Adoption & Fostering · Luto

“Minha cicatriz se chama adoção”: a experiência vivida de mães irlandesas que perderam um filho por adoção fechada

Durante décadas, a Irlanda tirou os bebês de milhares de mães solteiras, em segredo e na vergonha. Seis dessas “primeiras mães” contam o parto desumanizante, a dissociação que veio depois e, anos mais tarde, o momento em que uma palavra terapêutica deu nome à sua dor: luto. O estudo mostra como romper o silêncio e reencontrar o filho já adulto lhes permitiu recuperar autonomia e vínculo.

Autores Deborah McNamara, Jonathan Egan e Pádraig McNeela (Escola de Psicologia, Universidade Nacional da Irlanda, Galway, Irlanda)Primeira publicação Adoption & Fostering, 6 de julho de 2021Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de “Minha cicatriz se chama adoção”: a experiência vivida de mães irlandesas que perderam um filho por adoção fechada, de Deborah McNamara, Jonathan Egan e Pádraig McNeela, publicado na Adoption & Fostering (SAGE) (2021), doi: 10.1177/03085759211011734, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela é apresentada em forma de lista; as citações longas aparecem recuadas; as declarações do final do artigo estão reunidas nas notas; o endereço para correspondência e as notas biográficas não foram reproduzidos. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Eu achava que alguém tinha que morrer para a gente ficar de luto.

Sarah, participante, citada por Deborah McNamara, Jonathan Egan e Pádraig McNeela

Resumo

Pesquisas anteriores apontaram repetidamente a necessidade de um modelo abrangente de trabalho com as primeiras mães na adoção. Essa lacuna de conhecimento tem dificultado o desenvolvimento de serviços, em prejuízo da qualidade de vida e do bem-estar desse grupo. Este estudo busca suprir essa deficiência explorando as experiências vividas de mães irlandesas que perderam um filho por adoção fechada. Seu objetivo é ampliar a compreensão do impacto dessa perda, explorando em particular como ela afeta o caminho de reconexão e reencontro com o filho ou a filha na vida adulta. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com seis mulheres irlandesas que perderam um filho dessa forma, e suas narrativas foram examinadas por meio da Análise Fenomenológica Interpretativa (AFI). Dois temas superordenados emergiram dos dados: “Maternidade ocultada: a perda de autonomia e de vínculo” e “Maternidade revelada: um caminho rumo à autonomia e à reconexão”. Dentro de cada tema superordenado, foram identificados dois subordinados: “Desumanizadas, desempoderadas e desconsideradas”, “Lidar por meio da desconexão”, “Romper o silêncio” e “Reencontro e reconexão”. Os dois primeiros sintetizam a perda de autonomia pessoal e de vínculo decorrente da perda de um filho e a forma como as participantes lidaram com ela. Os outros dois descrevem como as participantes ganharam autonomia pessoal e capacidade de agir ao romper o silêncio sobre sua maternidade ocultada e ao se reconectar e se reencontrar com os filhos, hoje adultos. Os resultados indicam que o recurso a serviços terapêuticos e/ou ao apoio de pares no campo da adoção permite às participantes expressar seu luto e passar de estratégias de enfrentamento dominadas pela desconexão a estratégias marcadas pela elaboração autônoma das emoções e por novos padrões de enfrentamento. O processo de reencontro com os filhos desempenha um papel importante nessa transição.

Palavras-chave: primeiras mães, adoção fechada, perda, Análise Fenomenológica Interpretativa, Irlanda

Introdução

Perder um filho por adoção fechada é uma experiência profundamente singular, muitas vezes carregada de sentimentos intensos de luto, perda, vergonha, culpa, remorso e isolamento (Madden et al., 2018). Ela costuma trazer, para as pessoas envolvidas, implicações físicas, psicológicas e socio-relacionais para toda a vida (Henney et al., 2007). Uma reação de luto prolongada e complicada, agravada por seu caráter não reconhecido e ambíguo, é um desses efeitos relatados de forma constante na literatura (Coleman e Garratt, 2016; Madden et al., 2016). Embora a reação de cada primeira mãe seja pessoal e singular, diversas variáveis influenciam o ajustamento pós-adoção. Entre elas estão a coerção (DeSimone, 1996; Madden et al., 2016), a disponibilidade de apoio (Krahn e Sullivan, 2015; Triseliotis, Feast e Kyle, 2005; Wiley e Baden, 2005) e acontecimentos posteriores da vida, como relações íntimas e a criação de outros filhos (Henney et al., 2007; Krahn e Sullivan, 2015). A qualidade e a frequência do contato entre a primeira mãe e o filho adotado, já adulto, várias décadas depois também podem ser relevantes (Ge et al., 2008; McRoy et al., 2007).

A linguagem da adoção

A linguagem da adoção mudou nas últimas décadas. Em particular, a terminologia usada para descrever as experiências das mães que perderam um filho por adoção tem sido muito debatida. Embora termos como “mãe de nascimento” (birth mother) e “mãe natural” tenham sido amplamente usados, há quem os veja como rótulos redutores e estigmatizantes, impostos por equipes profissionais ignorantes e pouco sensíveis (Wilson, Lordan e Mullender, 2004). Da mesma forma, termos como “renúncia” e “colocação”, aplicados a situações de adoção fechada, foram criticados por não representarem com fidelidade as experiências das mães que se sentiram coagidas à decisão (Wiley e Baden, 2005). Consultadas sobre os termos que, a seu ver, refletiam com precisão e respeitavam a forma como escolhem se referir a si mesmas, as mulheres que participaram deste estudo sugeriram como mais adequados “primeira mãe” (first mother) e “mães que perderam um filho por adoção fechada”. Por isso, o estudo usará esses termos ao longo do texto.

