Journal of Solution-Focused Brief Therapy · Prática clínica
Uma prisão sueca, uma ala para homens condenados por crimes sexuais que negam os fatos, e uma ordem da administração: “faça alguma coisa”, em grupo aberto, na presença de alguém da equipe penitenciária. Britta Severin, assistente social e terapeuta familiar, conta o programa que inventou em 2000, que chamou de “Sessões em grupo” para deixar claro que não era terapia. Quatro detentos, meia hora cada, os outros escutam. A pergunta do milagre, primeiro bloqueada por “muros grossos demais”, depois um homem que responde “acordo com um beijo de bom-dia da minha filhinha”. Outro que se coloca em menos um na escala e que, sessão após sessão, assiste à televisão, estuda, ouve fitas. Um terceiro que descobre que nunca bateu no melhor amigo. A equipe penitenciária também muda a forma de falar. Um texto de campo, sem estatísticas, sobre o que a esperança pode no lugar menos feito para ela.
Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de Solution-Focused Group Work in Prison, de Britta Severin, publicado no Journal of Solution-Focused Brief Therapy (2014), hoje Journal of Solution Focused Practices, doi: 10.59874/001c.75122, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para o português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. O resumo e algumas linhas da primeira página, impressos numa fonte com codificação quebrada no PDF, foram relidos na renderização da página. Uma versão anterior deste texto foi apresentada pela autora na conferência da European Brief Therapy Association em Dublin, em setembro de 2001. Esta tradução não foi feita nem pela autora nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Fazer um trabalho focado nas soluções na prisão, um contexto muito normativo, é um desafio. O pedido da prisão era preciso: conduzir um programa de grupo focado nas soluções, com detentos condenados por crimes sexuais, “negadores”, em grupo aberto. A pergunta do milagre, as escalas, as exceções e as tarefas foram úteis para identificar e dar pequenos passos na prisão, pequenos passos que aproximaram os clientes dos seus objetivos, que estão sempre fora dos muros da prisão.
Me pediram para conduzir um programa de grupo focado nas soluções na prisão, numa ala para detentos condenados por crimes sexuais contra adultos. Os detentos eram apresentados como “negadores” e estavam condenados a pelo menos um ano de prisão. As condições do programa eram que fosse em grupo aberto e, para a minha segurança, que alguém da equipe penitenciária estivesse presente em todas as sessões, uma pessoa diferente conforme as escalas. Também me pediram para conduzir o programa várias vezes por semana, mas concordamos que uma vez por semana bastaria. Eu não devia fazer terapia, devia conduzir um programa focado nas soluções, ou seja, “fazer alguma coisa”. Fora isso, eu era livre para desenhar o programa como quisesse.
Quando me pediram para conduzir este programa, em 2000, não havia muita literatura sobre o trabalho focado nas soluções com grupos, sobretudo não na prisão, nem em casos de crimes sexuais. Lindforss e Magnusson (1997) haviam realizado na Suécia um estudo sobre a terapia focada nas soluções na prisão. Era um estudo controlado randomizado. Os presos tinham altas taxas de reincidência e abuso grave de drogas. O estudo mostrou claramente uma redução da reincidência no grupo experimental, que recebeu a TBFS. Lindforss e Magnusson estimaram que o grupo de controle custou 2,7 milhões de coroas suecas a mais em custos de prisão do que o grupo experimental durante o ano de acompanhamento. Mas o estudo se baseava em terapia individual, não em trabalho de grupo. O Plumas Project (Uken & Sebold, 1996), um programa de grupo focado nas soluções e orientado por objetivos para a violência doméstica, na Califórnia, mostrou resultados muito bons. A entrevista individual era usada em contexto de grupo. O grupo se reunia por uma hora, oito sessões. Fiquei impressionada com a simplicidade. Mas não havia sido implementado na prisão, nem em grupo aberto. Fui também influenciada pela convicção profunda de Jenkins de que a mudança é possível (Jenkins, 1990). Jenkins trabalha com pessoas que cometeram violência e abuso sexual, e é incrivelmente atento ao menor sinal de responsabilidade e de desejo de mudança na pessoa atendida.
