Journal of Family Issues · Luto

Retratos da vida após a perda: compreender a perda de um dos pais em seu contexto social

Perder um dos pais entre os 18 e os 28 anos, quando se constrói a vida adulta, ainda é pouco estudado. Com base em entrevistas aprofundadas com quatro jovens adultos de Délhi, este estudo fenomenológico mostra como o luto é vivido na família e sob o olhar social: papéis redistribuídos, filhos mais velhos que assumem o lugar do genitor falecido, culpa por não chorar “do jeito certo”.

Autores Tanya Ann Antony (Escola de Psicologia, Trinity College Dublin, Irlanda); Bhumika Kapoor (Departamento de Psicologia, Jesus and Mary College, Universidade de Délhi, Nova Délhi, Índia)Primeira publicação Journal of Family Issues, 2 de outubro de 2023Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Retratos da vida após a perda: compreender a perda de um dos pais em seu contexto social, de Tanya Ann Antony e Bhumika Kapoor, publicado na Journal of Family Issues (SAGE) (2024), doi: 10.1177/0192513x231204981, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As declarações do fim do artigo (agradecimentos, conflitos de interesse, financiamento) foram reunidas nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

O enfrentamento da perda ocorreu em redes de relações dentro e fora da família, sob a influência das expectativas sociais sobre o luto.

Tanya Ann Antony e Bhumika Kapoor

Resumo

A perda de um dos pais, em qualquer idade, é uma transição de vida que traz mudanças sem precedentes. Viver essa perda na adultez emergente pode ser especialmente difícil por causa das muitas consequências próprias dessa etapa da vida. A pesquisa existente deixou de fora a experiência de jovens em luto pela morte de um dos pais. O presente estudo procura, assim, preencher essa lacuna, concentrando-se na experiência de adultos emergentes que enfrentam a perda de um dos pais, com ênfase em seus percursos de enfrentamento da perda e na maneira como o luto se desdobrou em um contexto social. Nesta pesquisa exploratória, quatro pessoas de 18 a 28 anos foram entrevistadas, e os dados foram submetidos a uma análise fenomenológica interpretativa. Três temas principais emergiram dos dados: os primeiros dias após a perda, realidades relacionais em transformação e o enfrentamento no contexto do outro. As limitações e implicações do estudo são discutidas.

Palavras-chave: luto, pesar, perda de um dos pais, enfrentamento (coping), adultos emergentes

Introdução

A vida traz, em diferentes momentos, a experiência inevitável de perder um ente querido. A maneira como cada pessoa vive a perda e lida com ela varia conforme uma multiplicidade de fatores. O pesar representa tradicionalmente uma reação universal à perda, ou ao luto; ele é observado em todas as culturas e ao longo de toda a história humana. O pesar é inevitável e pode ser visto como “o modo da natureza” (Gross, 2018, p. 5) de nos ajudar a aceitar a morte de um ente querido.

Perda, pesar e manifestações do luto

Embora os termos bereavement (a perda de alguém próximo) e grief (o pesar do luto) tenham sido usados como sinônimos na literatura, seus sentidos são bem diferentes. Em The Psychology of Grief, Gross (2018) definiu o bereavement como a perda, pela morte, de alguém com quem se tinha um vínculo afetivo ou que era uma figura importante na própria vida. O grief, por sua vez, refere-se à maneira como se responde a essa perda e envolve respostas emocionais, cognitivas, espirituais, comportamentais e funcionais variadas após a perda de uma pessoa significativa (Zisook & Shear, 2009). A expressão do pesar, chamada mourning, as manifestações do luto (Özel & Özkan, 2020), é amplamente influenciada por fatores sociais e culturais, como os papéis de gênero e as crenças religiosas, e por rituais, entre eles os funerais, as abstinências etc.

Teorias do luto e do enfrentamento

Os trabalhos no campo dos estudos sobre a morte contribuíram para o desenvolvimento de diversas teorias e ideias sobre o processo de luto.

A abordagem psicanalítica do luto, baseada na teoria de Freud (1958), supõe que a tarefa primordial do luto consiste em abrir mão gradualmente do apego psíquico à pessoa falecida. Em sua revisão da hipótese do trabalho de luto (grief work hypothesis, GWH), Margaret Stroebe (1993) questionou a importância do trabalho de luto para enfrentar a perda. Suas investigações revelaram a falta de evidências científicas da GWH. Ela também aponta as diferenças interculturais na vivência do luto entre as sociedades. A redefinição do trabalho de luto por Stroebe como “um processo cognitivo que envolve o confronto com os pensamentos sobre a pessoa falecida, a experiência da perda e o mundo transformado em que a pessoa enlutada passa a viver, e a reestruturação desses pensamentos” (p. 33) rejeita a existência de um processo normal ou padrão.

Segundo a perspectiva dos modelos por etapas, a resposta psicológica natural à perda envolve uma progressão sequencial por etapas específicas. Esse modelo, no entanto, foi criticado por ser interpretado como prescritivo da resposta ao luto (ver Avis et al., 2021; Strobe et al., 2017).

Bowlby e Parkes (Bowlby, 1961, 1980; Parkes, 1972; Parkes & Weiss, 1983) propuseram a primeira teoria do luto por etapas, que incluía quatro: as fases de entorpecimento, de anseio e busca, de desorganização e desespero, e de reorganização. Outra teoria popular é a das cinco etapas do luto de Kübler-Ross (1969): negação, raiva, barganha, depressão e, por fim, aceitação. As evidências empíricas a favor da teoria das etapas do luto de Kübler-Ross são mínimas. Os estudos realizados apresentam resultados contrastantes: alguns não encontram apoio para a teoria (por ex. McCoyd et al., 2023) e outros encontram evidências a seu favor (por ex. Meuser & Marwit, 2001). Holland e Neimeyer (2010) examinaram a relação entre vários indicadores de luto e o tempo decorrido desde a perda, buscando também esclarecer o papel de uma perspectiva orientada para o sentido. Os resultados não validaram a teoria das etapas, mas tampouco a contradisseram inteiramente. Havia um padrão geral em que o sofrimento do luto e a aceitação aumentavam e diminuíam de forma assíncrona. Além disso, a construção de sentido mostrou-se um preditor dos indicadores de luto mais forte do que o tempo decorrido desde a perda. As pesquisas sobre o luto e a adaptação das pessoas às restrições durante a pandemia de COVID-19 também recorreram a diversos modelos de luto por etapas para dar sentido às perdas e transições (por ex. Mortazavi et al., 2020; Valliani & Mughal, 2022).

Mais recentemente, a teoria da transição psicossocial ganhou destaque. As transições psicossociais (TPS) são acontecimentos de vida que exigem que as pessoas revejam seus pressupostos sobre o mundo, têm implicações duradouras e ocorrem em um período relativamente curto (Caplan, 1961; Rahe, 1979). O “mundo presumido” (assumptive world), composto pelas expectativas que as pessoas consideram verdadeiras, é muitas vezes invalidado no curso de uma TPS. A morte de um ente querido tende a negar os diversos pressupostos subjacentes a diferentes aspectos da vida, e o mundo familiar se transforma em um mundo estranho (Gross, 2018). Para evitar que a ansiedade crescente se torne desorganizadora, as pessoas enlutadas usam diversos mecanismos de enfrentamento, como a evitação ou a negação (Parkes, 1988).

