Journal of Family Nursing · Família
Nos Estados Unidos, o câncer é a principal causa de morte entre pessoas latinx e atinge famílias já expostas à pobreza, à migração e à discriminação. A equipe de Nicole M. Vélez Agosto, no Texas, examinou nove intervenções psicossociais familiares em oncologia. O veredito: elas se dizem familiares, mas raramente medem a família como sistema, e a cultura quase nunca entra nelas.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Sistemas familiares e adaptação cultural nas intervenções psicossociais em oncologia para famílias latinx: uma revisão crítica, de Nicole M. Vélez Agosto, Gladys Stephanie Hernandez, Sarah Chavez Chacon, Danielle Moreno e Cecilia Montiel-Nava, publicado na Journal of Family Nursing (SAGE) (2026), doi: 10.1177/10748407261478083, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As três tabelas são apresentadas em forma de listas; as notas biográficas de quem assina não foram reproduzidas; uma instrução de redação que ficou entre colchetes na seção Método do original é traduzida tal como está. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
O funcionamento familiar, numa lente da teoria dos sistemas, é mais do que a soma de suas partes.
Nicole M. Vélez Agosto, Gladys Stephanie Hernandez, Sarah Chavez Chacon, Danielle Moreno e Cecilia Montiel-Nava
Resumo
O câncer gera um sofrimento significativo nas dinâmicas das famílias latinx. A pesquisa sobre intervenções familiares deixou de lado aspectos fundamentais que poderiam melhorar de forma significativa a saúde mental dessa população vulnerável, entre eles o desenvolvimento de intervenções com um referencial teórico sólido e, ao mesmo tempo, culturalmente alinhadas a valores latinx profundamente enraizados. Esta revisão crítica abordou as intervenções psicossociais existentes para famílias com uma pessoa com câncer, seus pontos fortes e suas limitações. Desenvolveu três grandes temas relevantes para o desenho de intervenções psicossociais em oncologia para pessoas latinx e examinou nove estudos de intervenção que consideram componentes sistêmico-familiares no desenho e na pesquisa das intervenções, dois deles com a integração adicional da cultura. Os principais achados foram que as intervenções, em geral, incorporam alguns componentes sistêmicos, mas não todos. As considerações culturais são limitadas, mas promissoras para fortalecer as intervenções. O objetivo é orientar a direção futura da pesquisa e do desenho de intervenções de terapia familiar para pessoas com câncer e suas famílias.
Palavras-chave: câncer, intervenções psicossociais, terapia familiar, teoria dos sistemas, cultura
Mais de 18% da população dos Estados Unidos (EUA) é latinx, e a expectativa é que essa proporção chegue a 30% até 2050 (Martínez & Rhodes, 2020). A maioria das pessoas latinx dos EUA se identifica como de origem mexicana (62,3%), e as pessoas de origem porto-riquenha e centro-americana formam o segundo grupo mais representado (Martínez & Rhodes, 2020). Os subgrupos latinx nos EUA vivem desigualdades em saúde causadas por determinantes sociais da saúde: baixo nível socioeconômico e baixa escolaridade, discriminação racial e étnica, lacunas culturais e linguísticas, situação migratória e/ou documental, aculturação e sofrimento pós-migratório. Em comparação com outros grupos étnico-raciais e socioeconômicos, a população latinx dos EUA é afetada de forma desproporcional por doenças crônicas, e o câncer é a principal causa de morte (Baquero & Parra-Medina, 2020; Marshall et al., 2018).
Um dos determinantes sociais negligenciados nas desigualdades do câncer entre pessoas latinx é o impacto do câncer sobre as dinâmicas familiares, e o impacto dessas dinâmicas. O câncer afeta a família como um todo e pode ter efeitos em cadeia ao longo das gerações (Bowen, 1978). A psico-oncologia é um campo emergente, nascido da oncologia, que se dedica às dimensões psicológicas da experiência do câncer e às intervenções psicossociais (Weiss Wiesel et al., 2015). As intervenções psicossociais variam muito quanto à modalidade (individual, em grupo, oficinas educativas, de base familiar) e ao foco dos desfechos (medidas de membros individuais da família ou medidas familiares). Algumas intervenções de base familiar se dirigem a famílias em diferentes níveis de funcionamento, como entrevistas de apoio para famílias com funcionamento saudável, orientação psicoeducativa para famílias que estão se adaptando, mas enfrentam problemas de comunicação, e entrevistas terapêuticas para famílias disfuncionais em crise (Magnen-Desdouits & Flahault, 2012). Na perspectiva da psico-oncologia, o atendimento de famílias latinx com uma pessoa com câncer se beneficiaria de intervenções de base familiar culturalmente adaptadas.
As intervenções psicossociais oferecidas por equipes de saúde (medicina de família, enfermagem) e de saúde mental já demonstraram eficácia com pessoas com câncer e suas famílias (Azcárate-Cenoz et al., 2026; Vélez Agosto, 2025; Hodgson et al., 2011). Apesar da eficácia documentada, as intervenções baseadas na terapia familiar são menos difundidas do que as intervenções individuais para pessoas com câncer e seus familiares ou pessoas cuidadoras (Azcárate-Cenoz et al., 2026; Hodgson et al., 2012; Lamson et al., 2022; Niemelä et al., 2016; Shields et al., 2012). O principal problema é que a maioria das intervenções psicossociais foi desenvolvida com foco no indivíduo, ou com foco diádico (pessoa doente e pessoa cuidadora, ou pessoa doente e filhos), mas não com base na família nem com foco nos sistemas familiares (Hodgson et al., 2011; Lamson et al., 2022). As intervenções diádicas incluem um par de membros da família, como pessoa doente e pessoa cuidadora, pessoa doente e filhos, ou pessoa doente e parceiro ou parceira, enquanto as de foco familiar incluem todos os membros da família, como pais e filhos, o casal tomado como unidade, o casal com membros da família extensa e/ou pessoas cuidadoras. As intervenções psicossociais sistêmicas de base familiar são aquelas que se concentram nos processos relacionais ou nas interações do casal e/ou da família (Hodgson et al., 2011; Lamson et al., 2022). Embora as intervenções diádicas e as familiares possam ser pensadas dentro de uma lente teórica semelhante, nem sempre é o caso: muitas vezes a intervenção é designada como familiar segundo uma abordagem de “soma das partes” ou simplesmente pela inclusão de alguns membros (Hodgson et al., 2011). Por isso, poucas intervenções de base familiar têm orientação sistêmica, isto é, incorporam a teoria dos sistemas em todas as fases da intervenção, como desenho, componentes e mensuração.