Ao desenhar o programa, me apoiei na ideia de Steve de Shazer de fazer as coisas da forma mais simples possível, nos princípios básicos da terapia focada nas soluções (Berg, 1991; Berg & Miller, 1992; DeJong & Berg, 1997; de Shazer, 1988, 1991) e nas minhas próprias ideias. Escolhi entrevistar cada participante separadamente, como no Plumas Project, e trabalhar o objetivo pessoal de cada um. O programa foi chamado de “Sessões em grupo”, para indicar claramente que não era terapia de grupo. Eu estava habituada ao trabalho focado nas soluções com pessoas condenadas (Berg & Dolan, 2001, p. 75-78) e me apoiei na minha experiência desse trabalho no Serviço Nacional de Prisões e Liberdade Condicional. Acreditava que o modelo pode facilitar a mudança em pessoas atendidas por determinação judicial (Uken et al., 1996), mesmo na prisão (Lindforss et al., 1997). Ao longo do projeto, compartilhei as minhas ideias com colegas, entre eles Insoo Kim Berg. Continuei a fazer o que funcionava. O que fiz foi um trabalho pioneiro.
O projeto levou à minha apresentação conjunta, por sugestão de Insoo, com Adriana Uken, do Plumas Project, “Trabalhar com sucesso com clientes mandatados”, na conferência da EBTA em Cardiff, em 2002.
Como era um programa oficial, eu precisava de um objetivo declarado, e de um que a direção da prisão, os detentos e eu pudéssemos aceitar. Era também uma forma de criar um enquadre para o programa. Decidi dizer: “Venho a este grupo para trabalhar com cada um de vocês a fim de diminuir o risco de acabarem de novo na prisão.” Foi assim que comecei a conversa com o grupo, e repeti sempre que havia um novo participante.
Escolhi trabalhar com um grupo de quatro, o que parecia um número manejável. Era também um pedido dos participantes que não houvesse membros demais. Trabalhava individualmente com cada um dos participantes, enquanto o resto do grupo e a pessoa da equipe penitenciária escutavam. Cada entrevista levava cerca de meia hora por pessoa. Não havia tema específico em cada sessão. Fazia as mesmas perguntas focadas nas soluções que faço a qualquer pessoa, em qualquer contexto. Usava a pergunta do milagre, as escalas, procurava exceções e às vezes dava tarefas. Como era um grupo aberto, novos clientes entravam continuamente no programa. Na primeira sessão de cada cliente, fazia a pergunta do milagre. Na segunda e nas seguintes, perguntava: “O que esteve melhor desde a última vez em que nos encontramos?” Escrevia em folhas grandes que colava na parede, para que todos pudessem ver. No fim da sessão, fazia uma breve declaração de encerramento para cada pessoa. Depois da primeiríssima sessão, um dos clientes disse: “Essas pequenas conversas são boas. Tenho a sensação de que é o começo de algo novo.”
Estar na prisão significa que há tantas coisas que não se pode influenciar. Para introduzir a ideia de que se pode influenciar e fazer escolhas, perguntei aos clientes como haviam decidido entrar no programa. Um cliente, na prisão pela primeira vez, estava muito abalado por ter sido condenado a dois anos de prisão, e também por ter sido denunciado pela mulher. Ele se preocupava em não poder ver os dois filhos crescerem. Perguntei a ele: “Como você decidiu entrar no programa?” Ele disse que tinha pensado, e que tinha vindo para discutir o que seria melhor para os filhos. Deveria vê-los enquanto estivesse preso? Como poderia contatá-los? Algumas sessões depois, disse que agora havia chegado à conclusão de que precisava trabalhar para dar aos filhos uma imagem positiva da mãe: afinal, eles continuariam a viver com ela.
Era crucial ligar os pequenos atos da vida na prisão aos sonhos do cliente, que estão sempre do outro lado dos muros. Usar perguntas orientadas para o futuro e escalas foi extremamente útil. Os clientes me falaram dos seus sonhos e desejos, e eram como os sonhos de todo mundo: voltar a ter contato com os filhos, rever os filhos, recuperar o respeito da família, sentir-se melhor, ter um emprego, estudar etc. Os que tinham filhos tinham objetivos ligados aos filhos. A minha experiência anterior com a pergunta do milagre na prisão era que era extremamente difícil obter respostas, como se os muros da prisão fossem grossos demais! Na primeira sessão, usei outra pergunta orientada para o futuro. Um dos clientes disse: “Ah, você quer dizer, se acontecesse um milagre?” Depois disso, usei a pergunta do milagre.
