Infant Mental Health Journal · Casal
O que acontece em um casal quando um dos membros, ou os dois, sofreu maus-tratos na infância e nasce o primeiro filho? A equipe de Laura N. Martin, da Universidade George Mason, entrevistou separadamente os dois membros de 11 casais norte-americanos. Longe de uma simples repetição, o estudo descreve um trabalho a dois: nomear os maus-tratos, regular a autodúvida, estabelecer limites com a família de origem e inventar outras formas de cuidar.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de “Não cometer os mesmos erros de jeito nenhum”: o ajustamento do casal à parentalidade no contexto de maus-tratos na infância, de Laura N. Martin, Keith D. Renshaw, A. Grace Kelly e Debora G. Goldberg, publicado na Infant Mental Health Journal (Wiley) (2026), doi: 10.1002/imhj.70106, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela é apresentada em forma de lista; os quadros “Key Findings” e “Statement of Relevance”, inseridos na introdução do original, foram reunidos ao resumo; os apêndices (roteiro de entrevista, citações complementares) não foram reproduzidos. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
As experiências de maus-tratos na infância não são negociadas isoladamente durante a transição para a parentalidade, mas interpretadas e manejadas conjuntamente dentro da relação de casal.
Laura N. Martin, Keith D. Renshaw, A. Grace Kelly e Debora G. Goldberg
Resumo
Este estudo explorou como um histórico de maus-tratos na infância molda a transição para a parentalidade, com foco no modo como os dois membros do casal negociam conjuntamente esse ajustamento dentro da relação de casal. Por meio da Análise Fenomenológica Interpretativa (IPA), foram realizadas entrevistas semiestruturadas em profundidade com 11 casais heterossexuais (22 pessoas) residentes nos Estados Unidos, nos quais pelo menos um dos membros relatou histórico de maus-tratos na infância. As entrevistas foram analisadas em busca de temas emergentes relacionados ao ajustamento à parentalidade, ao funcionamento relacional e aos processos de apoio diádico. Surgiram quatro grandes temas diádicos: (1) a construção relacional de sentido sobre os maus-tratos na infância, (2) os desafios relacionais ativados pelo histórico de maus-tratos, (3) o apoio diádico como corregulação da vulnerabilidade ligada aos maus-tratos e (4) a orientação resiliente e intencional dos casais para a vida familiar. Os resultados sugerem que relações amorosas de apoio podem funcionar como um contexto relacional no qual a autodúvida ligada à parentalidade é negociada, a segurança emocional é promovida e formas de cuidado distintas daquelas que as pessoas participantes conheceram na própria infância são construídas em conjunto. Essas constatações têm implicações para intervenções diádicas durante a transição para a parentalidade que busquem apoiar uma parentalidade reflexiva e a resiliência relacional.
Palavras-chave: maus-tratos na infância, coparentalidade, pesquisa qualitativa, resiliência, parceiros amorosos, transição para a parentalidade
Principais resultados
Relevância do estudo
Este estudo oferece uma compreensão matizada de como os maus-tratos na infância incidem sobre a transição para a parentalidade nas relações amorosas e coparentais. Ao colocar no centro os dois membros do casal, este trabalho destaca o papel de cada membro do casal no apoio à construção relacional de sentido sobre experiências de cuidado anteriores e na regulação da vulnerabilidade ligada à parentalidade durante essa transição. Os resultados contribuem para a saúde mental do bebê ao iluminar processos diádicos que amortecem o impacto da adversidade precoce e apoiam o desenvolvimento do sistema familiar nascente durante uma janela crítica do desenvolvimento.
Tornar-se pais é uma das transições mais significativas que muitos casais vão viver, marcada por estresse aumentado, mudanças de identidade e mudanças no estilo de vida. Embora a maioria dos casais experimente uma queda na qualidade da relação durante essa transição, alguns relatam estabilidade ou até melhora (Belsky e Kelly, 1994; Belsky e Rovine, 1990; Doss et al., 2009). Grande parte da pesquisa sobre casais na transição para a parentalidade se concentra nos fatores de risco para um ajustamento negativo (Kluwer et al., 2010). Experiências traumáticas, como os maus-tratos na infância, estão associadas a um ajustamento ruim durante a transição para a parentalidade (Belsky e Isabella, 1985), incluindo aumento do estresse parental, dificuldades de saúde mental e perturbações do vínculo entre pais e filhos (Racine et al., 2021). Isso pode se dever ao fato de que a antecipação das responsabilidades de cuidado ativa os modelos internos de funcionamento de apego e de cuidado formados na própria infância (Cowan e Cowan, 2000). A pesquisa sugere que tornar-se pai ou mãe pela primeira vez representa um período do desenvolvimento em que as experiências relacionais passadas são reavaliadas e podem moldar as expectativas sobre os papéis parentais e coparentais (George e Solomon, 2008). Assim, casais primíparos podem estar especialmente propensos a refletir sobre a influência dos maus-tratos na infância em sua identidade parental emergente e a renegociá-la.
Embora haja evidências de que um histórico de maus-tratos na infância pode ter impactos negativos sobre a pessoa com quem se forma um casal, a pesquisa existente não explorou esses impactos no contexto da transição para a parentalidade (Vaillancourt-Morel et al., 2024). A associação negativa entre um histórico de maus-tratos na infância e o ajustamento das mães durante a gestação e o pós-parto está bem estabelecida, incluindo um senso de autovalor mais negativo, sentimentos de culpa e vergonha, a sensação de falta de controle no contexto da parentalidade, a experiência de estigma, a falta de conhecimentos e habilidades parentais e problemas amplos de saúde mental e física (ver a revisão de Chamberlain et al., 2019a). Apesar desse conjunto robusto de resultados sobre o efeito dos maus-tratos nas mães, menos pesquisas se concentram em como os maus-tratos afetam os casais nesse período.
A mudança pós-traumática se refere a mudanças nas crenças, na identidade ou nos padrões relacionais de uma pessoa que surgem após experiências traumáticas e podem incluir adaptações tanto positivas quanto negativas. Embora muitas das mudanças pós-traumáticas que ocorrem após os maus-tratos sejam negativas, algumas pessoas relatam que suas experiências de maus-tratos as afetam de forma mais matizada. A equipe de Fava (2016) codificou entrevistas com mães recentes para compreender a percepção de mudanças pós-traumáticas gerais e específicas da parentalidade após maus-tratos na infância. Três quartos das mães relataram que as mudanças pós-traumáticas gerais incluíam uma mistura de mudanças positivas e negativas, com 8% relatando apenas mudanças negativas (17% relataram apenas mudanças positivas). Além disso, as mudanças pós-traumáticas específicas da parentalidade, como conseguir se conectar mais com o filho e compreendê-lo melhor em razão das experiências passadas, eram ainda mais propensas a ser percebidas como totalmente positivas. Essa variabilidade sugere que existem fatores de proteção capazes de orientar intervenções para pais com histórico de maus-tratos na infância.
A maioria dos estudos que examinam a transição para a parentalidade após maus-tratos na infância é quantitativa e examina apenas a experiência das mães (ver as revisões de Chamberlain et al., 2019a; Christie et al., 2017). Um resultado predominante é que relações de casal positivas e o apoio social funcionam como fatores de proteção para mães com histórico de maus-tratos durante o período perinatal (Chamberlain et al., 2019a). Da mesma forma, no punhado de estudos qualitativos (a maioria deles centrada em mulheres com histórico de abuso sexual), as trajetórias positivas costumam estar associadas às relações e aos ambientes em que essas mães vivem, e não a processos individuais. Por exemplo, temas como criar segurança (construir relações e lugares seguros para o bebê), cuidado compassivo (sentir-se valorizada e cuidada) e sentir-se conectada (qualidade das relações durante a transição) dependem de sistemas de apoio (Chamberlain et al., 2019b). A pesquisa anterior também destaca a complexidade das relações íntimas nesse contexto, já que algumas pessoas sobreviventes relatam conflitos, mal-entendidos ou mesmo violência por parceiro íntimo durante a transição para a parentalidade (Chamberlain et al., 2019b). Assim, a qualidade da relação amorosa pode influenciar o ajustamento à parentalidade de pessoas com histórico de maus-tratos na infância. Reconhecer essa variabilidade ressalta a importância de examinar as relações amorosas como um determinante decisivo do ajustamento e do bem-estar parental durante a transição para a parentalidade.
