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Families, Relationships and Societies · Família

Trauma relacional: o impacto do encarceramento materno nas relações familiares

Quando uma mãe vai para a prisão, não são apenas os filhos que sofrem o impacto. A partir de entrevistas com 19 mães inglesas que passaram pela prisão, Sophie Mitchell descreve adolescentes com raiva, vínculos entre mãe e filhos fragilizados e avós exaustas, que de um dia para o outro passam a responder pelas crianças. Propõe ampliar a noção de trauma relacional a toda a família e levá-la em conta no momento da sentença.

Autores Sophie Mitchell (Universidade de Northumbria, Reino Unido)Primeira publicação Families, Relationships and Societies, 29 de novembro de 2024Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Trauma relacional: o impacto do encarceramento materno nas relações familiares, de Sophie Mitchell, publicado na Families, Relationships and Societies (Bristol University Press) (2025), doi: 10.1332/20467435y2024d000000039, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As declarações do original (tese de origem, financiamento, agradecimentos, conflito de interesses) foram reunidas nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

São esses impactos relacionais contínuos e intergeracionais que levam muita gente a questionar o propósito do encarceramento materno.

Sophie Mitchell

Resumo

Este artigo apresenta resultados sobre o impacto do encarceramento materno nas relações mais amplas dentro da família. Pesquisas anteriores descreveram em detalhe o impacto considerável que o encarceramento materno pode ter sobre as mães e seus filhos. A teoria relacional sugere que os vínculos e as relações podem ser mais importantes para as mulheres, e que isso tem impacto na desistência do crime e na recuperação. Este artigo aplica a teoria relacional aos impactos mais amplos do encarceramento materno e apresenta novos resultados sobre seus impactos familiares intergeracionais. Isso inclui os impactos na relação mãe-filho e nos filhos mais velhos (13 anos ou mais), bem como nas relações das mães com os familiares que assumem o cuidado das crianças, em especial as avós. As evidências apresentadas mostram como as relações dentro da família são muitas vezes danificadas de forma irreparável pelo encarceramento, naquilo que se pode chamar de “trauma relacional”. Os resultados sugerem que o impacto considerável do encarceramento materno sobre a família ampliada deveria ser levado em conta quando mães são condenadas a penas privativas de liberdade.

Introdução

O encarceramento de mulheres, e em particular de mães, é cada vez mais questionado, sobretudo porque a maioria das mulheres está presa por delitos não violentos e infrações menores (House of Commons Justice Committee, 2022). No entanto, apesar de as taxas de encarceramento feminino continuarem caindo nos últimos cinco anos na Inglaterra, o governo britânico propôs a criação de 500 vagas prisionais adicionais para mulheres (Ministry of Justice, 2021). Já se sabe que o encarceramento de mulheres tem um impacto maior sobre as crianças, pela maior probabilidade de que elas saiam de casa e passem aos cuidados do Estado quando a mãe é presa (Booth, 2017; Minson, 2019; Baldwin, 2022). O que é menos pesquisado é o impacto traumático nas relações familiares, em especial com os filhos mais velhos (13 anos ou mais) e com os familiares que assumem o cuidado das crianças, impacto que continua acrescentando camadas de desvantagem durante e depois da prisão.

Nos últimos anos, a importância de manter os laços familiares das pessoas presas ganhou espaço na agenda, principalmente como forma de reduzir a reincidência. Lord Farmer foi encarregado pelo governo britânico de examinar como o fortalecimento dos laços familiares poderia beneficiar os homens presos (Farmer, 2017). O primeiro relatório descreve os laços familiares como o “fio de ouro” que deveria atravessar todo o trabalho com as pessoas na prisão. Uma segunda revisão, dedicada especificamente às mulheres presas, reconhece que muitas delas tiveram experiências familiares profundamente negativas, em especial de abuso e de violência por parceiro íntimo (Farmer, 2019). Reconhece que, para as mulheres, a família nem sempre é uma influência segura e positiva, ao passo que para os homens muitas vezes ocorre o contrário, já que esposas, companheiras e mães constituem a maioria das visitas recebidas pelos homens presos. As recomendações dão ênfase às alternativas à prisão e a uma melhor consideração das necessidades das mulheres, em particular das mães.

Este artigo propõe que a reabilitação seja pensada de modo mais integral, incluindo os efeitos sobre toda a unidade familiar. A teoria relacional se baseia na ideia de que as pessoas interagem com o mundo de maneira interconectada (Miller, 1976; Gilligan, 1982). Segundo essa teoria, as mulheres têm mais probabilidade de desenvolver um senso de si e de autoestima quando suas ações nascem dos vínculos com os outros e levam de volta a eles (Covington, 1998). A teoria sugere aqui que as mulheres, mais do que os homens, tendem a ser motivadas por vínculos e relações. No caso do encarceramento materno, isso significa que romper as relações familiares será mais prejudicial e problemático para as mulheres do que para os homens. A ruptura das relações causada pelo encarceramento materno pode ser entendida como causadora de um “trauma relacional” tanto para as mães quanto para seus filhos e para os demais membros da família (Alexander, 2013).