Worden (1991) concebeu o luto como um processo ativo composto de quatro tarefas: reconhecer e aceitar a realidade da morte, elaborar a dor do luto, adaptar-se a um mundo sem a pessoa falecida e, por fim, encontrar uma conexão duradoura com ela. Essas tarefas não seguem necessariamente uma ordem prescrita e dão à pessoa enlutada certo grau de controle. Outro modelo é o modelo do processo dual proposto por Schut (1999), aplicável a perdas variadas, que distingue duas categorias de estressores: os orientados para a perda e os orientados para a restauração. A orientação para a perda diz respeito à atenção que a pessoa enlutada dá a certos aspectos da experiência da perda, isto é, ao estressor principal, à sua avaliação e à sua elaboração, e envolve o trabalho de luto. A orientação para a restauração, por outro lado, refere-se à atenção dada aos estressores secundários, que são as consequências do luto. Pode ser necessário reestruturar a própria vida após a perda, concentrando-se no que precisa ser resolvido e em como fazê-lo (Gross, 2018). As duas orientações podem estar ligadas a desfechos como sofrimento e ansiedade, ao mesmo tempo que participam do enfrentamento. O processo dinâmico de dar atenção aos dois tipos de estressores ou de evitá-los é chamado de oscilação (Stroebe & Schut, 1999). Seu princípio subjacente é que, em alguns momentos, a pessoa enlutada confronta aspectos da perda e, em outros, os evita e se concentra nas tarefas de restauração, e vice-versa. O enfrentamento adaptativo compreende, portanto, um processo regulatório complexo de confronto e evitação, sendo essencial a oscilação entre os dois.

Viver o luto em relação com os outros

No sistema familiar, as relações entre os subsistemas e dentro de cada um deles podem se alterar após a perda de um dos pais, como sugerem as hipóteses da solidariedade e da manutenção dos laços familiares (kin-keeping) propostas por Kalmijn e Leopold (2019). Segundo a hipótese da solidariedade, a morte de um dos pais aumenta a coesão entre irmãos, que contam uns com os outros para apoio social e prático e também se unem para alcançar maior solidariedade intergeracional com o genitor sobrevivente. A hipótese da manutenção dos laços familiares, por outro lado, afirma que a morte do segundo genitor é acompanhada de uma coesão mais fraca entre os irmãos, já que a força integradora anterior desapareceu.

A experiência do luto costuma ser influenciada pelo contexto social em que cada pessoa está inserida, que estabelece referenciais implícitos ou explícitos para chorar a perda de um ente querido. Em seu estudo sobre o contexto social do luto vivido por filhas adultas, Klapper et al. (1994) constataram que as expectativas e normas sociais levavam as filhas enlutadas a controlar o sentimento e a expressão do pesar, muitas vezes modificando suas emoções. Elas também viviam um luto antecipatório antes da perda de um dos pais e consideravam seu pesar egoísta, pois desejar a presença do genitor prestes a morrer era entendido como prolongar seu sofrimento. A elaboração do luto também ocorre de forma diferente em diferentes contextos relacionais. Por exemplo, Pressman & Bonnano (2007) descobriram que as pessoas elaboravam o luto com a família ou sozinhas mais do que entre amigos, mas levantou-se a hipótese de que suas amizades contribuíam para a continuidade das atividades habituais e para a reintegração social.

Um estudo de Skalski et al. (2022) sobre o luto durante a pandemia de COVID-19 na Polônia constatou que o apoio social percebido e a resiliência estavam correlacionados entre si e associados a níveis mais baixos de luto disfuncional. Pesquisas limitadas mostraram que o apoio social de vários tipos, incluindo o de pares, de mentores e dos pais, ajuda a enfrentar o luto (Sharp et al., 2018). No entanto, ao contrário da crença popular, a pesquisa existente também indica que não há interação significativa entre o apoio social e os desfechos do luto (por ex. Stroebe et al., 2005; Wagø et al., 2017).

Justificativa do presente estudo

A perda de um dos pais na vida adulta é vista como um passo inevitável do ciclo da vida, e a crença de que ela seria normativa e ocorreria no tempo certo contribui para concebê-la como um luto não reconhecido (disenfranchised grief) (Abrams e Arnett, 2013). Ao contrário dessa crença dominante sobre a perda de um dos pais na vida adulta, perder um dos pais na adultez emergente não é nem normativo nem “no tempo certo”, e ainda assim a experiência dessa população foi negligenciada pela pesquisa disponível. Explorar experiências singulares de perda permitirá uma compreensão aprofundada das diversas maneiras pelas quais as pessoas se deparam com a perda. Arentt (2000, 2004) propôs a fase de desenvolvimento da adultez emergente como uma idade marcada por muitos desafios próprios de quem atravessa essa etapa da vida. A relação bidirecional entre as consequências naturais dessa idade e o luto associado à morte de um dos pais era de interesse central e levou à escolha dos adultos emergentes como população do presente estudo.

Uma revisão da literatura indicou a predominância de pesquisas com modos de investigação quantitativos e o caráter mínimo das explorações qualitativas da experiência vivida da perda de um dos pais. Uma abordagem qualitativa facilitará essa investigação e trará luz aos diversos domínios moldados pela experiência da perda e que nela influem. No contexto indiano em particular, a pesquisa (por ex. Bhana, 2007; Kaneez, 2015) no campo dos estudos sobre a morte trata sobretudo do luto perinatal e da experiência das viúvas, enquanto a perda de um dos pais vivida por jovens adultos ainda está por ser explorada. O presente estudo pretende preencher essas lacunas da literatura e descobrir como pessoas de origens diversas, no contexto indiano, vivem a perda de um dos pais.

Método

Objetivo

O presente estudo teve como objetivo explorar a experiência de adultos emergentes que enfrentam a perda de um dos pais e as maneiras como constroem sentido a respeito dela.

Objetivos de pesquisa

  • (i) Compreender a experiência de adultos emergentes que enfrentam a perda de um dos pais.
  • (ii) Explorar o impacto da morte de um dos pais nas relações da pessoa enlutada com os outros.

Pesquisa qualitativa

O presente estudo adotou uma abordagem qualitativa, pois ela dá acesso a áreas que de outro modo seriam complexas e impenetráveis. O caráter detalhado e interativo da coleta de dados, que envolve uma comunicação significativa entre quem conduz a pesquisa e as pessoas participantes, voltada para o estabelecimento de compreensão e colaboração, torna a metodologia qualitativa ainda mais útil (Buckle et al., 2010). Na pesquisa sobre o luto em particular, uma abordagem qualitativa facilita a exploração de questões ligadas ao sentido, à experiência e à compreensão após a perda, permitindo que as pessoas participantes ofereçam níveis de compreensão mais profundos do que os acessíveis por métodos quantitativos. Por isso, ela foi considerada o método mais adequado para compreender o problema estudado.

Análise fenomenológica interpretativa

A análise fenomenológica interpretativa (Interpretative Phenomenological Analysis, IPA) busca “explorar em detalhe como as pessoas participantes dão sentido a seu mundo pessoal e social” (Smith & Osborn, 2007, p. 53). Trata-se de uma abordagem de pesquisa qualitativa, experiencial e psicológica influenciada por três fundamentos filosóficos centrais: a fenomenologia, a hermenêutica e a idiografia (Smith et al., 2009).

O método de análise da IPA foi escolhido para o presente estudo por ser coerente com a pergunta e os objetivos de pesquisa. A preocupação da IPA com a exploração detalhada da experiência vivida a torna especialmente adequada ao estudo, pois ajuda a compreender como as pessoas participantes dão sentido a sua experiência singular de perda e de luto. Considerando a ênfase da IPA no particular e o caráter relativamente incomum de perder um dos pais na adultez emergente, o método cria espaço para aprofundar a narrativa singular de cada participante, com atenção à especificidade de cada experiência, situando cada pessoa em um contexto particular. Ele também permite a quem conduz a pesquisa adotar uma posição construcionista social, segundo a qual existem múltiplas realidades, e cada participante tem a sua.

Participantes

A amostra do presente estudo foi composta por quatro pessoas (dois homens e duas mulheres) de 18 a 28 anos, sendo a média de idade da amostra 24 anos. Cada participante havia perdido um dos pais de um a cinco anos antes da coleta de dados. Três participantes eram estudantes e uma pessoa trabalhava. As pessoas participantes vinham de origens religiosas diversas: uma agnóstica, uma muçulmana e duas católicas. Quanto à composição familiar, uma delas vinha de um lar de filho único, enquanto as outras três tinham um ou mais irmãos. A amostra foi recrutada por amostragem intencional.