A revelação dos maus-tratos e a comunicação sobre eles dentro do casal podem ter um papel no ajustamento durante a transição para a parentalidade. A pesquisa sugere que a maioria das pessoas sobreviventes de abuso revela suas experiências à pessoa com quem vive uma relação (Rubinsky et al., 2023; Ullman, 2002); algumas consideram isso fortalecedor, pois desperta mais apoio e sensibilidade dos outros, enquanto outras se sentiram julgadas ou estigmatizadas (Palmer, 2004). Em um estudo qualitativo com mulheres sobreviventes de abuso sexual, várias mães expressaram relutância em falar sobre os maus-tratos passados, e uma delas afirmou que isso faria sua gravidez parecer “manchada por lembranças de um passado sujo” (Palmer, 2004, p. 162). Apesar dessa relutância, evitar o assunto não estava associado a menos pensamentos sobre os maus-tratos durante a gravidez, e muitas dessas mulheres ainda viveram sofrimento nesse período. Embora esses resultados sugiram que a revelação dos maus-tratos pode influenciar o ajustamento à parentalidade, nenhum estudo examinou a comunicação sobre os maus-tratos dentro do casal durante a transição para a parentalidade.
As reações à revelação são cruciais, pois reações negativas podem agravar os sintomas psicológicos (Ullman, 2002). Em estudos qualitativos sobre a transição para a parentalidade, sentir-se apoiadas e não julgadas pelo parceiro ajudou mulheres a viver a gravidez de forma mais positiva (Chamberlain et al., 2019b), enquanto outras se sentiram julgadas pelo parceiro em relação a sintomas ligados ao trauma durante essa transição (Berman et al., 2014). Considerando a importância das reações do outro membro do casal à revelação dos maus-tratos, é possível que formar um casal com alguém que teve uma infância semelhante seja benéfico, graças a uma empatia maior pelas muitas maneiras pelas quais a transição para a parentalidade pode ser retraumatizante. Embora resultados quantitativos preliminares sugiram efeitos negativos acumulados quando os dois membros do casal têm histórico de maus-tratos (Martin et al., 2025), são necessárias mais pesquisas para tirar conclusões firmes.
Por fim, o ajustamento à parentalidade pode ser influenciado pela incongruência entre expectativas e realidade, em particular no caso de pais com histórico de maus-tratos cuja autoimagem pode estar distorcida (Fitzgerald et al., 2005). Essas autopercepções distorcidas podem ser reforçadas pela rede de apoio. Um estudo qualitativo sobre a experiência da gravidez em sobreviventes de abuso sexual na infância destacou como novos pais podem levar em conta a criação recebida pelo parceiro ao avaliar sua capacidade parental (Lasiuk, 2007). Uma participante destacou como a visão que tinha da criação do parceiro, que não havia sofrido maus-tratos, a tranquilizava de que ele seria um “bom pai” (Lasiuk, 2007, p. 184). No entanto, pouco se sabe sobre como as pessoas sem histórico de maus-tratos veem a aptidão para a parentalidade da pessoa com histórico de maus-tratos com quem vivem, nem sobre como isso pode afetar o ajustamento à parentalidade dos dois membros do casal.
Em razão da tendência a presumir que as sequelas dos maus-tratos são negativas, os estudos quantitativos podem dar ênfase excessiva aos desfechos negativos, em vez de captar as nuances de como um histórico de maus-tratos afeta pais recentes. Os métodos qualitativos permitem que as pessoas compartilhem uma gama de atribuições e percepções relacionadas à transição para a parentalidade e ao modo como seu histórico de maus-tratos influenciou essa transição. Este estudo adota uma abordagem qualitativa para explorar como pais que sofreram maus-tratos e as pessoas com quem formam um casal se ajustam à parentalidade, com foco no funcionamento da relação como possível fator de proteção. Apesar da pesquisa qualitativa existente sobre experiências perinatais, poucos estudos incluem tanto mães quanto pais, se centram na qualidade da relação ou examinam os dois membros de casais em que um dos pais sofreu maus-tratos (Chamberlain et al., 2019b). Ao estudar casais em vez de indivíduos, esta pesquisa adota uma abordagem mais naturalista, que reconhece que a parentalidade raramente é vivida de forma isolada.
Este estudo busca explorar, com uma abordagem orientada para a descoberta, como um histórico de maus-tratos na infância molda a dinâmica e o apoio no casal durante a transição para a parentalidade. As perguntas de pesquisa que orientam este estudo são:
Para explorar essas perguntas de pesquisa, a análise fenomenológica interpretativa (IPA) foi escolhida como a abordagem mais adequada (Smith e Osborn, 2015; Smith et al., 2009). Inspirada na fenomenologia, a IPA é uma abordagem qualitativa que busca produzir conhecimento contextualizado para oferecer uma compreensão nova das experiências vividas das pessoas. A IPA reconhece que a interpretação ocorre em dois níveis (dupla hermenêutica): a pesquisa que tenta dar sentido ao que as pessoas participantes compartilham, e essas próprias pessoas tentando dar sentido às suas experiências (Smith et al., 2009). Outros estudos sobre temas semelhantes usaram essa metodologia (por exemplo, Bécotte et al., 2023; Ngameni et al., 2022).
Os critérios de inclusão do estudo foram: ter tido o primeiro filho nos últimos 12 meses; ser casado ou estar em uma relação comprometida (namoro havia mais de 18 meses ou coabitação); pelo menos um dos pais ter histórico de maus-tratos na infância (avaliado com os pontos de corte estabelecidos do Childhood Trauma Questionnaire [CTQ] para qualquer forma clinicamente significativa de maus-tratos; Bernstein et al., 1994); e consentimento dos dois membros do casal para participar do estudo. Além disso, os casais precisavam falar inglês e ter condições de participar de entrevistas on-line pelo Zoom, uma plataforma segura de telecomunicação.
Foram entrevistados para o estudo onze casais formados por pessoas de sexos diferentes. Todos os casais eram casados, tinham tido o primeiro filho juntos no último ano e moravam juntos no momento da entrevista. A idade média era de 33,82 anos (DP = 7,21) para os homens e de 31,00 anos (DP = 5,10) para as mulheres. Em quatro dos 11 casais, os dois membros relataram ter sofrido alguma forma de maus-tratos na infância, enquanto nos outros sete casais apenas um membro (3 mulheres e 4 homens) relatou maus-tratos. Entre as 15 pessoas que atingiram os critérios de níveis clínicos de maus-tratos na infância no CTQ (CTQ; Bernstein et al., 1994), o escore médio de maus-tratos na infância foi de 40,00 (DP = 11,42). Entre as pessoas que relataram maus-tratos, a maioria relatou pelo menos níveis baixos de abuso emocional (80%; M = 10,53, DP = 4,39, amplitude = 5–23) e de negligência emocional (73%; M = 11,07, DP = 4,89, amplitude = 5–24). Menos pessoas relataram abuso físico (47%; M = 6,60, DP = 1,80, amplitude = 5–9), abuso sexual (20%) e negligência física (13%; M = 6,33, DP = 2,20, amplitude = 5–14). A idade média do bebê no momento da entrevista era de 7,45 meses (DP = 2,36), variando de 4 a 12 meses. Os casais viviam em 8 estados diferentes. Outras características da amostra estão na Tabela 1.