Pesquisas anteriores usaram a teoria relacional para investigar a desistência do crime, principalmente em termos dos efeitos positivos das relações (Gålnander, 2020; Rutter e Barr, 2021). Este artigo vai considerar, além disso, se o encarceramento materno resulta em trauma relacional (Alexander, 2013; Schore, 2013) e como isso afeta as pessoas envolvidas. Entendido no âmbito da teoria relacional, o trauma relacional se define como o trauma que surge da ruptura, na infância, de uma relação com uma figura de cuidado. Isso pode incluir abuso, emaranhamento e abandono. O trauma relacional muitas vezes rompe os vínculos de apego, com consequências emocionais e relacionais (Weld, 2014). Também é apontado como causa de dificuldades para lidar com as emoções, para dar sentido aos acontecimentos e de sentimentos de vergonha (Weld, 2014). Este artigo amplia a definição de trauma relacional para incluir os impactos sobre mães e avós, vendo os efeitos nas relações como bidirecionais, e não como algo que afeta apenas a criança ou as crianças. Vai-se argumentar que o encarceramento materno, e a consequente separação forçada entre mãe e filho, pode causar trauma relacional, dependendo das circunstâncias da família e dos problemas que se seguem. Propõe-se que esse trauma relacional também possa ser vivido por mães e avós, o que amplia a definição dos aspectos relacionais do trauma. As evidências apresentadas vão mostrar que essa experiência é importante tanto para os filhos mais velhos quanto para os mais novos, e para as relações com os familiares que assumem o cuidado das crianças.

Mães criminalizadas e relações familiares

Há cada vez mais pedidos de uma abordagem mais específica de gênero para as mulheres na prisão e em todo o sistema de justiça criminal. Historicamente, as mulheres foram marginalizadas nesse sistema por causa de seu pequeno número, o que levou a uma abordagem que muitas vezes não leva em conta as necessidades das mulheres e das mães (Carlen, 2013). Recentemente houve um aumento significativo das abordagens específicas de gênero e das tentativas de mudança ligadas às necessidades das mulheres. As abordagens informadas pelo trauma e a pesquisa com mulheres presas também destacaram as histórias de vitimização das mulheres, que em muitos casos estão ligadas aos delitos que cometeram (DeHart, 2008; Tripodi e Pettus-Davis, 2012; DeHart et al., 2014). Há quem diga, porém, que ainda há mais a fazer (Auty et al., 2023). Em muitas partes da Inglaterra, os serviços de probation (liberdade supervisionada) também oferecem grupos e serviços exclusivos para mulheres e, em algumas áreas, centros para mulheres reúnem vários serviços em um só lugar (National Offender Management Service, 2013).

Para muitas mulheres, as experiências de trauma têm origem em relações próximas, dentro da família ou com parceiros íntimos. Fica claro como o papel das relações está intimamente ligado aos delitos cometidos por mulheres (Kreis et al., 2016; Barlow e Weare, 2019). A teoria das trajetórias (pathways theory), que identifica as histórias de vitimização e de vida das mulheres, procurou destacar caminhos de entrada no crime específicos das mulheres, argumentando que as influências identificadas podem muitas vezes ser muito diferentes das dos homens e, portanto, exigem outra abordagem (Daly, 1992; Salisbury e Van Voorhis, 2009; DeHart et al., 2014). Embora, para os homens, haja evidências de que as relações com parceiras íntimas, com a família e com os filhos podem ser um fator estabilizador de grande importância para a desistência do crime, muitas vezes isso não vale para as mulheres. Algumas pesquisas mostram como manter o papel materno ou reatar com os filhos pode ser um motor positivo de mudança no comportamento delituoso das mulheres (Mignon e Ransford, 2012; Barnes e Stringer, 2014). Enquanto a retirada dos filhos pode levar ao desespero e funcionar como gatilho para novos delitos, as mulheres que esperam ter a guarda dos filhos ao sair da prisão têm um objetivo positivo pelo qual lutar (Barnes e Stringer, 2014; Broadhurst e Mason, 2020).

Uma crítica feita às abordagens informadas pelo trauma e às que se concentram na vitimização é a “responsabilização” individual das mulheres que esse trabalho implica (Rutter e Barr, 2021). As intervenções psicológicas tendem a se concentrar mais na responsabilidade individual do que nos fatores sociais, o que pode levar a uma ênfase em “consertar” as reações das pessoas a acontecimentos causados, em muitos casos, por fatores sociais mais amplos, como a violência de gênero, a pobreza e as políticas governamentais e estatais. Para muitas mães na prisão, o principal trauma que relatam é terem sido separadas dos filhos, em muitos casos pela primeira vez. A pesquisa mostrou que o impacto disso pode ser ao mesmo tempo imediato e duradouro (Baldwin, 2017; Aiello e McCorkel, 2018). Há também impactos significativos sobre outros membros da família, especialmente as avós, que podem ser chamadas de repente a cuidar das crianças por tempo indeterminado (Raikes, 2016; Tasca, 2016). A prisão pode, portanto, ser vista como geradora de trauma em si mesma.

Diferentemente do que ocorre quando um pai vai para a prisão, caso em que a maioria das crianças continua em casa e segue sendo cuidada pela mãe, apenas 5% das crianças permanecem em casa quando a mãe é presa (Corston, 2007). Faltam dados atuais sobre quem cuida das crianças nessa situação (Joint Committee on Human Rights, 2019). As crianças muitas vezes acabam sendo cuidadas pelas avós (25%) ou por outros familiares ou pessoas próximas (em geral mulheres) (29%), sendo que 9% ficam aos cuidados do pai e 12% acabam acolhidas pelo Estado (Corston, 2007). Por isso, a prisão também tem um efeito significativo sobre muitas relações na família ampliada. Com exceção de algumas organizações do terceiro setor, há pouco ou nenhum apoio financeiro ou emocional no Reino Unido para quem cuida de crianças cujo pai ou mãe está preso e, como a entrada na prisão muitas vezes acontece de forma inesperada, essas pessoas precisam assumir o cuidado de uma hora para outra (Joint Committee on Human Rights, 2019).