Embora revisões sistemáticas e metanálises anteriores tenham documentado os benefícios de abordar componentes sistêmicos nas intervenções (Becqué et al., 2023; Bu et al., 2025; Hodgson et al., 2011; Kissane et al., 2016; Lamson et al., 2022; Niemelä et al., 2016), elas também apontaram lacunas relevantes na pesquisa. Lamson et al. (2022) encontraram uma lacuna significativa em pesquisas que incluam casais e famílias minorizados. Niemelä et al. (2016) destacaram uma lacuna em pesquisas sobre as crianças quando as famílias enfrentam uma doença parental que ameaça a vida, descrevendo as crianças como um “grupo esquecido” na literatura científica. Isso sugere a relevância de incluir perspectivas sistêmicas no estudo de populações pouco atendidas, como as pessoas latinx que sobreviveram ao câncer e suas famílias.
Duas revisões sistemáticas abordaram intervenções psicossociais familiares em oncologia com populações latinx (Guan et al., 2023; Llave et al., 2024). Guan et al. (2023) revisaram estudos de intervenções psicossociais de base familiar voltados a pessoas adultas de origem latina com câncer e a quem cuida delas. A revisão constatou que as intervenções realizadas nos EUA incluíam considerações culturais, como a inclusão de valores e crenças latinos e o recurso a pessoas interventoras bilíngues e biculturais. Os achados sugerem que os valores socioculturais latinos levaram uma gama diversa de membros da família a assumir o papel de cuidado: cônjuges ou parceiros, filhos, pais, irmãos, amizades e outros, o que reforça a importância do familismo. Llave et al. (2024) fizeram uma revisão de intervenções psicossociais e comportamentais que incorporam a cultura, para examinar seu benefício em populações pouco atendidas com câncer avançado e metastático. Entre os estudos com populações latinx, a revisão constatou que as normas culturais influenciavam quando se engajar de forma respeitosa ou que temas trazer na comunicação com a equipe de saúde. Também observou que, nas intervenções adaptadas ao meio digital, as pessoas latinas participantes não tinham acesso às tecnologias digitais ou não sabiam usá-las. De modo geral, esses achados indicam a importância de incluir dimensões tanto culturais quanto sistêmicas nas intervenções psicossociais que abordam o câncer em famílias latinx.
Atualmente, não há revisões críticas que abordem a pesquisa sobre intervenções psicossociais em oncologia com uma lente ao mesmo tempo da teoria dos sistemas e cultural, para orientar melhor o desenho de intervenções e a pesquisa para populações latinx afetadas pelo câncer. As populações latinx são heterogêneas, por representarem um grupo multilíngue, multirracial e multinacional. O uso do termo latinx é inclusivo e serve para enfatizar as diferenças que existem entre subgrupos (Martínez & Rhodes, 2020). Isso não significa que as intervenções devam ignorar as diferenças entre grupos e tratar as pessoas latinx como um bloco monolítico. Adotar uma abordagem de microssistemas culturais significa que o desenho das intervenções e a pesquisa se beneficiariam de considerar o processo de produção de sentido da cultura nos sistemas e de se ajustar a ele (Vélez-Agosto et al., 2017). Juntas, as lacunas das intervenções psicossociais quanto à teoria dos sistemas e à cultura deixam de fora perguntas importantes sobre como os componentes sistêmicos são definidos e operacionalizados no desenho das intervenções e na pesquisa, e sobre como a cultura é conceituada e incluída. Com base nessas lacunas teóricas, a presente revisão crítica aborda as seguintes perguntas norteadoras para os estudos selecionados:
Para estabelecer o pano de fundo conceitual e empírico da revisão, as seções seguintes desenvolvem os determinantes sociais, os componentes sistêmicos e as considerações culturais abordados na literatura científica que são relevantes para o desenho e a pesquisa de intervenções psicossociais em oncologia com pessoas latinx.
A maior parte do que se sabe sobre o impacto do câncer na família latinx diz respeito às barreiras ao tratamento, como falta de plano de saúde, pobreza e domínio do inglês (Casillas et al., 2021; Kronenfeld et al., 2021; Martínez, 2020; Zubler et al., 2025). Por exemplo, o nível socioeconômico leva a barreiras significativas no acesso das pessoas latinx à saúde, como falta de transporte, longas esperas, horários inflexíveis, distância entre a casa e o local de tratamento, falta de plano de saúde e custo. O nível socioeconômico também está ligado a estressores como violência no bairro e insegurança alimentar, que podem afetar a capacidade das pessoas latinx de se manterem fisicamente ativas e de se exercitarem ao ar livre, assim como o acesso a alimentos nutritivos, resultando em deficiências nutricionais (Kronenfeld et al., 2021). Pouquíssimas pesquisas documentaram como o nível socioeconômico afeta o funcionamento familiar quando há uma pessoa com câncer. Por exemplo, o câncer pode desorganizar e criar novas rotinas para os membros da família (por exemplo, parar de trabalhar e abrir espaço para consultas médicas) (Vélez Agosto, 2025; Phillips & Prezio, 2017; Santos et al., 2018). Assim, as rotinas diárias, os papéis e as responsabilidades das famílias passam por grandes mudanças para acomodar as exigências do tratamento do câncer.
As pessoas imigrantes latinx enfrentam desafios adicionais para ter cuidados de fim de vida adequados. Entre eles, a distância geográfica e realidades contextuais que muitas vezes separam as pessoas doentes de suas famílias (Ko et al., 2023; Smith et al., 2009); o medo da deportação em caso de falta de documentos; barreiras de idioma e de letramento; o receio de discriminação (Smith et al., 2009); e o estresse de aculturação (Benuto & O’Donohue, 2016). Além disso, as pessoas latinx com câncer que vivem perto da fronteira entre os EUA e o México podem enfrentar uma coordenação complexa do cuidado, a distância física dos locais de tratamento e problemas de compatibilidade de planos de saúde entre os dois países (Castañeda et al., 2015; Ko et al., 2023). Isso também faz com que pessoas imigrantes sem documentos apresentem doenças em estágio mais avançado (Kronenfeld et al., 2021), como o câncer de mama (Cabral & Cuevas, 2020). Assim, afeta o acesso das famílias aos serviços de saúde e a adesão ao tratamento (Kronenfeld et al., 2021) e se traduz em desafios sistêmico-familiares. Por exemplo, membros da família desenvolvem sintomas de saúde mental por causa de preocupações com a situação sem documentos de outros membros da família (Benuto & O’Donohue, 2016).
