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International Journal of Environmental Research and Public Health · Terapia familiar
Quando um adolescente já não larga as telas, é preciso chamar a família? Em Hong Kong, dez profissionais de dependências e do serviço social contam como envolvem os pais: psicoeducação, ajuste de expectativas, sessões conjuntas para retomar o diálogo. A resposta é matizada: a família é um recurso decisivo, desde que sua participação seja bem dosada e que uma relação que se tornou hostil não seja reunida cedo demais.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de O envolvimento da família no tratamento da dependência de internet na adolescência: um estudo qualitativo com profissionais, de Camilla Kin Ming Lo, Lu Yu, Yuet Wing Cho e Ko Ling Chan, publicado na International Journal of Environmental Research and Public Health (MDPI) (2021), doi: 10.3390/ijerph18010086, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de listas; os títulos dos três temas, simples parágrafos na fonte, são apresentados como intertítulos; as declarações de fim de artigo foram reunidas nas notas e os endereços de e-mail não foram reproduzidos. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Quando a relação entre pais e filhos é hostil e ineficaz, não é adequado convidar os pais para a sessão.
Camilla Kin Ming Lo, Lu Yu, Yuet Wing Cho e Ko Ling Chan
Resumo
Apesar das evidências crescentes sobre a eficácia de uma abordagem centrada na família como modalidade de tratamento da dependência de internet (DI) na adolescência, poucas pesquisas exploraram o envolvimento da família no processo de tratamento do ponto de vista da clínica. Este estudo empregou um delineamento qualitativo para examinar a visão de profissionais sobre os papéis e os desafios da participação familiar nas intervenções para DI. Ao todo, 10 profissionais que trabalham com adolescentes com DI deram entrevistas. As entrevistas transcritas foram submetidas a uma análise temática. Foram sintetizados três temas gerais: o envolvimento da família na intervenção para DI é desafiador, mas importante; deslocar o foco do adolescente para a relação; e oferecer serviços e intervenções individualizados para responder à natureza heterogênea dos casos. Os resultados mostram que a participação familiar no tratamento da DI favorece desfechos positivos. As necessidades dos adolescentes com DI e as dos familiares são atendidas, respectivamente, pelo aconselhamento individual e pela psicoeducação. As sessões de terapia conjunta favorecem uma comunicação eficaz, melhoram as interações e o funcionamento familiares e restauram as relações. No entanto, é preciso cautela com a dinâmica familiar ao avaliar se o envolvimento da família é apropriado. Profissionais precisam construir alianças terapêuticas e ter flexibilidade ao trabalhar com familiares quanto ao grau e à forma de participação.
Palavras-chave: dependência de internet, transtorno de jogo, tratamento, envolvimento da família
Um padrão disfuncional de uso excessivo de internet e de jogos tem sido, nos últimos anos, um dos problemas de saúde mais preocupantes da adolescência. Por falta de consenso sobre sua definição e conceituação, esse padrão disfuncional de uso de internet e de jogos foi designado na literatura por diferentes termos intercambiáveis. Com mais frequência, foi chamado de dependência de internet (DI), caracterizada pela incapacidade de controlar o uso da internet, com consequências negativas para a saúde física e psicológica [1]. O termo DI tem sido usado para descrever um padrão generalizado de uso aditivo da internet. Mais recentemente, o transtorno de jogo, forma específica de dependência de internet, foi reconhecido oficialmente pela Organização Mundial da Saúde [2] como um diagnóstico de saúde legítimo. Em uma metanálise recente de 113 estudos epidemiológicos, as taxas de prevalência da DI e do transtorno de jogo foram de 7,02% e 2,47%, respectivamente [3]. Os resultados de pesquisa mostram de forma consistente uma série de efeitos adversos da DI sobre a saúde e as relações, incluindo depressão, problemas de sono e agressividade física [4]. Além disso, uma metanálise revelou uma associação significativa entre uso excessivo da internet e déficits cognitivos [5].