A pesquisa com mães que passaram pela prisão mostrou que a separação dos filhos é uma das partes mais duras do encarceramento para as mães (Slotboom et al., 2011; Baldwin e Epstein, 2017). Alguns estudos se concentraram especificamente no encarceramento materno, em suas implicações e efeitos (Masson, 2019; Booth, 2020; Lockwood, 2020a; Baldwin, 2021). Por exemplo, Baldwin (2017) entrevistou mães sobre suas experiências na prisão, especialmente em relação às emoções e aos espaços carcerários. A experiência dolorosa da separação é descrita com a angústia adicional de não poder ajudar os filhos quando eles passam por momentos difíceis. Para as mães criminalizadas, um trauma relacional adicional é criado pela sua passagem pelo sistema de justiça criminal, como esta pesquisa vai mostrar.

Allen et al. (2010) descrevem como mulheres falaram da impotência que sentiam diante da separação dos filhos. A vergonha também surgiu como tema central, junto com sentimentos de culpa e de inadequação como mãe. A pesquisa descreveu o impacto do encarceramento materno sobre os filhos dependentes concentrando-se muitas vezes nas crianças em idade de ensino fundamental, com ênfase especial na ruptura causada pelas penas curtas (Baldwin e Epstein, 2017; Masson, 2019). O impacto sobre os filhos mais velhos é menos pesquisado. Lockwood (2020b) discute o que significa a ausência das mães durante a transição para a vida adulta dos filhos mais velhos, destacando preocupações com o apoio e a inquietação de vê-los lidar com suas relações e suas decisões afetivas.

Easterling et al. (2019) usam o conceito de perda ambígua para compreender como mães e filhos vivem a separação causada pelo encarceramento. Segundo esse conceito, um membro da família fisicamente ausente continua, em certa medida, psicologicamente presente, o que gera emoções conflitantes e confusas. Como não conseguem exercer seus papéis maternos habituais, as mulheres ficam estressadas e inseguras quanto às relações com os filhos. Arditti (2012) descreve ainda a separação traumática e o luto não reconhecido vividos pelas famílias nessa situação. Isso repete outras pesquisas que identificaram um tema recorrente: as mulheres na prisão sentem muita angústia por se preocupar com quem está do lado de fora, sentindo-se impotentes para ajudar (Masson, 2019; Baldwin, 2021). Socializadas para cuidar dos outros, quando esse papel se torna impossível por causa da prisão, elas vivem um conflito emocional gerado pela ruptura das relações.

As pessoas que cuidam dos filhos de mulheres presas formam outro grupo afetado pelo encarceramento, muitas vezes esquecido pelas políticas e pela pesquisa nessa área. Nessas circunstâncias, a maioria dos familiares que assumem o cuidado são mulheres, em geral avós ou, em alguns casos, irmãs (Minkler e Fuller-Thomson, 1999; Birchall e Holt, 2023). Em muitos casos, essas pessoas precisam se mudar e parar de trabalhar para assumir o papel (Hairston, 2003; Raikes, 2016). Às vezes já cuidam de outras crianças ou netos, e sua saúde física pode ser afetada. A pesquisa nessa área é particularmente escassa no contexto do Reino Unido, e boa parte dela se concentra na pessoa condenada ou em seus filhos dependentes. Em muitos casos, quem assume o cuidado sente que não tem escolha, pois de outro modo as crianças poderiam acabar em acolhimento institucional. Bachman e Chase-Lansdale (2005) detalham o impacto que cuidar dos netos em tempo integral tem sobre as avós, muitas vezes já de baixa renda. O principal fator observado foi uma piora da saúde física e da estabilidade financeira. A pressão adicional de manter o contato com a pessoa presa aumenta o peso do cuidado. Essas pessoas também precisam lidar com o estigma na comunidade local e podem ficar com a tarefa de contar aos netos onde a mãe está e por quê (Lockwood e Raikes, 2015; Raikes, 2016). Tudo isso pode resultar em problemas de saúde mental e perda de vida social, e ter impacto sobre outros membros da família (Young e Smith, 2000; Vallely e Cassidy, 2012).

O trauma relacional, como aspecto da teoria relacional mais ampla, não foi examinado no contexto do encarceramento materno, especificamente quanto ao impacto na relação entre mãe e filho e também, possivelmente, entre avó e mãe. O trauma relacional se define como aquele que surge de relações abusivas, mas também de negligência, abandono e ruptura significativa das relações. Pode deixar uma criança confusa, insegura e com dificuldades para formar relações ao longo da vida (Alexander, 2013; Schore, 2013; Weld, 2014). Este artigo propõe que o encarceramento de mães causa trauma relacional, com impactos traumáticos para a mãe, a criança e outros membros da família, como as avós, e que ele pode ser visto, num sentido mais amplo, como a destruição de relações fundamentais para o crescimento e para a desistência do crime. Isso pode ser observado em situações em que as mães estão ausentes por causa de uma pena de prisão, e as evidências do estudo serão discutidas nas seções seguintes. Compreender os impactos relacionais do encarceramento materno é, portanto, crucial para proteger contra danos contínuos e permitir a reconstrução de vidas. Esses traumas ou vulnerabilidades “relacionais” (Few-Demo e Arditti, 2014) têm potencialmente efeitos amplos e intergeracionais que vão além do período de encarceramento, produzindo um ciclo de desvantagem para as gerações futuras. O artigo apresenta a seguir uma pesquisa sobre a extensão desses traumas entre mães que passaram pela prisão.