Os critérios de inclusão da amostra foram: homens e mulheres de 18 a 28 anos que tivessem perdido um dos pais nos últimos um a cinco anos. Essa faixa etária foi escolhida porque as pessoas nela situadas estão na fase de desenvolvimento da adultez emergente e enfrentam diversos desafios próprios dessa fase da vida. Proposta por Arnett et al. (2004), a adultez emergente, que vai dos 18 aos 28 anos, é uma idade marcada por profunda importância e mudança para a maioria dos jovens dos países industrializados. Diante dos desafios dessa idade, a perda de um dos pais tende a criar pressões adicionais e a ter um impacto significativo em vários domínios da vida. Além disso, a própria experiência da perda provavelmente é influenciada pelos acontecimentos na vida da pessoa, característicos da fase da adultez emergente.

Os critérios de exclusão abrangiam pessoas que tivessem perdido um dos pais menos de um ano ou mais de cinco anos antes da coleta de dados. A pessoa responsável pela pesquisa escolheu o intervalo de um a cinco anos após a perda, supondo que menos de um ano seria um período próximo demais da morte do genitor: as pessoas poderiam não se sentir à vontade para falar da perda e não conseguir relatar como a enfrentaram, por ser recente. O limite superior de cinco anos foi definido porque as experiências de quem viveu a perda mais de cinco anos antes da coleta de dados poderiam ser diversas demais e distintas das de quem a viveu mais recentemente. Pessoas que haviam perdido os dois pais também foram excluídas do estudo.

Procedimento

O método de coleta de dados escolhido para o presente estudo foi a entrevista, definida por Kvale e Brinkmann (2008) como um método que tem o propósito de reunir as descrições que as pessoas entrevistadas fazem de seu mundo vivido, a fim de interpretar o sentido dos fenômenos estudados. Ela foi escolhida por sua capacidade de criar um ambiente pessoal e seguro para que as pessoas participantes revelassem em detalhe suas histórias de enfrentamento da perda de um dos pais, oferecendo compreensões mais ricas. Ela permitiria às pessoas participantes expressar livremente e com conforto seus pensamentos e sentimentos em um contexto individual. Em vista do método de análise IPA escolhido, a entrevista presencial também permitia levar em conta o comportamento não verbal e a paralinguagem das pessoas participantes. Diversas considerações éticas foram levadas em conta ao longo do estudo. A participação na pesquisa foi inteiramente voluntária, e não houve nenhum tipo de coerção. As pessoas participantes eram livres para desistir a qualquer momento. Elas precisavam preencher um termo de consentimento livre e esclarecido, e a entrevista só começava depois de se garantir que tinham plena compreensão do que a participação implicaria. Para preservar a confidencialidade, foi atribuído um pseudônimo a cada pessoa, e somente a pessoa responsável pela pesquisa tinha acesso às gravações. Ela se manteve atenta à linguagem corporal das pessoas participantes; se alguma pessoa parecesse aflita ou desconfortável durante a entrevista, a entrevista era interrompida e oferecia-se a possibilidade de encerrá-la. Além disso, o roteiro de entrevista foi construído de modo a dar primeiro a quem participava e a quem entrevistava a oportunidade de criar vínculo, e os gatilhos emocionais foram minimizados por meio de uma ordenação cuidadosa das perguntas. As pessoas participantes receberam uma lista de serviços de saúde mental em diferentes partes de Délhi, aos quais poderiam recorrer se sentissem necessidade, além de recursos on-line para ajudar a lidar com o sofrimento que pudessem enfrentar.

Elaboração do roteiro de entrevista e estudo piloto

Com base na revisão da literatura e nos objetivos do estudo, foram definidos os domínios de foco do presente estudo e formulado um roteiro de entrevista. Em seguida, foram realizadas duas entrevistas piloto para avaliar a viabilidade do método de entrevista e a adequação das perguntas do roteiro. As entrevistas piloto foram feitas com pessoas que responderam ao convite para participar e que atendiam aos critérios de inclusão. No entanto, as duas pessoas entrevistadas vinham de contextos familiares com características distintas que as diferenciavam das demais participantes; por isso, seus dados não foram incluídos no estudo. Além disso, o roteiro também foi revisado por especialistas no tema, cujas sugestões foram devidamente incorporadas. O roteiro final de entrevista compreendia quatro dimensões: (i) a experiência imediata, (ii) o impacto nas relações, (iii) o enfrentamento da perda e (iv) seguir em frente.

Coleta de dados

Após as entrevistas piloto, começou a coleta de dados. Uma mensagem foi divulgada em diversas plataformas de redes sociais para recrutar participantes para o estudo. Depois de receberem as informações necessárias sobre o estudo e consentirem em participar, as pessoas precisavam preencher um formulário sociodemográfico on-line.

O local das entrevistas foi definido levando em conta onde as pessoas participantes se sentiriam à vontade para falar de um tema tão sensível quanto sua experiência da perda. Garantiu-se que o ambiente não fosse barulhento nem cheio, para que pudessem expressar livremente seus pensamentos e sentimentos em um espaço seguro, com o mínimo de distrações e sem receio da presença de outras pessoas.

Após a entrevista, as pessoas participantes receberam uma lista de recursos para buscar ajuda profissional caso sentissem necessidade.

Análise dos dados

Embora a pesquisa em IPA se interesse sobretudo pela experiência vivida de quem participa e pela maneira como lhe dá sentido, o resultado final é sempre um relato de como quem analisa dá sentido aos processos pelos quais as pessoas participantes dão sentido a sua experiência, o que configura a dupla hermenêutica (Smith et al., 2009). A análise é, portanto, um produto conjunto de quem analisa e de quem participa. As etapas propostas por Smith et al. (2009) foram seguidas para analisar os dados do presente estudo.

Resultados e discussão

Dando sentido aos dados

Embora a perda de um dos pais seja considerada parte natural do ciclo da vida, vivê-la na adultez emergente traz consequências em múltiplas esferas da vida cujo impacto nenhuma preparação consegue apagar. A turbulência repentina causada por essa transição de vida leva a pessoa enlutada a lidar com suas emoções, com o sistema familiar transformado e com toda a gama de mudanças ocorridas em sua vida, enquanto enfrenta ao mesmo tempo os desafios próprios de sua etapa de vida. No entanto, a literatura recente no campo dos estudos sobre a morte e o luto ignorou a população de jovens e sua experiência da perda de um dos pais. A análise dos dados da presente pesquisa revelou quatro temas principais, com temas secundários subjacentes. São eles: os primeiros dias após a perda, realidades relacionais em transformação e o enfrentamento no contexto do outro. Eles são desenvolvidos e discutidos a seguir. Por motivo de confidencialidade, foi atribuído um pseudônimo a cada participante: Alan (28 anos), Maheen (24), Arun (24) e Mona (19).

Tema 1: os primeiros dias após a perda

Este tema trata da experiência das pessoas participantes nos primeiros dias após a perda de um dos pais. Elas relataram que os dias iniciais depois da perda foram marcados por uma gama de emoções e acontecimentos; todas pareciam ter lembranças vívidas desses primeiros dias e recordavam como os acontecimentos se desenrolaram ao longo do tempo. Cada participante respondeu aos diversos desafios, funcionais e emocionais, de maneira própria, com alguns pontos em comum quanto às emoções sentidas, à forma de lidar com elas e às responsabilidades e mudanças imediatas em sua vida.

A resposta emocional à perda

As reações das pessoas participantes à perda foram mediadas pelas circunstâncias que cercaram a morte de seu genitor. Os pais de Alan, Maheen e Mona, hoje falecidos, viviam com câncer havia bastante tempo antes de morrer.