Diante da prevalência crescente da DI, multiplicaram-se as pesquisas sobre seus correlatos. Em particular, há um volume crescente de pesquisas sobre a influência da família nos comportamentos de DI de adolescentes. Uma revisão sistemática recente mostrou que fatores ligados à relação pais-filhos e à família estão associados de forma consistente à DI na adolescência [6]. Quanto às práticas parentais, práticas desadaptativas, incluindo indulgência, superenvolvimento, métodos disciplinares punitivos, rejeição frequente e pouco afeto, estão relacionadas ao surgimento do uso problemático da internet em adolescentes [7,8]. Ao contrário, um forte apoio emocional e cuidado parental protegem contra a DI [8,9,10]. Além das práticas parentais, um funcionamento familiar construtivo, incluindo os papéis familiares e o envolvimento afetivo na família, é outro fator importante que contribui para um menor risco de DI na adolescência [11,12]. A coesão familiar, expressa por uma relação saudável entre os pais [13], boa comunicação entre pais e filhos [14,15] e menos conflitos [10,12], também mostrou ter efeitos protetores profundos sobre o surgimento e a remissão da DI na adolescência. Em suma, esses estudos evidenciam a importância de adotar uma abordagem familiar nos programas de tratamento da DI na adolescência.
Apesar do grande volume de pesquisas que demonstram claramente a associação entre ambiente familiar e DI na adolescência, há surpreendentemente pouquíssimos estudos que adotam uma abordagem centrada na família como modalidade de tratamento da DI. Na escassa literatura publicada nessa área, a equipe de Zhong [16] sugeriu que a intervenção familiar era mais eficaz que a intervenção individual convencional para reduzir o uso da internet entre adolescentes, graças à duração de seus efeitos. Outro estudo avaliou um programa breve de terapia familiar de três semanas, no qual díades pais-adolescente participavam de atividades para melhorar a coesão familiar, e constatou melhora no tempo de jogo on-line e na gravidade da dependência dos adolescentes [17]. Mais recentemente, uma intervenção de terapia de grupo multifamiliar de seis semanas também se mostrou eficaz para reduzir os comportamentos de DI de adolescentes [18]. Os resultados foram explicados em parte pelo fortalecimento da comunicação positiva e da proximidade entre pais e adolescentes e pela satisfação das necessidades psicológicas dos adolescentes na vida real. Esses estudos fornecem evidências iniciais e importantes da eficácia da intervenção familiar para atenuar a DI na adolescência por meio da modificação de fatores familiares de risco e de proteção, como a coesão familiar e a comunicação entre pais e adolescentes.
Embora a literatura peça evidências adicionais sobre intervenções familiares, obtidas com delineamentos rigorosos de ensaios controlados randomizados, para fundamentar a base de evidências das intervenções para DI, é igualmente importante considerar a expertise clínica e as características das pessoas atendidas, que são dois dos três pilares da prática baseada em evidências [19]. Atualmente, os estudos qualitativos sobre a experiência das equipes clínicas nos processos de tratamento da DI são muito limitados. A pesquisa publicada mais pertinente reuniu a visão de equipes clínicas sobre o tratamento da DI; parte delas apontou a importância de envolver familiares no tratamento, destacando seu papel em fornecer informações úteis sobre os impactos da DI na pessoa em questão e em participar da avaliação dos resultados do tratamento [20].
Antes de estudar mais a fundo a eficácia da intervenção familiar para a DI, um passo crucial é esclarecer o papel preciso dos familiares no tratamento e entender se determinadas díades adolescente-família podem exigir cuidados especiais. Assim, o presente estudo qualitativo teve como objetivo captar e analisar, do ponto de vista de profissionais, as experiências e os desafios ligados ao envolvimento da família no tratamento da DI na adolescência, para orientar melhor o desenho de intervenções futuras e a prática clínica.
Para recrutar profissionais da área da DI, cartas-convite foram enviadas a serviços especializados de aconselhamento em dependências e a centros de serviço social para famílias e jovens de Hong Kong, além da rede profissional da pessoa que assina em primeiro lugar. Para participar, era preciso (1) atuar no serviço social, no aconselhamento ou na psicologia, (2) ter pelo menos um ano de experiência em tempo integral com adolescentes com dependência de internet entre os casos atendidos e (3) dar consentimento por escrito. As pessoas que preenchiam todos os critérios participaram de uma entrevista individual em profundidade de cerca de 45 minutos por Skype ou Zoom. As entrevistas foram conduzidas em chinês (cantonês) por uma pessoa da equipe de pesquisa capacitada para isso. Um roteiro de entrevista semiestruturado orientou o andamento das entrevistas. Cada pessoa participante recebeu um vale-compras de supermercado de 100 HKD (cerca de 12,8 USD) como agradecimento. Todas as entrevistas foram realizadas entre 28 de março e 11 de julho de 2020.
