Family Process · Terapia familiar

Uma análise da conversa das repetições do terapeuta nas reuniões de rede do Diálogo Aberto

“Ela ria mais antes.” — “Ah, ela ria mais antes.” Os textos do Diálogo Aberto recomendam repetir literalmente as palavras da família, para escutar sem interpretar. Ben Ong, Scott Barnes e Niels Buus identificaram 160 dessas repetições em catorze horas de sessões filmadas em Sydney e as examinaram com a lupa da análise da conversa. Uma repetição pode abrir a fala, mas também encerrar uma troca, pedir uma simples repetição ou desviar uma briga. E a escolha da palavra repetida já é uma decisão terapêutica.

Autores Ben Ong (Universidade Monash), Scott Barnes (Universidade Macquarie), Niels Buus (Universidade Monash, Universidade do Sul da Dinamarca)Primeira publicação Family Process, 1º de março de 2024Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Uma análise da conversa das repetições do terapeuta nas reuniões de rede do Diálogo Aberto, de Ben Ong, Scott Barnes e Niels Buus, publicado na Family Process (Wiley) (2024), doi: 10.1111/famp.12852, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Os oito trechos de sessão são reproduzidos em imagem, em sua transcrição original em inglês, seguidos de uma tradução das falas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Embora repetir as palavras de quem é atendido possa atenuar a autoridade terapêutica, o momento escolhido para usar uma repetição molda ativamente a direção da interação.

Ben Ong, Scott Barnes e Niels Buus

Resumo

Os escritos sobre as abordagens de Diálogo Aberto no trabalho com famílias em sofrimento psíquico enfatizam a importância de repetir literalmente as palavras da família. Supõe-se que essas repetições mostrem a escuta terapêutica e incentivem a elaboração sem impor à família interpretações ou conclusões vindas da terapia. Essas recomendações não foram submetidas a uma investigação interacional rigorosa. Neste estudo, usamos a análise da conversa para analisar 160 exemplos de terapeutas repetindo falas anteriores da família, extraídos de 14 horas de sessões de Diálogo Aberto gravadas em vídeo. Constatamos que essas repetições tinham funções semelhantes às já descritas pela pesquisa em análise da conversa, como iniciar reparo, marcar recebimento e solicitar elaboração, além de exemplos de repetições em sobreposição com a fala das pessoas atendidas. Os escritos sobre o Diálogo Aberto apresentam, assim, uma visão simplificada de como as repetições são usadas nas sessões clínicas de Diálogo Aberto. Em consonância com os escritos dialógicos, as repetições podem suscitar elaboração com pouca contribuição terapêutica; no entanto, refletem uma seleção e servem, em certa medida, para dirigir e orientar a conversa. Assim, embora repetir as palavras de quem é atendido possa atenuar a autoridade terapêutica, o momento escolhido para usar uma repetição molda ativamente a direção da interação.

Nota de tradução. Os trechos de sessão são reproduzidos tal como no original, em inglês, segundo as convenções de transcrição da análise da conversa (notação de Jefferson): colchetes marcam sobreposições, números entre parênteses marcam silêncios em segundos, dois-pontos marcam o alongamento de um som e o sublinhado marca a ênfase; a repetição estudada está em negrito itálico e a primeira ocorrência em negrito. Uma tradução das falas segue cada trecho. As palavras inglesas repetidas em terapia são citadas em itálico, com sua tradução.

Introdução

As abordagens de Diálogo Aberto no trabalho com famílias têm vários princípios que enfatizam a responsividade terapêutica, a continuidade da equipe de tratamento e a promoção do diálogo (Haarakangas et al., 2007; Seikkula e Arnkil, 2006). Terapeutas adotam uma postura dialógica caracterizada pela colaboração e pela abertura às perspectivas da família (Galbusera e Kyselo, 2018). A abertura inclui a promoção e a valorização da expressão de múltiplas perspectivas da pessoa atendida e da família, sem buscar consenso nem mesmo mudança de comportamentos que afetam a saúde (Buus et al., 2020; Galbusera e Kyselo, 2018). Em vez disso, adota-se uma posição de tolerância à incerteza, guardando as próprias ideias sobre diagnóstico ou formulação e incentivando o desenvolvimento das próprias compreensões da família (Haarakangas et al., 2007). As descrições do Diálogo Aberto tendem a se concentrar na mentalidade terapêutica no trabalho com famílias, e pouco se escreveu sobre como terapeutas podem produzir concretamente interações dialógicas na prática (Ong e Buus, 2021). Uma exceção é a recomendação explícita de que terapeutas repitam, nas sessões, as falas anteriores da rede familiar.

