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Journal of Marital and Family Therapy · Terapia familiar

O toque terapêutico no Modelo do Processo de Validação Humana: uma análise temática reflexiva

Virginia Satir tocava muito: as mãos, o rosto, os ombros. O que fazem desse legado terapeutas que praticam hoje o seu modelo, na era do #MeToo e do cuidado informado pelo trauma? Crystal G. Marroquin e Carson Outler entrevistaram quinze especialistas: o toque continua possível, mas consentido, refletido, às vezes indireto, e sempre pensado à luz da identidade e do poder.

Autores Crystal G. Marroquin (Medicina de Família e Comunidade, University of Texas Southwestern Medical Center, Dallas, EUA); Carson Outler (Desenvolvimento Humano e Ciências da Família, Universidade Estadual da Flórida, Tallahassee, EUA)Primeira publicação Journal of Marital and Family Therapy, 23 de janeiro de 2026Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de O toque terapêutico no Modelo do Processo de Validação Humana: uma análise temática reflexiva, de Crystal G. Marroquin e Carson Outler, publicado na Journal of Marital and Family Therapy (Wiley) (2026), doi: 10.1111/jmft.70111, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

“Fazer contato” pode se manifestar de inúmeras formas, físicas e não físicas.

Crystal G. Marroquin e Carson Outler

Resumo

O uso do toque na terapia é um tema delicado e importante, especialmente relevante para terapeutas de orientação experiencial. O presente estudo buscou explorar, por meio de uma investigação fenomenológica, o papel e o uso do toque no Modelo do Processo de Validação Humana (Human Validation Process Model, HVPM) de Virginia Satir. Quinze pessoas que usam esse modelo foram entrevistadas sobre sua perspectiva e seu uso do toque no HVPM. Com base em dados qualitativos de entrevistas com especialistas, a equipe de pesquisa oferece considerações de boas práticas e exemplos de se e como o toque pode ser incorporado à terapia experiencial. A análise temática reflexiva foi utilizada para gerar cinco temas: (1) estabelecer uma conexão congruente, (2) orquestrar o toque, (3) manusear com cuidado, (4) o self na terapia experiencial e (5) considerações contemporâneas em evolução. Cada tema é discutido com os códigos associados, além de citações diretas das pessoas participantes. Esses resultados podem orientar a prática terapêutica e as formas de utilizar um toque seguro e consentido a serviço da cura na terapia.

O surgimento da terapia familiar sistêmica trouxe consigo várias abordagens de tratamento e figuras pioneiras de diferentes partes do mundo, e uma das mais ecléticas foi Virginia Satir, criadora do Modelo do Processo de Validação Humana. Ela empregava vários métodos em seu trabalho clínico, com destaque para o uso de si e o toque físico terapêutico (Satir e Baldwin 1983). Para além do trabalho de Satir, a importância do toque físico na promoção de vínculos de apego seguros é reconhecida há muito tempo (Jakubiak e Feeney 2016). Ainda assim, o uso do toque físico na psicoterapia tem sido pouco estudado, embora possa ter valor num ambiente em que a pessoa terapeuta trabalha ativamente para criar uma aliança com quem atende e para intervir de forma significativa.

Um dos fundamentos da formação em terapia sistêmica é aprender a criar um vínculo terapêutico com as pessoas atendidas por meio do processo de acoplamento (joining) (Rait 2000). Terapeutas em início de carreira aprendem os riscos de violar limites éticos, entre os quais pode estar o contato físico inadequado. Aprender esses componentes vitais da prática ao mesmo tempo em que se conhece um modelo que promove o uso de si e o toque pode levar quem tem curiosidade por essa abordagem a se concentrar em uma abordagem mais popular ou manualizada, que inclua apenas intervenções verbais. O toque é uma intervenção dinâmica que pode se manifestar de outras formas além do contato entre terapeuta e pessoa atendida, como a facilitação do toque ou a organização do espaço terapêutico para criar conexão. No caso da intervenção física, terapeutas em formação precisam aprender o quando e o como, além do certo e do errado.

À medida que a prática da terapia experiencial cresce e mais terapeutas integram o HVPM à sua abordagem, é essencial avaliar criticamente o papel do toque na prática terapêutica. O objetivo deste estudo foi explorar como terapeutas de orientação experiencial usam e facilitam o toque na terapia, apresentando também concepções renovadas do toque no Modelo do Processo de Validação Humana.

1 Revisão da literatura

1.1 Princípios centrais do HVPM

O Processo de Validação Humana enfatiza o valor genuíno, o respeito e a apreciação pelo milagre e pela bondade de todas as pessoas (Haber 2002). Esse valor profundamente enraizado impregna tanto os conceitos quanto a prática do modelo. O modelo tem vários princípios centrais, entre eles as crenças de que a congruência entre sentimentos internos e comportamentos externos é essencial, de que a autoestima está no centro dos processos interpessoais funcionais e disfuncionais e de que uma comunicação aberta e autêntica é essencial para a saúde das relações (Erker 2017). Nesse modelo, a congruência é um construto multifacetado, ligado à comunicação e à harmonia (Satir e Baldwin 1983). No HVPM, a comunicação congruente é muitas vezes descrita como “falar direto”, ou dizer o que se pensa e fazer o que se diz (Englander-Golden e Satir 1990). Esse é um objetivo geral para as pessoas atendidas, e terapeutas que praticam esse modelo também devem buscar a congruência e servir de modelo dela. Além disso, o modelo afirma que a autoestima afeta o funcionamento individual e sistêmico, para melhor ou para pior. Quando a autoestima está baixa e ameaçada, as pessoas a protegem aplacando, culpando, sendo super-razoáveis ou desviando a atenção da troca (Satir 1972). O HVPM busca ajudar as pessoas atendidas a melhorar a autoestima, tornar-se mais congruentes e comunicar-se diretamente. O HVPM também se concentra em notar, nomear e modificar os padrões de comunicação dentro do sistema. Satir destacava que a comunicação é a troca e a construção de sentido entre as pessoas e envolve os cinco sentidos (Satir 1976; Satir e Baldwin 1983). O HVPM incentiva terapeutas a ajudar as pessoas atendidas a compreender melhor as respostas somáticas associadas a estímulos positivos e negativos, para apoiar a conexão entre mente e corpo (Satir et al. 1991). Para alcançar esses objetivos, terapeutas podem recorrer a várias ferramentas, como a metáfora, a escultura, o humor, o uso de si e o toque.

1.2 O toque no HVPM

É preciso, antes de tudo, destacar que qualquer envolvimento físico com uma pessoa atendida deve ser consentido, informado e intencional (Pinson 2002). Antes de recorrer ao toque, a pessoa terapeuta deve considerar a identidade da pessoa atendida, sua história clínica e o estado atual da aliança terapêutica (Phelan 2009). No contexto desse modelo, o toque pode incluir a pessoa terapeuta pôr a mão nas costas da pessoa atendida para acalmá-la ou oferecer um abraço quando ela se sente sobrecarregada. Satir acreditava que o toque físico era uma forma de se conectar com as pessoas atendidas, para ajudá-las a se sentir seguras e ancoradas na sessão, mas que ele precisava ser feito com propósito (Satir e Baldwin 1983). Os primeiros ensinamentos e vídeos desse modelo mostram Satir muito envolvida fisicamente com as pessoas atendidas, segurando suas mãos, seu rosto e seus ombros. Por diferentes razões, porém, isso pode não ser congruente para cada terapeuta, e o grau de toque físico que parece autêntico no espaço terapêutico pode variar.

No conhecido livro de Satir Step by Step, lê-se: “…que o toque dela não é uma ‘técnica’ automática e mecânica que ela usa indiscriminadamente. Ela era muito sensível aos sinais que recebe sobre os limites das pessoas e não os transgredirá” (Satir e Baldwin 1983). No HVPM, o toque é deliberado e intencional, como forma de acalmar ou de intensificar um momento ou uma experiência. Por exemplo, pode-se sentar ao lado de uma pessoa atendida e pôr a mão em suas costas para confortá-la se ela se sentir sobrecarregada ao elaborar um tema difícil. Além disso, a pessoa terapeuta pode se inclinar fisicamente em direção a ela ou pôr a mão em seu braço ou joelho durante um trabalho de elaboração profunda, para mostrar apoio físico e, ao mesmo tempo, procurar ancorar a pessoa na conversa.

Como já mencionado, o toque, no contexto desse modelo, nem sempre é um contato físico entre terapeuta e pessoa atendida. Além do toque físico, existe a facilitação do toque, em que a pessoa terapeuta incentiva membros de um casal ou de uma família a darem as mãos ou a se aproximarem. Terapeutas que praticam esse modelo podem nunca tocar fisicamente as pessoas atendidas e, em vez disso, facilitar uma experiência de toque entre casais ou famílias. No atendimento individual, a pessoa terapeuta pode incentivar a pessoa atendida a se confortar com um abraço em si mesma ou a aliviar uma resposta somática massageando o ponto de tensão do corpo. Como esse modelo destaca a importância de ajudar as pessoas atendidas a reconhecer suas respostas internas, além das externas, facilitar o toque como ferramenta de exploração pode ser benéfico. Em sistemas com mais de uma pessoa, o toque pode ser incorporado como forma de criar novas formas de proximidade e intimidade, ou de retomar formas anteriores, conforme o desejo das pessoas atendidas. Por exemplo, a pessoa terapeuta pode pedir que um membro do casal segure a mão do outro ou ponha o braço em volta dos ombros do outro enquanto o casal conversa sobre um tema ou uma experiência difícil. Além disso, o toque pode ocorrer na aplicação de outras intervenções centrais desse modelo, como a escultura familiar, em que a pessoa terapeuta pode posicionar as pessoas com as mãos. Embora seja um componente do HVPM, o envolvimento físico não é incorporado nem incentivado por outros modelos sistêmicos, o que desperta curiosidade sobre a utilidade do toque no tratamento.