O presente estudo qualitativo coletou e analisou, por meio de entrevistas em profundidade, as visões e práticas de profissionais quanto ao envolvimento da família na intervenção para DI. As entrevistas abordaram as seguintes áreas de discussão: (1) as perspectivas subjetivas de profissionais sobre os papéis dos familiares e sobre a eficácia percebida do envolvimento familiar no tratamento da DI, e (2) as experiências, dificuldades e considerações relativas à participação da família nos programas de intervenção. Exemplos de perguntas de entrevista para cada área de discussão constam da tabela 1.
Tabela 1 — Perguntas de entrevista
Ao todo, 10 profissionais participaram do recrutamento e das entrevistas deste estudo. A tabela 2 apresenta as características das pessoas participantes. Eram profissionais de aconselhamento em dependências e do serviço social, e uma psicóloga de aconselhamento, atuando em centros especializados de tratamento de dependências, além de profissionais do serviço social em contextos escolares e familiares. Oito pessoas eram especializadas na oferta de aconselhamento em dependências, e duas no trabalho com jovens e famílias. Tinham em média 9,4 anos de experiência clínica e 5,9 anos de experiência com DI. Metade das pessoas participantes eram mulheres. As orientações teóricas e de intervenção que declaravam incluíam terapia pelas artes expressivas, terapia cognitivo-comportamental e terapia narrativa.
Tabela 2 — Informações sociodemográficas das pessoas participantes
Para cada pessoa: idade; sexo; maior escolaridade; profissão; área de serviço social; abordagem terapêutica declarada; experiência clínica com jovens e famílias (anos); experiência clínica com adolescentes com DI (anos).
O projeto de pesquisa e o protocolo do estudo foram aprovados pelo subcomitê de ética em pesquisa com seres humanos da Universidade Politécnica de Hong Kong (número de referência HSEARS20190530002). Todas as pessoas participantes assinaram um termo de consentimento por escrito que garantia a confidencialidade e o direito de se retirar a qualquer momento do estudo. Nenhum dado de identificação pessoal foi coletado durante as entrevistas.
Todas as entrevistas foram gravadas em áudio, transcritas literalmente em um processador de texto e codificadas com o software de análise qualitativa NVivo. Para descrever e analisar as informações coletadas em um formato acessível, foi realizada uma análise temática [21]. A análise temática permite não apenas resumir os dados em um formato condensado e sistemático, mas também gerar, a partir dos dados qualitativos brutos, temas para a análise e a interpretação de padrões [22]. Ela foi usada para identificar padrões temáticos dentro dos dados e entre eles, em relação às experiências, visões e perspectivas das pessoas participantes e às suas práticas de envolver familiares no tratamento e na intervenção para DI. A pessoa que assina em primeiro lugar leu todas as transcrições para se familiarizar com os dados. Essa pessoa e outras duas pessoas responsáveis pela codificação (a pessoa que assina em terceiro lugar e uma pessoa da equipe de pesquisa) codificaram de forma independente uma transcrição, depois discutiram e resolveram as divergências de codificação. Em seguida, elaborou-se um livro de códigos para codificar as transcrições seguintes, e as pessoas responsáveis pela codificação foram capacitadas para codificar os dados de acordo com ele. Considerando um dos pressupostos fundamentais da análise temática, segundo o qual uma abordagem flexível, orgânica e reflexiva deve guiar o processo de codificação, a codificação múltipla e o cálculo da confiabilidade entre avaliadores não são recomendados [23]. Assim, depois que as duas pessoas responsáveis pela codificação concluíram a codificação de todas as transcrições, a pessoa que assina em primeiro lugar revisou a codificação e discutiu com elas as divergências, para garantir o rigor dos dados e a coerência do procedimento analítico. O processo de codificação ativo e reflexivo evidenciou a subjetividade da equipe de pesquisa e favoreceu, nas etapas posteriores da análise, a construção de temas mais complexos e matizados. Os códigos de alta frequência (mencionados por cinco ou mais pessoas participantes) foram então identificados e conceituados em temas significativos em um nível latente, com o objetivo de estabelecer relações entre os códigos e captar os significados implícitos do envolvimento familiar no tratamento da DI nas experiências socialmente construídas das pessoas participantes [21]. A tabela 3 detalha as fases da análise temática, adotadas de Braun e Clarke [21] e seguidas no presente estudo.