A adoção fechada por pessoas desconhecidas: o contexto irlandês

A adoção fechada por pessoas desconhecidas, às vezes chamada de adoção confidencial, é definida como a situação em que uma criança é adotada por uma família desconhecida de seus parentes de nascimento, em que nenhuma informação que identifique os primeiros pais ou os pais adotivos é compartilhada entre as duas partes e em que não há contato antes nem depois da adoção (Coleman e Garratt, 2016).

A adoção na Irlanda tem uma história complexa e controversa. Ela foi regulamentada pela primeira vez pela Lei de Adoção de 1952 (Adoption Act). Naquela época, a Igreja Católica Romana exercia forte influência sobre o Estado irlandês e conseguia impor uma atitude e um tratamento em relação às mães solteiras que quase nunca eram questionados (Wilson, Lordan e Mullender, 2004). Dar à luz fora do casamento era visto socialmente como um escândalo indizível: essas mães eram condenadas como pecadoras e seus filhos, considerados maculados (Milotte, 1997). A adoção era, portanto, vista como a solução “completa”, que protegia as mães do estigma social e da vergonha da gravidez fora do casamento e as crianças do estigma da “ilegitimidade”, ao mesmo tempo em que atendia às necessidades de casais que não podiam ter filhos (McCaughren e Lovett, 2014). Durante várias décadas, as práticas de adoção foram em grande parte fechadas e marcadas pelo segredo. Esse clima social levou a um pico em 1967, quando 97% das crianças nascidas fora do casamento foram encaminhadas para adoção (Adoption Authority of Ireland, 2012), e a uma média de mil adoções fechadas por ano nas duas décadas seguintes. Desde então, diversos fatores contribuíram para mudar significativamente as tendências da adoção na Irlanda, principalmente a criação de um auxílio para “mães não casadas” em 1973 (Considine e Dukelow, 2009), a abolição do status de ilegitimidade em 1987 (Farren, 1998) e o declínio da influência da Igreja sobre o Estado (Wilson, Lordan e Mullender, 2004).

Mais recentemente, vieram à tona vários escândalos de adoção, que levaram a um exame mais rigoroso das práticas de adoção em instituições e agências administradas pela Igreja (Department of Children, Equality, Disability, Integration and Youth, 2021). A descoberta, em 2018, de uma vala comum e de restos mortais de bebês em uma fossa séptica do lar para mães e bebês de Tuam, no condado de Galway, evidenciou o caráter historicamente desumanizante do sistema de adoção irlandês (BBC News, 2018). Além disso, muitas primeiras mães que durante décadas permaneceram em silêncio sobre suas experiências começaram a expressar sua frustração e seu sofrimento diante do tratamento que receberam (Kelly, 2005; Redmond et al., 2012).

Embora haja alguns sinais de mudança, as tensões entre as bases legislativas antigas e atuais da adoção nacional ameaçam as possibilidades de avanço (McCaughren e Lovett, 2014). O caminho para uma mudança legislativa em matéria de busca e reencontro, na forma do projeto de lei de 2016 sobre informação e rastreamento na adoção (Adoption Information and Tracing Bill), tem sido particularmente longo. Apresentado pela primeira vez em 2001, o projeto teria criminalizado as pessoas adotadas que fizessem contato direto com membros de sua primeira família sem autorização prévia expressa (O’Brien e Mitra, 2018). Engavetado em 2003 após um lobby bem-sucedido de organizações do campo da adoção, e finalmente publicado catorze anos depois, em 2016, o projeto ainda não foi aprovado. O direito das pessoas adotadas à certidão de nascimento original continua sendo uma questão controversa.

Ajustamento psicológico e perda por adoção

No centro da perda de um filho por adoção fechada está, para a primeira mãe, a experiência de um luto não reconhecido (disenfranchised grief), isto é, um luto que não é abertamente reconhecido, socialmente validado nem publicamente vivido (Doka, 2008). O segredo e o estigma em torno da gravidez fora do casamento na Irlanda intensificaram o processo de luto e negaram às mães o reconhecimento de seus sentimentos e o apoio de outras pessoas (Cowie, 2011; Davidson, 2010; DeSimone, 1996). Ao mesmo tempo, o filho, embora fisicamente ausente, continua psicologicamente presente, não só em datas marcantes mas também na vida cotidiana (Boss, 1999; Fravel, McRoy e Grotevant, 2000). Com base no conceito de perda ambígua, Boss (1999; 2007) sustenta que esse é um dos tipos de perda mais estressantes, pela ausência de confirmação oficial, de rituais de apoio e de resolução (Boss, 2016). Em consequência, a pessoa muitas vezes fica isolada e entregue a si mesma, presa entre esperança e desespero, com um luto duradouro que corre o risco de ser patologizado (Boss, 1999, 2006, 2007).