Um cliente havia passado a maior parte da vida em instituições. A sua resposta à pergunta do milagre foi: “Acordo com um beijo de bom-dia da minha filhinha. Estou lá para a minha mulher. Estou lá para os meus filhos. Sou um pai para os meus filhos.” Também teria um emprego e uma renda, e não haveria mais drogas na sua vida. De fato, houve um período curto em que ele tinha um emprego e as coisas iam bastante bem. Disse que retomar o contato com os filhos seria o primeiro passo. Não os via havia mais de um ano.
Numa escala de 1 a 10, em que 10 representava o momento em que a vida era como ele queria e 1 o seu pior momento, ele estava em 7. Algumas semanas antes, estava em 2. Perguntei-lhe o que tinha feito para chegar até o 7. Disse que tinha pensado e que havia chegado a compreender que havia coisas que não podia influenciar, e que tinha conseguido largá-las. Tinha pensado também que havia outras coisas que podia influenciar, e tinha começado a fazer mais delas. Havia ligado para o advogado e para os serviços sociais para perguntar qual seria o primeiro passo para poder rever os filhos. Tinha continuado a trabalhar no que precisava fazer, e finalmente chegara ao ponto em que de fato tinha permissão para ligar para os filhos. Agora não sabia o que dizer a eles e preocupava-se com as perguntas deles. Tinha medo de começar a contar como era horrível para ele estar na prisão, e não queria que eles ouvissem isso. Então o que fez foi sentar-se e pensar no que seria melhor para os filhos, e depois escreveu um lembrete para si mesmo: “Perguntar aos filhos sobre a escola, perguntar aos filhos sobre os amigos, perguntar aos filhos que atividades fazem.” Este homem, que se via como extremamente impulsivo, tinha conseguido sentar-se e fazer planos. Tinha ligado para os filhos e conseguido fazer exatamente o que havia planejado.
Para nos aproximarmos dos nossos objetivos, precisamos dar pequenos passos. Um cliente se sentia extremamente maltratado, e isso havia bastante tempo. Achava a sua sentença injusta e estava ocupado escrevendo aos jornais e recorrendo ao tribunal para obter um novo julgamento. Numa escala de 1 a 10, em que 10 representava o momento em que a vida era como ele queria e 1 o seu pior momento, ele estava em menos 1. Depois de reconhecer as suas dificuldades, perguntei a ele como saberia que estava só um pouco mais alto na escala. Disse que talvez teria assistido um pouco de televisão. Na sessão seguinte, as coisas estavam um pouco melhores. Contou-nos que tinha feito outras coisas além de ruminar. Tinha assistido a esportes na televisão, tinha estudado um pouco e tinha começado a socializar um pouco mais. Na sessão seguinte, estava em 4 na mesma escala. Contou-nos que tinha cinco fitas sobre pensamento positivo na cela, e que agora havia ouvido duas. Dois dos clientes perguntaram se podiam pegar emprestadas as suas fitas.
Procurar exceções era, claro, essencial. “Talvez isso me abra os olhos”, disse um cliente, quando lhe perguntei qual seria para ele um sinal de que valia a pena participar do programa. Não era muito cooperativo nas primeiras sessões, mas continuava vindo. Um dia disse que tinha tido algumas “revelações”, que eu lhe tinha dado a oportunidade de pensar de outra forma ao dizer: “Se você fosse…”. Disse que o que realmente o assustava era que um dia não conseguisse mais parar de bater quando fosse provocado, e que acabasse matando alguém. Perguntei-lhe se já se tinha sentido provocado sem bater na pessoa. Ele me olhou e disse: “Aqui dentro ou lá fora?” Eu disse: “Aqui dentro ou lá fora.” “Nunca bati no meu melhor amigo”, disse ele.
Outro membro do grupo lhe lembrou que tinha sido provocado outro dia por outro detento e que não tinha feito nada. Perguntei: “O que você fez?” Ele disse que tinha ido embora. Perguntei: “O que fez você ir embora?” Ele disse: “Eu estava pensando: ‘Não vale a pena, tenho que me comportar.’ Estava pensando nos meus pais, e que tenho que me comportar para ter chance de ser transferido para uma prisão mais perto da minha família, para que possam vir me visitar.” Disse que era uma forma de pensar absolutamente nova para ele, que fosse capaz de se controlar. No fim da sessão, recebeu uma tarefa. Eu disse: “Daqui até a próxima vez, gostaria que você notasse, com muita atenção, as ocasiões em que poderia ter sido provocado a bater em alguém, mas fez outra coisa. Quero também que observe o que faz em vez disso.” Na sessão seguinte, descreveu outras exceções. E acrescentou que a prisão era um excelente lugar para treinar: havia muitas ocasiões em que as pessoas se provocavam. E continuou a treinar o pensamento. Depois de um tempo, disse que agora havia treinado tantas vezes que tinha virado hábito e que não se irritava mais. Perguntei o que fazia em vez disso. Respondeu que estava ocupado fazendo planos para o futuro. O agente penitenciário presente naquele dia disse que tinha notado diferenças nas últimas semanas. O cliente estava muito mais calmo na ala, passava mais tempo na cela e não se envolvia mais em discussões.