Tabela 3 — Fases da análise temática
Três grandes temas foram construídos após uma análise aprofundada dos dados qualitativos coletados nas entrevistas: (1) o envolvimento da família na intervenção para DI é desafiador, mas importante; (2) deslocar o foco do adolescente para a relação; (3) oferecer serviços e intervenções individualizados para responder à natureza heterogênea dos casos. A tabela 4 apresenta uma síntese dos temas com as respectivas falas ilustrativas.
Tabela 4 — Temas e falas ilustrativas da análise temática
Oito profissionais concordaram que o envolvimento da família era eficaz para fazer avançar o processo de tratamento e favorecer desfechos positivos. Em especial, era primordial que os familiares compreendessem as necessidades subjacentes das pessoas atendidas e tivessem empatia por elas (n = 10). Profissionais trabalhavam com os familiares incentivando-os a refletir ativamente sobre os comportamentos de DI das pessoas atendidas e a ganhar novas perspectivas sobre as funções latentes do uso da internet. A fala a seguir exemplifica isso:
Os pais geralmente não percebem as necessidades não atendidas e os problemas que os filhos enfrentam. Minha estratégia é ajudá-los a entender as necessidades por trás dos comportamentos de DI e a ver o problema da perspectiva dos filhos.
(Pessoa participante 8)
Muitas vezes, os familiares tinham expectativas irrealistas em relação às pessoas atendidas quanto à mudança nos comportamentos de DI, no sentido de que sua fixação no problema os impedia de perceber o potencial desses jovens. Por isso, profissionais também trabalhavam com os pais para ajustar suas expectativas sobre os papéis e as responsabilidades parentais (n = 5). A fala a seguir é um exemplo de como isso foi descrito na entrevista:
A abstinência de internet não é sustentável para adolescentes. Por isso, oriento os pais sobre como ajustar suas expectativas e negociar com os filhos para encontrar um meio-termo em que as duas partes cheguem a um equilíbrio aceitável e satisfatório.
(Pessoa participante 4)
Outro elemento essencial era a psicoeducação dos pais (n = 7). Profissionais buscavam oferecer aos familiares conhecimentos sobre a DI, abordagens parentais positivas, habilidades de comunicação eficaz e estratégias de resolução de conflitos. A fala a seguir mostra como a psicoeducação era conduzida com os pais:
Além do trabalho com adolescentes, meu trabalho se concentra muito na educação dos pais. Ajudo os pais a rever a relação com os filhos e suas percepções sobre a parentalidade. Também compartilho com eles diferentes estratégias parentais por meio de estudos de caso e dramatizações.
(Pessoa participante 6)
Apesar de sua importância, o envolvimento da família enfrentava diferentes desafios. Uma pessoa participante explicou como a falta de percepção dos familiares sobre sua própria contribuição para a DI das pessoas atendidas podia ser um obstáculo ao tratamento (n = 5):
Alguns casos são difíceis de conduzir porque os pais ficam na defensiva e se colocam à margem da situação. É difícil para eles aceitar que sua história pessoal pode contribuir para a DI dos filhos.
(Pessoa participante 5)
A eficácia do envolvimento familiar também era limitada pela frustração, pelo estresse e pelo desamparo dos familiares (n = 6), somados a problemas familiares complexos e arraigados (n = 5):
Não é raro que os pais, especialmente as mães, sofram de depressão por causa da DI dos filhos. Nessas situações, limitar o grau de engajamento com os familiares pode ser uma opção melhor.