Na teoria do Diálogo Aberto, o uso de repetições na terapia se baseia na intenção de suscitar elaboração e mais diálogo em torno das compreensões singulares de cada pessoa atendida, minimizando ao mesmo tempo a influência terapêutica sobre a trajetória e o conteúdo da conversa terapêutica (Olson et al., 2014; Rober e Seltzer, 2010). Para isso, recomenda-se que terapeutas liguem suas palavras às da própria pessoa e da família, “incorporando a linguagem familiar dos membros da rede” (Seikkula e Trimble, 2005, p. 462) em suas próprias respostas e perguntas. Isso mostraria uma “escuta responsiva”, uma escuta sem agenda que permite às pessoas atendidas expressar histórias importantes nunca compartilhadas antes (Olson et al., 2014, p. 14).

Além de incorporar as palavras das pessoas atendidas, recomenda-se que terapeutas repitam literalmente suas falas anteriores para incentivar mais elaboração sobre determinado assunto (Seikkula, 2011). No trecho abaixo, Seikkula (2011, p. 190) dá dois exemplos de uma pessoa terapeuta (T1) repetindo as palavras de uma pessoa atendida (M).

“M: Nunca tive reconhecimento.

T1: Você nunca teve reconhecimento?

M: A vida inteira, vivi a exclusão na família. Finalmente, quero me livrar dessa confusão simbiótica.

T1: Você disse: ‘A vida inteira, vivi a exclusão na família’. Depois disse: ‘Finalmente, quero me livrar dessa confusão simbiótica’. Parece que você está dizendo duas coisas ao mesmo tempo?

M: … sim… foi o que eu disse… Mas por enquanto não consigo dizer mais nada sobre isso.

T1: … é.”

Esse trecho oferece dois exemplos de como as repetições podem ser usadas no Diálogo Aberto. Há repetições literais que, com pequenos acréscimos, ocupam todo o turno de T1. É o caso da primeira resposta de T1, “Você nunca teve reconhecimento?”, que suscita em M uma elaboração sobre a exclusão na família. O turno seguinte de T1 inclui outra repetição literal das palavras de M, mas essa repetição não ocupa todo o turno; ela é incorporada a uma resposta mais longa: “Você disse: ‘A vida inteira, vivi a exclusão na família’. Depois disse: ‘Finalmente, quero me livrar dessa confusão simbiótica’. Parece que você está dizendo duas coisas ao mesmo tempo?” Esse tipo de repetição é uma expressão citativa (Knol et al., 2020) que contém um componente inicial, “você disse que…”, que marca mais claramente o início da repetição, e um componente final, “Parece que você está dizendo duas coisas ao mesmo tempo?”, que torna mais explicitamente relevante uma resposta elaborada.

Em resumo, recomenda-se a terapeutas do Diálogo Aberto que construam suas respostas para se alinhar a aspectos da fala das pessoas atendidas, incorporá-los e repeti-los. Supõe-se que essas respostas deem a essas pessoas a oportunidade de ouvir suas palavras devolvidas, de refletir sobre elas e de elaborar questões de que talvez nunca tenham falado. Como mostram os exemplos acima, essas repetições podem assumir duas formas. Podem ser repetições que ocupam todo um turno de fala, ou citações incorporadas a uma afirmação ou pergunta mais longa. Embora a literatura dialógica tenha teorizado as funções das repetições, em terapia, das falas anteriores das pessoas atendidas, essas funções não foram investigadas empiricamente. É necessário, portanto, examinar como as repetições são usadas e respondidas em conversas terapêuticas reais, para entender se elas cumprem de fato as funções teorizadas e/ou se têm outros usos.