O período anterior à perda, em que a doença do genitor era particularmente saliente, permitiu a essas pessoas se prepararem para o que viam como uma consequência inevitável da doença. Essa preparação facilitou o processo de aceitação que se seguiu à morte. Quando perguntada sobre sua experiência imediata, Maheen afirmou:

“Mas acho que provavelmente não foi tão difícil assim para mim, porque acho que no momento em que alguém te diz que uma pessoa tem câncer você meio que entende que a morte é iminente.”

Essa aceitação prematura da morte “iminente” do genitor, particularmente evidente nos casos de Alan e Maheen, pode também ter sido uma tentativa de se protegerem da perda futura e da dor subsequente e de evitar que suas esperanças fossem esmagadas. Assim, a aceitação funcionou como defesa não apenas contra o luto antecipatório, mas também contra o luto que viria depois da perda. Essa maneira de lidar com a perda preparou o terreno para as defesas que usaram para enfrentar a perda do genitor.

Para Mona, desde que a mãe recebeu o diagnóstico de leucemia, oito anos antes de morrer, conviver com a doença da mãe tornou-se um modo de vida que ela conhecia bem demais. Ela reconheceu que a ideia de perder a mãe pairou constantemente em sua mente durante grande parte da infância e da adolescência. Ainda assim, quando soube da morte da mãe, teve dificuldade em aceitar a perda como realidade, porque, apesar de esperá-la, não a via como algo que de fato aconteceria com ela.

Diferentemente das demais pessoas participantes, embora o pai de Arun estivesse doente nas semanas anteriores à perda, com icterícia e lesão hepática, Arun não esperava perder o pai para a doença. Ao recordar o momento em que souberam da perda, a incredulidade e o choque caracterizaram a experiência tanto de Mona quanto de Arun. Quando perguntado sobre seus pensamentos e sentimentos na época, Arun disse:

“Eu fiquei atordoado porque eu tinha… tipo… devia ter uns 19 anos na época […] é uma coisa que, sabe, por mais que eu tente, não vou conseguir explicar totalmente, quer dizer, o que eu estava passando, porque estava acontecendo tão jaldi, jaldi (rápido) e a gente não tinha tempo de, sabe, entender.”

Esse choque funcionou como barreira à aceitação da morte do pai por Arun e tornou difícil para ele compreender a realidade da perda. A perda foi inesperada, e a sensação de Arun de não estar preparado para enfrentar um acontecimento desses se evidencia na ênfase que ele dá à sua idade na época. Por isso, ele admitiu que inicialmente barganhou com a possibilidade alternativa de o pai ter sido salvo, não fosse um erro por descuido da equipe médica. As etapas iniciais das reações de Arun à perda estão, assim, em consonância com o modelo de etapas do luto de Kübler-Ross (1969), com a negação e a incredulidade seguidas da barganha.

Ver pela primeira vez o corpo do genitor despertou emoções e pensamentos semelhantes em Maheen e Arun, que tiveram dificuldade de lidar com a ideia de que o corpo do pai estava agora sem vida. Arun experimentou sentimentos contraditórios de orgulho e angústia ao perceber a partida do pai do mundo físico, o que se reflete em sua fala:

“… a coisa mais difícil que eu tive que fazer foi, sabe, quando o corpo chegou em casa, eu tive que, sabe, tirar aquela barba e foi muito triste. Quer dizer, eu tive a chance de, sabe, aparar a barba do meu pai, mas aí, quando você finalmente percebe que ele não está mais aqui, sabe, foi uma experiência tão dolorosa.”

Outra emoção predominante foi a culpa, relatada por Maheen e Mona. Expostas a modelos de luto em que a ruminação e a tristeza eram as únicas emoções visíveis, seguir com a vida cotidiana, sentir emoções positivas e não ter uma reação de luto extrema desencadeavam nelas sentimentos de culpa, como mostra este comentário de Mona:

“O que eu associaria, tipo, ao período imediato, tipo as uma ou duas semanas seguintes, era tipo esse sentimento de culpa muito estranho toda vez que eu tentava curtir alguma coisa.”

Essa culpa era sentida em consequência de expectativas internalizadas sobre como se deveria reagir ao luto, o que criava uma dissonância entre suas expectativas e seu comportamento. Maheen, porém, também sentia culpa porque se culpava pela morte do pai, assumindo a responsabilidade pelos acontecimentos que levaram à sua última emergência médica. Essa culpa tinha efeitos particularmente avassaladores à noite, resultando em distúrbios do sono e pesadelos, que Maheen enfrentava distraindo-se com séries de TV antes de dormir.

Adaptar-se a uma realidade alterada

Nos relatos de todas as pessoas participantes sobre os dias imediatamente posteriores à perda, destacava-se seu envolvimento nos rituais ligados à morte, como organizar o funeral, viajar para outra cidade para o sepultamento e providenciar a acolhida dos convidados, entre outras coisas. Com isso, os pensamentos sobre a perda não ocupavam sua mente, como revela Alan:

“Os primeiros 3-4 dias toh, tipo, tem tantos rituais, tem tanta gente em volta, você não tem tempo para si. Tem que ver os parentes chegando, indo embora, organizar isso. […] a cremação e tudo o que a gente tem que fazer. A ideia de ter perdido ela não vinha à cabeça…”

Para Alan, Maheen e Arun, que ocupavam o primeiro lugar na ordem de nascimento da família, a notícia da perda soou como um chamado a se manterem firmes pelo genitor que ficou viúvo ou viúva, um comportamento nascido de sua preocupação empática com ele ou ela. O foco imediato era proteger o genitor e apoiar a família. Saber da morte do pai voltou imediatamente a atenção de Arun para a mãe, como ele revelou:

“Quando meu pai faleceu, naquela mesma noite, eu, meu irmão e minha mãe, a gente toda, minha mãe estava dormindo entre nós e a gente segurou as duas mãos dela e disse que estava ali por ela.”

Voltar à vida comum depois de cumpridos os rituais exigiu acomodar-se a uma nova vida sem a pessoa falecida. Maheen era frequentemente lembrada da ausência do pai porque esperava vê-lo em lugares familiares, um comportamento de busca que, com as expectativas frustradas, a fazia tomar consciência da perda.

“No começo, por uns dois meses talvez… então eu rezava, a gente faz o namaaz, e o lugar onde eu fazia o namaaz era onde ficava o lado dele da cama […]. Toda vez que eu ia rezar, eu via que, bom, não tem ninguém aqui, e isso me batia. Já não me bate mais.”

Cada participante adotou abordagens diferentes para lidar com a nova situação, recorrendo às vezes ao enfrentamento focado no problema e, em outras, ao enfrentamento focado na emoção. Ao longo da entrevista, a narrativa de Maheen confirmou uma abordagem orientada para a evitação, possivelmente decorrente de seus esforços para se proteger da profundidade das emoções que de fato sente em relação à perda e do medo de não saber lidar com essas emoções. A experiência de Mona foi influenciada por vários estressores presentes na época, entre eles as provas que se aproximavam e os pensamentos sobre a mãe. Sua família tentou imediatamente estabelecer uma rotina, como ela contou:

“Naquela mesma noite (depois do funeral) a gente voltou para casa e meio que tentou retomar algum tipo de rotina.”

Como no caso de Mona, o luto das demais pessoas participantes também assumiu a forma de orientação para a restauração, com oscilações ocasionais para a orientação para a perda. As pessoas participantes relataram evitar ruminar a perda e concentrar-se em se adaptar à realidade transformada, apesar de dificuldades ocasionais em reconhecer a continuidade da vida. Essa oscilação está de acordo com o modelo do processo dual proposto por Stroebe & Schut, 1999, segundo o qual a pessoa enlutada se envolve em um processo dinâmico de confrontar ou evitar estressores orientados para a perda e estressores orientados para a restauração em diferentes momentos, uma flutuação que é a chave do enfrentamento adaptativo.