(Pessoa participante 10)
Quando os familiares se comprometiam com o tratamento da DI, profissionais adotavam uma orientação de intervenção centrada na relação, em vez de uma abordagem centrada no indivíduo (n = 6). Criava-se um espaço seguro e aberto para que pais e pessoas atendidas elaborassem com calma seus pensamentos e sentimentos, a fim de favorecer a compreensão mútua e restaurar a relação entre pais e filhos (n = 6). Essa comunicação de mão dupla é ilustrada pela fala a seguir:
Geralmente fazemos uma entrevista conjunta, que permite que pais e filhos deem voz a pensamentos e emoções ocultos. Alcança-se uma comunicação coesa e eficaz, que lhes permite avançar na resolução do conflito e na reconciliação, com a minha presença como mediador.
(Pessoa participante 6)
A base da capacidade de construir relações com as pessoas atendidas e seus familiares era a aliança terapêutica (n = 5). A pessoa citada a seguir explicou como uma atitude sem julgamentos e a consideração positiva incondicional tinham papel decisivo para estabelecer confiança e vínculo:
Acredito que o primeiro passo para construir relações terapêuticas é não julgar e conquistar a confiança das pessoas atendidas. Quando elas se sentem aceitas e ouvidas, ficam mais propensas a se engajar no processo, seguir minhas orientações e mudar de comportamento.
(Pessoa participante 1)
Em contrapartida, os familiares questionavam o profissionalismo e a credibilidade de profissionais quando a confiança era limitada no início da construção da relação (n = 5). Por exemplo:
Alguns pais têm dúvidas sobre a minha forma de conduzir as sessões de aconselhamento. Eles questionam minha competência, como assistente social, para mediar a relação familiar.
(Pessoas participantes 2 e 10)
A maioria das pessoas entrevistadas tinha flexibilidade em suas orientações terapêuticas, de acordo com a idade e o gênero das pessoas atendidas, bem como com suas necessidades e motivações (n = 8). Combinações de diferentes abordagens, da terapia cognitivo-comportamental e da entrevista motivacional à terapia narrativa, à abordagem focada em soluções e à terapia pelas artes expressivas, eram incorporadas ao longo do processo. Do mesmo modo, os objetivos de intervenção e os critérios de encerramento do tratamento eram personalizados para cada pessoa atendida. Como resultado, observou-se uma grande variedade de desfechos, com durações de tratamento diversas (n = 8).
Embora o tema anterior destacasse a importância do envolvimento familiar, profissionais consideravam o ambiente familiar, a disposição e a motivação dos pais e os objetivos da intervenção antes de decidir se envolver os familiares seria benéfico para o processo (n = 8). A fala a seguir, por exemplo, mostra como dinâmicas e relações familiares disfuncionais podiam impedir os pais de participar da intervenção (n = 7):
Quando a relação entre pais e filhos é hostil e ineficaz, não é adequado convidar os pais para a sessão, porque podem surgir discussões no processo. Eles não estão preparados psicologicamente para ouvir uns aos outros e discutir a questão.
(Pessoas participantes 6 e 7)
Diante da heterogeneidade das trajetórias e das necessidades de tratamento das pessoas atendidas, o grau e a forma do envolvimento familiar eram definidos caso a caso (n = 8). Por exemplo, profissionais podiam trabalhar separadamente com as pessoas atendidas e com os familiares no início, e iniciar sessões conjuntas numa etapa posterior do tratamento. Na fala a seguir, uma pessoa participante descreve a lógica dessa organização:
Geralmente me encontro com a pessoa atendida e com os familiares separadamente nas primeiras sessões, para construir o vínculo. É mais fácil conquistar a confiança dos adolescentes e engajá-los quando se sentem seguros para compartilhar seus sentimentos e dificuldades em um ambiente privado. Dependendo do caso, organizo a vinda dos pais à sessão e ofereço espaço para que negociem e cheguem a acordos com os filhos.
(Pessoa participante 4)
Houve também momentos em que profissionais convidaram os familiares a participar do processo de tratamento de diferentes formas, como algumas atividades de construção de vínculo. Diversas opções eram oferecidas para se adaptar a circunstâncias familiares específicas, a fim de ampliar ao máximo o envolvimento da família (n = 5).