Em relação à saúde mental, as comunidades latinx apresentam altas taxas de depressão e ansiedade, e as taxas das pessoas latinx nascidas nos EUA são mais altas do que as das nascidas no exterior (Benuto & O’Donohue, 2016). A aculturação é um processo multidimensional de mudança de atitudes e comportamentos culturais que resulta do encontro entre duas culturas (Bekteshi & Kang, 2020; Berry, 1997). As associações negativas ligadas à aculturação são conceituadas como estresse de aculturação e sofrimento pós-migratório, o que enfatiza a dificuldade psicológica que se segue à imigração, levando em conta o bem-estar e o enfrentamento (Walsh et al., 2008). O estresse de aculturação e o sofrimento pós-migratório foram associados a diferentes tipos de sintomas de saúde mental, como depressão, transtornos da personalidade, redução do funcionamento neurocognitivo e estresse pós-traumático (Bekteshi & Kang, 2020; Kronenfeld et al., 2021). Isso também pode explicar por que as pessoas latinx que sobreviveram ao câncer relatam pior bem-estar psicológico, físico e social do que outros grupos étnico-raciais (Ramirez & Magasi, 2025).
Os estressores de aculturação afetam o funcionamento familiar, embora poucos estudos tenham se dedicado ao câncer e aos desfechos de saúde mental em famílias latinx (Slaughter et al., 2022). A partir da Teoria dos Sistemas Familiares e de uma abordagem do Funcionamento Familiar Bicultural, Slaughter et al. (2022) examinaram o papel da discrepância de aculturação na saúde mental de crianças hispânicas sobreviventes de câncer (Hispanic Childhood Cancer Survivors, HCCS) e na saúde mental de pais e filhos. A equipe constatou que a aculturação hispânica e anglo-americana estava associada a menos sintomas depressivos, maior crescimento pós-traumático e maior qualidade de vida da criança. Sugere-se, portanto, que uma forte identificação cultural pode ser benéfica para as HCCS, enquanto uma discrepância maior entre a aculturação dos pais e a da criança esteve relacionada a desfechos psicossociais negativos para a criança. Esse tipo de resultado contraditório dos processos de aculturação se explica examinando os valores culturais que pessoas latinx e mexicano-americanas de diferentes gerações sustentam.
As famílias latinx nos EUA aderem a valores culturais que funcionam tanto como fatores de proteção quanto como fatores de risco para o sofrimento psicológico. Em estudos com populações majoritariamente mexicano-americanas, os valores culturais identificados como fatores de proteção incluem o “familismo” e as crenças espirituais, ou “espíritu” (Marín-Chollom & Revenson, 2022). Entre os fatores de risco estão o estigma em relação à saúde mental, o “machismo” e o “marianismo”, entre outros (Nuñez et al., 2016). O familismo se refere a priorizar as relações com a família imediata e extensa com lealdade, respeito, senso de obrigação e apoio (Ramirez & Magasi, 2025). Esses valores culturais não são monolíticos e foram operacionalizados de forma distinta nos estudos, mas raramente com uma lente sistêmica ou considerando estruturas familiares não heteronormativas (Patrón, 2021). Isso arrisca simplificar demais a “adesão” como a principal forma de estudá-los na pesquisa, enquanto uma lente sistêmica permitiria descrever como eles atuam como processo.
Por exemplo, a adesão ao familismo em famílias mexicano-americanas foi associada a um melhor ajustamento psicológico em pessoas adultas com câncer e em adolescentes e jovens adultos latinx (Marín-Chollom & Revenson, 2022; Perez & Cruess, 2014). No entanto, uma adesão maior ao familismo também pode aumentar a avaliação do estresse (Marín-Chollom & Revenson, 2022) e desencorajar as pessoas doentes de fazer mudanças positivas de comportamento que não pareçam beneficiar a família (Pedreira et al., 2024). Numa lente sistêmica, isso pode se dever ao fato de que um familismo maior significa uma relação mais próxima com a família, de modo que o membro da família sente mais o estresse. Além disso, conflitos familiares ou a falta de proximidade com as redes familiares podem dificultar a vivência do familismo nos desfechos do câncer (Pedreira et al., 2024). Outra limitação é que parte da equipe de saúde não latinx tem visões conflitantes sobre o familismo, vendo-o como envolvimento excessivo da família e, portanto, como uma barreira ao acesso ao cuidado (Moreno et al., 2023). Todas essas visões conflitantes sobre o familismo podem também apontar os limites de pesquisar o “familismo” em si mesmo e fora de uma lente teórica.
O câncer afeta as famílias em seus níveis sistêmicos e por meio deles (Hodgson et al., 2011; Lamson et al., 2022; Shields et al., 2012; Slaughter et al., 2022; Zhou et al., 2025). A teoria dos sistemas define o sistema familiar como uma unidade interdependente e recíproca, que segue princípios dos sistemas naturais: é orientada para processos, contém regras que guiam a comunicação e os comportamentos dos membros, tende a se conservar e, ao mesmo tempo, é capaz de se abrir e se adaptar ao ambiente. Estudos sobre intervenções psicossociais em oncologia identificaram a necessidade de abordar os sistemas familiares tanto na intervenção quanto nos desfechos (Bu et al., 2025; Costas-Muñiz et al., 2023; Llave et al., 2024; Shields et al., 2012; Thastum et al., 2006).
O câncer desorganiza as famílias estruturalmente, pela reestruturação dos papéis dos membros (por exemplo, filhos adultos passam a cuidar), e funcionalmente, por processos emocionais que aumentam o sofrimento psicológico dos membros da família e também o sofrimento de outros membros por sua inter-relação (reciprocidade no funcionamento). Por exemplo, o câncer de um dos pais é um estressor crônico que afeta o bem-estar psicossocial da primeira infância ao início da vida adulta (Marín-Chollom & Revenson, 2022). O sofrimento psicossocial ligado ao câncer de um dos pais inclui sintomas depressivos e ansiosos, problemas comportamentais e emocionais, respostas de estresse e menor qualidade de vida (Marín-Chollom & Revenson, 2022; Park et al., 2022). As dinâmicas entre pais e filhos também são afetadas pela aculturação e pelo câncer no caso de crianças sobreviventes de câncer (HCCS), sobretudo quando há discrepâncias de valores culturais entre as gerações (Slaughter et al., 2022). Além disso, os casais muitas vezes vivem sintomas de ansiedade e depressão semelhantes aos da pessoa com câncer (Manne & Ostroff, 2011). O cuidado de uma pessoa com câncer, em geral, pode ter efeitos adversos sobre a saúde psicossocial da família (Petursdottir et al., 2020).