O grupo se revelou heterogêneo em muitos aspectos. Como as prisões em geral estavam superlotadas, havia nessa ala detentos condenados por outros crimes, por exemplo violência doméstica e agressão, e eles também entraram no grupo. Alguns clientes estavam na prisão pela primeira vez na vida, outros haviam sido condenados 30 ou 40 vezes; alguns tinham acabado de chegar da prisão preventiva, outros estavam na ala havia bastante tempo; alguns usavam drogas, alguns tinham problema com bebida; alguns eram suecos de nascimento, outros não.
Esses homens estavam presos pelo que a maioria das pessoas considera crimes desprezíveis. O seu status é baixo, mesmo na prisão. Era crucial tratá-los com respeito para construir a colaboração. É preciso pôr de lado os próprios vieses e descobrir o que importa para o cliente, ver e dirigir-se à pessoa, não ao problema. Como em qualquer outro contexto, era importante encontrar os clientes onde estavam. Alguns sentiam-se extremamente insultados e maltratados. Era importante reconhecê-los nas suas dificuldades. Os seus objetivos estavam ligados à vida fora da prisão, por isso eu era curiosa sobre a sua vida, a sua família, os seus filhos, os seus interesses, o seu país de origem etc. Ao longo das sessões, fazia-lhes elogios sempre que possível.
A administração da prisão foi, o tempo todo, muito apoiadora. Construir a colaboração com a equipe penitenciária era importante. Era ela que encaminhava os clientes. Antes de começar o programa, me reuni com a equipe por meio dia para lhes apresentar a abordagem focada nas soluções. Toda vez que vinha à prisão, passava pela ala para ter a chance de encontrar a equipe de serviço e cumprimentar todos de maneira informal. A equipe discutia os novos encaminhamentos, e os novos detentos podiam me fazer perguntas sobre o programa. Como descrevem Lindforss e Magnusson (1997), conduzir um projeto numa prisão tem efeitos colaterais, faz diferença para a equipe. A equipe penitenciária me disse que o programa a tinha influenciado. Assistir às sessões lhe havia ensinado a falar de outra forma com os clientes. Notava mudanças entre as sessões e descobria novas facetas dos clientes. Também experimentava coisas novas por conta própria. Um agente havia notado que os detentos refletiam muito entre as sessões. Tinha também ouvido clientes, na ala, falarem dos filhos, algo que nunca tinha ouvido antes. Outra pessoa da equipe havia notado que um cliente, que tinha uma atitude muito dura na ala, também podia ser sensível e reflexivo. Um cliente que passava por um momento realmente difícil disse numa sessão que, para ele, o pior momento do dia era depois do fechamento das celas à noite. A pessoa da equipe presente naquela sessão bateu à porta da cela desse detento naquela noite, e houve uma conversa. Um membro da equipe se ofereceu para servir de intérprete, chegando a mudar a sua escala, para que um detento pudesse entrar no programa.
O programa de grupo era um programa oficial e eu devia prestar contas à direção sobre se o programa fazia alguma diferença para os clientes. Pedi uma avaliação escrita individual na quinta sessão e na última. A avaliação da quinta sessão tinha quatro perguntas:
A avaliação da última sessão tinha cinco perguntas:
Os clientes se situaram mais alto na escala na última sessão do que na quinta. Muitos se situaram em 8, 9 e 10 na última sessão. Os clientes escreveram, por exemplo: “Percebi como é importante falar com alguém quando fico travado, e pensar antes de agir”, “Decidi mudar de vida”, “Me acalmei. Aprendi a pensar antes de agir” e “Aprendi a me controlar”.