Metodologia

O estudo foi realizado em 2019, como pesquisa de doutorado da pessoa que assina este artigo, no contexto do sistema de justiça criminal da Inglaterra. Foi essa mesma pessoa quem entrevistou 19 mães que passaram pela prisão. Como crianças, jovens e familiares responsáveis pelo cuidado não foram ouvidos diretamente neste estudo, as experiências relatadas são as das próprias mães. As mulheres foram recrutadas por meio de um serviço de probation e de uma organização do terceiro setor. Todas as mães, com exceção de uma, estavam em liberdade supervisionada, 14 delas em decorrência do período recente de prisão e as demais (4) por novos delitos cometidos depois do período de prisão anterior. As penas, de 6 semanas a 2 anos, tinham sido aplicadas por fraude, delitos ligados a drogas, incêndio criminoso e obstrução da justiça, entre outros. As mulheres tinham entre 22 e 60 anos. Foram encaminhadas pelo serviço de probation ou contatadas durante sua participação em um grupo de probation para mulheres. Cada mulher tinha entre um e quatro filhos, com idades de 6 semanas a 19 anos na época da prisão; seis mães não tinham os filhos sob seus cuidados antes da prisão, e outras três ficaram permanentemente separadas deles depois. As entrevistas foram feitas em escritórios de probation e em grupos de probation para mulheres e duraram entre 25 e 80 minutos. Concentraram-se nas histórias e nas experiências de prisão das mães e nos impactos em suas vidas, deixando que elas controlassem o que queriam revelar (Squire et al., 2014).

As considerações éticas, incluindo consentimento informado, anonimato e proteção de dados, foram prioridade durante toda a pesquisa, e todas as participantes foram ouvidas em um ambiente em que havia apoio prontamente disponível. Todas as mulheres receberam informações antes de participar do estudo e novamente durante as entrevistas. Cada entrevista seguiu um procedimento definido, com uma série de medidas para garantir que as participantes fossem tratadas de forma justa e ética. Isso envolvia informá-las dos objetivos da pesquisa, de como seus dados seriam tratados, de como o anonimato seria garantido e de quando a confidencialidade seria quebrada. As participantes também eram informadas de que a participação era voluntária, de que não precisavam responder a todas as perguntas e de que podiam interromper a entrevista a qualquer momento. Mulheres identificadas pelas equipes como especialmente vulneráveis não foram selecionadas. Havia tempo reservado ao final para apoio adicional, se necessário. Pseudônimos são usados ao longo de todo o texto, e o mínimo de dados pessoais foi coletado e armazenado. Nos casos apresentados, alguns detalhes pessoais foram alterados para reforçar o anonimato (como o sexo dos filhos). A idade das crianças indicada é a que tinham quando a mãe entrou na prisão. A aprovação ética completa foi obtida antes do início da pesquisa junto ao HM Prison and Probation Service (HMPPS) e à universidade de vínculo, além de uma consulta contínua aos órgãos cujos serviços foram acessados durante o trabalho de campo.

Este artigo se baseia nos dados sobre as relações das mulheres com os filhos e com a família ampliada ou os familiares responsáveis pelo cuidado. Setenta e seis páginas de dados foram analisadas para este artigo, extraídas de 12 entrevistas ricas em dados sobre esse tema. Os dados foram analisados tematicamente, e as entrevistas foram transcritas na íntegra pela pessoa que assina o artigo; a transcrição começou enquanto a coleta de dados ainda estava em andamento, para preservar a compreensão das entrevistas. As transcrições foram lidas e relidas muitas vezes para compreender bem as narrativas e as histórias nelas contidas. Primeiro foram criados mapas mentais a partir dos temas principais e dos pontos em comum das histórias das mulheres. Depois foram redigidos retratos de cada mulher, e dados quantitativos básicos foram extraídos sobre informações biográficas e sobre os delitos. Uma lista de códigos foi produzida para cada transcrição, e os códigos (95 no total) foram então agrupados em temas (15 no total). Este artigo usa os dados de quatro temas: a separação dos filhos, o impacto sobre os membros da família, a relação com os familiares responsáveis pelo cuidado e o reencontro e a volta ao papel de mãe. Como todas as mulheres do estudo eram brancas, não é possível analisar as experiências de mães de grupos minoritários. Além disso, as narrativas refletem as experiências de mulheres de uma única área geográfica da Inglaterra e dos serviços e prisões femininas que elas frequentaram.