1.3 A polarização em torno do toque

O uso do toque na terapia, qualquer que seja o modelo terapêutico, é um tema delicado e debatido. Embora muitas pessoas terapeutas talvez não usem o toque de propósito em seu trabalho, pesquisas anteriores mostraram que a maioria efetivamente toca as pessoas atendidas conforme a situação (Hunter e Struve 1998; Pope et al. 2006). Um estudo qualitativo sobre o uso do toque na terapia por profissionais de psicologia clínica constatou que a decisão de tocar uma pessoa atendida era geralmente instintiva (Harrison et al. 2012). Terapeutas podem usar o toque por diversas razões, como cumprimentar, consolar e encorajar as pessoas atendidas, ou conter uma pessoa violenta (Rovers et al. 2017). No entanto, muitas pessoas terapeutas hesitam em falar de qualquer uso do toque por medo de acusações de irregularidade ou de suspeitas de má conduta (Stenzel e Rupert 2004).

Os trabalhos favoráveis ao toque na terapia sugerem que o toque em si é terapêutico (Berendsen 2017). O toque é uma linguagem pré-programada da experiência humana, essencial ao nosso desenvolvimento (Gothard e Fuglevand 2021). Uma revisão sistemática recente com metanálise multinível, de Packheiser et al. (2024), sintetizou os resultados de 137 estudos empíricos e 75 revisões sistemáticas mais amplas. O estudo relata efeitos globais de tamanho médio das intervenções de toque sobre a saúde física e mental de adultos. Mais especificamente, a equipe constatou que as intervenções de toque reduziram significativamente os sintomas depressivos, ansiosos e de dor; as análises de moderação mostraram que as amostras clínicas tiveram mais benefícios em saúde mental do que as amostras normativas (Packheiser et al. 2024). No campo da terapia, as vozes favoráveis ao toque destacam que ele pode favorecer a contenção e a segurança (Courtney e Gray 2014; Pinson 2002) e facilitar a comunicação (Salzmann-Erikson e Eriksson 2005). Além disso, o toque pode ajudar as pessoas atendidas a utilizar seu saber somático e a reconectar mente e corpo. A pesquisa em neurociências apoia essa conexão entre mente e corpo e mostrou que a psicoterapia corporal pode ajudar no tratamento da depressão crônica e do trauma (Langmuir et al. 2012; Leitch et al. 2009; Röhricht et al. 2013). Pesquisas anteriores também sugeriram que o toque é mais eficaz na terapia quando há um diálogo aberto sobre ele (Westland 2011). Muitas vozes defendem que o toque seja um tema fundamental nos programas de mestrado, com oportunidades de praticar um toque sintonizado, seguro, intencional, contextualizado e consentido (Wright 2020).

Por outro lado, terapeutas podem sentir desconforto ou insegurança diante da ideia de tocar as pessoas atendidas, por várias razões. A maioria dos códigos de ética de aconselhamento e terapia não trata diretamente do toque, e poucos modelos de tomada de decisão ética o consideram (Calmes et al. 2013). Para deixar claro: o toque sexual ou violento é considerado antiético em todas as disciplinas. No entanto, muitos programas de formação oferecem um preparo inadequado sobre o toque terapêutico (Wright 2020), o que pode levar a mal-entendidos sobre se o toque é apropriado. Além disso, o debate sobre o toque continuou dicotômico, desconsiderando o como e o quando do uso do toque com as pessoas atendidas (Stenzel e Rupert 2004). Para muitas pessoas terapeutas, a decisão de evitar o toque pode estar enraizada na gestão de riscos ou na incerteza sobre como integrar o toque a um cuidado informado pelo trauma. É compreensível que a supervisão muitas vezes desencoraje o uso do toque para evitar possíveis problemas éticos ou legais. O toque pode ser visto como arriscado, sobretudo se a pessoa atendida o interpretar mal (Glickauf-Hughes e Chance 1998). Por fim, os movimentos sociais contemporâneos têm pressionado por mais atenção ao poder, à autonomia e ao trauma. Terapeutas podem temer que seu toque seja vivido como prejudicial, violador ou retraumatizante (Calmes et al. 2013). Sem formação adequada, muitas pessoas terapeutas sentem falta de preparo para o uso do toque terapêutico e, em consequência, pecam pelo excesso de cautela e evitam o toque por completo.

2 O presente estudo

As intervenções do HVPM, especialmente o toque terapêutico, devem ser aplicadas com intenção, curiosidade e cautela ética explícita. Embora o toque seja frequentemente mencionado nas descrições das abordagens experienciais, falta na literatura um relato claro de como essa intervenção evoluiu no contexto do modelo de Satir. Essas concepções renovadas também exigem considerar as nuances vividas pelas pessoas atendidas hoje. No presente estudo, a equipe de pesquisa procurou entender melhor como terapeutas podem usar ou facilitar o toque e que importância atribuem a ele em relação ao HVPM e ao seu trabalho clínico em geral. Desde a criação do modelo, no fim do século XX, as normas sociais em torno do toque e da conexão podem ter mudado. Assim, a equipe se interessou pela forma como as pessoas participantes aplicam e concebem o toque na terapia no clima atual, e por como elas não apenas se adaptaram às necessidades das pessoas atendidas hoje, mas também se apropriaram do toque. Este estudo buscou responder à seguinte questão de pesquisa: como terapeutas de orientação sistêmica que se apoiam no Modelo do Processo de Validação Humana dão sentido ao uso clínico do toque e o conceituam?

3 Métodos

3.1 Posicionamento e paradigma

Em nome da transparência e da autorreflexividade, as autoras gostariam de reconhecer suas localizações sociais. Ambas usam o HVPM em sua prática clínica. Identificam-se como mulheres cisgênero, sem deficiência, em início de carreira como terapeutas de casal e família. Ambas têm mestrado; uma tem doutorado e a outra está cursando o doutorado. A primeira autora é hispânica, e a segunda é branca. Queremos reconhecer que nossas identidades interseccionais singulares influenciam nosso uso do toque na terapia e esta pesquisa. Ao discutir identidade e poder, é importante abordar explicitamente como nossos corpos carregam nossas experiências vividas e nossos traumas e se entrelaçam com eles. Ao discutir o toque na terapia, a fisicalidade literal de nossas formas humanas, incluindo formato, tamanho, cor da pele, idade e expressão de gênero, também é central. Por exemplo, nossos corpos, tal como se apresentavam nas entrevistas com as pessoas participantes ou tal como se apresentam na terapia com as pessoas que atendemos, não são instrumentos neutros. O toque na terapia é moldado por percepções de feminilidade, masculinidade, raça, idade, capacidade física e aparências normativas ou divergentes. Por causa da socialização de gênero e das normas nos Estados Unidos, nosso uso do toque pode ser percebido como acolhedor, menos ameaçador e mais aceitável socialmente. Ao longo da análise dos dados, houve uma discussão intencional sobre como as identidades, os corpos e as perspectivas clínicas da equipe de pesquisa influenciaram os resultados deste estudo.

Além disso, este trabalho se situa num paradigma construtivista-interpretativista, fundamentado numa ontologia relativista e numa epistemologia construtivista. Uma posição ontológica relativista pressupõe que a realidade é múltipla, subjetiva e moldada pelo contexto (Guba e Lincoln 1994). Por essa lente, não existe uma realidade objetiva única do toque. Nossa epistemologia construtivista afirma que o conhecimento é coconstruído por meio do diálogo (Creswell e Poth 2018). Em nosso trabalho, o sentido coconstruído entre as pessoas participantes e a equipe de pesquisa não visava produzir verdades universais, mas reflexões contextuais. Esse paradigma reconhece a natureza situada e interpretativa da pesquisa qualitativa e se alinha ao nosso objetivo de captar os processos pelos quais terapeutas dão sentido ao toque (Guba e Lincoln 1994). Ao desenhar este estudo, priorizamos a integridade metodológica, garantindo tanto a fidelidade às experiências vividas das pessoas participantes quanto a utilidade para alcançar nosso objetivo de pesquisa, que era gerar contribuições significativas para a teoria do HVPM (Levitt et al. 2017).

3.2 Metodologia

Orientada por nossa questão de pesquisa e pelo tema recorrente da nuance e do contexto na pesquisa existente sobre o toque, a fenomenologia era adequada para suscitar relatos ricos e descritivos das experiências das pessoas participantes. A fenomenologia enfatiza os relatos em primeira pessoa, com o objetivo de revelar a essência de um fenômeno (Van Maanen 1998). Fundamentar este estudo numa abordagem fenomenológica garantiu um alinhamento claro com nossa ontologia relativista e nossa epistemologia construtivista (Creswell e Poth 2018). Desse ponto de vista, o sentido e a experiência coletiva do toque no HVPM são entendidos como subjetivos e condicionados por quem são, como pessoas, a pessoa terapeuta e a pessoa atendida. Para entender como o toque é vivido, percebido, interpretado e aplicado, as narrativas das pessoas participantes são priorizadas. Assim, a fenomenologia era a mais indicada para orientar a produção de conhecimento a partir das experiências vividas das pessoas participantes, captando a nuance necessária para interpretar as complexidades do toque na prática clínica.