Muitos clientes escreveram que as perguntas da facilitadora foram úteis, por exemplo: “A facilitadora fez muitas perguntas, perguntas que me fizeram pensar”, “as perguntas me fizeram pensar em coisas em que nunca tinha pensado”, “as muitas perguntas me fizeram pensar, no passado, no presente e no futuro”, “as perguntas me fizeram pensar e percebi que há outras formas de reagir, essas sessões me acalmaram”, e “a facilitadora me fez pensar, as perguntas dela me fizeram pensar, é o método socrático”.
Os clientes escreveram também, por exemplo, que o programa os tinha ajudado a compreender que podiam influenciar a sua vida, que falar do futuro tinha sido útil e que as suas esperanças de um futuro melhor tinham aumentado. Escreveram ainda que tinha sido útil falar dos seus problemas, e que ouvir os problemas e os passos à frente dos outros lhes tinha dado novas perspectivas.
Devo admitir que, de início, eu teria preferido ver os clientes individualmente, não em grupo, e muito menos em grupo aberto. Mas era o que a administração da prisão havia decidido. Logo percebi que havia benefícios em conduzir o programa em grupo. Os clientes escutavam com muita atenção o que os outros participantes diziam. Também escutavam as minhas perguntas e as aplicavam à própria vida. Clientes disseram que começavam a pensar nas suas próprias escalas e no que tinha estado melhor para eles quando eu perguntava aos outros. Os participantes interagiam entre si e tentavam se ajudar. Um cliente perguntou: “Quer saber o que eu fiz para me aproximar de rever meus filhos?” Também ficavam atentos às exceções dos outros e aos seus progressos; por exemplo, um cliente disse: “Notei que você esteve muito mais calmo esta semana.” E cuidavam uns dos outros. Um cliente disse a outro que estava preocupado com ele, porque tomava muitos tranquilizantes (prescritos pelo médico), e disse: “Se você anda por aí como um sonâmbulo, como vai alcançar os seus objetivos?” O cliente voltou na sessão seguinte mais desperto, dizendo que tinha reduzido a medicação. Dois dos outros clientes disseram que também tinham reduzido a medicação. Os participantes escreveram na avaliação que ouvir os problemas e os passos à frente dos outros lhes tinha dado novas perspectivas. Lee et al. (2003) também descrevem os benefícios de conduzir o seu projeto em grupo e do processo interativo do grupo. Sharry (2001) aborda muitos aspectos do trabalho de grupo em Solution-Focused Groupwork.
O grupo de clientes que entrou no programa não é considerado muito motivado. Os clientes estavam condenados por violência doméstica, agressão e crimes sexuais. Os que eram autores de crimes sexuais eram, além disso, “negadores”. Alguns se sentiam extremamente ofendidos e magoados, porque ninguém acreditava neles. Ruminavam e ruminavam. Para poder construir a colaboração, era extremamente importante reconhecê-los nas suas dificuldades! As conversas focadas nas soluções oferecem uma forma respeitosa de construir a colaboração sem confrontar. Macdonald (2007) afirma que vários estudos mostram que a terapia focada nas soluções é eficaz com públicos infratores e outros públicos difíceis de tratar, talvez por ser colaborativa.
Uma prisão não é o contexto mais propício à esperança. É muito normativa. Há muitas regras. A equipe penitenciária, como os detentos, vê muitos clientes voltarem após reincidir. Os detentos precisam fazer requerimentos para quase tudo. E passam muito tempo esperando as respostas. Só incutir a esperança de que a mudança é possível já é um desafio, tanto nos detentos quanto na equipe penitenciária. O programa era oferecido aos detentos. A decisão de participar cabia a eles. Um participante disse: “Entrar no programa foi importante para mim. Acho que é a primeira vez desde que cheguei à prisão que o meu requerimento não foi recusado.”
O programa foi conduzido por um ano e meio. 22 detentos foram encaminhados ao programa. Três encaminhamentos eram inadequados. Um pensava que eu podia ajudá-lo a obter uma saída temporária, o que eu não podia; outro pensava que eu podia influenciar a sua transferência para outra prisão, o que eu não podia; e um terceiro não queria participar de um grupo. Um cliente veio duas vezes e depois foi transferido para outra prisão. 18 detentos participaram pelo menos quatro vezes. O programa cessou porque a Administração Nacional de Prisões e Liberdade Condicional havia decidido que esse grupo de detentos seria transferido para outras prisões, onde outros programas os esperavam. Também me pediram para supervisionar dois grupos da equipe penitenciária e para trabalhar individualmente com clientes condenados por violência (Severin, 2008).