As reações de luto das primeiras mães descritas na literatura combinam reações físicas, psicológicas e socio-relacionais (Henney et al., 2007). As respostas psicológicas, muitas vezes reprimidas, incluem sentimentos de vergonha, culpa, raiva, tristeza, remorso e arrependimento (Kelly, 2005; Namerow, Kalmuss e Cushman, 1997; Triseliotis, Feast e Kyle, 2005). Elas podem se manifestar como sintomas de ansiedade e depressão, dependência de substâncias, baixa autoestima, sintomas somáticos, infertilidade secundária e transtorno de estresse pós-traumático (Andrews, 2009; Bouchier, Lambert e Triseliotis, 1991; Brodzinsky, 1990; Christian et al., 1997; Deykin, Campbell e Patti, 1984; Fessler, 2006; Jones, 1993; Kavanagh, 2015; Sorosky, Baran e Pannor, 1978). Entre os fatores associados ao sofrimento psicológico estão o sentimento de ter sido coagida à decisão de adoção, a falta de apoio da família e das equipes profissionais, as poucas oportunidades de falar sobre a experiência, a repressão das emoções e desfechos negativos da busca e do reencontro (Cushman, Kalmuss e Namerow, 1997; De Simone, 1996; Logan, 1996). As relações sociais também são afetadas, incluindo as relações das primeiras mães com os pais, os pares, os parceiros e os outros filhos (Rynearson, 1982). Em particular, elas relatam estabelecer padrões de parentalidade impossíveis de cumprir e superproteger os outros filhos, relutando em incentivar sua independência (Howe, Sawbridge e Hinings, 1992).

Uma questão-chave que decorre dessa situação é se esse luto tende a se resolver e, em caso afirmativo, em que circunstâncias. Embora o caráter não reconhecido e ambíguo da perda tenda a complicar a recuperação (Lauderdale e Boyle, 1994; Weinreb e Konstam, 1995), um estudo qualitativo de Kane (2018) sugere que um luto saudável é possível para as primeiras mães se elas tiverem a oportunidade de compartilhar sua experiência por inteiro, de vê-la reconhecida e de ter seus sentimentos validados. Mais especificamente, o processo de reencontro e reconexão com o filho adotado na vida adulta é especialmente importante. As primeiras mães que aceitaram ou iniciaram o contato descrevem alívio ao saber da situação do filho (Kelly, 2005; March, 2014) e ressaltam que teriam iniciado ou aceitado o contato independentemente do desfecho (Silverman et al., 1988). Entre os principais benefícios identificados no estudo de Triseliotis e sua equipe (2005) estão a diminuição dos sentimentos de culpa, tristeza, luto e confusão, além de maior autoestima e de uma perspectiva emocional melhor. Além disso, as mães que buscaram seus filhos tinham mais probabilidade de ter feito aconselhamento psicológico e/ou participado de grupos de apoio à adoção do que as que não buscaram (Affleck e Steed, 2001; Triseliotis, Feast e Kyle, 2005). Assim, seja qual for o desfecho, o contato costuma ajudar a primeira mãe, trazendo cura emocional e o alívio de conhecer as condições de vida do filho.

Método

Delineamento e aprovação ética

Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com seis mães que perderam um filho por meio da adoção fechada. As informações foram analisadas no quadro da Análise Fenomenológica Interpretativa (AFI) (Pietkiewicz e Smith, 2014; Smith, Flowers e Larkin, 2009). Essa abordagem dá importância central ao sentido individual atribuído às experiências marcantes (Smith e Rhodes, 2015) e exige que quem pesquisa dê sentido às respostas de cada participante, que, por sua vez, busca dar sentido a si mesma (Osborn e Smith, 2008). Em razão da sensibilidade dos dados, foram aplicadas amplas salvaguardas de proteção de dados, e o estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Nacional da Irlanda, Galway.

Seleção e características das participantes

O compromisso da AFI com a investigação idiográfica favorece o estudo de amostras pequenas, selecionadas de forma intencional e razoavelmente homogêneas (Charlick et al., 2016). Seguindo essas orientações, seis mães que viveram a perda de um filho por adoção fechada aceitaram participar. Elas tinham entre 47 e 67 anos (M = 56 anos) no momento da entrevista, e a adoção havia ocorrido entre 30 e 44 anos antes. As participantes tinham entre 17 e 32 anos (M = 20,5 anos) na época da adoção. Cinco mulheres haviam procurado o filho na vida adulta, e uma havia sido procurada. Cinco tinham vivido reencontros, e quatro delas continuavam em contato com o filho. Os dados demográficos são apresentados na Tabela 1.

Tabela 1 — Dados demográficos das participantes

  • Sarah. Idade na gravidez: 17 anos; idade na entrevista: 58 anos; tipo de adoção: fechada; anos desde a adoção: 41; reencontro: sim; contato contínuo: sim.
  • Meave. Idade na gravidez: 19 anos; idade na entrevista: 63 anos; tipo de adoção: fechada; anos desde a adoção: 44; reencontro: sim; contato contínuo: sim.
  • Niamh. Idade na gravidez: 19 anos; idade na entrevista: 49 anos; tipo de adoção: fechada; anos desde a adoção: 30; reencontro: sim; contato contínuo: sim.
  • Julia. Idade na gravidez: 32 anos; idade na entrevista: 67 anos; tipo de adoção: fechada; anos desde a adoção: 35; reencontro: sim; contato contínuo: sim.
  • Jane. Idade na gravidez: 17 anos; idade na entrevista: 47 anos; tipo de adoção: fechada; anos desde a adoção: 30; reencontro: não; contato contínuo: não.
  • Alison. Idade na gravidez: 19 anos; idade na entrevista: 53 anos; tipo de adoção: fechada; anos desde a adoção: 34; reencontro: sim; contato contínuo: não.

Os nomes são pseudônimos.

Resultados

A análise AFI identificou dois temas superordenados, “Maternidade ocultada: a perda de autonomia e de vínculo” e “Maternidade revelada: um caminho rumo à autonomia e à reconexão”. Dentro de cada um, foram desenvolvidos dois temas subordinados: “Desumanizadas, desempoderadas e desconsideradas”, “Lidar por meio da desconexão”, “Romper o silêncio” e “Reencontro e reconexão”. Eles são discutidos em detalhe a seguir.

Maternidade ocultada: a perda de autonomia e de vínculo

Este tema superordenado sintetiza a perda de autonomia pessoal e de vínculo imposta às participantes pela experiência de perder um filho por adoção fechada.