O impacto nas relações com os filhos

Com foco na teoria relacional e no conceito de trauma relacional, esta seção apresenta os impactos relatados nas relações das mães com os filhos ao longo de sua trajetória no sistema de justiça criminal. Os impactos incluíram grave sofrimento emocional, problemas na escola e dificuldades financeiras e práticas. A principal frustração das mães era não poder fazer nada para ajudar, sentindo-se impotentes, sem recursos para resolver os problemas vividos. As mães ficavam como espectadoras enquanto a família se deteriorava do lado de fora; na maioria dos casos, tudo o que podiam fazer era assistir, sem escolha.

Como vimos, há menos dados sobre o impacto do encarceramento materno sobre filhos mais velhos e jovens adultos. Boa parte da pesquisa se concentrou no impacto sobre bebês e crianças em idade de ensino fundamental (Minson, 2019; Booth, 2020). Neste estudo, seis das mulheres tinham filhos com mais de 13 anos. Os impactos não se limitaram ao período em que a mãe esteve presa: começaram antes, em muitos casos durante a espera entre a acusação e a sentença, e continuaram depois. Esses impactos precisam ser mais considerados quando mães são condenadas à prisão, se quisermos que a desistência do crime seja possível para elas. Neste estudo, as mães relataram que os filhos mais velhos e os jovens expressavam emoções fortes e complexas sobre o que tinha acontecido: “Meu mais velho, às vezes ele ficava com raiva enquanto eu esperava a sentença e tudo, ele ficava bravo comigo e me perguntava o tempo todo: ‘Por quê?’” (Samantha, dois filhos, de 19 e 14 anos).

Lisa também falou da raiva e do descontentamento que o filho guardou durante toda a condenação e depois dela: “Às vezes ele fica muito decepcionado comigo, mas eu não sei se é decepção ou, eu não consigo entender, sabe, porque a gente tinha aquela abertura. Acho que isso deixou ele inseguro, acho que ele se sentia inseguro” (Lisa, um filho, de 18 anos).

Ela explicou que o filho tinha perdido o respeito pelo sistema de justiça criminal e manifestou preocupação com o impacto que isso teria sobre a vida dele no futuro. Essas experiências refletem definições de trauma relacional que descrevem jovens em insegurança e com dificuldades nas próprias relações: “depois de terminar com a namorada porque não aguentava eu estar presa, uma briga feia, e ele perdeu o emprego porque estava descontando nos outros, a raiva dele aparecia, ele simplesmente explodia, sabe” (Lisa).

Enquanto o filho de Lisa ficou com muita raiva, Tammy se preocupava ao ver que a filha mais velha tinha dificuldade de visitá-la na prisão e parecia recorrer ao álcool para lidar com essas emoções difíceis: “Acho que isso afetou muito a minha mais velha, como eu disse, ela começou a beber todo dia e coisas assim” (Tammy, duas filhas, de 17 e 15 anos).

[N]a noite em que eu saí, a turma do meu filho mais novo veio, dois ou três desses jovens tinham mandado cartas enquanto eu estava lá dentro. Quer dizer, é claro que a turma ainda vem agora e sempre me perguntam se eu estou bem. E me diziam: ‘Que bom que você saiu’; então isso deve ter mexido com esses jovens também! Mas a gente não percebe, não sabe quem está afetando… (Naomi, dois filhos, de 18 e 21 anos)

Eu nunca tinha deixado ele antes e isso afetou ele, ele fazia xixi na cama e tudo, quer dizer, ele não sabia onde eu estava, eu não via ele nem nada, eu não queria que ele viesse, e isso me afetou, claro, porque afetou ele. (Cheryl, um filho, de 5 anos)

Achei muito difícil, na verdade, porque a minha filha, ela tem 7 anos agora, então ela entende as coisas, sabe o que eu quero dizer, e ela fazia perguntas, ‘Como é que você ficou de férias tanto tempo?’ e coisas assim, então eu não gostava muito de mentir… criança não é boba. (Diane, uma filha, de 7 anos)

Ele foi morar com o pai aos 11 anos, eu perdi o vínculo que tinha com ele, eu nunca tinha deixado nenhum dos meus filhos, nunca, nem as minhas meninas, quando eu deixei ele, não consegui mais recuperar aquilo, mesmo tendo sido só sete semanas, sete semanas é muito tempo mesmo para uma criança de 6 anos e para uma mãe ficar sem o filho, foi difícil me perdoar por ter deixado ele. (Cheryl)

Fiquei duas semanas sem ver a minha menininha, foi de partir o coração. E aí, quando saí, o vínculo que eu tinha com a minha menininha antes de entrar era inquebrável, agora ela está muito distante, longe da gente, então essa pena de prisão deixou a minha filha distante da gente, ela não vem nem pedir um abraço. (Danielle, uma filha, de 10 anos)

Os sentimentos expressos aqui mostram os efeitos duradouros de períodos de prisão mesmo curtos. São esses impactos relacionais contínuos e intergeracionais que levam muita gente a questionar o propósito do encarceramento materno: afinal, quem está pagando a pena nessa situação?

No contexto do impacto sobre a unidade familiar, vemos que as relações não voltam simplesmente a ser como eram antes do período de prisão. Os vínculos podem ter sido esticados demais e, em alguns casos, rompidos de vez pelo trauma do encarceramento materno. As mães descrevem uma combinação de culpa, vergonha e estigma em torno do impacto que a prisão teve sobre a família. Houve, porém, aspectos positivos ocasionais, como no caso do filho de Samantha, que entrou para o exército, o que ela diz que não teria permitido se estivesse em casa. Tammy também podia agora considerar que tornar-se avó era um motivo para se esforçar em dar estabilidade à família. Em outro caso, embora os filhos tivessem voltado a viver com a mãe, as coisas continuavam muito difíceis no plano emocional: “Eu tinha tanto medo de ser rejeitada, de ter decepcionado eles. Eu sentia que eles não iam me perdoar. Achava que iam me renegar. Mas eles foram incríveis” (Alison, dois filhos, de 18 e 20 anos).

