apesar da intervenção tenham mais probabilidade de sofrer dificuldades psicológicas, sobretudo se as pessoas de G2 apresentaram comportamentos agressivos mais intensos na infância. Esses resultados sugerem mais pesquisas sobre o tema, como acompanhar longitudinalmente o desenvolvimento das crianças de G3 para compreender melhor as trajetórias intergeracionais. Por fim, esses resultados podem apontar para a necessidade de monitoramento contínuo e apoio direcionado para pessoas com histórico familiar de violência, sugerindo que romper o ciclo intergeracional da violência exige intervenções constantes e sustentadas.
As trajetórias da violência dentro das gerações e entre elas mudam ligeiramente quando se consideram os sintomas emocionais e os problemas com pares em G3. De fato, para ambos, a via mediadora da VPI em G1 para a VPC em G2 e para os desfechos de G3 não foi estatisticamente significativa, e os sintomas emocionais não estiveram diretamente associados à VPC em G2. Esses achados sugerem uma diferença entre problemas internalizantes e externalizantes nas crianças de G3: os problemas externalizantes (problemas de conduta e hiperatividade) têm mais probabilidade de surgir em decorrência da transmissão intergeracional da violência do que os internalizantes (sintomas emocionais e problemas com pares). Cabe notar que a amostra original de G2 era composta de crianças identificadas por problemas externalizantes precoces. Segundo a teoria da aprendizagem social de Bandura (1969), as crianças de G3 podem ter mais probabilidade de apresentar comportamentos externalizantes ao tomar como modelo o comportamento dos pais. A transmissão intergeracional de sintomas psicopatológicos de pais para filhos, como problemas internalizantes e externalizantes, foi relatada em pesquisas anteriores (Goodman et al., 2011; Marceau, Yu, Knopik, Ganiban, & Neiderhiser, 2022). Considerando as características da amostra de G2, pesquisas futuras centradas na transmissão intergeracional específica de sintomas externalizantes podem ser interessantes para confirmar os resultados atuais.
O estudo também tem limitações. Primeiro, embora tenhamos medido a VPI em G1 com relatos dos dois membros do casal e ao longo de vários anos, não tínhamos relatos das pessoas parceiras de G2 e coletamos os dados de VPI em G2 num único momento. Segundo, a subescala de problemas com pares do SDQ apresentou consistência interna moderada, o que pode ter influenciado os resultados ao atenuar possíveis vias intergeracionais que predissessem esses problemas. Terceiro, o ajustamento psicológico das crianças de G3 foi relatado pelos pais e coletado num único momento. Por fim, embora esses achados destaquem a eficácia da intervenção Fast Track, é importante considerar dois aspectos. O primeiro é que a implementação em larga escala pode ser difícil, por sua longa duração e natureza intensiva. Nem todas as intervenções podem durar 10 anos, envolver famílias e escolas e abordar vários fatores de risco importantes nos diferentes períodos do desenvolvimento, como fez o Fast Track, sobretudo porque implementar essas intervenções pode ser muito caro para os serviços públicos de saúde. Ainda assim, a intervenção Fast Track se mostrou custo-efetiva, e foram propostas possíveis avaliações de custo-efetividade para futuras implementações (Foster et al., 2006). O segundo aspecto, frequentemente apontado no campo da pesquisa sobre violência, é o possível viés de desejabilidade social nos autorrelatos de violência. Embora vários estudos tenham destacado a questão da desejabilidade social nas respostas à Conflict Tactics Scale (Archer, 1999), outros observaram que a confidencialidade e o anonimato podem favorecer a revelação completa (Hamby, 2014) e que a distorção por desejabilidade social nos relatos de violência é mínima (Visschers, Jaspaert, & Vervaeke, 2015). No presente estudo, reconhecendo o possível viés nos autorrelatos de violência, usamos, quando possível, os relatos da própria pessoa e da pessoa parceira para criar um escore composto de VPI e VPC, com altas taxas de relato entre pais, mães e pessoas parceiras (94% dos pais e mães de G1 e 90% das pessoas parceiras de G1 relataram pelo menos um comportamento de VPI, e 66% dos pais e mães de G1 e 88% das pessoas parceiras de G1 relataram pelo menos um comportamento de VPC). Acreditamos que essas medidas provavelmente reduziram possíveis efeitos de desejabilidade social.
Apesar dessas limitações, este estudo traz uma contribuição significativa ao demonstrar que a violência não se limita a uma única geração, mas persiste ao longo de várias, e que, no entanto, pode ser interrompida por uma intervenção preventiva multinível. Esses achados sugerem a importância de programas e políticas de apoio a intervenções na infância para reduzir os problemas de conduta, que podem trazer benefícios às crianças no momento da intervenção, depois na vida adulta e até na geração seguinte.