Além disso, a morte do genitor trouxe certas responsabilidades financeiras e consequências secundárias, como relações alteradas, redistribuição de tarefas na família, mudanças de comportamento dos membros da família e a perda dos diversos papéis desempenhados pelo genitor falecido. Um achado singular deste estudo é que, apesar desses relatos sobre as mudanças em sua vida, as quatro pessoas participantes afirmaram que a perda não provocou nenhuma mudança significativa e observável no dia a dia. A incoerência entre o que diziam sobre as mudanças ocorridas e a ausência de mudança percebida sugere tentativas de negar a mudança. Isso também pode ser atribuído a uma dificuldade de recordar as mudanças, por causa da turbulência emocional e mental que marcou a experiência inicial. Estudos sobre a memória de acontecimentos autobiográficos mostraram uma tendência maior a recordar lembranças positivas do que negativas (por ex. Linton, 1975; White, 2002). Além disso, as mudanças ocorridas podem ter sido específicas de certos domínios, e não uma alteração geral em todas as esferas da vida. Bonanno (2019) sugere que conseguir atravessar com serenidade um acontecimento traumático ou doloroso cria a suposição de que o acontecimento não foi particularmente grave. Isso pode explicar a ausência percebida de mudanças significativas.

Tema 2: realidades relacionais em transformação

Perder um dos pais equivalia a perder um pilar na estrutura da família e na vida pessoal. A perda veio, portanto, acompanhada de grandes modificações nas dinâmicas relacionais de cada participante, dentro e fora da família.

Dinâmicas familiares transformadas

As pessoas participantes relataram que a perda de um membro da família nuclear provocou, de uma forma ou de outra, mudanças sem precedentes no ambiente familiar. Nas transcrições de todas as pessoas participantes era evidente uma transformação observável nos papéis desempenhados pelos membros da família.

Alan e Arun, por serem os filhos mais velhos da família, assumiram a responsabilidade de ocupar o lugar do genitor falecido. Eles reconheceram uma inversão de papéis entre o genitor sobrevivente e o filho, de modo que sentiam necessidade de proteger a família. Esse foi um achado de destaque da tese de Work (2013) sobre a experiência do luto masculino, em que os participantes sentiam uma responsabilidade esmagadora pelo papel de filho mais velho, tendência que chamaram de “síndrome do filho mais velho”. Em consonância com esses achados, Alan e Arun também acreditavam que, por serem os filhos mais velhos, passou a ser seu dever cuidar da família na ausência do genitor falecido. Enquanto Arun se preocupava mais com o estado emocional da mãe, no caso de Alan esse papel exigia que ele fosse uma figura protetora para o irmão e a irmã. Isso se reflete em sua resposta sobre como seu papel mudou na família:

“Basicamente, o que meus pais fizeram por nós, agora eu tenho que fazer. Sou eu que tenho que cuidar de tudo. Quem cuida tem que ser eu, um tutor, um irmão, um filho tem que ser eu.”

A experiência de Alan apresenta um caso de parentificação, e seu papel de cuidador na família se sobrepôs a todo o resto. Como se vê ao longo de seu relato, sua experiência de lidar com a perda, dos primeiros dias até hoje, é interpretada pela lente desse papel.

Também era comum a todas as pessoas participantes uma redistribuição de responsabilidades, com membros da família assumindo diferentes tarefas que antes cabiam ao genitor falecido, como resolver questões financeiras. Isso está de acordo com a terceira tarefa do luto descrita por Worden (1991): adaptar-se a um mundo sem a pessoa falecida, reconhecendo os papéis que ela desempenhava e adquirindo novas habilidades para desempenhá-los.

Assim como Arun, Maheen também sentia preocupação empática com a mãe e se comprometeu a ser um pilar emocional para ela, o que acabou fortalecendo a relação entre as duas, que se tornou mais aberta e íntima. A percepção da mãe de que Maheen estava mais madura também contribuiu para ampliar os limites da relação mãe-filha. Falando de sua relação com a mãe, Maheen afirmou:

“Acho que ela também começou a se abrir comigo sobre muitas coisas, não só sobre a relação dela com meu pai, mas em geral sobre coisas da família de que não se fala com os filhos.”

Isso está de acordo com o achado de Scott (2007) de que os filhos tendem a compreender melhor os pais e o conceito de morte após o falecimento de um deles, o que reforça o sentimento de conexão com a pessoa falecida e facilita a aceitação.

Arun, Maheen e Mona percebiam a necessidade de fazer companhia ao genitor vivo e preencher o vazio deixado pelo genitor falecido em sua vida. Isso levou a um aprofundamento do vínculo entre pais e filhos, com as relações assumindo formas diferentes em cada caso.

Para Arun, isso deu a oportunidade de apresentar à mãe ideias novas para ela, que a tornariam mais receptiva a seu estilo de vida, revelando uma nova influência abertamente bidirecional na relação. Sua família também passou por uma mudança rumo a uma identidade familiar mais forte e a uma coesão maior entre ele, o irmão e a mãe, de modo que a família era vista como o grupo de pertencimento, uma mudança positiva que lhes permite ficar indiferentes ao julgamento social. Depois da perda, Arun também se aproximou do irmão e parece se ver como uma figura protetora para ele, possivelmente por reconhecer a dor do irmão por ter perdido o pai.

Mona também relata alterações em suas relações com o pai e com a avó. Pilares mútuos na dor, Mona e o pai viram seu vínculo se estreitar em razão da experiência compartilhada de enfrentar a doença e a morte da mãe. Em sua pesquisa sobre a reflexão acerca da doença terminal (parental terminal illness, PTI) e da morte de um dos pais na adolescência, Cafferky et al. (2018) constataram que uma relação fortalecida com o genitor vivo e saudável, marcada por uma comunicação mais eficaz, está associada à PTI na família. Da mesma forma, Mona revelou que a relação aberta e descontraída que tem com o pai se parece muito com qualquer amizade. Também singular na experiência de Mona, e contrária à das demais pessoas participantes, é uma dependência maior em relação à família. A esse respeito, Mona disse:

“Eu fiquei muito mais dependente de casa. Então, tipo… em, tipo, talvez uns 6 meses depois que minha mãe morreu, quando sua mãe morre você fica meio paranoica com a morte de todo mundo. é tipo, ok, isso é algo que pode realmente acontecer…”

Essa dependência parece ter surgido da tomada de consciência do caráter transitório da vida; quando a morte se tornou uma realidade para ela, passou a ser a lente pela qual via a doença e também contribuiu para um medo maior de perder o pai, sua principal fonte de apoio e tudo o que lhe é familiar.

A experiência de Alan em suas relações familiares também foi singular: os primeiros dias após a morte da mãe criaram certa distância na relação com o irmão e a irmã, decorrente da preferência de cada um por lidar com a perda individualmente. Com o tempo, houve pequenas mudanças nas relações familiares, com os membros se aproximando para reduzir o vazio criado. No entanto, a perda do elo entre os membros da família e a perda de sua confidente continuam marcantes.

Além de os filhos assumirem o papel dos pais, outra mudança observada por todas as pessoas participantes foi a tentativa do genitor vivo de ocupar de diferentes maneiras o papel do genitor falecido. Por exemplo, a mãe de Maheen assumiu o papel de protetora; a mãe de Arun adotou traços do pai e tentou ser mais permissiva; para Mona e Alan, isso tomou a forma de demonstrações frequentes de preocupação por parte do genitor, um comportamento antes assumido pela mãe.

Entre as perdas secundárias no contexto da família vividas pelas pessoas participantes estão a perda de estrutura na própria vida, relatada por Mona, e a perda de uma figura protetora, que resultou em maior vulnerabilidade, sentida por Maheen.

Relações para além da família

Os efeitos da perda não se limitaram às relações familiares em transformação; eles também transbordaram para as relações que as pessoas participantes tinham com pessoas de fora da família, incluindo a família extensa e o círculo de amizades.