Para muitas mulheres, o reencontro com os filhos ao sair da prisão é dificultado por problemas de moradia e de dinheiro: “Eu ainda choro agora quando vou dormir porque não estou com a minha pequena de 4 anos, ela dormia comigo todas as noites” (Janette, uma filha de 4 anos, um filho de 14 anos).

Janette não tinha acesso a uma moradia adequada que permitisse que a filha morasse ou passasse temporadas com ela, pois tinha perdido a moradia durante a prisão, em parte por causa do delito, que a impedia de voltar para a casa anterior. Tammy queria se sentir pronta para levar a filha de volta para casa, para que dessa vez desse certo, e precisava de tempo para chegar a esse ponto: “Bom, a minha mais velha, ela ainda está em família acolhedora no momento, a gente está com problemas, ela está com alguns problemas, acho que é porque eu saí, ela quer voltar para casa e tal, mas ela tem que entender que eu só saí faz cinco meses.”

Em alguns casos, os filhos queriam voltar para a casa da família e, em outros, não, e as duas coisas criavam situações difíceis. Mesmo quando os filhos voltavam à situação de moradia anterior, eram frequentes os relatos de dificuldades nessas relações, muitas vezes marcadas por culpa, raiva e confusão. Essas experiências mostram os impactos relacionais do encarceramento materno e como, mesmo para filhos mais velhos e jovens adultos, essa experiência pode ser emocionalmente danosa e traumática.

O impacto nas relações com os familiares que assumem o cuidado das crianças

O impacto do encarceramento materno sobre a família ampliada é menos relatado e considerado. Em muitos casos, são parentes mulheres que acabam cuidando das crianças quando a mãe é presa. Neste estudo, avós e irmãs assumiram o cuidado em dez casos, avó e avô juntos em três casos, um avô em um caso e os pais em quatro casos, sendo que os filhos de uma das mulheres já estavam em família acolhedora. Em três desses casos, as crianças ficaram sob a guarda dos serviços sociais em algum momento. O peso do cuidado pode cobrar um preço financeiro, emocional e físico, como se verá adiante. Em muitos casos, as relações entre as mães e os familiares responsáveis pelo cuidado ficam muito tensionadas e podem não se recuperar após a saída da prisão. As crianças podem ficar no meio dos problemas relacionais entre a mãe e esses familiares. Isso evidencia os danos contínuos que podem se seguir à saída de uma mãe da prisão: voltar ao papel de mãe nem sempre é possível ou fácil, e esse papel muitas vezes passa por uma mudança profunda.

A narrativa de Lisa se concentrou na deterioração física visível da mãe dela, que cuidava do seu filho adolescente: “A minha mãe perdeu três stones [quase 20 quilos], que ela não podia perder, ela vinha [à prisão] e tinha envelhecido, aquilo partia o meu coração, cada vez que ela vinha parecia mais e mais velha.”

Foi um peso financeiro enorme para a minha mãe e para os meus filhos enquanto eu estava lá dentro, enorme. Porque não existe nenhuma ajuda para eles, sabe, a minha mãe não recebeu nenhum benefício para ajudar a criar os meus filhos porque era avó, porque era aposentada, não podia pedir o crédito fiscal para quem trabalha, então não tinha nada, só o auxílio por filho, e mais nada. (Samantha)

As preocupações financeiras agravam os problemas relacionais e a tensão emocional. Essa questão do apoio financeiro já foi levantada antes, e mais recentemente numa revisão do Parlamento britânico (Ministry of Justice, 2019, ponto 13), e ainda pouco se fez para mudar alguma coisa.

Ficar em casa, com as coisas deles em volta, como eu disse, foi a minha mãe que fez isso, então ele teve isso, ao passo que se eu não tivesse a minha mãe, teria sido uma história completamente diferente, teria mesmo, então eu tenho muito a agradecer a ela, mas a nossa relação nunca mais vai ser a mesma, a relação que eu tenho com a minha mãe meio que acabou, na verdade, então…

Essas evidências sugerem que é preciso fazer muito mais para considerar o impacto sobre a família ampliada, para além das crianças, pois esses problemas relacionais também vão afetar, direta e indiretamente, as crianças e os jovens de forma contínua. Os danos causados pelo encarceramento materno são menos relatados no que diz respeito aos efeitos sobre as mães e suas relações com as próprias mães, como descrito acima. No caso de Samantha, essa ruptura não melhorou depois da saída da prisão; ela teve dificuldade de voltar ao papel de mãe dos filhos e ficou com sentimentos de vergonha e estigma. O filho dela ficou no meio do trauma relacional assim criado. Em alguns desses casos, as relações já estavam tensas antes, e a pena de prisão acrescentou ainda mais estresse. Stacey contou o seguinte: “Três semanas antes de eu sair, a minha mãe tentou conseguir uma ordem de guarda da minha filha, para ficar com ela. Fui notificada da ordem três semanas antes de sair” (Stacey, uma filha, de 1 ano).