3.3 Método

Para analisar os dados, empregamos uma análise temática reflexiva, que nos permitiu ampliar a teoria existente do HVPM, atentando para as perspectivas e percepções vividas das pessoas participantes (Braun e Clarke 2025; Creswell e Poth 2018). A análise temática reflexiva é um método qualitativo usado para identificar, analisar e interpretar padrões presentes nos dados (Braun et al. 2022), com foco no papel de quem pesquisa. Esse método reconhece a subjetividade e incentiva uma reflexão contínua ao longo da análise, para reconhecer como a perspectiva de quem pesquisa pode moldar os temas que emergem. Foi utilizada uma abordagem dedutiva, já que a codificação e o desenvolvimento dos temas foram orientados por ideias existentes ligadas ao HVPM (Braun e Clarke 2022b). A “adequação” entre nosso delineamento, nosso método e nossa questão de pesquisa foi avaliada (Braun e Clarke 2022a; Willig 2013). Nossa análise temática reflexiva teve orientação experiencial e era adequada à nossa questão de pesquisa, pois se concentrava nas práticas e nos comportamentos das pessoas. Essa abordagem pode captar padrões entre temas organizadores, integrar-se a diversos referenciais teóricos e tratar de questões relacionadas às experiências das pessoas (Braun e Clarke 2022a, 2022b). A flexibilidade da análise temática reflexiva permite uma compreensão matizada das diversas maneiras como terapeutas incorporam o toque, enquanto o foco na perspectiva de quem pesquisa garante que a análise permaneça sensível às experiências complexas e subjetivas inerentes às práticas terapêuticas.

3.4 Primeira onda de coleta de dados

3.4.1 Recrutamento de participantes

Os dados do presente estudo foram coletados em duas ondas. A primeira onda de coleta fez parte de um estudo mais amplo que buscava criar um referencial conceitual para o HVPM (Outler e Marroquin 2025). As pessoas convidadas eram consideradas especialistas se tivessem uma dedicação clínica, profissional e/ou acadêmica consistente ao Modelo do Processo de Validação Humana e domínio dele. As pessoas especialistas foram contatadas por e-mail.

3.4.2 Procedimentos

Uma descrição do estudo, o link para um questionário e o termo de consentimento livre e esclarecido foram enviados às pessoas convidadas. O questionário incluía várias medidas e perguntas abertas sobre o uso e a compreensão do HVPM. As pessoas interessadas responderam ao questionário e tiveram a opção de aceitar uma entrevista com a pesquisadora principal. Quem aceitou a entrevista teve um encontro marcado com a pesquisadora principal pelo Zoom. As perguntas tratavam das experiências de aprender e usar o HVPM, além da compreensão de seus conceitos e intervenções centrais. As entrevistas da primeira onda incluíam uma pergunta sobre o uso do toque na terapia, com uma pergunta de aprofundamento. A pergunta era: como você usa ou facilita o toque com as pessoas que atende? Se a pessoa usava o toque em seu trabalho, perguntava-se em seguida: há considerações que você leva em conta ao usar o toque? O presente estudo buscou captar uma ampla gama de experiências e, ao final das 10 primeiras entrevistas, não havia poder informacional suficiente (Malterud et al. 2016); por isso, foram realizadas cinco entrevistas adicionais. O poder informacional se refere à quantidade de informação que uma amostra contém e que é necessária para responder aos objetivos do estudo (Braun e Clarke 2021).

3.5 Segunda onda de coleta de dados

3.5.1 Recrutamento de participantes

Numa segunda onda de coleta de dados, a amostra foi ampliada com foco específico no uso do toque. Essas pessoas foram recrutadas por amostragem em bola de neve. Não houve remuneração pela participação no estudo. Os procedimentos do estudo foram supervisionados pelo comitê de ética em pesquisa (Institutional Review Board) da universidade.

3.5.2 Procedimento

As pessoas interessadas foram convidadas a responder a um breve questionário, com o consentimento e perguntas demográficas, antes de agendar uma entrevista com a pesquisadora principal. Uma vez agendada, cada pessoa participou de uma entrevista gravada de uma hora pelo Zoom com a pesquisadora principal. Com um roteiro de entrevista semiestruturado centrado na intervenção do toque, a equipe perguntou às pessoas participantes sobre sua percepção e seu uso do toque nesse modelo. Entre as perguntas estavam: “Como sabemos, o modelo de Satir destaca o uso do toque. Como você, pessoalmente, usa ou facilita o toque com as pessoas que atende?” e “Você acha que o fato de o toque ser uma intervenção desse modelo atrai terapeutas para o HVPM ou afasta terapeutas dele?”. As pessoas participantes foram incentivadas a compartilhar o quanto se sentissem à vontade sobre seu uso do toque no HVPM. Outras perguntas investigavam o papel que suas identidades tinham na decisão de incorporar ou não o toque à prática. Todos os dados foram desidentificados e salvos numa pasta segura do OneDrive. As entrevistas foram transcritas literalmente com o serviço Otter.ai e conferidas.

3.6 Características demográficas da amostra completa

A amostra final inclui 15 pessoas entrevistadas. O tempo de experiência com o HVPM variava de 7 a 60 anos (M = 26,3, DP = 16,9). A amostra incluía nove mulheres e seis homens. As idades variavam de 33 a 79 anos (M = 56,4, DP = 17,9). Segundo a autodeclaração racial/étnica, havia 10 pessoas brancas não hispânicas, 2 pessoas hispânicas, 1 pessoa negra e 2 pessoas que escolheram “outra, não hispânica”. Cinco pessoas atuavam ao mesmo tempo como docentes e na clínica, cinco atuavam apenas na clínica, três tinham outras funções profissionais, uma atuava exclusivamente como docente e uma não informou sua função profissional atual. Todas as pessoas participantes viviam, à época, nos Estados Unidos ou no Canadá. Entre as 10 pessoas clinicamente ativas, a maioria atuava em consultório particular, atendendo indivíduos, casais e famílias, e algumas também tinham experiência em contextos médicos.

3.7 Análise dos dados

A análise temática reflexiva é um método de organização sistemática de dados qualitativos que traz à tona concepções e ideias na forma de códigos e temas significativos (Braun e Clarke 2022a). Esse processo iterativo permite familiarizar-se de perto com o que os dados dizem, passando por seis etapas de revisão em que cada contato com os dados torna o sentido mais claro (Mihas 2023). Ao longo desse processo analítico orgânico, a equipe redigiu notas no nível dos construtos para registrar impressões, refinar códigos e desenvolver temas.

Na primeira etapa, cada uma de nós se familiarizou com os dados lendo individualmente, em sequência, cada uma das transcrições, para conhecer a perspectiva singular de cada participante. Um exemplo de nota da primeira etapa dizia: “Dá para perceber que se trata de uma pessoa terapeuta mais velha, que parece muito segura no uso do toque na terapia. O que isso significa para terapeutas em início de percurso, que talvez não ‘emulem’ uma energia semelhante à da fundadora do modelo, que era uma mulher mais velha?” Era esse tipo de reflexão que se discutia na equipe para explorar como cada perspectiva poderia afetar os processos individuais de codificação. A segunda etapa consistiu na geração inicial de códigos, feita individualmente por cada pesquisadora antes da discussão conjunta. Entre os códigos estavam “o toque como uso de si” e “descrições do uso do toque na prática”. Ao longo das rodadas de codificação, nossos códigos foram refinados de forma reflexiva. Por exemplo, o código inicial “tipos de toque” foi refinado em códigos como “toque que ancora” e “toque evocativo” e evoluiu para os códigos finais “acalmar e confortar” e “amplificar o momento”. Seguiu-se a terceira etapa, a geração preliminar de temas, que incluiu a organização dos códigos e a exploração de possíveis padrões nos dados. Como já utilizamos o HVPM e supervisionamos terapeutas que o utilizam, exploramos como nossas próprias realidades subjetivas podem ter influenciado a interpretação dos dados. O tema inicial “uso indireto do toque” representava um agrupamento amplo e genérico e evoluiu para “orquestrar o toque”. Esse tema refinado marca nossa passagem para um padrão interpretativo, baseado no sentido (Braun e Clarke 2022a). A quarta etapa consistiu no desenvolvimento e na avaliação dos temas. Exploramos como nossas perspectivas individuais e orientações clínicas podem ter influenciado as decisões sobre o que constitui um tema. Isso levou à quinta etapa, em que definimos os temas com nomes representativos. A sexta etapa consistiu em finalizar os temas e apresentar a interpretação dos trechos de dados (Braun e Clarke 2022a).