Maheen, Arun e Alan relataram percepções sociais alteradas, e Alan e Maheen passaram a sofrer a pressão social para o casamento. Quando perguntado sobre mudanças perceptíveis na forma como os outros viam sua família, Alan revelou:

“Sempre, quem quer que seja, qualquer pessoa que nos encontre, sempre menciona uma coisa: ‘Case o seu filho.’ Porque sempre dizem que tem que haver uma mulher em casa.”

Para Alan e Maheen, essa pressão vem da crença de que é preciso alguém para ocupar o papel do genitor falecido. No caso de Maheen também se percebe a necessidade de encontrar um chefe de família homem para tomar as grandes decisões. Esses conselhos não solicitados de pessoas de fora sobre questões de sua vida são vistos como uma interferência com a qual ela está visivelmente insatisfeita. A família de Arun também foi submetida a julgamento social, pela tendência de seu círculo social a ver a família pela lente da morte do pai, o que reforça a noção de que a estrutura familiar serve muitas vezes de indício para estereótipos (Bryan et al., 1986). Um desses episódios ocorreu quando a mãe dele cortou o cabelo curto e as pessoas a julgaram por isso, talvez a menosprezando por se interessar por moda depois de ter perdido o marido.

Quanto às amizades, Maheen enfrentou a perda ampliando seu círculo social, o que resultou em amizades que hoje ela valoriza muito. Isso sugere tentativas de preencher o vazio criado em sua vida e de se distrair da dor. Outro fator que levou Maheen a buscar novas amizades foi o peso da perda em suas amizades antigas, evidente na mudança de comportamento de seu círculo de amizades, que passou a se mostrar cauteloso demais perto dela, o que a motivou a criar uma realidade independente da perda. Falando da necessidade de formar novas amizades, Maheen disse:

“Naquele momento meu foco era só estar com pessoas que não me conhecem de verdade, que não sabem que eu perdi alguém, para que não ficassem toda hora perguntando ‘por que você está triste’ ou para eu não ficar me sentindo culpada toda hora se estivesse feliz.”

Arun, por outro lado, viveu mudanças contrastantes em suas relações. A perda foi acompanhada do fim de uma amizade que lhe era cara, pela incapacidade da outra pessoa de lhe dar apoio nos momentos difíceis, uma experiência comum entre pessoas enlutadas. Além disso, ele também viu se fortalecerem as relações que já tinha, com seu círculo social atuando como fonte de apoio incondicional, como ele revelou:

“Tem uma pessoa que eu conheço desde a infância, mas a gente não estava se falando. Mas aí, como eu te contei, a gente se mudou. Então a gente voltou a ser amigo e a nossa amizade também se fortaleceu. As pessoas deram muito apoio.”

Diante das circunstâncias de vida de Mona na época da perda, suas preocupações nas amizades eram singulares. O que ocupava o centro de sua experiência no contexto de seu círculo social eram suas questões com a feminilidade: a morte da mãe a levou a sentir a ausência de uma influência feminina fundamental e a buscar nas novas amizades fontes de orientação feminina. A necessidade de identificação e de apego à mãe, que serve de guia para o desenvolvimento feminino, foi comprovada por pesquisas existentes (Douglass, 2005; Miller, 1986), o que ressoa com as apreensões de Mona a esse respeito.

Mona valorizava especialmente suas amizades com pessoas vindas de famílias monoparentais, em consonância com o achado de Worden (1996) de que as amizades com outras crianças enlutadas são especialmente úteis e compreensivas em comparação com as amizades com crianças que não passaram pelo luto.

Tema 3: o enfrentamento no contexto do outro

O percurso de enfrentar a perda de um dos pais não se deu em uma bolha, independente dos outros. Ao contrário, o enfrentamento da perda ocorreu em redes de relações dentro e fora da família, sob a influência das expectativas sociais sobre o luto. A presença de outras pessoas influenciou de forma significativa a experiência de enfrentamento das pessoas participantes, com uma influência saliente nos primeiros dias e efeitos duradouros no presente.

O enfrentamento dentro da família

As experiências das pessoas participantes diferiam quanto a se o enfrentamento da família era um processo coletivo ou ocorria no nível individual de cada membro. Na família de Alan, o luto era considerado uma experiência de cada um, e a família inicialmente enfrentou a perda com cada membro se isolando dos demais. No entanto, a visibilidade gritante da ausência da mãe os aproximou para enfrentar o vazio na família. Ainda assim, continuam evitando conversas sobre a perda, em tentativas deliberadas de evitar uma recaída no pesar. Respondendo sobre como sua família reagiu à perda, Alan revelou:

“Na verdade, a gente nunca sentou para conversar sobre isso… chegou à conclusão de que a perda aconteceu, depois disso uma semana ou um mês, aí de volta à vida normal. A gente continuou sem falar disso depois”

Como na família de Alan, embora houvesse uma interdependência no estado emocional da família nos primeiros dias, Maheen, o irmão e a irmã também viveram o luto individualmente, e ela sabia relativamente pouco sobre como os irmãos estavam lidando com o pesar. Mesmo assim, ela se orgulhava da capacidade de recuperação dos dois: o irmão conseguiu organizar os rituais fúnebres e a irmã conseguiu passar nas provas, coisas que serviram de distração para ambos. Embora o enfrentamento deles fosse relativamente desligado do de Maheen, o enfrentamento da mãe era inseparável de sua própria experiência. A atenção dedicada à mãe criou um círculo de enfrentamento em que proteger a mãe a protegia da própria dor. Como Maheen e a mãe sentiam culpa ligada aos momentos que antecederam a morte do pai, a mãe se tornou um símbolo de suas próprias emoções, o que lhe permitiu ver suas emoções da perspectiva de outra pessoa e perceber sua irracionalidade. Quando perguntada sobre como lidou com a própria culpa, Maheen afirmou:

“Acho que, quando comecei a acalmar minha mãe em relação aos sentimentos de culpa dela, isso também me fez ficar bem. Quer dizer, tinha que acontecer de um jeito ou de outro.”

Diferentemente de Maheen e Alan, Mona e Arun viam o luto como uma experiência coletiva dentro da família. Para Mona e o pai, enfrentar a perda foi um processo interdependente: ela buscava orientação no pai e tirava forças dele, ao mesmo tempo que se via como uma distração do pesar para ele. Ela encontrava conforto em compartilhar com ele seus sentimentos sobre a perda, uma abertura que funciona como ajuda eficaz no enfrentamento (Thompson et al., 2011). A abordagem do pai era focada no problema, e talvez vê-lo permanecer forte diante da perda a tenha encorajado a fazer o mesmo.

Ao longo de toda a entrevista, Arun falou de sua experiência da perda no contexto da família, o que sugere a importância da família no luto (Thompson et al., 2011). Havia às vezes uma incongruência entre as abordagens de enfrentamento adotadas por ele e pela mãe, evidente quando Arun relata sua reação de luto tardia:

“Eu saí da sala da prova, deixei a prova em branco, entrei no carro e comecei a chorar, chorei muito naquele dia, eu me lembro. […] A gente estava, tipo, sabe, nossa mãe disse para a gente que nada devia nos abalar, então é isso.”

A mãe enfatizava o enfrentamento focado no problema e reforçava a aparência forte do filho. O apoio recíproco dentro da família e a confiança na fé, que os aproximou, foram importantes para ajudá-los a lidar com a perda, um processo que se deu naturalmente com o tempo.

O papel do apoio social

O apoio que as pessoas participantes receberam de seu círculo social, fosse da família extensa, do ambiente de trabalho ou das amizades, facilitou seu processo de enfrentamento da perda, pois puderam compartilhar o pesar com quem estava a sua volta. Pessoas de fora da família nuclear ofereceram ajuda nos primeiros dias, auxiliando a família a organizar os rituais fúnebres, oferecendo apoio emocional e dividindo responsabilidades com as pessoas enlutadas. A pesquisa existente apresenta visões contrastantes sobre o papel do apoio social no processo de luto: alguns trabalhos enfatizam sua importância para atender às necessidades emocionais e instrumentais das pessoas enlutadas (por ex. Dopp & Cain, 2012; Sandler, 2001), e outros afirmam que ele não ajuda necessariamente o enfrentamento (por ex. Stroebe et al., 2005).