Os sistemas também dão conta dos padrões de comunicação nas famílias. O câncer pode fazer as famílias funcionarem como sistemas fechados, que não compartilham informações com pessoas de fora da família nuclear nem entre si. Num estudo anterior com famílias porto-riquenhas com uma pessoa com câncer (Vélez Agosto, 2025), mostrou-se que os membros da família não querem falar do câncer com a pessoa doente para “ser fortes” e não criar um peso adicional para ela. Além disso, os pais têm dificuldade de explicar uma doença grave e o prognóstico às crianças de forma adequada ao desenvolvimento, e muitas vezes pesam os benefícios de compartilhar informações contra o receio de causar dano emocional (Park et al., 2022). A comunicação aberta sobre a doença crônica já se mostrou benéfica para muitos desfechos de saúde das pessoas doentes, incluindo o compartilhamento de narrativas sobre o câncer (Park et al., 2022; Rosenbaum et al., 2006). Por outro lado, uma comunicação ruim sobre temas ligados à doença pode aumentar o risco de sofrimento psicológico nas famílias afetadas pelo câncer. Assim, o sofrimento parental tem impacto negativo tanto na saúde psicológica e física dos pais quanto no funcionamento familiar (Lövgren et al., 2022).
Embora a teoria dos sistemas dê conta das dimensões estrutural, funcional e de adaptação das famílias, a cultura é o centro. A cultura fornece as regras do sistema, o contexto e as atividades de produção de sentido a partir das quais as famílias funcionam, criam e mantêm rotinas e se relacionam com outros sistemas (Vélez-Agosto et al., 2017). Entender como os sistemas familiares funcionam num contexto cultural é essencial para trabalhar com famílias latinx e pessoas que sobreviveram ao câncer (Guan et al., 2023; Llave et al., 2024; Marín-Chollom & Revenson, 2022; Rodas, 2025). Por exemplo, nas culturas coletivistas, o enfrentamento recorre mais a estratégias de modificação dos estados psicológicos internos do que ao enfrentamento direto dos estressores (Marín-Chollom & Revenson, 2022). Esse traço pode afetar a forma como a família se comunica sobre o câncer ou exacerbar processos emocionais familiares. Incluir a família nas conversas sobre o cuidado e manter o foco na esperança é benéfico para pessoas doentes e pessoas cuidadoras latinx, por suas disposições culturais ao otimismo (Guan et al., 2023; Llave et al., 2024). A cultura é a planta dos rituais familiares (por exemplo, jantares, aniversários), e a pesquisa mostrou que os rituais familiares mudam após o diagnóstico de uma condição crônica. Algumas famílias cancelam rituais, enquanto outras os mantêm, reajustam ou criam novos (Santos et al., 2018). De modo geral, integrar uma lente cultural oferecerá um referencial mais abrangente, que dê conta das transformações sistêmicas das famílias latinx com uma pessoa com câncer.
Esta revisão crítica buscou selecionar artigos exemplares para apoiar seus argumentos, escolhendo intencionalmente estudos que ilustrassem a participação da família e considerações culturais no desenho e na execução das intervenções, bem como orientações teóricas alinhadas à teoria dos sistemas. Embora tenha empregado algumas estratégias típicas de revisões sistemáticas, sua execução foi menos rigorosa, e um viés de seleção é esperado em razão do julgamento da equipe de pesquisa. A busca de artigos foi realizada pela pessoa que assina em primeiro lugar e por duas pessoas assistentes de pesquisa entre maio de 2025 e a última data de busca, em agosto de 2025. As palavras-chave usadas foram: psychosocial intervention, cancer, Latino, Latinx, cultural adaptation, culture, family systems, family-based. Foram consultadas quatro bases de dados (PsycINFO, PubMed, ProQuest e Google Scholar), escolhidas por sua acessibilidade e relevância para a pesquisa psicossocial e em saúde. Os termos de busca foram combinados com operadores booleanos, associando conceitos de intervenção e de população; por exemplo, (“psychosocial intervention” OR “family-based” OR “family systems”) AND (cancer) AND (Latino OR Latinx) AND (culture OR “cultural adaptation”). [Ajustar esta sequência para refletir o que foi efetivamente executado; observar que o Google Scholar foi consultado com combinações simplificadas de termos, dado seu suporte limitado a operadores booleanos.] Os resultados foram filtrados para artigos revisados por pares, publicados entre 2015 e 2025 e em inglês.
Os artigos recuperados foram organizados numa tabela e discutidos em reunião de equipe para selecionar os nove finais entre os 11 estudos extraídos. Essa tomada de decisão colaborativa buscou reduzir o viés de revisão. Foi feita uma síntese qualitativa para comparar e criticar as pessoas participantes incluídas nos estudos, os componentes da intervenção, o referencial teórico do desenho da intervenção, os desfechos visados e os achados. Esta revisão destacou especialmente como a teoria dos sistemas foi abordada no desenho ou na implementação da intervenção e se a intervenção estudada considerou componentes culturais tanto no desenho quanto na implementação. Os critérios de inclusão foram: intervenções psicossociais de base familiar em oncologia realizadas na última década (2015-2025), internacionais e/ou nos EUA. O critério temporal foi escolhido para oferecer um panorama mais atualizado da direção dos desenhos de intervenção de base familiar a partir das revisões de Guan et al. (2023) e Hodgson et al. (2011). Os estudos elegíveis podiam ser pilotos, quase experimentais e ensaios clínicos, com desenho quantitativo ou de métodos mistos. Dado o número limitado de intervenções psicossociais centradas na família, avaliadas com rigor e desenvolvidas especificamente para populações latinx afetadas pelo câncer ou testadas com elas, esta revisão crítica inclui um pequeno conjunto de estudos de alta qualidade realizados com amostras não latinx (principalmente dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia). Esses estudos de comparação foram selecionados para ilustrar princípios consolidados das intervenções familiares orientadas para os sistemas (por exemplo, envolvimento de vários membros da família, desfechos sistêmicos como a comunicação e a adaptação familiares) que poderiam orientar futuras adaptações culturalmente ajustadas para famílias latinx. Embora as culturas variem em valores, contexto geográfico e história, os estudos não latinx selecionados foram considerados por seu foco na família como unidade. Esse é um componente sistêmico importante, conceituado como familismo nos estudos latinx e coerente com as aplicações da teoria sistêmica de Bowen em países de língua espanhola (Rodríguez-González et al., 2016). A revisão, portanto, usa esses exemplos como base para destacar pontos fortes transferíveis, ao mesmo tempo que ressalta lacunas persistentes de alinhamento cultural e de representação latinx.