Tabela 1 — Características das pessoas participantes (N = 22)
Todos os procedimentos do estudo foram examinados e aprovados pelo comitê de ética institucional (Institutional Review Board) da instituição à qual a equipe de pesquisa está vinculada, e todas as pessoas participantes deram consentimento informado antes de participar. Os dados foram coletados por meio de entrevistas semiestruturadas com casais primíparos entre 0 e 12 meses após o parto. O recrutamento foi feito por amostragem intencional (Patton, 2002), em clínicas de obstetrícia da região do Meio-Atlântico e on-line, por meio de anúncios em redes sociais direcionadas e em grupos de gravidez e parentalidade. A amostragem intencional se concentra em recrutar pessoas especialmente bem informadas sobre o fenômeno de interesse ou com experiência dele (Creswell e Plano Clark, 2011). Os casais no pós-parto podiam relatar retrospectivamente as várias fases de seu ajustamento à parentalidade e as mudanças nos fatores relacionais ao longo do tempo (por exemplo, a correspondência entre as expectativas sobre a parentalidade durante a gravidez e a experiência parental real). Os casais primíparos foram priorizados porque a influência dos maus-tratos na infância provavelmente é mais saliente na transição para a primeira parentalidade (George e Solomon, 2008).
Os critérios de inclusão foram avaliados por meio de um questionário de triagem on-line enviado por e-mail antes da inscrição no estudo. O questionário de triagem incluía o CTQ (CTQ; Bernstein et al., 1994), para estabelecer o histórico de maus-tratos, e um breve questionário sociodemográfico para estabelecer idioma, idade, duração da relação e meses desde o parto. Os dois membros do casal responderam ao questionário de triagem separadamente. Os casais considerados elegíveis com base na triagem eram então contatados pela equipe de pesquisa para agendar as entrevistas.
As entrevistas semiestruturadas foram realizadas individualmente com cada membro do casal, e os casais receberam uma compensação de US$ 50 no total (US$ 25 por pessoa) depois que ambos concluíram suas entrevistas. As entrevistas foram feitas separadamente para incentivar uma reflexão aberta sobre experiências sensíveis e captar a construção de sentido própria de cada pessoa antes de examinar os padrões diádicos entre as entrevistas. Previa-se que as entrevistas durassem 60 minutos cada, mas a duração variou conforme a extensão das respostas. Os dados foram coletados por meio de entrevistas gravadas em áudio pelo Zoom, e as transcrições foram geradas por um software de transcrição. As transcrições foram conferidas com as gravações de áudio para garantir a fidedignidade e depois carregadas no MAXQDA, usado para gerenciamento, codificação e análise dos dados. Concluídas as entrevistas e a codificação, foi feita uma checagem com as pessoas participantes (member checking): elas receberam um resumo escrito dos temas e subtemas encontrados nos dados e tiveram a oportunidade de dar retorno à equipe de pesquisa. Esse retorno foi incorporado à análise apresentada a seguir.
A IPA não tem uma regra universal para o tamanho da amostra; ele varia conforme a possibilidade de recrutar intencionalmente pessoas que viveram o fenômeno de interesse (Pietkiewicz e Smith, 2014). Estudos com IPA foram publicados com números variados de participantes, mas, na psicologia clínica, o número recomendado é de 6 a 8 (Turpin et al., 1997). Nossa meta de recrutamento era de 10 casais, já que o casal era a unidade de análise. O recrutamento continuou até se atingir a saturação, ou seja, até que novas entrevistas deixassem de ampliar ou questionar de forma significativa os elementos interpretativos existentes, respeitando ao mesmo tempo a singularidade idiográfica de cada casal (Roberts, 2014).
Cada um dos pais respondeu ao Childhood Trauma Questionnaire de 28 itens (CTQ; Bernstein et al., 1994), uma medida de autorrelato com cinco subescalas (abuso emocional, abuso físico, abuso sexual, negligência emocional e negligência física), de 5 itens cada, e uma escala de minimização/negação de 3 itens. Os itens são avaliados em uma escala Likert de 5 pontos, de 1 (nunca verdadeiro) a 5 (muito frequentemente verdadeiro). As pessoas atendiam aos critérios de inclusão se atingissem os pontos de corte que indicam pelo menos um nível “baixo” de maus-tratos em pelo menos uma das cinco subescalas (Bernstein et al., 1994).
A pessoa que assina primeiro conduziu as entrevistas semiestruturadas pelo Zoom entre julho de 2023 e abril de 2024. As entrevistas foram realizadas a distância para facilitar a participação de pais com bebês em casa e reduzir as barreiras à participação. A duração média das entrevistas foi de 64 minutos (amplitude: 53–85 minutos). O roteiro completo da entrevista está no Apêndice A. As entrevistas envolveram intencionalmente poucas intervenções de aprofundamento, para permitir que as pessoas participantes orientassem o foco e a profundidade da conversa, preservando seu próprio processo de construção de sentido em vez de impor as interpretações a priori da equipe de pesquisa. Quem conduzia a entrevista verificava com frequência se havia alguma informação que as pessoas participantes consideravam pertinente para sua experiência e que não tivesse sido discutida, reservando tempo para explorar esses pontos.
As transcrições das entrevistas foram codificadas pela pessoa que assina primeiro, segundo o método descrito por Finlay (2011), seguindo dois níveis-chave de codificação. Primeiro, cada transcrição foi reproduzida e relida para que essa pessoa se familiarizasse novamente com o material. Em seguida, foi feita a análise de primeira ordem, ou codificação inicial/aberta, centrada em anotar cada transcrição para associar conceitos a trechos das entrevistas. Também foram redigidos memorandos para registrar ideias derivadas dos dados e identificar os processos em curso. Após a análise de cada transcrição individual, as transcrições dos dois membros de cada casal foram examinadas em conjunto, como díade, para explorar convergências, divergências e o sentido coconstruído em torno dos maus-tratos na infância e da transição para a parentalidade.
Em seguida veio a análise de segunda ordem, que vai além da pura descrição em direção à interpretação. Ela envolveu a criação de categorias ou conceitos de ordem superior, que atribuem sentido, e a interpretação da pesquisa, aos conceitos de ordem inferior surgidos na codificação inicial. As categorias foram criadas observando tanto os temas recorrentes entre os casais quanto os temas dentro de cada casal, em especial as experiências espelhadas ou compartilhadas e as assimetrias entre os dois membros de um mesmo casal. A pessoa que assina primeiro se engajou na dupla hermenêutica, tentando dar sentido à forma como as pessoas participantes davam sentido às próprias experiências (Smith et al., 2009), reexaminando em seguida, à luz da análise de ordem superior, as primeiras interpretações registradas nos memorandos feitos durante as entrevistas e nas primeiras leituras das transcrições.
Esses códigos foram então discutidos com a equipe de pesquisa para compreender os padrões mais amplos em curso e as experiências novas descritas por cada pessoa. Para reduzir vieses durante a análise, a pessoa que assina primeiro se reuniu regularmente com a equipe de pesquisa e com as demais pessoas que assinam o artigo para compartilhar seu processo analítico e refletir sobre os temas encontrados. A equipe de pesquisa, incluindo a pessoa que assina primeiro, era composta por 5 mulheres: 3 que se identificavam como brancas, 1 como da Ásia Central e 1 como mestiça. A pessoa que assina primeiro e mais 1 integrante da equipe de pesquisa têm filhos. Como parte da equipe de pesquisa tinha filhos, as discussões reflexivas se dedicaram a examinar como pressupostos sobre uma parentalidade ou um funcionamento de casal “saudáveis” poderiam moldar a interpretação, em especial na análise de quão bem as pessoas participantes haviam se ajustado à parentalidade.