Alan e Arun encontraram fontes de apoio em seus grupos religiosos. O envolvimento de Arun nas atividades da igreja o levou a passar mais tempo com pessoas de sua igreja, que foram seus pilares de força na perda e também ofereceram apoio instrumental. Arun também recebeu apoio incondicional de fontes inesperadas, como uma amizade de infância, e ele e a família ficaram profundamente tocados com essa reação, como ele explicou:

“Humko kuch karne ka mauka hi nahi mila (a gente não teve chance de fazer nada), todos assumiram as responsabilidades de um jeito muito bom, desde trazer o corpo do necrotério para casa até levá-lo ao cemitério, fizeram tudo. As pessoas deram muito apoio”

Embora já não haja ofertas explícitas de ajuda, a presença de uma família que o apoia também permite a Alan lidar com o vazio. Assim, embora continue sentindo a ausência da mãe em sua vida, ter a família extensa por perto o impede de se sentir sozinho.

A família extensa também teve um papel nas primeiras experiências de Maheen. Ela serviu de distração temporária da perda e aliviou o ambiente nos dias imediatamente posteriores. Como relatado por Alan, Maheen também notou uma diminuição das ofertas de apoio com o tempo e atribuiu isso à empatia das pessoas com o desejo da família de evitar o assunto da perda. Ao responder como as pessoas reagiram à notícia da morte do pai, Maheen disse:

“Claro, todo mundo foi gentil e no começo as pessoas tentavam saber como a gente estava… Tentavam passar em casa e fazer companhia, mas acho que com o tempo, de novo, a vida segue, né, e todo mundo fica ocupado. Além disso, acho que as pessoas também entendem que não é algo de que eu queira muito falar, então elas também começam a evitar o assunto.”

Maheen também enfrentou a perda formando novas relações para preencher o vazio criado, enquanto suas amizades antigas continuavam sendo fontes constantes de apoio. Ao contrário do que Mona esperava, o comportamento de seu círculo de amizades em relação a ela não mudou, e esse círculo funcionou como seu contato com a realidade. Quando perguntada sobre sua experiência imediata, Mona disse:

“Eu realmente agradeço que ninguém tenha feito disso um grande drama, ninguém me tratou como se eu fosse esquisita, simplesmente disseram, tipo, e aí, babaca, e seguiram com tudo, e isso foi bem divertido, na verdade.”

O apoio inesperado e constante que Mona recebeu durante um longo período a levou a compreender as vidas humanas como entrelaçadas, a partir da percepção de que as pessoas se preocupavam sinceramente com ela e com a família, algo que ela ficou bastante surpresa em descobrir. Assim, o apoio recebido também a ajudou a dar sentido a sua experiência.

Influências sociais no enfrentamento

As ideias difundidas na sociedade e propagadas pela mídia exercem grande influência sobre o comportamento humano, e isso também vale para a resposta das pessoas à morte. O contexto social influencia fortemente a maneira como se vive o luto e se enfrenta o pesar, com o apoio percebido, a família e as prescrições culturais sobre o luto desempenhando papéis importantes nas escolhas de enfrentamento (Bhana, 2007). As entrevistas deixaram claro o quanto a socialização também influenciou a relação das pessoas participantes com o luto.

As noções sociais sobre as reações de luto apropriadas eram especialmente marcantes nos relatos de Maheen, Mona e Arun. Nas entrevistas de Maheen e Mona, via-se a internalização dessas expectativas e modelos sociais, que resultava em sentimentos de culpa por não corresponder a esses ideais. O desejo de escapar dessa culpa, que ela sentia com mais intensidade nas interações com seu círculo de amizades, levou Maheen a formar novas relações marcadas por certo anonimato, criando um espaço em que podia sentir e expressar emoções positivas sem repercussões sociais. Essa culpa internalizada pode ter dificultado para Maheen a aceitação de seguir com a vida, como se vê em algumas das questões existenciais que enfrentava.

A culpa de Mona nasceu da dissonância que ela percebia entre sua reação e os modelos de luto que tinha observado na mídia. Mona revelou como lidou com seus sentimentos de culpa, dizendo:

“Quer dizer, na TV todo mundo simplesmente chorava por vários dias e depois a trama seguia, mas eu pensava: não é isso que eu sinto, não existia nenhum tipo de modelo do tipo ‘oi, é assim que se reage quando se perde o pai ou a mãe’ e, hum, no fim, quando eu percebi que, tipo, sabe, seja como for que eu reaja, não existe jeito errado de reagir, eu não deveria me sentir obrigada a chorar o tempo todo.”

A socialização pela mídia criou roteiros para o luto, levando à expectativa de que as pessoas enlutadas sejam incapazes de seguir com a vida e, em vez disso, fiquem ruminando a perda por muito tempo. Essa crença contribuiu muito para os sentimentos de Mona e a convenceu de que emoções positivas eram inaceitáveis. Talvez Mona acreditasse que sua reação refletia o que sentia pela mãe, e a incapacidade de se identificar com sua única referência de luto a levou a questionar seus sentimentos pela mãe. A literatura ligada à hipótese do trabalho de luto (por ex. Raphael, 1984) sugeriu que as pessoas pouco afetadas pelo luto são emocionalmente distantes, o que indicaria uma relação superficial ou conflituosa com a pessoa falecida. Bonanno (2019), porém, contestou essa ideia, argumentando com seu corolário de que talvez as pessoas resilientes sejam especialmente saudáveis, o que sugere uma relação extraordinariamente saudável com o ente querido perdido.

Alan e Arun, por sua vez, enfrentaram as pressões sociais ligadas a seu papel de filho mais velho. Alan expressou que lhe foi negada a chance de reconhecer e admitir suas emoções, porque as responsabilidades de cuidar da família se tornaram seu dever imediato. Esse fardo de responsabilidade também foi entregue a Arun, que disse o seguinte sobre as pressões de seu papel:

“Eu me lembro que, sendo o mais velho, eu não devia chorar. Claro que eu vou chorar, mas a sociedade acha que, sabe, você é que deve cuidar da nossa família…”

Segundo Arun, a sociedade com frequência desconsidera o autocuidado das pessoas enlutadas. Ele parecia nutrir certa raiva das fontes dessa pressão sobre ele, que o fazia sentir a necessidade de corresponder a padrões irreais de guardião da família, quando ele próprio estava tomado pelo pesar.

Outro desafio que Alan e Arun enfrentaram foi se encaixar na construção social da masculinidade. Isso os levou a esconder a dor que sentiam e, na experiência de Arun, impediu a expressão aberta do pesar. Essas condições o levaram a restringir suas reações de luto apenas à esfera privada da vida e a parecer forte por fora, o que é congruente com os achados de Work (2013) de que os homens escolhem ativamente quando e onde expressar seu pesar. Ao longo de toda a entrevista, Alan insistiu que “está tudo normal”, o que pode ser atribuído a duas razões: seu gênero, que o socializou para esconder as emoções desagradáveis que sente, e a ênfase no positivo o ajuda nisso; ou sua posição na fratria, que lhe impõe a pressão de garantir que a família funcione adequadamente. Creighton et al. (2013) descobriram em seu estudo que jovens homens enlutados encarnavam uma de três identidades masculinas: “o aventureiro”, “a figura paterna” e “o acendedor de lampiões”. No presente estudo, também se vê Alan e Arun assumirem a identidade da figura paterna, considerando-se responsáveis pela família, bem como a do acendedor de lampiões, esperando ser modelos para os outros, como mostra o desejo de Arun de ajudar outras pessoas enlutadas.