Com base na literatura revisada, os seguintes critérios foram considerados para avaliar se uma intervenção psicossocial de base familiar em oncologia era orientada pela teoria dos sistemas: (a) desenho da intervenção orientado para os sistemas familiares, que abordasse processos sistêmicos (funcionamento e adaptação) e seus componentes (por exemplo, comunicação, coesão, conflito, recursos); (b) quanto às pessoas participantes, a intervenção incluía mais de um membro da família, como a díade pessoa doente-pessoa cuidadora ou pessoa doente-cônjuge, bem como pais e filhos ou pessoas doentes e outros membros da família (extensa ou de origem); por fim, (c) quanto à avaliação, se as intervenções mediam componentes sistêmicos como a coesão ou a comunicação familiar, o funcionamento familiar, ou mediam o sofrimento psicológico da unidade familiar e/ou de todos os seus membros. Os critérios para as considerações culturais incluíam se o estudo mencionava a incorporação de elementos culturais no desenho ou na implementação da intervenção, e de que forma.
A seção a seguir apresenta uma descrição do desenho dos estudos, das características das intervenções, uma crítica metodológica e um resumo dos desfechos e achados.
Dos nove estudos selecionados para a revisão, quatro foram realizados nos EUA (Casillas et al., 2021; Marshall et al., 2018; Park et al., 2022; Phillips & Prezio, 2017), um na China (Zhang et al., 2025) e os demais em diferentes países da Europa (Dinamarca, Suécia, Reino Unido, Islândia) (Besani et al., 2018; Lövgren et al., 2022; Petursdottir et al., 2020; Salem et al., 2021). Dois estudos tinham desenho quase experimental com pós-teste (Petursdottir et al., 2020; Zhang et al., 2025), três eram estudos-piloto (Besani et al., 2018; Lövgren et al., 2022; Park et al., 2022), um era um ensaio clínico randomizado (ECR) (Salem et al., 2021), outro tinha desenho de avaliação pré e pós-intervenção (Marshall et al., 2018) e um era uma análise secundária transversal de dados (Phillips & Prezio, 2017). Dois dos estudos também descreveram o desenho como ensaio de braço único com avaliação pré e pós-teste (Casillas et al., 2021) e como desenho de grupo único com pré e pós-teste (Besani et al., 2018). Todos os estudos se concentraram em mais de um membro da família (pessoas doentes, pais, pessoas cuidadoras, cônjuges e irmãos), com exceção de Petursdottir et al. (2020), que se concentrou apenas em pessoas cuidadoras. Três dos estudos se dirigiam a pessoas que sobreviveram ao câncer e a suas pessoas cuidadoras adultas (Marshall et al., 2018; Petursdottir et al., 2020; Zhang et al., 2025). Cinco estudos tratavam de intervenções desenhadas para crianças e adolescentes com câncer que incluíam pelo menos um membro da família (pais e irmãos) (Besani et al., 2018; Casillas et al., 2021; Lövgren et al., 2022; Park et al., 2022; Phillips & Prezio, 2017; Salem et al., 2021). O tamanho das amostras variou de 12 a 156 famílias atendidas. Ver a Tabela 1 para informações e comparação dos estudos selecionados.
Tabela 1 — Características dos estudos e das pessoas participantes
Todas as intervenções buscavam principalmente oferecer psicoeducação sobre vários aspectos da trajetória do câncer e ensinar comunicação familiar e outras habilidades de enfrentamento. As intervenções variavam na forma de facilitar o engajamento entre os membros das famílias, e poucas faziam disso seu foco (Besani et al., 2018; Casillas et al., 2021; Lövgren et al., 2022; Marshall et al., 2018; Phillips & Prezio, 2017; Salem et al., 2021). Os referenciais conceituais das intervenções variavam, e a maioria incluía abordagens da teoria dos sistemas (Besani et al., 2018; Casillas et al., 2021; Lövgren et al., 2022; Marshall et al., 2018; Petursdottir et al., 2020; Phillips & Prezio, 2017; Salem et al., 2021), enquanto outras incluíam abordagens cognitivo-comportamentais (Besani et al., 2018; Park et al., 2022; Salem et al., 2021) e outras abordagens (Besani et al., 2018; Lövgren et al., 2022; Marshall et al., 2018; Park et al., 2022; Zhang et al., 2025). A integração de uma abordagem de sistemas familiares variava entre as intervenções. Algumas intervenções estão mais alinhadas aos princípios da teoria dos sistemas, com os principais componentes sistêmicos fazendo parte da intervenção (Park et al., 2022; Salem et al., 2021). As demais ou deixavam de medir todos os membros da família, ou não incluíam um desfecho sistêmico, ou não envolviam um componente sistêmico no desenho da intervenção. Além disso, nem todas as intervenções consideravam características culturais ou faziam considerações culturais explícitas, exceto as duas intervenções voltadas a pessoas latinx (Casillas et al., 2021; Marshall et al., 2018). Casillas et al. (2021) incorporaram um componente cultural ao desenho da intervenção, usando uma fotonovela, que se apoia na narração de histórias, uma forma de comunicação comum nas famílias latinas. Marshall et al. (2018) ofereceram as intervenções em inglês e espanhol, usaram espaços comunitários para a execução e integraram os valores do familismo à intervenção. Assim, as duas intervenções reforçaram sua orientação sistêmica com a integração de componentes culturais. Ver a Tabela 2 para as características das intervenções.
Tabela 2 — Características das intervenções
A forma de execução das intervenções variou entre os estudos. Alguns estudos usaram a tecnologia on-line (Park et al., 2022; Zhang et al., 2025), outros sessões presenciais e por telefone que podiam incluir abordagens tradicionais de aconselhamento ou psicoterapia, psicoeducação e/ou outros tipos de encontros (Besani et al., 2018; Casillas et al., 2021; Lövgren et al., 2022; Marshall et al., 2018; Petursdottir et al., 2020; Phillips & Prezio, 2017; Salem et al., 2021). Apenas algumas intervenções foram conduzidas por profissionais de saúde mental (Besani et al., 2018; Lövgren et al., 2022; Phillips & Prezio, 2017; Salem et al., 2021), enquanto outras foram conduzidas pela equipe de enfermagem, por agentes de saúde comunitária ou por pessoas defensoras da saúde (Casillas et al., 2021; Marshall et al., 2018; Petursdottir et al., 2020). A duração variou de oficinas de 1 dia a sete sessões, de 20 min a 2 h.
A Tabela 3 resume os desfechos visados, os instrumentos, os principais achados e as limitações metodológicas dos estudos de intervenção. Sofrimento psicológico, enfrentamento e capacidades, assim como qualidade de vida, estavam entre os principais alvos das intervenções. Aceitabilidade e viabilidade também estavam entre os alvos dos estudos de intervenção com desenho piloto e pré e pós-intervenção (Besani et al., 2018; Casillas et al., 2021; Lövgren et al., 2022; Marshall et al., 2018; Park et al., 2022; Zhang et al., 2025). As medidas de aceitabilidade diziam respeito à satisfação ou à adesão ao tratamento e haviam sido desenvolvidas pelas equipes de pesquisa para o estudo de intervenção.