A equipe de pesquisa então revisou a codificação feita pela pessoa que assina primeiro e releu cada transcrição para identificar temas ou conceitos que tivessem passado despercebidos. De modo geral, as duas etapas de codificação estavam de acordo com a natureza idiográfica da IPA, permitindo identificar e analisar as experiências de cada casal antes de estabelecer conexões entre as experiências compartilhadas (Miller et al., 2018).
A análise revelou quatro processos diádicos inter-relacionados pelos quais os casais atravessaram a transição para a parentalidade no contexto de maus-tratos na infância: (1) dar sentido aos maus-tratos dentro do casal, (2) os desafios relacionais ativados pelo histórico de maus-tratos, (3) o apoio diádico como corregulação da vulnerabilidade ligada aos maus-tratos e (4) a orientação resiliente e intencional dos casais para a vida familiar. A Figura 1 mostra como os casais passaram de uma construção compartilhada de sentido sobre as experiências de maus-tratos a abordagens intencionais da parentalidade. Outras citações representativas estão no Apêndice B.

Muitos casais contaram que estar em uma relação criou novos contextos nos quais as experiências anteriores de maus-tratos eram nomeadas, reinterpretadas e elaboradas em conjunto. Uma participante captou bem esse fenômeno:
Acho que tem um ditado que diz que ser casado é como ter um espelho colocado na sua frente. Então [meu parceiro] me aponta coisas, e ele fala tipo: “Isso é igualzinho à sua mãe.” (38b)
Em todos os casais, quem havia sofrido maus-tratos tinha revelado suas experiências, mas quase sempre minimizando-as, em algum grau, diante do outro. As pessoas participantes muitas vezes comparavam suas experiências com formas mais extremas de abuso ou negligência, apresentando implicitamente o próprio sofrimento como menos legítimo. Algumas tinham consciência dessa minimização: “Sei que muitas crianças também arranjam desculpas para os pais, então posso estar fazendo isso também” (23b). As pessoas participantes muitas vezes explicavam essa minimização como uma forma de conciliar a continuidade das relações com as figuras parentais ou de justificar os comportamentos delas pelo contexto da própria infância difícil dessas figuras. Por fim, algumas disseram ter minimizado ou omitido suas experiências por medo de que o outro membro do casal julgasse seus pais ou as pessoas que as criaram.
No nível do casal, essa minimização muitas vezes se tornava um espaço de identificação dos maus-tratos e de construção de sentido sobre eles. Cerca de metade dos casais relatou que um dos membros teve de identificar como tal a experiência de maus-tratos do outro. Um tema frequente era que as pessoas participantes só perceberam que suas experiências configuravam maus-tratos quando revelaram a infância ao outro membro do casal. Os membros do casal 36a e 36b descreveram, ambos, uma sensação de validação quando o outro havia testemunhado sua própria experiência de maus-tratos: “Acho que o benefício para mim foi… a validação de que algumas das coisas que aconteceram eram absurdas. Ou coisas que não deveriam ter acontecido” (36b). A parceira 36b descreveu a validação do marido como mais valiosa que a de uma pessoa terapeuta, já que ele presencia o tratamento que ela recebe das pessoas que a criaram. Da mesma forma, o parceiro 36a descreveu como útil, para identificar os maus-tratos, o fato de a esposa ouvir no viva-voz o modo como a mãe dele fala com ele. Isso sugere que a pessoa com quem se forma um casal tem um olhar singular, capaz de ajudar a identificar a experiência de maus-tratos e a validá-la como anormal.
Outro aspecto importante era a experiência das pessoas participantes ao saber do histórico de maus-tratos do outro membro do casal. Muitas expressaram raiva ou tristeza diante dos maus-tratos sofridos pelo outro.
Me dói quando ele fala de como falavam com ele quando era criança, e pensar em como alguém pode simplesmente diminuir uma pessoa o tempo todo… me deixa muito triste que ele não tenha tido esse apoio quando era mais novo. (34b)
Duas pessoas contaram que saber dos maus-tratos sofridos pelo outro as fez se sentir com mais sorte e valorizar mais suas próprias experiências positivas de infância.
Entender melhor de onde ela vinha aumentou meu respeito e minha confiança nela, e o fato de que essa é a pessoa que ela conseguiu se tornar, apesar de todas essas dificuldades. Acho que isso me motivou, em certa medida, a querer fazer ainda melhor, porque, poxa, eu recebi cartas muito boas, sabe, vou desperdiçar? (38a)
Embora a resposta do outro membro do casal tenha sido, em sua esmagadora maioria, de apoio e validação, duas das sete pessoas participantes sem histórico de maus-tratos contaram que saber do histórico de maus-tratos do outro gerou, de início, preocupações sobre a capacidade dele ou dela de exercer a parentalidade ou sobre os padrões relacionais do casal. Por exemplo, o participante 23a explicou que temia que houvesse nele algo que lembrasse à esposa o pai dela, que a maltratara, e que a relação dos dois recriasse alguns desses padrões negativos.
Quase todos os casais ainda tinham algum nível de interação ou contato com as figuras parentais que haviam cometido os maus-tratos, o que acrescentava complexidade à resposta do outro membro do casal ao saber dos maus-tratos. Era preciso, ao mesmo tempo, validar a experiência negativa de quem se ama e apoiar suas relações atuais com essas mesmas figuras parentais (ver Definir limites em conjunto e sustentá-los). O participante 38a explicou sentir “raiva e ressentimento contra” a mãe da esposa e observou: “Acho que [minha esposa] vivia [minha] raiva como quase exclusivamente dolorosa… Acho que levou um tempo para ela entender que, quando eu expressava frustração ou raiva contra a mãe dela, eu não estava atacando ela, mas, por causa da história dela, isso não vinha naturalmente.”
Embora os desafios ligados ao histórico de maus-tratos muitas vezes tivessem surgido antes da gravidez, as pessoas participantes descreveram essas questões como mais salientes no contexto das conversas sobre ter filhos. Em vários casais, dificuldades de regulação emocional ou de comunicação que as pessoas participantes atribuíam à sua criação tornavam-se cada vez mais importantes de enfrentar quando se pensava na parentalidade.
Acho que houve um momento em que eu pensava: se ele não se ajeitar e não controlar essa raiva, eu vou embora, porque não quero que meus filhos cresçam com alguém que vive com raiva e que vai tratar as outras pessoas desse jeito. (34a)
O meu jeito de ficar com raiva era exatamente igual ao do meu pai… Eu sabia de onde vinha aquela raiva. Só não queria trabalhar nisso. Porque eu sentia que, se trabalhasse nisso, teria de reviver aquelas lembranças. Então foi só quando finalmente tive coragem de fazer terapia, porque percebi que estava me tornando o meu pai, que minha esposa e eu começamos a falar em ter um filho. (34b)
Os principais desafios que surgiram nos casais em razão do histórico de maus-tratos foram a preocupação com o estigma ou o julgamento do outro, as emoções negativas ao comparar as infâncias e o sentimento de inadequação como membro do casal ou como pai ou mãe.
Alguns casais expressaram uma compreensão compartilhada do estigma associado a ter sofrido maus-tratos e da crença de que isso pode tornar uma pessoa menos capaz de exercer a parentalidade, pela repetição de certos padrões. A participante 36b contou como era mais difícil para o marido, que havia sofrido maus-tratos, estar em público com o bebê chorando, porque isso despertava nele o medo de ser visto como um mau pai.
Outras pessoas expressaram o temor de um julgamento vindo especificamente de pessoas com quem tiveram relações amorosas, em razão de seu histórico de maus-tratos. O participante 15b contou que a infidelidade da mãe era um assunto difícil de conversar com parceiras amorosas e que elas viam namorar com ele como uma “batalha difícil” por causa de seus problemas com a mãe. O participante 16b também relatou ter recebido reações negativas ao falar de seus problemas com a mãe com uma parceira anterior: “Ela me ridicularizava e me criticava muito. Sabe, tipo: ‘você deve ser misógino se não se dá bem com a sua mãe’, esse tipo de coisa.” Vale notar que nenhuma pessoa participante disse se sentir estigmatizada ou julgada por seu histórico de maus-tratos na relação atual.