O presente estudo amplia a literatura anterior ao examinar, com metodologia qualitativa e do ponto de vista de profissionais, a utilidade do envolvimento da família no tratamento da DI na adolescência. O primeiro tema que emergiu dos dados destacou a importância da intervenção familiar. Embora a literatura anterior, como os trabalhos da equipe de King [24], apoie de modo geral a ideia de que o tratamento da DI na adolescência deve envolver os familiares, pouco se sabe sobre seus papéis específicos no processo. Os resultados do presente estudo apontam algumas direções para envolver os pais na intervenção para DI a fim de melhorar a eficácia do tratamento. Por meio da psicoeducação e do aconselhamento individual, profissionais não apenas discutiam com os familiares diferentes estratégias parentais construtivas e habilidades de comunicação, mas também ressignificavam a experiência deles com os comportamentos de DI dos filhos, ajudando-os a compreender as necessidades não atendidas dos filhos e modificando seus papéis e expectativas parentais. O resultado corresponde ao de um estudo qualitativo sobre as considerações no tratamento da DI, segundo o qual o processo de reeducar os pais e de lhes dar condições para estabelecer limites e expectativas adequados é essencial para o sucesso da intervenção [25]. Esse achado também está alinhado aos fatores de proteção da DI, já que práticas parentais saudáveis, com monitoramento parental adequado e forte apoio emocional, estão associadas a um menor risco de DI na adolescência [6,8,26]. Vale notar que a falta de prontidão emocional e de motivação dos familiares pode representar um desafio. Os pais podem estar absorvidos por suas próprias dificuldades de saúde mental ou considerar irrelevante, e até ofensivo, falar de sua história pessoal e de suas experiências da primeira infância. Uma clínica que acolhe suas necessidades emocionais e atravessa com eles a fase de negação pode ajudar os familiares a construir outra perspectiva sobre a situação.
O segundo tema dizia respeito à passagem de uma orientação de intervenção centrada no indivíduo para uma orientação centrada na relação e na família. Constatou-se que a aliança terapêutica tinha papel decisivo para envolver as pessoas atendidas e seus familiares nas sessões de tratamento. Esse achado é coerente com a literatura anterior, segundo a qual alianças terapêuticas confiáveis não só constituem a base do aconselhamento, como também facilitam a mudança de comportamento de adultos e adolescentes em terapia familiar e individual [27]. As sessões de terapia conjunta foram um dos componentes marcantes do envolvimento familiar. Profissionais facilitavam a comunicação positiva e o fluxo emocional entre as pessoas atendidas e os familiares, o que preparava o terreno para negociações e acordos sobre um uso aceitável da internet. Esse achado coincide com resultados de pesquisas anteriores, como as das equipes de Liu [18] e de Zhong [16], que constataram que o fortalecimento da coesão e da dinâmica familiares tem efeitos profundos na melhora dos comportamentos de DI. Em consonância com uma pesquisa qualitativa recente sobre a perspectiva dos pais nas intervenções para o transtorno de jogo, quem faz aconselhamento e dá a devida ênfase às tensões familiares e à mediação de relações turbulentas entre pais e filhos consegue acelerar o processo de tratamento [28]. Sugere-se, portanto, que o envolvimento da família no tratamento da DI inclua o fortalecimento da competência comunicativa e a promoção de interações e de um funcionamento familiares positivos. Situando os resultados no contexto cultural e considerando os valores familiares coletivos tradicionais chineses, o envolvimento da família no processo de tratamento se dirige à família inteira como uma unidade [8,29]. Isso converge com os achados de um estudo de Singapura segundo o qual a participação ativa dos pais nos programas de intervenção é uma solução eficaz e culturalmente pertinente no contexto asiático [28].