Desumanizadas, desempoderadas e desconsideradas

Este subtema ilustra a perda de autonomia pessoal e de vínculo descrita pelas seis participantes. Ela ocorreu num pano de fundo cultural de segredo e vergonha em torno da maternidade solo naquela época, o que ajuda a explicar o sentimento das mães de terem sido “desumanizadas, desempoderadas e desconsideradas” pela família e pelas equipes profissionais com que se depararam. O destino delas e o de seus bebês foi decidido sem a participação delas, sem consideração por seus desejos ou por suas necessidades emocionais.

Essa experiência desumanizante aparece no relato de Niamh:

Você tinha dado à luz. Não se faria isso com um cachorro. Arrancar a criança da mãe poucos dias depois do parto, entregá-la e esperar que a mãe a entregue. Dizer: “Tenha uma boa vida, vá embora e nunca mais fale disso, porque você é simplesmente um ser humano horrível.” Sabe, era antinatural.

Sua experiência contrasta fortemente com a imagem social da maternidade católica como um papel respeitado e celebrado, dotado de autonomia de decisão e de um vínculo emocional estreito. A analogia que ela faz entre sua experiência e um tratamento que não se infligiria a “um cachorro” enfatiza o contraste com a experiência habitual do nascimento. Ela não era vista como uma pessoa com sentimentos e necessidades emocionais e foi afastada das convenções sociais normais.

Sarah também escolheu uma metáfora animal para expressar sua experiência de desumanização:

Virei o alvo preferido dos exames, e o resultado é que um dia eu desmorono e digo: “Vocês têm que parar. Vocês simplesmente têm que parar.” A porta do quarto não parava nunca… aquele desfile de médicos. E eu sei que eles tinham que aprender, mas eu me sentia uma cobaia. Foi uma coisa que eu disse, sabe: alguém vai ter que responder por isso. Eu fiquei totalmente traumatizada.

Ela destaca seu sofrimento diante dos exames físicos repetidos feitos pela equipe médica e por estudantes, e a metáfora da “cobaia” transmite o sentimento de ser vista como menos que humana, um animal de laboratório usado em experimentos, vulnerável e à mercê dos outros. Ela ficou “totalmente traumatizada” com isso e, mais uma vez, sua experiência está em total desacordo com a expectativa social de um cuidado à maternidade que trate as mães com dignidade, respeito e compaixão.

No contexto familiar, cinco das seis participantes contaram ter sido excluídas do planejamento e das decisões sobre o próprio destino. Sua passividade e sua falta de controle sobre a própria vida se resumem nas tentativas de exercer algum controle sobre o destino do bebê. O tema do desempoderamento representa essas experiências e aparece no relato de Jane:

Liguei para a minha mãe para dizer que eu queria ficar com ele, sabe. E ela simplesmente… ela simplesmente diz: “Bom, não espere receber nenhum apoio aqui em casa.” E eu pensei: “Ah.” E eu digo: “Bom, talvez eu possa ficar com ele aqui?” Ah, claro. E o que todos os parentes vão dizer lá? Sabe. E eu desliguei na cara dela. E ela ligou de volta e, por Deus, ela me disse para não desligar na cara dela de novo em hipótese nenhuma. Sabe, foi simplesmente… foi tão hostil.

O desejo natural de Jane de ficar com o bebê foi imediatamente recebido com oposição e com a retirada do apoio de que ela precisava. Sua necessidade profunda de mãe recente de ficar com o bebê foi desconsiderada e contraposta à desaprovação esperada dos parentes. Isso, mais uma vez, contrasta com as expectativas sociais de nascimentos acolhidos e de um acompanhamento solidário por avós felizes.

Esse tema da desumanização e do desempoderamento dominou as narrativas de cinco das mães, que deram muitos exemplos chocantes: dar à luz sozinha, indiferença diante dos sintomas físicos, negação de alívio da dor e desprezo geral por sua situação. A única exceção foi Jane, que descreveu uma experiência muito diferente do cuidado à maternidade, marcada pela compaixão e pelo apoio. Ela atribui à gentileza com que foi tratada, e às lembranças do tempo precioso passado com o filho, um papel essencial em sua capacidade de suportar a dor da perda nos anos seguintes:

… as enfermeiras davam força. Diziam para eu não ter medo de falar com ele, sabe. E elas eram maravilhosas. Tipo, as enfermeiras da UTI com os bebês são um amor, sabe, e dá para ver que elas amam os bebês, sabe. Foi lindo.

Embora fosse de esperar alguma variação nas experiências das mães, o que é significativo é que a atitude hostil em relação às mães não casadas e o caráter degradante dos serviços eram políticas deliberadas.

Lidar por meio da desconexão

Em resposta ao trauma de estar prestes a perder seus bebês, as mães descreveram lidar com a situação por meio de diferentes formas de desconexão, como a dissociação, a supressão de pensamentos e a repressão de lembranças. Meave descreve o processo inconsciente de lidar por meio da dissociação:

Tinha muita coisa que eu não sabia sobre a vida. Eu queria ter morrido, mas não sabia como. Então eu simplesmente não estava lá. Eu simplesmente não estava presente. Tudo aquilo estava acontecendo com outra pessoa.

Sua imagem da morte reflete de forma vívida seus esforços para suportar a situação. A desconexão permanente e a extinção da dor que a morte oferecia pareciam preferíveis a suportar a angústia de perder o bebê. Mas, sem a morte como possibilidade, Meave lidou com a situação por meio da dissociação, desligando-se de seus pensamentos, sentimentos, lembranças e senso de identidade. Isso aparece em sua afirmação de que “tudo aquilo estava acontecendo com outra pessoa”, o que minimizava seu sofrimento e o tornava mais suportável. É particularmente significativo que seu desligamento tenha se estendido não só a si mesma (“eu simplesmente não estava lá”), mas também ao mundo à sua volta (“eu simplesmente não estava presente”).

