História · O hotel terapêutico

O Hotel Terapêutico: uma utopia sistêmica que virou herança viva

Existem na história da sistêmica ideias que, sozinhas, deslocam maneiras de pensar e de cuidar. O conceito de hotel terapêutico, imaginado por Guy Ausloos, é uma dessas intuições raras: uma utopia profundamente enraizada numa experiência pessoal dolorosa, mas capaz de transformar duradouramente a maneira como acompanhamos crianças e adolescentes acolhidos institucionalmente.

Para compreender essa invenção singular, tive a sorte de conversar longamente com Stéphane Bujold, que hoje dá continuidade a essa obra visionária no Quebec. Ele conta não apenas a gênese do conceito, mas também o modo como o reinventou no Havre du Fjord.

Uma utopia nascida de uma ferida de infância

O hotel terapêutico não surge do vazio. Nasce de uma cena fundadora: Guy Ausloos, já na casa dos cinquenta, dirigindo com a mãe, passa novamente diante de um sanatório. Foi ali que, quando criança, ele havia sido internado por seis meses, sob o pretexto de uma tuberculose imaginária. Um eufemismo para dizer: a família já não tinha como alimentar todos os filhos.

Essa revelação tardia se torna uma chave para compreender sua obra. Ela esclarece sua sensibilidade pelos jovens desfavorecidos, sua luta contra as injustiças institucionais e sua recusa em reproduzir o esquema de abandono que ele mesmo sofrera. Para ele, essa dor antiga se torna um motor: quem nasce pobre não precisa de menos cuidado, escuta ou dignidade; apenas tem menos acesso a eles.

Inventar um lugar que cuida de outro jeito

A ideia é simples, bela e exigente: criar um lugar onde jovens em grande dificuldade possam ser acolhidos como num hotel, isto é, num espaço pensado para o seu bem-estar, mas inscrito desde a origem numa dinâmica terapêutica de acolhimento. Três princípios estruturam esse modelo.

1

Individualizar

Responder às necessidades fundamentais antes de qualquer intervenção, restaurar a autoestima e a segurança.

2

Despatologizar

Não reduzir um jovem ao seu diagnóstico; devolver uma lógica humana aos comportamentos.

3

Socializar

Só instalar o trabalho de grupo depois de restauradas as bases relacionais.

A isso se soma uma convicção forte: o trabalho com a família deve começar já no primeiro dia, a fim de evitar os conflitos de lealdade, as rupturas bruscas e as dinâmicas de exclusão tão frequentes na instituição.

Uma revolução na história das instituições

Stéphane Bujold recoloca esse conceito numa genealogia complexa: a dos orfanatos, dos internatos indígenas, dos reformatórios e, mais amplamente, de todas as formas de confinamento que marcaram a história ocidental.

Violências simbólicas, abusos, isolamento, rupturas familiares: as marcas ainda são visíveis. O projeto de Guy Ausloos é um contramodelo radical. Um lugar onde não se quebra mais os jovens, onde não se os pune, onde se deixa de considerá-los “maus” ou “irrecuperáveis”.

O Havre du Fjord: a herança viva

Hoje, Stéphane Bujold retoma e atualiza essa visão num centro único no Quebec: Le Havre du Fjord. O lugar acolhe adolescentes de 14 a 18 anos, muitas vezes diante de quadros complexos que misturam trauma, dependência, dificuldades familiares e rupturas sucessivas.

A filosofia do lugar é fiel ao espírito de Guy Ausloos:

  • acolher já é cuidar;
  • cativar é criar as condições do vínculo;
  • consolidar o vínculo, para que o jovem possa reencenar em segurança roteiros relacionais dolorosos e transformá-los;
  • preparar a separação, última etapa, com demasiada frequência negligenciada, mas indispensável para restaurar a capacidade de apego.

A essa base sistêmica somam-se hoje dois desenvolvimentos importantes: uma socioterapia atenta às marcas traumáticas nas interações cotidianas e o método Brunet, oriundo das pesquisas da Universidade McGill, que permite uma reconsolidação das memórias traumáticas com resultados promissores entre adolescentes.

O hotel terapêutico torna-se assim um ecossistema: um espaço onde se cuida tanto dos jovens quanto das equipes, onde a supervisão e a formação são centrais, onde se cuida de quem cuida.

Por que esse conceito continua revolucionário

Porque questiona frontalmente o que significa cuidar num contexto institucional. Porque propõe uma alternativa aos modelos punitivos e hierárquicos ainda demasiado presentes. Porque recoloca a dignidade no centro. Porque articula o cuidado individual, o cuidado familiar e o cuidado institucional como três dimensões inseparáveis. Porque lembra que só se pode acompanhar os jovens se cuidarmos das equipes que os acompanham.

“As instituições podem ferir, mas também podem reparar.”

Essa conversa com Stéphane Bujold está no vídeo abaixo — em francês.

Como citar este artigo

Besse, J. (2025, 7 de dezembro). O Hotel Terapêutico: uma utopia sistêmica que virou herança viva. Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/o-hotel-terapeutico-uma-utopia-sistemica-que-virou-heranca-viva

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