3.8 Confiabilidade e credibilidade

Na pesquisa qualitativa, a confiabilidade se refere às técnicas usadas para manter o rigor, a transparência e a credibilidade ao longo do processo analítico (Ahmed 2024; Creswell e Poth 2018). Em consonância com as orientações recentes, seguimos as diretrizes de Braun e Clarke (2024) para relatos de análise temática reflexiva, que enfatizam a transparência, a coerência e a reflexividade como marcadores-chave da confiabilidade nesse tipo de análise. Essas diretrizes (Braun e Clarke 2024) reforçam que, na análise temática reflexiva, a confiabilidade é alcançada por meio de um engajamento reflexivo contínuo, e não pela adesão a uma lista de verificação. Ao longo desta pesquisa, adotamos várias práticas reflexivas. Com nossa formação de terapeutas no HVPM, discutimos continuamente como nossas experiências clínicas e pessoais e nossos pressupostos sobre o toque poderiam moldar nosso trabalho. Por exemplo, nas primeiras entrevistas, supúnhamos que todas as pessoas que usavam esse modelo e se interessavam pelo estudo utilizariam o toque. Como essa suposição não se confirmou, examinamos criticamente como essa expectativa poderia ter influenciado nossa percepção dos relatos e colocamos ativamente seu impacto entre parênteses no desenvolvimento dos códigos e temas (Tufford e Newman 2012).

A credibilidade, um dos pilares da confiabilidade, refere-se à medida em que os resultados são fiéis aos relatos das pessoas participantes (Korstjens e Moser 2018). Na análise temática reflexiva, a credibilidade é alcançada por uma atenção cuidadosa ao papel interpretativo de quem pesquisa (Braun e Clarke 2022b, 2024). Neste estudo, a credibilidade foi apoiada por uma redação detalhada de notas reflexivas, discussões de devolutiva entre pares, a manutenção de uma trilha de auditoria das decisões de codificação e o uso de várias fontes de dados para enriquecer a interpretação (Nowell et al. 2017). Em conjunto, essa prática reflexiva contínua ajudou a sustentar a confirmabilidade e a consistência dos resultados.

4 Resultados

A análise temática reflexiva dedutiva das entrevistas levou ao refinamento e à seleção de cinco temas e 14 códigos, que captaram tanto construtos teóricos quanto a experiência vivida das pessoas participantes. Os temas gerais gerados foram: (1) estabelecer uma conexão congruente, (2) orquestrar o toque, (3) manusear com cuidado, (4) o self na terapia experiencial e (5) considerações contemporâneas em evolução. Cada tema será discutido com os códigos associados, além de citações diretas das pessoas participantes que sustentam cada tema.

4.1 Estabelecer uma conexão congruente

No Modelo do Processo de Validação Humana, “fazer contato” é o processo de criar uma conexão genuína com as pessoas atendidas e entre elas, em que a informação pode ser compartilhada com segurança e se gera uma esperança no futuro (Satir 1976). As pessoas participantes conceberam, de forma esmagadora, o toque como a conexão física entre elas e as pessoas atendidas. Citaram vários propósitos para o uso do toque no contexto terapêutico, desenvolvidos nos códigos (1) acalmar e confortar, (2) interpretar rituais habituais e (3) amplificar o momento. Qualquer que fosse a intenção desse contato físico, as pessoas participantes destacaram a importância de explicar o propósito do toque. Desde o início, pode ser útil explicar às pessoas atendidas que o toque faz parte desse modelo e como ele pode ser usado, com consentimento, para ajudar na cura ao longo das sessões.

4.1.1 Acalmar e confortar

O toque era muitas vezes visto como uma ferramenta para ajudar pessoas em estado emocional intenso a se reorientar para o presente. Uma pessoa terapeuta explicou:

No meu trabalho com trauma, houve situações em que vi pessoas se dissociarem, ou ficarem meio fora da janela de tolerância, em estado de luta ou fuga, e, com a permissão delas, porque não quero retraumatizá-las, às vezes o toque ancora desse jeito. Ajudar as pessoas a voltar para a realidade, tipo: “Tudo bem se eu puser a minha mão aqui no seu joelho um instante enquanto você, enquanto você faz essa respiração? Para te ajudar a voltar.”

Outra pessoa participante contou: “Se for na hora certa e no lugar certo, sabe, sentir a mão quando alguém está tendo uma lembrança aterrorizante, aterrorizante. [Dizer] ‘Estou aqui. Você não está lá. Agora estamos lado a lado.’” Além disso, algumas pessoas participantes destacaram a diferença entre o toque que lhes parecia normal fora da terapia e um toque mais próprio do contexto terapêutico e das primeiras representações do HVPM. Uma pessoa participante contou:

… o toque, para mim, fazer isso e incorporar no uso do modelo não é uma coisa natural para mim. Mas houve momentos em que eu quis fazer isso na sessão… por exemplo, eu atendia uma cliente cujo namorado teve uma overdose, quando eu trabalhava na internação, e me pareceu muito normal dar uns tapinhas nas costas dela.

4.1.2 Interpretar rituais habituais

Várias pessoas participantes também comentaram que as pessoas atendidas muitas vezes buscam o toque como uma forma habitual de cumprimento. Esse sinal social e cultural é comum em outros espaços da vida comunitária (por exemplo, trabalho, igreja, contextos médicos) e na vida familiar, em que o abraço pode ser uma forma de se conectar com alguém querido. Uma pessoa participante afirmou:

Tenho muitas, muitas pessoas que só querem me dar um abraço apertado no fim da sessão, é uma coisa muito comum. Algumas fazem, outras não. Eu me guio pelos sinais delas, sabe, não imponho. Mas é porque é uma forma tão profunda de conexão que o toque pode ser sentido como uma confirmação disso…

Algumas pessoas participantes também observaram que é imprescindível estar em sintonia com os sinais da pessoa atendida, bem como com o próprio conforto com o toque. Uma pessoa terapeuta contou: “Quando você está terminando a terapia e [as pessoas] dizem: ‘Posso te dar um abraço agora?’, ou coisas assim, de um jeito muito sincero e nada esquisito… eu sempre digo: ‘Eu me contento com um aperto de mão’, ou, dependendo da pessoa: ‘Sim, claro.’”

4.1.3 Amplificar o momento

Por fim, surgiu um código sobre o toque usado para aumentar ou intensificar uma experiência emocional na terapia. As pessoas participantes refletiram muitas vezes sobre o uso do toque com casais ou famílias para evidenciar um processo ou conectar pessoas queridas numa troca tensa. Uma pessoa terapeuta explicou:

Quando as pessoas que atendo baixam um pouco mais a guarda ou estão um pouco mais próximas, eu brinco com elas e digo: “Ué, o que é isso aí?”, e faço com que percebam o que pode estar acontecendo, e às vezes é um toque… depois pergunto como elas podem se apoiar nisso para atravessar tensões ou mal-entendidos.

Muitas pessoas participantes descreveram o toque como uma ferramenta para aumentar a profundidade ou a força de um momento na sala de terapia. Uma delas contou: “[O toque é] aumentar essa intensidade emocional, ou essa ansiedade emocional, né? Tipo trazer essa intensidade para o momento.” Outra pessoa observou, de modo semelhante, que com o toque “quer poder amplificar um momento emocional”.

4.2 Orquestrar o toque

As pessoas participantes deste estudo nem sempre apresentaram o toque como uma intervenção intrinsecamente direta, mas às vezes como algo transmitido pela presença ou pela proximidade com a pessoa atendida, além da facilitação do toque ou do destaque dado a um toque que ocorreu entre as pessoas atendidas sem ser solicitado. Este tema reúne três códigos: (1) organizar o espaço, (2) facilitar a conexão e (3) destacar o toque espontâneo das pessoas atendidas.

4.2.1 Organizar o espaço

As pessoas participantes observaram que às vezes lhes parecia mais autêntico ficar mais perto de uma pessoa atendida ao discutir um tema difícil ou quando queriam incentivar a si mesmas e à pessoa atendida a estarem mais presentes. Uma pessoa participante descreveu assim sua concepção desse processo:

Acredito que é isso que o modelo de Satir realmente pede quando fala de toque: tem mais a ver com essa proximidade, com mostrar, tipo: “Estou aqui, você pode confiar em mim.” A meu ver, tem menos a ver com o toque em si e mais com como posso mostrar fisicamente que estou perto, que estou aqui e que estou dando apoio.

Essa pessoa deu em seguida um exemplo específico de como pode se envolver com a pessoa atendida e com o espaço terapêutico sem tocá-la fisicamente. Destacou que:

É uma espécie de proximidade por procuração, de organizar e usar a sala para ajudar a facilitar a proximidade com as pessoas atendidas, entre elas etc. Seja uma mão no braço da poltrona, seja chegar um pouco mais perto, seja aproximar um pouco a cadeira, ou colocar a cadeira de lado, para ficar menos confrontador e mais no espírito de “Ei, estamos nessa lado a lado”. Isso é, como eu disse, o que eu chamo de quase-toque, em que a gente ainda usa esse espírito de proximidade e conexão sem ter de romper a barreira do toque físico, com a qual você e a pessoa que você atende talvez não se sintam à vontade.

As pessoas participantes também observaram que a maneira como Satir introduzia sua presença no espaço era útil ao começar o trabalho com pessoas novas. Por exemplo, outra pessoa participante destacou: “o que [Satir] fazia com pessoas novas, com quem ela ainda não tinha estabelecido isso [o toque como intervenção, o consentimento], é que ela punha a mão ali [perto da pessoa], não tocava, punha a mão no campo”.