Tabela 3 — Desfechos visados, instrumentos, achados e limitações metodológicas das intervenções
As duas intervenções voltadas a populações latinx buscavam aumentar o conhecimento sobre o câncer (Casillas et al., 2021; Marshall et al., 2018). Marshall et al. (2018) avaliaram o conhecimento sobre o câncer com o Cancer Knowledge Questionnaire (CKQ), de 12 itens, sem informações sobre propriedades psicométricas. Casillas et al. (2021) mediram a intervenção com um questionário de 57 itens com boas propriedades psicométricas, já usado em outro estudo, que incluía seis grandes domínios conceituais ligados à “literatura sobre sobrevivência a respeito do conhecimento da pessoa sobrevivente sobre o tratamento anterior do câncer e os resumos de tratamento, a avaliação do estado de saúde e a transição dos cuidados de saúde de adolescentes e jovens adultos sobreviventes” (Casillas et al., 2011, p. 373), e duas outras escalas desenvolvidas para o estudo para medir o estigma do câncer e o conhecimento sobre efeitos tardios e a continuidade do cuidado. As propriedades psicométricas do questionário foram testadas numa amostra diversa em que só um quarto das pessoas participantes era considerado etnicamente diverso. Em contraste, Park et al. (2022) visaram desfechos sistêmicos, como a comunicação e o funcionamento familiar. O estudo incluiu uma medida de funcionamento familiar com boa confiabilidade, o McMaster Family Assessment Device–General Functioning Scale (GFS), e duas medidas de comunicação, uma de autoeficácia, a Communication Self-Efficacy Scale (CSES), e uma de comunicação parental sobre a doença, o Parental Cancer Communication Questionnaire (PCCQ). Todas as medidas foram preenchidas por um membro da família, no caso de famílias monoparentais, ou pelos dois pais, mas não foram feitas comparações dentro das famílias nem entre elas.
De modo geral, todas as intervenções relataram resultados positivos em diferentes desfechos, dentro das limitações de seus estudos. As intervenções testadas em piloto se mostraram viáveis e tiveram boas taxas de participação (Besani et al., 2018; Casillas et al., 2021; Lövgren et al., 2022; Marshall et al., 2018; Park et al., 2022; Zhang et al., 2025). Houve redução de TEPT, depressão e ansiedade nas intervenções voltadas ao sofrimento psicológico (Petursdottir et al., 2020; Salem et al., 2021). Os estudos de intervenção também mostraram melhora de desfechos sistêmicos, como comunicação e engajamento (Casillas et al., 2021; Lövgren et al., 2021; Park et al., 2022; Phillips & Prezio, 2017). Apesar dessas melhoras nos desfechos visados, por causa do desenho das intervenções e das medidas, é difícil distinguir melhora no nível do funcionamento familiar, o que exige não só medir desfechos sistêmicos, mas também medir mais de um membro da família.
Uma apreciação dos múltiplos domínios avaliados nas intervenções aponta os desafios de medir ou de incorporar desfechos sistêmicos na análise dos dados. Embora os estudos em geral reconhecessem limitações metodológicas comuns dos estudos de intervenção, como amostras pequenas (Casillas et al., 2021; Petursdottir et al., 2020; Zhang et al., 2025), ausência de grupo controle (Besani et al., 2018) e falta de diversidade na amostra, poucos reconheceram limitações quanto à mensuração de desfechos sistêmicos. Por exemplo, Phillips e Prezio (2017) apontaram como limitação o fato de apenas um dos pais ter relatado os desfechos, reconhecendo a importância de coletar dados de mais de um membro da família. Em contraste, Besani et al. (2018) relataram que cinco famílias tiveram duas pessoas da mesma fratria relatando desfechos, o que comprometeu a independência dos casos na análise. Essa inconsistência entre os pontos fortes e as limitações de avaliar mais de um membro por família pode indicar a falta de fidelidade teórica às abordagens sistêmicas no desenho das intervenções de base familiar. A maioria dos estudos revisados analisou os dados por membro individual, e apenas um estudo considerou a análise no nível diádico e sistêmico (Besani et al., 2018; Zhang et al., 2025). Os dois estudos que incluíram um componente cultural na intervenção e na execução não incorporaram medidas culturalmente adaptadas (Casillas et al., 2021; Marshall et al., 2018).
Esta seção sintetiza de forma crítica as intervenções revisadas em resposta às quatro perguntas norteadoras, destacando a fidelidade sistêmica, os elementos de base familiar, o alinhamento cultural e as implicações para a pesquisa centrada nas muitas famílias latinx. Embora apenas dois dos estudos revisados tenham se dedicado a algumas populações latinx, os demais oferecem apoio parcial aos benefícios de incorporar componentes da teoria dos sistemas ao desenho e à pesquisa de intervenções psicossociais em oncologia, para populações em que o funcionamento familiar já se mostrou um determinante social da saúde.
Componentes sistêmicos estavam presentes em todos os estudos revisados, mas sua implementação variou quanto ao desenho e ao foco dos desfechos. As dimensões sistêmicas identificadas eram ou um conceito teórico, ou o fato de mais de um membro da família ou pessoa cuidadora receber a intervenção ou ser avaliado, ou a mensuração de desfechos sistêmicos. Apenas alguns dos estudos de intervenção nomearam explicitamente abordagens da teoria dos sistemas em seus referenciais conceituais (Besani et al., 2018; Marshall et al., 2018; Petursdottir et al., 2020; Phillips & Prezio, 2017; Salem et al., 2021). Isso reflete desafios de conceituação da teoria dos sistemas no desenho e na pesquisa das intervenções psicossociais, que podem estar ligados à variedade de implementação das muitas escolas e modelos de psicoterapia que se reúnem sob a teoria dos sistemas.
Ampliar a comunicação familiar em torno do câncer era um componente saliente da maioria das intervenções de base familiar (Besani et al., 2018; Lövgren et al., 2022; Park et al., 2022; Phillips & Prezio, 2017; Salem et al., 2021). Como discutido antes, ampliar a comunicação vai além da mudança individual e busca facilitar o ajustamento e a adaptação da família ao câncer numa lente da teoria dos sistemas. Mas nem todos os estudos mediram mudanças na comunicação entre seus desfechos, uma limitação significativa na avaliação de intervenções sistêmicas.