A segunda estratégia descrita foi a supressão, isto é, a tentativa consciente e deliberada de suprimir pensamentos e sentimentos dolorosos. O relato de Jane ilustra essa experiência:

Quando assinei os papéis finais. Hum… Lembro de ter pensado conscientemente. Foi quase como se eu tivesse levantado um portão. E era como se eu simplesmente não conseguisse lidar com aquilo. Eu simplesmente fechei… acho… acredito agora que eu me fechei, sabe. Eu não sabia na época. Mas me fechei completamente.

A metáfora do “portão” transmite a construção de uma barreira mental, algo sólido para isolar ou manter do lado de fora sentimentos dolorosos, a curto e a longo prazo. Ela descreve sua mente consciente como o que decide a ação de supressão, isto é, “levantar um portão”, e sua mente inconsciente (“eu não sabia na época”) como o que determina a reação de “fechamento”.

O processo consciente de suprimir pensamentos, lembranças e sentimentos indesejados ecoa no comentário lapidar de Julia: “Eu me treinei. Eu realmente aprendi a não pensar, a não lembrar das coisas dolorosas.”

A terceira estratégia, a repressão de lembranças, refere-se ao esquecimento ou ao bloqueio inconsciente de lembranças dolorosas e é um sintoma de dissociação. Todas as participantes relataram ocasiões em que não conseguiam lembrar de aspectos de sua experiência. Como explica Sarah:

Tudo isso é um branco para mim. Vem e vai, sabe. Não tem nada sólido. É como um quebra-cabeça: você vai pegando as peças e tentando encaixar.

O vazio dessas lembranças contrasta diretamente com as emoções avassaladoras vividas pelas mães no momento da perda. A fluidez de sua memória faz com que Sarah tenha pouco em que confiar e acreditar: “não tem nada sólido”. O processo de tentar reconectar essas partes desconexas da memória para formar uma imagem mais completa, mais inteira, de sua história pessoal torna-se uma tarefa muito delicada, mas importante.

Para outras, o desejo de recuperar lembranças reprimidas entra em conflito com o receio do impacto de lembrar. Alison expressa suas reservas quanto a ter uma lembrança completa de suas experiências:

Às vezes eu queria ser hipnotizada e voltar e lembrar literalmente de cada coisinha. Mas aí eu penso que isso ia me deixar maluca.

Esse comentário evidencia o conflito interno em torno de suas lembranças reprimidas: para ela, há segurança em mantê-las afastadas, porque a ideia de lembrar “cada coisinha” desperta a ameaça de não conseguir suportar. Além disso, seus receios provavelmente têm raiz nas experiências de depressão que ela viveu nos anos seguintes à perda do filho.

Maternidade revelada: um caminho rumo à autonomia e à reconexão

O segundo tema superordenado diz respeito a um período mais recente da vida das mães e explora o caminho para recuperar autonomia e vínculo por meio do processo de busca e reencontro.

Romper o silêncio

Este tema subordinado descreve o percurso das participantes rumo à recuperação de um senso de autonomia sobre sua experiência, por meio do rompimento do silêncio sobre sua maternidade ocultada. Cinco das mulheres relataram ter recorrido a serviços de aconselhamento ou de psicoterapia. Embora o que as levou à terapia variasse, a oportunidade de falar sobre suas experiências facilitou o processo de recuperar a autonomia e de se reconectar com o filho.

Depois de anos lidando com a situação por meio da dissociação, da supressão e da repressão, as mães destacaram os efeitos transformadores do apoio que receberam, que explicou sua dor como um luto reconhecido e lhes deu espaço para expressá-lo. Sarah descreve isso já na primeira sessão com seu terapeuta:

Ele deu um nome para aquilo. Ele diz: “Você está de luto.” Eu achava que alguém tinha que morrer para a gente ficar de luto. Eu não entendia, sabe, até ele dizer. Foi como se tivessem tirado toneladas de cima de mim. Lembro que eu só chorava, porque eu não sabia. Eu simplesmente não sabia o que era aquilo.

O reconhecimento de sua dor e o fato de nomeá-la como “luto” ofereceram a Sarah uma compreensão e uma perspectiva alternativas sobre sua experiência. Isso tirou um peso enorme de sua mente.

Enquanto Sarah usou a imagem de um peso que se levanta, Jane descreve o fluxo poderoso de emoções que veio quando ela deixou sair as emoções “presas”. A chave, mais uma vez, foi ressignificar a experiência como luto. A segurança do espaço terapêutico permitiu que ela se aproximasse do lugar “assustador” ocupado por sua maternidade ocultada. Ela se tornou participante ativa e recuperou a autonomia sobre sua experiência.

Além do apoio terapêutico, todas as participantes buscaram ajuda em redes ligadas à adoção. Essa contribuição foi confiável e útil na busca e no reencontro com os filhos adultos. Como diz Jane:

Eu nunca, nunca tentei procurar por ele, porque nunca achei que tinha esse direito. E aí, no grupo de mães de nascimento, sabe, elas diziam: “Bom, por que você não procura?” Sabe, e eu estava… Minha forma de pensar começou a mudar, e era tipo: meu Deus, talvez ele pense que eu não ligo se eu não procurar ativamente fazer contato.