O terceiro tema enfatizou a necessidade de serviços e tratamentos individualizados, já que adolescentes com DI não formam um grupo homogêneo. As pessoas entrevistadas neste estudo não apenas relataram o uso de um leque de abordagens terapêuticas, mas também sugeriram objetivos e durações de tratamento sob medida, o que é coerente com os achados de estudos anteriores [20,30]. Apesar dos efeitos positivos comprovados do envolvimento da família no processo de tratamento, o grau e a forma desse envolvimento no tratamento da DI variavam caso a caso. A relação entre pais e filhos merece atenção especial. Quando há interações familiares hostis e negativas, envolver os familiares no tratamento pode ser inapropriado e prejudicar a pessoa atendida e a família. Esse achado corrobora a literatura existente, segundo a qual é preciso cautela, devido à complexidade da dinâmica familiar, ao modificar os fatores familiares de risco e de proteção da DI por meio de uma abordagem centrada na família [9]. Isso implica que profissionais precisam usar seu julgamento profissional para decidir se intervenções orientadas à família seriam o tratamento ideal para as pessoas atendidas. Uma análise aprofundada dos problemas da família de origem e dos padrões de comunicação pode ser necessária para estruturar a intervenção de acordo com a situação e os recursos da família. Por exemplo, um estudo de caso qualitativo sugeriu que a terapia familiar é indispensável para atenuar os riscos ligados à DI em jovens adultos com problemas interpessoais quando a pessoa terapeuta está atenta à relação entre as características da família de origem e os sintomas de DI apresentados [31]. Para responder à pergunta clássica formulada por Gordon Paul [32], “Que tratamento, conduzido por quem, é mais eficaz para esta pessoa, com este problema específico, e em que conjunto de circunstâncias?”, um exame específico de possíveis subgrupos de famílias e adolescentes, com características semelhantes dentro de cada grupo e diferentes entre os grupos, ajudará a clínica a adaptar estratégias de intervenção ou de engajamento.
Os achados do estudo devem ser interpretados à luz de suas limitações. Uma delas é o pequeno tamanho da amostra. Como há um número limitado de profissionais com especialização no tratamento da DI, o recrutamento foi difícil. O estudo foi realizado no auge da pandemia de COVID-19, o que dificultou ainda mais o recrutamento. Em segundo lugar, como os resultados deste estudo derivam de dados coletados em Hong Kong, os achados podem não ser generalizáveis a outros contextos culturais. Em terceiro lugar, os temas gerados a partir das entrevistas baseiam-se principalmente na visão das pessoas participantes, que eram majoritariamente do serviço social. Outros profissionais de saúde que trabalham com adolescentes com DI, como as equipes de psiquiatria, pediatria e enfermagem, podem ter visões ou abordagens de tratamento diferentes diante do problema. Apesar dessas limitações, este estudo reuniu visões valiosas de profissionais que trabalham com adolescentes com DI, que oferecem direções futuras para a prática e a pesquisa.
Revisões anteriores das intervenções para DI mostram que elas tendiam a adotar uma abordagem individual e que apenas um pequeno número de intervenções envolvia familiares [33,34]. Com base nos achados deste estudo, recomenda-se o envolvimento dos familiares no tratamento da DI na adolescência. Os pais atuam como agentes ativos no processo de intervenção, por exemplo ao aprender a lidar com o próprio sofrimento emocional decorrente da DI e com formas de apoiar o adolescente. Profissionais devem primeiro avaliar o estágio de mudança tanto dos familiares quanto do adolescente com DI e considerar com cuidado se o envolvimento da família é adequado e em que etapa do tratamento ele é mais apropriado. Quando conflitos familiares podem contribuir para a DI, são necessários cuidados especiais e um trabalho preparatório mais aprofundado antes de engajar os familiares no apoio ao adolescente. Além disso, recomenda-se uma abordagem de tratamento que deixe de apenas tratar o adolescente com DI e avance para uma abordagem relacional. Concretamente, tanto o trabalho individual quanto o trabalho familiar tendem a ser desejáveis. O tratamento pode começar com intervenções centradas no indivíduo, que ajudem a atender às necessidades individuais do adolescente com DI e de cada familiar, e que permitam à pessoa terapeuta construir uma relação de trabalho positiva com cada um. Com base em uma relação de trabalho positiva e em necessidades individuais atendidas, a intervenção centrada na família ajudará a encontrar formas de modificar o ambiente e a dinâmica familiares para apoiar melhor o adolescente, reparar rupturas e reconectar as relações familiares.
No campo da pesquisa, são necessárias pesquisas quantitativas adicionais para verificar os achados deste estudo. Em particular, justificam-se estudos futuros sobre a intervenção familiar para a DI na adolescência, por exemplo para examinar se a inclusão do trabalho individual e familiar é uma abordagem promissora e se ela se aplica a diferentes contextos culturais. Dada a natureza heterogênea das famílias e das pessoas que sofrem de DI, pesquisas que investiguem possíveis subgrupos de díades pais-adolescente oferecerão subsídios úteis para o desenvolvimento de intervenções adaptadas a esses diferentes subgrupos.