Eu queria só entrar e ser mãe de novo, e o meu filho queria que eu entrasse e fosse mãe de novo, mas eu estava pisando no terreno da minha mãe: ela tinha assumido por dez meses, sabe, coisinhas, vinham uns comentariozinhos, se um dia eu tinha feito o jantar ou qualquer coisa, ela dizia: ‘Por que você fez isso? Eu teria feito.’ (Samantha)

Quando eu tentei ligar para ela [a avó], ela não atendeu o telefone no aniversário da minha filha, então eu tive que ligar para a minha tia para ela ligar para a minha mãe, para ela ligar para a outra, e aí ela disse: ‘Não, de jeito nenhum que ela vai ter contato’, porque a cadeia faz visitas para crianças, então eu estava tentando conseguir isso e ela não queria nem saber, tipo: ‘Por que eu ia querer levar ela, uma criancinha, para dentro de uma prisão?’ (Caitlin, uma filha, de 3 anos)

Recebi um retorno do pai dele dizendo o quanto ele [o filho] tinha vergonha e que não olhava mais para a gente como exemplo e o quanto sentia uma vergonha total da gente e tudo, e que ia levar um tempo até ele conseguir falar com a gente ou ver a gente, mas isso foi antes de eu ir para a cadeia, então já faz meses e não houve esforço nenhum para a gente ter algum contato, nem um telefonema, nada, nem um cartão, uma carta, nada, absolutamente nada, então eu não sei para onde ir, não sei a quem recorrer… (Tanya, dois filhos, de 13 e 27 anos)

O financiamento para o apoio às famílias é escasso: antes havia nessa região profissionais adicionais de contato familiar, cuja função era aumentar o contato das mães nessa situação. A combinação da ruptura da relação com os familiares responsáveis pelo cuidado e do estigma das mães criminalizadas cria, em muitos casos, dificuldades de contato com os filhos durante e depois do período de prisão. Isso se soma ao trauma relacional vivido.

Para muitas, os impactos duradouros da prisão eram difíceis de enfrentar. Num momento em que deveriam estar contentes por ter saído da prisão e por recomeçar, os problemas de contato com os filhos criavam sentimentos insuportáveis de perda, como no caso de Tanya: “Eles cortaram a gente todas as vezes desde que ele tinha oito anos, todo Natal, todo aniversário e todo Dia das Mães, nenhum cartão e nenhuma ligação, nada. Eu não sou prioridade aos olhos deles.”

A teoria relacional enfatiza a importância de relações empáticas e acolhedoras para o bem-estar das mulheres e para a desistência do crime (Covington, 1998), por isso essas questões são fundamentais. Fica evidente que o encarceramento materno agrava os problemas relacionais, afetando não só as crianças, mas também quem cuida delas na comunidade.

Conclusão

Este artigo apresentou os impactos relacionais traumáticos do encarceramento materno, em especial os menos pesquisados, como os impactos sobre os filhos mais velhos e a possível ruptura das relações com os familiares responsáveis pelo cuidado. Levando em conta esses traumas relacionais à luz da teoria relacional (Covington, 1998; Weld, 2014), fica claro que o encarceramento materno tem efeitos amplos e duradouros ao longo das gerações. Esse trauma relacional agrava os problemas práticos e financeiros que já existem na saída da prisão. Olhar para o efeito do encarceramento materno sobre a família ampliada e sobre as relações permite construir um quadro mais detalhado dos danos sofridos e, assim, identificar onde é preciso um trabalho adicional.

A teoria relacional sugere que a maneira como as mulheres se conectam com o mundo pode dar mais peso às relações com os outros e à importância delas para o crescimento, a estabilidade e a saúde mental. A política criminal atual, embora reconheça a importância das relações, é em si mesma geradora de danos, ao afastar as mães dos filhos e oferecer pouco ou nenhum apoio a quem cuida das crianças e às próprias crianças na comunidade (Comack, 2018; Anderson, 2021). As crianças continuam sendo separadas de repente da mãe no dia da sentença, com pouco aviso ou tempo para se preparar prática, financeira ou emocionalmente. Este artigo descreveu a ruptura das relações que se segue, tanto com os familiares responsáveis pelo cuidado quanto com os filhos mais novos e mais velhos. Como os familiares responsáveis pelo cuidado podem controlar o acesso ao contato com as crianças, a ruptura dessas relações tem efeitos adicionais sobre a relação mãe-filho (Tasca, 2016).

A ruptura das relações descrita neste artigo mostra como muitas relações foram consideradas “nunca mais as mesmas” depois da prisão, marcadas por um sentimento de perda, como se algo profundo faltasse na relação com um avô, uma avó ou um filho. Em alguns casos, havia também lembranças físicas do trauma do período de prisão. A pesquisa indicou que as mães que saem da prisão estão num momento de especial vulnerabilidade, e que esse período também é importante para pensar a desistência do crime (Few-Demo e Arditti, 2014; Gålnander, 2020). É provável que esses problemas ou vulnerabilidades relacionais depois da prisão prejudiquem a vida das mães de modo mais amplo (Few-Demo e Arditti, 2014) e possam ter impacto na reincidência. No que diz respeito ao trabalho relacional, a relação com a equipe de probation também foi apontada como uma possível força importante na vida das mulheres depois da prisão (Aisling et al., 2021), oferecendo confiança, empatia e continuidade do cuidado. Seria útil aprofundar a pesquisa nessa área de trabalho.