4.2.2 Facilitar a conexão

Além de organizar o espaço terapêutico, as pessoas participantes destacaram o valor de criar, por meio do toque, momentos de conexão entre membros de um casal ou de uma família, o que era usado para “amplificar um momento emocional”. Por exemplo, uma pessoa terapeuta contou que muitas vezes faz isso física e verbalmente, “juntando as mãos delas [das pessoas atendidas]” ou perguntando: “Vocês podem dar as mãos, podem sentar um ao lado do outro?”. As pessoas participantes sugeriram que esses momentos permitiam às pessoas atendidas começar a construir hábitos de proximidade já na terapia, além de facilitar um apoio físico mútuo durante conversas difíceis. Também se discutiu o valor de dar passos em direção à conexão física começando por outras formas de conexão; por exemplo, uma pessoa participante afirmou:

Nem sempre começo com um “deem as mãos”, sabe, começo com o contato visual. Vejo isso como um momento de conexão e, então, a gente precisa fazer algo concreto com isso. Pode ser, tipo, olhem um para o outro, ou, para algumas pessoas, é dar as mãos ou chegar mais perto no sofá.

Outra pessoa participante enfatizou que criar oportunidades para momentos de conexão antes ou depois da sessão abria a porta para que rituais significativos acontecessem no espaço terapêutico. Enfatizou:

… as pessoas se abraçarem ao chegar, ou ao sair, sabe, facilitar os toques é uma parte importante de como as famílias se relacionam, e tudo isso remete aos elementos humanos das coisas e não se baseia, tipo, no que a sociedade considerou apropriado ou não apropriado.

4.2.3 Destacar o toque espontâneo das pessoas atendidas

Além de incentivar a continuidade dos momentos de conexão, também foi mencionada a importância de notar quando as pessoas atendidas começavam, sem ser solicitadas, a buscar o toque de uma pessoa querida. Uma pessoa terapeuta fazia isso com humor, observando quando:

… elas estão baixando a guarda ou sentando um pouco mais perto. Eu brinco com elas e digo: “Ué, o que é isso aí?”, sabe, e faço com que elas percebam o toque e o calor, e destaco isso para elas.

Isso também era usado para evidenciar as forças das pessoas atendidas em relação aos objetivos da terapia. Essa pessoa terapeuta descreveu em seguida a importância de observar que o toque é uma “força que elas trazem para a terapia. Tenho alguns casais para quem é natural esse toque entre si. Então pergunto como o casal pode se apoiar nisso para atravessar tensões ou mal-entendidos”. Além disso, as pessoas participantes contaram que era valioso elaborar a experiência de um toque espontâneo e seu efeito no momento presente, para reforçar o comportamento quando o efeito é positivo. Uma pessoa participante fazia isso observando:

Quando acontece um toque espontâneo, se as pessoas estão conversando e uma estende a mão e pega a mão da outra, a gente vai parar e vai destacar isso. A gente vai conversar sobre isso e vai elaborar, tipo: “Você acabou de pegar a mão dele, me conta o que você estava sentindo e por que fez isso. Como foi para você quando ela fez isso, e como é agora, enquanto ela segura a sua mão?”

Ser terapeuta experiencial é prestar atenção a todas as dimensões da experiência da pessoa atendida, incluindo suas sensações físicas e seus processos na sala de terapia. As pessoas participantes destacaram o valor de incorporar uma forma mais indireta de toque, mas reiteraram que todas as formas de conexão vêm acompanhadas de cuidados necessários com a segurança das pessoas atendidas.

4.3 Manusear com cuidado

Outro tema marcante para as pessoas participantes foi conceber e garantir um uso do toque ético e informado pelo trauma. Mais especificamente, terapeutas refletiram sobre como a história de trauma das pessoas atendidas poderia afetar seu conforto em dar ou receber toque. Para abarcar essas reflexões, emergiram dos dados os códigos (1) a ética na prática e (2) o consentimento como processo.

4.3.1 A ética na prática

As pessoas participantes reconheceram o cenário atual do toque no contexto terapêutico, embora divergissem nas reações sobre como abordá-lo. Compartilharam preocupações de que seu toque fosse mal interpretado e um receio latente de consequências legais. Uma pessoa participante contou:

O consentimento e a permissão são importantes porque, especialmente se o trauma foi de natureza física, estender a mão e simplesmente tocar a pessoa poderia ter o efeito contrário. Com crianças, acho que hesito um pouco mais também. Acho que as crianças precisam disso. Mas eu, no meu papel clínico, eticamente me preocupo com, tipo… não quero que ninguém perceba isso de um jeito que não era a intenção, o que pode acontecer. Então tomo cuidado ao tocar crianças, talvez até mais do que com adultos que consentem. Mas ainda acho que há um lugar para isso.

Outra pessoa participante descreveu:

Acho que o contexto atual da terapia… a ideia de toque no espaço profissional deixa as pessoas meio na defensiva quanto à responsabilidade, em primeiro lugar, e, em segundo, porque temos tantos exemplos públicos de pessoas que causaram danos a outras em instituições… Acho que a gente recua até diante da ideia de abraçar as pessoas que atende, mesmo depois de muitas sessões, sabe. Acho que é simplesmente o clima cultural profissional de hoje. A maioria se afasta [do modelo] quando vê que [o toque] faz parte dele.

As pessoas participantes também manifestaram a esperança de se afastar de um pensamento em preto e branco sobre o toque na terapia. Em vez disso, reconheceram a necessidade de uma tomada de decisão ética orientada por interações específicas de cada contexto. Por exemplo, uma pessoa terapeuta comentou:

Hoje em dia, o toque está meio fora de cogitação na maioria dos outros modelos… é preciso tomar muito cuidado ao tocar as pessoas atendidas… há quem abuse do toque. Muitas pessoas terapeutas podem abusar do toque. E isso é um problema, mas simplesmente dizer: ok, nada de toque. Não acho que essa seja a solução certa.

Uma pessoa participante destacou não só as considerações que afetam o uso do toque, mas também o papel de quem atende nessa decisão. Sugeriu:

Considerando a ética, considerando a história pessoal da pessoa atendida e, depois, considerando o conforto de quem atende: pela minha experiência, e até pela minha formação, há terapeutas que não se sentem necessariamente à vontade para abraçar as pessoas que atendem. Outras pessoas acham que, sabe, em certos momentos, é apropriado, especialmente se a pessoa atendida está em grande sofrimento, ou em lágrimas.

E acrescentou: “Pensando que, dependendo do que a pessoa passou, o toque pode não ser necessariamente bem-vindo, nem visto como reconfortante.”

4.3.2 O consentimento como processo

As pessoas participantes reiteraram a necessidade de um consentimento explícito e contínuo das pessoas atendidas para o toque, para além do consentimento informado da sessão de acolhimento. Concebiam o consentimento como um processo contínuo, que oferece à pessoa atendida a opção de revogar seu sim original a qualquer momento. Uma pessoa participante disse:

Seja o toque, seja uma intervenção, só porque a pessoa consentiu por escrito não quer dizer que seja um passe livre para quem atende fazer o que quiser… Se a gente está fazendo algo que inclui o toque e em que não estamos de acordo, e você não se sente à vontade e não consente, então a gente não vai fazer.

E explicou ainda:

O consentimento é fluido, sabe, tipo, não é algo em que, se você disse sim uma vez, tem de dizer sim o tempo todo… Se a gente cria um ambiente em que [as pessoas atendidas] conseguem se apropriar do próprio consentimento e da própria agência naquele momento em que o toque está envolvido? É mais libertador, porque está ligado à outra parte do modelo, né, o autoconceito delas. Elas querem fazer. Estão convidando. É assustador, mas estão convidando.

As pessoas participantes também contaram como pedem consentimento ao usar o toque no HVPM. Uma pessoa participante contou:

Perguntar, sabe: “Tudo bem assim?” Sabe: “Tudo bem isso?” Tudo bem se eu tocar a sua mão assim? Ou tudo bem se eu te der um abraço, ou, sabe, algo assim. E recuar se a pessoa disser “não”, não dá, não consigo fazer isso agora.

Da mesma forma, outra pessoa participante destacou que obter um consentimento afirmativo para o toque não é apenas ético, mas também pode servir de modelo para as pessoas atendidas. Disse:

Mesmo se eu estiver pondo a mão num pulso… “Ei, posso pôr a minha mão bem aqui?” Vejo isso como muito importante. E vejo isso também como uma forma de dar o exemplo, acho, de conexão e de relações saudáveis. Só porque uma pessoa do casal quer tocar a outra não quer dizer que esteja sempre tudo bem. O casamento não transforma o consentimento em algo unilateral e permanente. Acho que perguntar, se informar e depois ir sentindo a cada vez é muito, muito importante.

4.4 O self na terapia experiencial

O Modelo do Processo de Validação Humana se diferencia de outros modelos de terapia sistêmica por buscar apoiar e utilizar a personalidade e o jeito de ser de quem atende ao intervir (Satir e Baldwin 1983). Com isso, é imprescindível que a pessoa terapeuta desenvolva uma consciência crítica de como sua identidade, sua presença e sua personalidade afetam o uso e o impacto possível de uma intervenção na terapia, especialmente quando se trata do toque. Neste tema, foram explorados dois códigos: (1) a pessoalidade e (2) a congruência clínica.