Pessoas sem histórico de maus-tratos contaram ter consciência dessas preocupações com o estigma. Por exemplo, a pessoa participante 34b observou: “Acho que ele pensava que, se viesse dessa família problemática, eu não ia querer ficar com alguém assim.” Embora algumas dessas pessoas tenham admitido que saber do histórico de maus-tratos gerou, de início, preocupações sobre como certos padrões poderiam se manifestar na comunicação ou no manejo dos conflitos, essas preocupações estavam em grande parte resolvidas quando os filhos chegaram.
Comparações entre as experiências de infância de cada membro do casal apareceram em sete casais. As pessoas participantes descreveram emoções negativas, do ciúme ao ressentimento e ao luto, surgidas dessa comparação. O participante 15b observou: “Comparar meus pais com o que eles eram, com o que deveriam ter sido… [leva] só a ressentimento, a ficar remoendo.” Uma participante falou dos sentimentos negativos que surgem quando está com a família do parceiro e vê como todos são próximos uns dos outros: “Não sei se [minhas emoções negativas vêm do fato de isso] me lembrar algo de que eu não gostava, e aí eu quero mais espaço, ou se é que eu lamento não ter uma relação familiar assim” (10b).
Em muitos casais, as pessoas participantes com histórico de maus-tratos expressaram um sentimento de inadequação relacional, e essas preocupações ficavam mais salientes no momento de se tornarem pais. Uma díade, no entanto, mostrou a assimetria entre o modo como as pessoas que sofreram maus-tratos se viam como pais e o modo como o outro membro do casal as via. O participante 15b disse: “Tenho medo, o medo é de que me falte instinto parental, e ela tem isso de sobra”, enquanto a parceira achava que “ele faz um ótimo trabalho [como pai], só não tem a autoconfiança que deveria ter, porque se sai muito bem com ela” (15a). Essa díade mostra como é difícil convencer uma pessoa com histórico de maus-tratos de que ela está fazendo um bom trabalho na parentalidade. O sentimento de inadequação era forte para muitas pessoas que sofreram maus-tratos, e às vezes o outro membro do casal tinha dificuldade em saber como ajudá-las a superar essas crenças. Embora as pessoas que sofreram maus-tratos frequentemente expressassem preocupações sobre sua adequação parental, os casais em geral não consideravam o membro sem histórico de maus-tratos intrinsecamente com mais aptidão para a parentalidade. Essas preocupações pareciam refletir, antes, crenças internalizadas sobre a própria competência, por parte de quem sofrera maus-tratos, negociadas dentro do casal. Por exemplo, enquanto o parceiro 15b descrevia o medo de lhe faltar instinto parental, a parceira 15a atribuía as diferenças no apego do bebê a fatores situacionais (por exemplo, a preferência do bebê pela pessoa que cuida dele principalmente), e não a uma capacidade inata de cuidar. Tomados em conjunto, esses relatos sugerem que as percepções de inadequação não eram necessariamente interpretadas como reflexo de diferenças reais de capacidade parental, mas sim como crenças negociadas na relação, recalibradas por meio das experiências de coparentalidade.
Expressar esses sentimentos de inadequação às vezes era difícil para as pessoas participantes. Várias destacaram os obstáculos para buscar apoio e ajuda junto ao outro membro do casal ou a outras pessoas, como uma pessoa terapeuta, incluindo sentimentos de vergonha ou evitação.
Houve momentos em que eu sabia que tinha, diante de certas situações, uma reação que tirei direto de [minhas figuras parentais]. E foi difícil para mim admitir isso e comunicar isso à [minha esposa]… Tenho vergonha de voltar ao assunto. (25b)
Os casais descreveram um conjunto de estratégias que serviam não apenas para dar apoio prático durante a transição para a parentalidade, mas também para regular, dentro da relação de casal, as vulnerabilidades associadas aos maus-tratos na infância. Nas diferentes díades, essas estratégias pareciam favorecer a segurança emocional, reforçar a confiança parental e ajudar cada membro do casal a pôr em prática formas de cuidado diferentes das que conheceu na infância. A palavra “estável” aparecia com frequência nas entrevistas para descrever o apoio recebido do outro, traduzindo a sensação de segurança emocional e de estrutura que essas relações proporcionavam, em contraste com a inconstância e a falta de segurança que muitas vezes marcaram a infância dessas pessoas.
[Minha esposa] consegue, diante da totalidade da minha experiência, do meu caráter e da minha infância, permanecer estável nas próprias raízes. Ao passo que acho que essa é uma diferença em relação a relacionamentos anteriores que tive, já que confio na minha esposa, implícita e explicitamente. E faltava confiança naquelas pessoas para serem (detesto citar isso, mas como disse Sheryl Crow) fortes o bastante para ser minha [parceira], mas a ideia é essa. (Participante 15b)
Essa sensação de estabilidade não se limitava às pessoas cujo par não havia sofrido maus-tratos: nos casais em que os dois membros haviam sofrido maus-tratos, também se sentia uma estabilidade no outro. Além disso, embora essas entrevistas se concentrassem em ajudar o membro do casal com histórico de maus-tratos a encontrar apoio e a se ajustar à parentalidade, a maioria dessas estratégias também ajudava os membros sem histórico de maus-tratos e poderia ser útil para todos os casais nesse período.
Nas diferentes díades, a afirmação verbal e a escuta ativa funcionavam como mecanismos pelos quais um membro do casal regulava a autodúvida do outro ligada aos maus-tratos durante a transição para a parentalidade. Longe de serem apenas habilidades relacionais genéricas, essas práticas pareciam contrabalançar crenças de inadequação profundamente internalizadas, que as pessoas participantes associavam às suas experiências de infância.
“Quando ele demonstra reconhecimento, ou diz que acha que eu sou uma boa mãe, que as crianças adoram isso, ou que aquilo foi tão especial, eu disse a ele que essa é a forma mais fácil de me fazer sentir apoiada e amada.” (16a)
A afirmação do parceiro não era vivida simplesmente como elogio, mas como um retorno corretivo que questionava as dúvidas dela sobre sua competência para cuidar. Vale notar que as pessoas participantes frequentemente contrastavam essa afirmação com a ausência de validação nos lares da infância, o que sugere que as palavras tranquilizadoras do outro membro do casal tinham um peso emocional particular porque representavam algo que antes havia faltado.
A escuta funcionava, da mesma forma, como prática reguladora nas díades. As pessoas participantes descreveram como profundamente estabilizadora a disposição do outro para testemunhar sua história sem tentar consertá-la ou minimizá-la. Como explicou a participante 16a: “Ele sabe ouvir… não há nada que dê para fazer para, tipo, consertar isso, ou desfazer.”
A ênfase em testemunhar, e não em resolver, parecia especialmente significativa no contexto dos maus-tratos, em que as pessoas participantes muitas vezes descreveram ter se sentido não ouvidas ou desconsideradas na infância. Assim, a escuta operava não apenas como comunicação de apoio, mas como uma experiência relacional que validava a história das pessoas participantes e reduzia o isolamento durante a transição para a parentalidade.
Em conjunto, esses processos diádicos sugerem que a afirmação e a escuta funcionavam como formas de corregulação, ajudando as pessoas que sofreram maus-tratos a recalibrar crenças internalizadas sobre sua adequação parental ao assumir novos papéis de cuidado.