Este estudo destaca a importância do envolvimento da família no tratamento da DI na adolescência no contexto chinês e os cuidados que ele exige. Profissionais que trabalham com adolescentes com DI devem estar atentos aos fatores familiares ao elaborar planos de tratamento que prevejam a participação dos pais. Com uma organização cuidadosa e um grau de envolvimento ideal, uma intervenção centrada na família que combine trabalho individual e familiar tende a ser eficaz para facilitar o processo de tratamento e promover desfechos positivos, favorecendo uma comunicação eficaz e melhorando o funcionamento familiar. Os achados deste estudo justificam novas investigações quantitativas sobre abordagens de tratamento familiares eficazes para a DI em diferentes contextos culturais.
Complexe Systémique: a reter
O interesse deste pequeno estudo é deslocar a questão da “dependência de internet” do adolescente para a relação que o cerca. As pessoas entrevistadas descrevem um gesto tipicamente sistêmico: passar do sintoma individual ao vínculo entre pais e filhos, reconhecer a função da tela (necessidades não atendidas, um refúgio), ajudar os pais a renunciar à fantasia da abstinência para negociar um equilíbrio. Mas também apontam os limites de convocar a família: pais na defensiva, mães esgotadas ou deprimidas, relações tão hostis que uma sessão conjunta faria mais mal do que bem. Daí uma sequência prudente, do trabalho separado ao trabalho conjunto, que lembra que a aliança se constrói com cada um antes de se construir com todos. Os limites estão na amostra (dez pessoas, sobretudo do serviço social, em Hong Kong, em plena pandemia) e na ausência da voz das próprias famílias e dos jovens. Para ler junto com a competência familiar diante da farmacodependência na adolescência e com a metanálise sobre o envolvimento da família na psicoterapia da depressão em crianças e adolescentes.
Notas do original
Agradecimentos. A equipe agradece a todas as pessoas que participaram deste estudo pela generosidade com que compartilharam sua experiência clínica durante as entrevistas.
Contribuições. Conceituação, C.K.M.L.; metodologia, C.K.M.L.; análise formal, Y.W.C.; investigação, C.K.M.L.; redação da versão original, C.K.M.L. e Y.W.C.; revisão e edição, K.L.C. e L.Y.; administração do projeto, C.K.M.L.; obtenção de financiamento, C.K.M.L. Todas as pessoas que assinam o artigo leram e aprovaram a versão publicada do manuscrito.
Financiamento. Esta pesquisa foi financiada pela Universidade Politécnica de Hong Kong.
Comitê de ética. O estudo foi conduzido de acordo com as diretrizes da Declaração de Helsinque e aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Politécnica de Hong Kong (protocolo HSEARS20190530002, 30 de maio de 2019).
Consentimento informado. Obteve-se consentimento informado de todas as pessoas que participaram do estudo.
Disponibilidade dos dados. Não se aplica.
Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver conflito de interesses.
Nota da editora. A MDPI permanece neutra em relação a reivindicações territoriais em mapas publicados e a afiliações institucionais.
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Tradução não oficial em português de O envolvimento da família no tratamento da dependência de internet na adolescência: um estudo qualitativo com profissionais, de Camilla Kin Ming Lo, Lu Yu, Yuet Wing Cho e Ko Ling Chan, International Journal of Environmental Research and Public Health, vol. 18, no 1, article 86 (2021), doi: 10.3390/ijerph18010086, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “A Qualitative Study of Practitioners’ Views on Family Involvement in Treatment Process of Adolescent Internet Addiction”, publicado em International Journal of Environmental Research and Public Health (2021) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Lo, C. K. M., Yu, L., Cho, Y. W., et Chan, K. L. (2021). O envolvimento da família no tratamento da dependência de internet na adolescência: um estudo qualitativo com profissionais (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/o-envolvimento-da-familia-no-tratamento-da-dependencia-de-internet-na-adolescencia (Obra original publicada em 2020 em International Journal of Environmental Research and Public Health, 18(1), 86 (2021); republicada em 2021 por International Journal of Environmental Research and Public Health, https://www.mdpi.com/1660-4601/18/1/86)
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