O engajamento familiar foi um objetivo da intervenção em dois estudos (Casillas et al., 2021; Zhang et al., 2025), embora eles diferissem na forma de conceituar e medir o engajamento. No estudo de Zhang et al. (2025), as pessoas participantes tinham sessões de interação e compartilhamento em todos os quatro módulos. As tarefas eram revisadas com a equipe de pesquisa, e também era preciso praticar exercícios de comunicação em alguns dos módulos. No estudo de Casillas et al. (2021), familiares e pessoas sobreviventes liam um roteiro da fotonovela e respondiam a perguntas para discussão. O engajamento familiar foi captado qualitativamente no estudo de Casillas et al. (2021), mas não foi medido no de Zhang et al. (2025). São exemplos de como as conceituações subjacentes do engajamento familiar podem carecer de correspondência epistemológica com um modelo específico da teoria dos sistemas.
As evidências apresentadas nesses estudos não sustentam que as intervenções fossem de fato de base familiar, e há pouco acordo sobre o que constitui uma intervenção familiar. Por exemplo, a maioria dos estudos que incluíram componentes sistêmicos em suas intervenções não avaliou mudanças sistêmicas no funcionamento familiar (adaptação, comunicação ou engajamento) nem os componentes de intervenção correspondentes. Apenas um estudo mediu desfechos sistêmicos (Park et al., 2022). Do lado positivo, todos os membros da família foram avaliados quanto aos desfechos visados pela intervenção em todos os estudos; mas o funcionamento familiar, numa lente da teoria dos sistemas e como dito antes, é mais do que a soma de suas partes.
Em conjunto, essas formas de medir ou não medir os componentes sistêmicos nas intervenções representam uma lacuna de pesquisa e uma precisão teórica limitada. Pouquíssimos instrumentos são desenhados para medir desfechos sistêmicos, e os que existem dependem em sua maioria do relato de um único membro da família (Platt & Skowron, 2013). Abordagens qualitativas que incluam observação da família, grupos focais e/ou entrevistas semiestruturadas com todos os membros da família podem ajudar a preencher a lacuna dos desfechos quantitativos (Creswell & Plano Clark, 2018). Elas também podem captar nuances da comunicação que os questionários não captam, como a linguagem não verbal e a interação familiar (engajamento).
Em relação às intervenções psicossociais desenhadas para populações diversas, as considerações culturais podem melhorar esses desfechos, mas as evidências são limitadas. Os dois estudos que incorporaram considerações culturais (Casillas et al., 2021; Marshall et al., 2018) se mostraram mais acessíveis e adaptáveis ao idioma e aos valores culturais do público, reduzindo a lacuna de acesso aos serviços identificada na literatura sobre populações diversas em oncologia (Kronenfeld et al., 2021). Apesar disso, as adaptações culturais na pesquisa continuam limitadas e superficiais, o que representa uma lacuna importante quanto à sua aplicabilidade a muitas famílias latinx.
As evidências limitadas apresentadas nesta revisão mostraram muitos pontos fortes. A viabilidade e a aceitabilidade foram altas na maioria dos estudos. As abordagens de intervenção baseadas na teoria dos sistemas tiveram êxito na maioria dos desfechos estudados. Como resume a Tabela 3, as intervenções revisadas foram em geral viáveis e aceitáveis, com melhoras notáveis em áreas como TEPT e depressão parentais (Salem et al., 2021), comunicação familiar (Lövgren et al., 2022; Park et al., 2022), confiança na sobrevivência (Casillas et al., 2021) e ansiedade de pessoas cuidadoras (Petursdottir et al., 2020). Esses desfechos, porém, não esgotam os desfechos relacionados ao funcionamento familiar presentes na literatura de psico-oncologia.
Esta revisão crítica teve várias limitações. Os estudos selecionados representam uma pequena base de evidências, com apenas dois envolvendo populações latinx. Por isso, as interpretações devem ser feitas com cautela. Além disso, os estudos mostraram heterogeneidade na forma de incluir componentes da teoria dos sistemas, com diferenças no conteúdo da intervenção, em quem a conduziu, nos locais de intervenção e nos membros da família ou pessoas cuidadoras visadas. Essas diferenças dificultam as comparações entre estudos e limitam outras abordagens de revisão, como a metanálise ou, no caso de estudos qualitativos, a metassíntese. Além disso, os desfechos relatados foram predominantemente individuais (por exemplo, depressão parental, enfrentamento da criança) ou relatados por terceiros (por exemplo, percepções dos pais sobre o comportamento da criança). Medir um sistema familiar deveria incluir ao menos a parte nuclear do sistema, levando em conta as variações na forma como as famílias se definem. Por fim, poucos estudos avaliam verdadeiros desfechos do sistema familiar, como coesão, adaptabilidade ou funcionamento intergeracional. Embora esses conceitos sejam definidos segundo uma teoria dos sistemas específica, a ausência da escolha explícita de um referencial teórico sistêmico na maioria dos estudos reflete uma lacuna na conceituação do desenho das intervenções.
Embora os componentes culturais tenham sido um ponto forte nos dois estudos revisados, mais evidências são necessárias para dar conta das particularidades dos grupos latinx específicos abordados, bem como de como a cultura é considerada além do idioma de execução, do foco no familismo e dos locais de recrutamento e implementação. Essas lacunas poderiam ser enfrentadas com um desenho de intervenções psicossociais mais intencional quanto à lente conceitual, sistêmica e cultural.
Alguns modelos de intervenção promissores, como o Abrazo e a fotonovela, mostraram aceitabilidade com populações latinx, predominantemente mexicano-americanas (Casillas et al., 2021). São exemplos de desenho de intervenção que consideram a família como unidade e ajustam tanto a intervenção quanto os desfechos ao público latinx dentro de um desenho de pesquisa. Por exemplo, Casillas et al. (2021) usaram métodos participativos para integrar familiares, equipe de pesquisa e equipe de saúde ao desenho e à implementação de sua intervenção. Sugerimos que esses métodos poderiam beneficiar a adaptação cultural das intervenções psicossociais em oncologia, ao aproveitar as perspectivas de todas as pessoas envolvidas. As intervenções deveriam considerar componentes sistêmicos, como o foco na melhora da comunicação e das relações entre os membros da família, e tratar como temas de trabalho as rupturas na vida provocadas pelo câncer e as mudanças de papéis. Todos os membros da família deveriam fazer parte das intervenções, com foco em díades de pessoa doente e pessoa cuidadora, pessoa doente e cônjuge, ou pessoa doente e filho ou filha; em vários membros da família e em co-sobreviventes.