Ela descreve o apoio do grupo como decisivo para passar de uma posição de impotência, em que não tinha o “direito” de procurar, para uma posição autônoma de procura ativa pelo filho. Esse crescimento da autonomia pessoal e da capacidade de agir produzido pela busca é aprofundado por Meave:

Em toda a rede da adoção, alguém entrou em contato comigo e disse: “A gente não diz isso para todo mundo, mas sabemos que você é alguém… sabe, que vai ter a inteligência e a paciência de não causar problemas. Certo. Então vamos te dizer como localizar sua filha.”

Ela descobriu que, ao estender a mão, podia estabelecer conexões úteis. Com o passar do tempo, o apoio havia se tornado acessível e disponível, e ela passou a ser reconhecida por outras pessoas no caminho da adoção como alguém íntegro. Ao receber esse apoio, Meave se torna autônoma em sua experiência de adoção e procura ativamente a filha.

A passagem da passividade à ação também favorece o sentimento de ter poder para influenciar o sistema. Niamh descreve como planejou e exerceu controle para obter as informações que queria:

Fui muito manipuladora na forma como abordei a coisa. Eu falava em volta de o que vocês querem, como vocês querem e tudo mais, e simplesmente trabalhei. Fui desenrolando a coisa toda até conseguir a data da sentença de adoção. Era tudo o que eu queria, e quando consegui isso eu sabia que teria a identidade do meu filho em 24 horas.

Os termos “manipuladora”, “trabalhei” e “desenrolando” enfatizam sua transição do desamparo e da vulnerabilidade para a posição de participante ativa, capaz de influenciar a situação e obter aquilo de que precisa.

Reencontro e reconexão

Este tema subordinado prolonga as experiências de crescimento da autonomia pessoal e da capacidade de agir das mães, examinando o reencontro e a reconexão subsequentes com os filhos, hoje adultos. A experiência delas foi de catarse, reintegração e cura. Cinco participantes tinham se reencontrado com o filho adotado, e todas descreveram o reencontro como extremamente positivo. Julia relembrou o primeiro encontro com o filho adulto:

Eu tremia como vara verde e, de repente, vi ele vindo na minha direção com um sorriso enorme, enorme. E essa lembrança vai ficar comigo para sempre. Mesmo que tudo dê errado, aquele momento vai ficar comigo para sempre. Foi simplesmente o momento mais fantástico da minha vida.

O que é significativo aqui é o contraste entre as estratégias de supressão e repressão usadas antes e sua elevação à consciência para lidar com sofrimentos futuros. Essa mudança reaparece no relato de Sarah a seguir:

Sabe, o que eu tive que fazer no começo foi que você tem que voltar, porque eles não são mais a criança, é o adulto, e você tem que ir para trás. Tem que voltar por todos os anos, sabe, e fazer o caminho desse jeito. E quando você chega do adulto ao bebê, aí você vai do bebê para cima. E é incrível o que você aprende em todo esse percurso.

Para Sarah, reconectar-se com o filho representou uma oportunidade de elaboração emocional mais profunda. Ela descreve um esforço deliberado e consciente de se envolver ativamente com suas emoções para elaborar e integrar essas experiências traumáticas. Esse percurso, que exige um ajustamento psicológico (aceitar a realidade do filho como adulto), é um processo ao mesmo tempo autônomo e transformador, que leva a uma nova compreensão e a crescimento pessoal.

Quatro das cinco participantes que viveram o reencontro mantinham uma relação positiva e relativamente estável com o filho adotado, e todas falaram da necessidade de negociação para manter a relação após o reencontro. Como explica Niamh:

Eu teria dito a ele: “Você realmente precisa decidir o que quer e o que espera. Eu não posso fazer isso por você. E, se precisar de tempo para isso, tudo bem. Eu não vou a lugar nenhum. Estou aqui. Está tudo bem.” Sabe, desse jeito? Então eu tento dar espaço se for preciso, ou o que for. Mas também não vou ficar paparicando. Não vou ser. Não vou ser um capacho só para… Sabe, então é questão de tentar achar esse equilíbrio, na verdade.

Ela descreve um processo de negociação dentro da relação, caracterizado pela comunicação aberta e pela necessidade de estabelecer limites e expectativas claros e mutuamente aceitáveis. Sua descrição transmite um forte senso de capacidade de agir e de autonomia pessoal, enquanto ela busca alcançar o objetivo do “equilíbrio”.

No entanto, nem todas as participantes viveram a negociação da relação como Niamh: algumas destacaram a dinâmica de poder na relação como particularmente difícil. Foi o caso de Alison:

Para ser sincera com você, qualquer um, a gente sempre disse isso, qualquer pessoa adotada é quem segura as rédeas. Sabe, é ela quem manda na relação, sabe. Você não pode obrigar a pessoa a estar na sua vida se ela não quiser.

A relação entre a pessoa adotada e a primeira mãe aparece aqui como um limite à capacidade de agir que a mãe havia reconquistado, já que continua dependendo de outra parte. Ao contrário do relato de Niamh, o equilíbrio de poder pende a favor da pessoa adotada adulta, que “segura as rédeas” e é quem “manda”. Isso inibe o senso de capacidade de agir da primeira mãe na relação, expresso na frase “você não pode obrigar”. Essa experiência é comparável à descrita por Julia, que fala de um desequilíbrio ameaçador na relação: ter de aceitar a pessoa adotada nos termos dela ou correr o risco de não tê-la na própria vida.