Outra estratégia útil adotada pelos casais era a responsabilização mútua pelo cumprimento das expectativas parentais estabelecidas para si e para a família. As pessoas participantes que sofreram maus-tratos disseram se sentir mais confiantes na capacidade de exercer a parentalidade de forma diferente da que receberam, porque contavam com o outro membro do casal para apontar qualquer comportamento problemático:
Tenho uma parceira muito boa, que me ajuda a ser responsável. E sinto que faço o mesmo por ela. Então não me intimida nem um pouco saber que tenho alguém que nunca tem medo de dizer exatamente o que pensa. (25b)
O participante 34b disse de modo semelhante: “Uma das coisas que ela me disse uma vez foi: ‘O único jeito de você virar o seu pai é não trabalhar em si mesmo.’ E acho que essa é uma das coisas que realmente ficaram comigo… Então eu vou trabalhar em mim mesmo.” Várias pessoas participantes descreveram as nuances necessárias para que essa estratégia fosse sentida como apoio, e não provocasse uma postura defensiva. Por exemplo, o participante 16b observou: “Eu nunca faço aquele negócio de ‘você está agindo igual à sua mãe’, mas eu falo: ‘Você não está ansiosa por causa de algo que eu disse, nem por algo que você esteja fazendo de errado. De onde vem isso?’”
Nas díades em que os dois membros relataram histórico de maus-tratos na infância, o apoio foi descrito com menos frequência como um membro do casal estabilizando o outro, e mais frequentemente como um compromisso compartilhado de vigiar padrões relacionais que pudessem reproduzir os vividos na infância. Nesses casais, as práticas de responsabilização foram descritas como recíprocas, e não corretivas, o que sugere que a corregulação se dava por meio de uma atenção mútua a evitar a repetição intergeracional.
A última estratégia discutida pela maioria dos casais foi a cocriação de limites e o apoio mútuo para sustentá-los. Muitas pessoas que sofreram maus-tratos ainda mantinham contato com suas figuras parentais, e ter um filho muitas vezes significava renegociar como seria essa relação. Muitas pessoas participantes disseram ter considerado necessário estabelecer limites entre essas figuras parentais e si mesmas ou seu filho, mas isso podia ser difícil, porque o processo podia despertar lembranças de impotência ou insegurança vividas na infância junto a essas figuras parentais. Uma das principais formas de apoio era ajudar a definir e sustentar esses limites, seja conversando sobre como seriam, seja ajudando o outro a elaborar as emoções diante das interações entre suas figuras parentais e a criança, seja fazendo valer os limites junto às figuras parentais do outro.
Várias pessoas sem histórico de maus-tratos descreveram sua experiência de ajudar a sustentar esses limites e sua disposição para intervir, se necessário, e ajudar o outro a negociar como esse limite deveria ser. A participante 25a descreveu esse processo:
[Os pais do meu parceiro] têm pouquíssimo ou nenhum contato com o nosso bebê, porque ele não quer que essa toxicidade, tipo, respingue nele. E eu sempre disse que a relação que ele quiser ter com eles é a relação que ele deve e pode ter. Mas, se ele achar que é melhor para o nosso filho não ter contato com eles, a decisão é dele. Se chegar um momento em que eu sinta que preciso intervir, ou se eu achar que ele está tomando a decisão errada, acho que aí eu bateria o pé.
Nos casais em que os dois membros haviam sofrido maus-tratos, as pessoas participantes às vezes descreveram como suas próprias experiências de infância aumentaram sua sensibilidade ao sofrimento relacional do outro e fortaleceram seu compromisso de apoiar a definição e a manutenção de limites. Em alguns casos, ter testemunhado, na própria família, o impacto emocional duradouro de dinâmicas familiares abusivas parecia motivar as pessoas participantes a apoiar ativamente o outro no estabelecimento de limites. Como refletiu um participante: “Sinceramente, acho que isso me deu a clareza para dar total apoio à minha esposa… Vendo como [o abuso] afetou minha mãe, eu não queria que minha esposa sofresse ou tivesse de lidar com aqueles desgostos e dificuldades emocionais do jeito que minha mãe teve” (61b).
O último tema refletia a forma como os casais descreveram uma reorientação conjunta de suas vidas em torno da família, traduzindo esforços compartilhados para construir uma abordagem da parentalidade distinta de suas experiências de infância.
Nunca senti tanto cansaço, mas também nunca tanta felicidade, tanto amor, tanta, tipo, satisfação: tudo simplesmente tem de crescer. Nunca amei tanto a minha vida. É só que o leque de experiências ficou maior. (49b)
Nas diferentes díades, os membros do casal descreveram um sentimento maior de pertencimento emocional dentro da relação após o nascimento do filho, muitas vezes apresentado como uma responsabilidade compartilhada para atravessar o início da parentalidade. “Na verdade, isso provavelmente até nos aproximou, no sentido de que, mesmo sem falar disso abertamente, a gente sente claramente que somos o time, tipo, sou eu e ela contra o mundo” (16b).
Esse participante explicou que esse sentimento de união depois da chegada do bebê talvez se devesse em parte ao histórico de maus-tratos da parceira, porque talvez fosse a primeira vez que ela sentia pertencer a um sistema familiar ou pensava a família como uma entidade de apoio. Esse fenômeno do “nós contra o mundo” parece intensificado para esses casais quando contrastado com a experiência de infância do membro do casal que sofreu maus-tratos ou com sua relação atual com essas figuras parentais.
Esse novo sentimento de conexão também estava ligado a uma consciência aguda do quanto cada membro do casal precisa do apoio do outro para criar um filho.
Eu me sinto mais próxima [do meu parceiro], como se essa experiência nos unisse. A gente precisa um do outro para criar nosso filho… Reconhecer como é importante ter a outra parte da parceria para a minha capacidade de enfrentar esse desafio ficou muito, muito evidente para mim. E então reconhecer o quanto eu preciso de um parceiro e dependo dele ganhou muito mais espaço na minha vida. (10b)
Em conjunto, esses relatos sugerem que a dependência mútua diante das exigências dos primeiros cuidados contribuiu para um senso compartilhado de parceria, vivido como protetor durante a transição para a parentalidade.
Em vários casais, os dois membros descreveram uma reflexão conjunta sobre se, e como, aspectos dos ambientes de cuidado da própria infância orientariam suas práticas parentais. Algumas pessoas descreveram uma confiança crescente em si mesmas depois de perceber que seus medos de repetir velhos padrões não se concretizaram.
Aquela ansiedade, aquela sensação assustadora de “E se eu virar mesmo o meu pai?”, meio que simplesmente… sumiu. … Não me vejo de jeito nenhum tratando ela do jeito que meus pais fizeram. Para mim é tão óbvio, tipo: você não é mais o seu pai, nunca vai ser. (34b)
Os casais descreveram uma tomada de decisão conjunta sobre as estratégias parentais que funcionavam para eles como família, extraídas de diversas fontes e modelos. Amigos com filhos, lideranças e ensinamentos religiosos, a própria família extensa e simplesmente fazer o contrário do que as figuras parentais faziam foram todos modelos mencionados. Os casais em geral não interpretavam o histórico de maus-tratos na infância como indício de menor capacidade parental. Em vez disso, a parentalidade era descrita como um processo colaborativo, no qual os dois membros do casal podiam desenvolver novas práticas de cuidado, qualquer que fosse a experiência anterior. O participante 15b explicou bem esse fenômeno com uma analogia.
Meu primeiro instinto é, tipo, ir ao mercado com o que a gente pode aprender da nossa vida. Tipo: “Ah, isso parece ótimo. Quero experimentar.” E, se você experimenta e funciona para você, acho que você continua cozinhando com esse ingrediente. E, se não funciona, você deixa de usar, mas não se trata de trocar os meus pais pelos pais dela.
Essa convicção permitia que as pessoas que sofreram maus-tratos se sentissem competentes e valorizadas na coparentalidade e ajudava a reduzir o estigma da falta de preparo para a parentalidade por causa de um histórico de maus-tratos.