É imperativo examinar melhor o leque de alternativas à prisão e verificar se são eficazes e usadas de forma adequada. No Reino Unido, tem havido relutância em mudar a forma como mães presas e seus filhos são cuidados. Embora se tenha sugerido que a prisão seja sempre o último recurso e que alternativas sejam usadas sempre que possível (Ministry of Justice, 2018), a criação de novas alternativas não se concretizou. Os relatórios pré-sentença foram apontados como uma ferramenta útil para considerar plenamente, antes da sentença, as responsabilidades de cuidado de uma mãe, sua situação pessoal e suas relações. As evidências sugerem, porém, que seu uso ainda é irregular (Centre for Justice Innovation, 2018).

Na Alemanha, em algumas circunstâncias, as mães podem continuar criando os filhos enquanto cumprem pena e assumir a responsabilidade por eles durante o dia, voltando à prisão à noite (Dolan, 2019). Isso mantém os vínculos com os filhos e exige que as mães trabalhem para desenvolver e sustentar suas competências parentais. Parece provável que, se tivessem a chance, a maioria das mulheres escolheria esse caminho, que poderia oferecer a possibilidade de enfrentar suas experiências e seus delitos, seguir em frente e crescer, em vez de causar danos irreparáveis às relações. Isso também tiraria a pressão dos avós, que carregariam um peso menor, o que talvez preservasse essas relações para o futuro. Há muito espaço para lidar com o trauma relacional produzido pelo encarceramento materno.

Como apontado no relatório Farmer (2019), relações positivas e acolhedoras podem ser vistas como o “fio de ouro” ou como uma “necessidade criminogênica” para mulheres que cometeram delitos. Há um conflito entre o impacto do encarceramento materno sobre as famílias, que a pesquisa mostra ser prejudicial às relações, e uma política criminal que continua a recorrer às penas de prisão. Em conclusão, as evidências apresentadas sobre os impactos relacionais do encarceramento materno destacam a necessidade de apoio adicional às famílias na saída da prisão. No entanto, como os dados em que este artigo se baseia são um subconjunto dos dados de um projeto maior, é importante observar que essas limitações podem afetar a qualidade dos resultados em termos de confiabilidade e validade. Um trabalho adicional poderia ser feito na prisão antes da soltura, na forma de apoio entre pares, para discutir questões de parentalidade e pensar em como as crianças podem ter sido afetadas pela ausência da mãe. Depois da soltura, sessões de grupo conduzidas pelos serviços de probation também podem ser uma oportunidade de oferecer apoio adicional sobre essas importantes questões relacionais, além de profissionais de apoio familiar que possam ajudar a resolver questões de contato com os filhos e dar orientação sobre parentalidade.

Complexe Systémique: a reter

O texto vem da criminologia, mas seu gesto é sistêmico: desloca o olhar da díade mãe-filho para o conjunto das relações que a prisão reorganiza. Três contribuições são úteis na clínica. Primeiro, adolescentes e jovens adultos, a quem a pesquisa costuma dar pouca atenção, reagem com raiva, vergonha ou álcool, e a relação não “volta” ao normal com a saída da prisão. Depois, a avó que assume o cuidado se torna ao mesmo tempo recurso e guardiã do contato, e o retorno da mãe abre uma disputa de lugares bem conhecida na terapia familiar. Por fim, o trauma relacional é pensado como bidirecional: atinge também mães e avós. Vale manter distância crítica: a amostra é pequena, inteiramente branca, e só as mães falam, de modo que a voz das crianças e dos familiares só é conhecida pelo relato delas; a ideia de que as relações pesariam mais para as mulheres continua sendo uma hipótese teórica discutida. Para ler junto com o artigo sobre a pessoa de referência para crianças de mães encarceradas e com o artigo sobre a terapia relacional após o encarceramento.

Notas do original

Nota. Este artigo se baseia em materiais e ideias desenvolvidos na seguinte tese de doutorado: Mitchell, S. (2021), The Intergenerational Traumatic Impact of Maternal Imprisonment, Universidade de Northumbria.

Financiamento. Este trabalho foi apoiado por uma bolsa de doutorado da Universidade de Northumbria, financiada por Lady Edwina Grosvenor.

Agradecimentos. A pessoa que assina o artigo agradece a quem o avaliou pelos comentários e sugestões, que ajudaram a desenvolvê-lo e aprimorá-lo.

Conflito de interesses. A pessoa que assina o artigo declara não haver conflito de interesses.

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Tradução não oficial em português de Trauma relacional: o impacto do encarceramento materno nas relações familiares, de Sophie Mitchell, Families, Relationships and Societies, vol. 14, no 4 (2025), doi: 10.1332/20467435y2024d000000039, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (declarações reunidas nas notas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Relational trauma: the impact on family relationships of maternal imprisonment”, publicado em Families, Relationships and Societies (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Mitchell, S. (2025). Trauma relacional: o impacto do encarceramento materno nas relações familiares (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/trauma-relacional-o-impacto-do-encarceramento-materno-nas-relacoes-familiares (Obra original publicada em 2024 em Families, Relationships and Societies, 14(4), 507-522 (2025); republicada em 2025 por Families, Relationships and Societies, https://bristoluniversitypressdigital.com/view/journals/frs/14/4/article-p507.xml)

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