4.4.1 A pessoalidade

Um participante enfatizou como, especificamente, sua identidade de gênero e sua idade estão em primeiro plano em seu processo de decisão quando pensa no toque. Ele contou:

No que diz respeito às dimensões da minha identidade, acredito que o gênero tem um papel grande, isto é, estou sempre consciente de mim mesmo como homem e de como o toque pode ser percebido por qualquer outra pessoa. Também entendo que, sabe, muitas pessoas que se sentam nos sofás dos nossos consultórios tiveram, em particular, homens na vida que não praticaram um toque bom, seja abuso, manipulação, coisas desse tipo. Estou sempre consciente disso e do papel que isso tem.

Ele acrescentou:

Outra parte da minha identidade de que estou sempre consciente é a minha idade. Especialmente quando se trata de trabalhar com, com jovens… Não pratico o toque na sala além de, digamos, uma escultura com uma família e, e ajudar, sabe, uma pessoa adolescente, por assim dizer, a se mover para lugares específicos, ou dar o exemplo nesse sentido.

Outra pessoa participante observou, com humor, que a fundadora do modelo, Virginia Satir, tinha uma presença física que tinha um papel importante na forma como uma intervenção de toque era oferecida e recebida, e expressou seu ponto de vista ao dizer:

Aí vem a ressalva. Sabe, Satir tinha essa BGE, a “Big Grandma Energy”, a energia de avó, né? E ela simplesmente conseguia, ela simplesmente conseguia fazer isso [usar o toque] de um jeito que não era ameaçador. Eu sou um cara branco hétero que pode ser percebido como de classe alta… então não posso simplesmente partir para o toque do mesmo jeito que Satir podia.

4.4.2 A congruência clínica

Além de compreender o papel da identidade e da presença, é importante que a pessoa terapeuta entenda que pode usar o toque se ele estiver alinhado com sua pessoalidade e seu nível de conforto, mas que não deve se sentir pressionada a aplicar essa intervenção. Desconfortos ou medos podem surgir ao considerar essa intervenção, e todos devem ser explorados antes da aplicação. Por exemplo, uma pessoa participante contou que o toque físico direto não se alinhava com sua origem cultural e disse: “Tenho origem hispânica, e a gente não fica realmente tocando as pessoas, e talvez seja só a minha família hispânica… e isso não é algo natural para mim. Eu gosto de manter esses limites.” Além disso, as pessoas participantes descreveram diferentes medos quanto à forma como o toque poderia ser recebido. Uma delas contou:

É meio, é uma coisa que deixa a gente vulnerável, tipo, estender a mão para alguém, porque e se a pessoa der um tapa no seu braço para afastá-lo? Como você repara isso, né? Uma coisa é dizer algo como “Tenho orgulho de você” e a pessoa responder “Tanto faz” e deixar para lá. Isso não abre espaço para uma ruptura tão grande, né? Mas, se eu estendo a mão e tento, tipo, te abraçar ou algo assim, isso é mais vulnerável para mim. Estou correndo meus próprios riscos ao fazer isso. Tive de aprender a me sentir à vontade correndo esses riscos e a saber quando é apropriado corrê-los.

No processo de construção da própria abordagem clínica, há componentes reflexivos essenciais que precisam entrar em jogo para explorar a maneira como se quer existir na sala de terapia. Uma abordagem clínica experiencial pode evoluir ao longo do tempo para incorporar o toque, desde que os cuidados adequados sejam levados em conta.

4.5 Considerações contemporâneas em evolução

À medida que as abordagens clínicas continuam a evoluir para atender às necessidades das pessoas atendidas hoje, os conceitos e as intervenções do modelo precisam ser compreendidos por uma lente contemporânea. As pessoas participantes deste estudo enfatizaram a importância de considerar os aspectos mais sutis e invisíveis de um uso ético e sistêmico do toque na terapia. O último tema gerado a partir dos dados consiste em quatro códigos: (1) considerações culturais, (2) dinâmicas de poder, (3) contexto terapêutico e (4) evolução do modelo.

4.5.1 Concepções culturais

As pessoas participantes do presente estudo destacaram a importância de dedicar tempo a compreender o contexto cultural da pessoa atendida e como ele pode afetar a aplicação de uma intervenção na terapia, especialmente o toque. Uma pessoa participante mencionou o valor de:

… pensar nessa sintonia sociocultural. Estou no sul da Flórida, e temos muitas famílias diversas, do Caribe, muitas delas também hispânicas. Muitas me explicaram que são muito expressivas e acolhem o toque e a conexão, quando se trata de celebrar. Pode ser visto como socialmente inadequado, ou ofensivo, se você não recebe alguém na sessão com um abraço ou não oferece um toque que simplesmente sinalize que você está ali com a pessoa e que aquele é um espaço seguro. Isso mostra que você se importa não só com o que ela está compartilhando, mas também com o que é importante para sua herança cultural e suas normas sociais. Acho que isso realmente orienta a minha forma de praticar, e também poder não presumir nada e aprender com a pessoa, mesmo que ela seja de origem caribenha, haitiana, boêmia, jamaicana.

Além disso, algumas pessoas participantes discutiram as diferenças em relação ao toque do ponto de vista das culturas coletivistas e individualistas. Uma delas observou “o espírito coletivo e o engajamento coletivo de se reunir pelo simples fato de estar fisicamente perto umas das outras e passar tempo juntas. É algo que, acho, faz parte fundamental de muitas culturas coletivistas”. Compreender os valores da pessoa atendida em relação à proximidade e ao apoio pode ajudar a orientar o julgamento clínico de quem atende ao considerar a utilidade do toque.

4.5.2 Dinâmicas de poder

Outro componente que as pessoas participantes consideraram vital em sua decisão de incorporar o toque na terapia foi a consideração das dinâmicas de poder. Mencionaram como acontecimentos atuais e movimentos sociais ligados à autonomia corporal afetaram sua visão e sua concepção do toque ao utilizar essa intervenção. Uma pessoa participante observou:

O que me vem à cabeça é o movimento #MeToo, e também George Floyd e o Black Lives Matter. Temos de considerar esses movimentos sociais quando se trata de toque. Sabe, Satir, como pessoa e como modelo… embora seja centrado na pessoa atendida, centrado na pessoa, quem atende tem um papel muito ativo, se engaja no sistema, entende o próprio poder e usa esse poder com consciência.

Outra pessoa participante destacou que a pessoa terapeuta precisa trabalhar de forma explícita para garantir que a pessoa atendida tenha consciência de sua autonomia e observou: “é importante em relação ao Black Lives e a garantir que, tipo, a pessoa atendida entenda, sinta, saiba e seja respeitada em estar no controle total na sala de terapia”. Terapeutas também destacaram que pode haver uma pressão invisível para aderir à abordagem de quem atende e a um possível uso do toque, considerando a posição e o privilégio que esse papel confere. Uma pessoa participante elaborou assim sua percepção desse processo:

Eu entendo a minha identidade profissional, e como a pessoa atendida me recebe como terapeuta, e as dinâmicas de poder em jogo. Só porque uma pessoa pode dizer, até certo ponto, tipo: “Ah, sim, acho que me sinto à vontade com o toque”, eu sempre levo em consideração que pode haver pressão para dizer sim, por causa das dinâmicas de poder na sala de terapia.

Uma pessoa participante falou de sua consciência dos privilégios que sua identidade física carrega. Descreveu:

… elas [as pessoas atendidas] conhecem a pessoa terapeuta porque é o que elas veem, e eu represento muitos grupos que não são calorosos nem acolhedores, sabe. Penso nesses grupos que represento só de entrar na sala. Né? Então sempre tenho de prestar um pouco mais de atenção a isso… e tenho de saber quanto poder tenho quando estamos falando de toque.

Esses exemplos mostram como o toque terapêutico não pode ser plenamente compreendido sem levar em conta como nossos atributos físicos são constituídos no mundo social pela cor da pele, pelo formato, pelo tamanho, pelo movimento, pela feminilidade, pela masculinidade e pela capacidade física.

4.5.3 Contexto terapêutico

Além da consideração contínua das dinâmicas de poder, houve uma conversa sobre a visão em evolução do contexto terapêutico e seu impacto no uso ou na consideração do toque na terapia. Uma pessoa participante falou de sua percepção do toque quando trabalhava numa instituição prisional e contou:

… aquilo simplesmente não era, tipo, uma coisa natural para mim. Eu simplesmente tinha de manter esses limites… no tratamento residencial, isso é muito importante, porque você está no espaço onde as pessoas vivem e coisas assim… e se alguém me dissesse: “Você precisa seguir o modelo e precisa tocar”, seria muito incongruente.

As pessoas participantes também refletiram sobre como, em alguns contextos em que terapeutas trabalham, o toque pode ser mais comum ou esperado, criando padrões diferentes para o uso do toque e do modelo de Satir. Uma pessoa participante contou que o toque lhe parecia mais normalizado ou congruente no contexto médico em que trabalhava e observou:

Tenho atuado na atenção primária, em terapia familiar médica. As pessoas chegam a um consultório de atenção primária esperando ser tocadas, sabe, ou examinadas ou o que for, e, além disso, a sala em que eu ficava era um armário de vassouras. Então a gente já ficava meio uns em cima dos outros. Assim, uma proximidade ou um toque leve e suave não fugiria da norma.