Os membros do Conduct Problems Prevention Research Group (CPPRG) são, em ordem alfabética, Karen L. Bierman (Pennsylvania State University), John D. Coie (Duke University), D. Max Crowley (Pennsylvania State University), Kenneth A. Dodge (Duke University), Mark T. Greenberg (Pennsylvania State University), Jennifer E. Lansford (Duke University), John E. Lochman (University of Alabama), Robert J. McMahon (Simon Fraser University e B.C. Children's Hospital Research Institute) e Ellen E. Pinderhughes (Tufts University).
Complexe Systémique: a reter
O interesse deste ensaio está na sua duração: trinta anos e três gerações, algo que nenhum estudo de terapia familiar pode oferecer. O resultado tem grande legibilidade sistêmica. A violência não passa idêntica de uma geração a outra: as crianças que viram os pais brigar não reproduzem sobretudo a violência conjugal; tornam-se mais duras com os próprios filhos, e são os netos que carregam as dificuldades. O Fast Track, que não visava a violência conjugal, ainda assim corta esse elo, com dez anos de trabalho sobre a disciplina parental, as competências emocionais da criança e o vínculo com a escola. Para a clínica, é um argumento forte a favor de intervenções precoces que reúnam pais, criança e instituição escolar. Restam ressalvas: a violência em G2 relatada só pela pessoa entrevistada, a saúde mental de G3 relatada pelo pai ou pela mãe, algumas incoerências na tabela e o vínculo entre violência parental e dificuldades da criança, que persiste mesmo no grupo de intervenção. Para ler junto com o estudo sobre a transmissão intergeracional da violência doméstica no Peru e com a análise dos componentes das intervenções centradas na família.
Notas do original
Autoria. Ver o Apêndice 1 para os membros do Conduct Problems Prevention Research Group (CPPRG).
Considerações éticas. Obtiveram-se o consentimento escrito dos pais e o assentimento oral das crianças. Todos os procedimentos foram aprovados pelo comitê de ética institucional da Duke University em 2 de junho de 2025 (protocolo nº 2018-0331).
Registro do ensaio. O ensaio Fast Track foi registrado no clinicaltrials.gov (identificador NCT01653535), submetido pela primeira vez em 16 de julho de 2012.
Agradecimentos e financiamento. O projeto Fast Track recebeu apoio das subvenções R18 MH48043, R18 MH50951, R18 MH50952, R18 MH50953, R01 MH062988, R01 MH117559, K05 MH00797 e K05 MH01027 do National Institute of Mental Health (NIMH); R01 DA016903, R01 DA036523, R01 DA11301, K05 DA15226, RC1 DA028248 e P30 DA023026 do National Institute on Drug Abuse (NIDA); R01 HD093651 do National Institute of Child Health and Human Development; e S184U30002 do Department of Education. O Center for Substance Abuse Prevention também deu apoio por meio de um memorando de entendimento com o NIMH. Houve ainda apoio de uma bolsa de pesquisa do BC Children's Hospital Research Institute e de um auxílio da Canada Foundation for Innovation.
Conflitos de interesse. K.L.B., J.D.C., K.A.D., M.T.G., J.E.L., R.J.M. e E.E.P. são pesquisadores principais do projeto Fast Track e têm contrato de publicação com a Guilford Publications, Inc.; os direitos autorais desse contrato são doados a uma organização profissional. Essas pessoas também assinam o currículo PATHS e doam todos os direitos da PATHS Program LLC a uma organização profissional. M.T.G. participou da criação do currículo PATHS e tem um acordo de direitos separado com a PATHS Program LLC. K.L.B., J.D.C., K.A.D., M.T.G., J.E.L. e R.J.M. criaram o currículo Fast Track e têm contrato de publicação e de direitos com a Guilford Publications, Inc. R.J.M. assina em coautoria Helping the Noncompliant Child e tem um acordo de direitos com a Guilford Publications, Inc. Os demais membros da equipe declaram não ter conflitos de interesse, reais ou potenciais.
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Tradução não oficial em português de Interromper a transmissão intergeracional da violência ao longo de três gerações: o ensaio clínico randomizado Fast Track com crianças com problemas de conduta precoces, de Laura Gorla, W. Andrew Rothenberg, Jennifer Godwin e o Conduct Problems Prevention Research Group, Journal of Child Psychology and Psychiatry, vol. 67, no 8 (2026), doi: 10.1111/jcpp.70133, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “The randomized controlled trial Fast Track multilevel intervention for children with early‐emerging conduct problems breaks intergenerational transmission of violence across three generations”, publicado em Journal of Child Psychology and Psychiatry (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Gorla, L., Rothenberg, W. A., Godwin, J., et Conduct Problems Prevention Research Group (2026). Interromper a transmissão intergeracional da violência ao longo de três gerações: o ensaio clínico randomizado Fast Track com crianças com problemas de conduta precoces (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/interromper-a-transmissao-intergeracional-da-violencia-ao-longo-de-tres-geracoes-o-ensaio (Obra original publicada em 2026 em Journal of Child Psychology and Psychiatry, 67(8), 1254-1268 (2026); republicada em 2026 por Journal of Child Psychology and Psychiatry, https://acamh.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/jcpp.70133)
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