Meave aceitava mais do que as outras essa relação de poder e explicou ao seu conselheiro:

Ele me disse: “Como você lida com, sabe, as regras dela e com ela não aparecer, e como você lida com não ter tanto quanto gostaria?” Eu disse a ele: “Acho que o que você não entende é que cada segundo que ela me dá é um presente. Quer dizer, é um presente. Sabe, anos e anos sem saber se ela estava viva ou morta…”

Ela expressa o amor incondicional que existe entre pai ou mãe e filho, mas há uma aceitação completa das necessidades e dos desejos da filha incorporada à sua percepção da nova relação como um “presente”.

Embora o estudo tenha conseguido identificar vários temas comuns, é importante destacar o percurso diferente vivido por Jane. O filho dela morreu antes que ela pudesse se reconectar com ele. Isso levou a um processo de desconexão que contrasta com a experiência de reintegração descrita pelas outras mães. Ela reflete sobre o impacto de perder o filho pela segunda vez:

Todo o resto segue normalmente, e eu sentia que minha vida inteira tinha desmoronado. Como eu disse, realmente arrasada. Acho que me fechei de novo, porque sei que eu estaria ligando para as crianças toda semana, sabe, e eu não conseguia ligar. Ainda sinto um pouco isso, até hoje. É como se eu não conseguisse me conectar completamente.

A estratégia que ela adotara diante do trauma de perder o filho pela adoção é reativada por essa segunda perda. Seu trauma é revivido, e ela volta a ficar desconectada de si mesma e dos outros.

Discussão

Este estudo explorou as experiências subjetivas de seis primeiras mães irlandesas que perderam um filho por adoção fechada há muitos anos. Até onde a equipe de pesquisa sabe, este é o primeiro estudo com AFI sobre mães irlandesas nessa situação. Os dois temas superordenados, “Maternidade ocultada: a perda de autonomia e de vínculo” e “Maternidade revelada: um caminho rumo à autonomia e à reconexão”, e os quatro subordinados que emergiram serão agora organizados num quadro teórico para ampliar a compreensão atual da perda e de seus efeitos.

Desumanizadas, desempoderadas e desconsideradas

As narrativas das participantes apontam para uma experiência da adoção como desempoderadora e muitas vezes desumanizante. Muitas citaram situações em que foram desconsideradas como seres humanos pela família e pelas equipes profissionais com que se depararam. Vários estudos qualitativos anteriores sobre primeiras mães envolvidas em adoções fechadas relatam resultados semelhantes (Jones, 2004; Lauderdale e Boyle, 1994; Lewis, 1983; Logan, 1996; Rynearson, 1982; Weinreb e Konstam, 1995). A impotência da posição da mãe era reforçada ainda por sua exclusão das decisões sobre seu destino e o futuro de seu bebê. Essa exclusão era muitas vezes imposta por membros da família, em especial pelas mães, que se recusavam a reconhecer a primeira mãe como parte interessada essencial na vida do filho. Esses resultados refletem as atitudes punitivas em torno da maternidade solo na Irlanda daquela época, bem como a existência de fortes pressões para aceitar decisões a favor da adoção (Howe, Sawbridge e Hinings, 1992; Kelly, 2005).

Lidar por meio da desconexão

Como em estudos qualitativos anteriores (Davis, 1994; Jones, 2004; Lauderdale e Boyle, 1994; Lewis, 1983; Rynearson, 1982), as participantes desta pesquisa descreveram, em graus variados, lidar com a perda do filho por meio da dissociação, da supressão e da repressão. Enraizados numa reação de luto prolongada e complexa, esses mecanismos de enfrentamento começam na gravidez e se estendem, em muitos casos, para além da decisão de procurar o filho. A constatação de que a dissociação é uma resposta-chave ao trauma psicológico das participantes é particularmente relevante, pois corrobora os achados de sintomas elevados de transtorno de estresse pós-traumático entre as primeiras mães (Kavanagh, 2015; Kenny et al., 2012).

Romper o silêncio

Todas as mães relataram ter vivido um luto não reconhecido. O aconselhamento, o trabalho psicoterapêutico e/ou a participação em grupos de apoio à adoção deram a elas a oportunidade de expressar o luto de forma socialmente aceitável, de vivê-lo abertamente e de vê-lo reconhecido e aceito por outras pessoas num ambiente empático e acolhedor. Esses resultados confirmam pesquisas anteriores (Brodzinsky e Smith, 2014) segundo as quais as primeiras mães podem começar a se recuperar da perda se houver um apoio que facilite a expressão plena da experiência, valide os sentimentos e reconheça a perda (Kane, 2018). Todas as participantes que recorreram a serviços terapêuticos e/ou a redes de apoio à adoção tiveram um papel ativo na busca pelo filho, achado que replica outros estudos sobre busca e reencontro por parte das primeiras mães (Affleck e Steed, 2001; Triseliotis, Feast e Kyle, 2005).

Reencontro e reconexão

Para todas as participantes, o processo de reencontro com o filho, hoje adulto, envolveu perdas e também ganhos. Para muitas, houve uma mudança significativa de estratégias anteriores, marcadas pela supressão e pela repressão, para uma elaboração mais autônoma das emoções, antes e depois do reencontro. Todas as que se encontraram com o filho adulto descrevem o encontro como uma experiência positiva, independentemente do desfecho, o que ecoa achados de pesquisas anteriores que revelaram a euforia e o alívio das mães ao iniciar ou aceitar o contato (Farrar, 2005; Kane, 2018; Silverman et al., 1988). Mas nem sempre tudo correu bem. As mães perceberam que a relação após o reencontro exigia muita negociação, na tentativa de definir e atender expectativas mútuas. A maioria aceitava os limites estabelecidos pela pessoa adotada para garantir a continuidade do contato; para algumas, porém, havia um medo subjacente de perder o filho de novo. Como March (2014, 2015) mostrou, o reencontro exige um ajustamento psicológico para encarar a realidade de conhecer uma pessoa adulta desconhecida, e não de reencontrar o bebê que foram obrigadas a deixar para trás.