Além do contexto, as pessoas participantes destacaram a faixa etária das pessoas atendidas. Outra pessoa terapeuta descreveu seu trabalho com pessoas idosas numa casa de repouso, onde ajudar a pessoa a se deslocar pelos espaços era normal, o que facilitava a incorporação do toque. Descreveu:

Então eu preciso meio que prestar atenção a isso [o contexto terapêutico], sabe, trabalho muito com pessoas idosas, toco nelas o dia inteiro, né? Só, sabe, até uma mão esfregando o braço, ou, sabe, um abraço ou algo assim no final… as dinâmicas são diferentes, sabe, com essas populações.

Compreender a própria posição clínica, além de se sintonizar criticamente com o contexto terapêutico, é essencial ao considerar o uso do toque. Além da atenção ao ambiente, a pessoa terapeuta precisa explorar sua concepção do modelo à medida que refina sua abordagem pessoal e sua perspectiva sobre o modelo em seu contexto atual.

4.5.4 Evolução do modelo

Nos primeiros vídeos de Virginia Satir em sessão, seu uso do toque era muito diferente do que terapeutas de hoje poderiam considerar usar na prática. Ela era ousada, suave e assertiva ao mesmo tempo, com uma presença envolvente que parecia desarmar as pessoas atendidas e mantê-las engajadas. Embora profundo, o caráter aceitável de seu estilo de toque pode ser atribuído a diferentes fatores contextuais ligados à sua presença e às percepções sociais sobre a autonomia pessoal na época. As pessoas participantes deste estudo observaram que as concepções do toque nesse modelo evoluíram ao longo do tempo por várias razões. Uma delas contou:

O toque é uma coisa muito delicada hoje em dia; não era tão delicado na época da Virginia quanto é agora. Ainda dá para fazer hoje. Mas, sabe, é muito importante pedir permissão e perguntar se está tudo bem para a pessoa, porque nunca se sabe quando pode não estar. A gente quer respeitar isso, porque o primeiro passo é sempre tentar construir segurança entre você e a outra pessoa.

Outra pessoa participante destacou, de modo semelhante:

É, bom, hoje em dia, sabe, o toque está meio fora de cogitação na maioria dos outros modelos… quer dizer, ainda está presente em Satir, mas é preciso tomar muito cuidado ao tocar as pessoas atendidas. Há leis e, sabe… mas acho que os toques são uma parte muito importante do processo.

Terapeutas deste estudo enfatizaram as diferenças entre as aplicações históricas e atuais desse modelo, além de lembrar que ele pode ser personalizado conforme o conforto e a personalidade de cada terapeuta. Uma pessoa participante descreveu:

Acho que… as pessoas se sentiam muito seguras com ela, e ela usava o toque de um jeito tão saudável. Não acho que a gente tenha de usar do mesmo jeito. Eu me guio pelos sinais delas [das pessoas atendidas], sabe, não imponho. Mas é uma forma tão profunda de conexão, e o toque pode ser sentido como uma grande confirmação, mas não uso durante a sessão inteira, como ela usava.

Independentemente de terapeutas deste estudo usarem ou não o toque, houve uma mensagem esmagadora: a esperança de que esse aspecto do modelo não afaste terapeutas de hoje dessa abordagem.

Nunca conheci Satir pessoalmente, mas acredito que, se alguém dissesse, tipo: “Ah, bom, não posso praticar o modelo porque não me sinto à vontade com o toque”, acho que Satir ficaria horrorizada com isso. Porque ela era muito do tipo: “Ei, estes são os limites deste modelo.” O que é excepcionalmente importante, como terapeuta, é você ser você e, se o toque entre você e uma pessoa que você atende não é a sua praia, tudo bem, faça do seu jeito! Né? Isso não quer dizer que não conte. Acho que talvez ela pensasse outra coisa se você dissesse, tipo: “Bom, não quero facilitar o toque em sistemas familiares”; aí acho que ela poderia dizer: “Tudo bem, agora tenho uma conta a acertar com você.” Já vi terapeutas, especialmente terapeutas jovens que não têm uma compreensão muito firme de Satir, se afastarem por causa dessa definição muito estreita do que é Satir.

O Modelo do Processo de Validação Humana oferece métodos singulares para se conectar com as pessoas atendidas e apoiá-las ao longo da terapia. É essencial que terapeutas compreendam os aspectos multidimensionais dessa abordagem para uma aplicação crítica e consciente. Isso inclui reconhecer como aspectos do modelo existem nos contextos sistêmicos atuais.

5 Discussão

O presente estudo explorou se, quando e como terapeutas que empregam o Modelo do Processo de Validação Humana usam ou concebem o toque em seu trabalho clínico. Estabelecer uma compreensão mais clara dessa intervenção no contexto do modelo pode ajudar terapeutas a entender sua possível utilidade. Historicamente, houve perspectivas divergentes sobre o uso do toque na terapia, em parte pelo potencial de dano quando ele é usado de forma antiética ou sem limites claros. Satir enfatizava o valor do toque como forma de acalmar ou intensificar um momento na terapia, mas não delineou claramente alternativas nem outros fatores importantes a serem considerados por terapeutas.

Este estudo buscou explorar essas lacunas entrevistando 15 terapeutas que utilizam o HVPM. A análise resultou em cinco temas gerais: (1) estabelecer uma conexão congruente, (2) orquestrar o toque, (3) manusear com cuidado, (4) o self na terapia experiencial e (5) considerações contemporâneas em evolução. Os resultados deste estudo oferecem um comentário atualizado e nuances sobre as formas pelas quais terapeutas que utilizam o HVPM podem “fazer contato” com as pessoas atendidas. No contexto do modelo, “fazer contato” é a experiência de criar uma conexão genuína com a pessoa atendida, na qual quem atende compreende seus sinais verbais e não verbais (Satir 1976). As pessoas participantes enfatizaram a importância de se conectar com as pessoas atendidas e, às vezes, de usar o toque para isso. Descreveram o valor de usar o toque para acalmar, depois de pedir consentimento. Isso é coerente com pesquisas semelhantes, que constataram que terapeutas muitas vezes sentem um impulso natural de oferecer um abraço ou uma forma de proximidade diante de uma pessoa atendida em sofrimento (Harrison et al. 2012). Além disso, as pessoas participantes enfatizaram que o toque se realiza por meio de cumprimentos comuns, como apertos de mão ou abraços. Para algumas, isso estava dentro de seus limites; outras deixavam claro para as pessoas atendidas que não praticavam cumprimentos que envolvessem toque. Terapeutas precisam criar na terapia uma cultura em que as pessoas atendidas sintam que podem defender a si mesmas caso desejem recusar um gesto de toque.

Além disso, as pessoas participantes relataram sentir-se fortalecidas ao orquestrar o toque entre as pessoas atendidas e ao utilizar essa intervenção de forma indireta. Algumas destacaram o efeito de sentar perto ou de se inclinar quando as pessoas atendidas falavam de um tema mais pesado, para ajudar a ancorar a si mesmas e às pessoas atendidas no momento presente. Curiosamente, terapeutas que não se sentiam à vontade para tocar diretamente as pessoas atendidas também relataram achar essa intervenção útil. Por exemplo, terapeutas que evitam o toque podiam orientar as pessoas atendidas a dar as mãos enquanto conversavam ou apontar quando elas se tocavam espontaneamente na sessão. Isso permitia a terapeutas ajudar as pessoas atendidas a ter uma experiência nova na terapia por meio do toque, o que está alinhado com os princípios centrais do HVPM, mantendo ao mesmo tempo a congruência com seus limites profissionais.

Embora os códigos de ética da psicoterapia deem poucas orientações sobre o uso do toque (Calmes et al. 2013), as pessoas participantes expressaram que consideram ativamente as complexidades do toque por uma lente ética e informada pelo trauma. Terapeutas deste estudo relataram que a falta de regulamentação formal aumenta a responsabilidade de quem atende de tomar decisões deliberadas e específicas ao contexto ao usar o toque nesse modelo. Mais especificamente, as pessoas participantes destacaram que o toque pode curar, mas também ferir, especialmente pessoas com histórico de trauma. Esses resultados ecoam discussões éticas mais amplas sobre abandonar o binarismo de que o toque é “sempre ruim” ou “sempre bom” e caminhar para um raciocínio matizado (Zur 2007). Os resultados que apresentam o consentimento ao toque como um processo dinâmico estão alinhados com os princípios do cuidado informado pelo trauma: agência, segurança e empoderamento das pessoas atendidas (Substance Abuse and Mental Health Services Administration SAMHSA 2014). Em consonância com pesquisas anteriores, terapeutas do presente estudo relataram que as decisões de usar o toque eram muitas vezes tomadas de forma instintiva (Harrison et al. 2012). Em vez de adotar uma abordagem baseada apenas na abstenção, precisamos estar em sintonia com as experiências vividas das pessoas que atendemos para criar planos de tratamento clinicamente congruentes, informados pelo trauma e culturalmente relevantes. Coletivamente, podemos usar essas vozes para moldar práticas informadas pela pesquisa e abordagens de supervisão sistêmica que apoiem o uso ético do toque na terapia.