Muitos casais descreveram uma coparentalidade intencional. Abordar a parentalidade com esse nível de planejamento e estrutura talvez fosse mais comum por causa da ansiedade em repetir padrões anteriores de maus-tratos.
Uma coisa que eu adoro no [meu parceiro] e no jeito como ele escolhe exercer a parentalidade é que ele escolhe ativamente; tipo, quando eu estava grávida, ele teve vários momentos muito vulneráveis e emotivos em que dizia mais ou menos: “Eu sou como os meus pais. Tenho medo de que, se isso é tudo o que eu conheço, isso seja tudo o que eu posso ser.” E eu adoro que ele pense nesse tipo de coisa, porque é óbvio que não é isso que ele quer. Tipo, ele quer ser melhor, e quer ser diferente para os nossos filhos. E ele obviamente supera todas as expectativas. (25a)
Outras pessoas participantes com histórico de maus-tratos explicaram a preparação e o esforço que dedicavam para garantir que não dariam continuidade ao ciclo de maus-tratos. Muitas vezes, isso envolvia lidar com as emoções ou reagir de outra forma durante os conflitos. Por exemplo, a participante 23b afirmou: “Eu quero tanto não cometer os mesmos erros que meus pais cometeram que fica fácil para mim [me acalmar durante um conflito], tipo, principalmente agora que tem o bebê também.” O outro membro do casal frequentemente dizia incentivar ou reforçar esses esforços, apresentando a parentalidade intencional como um compromisso compartilhado do casal.
Nas diferentes díades, a resiliência no contexto dos maus-tratos foi muitas vezes descrita como fruto de um compromisso compartilhado de pôr em prática práticas de cuidado diferentes dentro do próprio sistema familiar.
Toda a [porcaria] que eu passei quando criança, sabe, acho que, se eu não tivesse passado por isso, não seria o pai que sou hoje. Acho que todas as [coisas] que eu passei me fizeram um marido melhor e um pai melhor. (34b)
O presente estudo examinou como casais atravessaram a transição para a parentalidade no contexto de um histórico de maus-tratos na infância, com atenção especial ao modo como os dois membros do casal davam sentido conjuntamente às experiências de cuidado anteriores e se apoiavam mutuamente ao assumir novos papéis de cuidado. Os resultados sugerem que a influência dos maus-tratos na infância sobre o ajustamento à parentalidade talvez seja mais bem compreendida como um processo relacional, negociado dentro do casal à medida que seus membros se preparam para as responsabilidades de cuidado e as exercem. Nas diferentes díades, cada membro do casal contribuía para identificar, validar e reinterpretar as experiências anteriores de maus-tratos do outro, e esses processos de construção compartilhada de sentido pareciam moldar o modo como os casais anteciparam os desafios ligados à parentalidade e responderam a eles.
Em consonância com o Tema 1 (construção relacional de sentido), as pessoas participantes descreveram o outro membro do casal como alguém que desempenhava um papel ativo para ajudar a nomear ou reinterpretar experiências de cuidado anteriores que até então tinham sido minimizadas ou normalizadas. Em algumas díades, esse processo envolvia um questionamento delicado (por exemplo, perguntar de onde vinham certas reações emocionais), enquanto em outras o outro membro do casal estabelecia de forma mais direta conexões entre comportamentos parentais atuais e as experiências vividas com as próprias figuras parentais. Tomados em conjunto, esses relatos sugerem que o casal funcionava como um espelho relacional, por meio do qual modelos de cuidado anteriores podiam ser identificados e reconsiderados. Em vários casos, isso parecia contribuir para uma sensação de estabilidade na relação, descrita pelas pessoas participantes como constância emocional, previsibilidade das reações durante os conflitos ou uma capacidade compartilhada de fazer uma pausa e refletir se uma reação expressava os valores parentais atuais ou experiências anteriores.
Em linha com a literatura anterior (por exemplo, Belsky e Isabella, 1985; Chamberlain et al., 2019a), os casais com histórico de maus-tratos na infância viveram desafios particulares na relação ou na transição para a parentalidade. As pessoas participantes com histórico de maus-tratos frequentemente expressavam medo de repetir padrões negativos de cuidado; no entanto, o outro membro do casal em geral não interpretava essas preocupações como reflexo de diferenças intrínsecas de capacidade parental. As preocupações com a própria adequação pareciam refletir, antes, crenças internalizadas sobre a competência, negociadas dentro da relação. Em várias díades, a diferença percebida de confiança no cuidado era atribuída a fatores situacionais (por exemplo, padrões de apego do bebê ou experiência de cuidado), e não a diferenças estáveis de capacidade parental, o que sugere que a competência parental era construída ao longo do tempo, e não herdada.
O Tema 3 destacou as formas pelas quais os membros do casal ajudavam a corregular emoções e comportamentos surgidos durante a transição para a parentalidade. Foi descrito um conjunto de comportamentos de apoio que pareciam regular as vulnerabilidades associadas aos papéis de cuidado previstos. A afirmação verbal, a escuta ativa e a responsabilização mútua eram vividas não só como práticas de comunicação de apoio, mas como mecanismos pelos quais cada membro do casal ajudava o outro a lidar com a autodúvida ligada à parentalidade, associada a experiências de cuidado anteriores. Da mesma forma, definir e manter juntos limites com as famílias de origem foi descrito como um processo relacional, em que um ajudava o outro a atravessar decisões emocionalmente complexas sobre a continuidade do contato com figuras parentais que haviam sido fonte de dano. Essa dinâmica reguladora às vezes era diferente nas díades em que os dois membros relataram histórico de maus-tratos: nelas, o apoio era descrito menos como um membro do casal estabilizando o outro e mais como um esforço compartilhado para vigiar padrões relacionais que pudessem espelhar os vividos na infância. Esses resultados são coerentes com perspectivas baseadas no apego, segundo as quais relações adultas de apoio podem facilitar a revisão de modelos de funcionamento anteriores no contexto de novos papéis de cuidado (Rholes et al., 2021; Simpson et al., 2003).
De modo geral, as díades tenderam a relatar uma visão resiliente e intencional da parentalidade e da vida familiar (Tema 4). A teoria do apego sugere que as primeiras relações com as figuras de cuidado moldam os estilos de apego até a vida adulta (Fraley e Roisman, 2019). Embora pessoas que sofreram maus-tratos frequentemente desenvolvam estilos de apego inseguros, experiências de vida que contradizem os modelos de funcionamento precoces, como uma relação amorosa segura, podem favorecer um apego mais seguro (Rholes et al., 2021; Simpson et al., 2003). Isso poderia explicar a visão amplamente positiva das pessoas participantes. Apesar de terem sofrido maus-tratos, muitas viam o período perinatal como uma oportunidade de reescrever juntas sua narrativa e de fazer as coisas de modo diferente de suas figuras parentais. Muitas consideravam a relação como a base estável a partir da qual podiam criar essa nova narrativa, e pouquíssimas mantinham preocupações profundas sobre repetir velhos padrões depois do nascimento do filho. Embora muitas tivessem tido, mais cedo na vida, ansiedade em relação aos relacionamentos ou à parentalidade por causa da criação que receberam, conseguir construir uma parceria bem-sucedida e atravessar juntas os desafios do período perinatal lhes deu confiança de que podiam romper o ciclo de maus-tratos.