Uma diferença de gênero evidente nas reações de luto consideradas apropriadas é apresentada por Maheen, que revelou que a sociedade aprova especialmente as reações emocionais das mulheres, o que as obriga a encarar suas emoções, ao contrário do que relatam Alan e Arun.

Pontos fortes e limitações do presente estudo

A presente pesquisa, centrada na experiência da perda de um dos pais entre adultos emergentes, teve pontos fortes e limitações identificáveis. A metodologia qualitativa permitiu uma compreensão aprofundada da experiência vivida de jovens que enfrentam a perda. O contexto da entrevista deu às pessoas participantes a oportunidade de compartilhar sua experiência, algo que a maioria afirmou nunca ter feito antes com tanta profundidade. A conversa e a introspecção em que se envolveram levaram algumas das pessoas participantes a questionar suas ideias sobre a emotividade e a reconsiderar a possibilidade de se abrir com outras pessoas sobre a perda. O método de análise IPA atendeu ao objetivo de uma exploração detalhada das experiências singulares de perda de adultos emergentes e de como lhes dão sentido.

Embora a pessoa responsável pela pesquisa tenha procurado levar em conta as origens religiosas, a impossibilidade de realizar as entrevistas restantes resultou na ausência de narrativas de pessoas pertencentes a alguns grupos religiosos. Apenas um contexto urbano foi explorado no presente estudo, deixando de lado a experiência de pessoas de outras origens.

Implicações do estudo

A predominância de trabalhos quantitativos no campo dos estudos sobre a morte indica a falta de explorações aprofundadas da experiência vivida do luto, uma lacuna de pesquisa que o presente estudo ajudou a preencher. Além disso, este estudo tratou da população de adultos emergentes, cuja experiência da perda de um dos pais havia sido negligenciada até então. As pessoas participantes mostraram como viver a perda na fase da adultez emergente teve consequências específicas: uma mudança de prioridades, com a percepção da necessidade de dar atenção a outras questões da vida além dos estudos e da carreira; o reconhecimento da própria dependência em relação à família e da importância de ser independente nessa fase da vida; e o modo como o crescimento pessoal próprio dessa idade permitiu que a perda se tornasse uma experiência de aprendizado.

O presente estudo revelou discrepâncias entre a maneira como as pessoas participantes viveram as mudanças em sua vida após a morte do genitor e a maneira como se lembram delas, o que indica possíveis tentativas de negar a mudança ou a dificuldade de recordar como era a vida antes e depois da perda. Também vale notar como a relação entre o genitor sobrevivente e o filho se transformou, com o companheirismo, a dependência e a assunção de novos papéis na família marcando a nova dinâmica relacional. Este estudo situou a perda de um dos pais e o luto no contexto social indiano e identificou as maneiras pelas quais as crenças e normas sociais influenciam a experiência de enfrentamento da perda. As pessoas participantes mostraram com que força a mídia e os papéis de gênero influenciam a forma como vivem e compreendem seu luto. O luto aparece como vivido individualmente e muitas vezes no isolamento; no entanto, o apoio social e o luto coletivo entre membros da família também moldaram a experiência da perda das pessoas participantes.

Os resultados revelaram nas pessoas jovens uma resiliência inata para enfrentar o luto, com a continuidade da vida e as responsabilidades de cada um dentro e fora da família desempenhando um papel importante no enfrentamento. Os resultados do presente estudo apontam algumas áreas para pesquisas futuras, sobretudo porque a perda de um dos pais na adultez emergente e no início da vida adulta ainda não foi plenamente explorada. Uma investigação das diferenças religiosas no enfrentamento, no contexto diverso da Índia, pode beneficiar a pesquisa no campo dos estudos sobre a morte. A pesquisa também pode se concentrar em como os modelos oferecidos pela mídia influenciam as ideias sobre a perda e o processo de enfrentamento. Além disso, pesquisas futuras podem se beneficiar de compreender como a perda de um dos pais leva à manifestação do luto dentro da família e como os diferentes membros lidam com ela no contexto familiar. As diferenças de gênero no enfrentamento da morte de um dos pais na adultez emergente também podem ser exploradas.

Conclusão

O presente estudo teve como objetivo explorar a experiência de jovens adultos que enfrentam a perda de um dos pais, buscando compreender sua experiência de enfrentamento da perda, o impacto da perda nas relações de sua vida e a maneira como deram sentido à perda. Tratou-se de uma investigação qualitativa, com a entrevista como método de coleta de dados e a análise fenomenológica interpretativa como método de análise. A análise revelou quatro temas principais: os primeiros dias após a perda, realidades relacionais em transformação e o enfrentamento no contexto do outro.

Foram destacadas as semelhanças e as particularidades presentes nos relatos das pessoas participantes sobre a perda de um dos pais. O enfrentamento da perda mostrou-se um processo muitas vezes inserido em diversas relações, com o apoio familiar e social tendo consequências favoráveis nesse sentido, em consonância com achados anteriores sobre a importância do apoio diante do luto (por ex. Bhana, 2007; Thompson et al., 2011). Embora não se trate de um processo deliberado, as pessoas participantes parecem ter dado sentido à perda, para se acomodar a uma vida sem a pessoa falecida. O estudo abre possibilidades para pesquisas futuras em uma área em que a literatura existente é limitada.

Complexe Systémique: a reter

Este pequeno estudo indiano tem o mérito de deslocar o olhar: o luto por um dos pais não aparece como um trabalho intrapsíquico solitário, mas como uma reorganização do sistema familiar sob pressão social. Reconhecem-se movimentos familiares à terapia familiar: a parentificação do filho mais velho, colocado no papel do genitor falecido pelo entorno e pelas normas de masculinidade; a aproximação entre o filho ou a filha e o genitor sobrevivente, que se torna confidente ou companhia; a pressão para preencher o lugar vazio (“case o seu filho”); o silêncio mantido para não “ter uma recaída”. O modelo do processo dual ajuda a ler essas oscilações sem patologizá-las. Os limites são claros: quatro entrevistas, um meio urbano, uma análise feita por uma única pessoa e uma discussão que descreve mais do que problematiza. Para a clínica, a pergunta passa a ser: quem carrega o quê desde a morte, que lealdades e que injunções de gênero estão em jogo, que narrativas do “bom luto” circulam na família e na mídia? Para ler junto com o artigo sobre as dinâmicas familiares no processo de luto e com o artigo sobre as práticas familiares após a morte de um irmão ou irmã.

Notas do original

Agradecimentos. A equipe de pesquisa expressa sua gratidão às pessoas participantes deste estudo, que lhe confiaram detalhes íntimos e emocionalmente avassaladores de sua vida, apesar da dificuldade de fazê-lo. Suas contribuições fizeram desta pesquisa o que ela é, e a equipe lhes é extremamente grata.

Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver nenhum potencial conflito de interesse em relação à pesquisa, à autoria e/ou à publicação deste artigo.

Financiamento. A equipe de pesquisa não recebeu nenhum apoio financeiro para a pesquisa, a autoria e/ou a publicação deste artigo.

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Tradução não oficial em português de Retratos da vida após a perda: compreender a perda de um dos pais em seu contexto social, de Tanya Ann Antony e Bhumika Kapoor, Journal of Family Issues, vol. 45, no 10, p. 2473-2499 (2024), doi: 10.1177/0192513x231204981, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (declarações reunidas nas notas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Portraits of Life After Loss: Understanding Parental Loss Within A Social Context”, publicado em Journal of Family Issues (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Antony, T. A., et Kapoor, B. (2024). Retratos da vida após a perda: compreender a perda de um dos pais em seu contexto social (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/retratos-da-vida-apos-a-perda-compreender-a-perda-de-um-dos-pais-em-seu-contexto-social (Obra original publicada em 2023 em Journal of Family Issues, 45(10), 2473-2499 (2024); republicada em 2024 por Journal of Family Issues, https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0192513X231204981)

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