Complexe Systémique: o que reter
Sem números, ou quase: dezoito homens, uma autoavaliação, uma duração. O que este texto traz está em outro lugar, na precisão das escolhas de enquadre. Um nome, “Sessões em grupo”, para que ninguém pense em terapia. Um objetivo que se pode dizer diante da direção, dos detentos e de si mesmo. Entrevistas individuais diante dos outros, o que faz do grupo uma plateia e não uma máquina de confronto. E a recusa obstinada de trabalhar o delito, inclusive com os que negam, em favor do que está sempre “do outro lado dos muros”. Na sistêmica, se reconhecerá a lógica do contexto: é o enquadre que torna as perguntas possíveis, e a equipe penitenciária que muda são o sinal de que se tocou o sistema, e não só o detento. Para ler com Blundo sobre a supervisão na proteção da infância, outro lugar de coerção, com Por que trabalhar com agressores sexuais, e com Perry, Alexander e Hemmington sobre a esperança sob coerção.
Referências
Berg, I. K. (1991). Family Preservation: A Brief Therapy Workbook. London: BT Press.
Berg, I. K. & Miller, S. (1992). Working with the Problem Drinker: A Solution-Focused Approach. New York: W. W. Norton & Co.
Berg, I. K. & Dolan, Y. (2001). Tales of Solutions: A Collection of Hope-inspiring Stories. New York: W. W. Norton & Co.
DeJong, P. & Berg, I. K. (1997). Interviewing for Solutions. San Francisco, CA: Brooks/Cole.
de Shazer, S. (1988). Clues: Investigating Solutions in Brief Therapy. New York: W. W. Norton & Co.
de Shazer, S. (1991). Putting Difference to Work. New York: W. W. Norton & Co.
Jenkins, A. (1990). Invitations to Responsibility: The Therapeutic Engagement of Men who are Violent and Abusive. Adelaide, Australia: Dulwich Centre Publications.
Lee, M. Y., Sebold, J. & Uken, A. (2003). Solution-Focused Treatment of Domestic Violence Offenders. New York: Oxford University Press.
Lindforss, L. & Magnusson D. (1997). Solution-Focused therapy in prison. Contemporary Family Therapy, 19(1), 89–104.
Macdonald, A. (2007). Solution-Focused Therapy: Theory, Research & Practice. London: Sage.
Severin, B. (2008). Nu vet jag hur jag ska göra, inte bara hur jag inte ska göra: Lösningsfokuserat arbete med våldsbenägna klienter. (“Now I know how to do, not only how not to do: Solution-Focused work with clients with a history of violent behavior”). Socionomen, 8, 14-18. (a Swedish journal for social workers).
Sharry, J. (2001). Solution-Focused Groupwork. London: Sage.
Uken, A. & Sebold, J. (1996). The Plumas project: A Solution-Focused goal-directed domestic violence diversion program. Journal of Collaborative Therapies, 4, 10–17.
Sobre a autora
Britta Severin tem vasta experiência em terapia focada nas soluções no sistema penitenciário, com clientes com histórico de violência. Durante nove anos, trabalhou na prisão com detentos condenados por crimes violentos, individualmente e em grupo, e por mais de vinte anos foi agente de liberdade condicional, trabalhando com pessoas em sursis e em condicional. Atualmente, é terapeuta do serviço de saúde penitenciário numa clínica ambulatorial para alcoolismo e toxicodependência. A maioria dos seus clientes está em sursis ou em condicional, muitas vezes condenados por violência. Também forma e supervisiona há muitos anos. E-mail: bseverin@bredband.net
Tradução não oficial para o português de Solution-Focused Group Work in Prison, de Britta Severin, publicado no Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 1, n.º 1 (2014), artigo 3, p. 1-10, doi: 10.59874/001c.75122, sob licença CC BY 4.0. Tradução e diagramação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem a autora nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Solution-Focused Group Work in Prison”, publicado em Journal of Solution-Focused Brief Therapy (2014) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Severin, B. (2014). O trabalho de grupo focado nas soluções na prisão (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/o-trabalho-de-grupo-focado-nas-solucoes-na-prisao (Obra original publicada em 2014 em Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 1, n° 1 (2014), article 3, p. 1-10; republicada em 2014 por Journal of Solution-Focused Brief Therapy, https://journalsfp.org/article/75122)
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