Várias limitações devem ser consideradas na interpretação desses resultados. O presente estudo se concentrou em casais em relações comprometidas e duradouras, cujos dois membros estavam dispostos a participar de uma pesquisa conjunta. Considerando que os maus-tratos na infância têm sido associados a dificuldades posteriores no funcionamento relacional (Zamir, 2022), é possível que as pessoas mais fortemente afetadas por seu histórico de maus-tratos tenham tido menos probabilidade de estar representadas nesta amostra. A participação também exigia o consentimento dos dois membros do casal, o que pode ter limitado ainda mais a inclusão de casais com níveis mais altos de sofrimento ou instabilidade relacional. Os maus-tratos graves na infância costumam estar associados a dificuldades funcionais mais amplas na vida posterior (Kim e Cicchetti, 2010; McLaughlin et al., 2020), e não apenas a dificuldades relacionais; assim, a presente amostra pode não refletir toda a gama de dificuldades de ajustamento vividas por pais com histórico de maus-tratos. Embora isso limite a generalização, o estudo buscou examinar os processos diádicos pelos quais os casais atravessam a transição para a parentalidade no contexto de maus-tratos na infância, dentro de relações em curso.
Como a participação exigia que os dois membros do casal conhecessem as experiências de infância e estivessem dispostos a falar delas no âmbito de um estudo de entrevistas com o casal, esses resultados refletem a experiência de casais em que o histórico de maus-tratos já havia sido revelado dentro da relação. Pesquisas futuras poderiam explorar a experiência de pais que não revelaram seu histórico de maus-tratos ao outro membro do casal, por meio de metodologias centradas na pessoa que não envolvam a participação do casal, dadas as complexidades éticas e relacionais inerentes ao estudo da não revelação em desenhos diádicos.
Por fim, restringir a participação a casais falantes de inglês limitou nossa capacidade de examinar como fatores culturais ou linguísticos podem moldar a construção de sentido sobre os maus-tratos na infância e sua influência no ajustamento coparental. Pesquisas futuras poderiam examinar explicitamente o papel da cultura na forma como os maus-tratos são interpretados entre gerações e nas relações de casal durante a transição para a parentalidade.
Este estudo amplia nossa compreensão de como os maus-tratos moldam a transição para a parentalidade nas relações amorosas e coparentais. Enquanto a pesquisa anterior enfatiza os riscos associados aos maus-tratos, nossos resultados mostram como processos relacionais podem apoiar o ajustamento à parentalidade.
A revelação precoce dos maus-tratos e a validação pelo outro membro do casal ajudaram a aliviar o medo da inaptidão para a parentalidade. Em contextos clínicos, terapeutas podem considerar apoiar os casais a conversar sobre como as experiências passadas moldam as expectativas em relação à coparentalidade, de modo a estimular um diálogo aberto sobre o histórico de maus-tratos. As pessoas participantes também consideraram muitas vezes catártico falar de sua história nas entrevistas, o que sugere que espaços seguros de reflexão e construção de sentido têm valor clínico.
As pessoas participantes descreveram várias práticas relacionais que as ajudaram a lidar com inseguranças ligadas à parentalidade após maus-tratos na infância. Em particular, o outro membro do casal muitas vezes funcionava como fonte externa de regulação da autodúvida, oferecendo palavras tranquilizadoras sobre a competência parental e validando preocupações nascidas de experiências de cuidado anteriores. Muitas pessoas participantes descreveram a escuta do outro como especialmente significativa, porque criava um espaço em que seu histórico de maus-tratos podia ser testemunhado sem precisar ser “consertado”. Em contextos clínicos, terapeutas podem considerar ajudar os casais a desenvolver práticas semelhantes, por exemplo ajudando cada membro do casal a reconhecer os momentos em que palavras tranquilizadoras, uma escuta atenta ou a validação emocional podem ser mais úteis do que a resolução de problemas diante das angústias ligadas à parentalidade.
Um resultado novo foi o papel decisivo do outro membro do casal em ajudar as pessoas com histórico de maus-tratos a ganhar efetividade interpessoal diante da família de origem. Intervenções para casais com histórico de maus-tratos durante essa transição podem se beneficiar da inclusão de conversas sobre como poderiam ser os limites com as figuras parentais e de uma atenção geral às habilidades de efetividade interpessoal, como as ensinadas na terapia comportamental dialética (DBT; Linehan, 2015), para ajudar os dois membros do casal a contar com as ferramentas necessárias para fazer valer os limites que consideram indispensáveis para o novo filho.
Embora a pesquisa anterior sobre maus-tratos na infância e transição para a parentalidade tenha se concentrado sobretudo nas mães, a inclusão de díades mãe-pai nos permitiu examinar também a experiência dos pais. Os resultados sugerem que os processos relacionais de apoio e de construção de sentido podem ter funções protetoras tanto para mães quanto para pais com histórico de maus-tratos, estendendo à transição para a paternidade os trabalhos anteriores sobre a transição para a maternidade (Chamberlain et al., 2019a; Christie et al., 2017).
Este estudo fenomenológico interpretativo explorou como casais com histórico de maus-tratos na infância atravessam a transição para a parentalidade. Foram identificados quatro processos diádicos inter-relacionados: a construção relacional de sentido sobre os maus-tratos na infância, os desafios relacionais ativados pelo histórico de maus-tratos, o apoio diádico como corregulação da vulnerabilidade ligada aos maus-tratos e a orientação resiliente e intencional dos casais para a vida familiar. Em conjunto, esses resultados mostram que as experiências de maus-tratos na infância não são negociadas isoladamente durante a transição para a parentalidade, mas interpretadas e manejadas conjuntamente dentro da relação de casal. Por meio da reflexão compartilhada, da definição conjunta de limites e do apoio mútuo diante das preocupações ligadas à parentalidade, os casais descreveram um trabalho conjunto para construir formas de cuidado distintas de suas próprias experiências de infância e traçar um novo rumo para a família.
Complexe Systémique: a reter
O interesse deste estudo está em deslocar a questão da transmissão dos maus-tratos: em vez de medir um risco carregado por uma única pessoa, ele observa o que o casal faz com isso quando nasce o primeiro filho. O outro membro do casal se torna ora uma testemunha que nomeia o que havia sido minimizado, ora uma fonte externa de regulação da autodúvida, ora um aliado para estabelecer limites com a família de origem. Para a clínica sistêmica, é um convite a trabalhar a coparentalidade nascente como um espaço em que a história de cada pessoa pode ser reconhecida sem precisar ser “consertada”, e em que as lealdades a pais que maltrataram são renegociadas ao longo de três gerações. Os limites são claros: onze casais casados, de renda relativamente alta e falantes de inglês, que já haviam conversado sobre os maus-tratos e aceitaram participar juntos; os casais em sofrimento intenso, ou aqueles em que o segredo predomina, ficam de fora, e o quadro corre o risco de ser tranquilizador demais. Para ler junto com o artigo sobre as expectativas diádicas na transição para a parentalidade e com o artigo sobre a transmissão intergeracional do trauma.
Notas do original
Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver conflitos de interesse.
Financiamento. A equipe de pesquisa não relata financiamento.
Disponibilidade dos dados. Os dados que sustentam os resultados deste estudo estão disponíveis com a pessoa que assina primeiro, mediante solicitação razoável.
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Tradução não oficial em português de “Não cometer os mesmos erros de jeito nenhum”: o ajustamento do casal à parentalidade no contexto de maus-tratos na infância, de Laura N. Martin, Keith D. Renshaw, A. Grace Kelly e Debora G. Goldberg, Infant Mental Health Journal, vol. 47(4), e70106 (2026), doi: 10.1002/imhj.70106, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de ““Desperate not to make the same mistakes”: Couple adjustment to parenthood in the context of childhood maltreatment”, publicado em Infant Mental Health Journal (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Martin, L. N., Renshaw, K. D., Kelly, A. G., et Goldberg, D. G. (2026). “Não cometer os mesmos erros de jeito nenhum”: o ajustamento do casal à parentalidade no contexto de maus-tratos na infância (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/nao-cometer-os-mesmos-erros-de-jeito-nenhum-o-ajustamento-do-casal-a-parentalidade (Obra original publicada em 2026 em Infant Mental Health Journal, 47(4), e70106 (2026); republicada em 2026 por Infant Mental Health Journal, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/imhj.70106)
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