O desenho de pesquisa das intervenções psicossociais em oncologia poderia se beneficiar de uma conceituação a partir de uma perspectiva sistêmica, que inclua tanto componentes de intervenção quanto desfechos que abordem a família como unidade. Nos estudos quantitativos, os planos de análise de dados com medidas individuais podem considerar comparar os desfechos entre membros da família, e não apenas entre unidades familiares atendidas. Além disso, validar instrumentos culturalmente sensíveis e testá-los em ensaios controlados com seguimento longitudinal fortaleceria a pesquisa voltada às adaptações culturais. A pesquisa em geral deveria ser plurimetodológica, com desenhos qualitativos para captar sentidos e descrições de processos sistêmicos e métodos mistos para oferecer uma integração conceitual e empírica entre diferentes tipos de dados.
Esta revisão crítica argumentou como a integração da teoria dos sistemas e de considerações culturais pode enfrentar, a partir de uma base teórica e empírica, lacunas significativas nas intervenções psicossociais de base familiar em oncologia voltadas a populações latinx. As desigualdades em saúde relacionadas ao câncer nos grupos latinx existem por meio de vários determinantes sociais da saúde, e a pesquisa sobre intervenções psicossociais familiares demonstrou sua eficácia na redução de desfechos ligados a eles. Apesar desse conhecimento, a pesquisa sobre intervenções psicossociais de base familiar ainda tem lacunas consideráveis. As nove intervenções psicossociais de base familiar em oncologia selecionadas para esta revisão permitiram mostrar como componentes da teoria dos sistemas podem ser integrados ao desenho, à implementação e à avaliação das intervenções. A revisão também mostrou, em algumas delas, como as considerações culturais podem reduzir lacunas de acessibilidade. As direções futuras da pesquisa sobre intervenções psicossociais de base familiar em oncologia para pessoas latinx deveriam incluir adaptações culturais de intervenções eficazes para os grupos latinx específicos a que se destinam, assim como o uso de métodos mistos e qualitativos tanto no desenho quanto na avaliação das intervenções. Sobretudo, é importante que um referencial teórico clínico oriente as intervenções psicossociais familiares em oncologia. Como afirmaram Baquero e Parra-Medina (2020):
propomos que a pesquisa se concentre primeiro no desenvolvimento de teorias e no teste de modelos que incorporem adequadamente hipóteses baseadas em evidências e em teoria e construtos bem definidos que captem as experiências das pessoas latinx. Esses construtos e modelos deveriam se basear sobretudo nas experiências históricas, culturais e socioeconômicas das pessoas latinx e abandonar as tentativas de adaptar ou interpretar os comportamentos de saúde das pessoas latinx com base em teorias e modelos desenvolvidos a partir de uma perspectiva branca dominante. (p. 38)
Quando se trata de cultura, é importante ir além dos valores estereotipados associados às diferentes minorias étnico-raciais (por exemplo, familismo, coletivismo) e compreender suas diversas manifestações (Llave et al., 2024). Combinar uma lente da teoria dos sistemas com um referencial cultural oferece um caminho promissor para desenhar e avaliar intervenções ao mesmo tempo fundamentadas na teoria e culturalmente relevantes. Embora esta revisão não possa estabelecer que essas intervenções reduzem as desigualdades em saúde relacionadas ao câncer, as evidências revisadas apontam seu potencial para reduzir o sofrimento psicológico, fortalecer a comunicação e o enfrentamento familiares e melhorar a acessibilidade e a aceitabilidade do cuidado psicossocial para famílias latinx afetadas pelo câncer. Concretizar esse potencial exigirá pesquisas que testem diretamente essas intervenções com famílias latinx.
Complexe Systémique: a reter
Esta revisão faz uma pergunta que a clínica sistêmica conhece bem: basta reunir vários membros de uma família para fazer uma intervenção familiar? A resposta é não. Dos nove programas, quase todos visam a comunicação em torno do câncer, mas só um mede um desfecho sistêmico, e a maioria analisa os dados pessoa por pessoa, como se a família fosse uma soma de indivíduos. O texto tem o mérito de ligar essa fragilidade teórica às famílias latinx: o familismo é ao mesmo tempo recurso e fonte de estresse, e o segredo protetor (“ser fortes”, não sobrecarregar a pessoa doente) pode fechar o sistema justamente quando ele precisaria se abrir. Para a prática, isso convida a trabalhar os papéis desorganizados, os rituais suspensos e as diferenças de aculturação entre gerações, em vez de apenas acrescentar uma tradução para o espanhol. Os limites são assumidos: uma revisão crítica, e não sistemática, apenas nove estudos, dois deles com público latinx, e uma instrução de redação que ficou no texto publicado. Para ler junto com o artigo sobre uma intervenção em grupo Hold Me Tight para pais e mães de crianças com câncer e com o artigo sobre a terapia breve focada nas soluções com famílias hispânicas.
Notas do original
Agradecimentos. A equipe agradece a Brad Conner, do programa PRISM Institute Scholars, pela mentoria na preparação deste artigo. Agradece também ao programa-piloto do Rio Grande Valley Cancer Health Disparity Research Center (RGV-CHDRC), no âmbito dos Research Centers in Minority Institutions (RCMI).
Considerações éticas. Este artigo não envolve pessoas participantes, e o consentimento informado não é necessário.
Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver potenciais conflitos de interesse relativos à pesquisa, à autoria e/ou à publicação deste artigo.
Financiamento. A equipe de pesquisa recebeu, para a pesquisa, a autoria e/ou a publicação deste artigo, o apoio financeiro do UTRGV RCMI NIH (U54MD019970), ao qual agradece.
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Tradução não oficial em português de Sistemas familiares e adaptação cultural nas intervenções psicossociais em oncologia para famílias latinx: uma revisão crítica, de Nicole M. Vélez Agosto, Gladys Stephanie Hernandez, Sarah Chavez Chacon, Danielle Moreno e Cecilia Montiel-Nava, Journal of Family Nursing, publicação on-line antecipada (2026), doi: 10.1177/10748407261478083, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Family Systems and Cultural Adaptation in Psychosocial Cancer Interventions for Latinx Families: A Critical Review”, publicado em Journal of Family Nursing (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Vélez Agosto, N. M., Hernandez, G. S., Chavez Chacon, S., Moreno, D., et Montiel-Nava, C. (2026). Sistemas familiares e adaptação cultural nas intervenções psicossociais em oncologia para famílias latinx: uma revisão crítica (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/sistemas-familiares-e-adaptacao-cultural-nas-intervencoes-psicossociais-em-oncologia (Obra original publicada em 2026 em Journal of Family Nursing, OnlineFirst (2026); republicada em 2026 por Journal of Family Nursing, https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/10748407261478083)
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