A análise da conversa (AC) é um método de pesquisa que examina sequências de interação para identificar práticas conversacionais e as ações sociais que realizam (Goodwin e Heritage, 1990; Heritage, 1984b). A AC tem sido usada para investigar práticas conversacionais cotidianas e conversas institucionais como a psicoterapia (Peräkylä, 2012) e a terapia familiar (Ong et al., 2020a, 2020b; Tseliou, 2013). Por exemplo, Muntigl e Horvath (2016) analisaram a abertura de uma sessão de terapia familiar estrutural conduzida por Salvador Minuchin. Mostraram como Minuchin buscava reparar uma ruptura da aliança terapêutica com uma mãe, alegando um “nervosismo” semelhante, enfatizando sua autoridade parental e dando um enquadre positivo às suas decisões como mãe. Sobre as reflexões no Diálogo Aberto, Schriver et al. (2022) mostraram como terapeutas tentam demonstrar empatia descrevendo suas reações corporais, imaginando-se no lugar da pessoa atendida e reivindicando pertencer a uma categoria de papel semelhante à dela. Ao focalizar os microdetalhes da conversa, a AC pode, portanto, oferecer uma análise mais minuciosa das repetições feitas em terapia, de uma perspectiva interacional externa à teorização do Diálogo Aberto.

Pesquisas anteriores em AC mostraram que as repetições podem cumprir diversas funções conforme sua posição sequencial. As repetições da fala anterior de outra pessoa ocorrem inevitavelmente em resposta a essa fala. Essas repetições no turno seguinte, se produzidas com entonação final ascendente, têm um caráter “interrogativo” (Kim, 2002) e podem iniciar um reparo de um problema de audição ou de compreensão do destinatário (Robinson e Kevoe-Feldman, 2010; Schegloff, 1996, 1997; Schegloff et al., 1977). Também podem pedir confirmação ao falante anterior ou mostrar a posição do falante em relação ao enunciado anterior, como um desacordo (Kim, 2002). Repetições em segunda posição com entonação final descendente têm outras funções. Podem confirmar e registrar o recebimento do turno anterior (Puchta et al., 2004; Schegloff, 1996, 1997), mostrar concordância (Kim, 2002) ou solicitar do falante anterior expansão e informações adicionais (Brown, 1998; Kim, 2002; Knol et al., 2020). Repetições após um turno de resposta (em terceira posição) realizam outras ações e podem mostrar o recebimento ou o reconhecimento de uma resposta anterior (Schegloff, 1996, 1997). Repetições de recebimento em terceira posição podem ficar sem resposta e encerrar uma sequência, resultar em respostas de confirmação (Schegloff, 1997) ou ser tratadas pelos destinatários como início de reparo de algum problema de audição, fala ou compreensão (Hayashi et al., 2013). As repetições têm, portanto, múltiplas funções e não podem ser compreendidas apenas por sua forma ou posição sequencial. Uma análise mais completa precisa considerar quais ações uma repetição implica e como o destinatário responde a ela.

Na psicoterapia, Knol et al. (2020) descreveram as repetições feitas em psicoterapia como um espelhamento da fala da pessoa atendida. De modo semelhante às recomendações do Diálogo Aberto, argumentam que, ao contrário das formulações (Antaki, 2008), as repetições não transformavam essa fala, evitando assim interpretações terapêuticas e reduzindo possíveis vieses. As repetições especulares selecionavam uma expressão saliente ou citavam a fala anterior da pessoa, o que indicava temas anteriores para elaboração e funcionava como pedidos mais explícitos de expansão. Essas repetições facilitavam novas explorações e, ao mesmo tempo, davam do trabalho terapêutico uma imagem não diretiva e imparcial.

Neste estudo, focalizamos especificamente as repetições, por terapeutas, de falas anteriores da família que ocupam todo o turno de quem repete. Essas repetições são uma prática claramente delimitada e representam uma amostra mais fácil de analisar. Usando a análise da conversa, pretendemos examinar as diferentes funções dessas repetições e considerar como elas afetam as sequências de interação nas reuniões de Diálogo Aberto.