Limitações

Esta exploração da perda vivida pelas primeiras mães na adoção fechada no contexto irlandês é inovadora tanto por sua metodologia qualitativa quanto por isolar essa experiência específica de outras formas de adoção. No entanto, a estratégia de amostragem limitou as participantes àquelas engajadas em grupos de apoio à adoção e que desejavam se reconectar com o filho. A análise também se baseou na lembrança retrospectiva de experiências vividas pelas mães entre 30 e 45 anos antes.

Implicações para a prática

À medida que as práticas de adoção mudam no mundo inteiro, este estudo oferece resultados de pesquisa e recomendações de prática a quem trabalha com primeiras mães que perderam o filho por adoção fechada. Ele mostra que muitas foram privadas de apoio emocional e viveram segredo, silêncio e estigmatização num momento extremamente importante da vida, e que os efeitos disso podem ser duradouros, com a recuperação ocorrendo muitos anos depois, em geral quando elas pensam em procurar o filho ou começam a procurá-lo. Os resultados indicam também que, para elaborar de fato o luto pela perda, as mães precisam de compreensão, validação e apoio bem informados e sensíveis ao que aconteceu. Em particular, as diretrizes de prática precisam incorporar os elementos reconhecidos como promotores dos valores fundamentais de respeito, confiabilidade, responsabilização, justiça, equidade, honestidade, veracidade e autonomia, e reconhecer que a abertura necessária vai além do contato e da troca de informações, incluindo respeito sem julgamento, confiança e compaixão. Como é provável que as mães tenham sofrido um tratamento duro e muitas vezes cruel, isso pode influenciar suas atitudes e reações diante dos serviços oferecidos.

Por fim, o valor de um apoio terapêutico em que as primeiras mães possam encontrar outras mães num lugar seguro e receber empatia e validação autênticas é atestado em todas as narrativas. Todas as participantes ressaltaram que encontrar reciprocidade em sua experiência ajudou a normalizar seus sentimentos e a reduzir a sensação de isolamento.

Em muitos países ainda existem grandes lacunas no apoio às pessoas na busca e no reencontro. Este estudo evidencia a complexidade de acessar informações e de procurar filhos adotados. A informação é muitas vezes controlada de perto pelas agências de adoção e, em alguns casos, pelas equipes de serviço social. Por isso, deve-se incentivar uma mudança legislativa para enfrentar esse problema. Na Escócia e no Reino Unido, pessoas adotadas e primeiros pais têm, desde 1930 e 1975 respectivamente, o direito legal de acesso irrestrito aos registros de adoção e às certidões de nascimento.

Conclusão

Este estudo amplia o conhecimento e a compreensão das experiências vividas por primeiras mães que perderam um filho por adoção fechada. Os resultados sugerem que é possível se recuperar dos sentimentos de perda e luto, mas que isso costuma acontecer muitos anos depois, quando a primeira mãe começa a pensar em procurar o filho ou começa de fato a procurá-lo. Os resultados indicam também que, para elaborar de fato o luto pela perda, as mães precisam de compreensão, validação e redes formais de apoio, além de terapia individual e intervenções em grupo bem informadas e sensíveis às questões da adoção fechada.

Complexe Systémique: a reter

Sob um olhar sistêmico, este texto lembra que uma adoção fechada não faz um vínculo desaparecer: ela o torna clandestino. O filho ausente continua presente, e a mãe carrega sozinha uma perda que ninguém autoriza a chorar, o que Boss chama de perda ambígua e Doka de luto não reconhecido. Para a clínica, dois gestos se destacam. Primeiro, nomear: para Sarah, a simples palavra “luto”, dita na primeira sessão, desloca décadas de dissociação. Depois, conectar: grupos de pares e redes de adoção transformam a vergonha em história compartilhada e abrem caminho para a busca do filho. O reencontro não fecha tudo; exige negociar uma relação com uma pessoa adulta desconhecida que “segura as rédeas”. Os limites são reais: seis mulheres recrutadas em grupos de apoio, lembranças de trinta a quarenta e cinco anos atrás e uma adoção vista apenas do lado das mães. Para ler junto com o artigo sobre a identidade adotiva reconstruída por meio dos artefatos e com a exploração dos segredos de família como portas de entrada na terapia.

Notas do original

Declaração de conflito de interesses. A equipe de pesquisa declara não haver potenciais conflitos de interesse em relação à pesquisa, à autoria e/ou à publicação deste artigo.

Financiamento. A equipe de pesquisa não recebeu apoio financeiro para a pesquisa, a autoria e/ou a publicação deste artigo.

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Tradução não oficial em português de “Minha cicatriz se chama adoção”: a experiência vivida de mães irlandesas que perderam um filho por adoção fechada, de Deborah McNamara, Jonathan Egan e Pádraig McNeela, Adoption & Fostering, vol. 45, no 2 (2021), doi: 10.1177/03085759211011734, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela em lista, declarações reunidas nas notas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “‘My scar is called adoption’: The lived experiences of Irish mothers who have lost a child through closed adoption”, publicado em Adoption & Fostering (2021) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

McNamara, D., Egan, J., et McNeela, P. (2021). “Minha cicatriz se chama adoção”: a experiência vivida de mães irlandesas que perderam um filho por adoção fechada (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/minha-cicatriz-se-chama-adocao-a-experiencia-vivida-de-maes-irlandesas-que-perderam (Obra original publicada em 2021 em Adoption & Fostering, 45(2), 138-154 (2021); republicada em 2021 por Adoption & Fostering, https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/03085759211011734)

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