As pessoas participantes deste estudo reconheceram a importância de compreender a própria pessoalidade e como ela poderia influenciar sua concepção do toque no HVPM. Relataram buscar compreender esse tema por uma lente crítica, que levasse em conta sua própria identidade e a das pessoas atendidas. Além da identidade das pessoas atendidas, é crucial considerar como os corpos moldam o toque terapêutico conforme são lidos socialmente, regulados fisiologicamente e vividos. Por exemplo, pessoas atendidas com diversidade de gênero podem sentir mais ansiedade em relação ao toque por causa do não reconhecimento de sua identidade ou do estigma social. Da mesma forma, pessoas atendidas neurodivergentes podem ter uma experiência sensorial diferente do toque, não captada por abordagens universais ou baseadas em pesquisa sobre o toque na terapia. Além disso, a aparência dos corpos se cruza com o poder e com o sentido do toque. Por exemplo, corpos brancos historicamente exerceram violência física contra corpos negros (Menakem 2017). Precisamos refletir mais sobre como nossas experiências corporificadas afetam a forma como damos e recebemos o toque no mundo. Os julgamentos sobre como pessoas atendidas e terapeutas são percebidas em relação à idade, à raça e ao gênero afetam a segurança, a acessibilidade e o impacto do toque.

A literatura existente tem enfatizado como o autoconhecimento e a cura da pessoa terapeuta são fundamentais para uma formação e um desenvolvimento eficazes como profissional (Aponte 2022). É vital que terapeutas compreendam o que o toque pode significar vindo de alguém com a sua identidade, além de como ele pode ser recebido por outra pessoa com base na identidade e nas experiências anteriores dela. Compreender o toque no contexto atual é vital, assim como garantir a compreensão do significado histórico do toque no contexto da cultura e da identidade da pessoa atendida. Por exemplo, ao trabalhar com pessoas que se identificam como mulheres, é preciso ter consciência dos movimentos sociais ligados à autonomia corporal, como o movimento #MeToo. Há amplas evidências que documentam a prevalência da violência baseada em gênero e os impactos profundos dessas experiências sobre os limites e a segurança das pessoas atendidas, especificamente quando corpos femininos são tocados por corpos masculinos (Wexler e Sweet 2021). Movimentos sociais como #MeToo e Time’s Up iluminaram ainda mais a interseção crucial entre sexo e poder (Gill e Orgad 2018). Considerando o que essas experiências podem significar no contexto da história de trauma de uma pessoa atendida, as interseções entre as identidades da pessoa terapeuta e da pessoa atendida precisam ser sustentadas com intencionalidade e cuidado. Diversos aspectos da identidade podem ser mais salientes para algumas pessoas ao considerar o uso do toque, o que torna ainda mais importante o desenvolvimento e a evolução contínuos da consciência crítica.

O uso do toque na terapia é uma intervenção delicada e historicamente controversa, que exige atenção cuidadosa à identidade, ao poder e ao contexto cultural. Esse modelo pede um toque cuidadosamente considerado pela pessoa terapeuta e aplicado apenas por terapeutas que tenham consciência de suas responsabilidades éticas e compreendam claramente sua utilidade no contexto do HVPM. A pesquisa já discutiu a importância de compreender o posicionamento social da pessoa terapeuta (Watts-Jones 2010) e de se sintonizar com a identidade interseccional da pessoa atendida (PettyJohn et al. 2020), mas nunca de forma clara em relação ao toque no contexto desse modelo.

6 Conclusão

O presente estudo oferece uma contribuição oportuna ao conjunto limitado de pesquisas que examinam o uso do toque no HVPM de Satir. Este estudo utilizou um referencial fenomenológico para explorar as experiências de terapeutas experienciais que procuram conceituar e aplicar o toque na terapia. Por meio de uma análise temática reflexiva das narrativas dessas pessoas terapeutas, os resultados ilustram a complexidade, a intencionalidade e as nuances que cercam o uso do toque no trabalho psicoterapêutico. Embora Satir enfatizasse o valor do toque, este estudo esclarece como terapeutas de hoje interpretam, adaptam e conduzem o uso dessa intervenção por uma lente informada pelo trauma e atenta à identidade. Mais especificamente, terapeutas descrevem o uso do toque de forma direta e indireta, com atenção deliberada ao consentimento, ao contexto e à segurança. Além disso, as pessoas participantes enfatizaram a passagem de uma perspectiva binária do toque para outra, centrada na sintonia relacional e na autorreflexão.

É importante notar que esses resultados dão nova vida ao modelo ao mostrar como seus valores centrais de contato, empatia e conexão humana ainda podem ser honrados mesmo quando certas técnicas não parecem congruentes para cada terapeuta. À medida que as normas e as expectativas sociais continuam a evoluir, é imprescindível revisarmos e adaptarmos nossas intervenções para atender às necessidades das pessoas atendidas hoje. Cabe a terapeutas reimaginar as possibilidades de uso das intervenções desse modelo, em vez de abandoná-lo.

O presente estudo tem diversos pontos fortes e contribuições para a literatura atual sobre modelos de terapia sistêmica. Os resultados deste estudo oferecem percepções sobre o uso e a utilidade do toque no Modelo do Processo de Validação Humana. Este é um dos primeiros estudos a se concentrar exclusivamente no uso do toque no contexto desse modelo, além de oferecer percepções sobre como uma pessoa terapeuta poderia usar ou incorporar o toque em sua prática caso o toque físico lhe pareça clinicamente incongruente. Além disso, são apresentadas alternativas para incorporar o toque indireto na terapia, entre elas organizar o espaço, facilitar a conexão entre as pessoas atendidas e destacar o toque espontâneo entre elas. Por fim, este estudo oferece percepções de terapeutas sobre como consideram a própria identidade e a própria pessoalidade antes de incorporar o toque à prática.

Apesar dos pontos fortes deste estudo, há também limitações que devem ser consideradas para que pesquisas futuras avancem a partir desses resultados. Como este estudo se concentrou numa intervenção específica do HVPM com uma amostra pequena, a generalização dos resultados é limitada. Além disso, todas as pessoas participantes deste estudo estavam nos Estados Unidos. O HVPM ganhou popularidade em vários países, onde as visões sobre o toque podem ser diferentes. Pesquisas futuras deveriam incluir perspectivas internacionais sobre esse modelo e essa intervenção, para ampliar nossa compreensão de como o toque pode apoiar pessoas atendidas de culturas não ocidentalizadas. Além disso, as pessoas participantes deste estudo atuavam em contextos variados, nos quais o toque pode ser percebido de forma diferente (por exemplo, na atenção primária). As concepções dessa intervenção podem evoluir para atender às necessidades das pessoas atendidas em contextos em que o toque é frequentemente esperado. Por fim, este estudo não explorou explicitamente como o toque pode ser usado e interpretado de forma diferente no trabalho com crianças. As pessoas participantes trabalhavam principalmente com sistemas adultos, o que deixa espaço para explorar mais a fundo os cuidados adicionais que o trabalho com crianças pode exigir.

Em suma, os resultados deste estudo confirmam que “fazer contato” pode se manifestar de inúmeras formas, físicas e não físicas, já que o núcleo do HVPM é um objetivo ético e intencional de conexão humana. As intervenções de toque se mostraram benéficas para a saúde física e mental, especialmente em populações clínicas (Packheiser et al. 2024). Nosso estudo destaca a necessidade contínua de diálogo, pesquisa e formação que apoiem a evolução dos modelos de terapia e do cuidado informado pelo trauma. Esses exames garantem que nossos modelos fundadores continuem relevantes para a prática clínica contemporânea e ancorados nos princípios transformadores que os definem. Além disso, eles nos permitem avaliar e defender continuamente a segurança e a beneficência na prática clínica.

Complexe Systémique: a reter

O mérito do estudo é tirar o toque do tudo ou nada. Entre a proibição defensiva e o modelo carismático de Satir, as pessoas entrevistadas descrevem toda uma gama de gestos: aproximar-se, estender a mão sem tocar, convidar um casal a dar as mãos, destacar um gesto espontâneo. Para uma leitura sistêmica, é esse deslocamento que conta: o toque passa a ser menos uma técnica da pessoa terapeuta e mais um acontecimento relacional do sistema, que se pode facilitar, comentar, amplificar. Duas contribuições clínicas se destacam: um consentimento pensado como processo, revogável a cada sessão, e a ideia de que um mesmo gesto não significa a mesma coisa conforme o corpo, o gênero, a idade e a cor da pele de quem o faz e de quem o recebe. Os limites são claros: quinze entrevistas, especialistas no modelo a princípio favoráveis ao toque, pouco trabalho com crianças e nenhum ponto de vista das próprias pessoas atendidas. Para ler junto com o artigo de Bernard Filleul sobre o papel do corpo na terapia e com o artigo sobre a escultura, uma terapia sem falar.

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Tradução não oficial em português de O toque terapêutico no Modelo do Processo de Validação Humana: uma análise temática reflexiva, de Crystal G. Marroquin e Carson Outler, Journal of Marital and Family Therapy, vol. 52, no 1 (2026), doi: 10.1111/jmft.70111, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Therapeutic Touch in the Human Validation Process Model: A Reflexive Thematic Analysis”, publicado em Journal of Marital and Family Therapy (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Marroquin, C. G., et Outler, C. (2026). O toque terapêutico no Modelo do Processo de Validação Humana: uma análise temática reflexiva (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/o-toque-terapeutico-no-modelo-do-processo-de-validacao-humana (Obra original publicada em 2026 em Journal of Marital and Family Therapy, 52(1), e70111 (2026); republicada em 2026 por Journal of Marital and Family Therapy, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/jmft.70111)

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