Método

Dados e ética

Os dados deste estudo incluíram catorze horas de sessões de Diálogo Aberto gravadas em vídeo num serviço de saúde mental para jovens do oeste de Sydney, Nova Gales do Sul, Austrália. A amostra incluiu terapeutas (n = 12), pessoas atendidas e suas redes, que incluíam familiares e especialistas de outros serviços (n = 36). A maioria da equipe terapêutica (n = 10) tinha pelo menos dois anos de experiência em Diálogo Aberto, incluindo formação básica e supervisão regular. Sete dessas pessoas participavam de formação avançada em Diálogo Aberto, para a prática terapêutica ou para o ensino. As outras duas tinham recebido uma orientação informal sobre o Diálogo Aberto de colegas com mais experiência. As sessões de Diálogo Aberto não têm uma forma particular de “intervenção” em si; concentram-se nas preocupações trazidas pela família, com a equipe terapêutica buscando manter uma mentalidade de abertura para compreender as experiências da família (Olson et al., 2014; Ong e Buus, 2021).

A pessoa que assina em primeiro lugar contatou terapeutas que poderiam participar e lhes apresentou o estudo. Quem tinha interesse preencheu então um termo de consentimento e identificou pessoas atendidas e redes que poderiam participar. Essa mesma pessoa forneceu informações mais detalhadas às pessoas atendidas e às famílias que tinham interesse. A participação foi voluntária, e a coleta de dados só começou depois do consentimento informado por escrito de todas as pessoas participantes. As sessões foram gravadas com três câmeras posicionadas em diferentes pontos da sala para captar os aspectos verbais e corporais das interações. O estudo foi aprovado pelo comitê de ética do distrito sanitário local de Nepean Blue Mountains (referência HREC/17/NEPEAN/135) antes do início da coleta. As informações identificadoras nos trechos apresentados foram alteradas com o uso de pseudônimos para garantir o anonimato.

Processo de análise

Os dados em vídeo foram transcritos segundo as convenções da análise da conversa (Hepburn e Bolden, 2017). Em seguida, concentramo-nos em identificar todas as ocorrências de repetições, por terapeutas, da fala das pessoas atendidas que ocupavam todo o turno de quem repetia (com pequenos acréscimos), excluindo as autorrepetições. O objetivo era captar os tipos de repetição discutidos nos escritos sobre Diálogo Aberto. Seguindo as definições de Schegloff (1997) e Rossi (2020), focalizamos repetições lexicais completas e parciais, incluindo repetições com mudanças de referência, dêixis, entonação ou prosódia, e repetições ocorridas nos turnos seguintes à primeira ocorrência. Embora tenhamos partido de uma prática conversacional predefinida, as repetições, não abordamos os dados com uma visão predeterminada de sua função.

Identificamos 160 ocorrências de terapeutas repetindo palavras de pessoas atendidas. Cada exemplo foi analisado linha a linha, examinando a fala que precedia a repetição, como a própria repetição era produzida (isto é, que palavras eram selecionadas e como eram pronunciadas prosodicamente) e que resposta a seguia. Por esse processo, analisamos a ação ou as ações anteriores que levavam à ação-alvo, a repetição, e como a repetição era respondida (Peräkylä, 2019). A função de cada repetição é compreendida pela análise de como as pessoas atendidas responderam a ela. Na AC, isso é conhecido como prova do turno seguinte: a ação ou a função de uma prática conversacional não está contida na intenção ou nos atributos da própria prática, mas em como ela é compreendida e respondida pelas outras pessoas da conversa (Potter, 1996). Nossas análises das repetições foram comparadas e agrupadas segundo as funções semelhantes que cumpriam. Apresentamos a seguir exemplos dos diferentes tipos de repetição identificados nos dados; todos os trechos foram analisados por toda a equipe, e a análise apresentada reflete nossa análise conjunta dos dados.

Resultados

Constatamos que as repetições terapêuticas cumpriam diversas funções interacionais. Apresentamos primeiro as repetições que iniciavam reparo e as que funcionavam como sinais de recebimento. Em seguida, apresentamos as repetições que indicavam temas para elaboração e exploramos como a equivocidade de algumas repetições permite respostas diversas. Esses tipos de repetição eram coerentes com as recomendações do Diálogo Aberto de repetir as palavras da família para incentivar a elaboração. Por fim, apresentamos repetições ocorridas fora dos lugares relevantes para a transição (os pontos em que a troca de falante pode ocorrer), que não interrompiam o turno em curso. Nos trechos a seguir, as repetições feitas em terapia estão em negrito itálico e a primeira ocorrência em negrito. Seguindo as convenções da terapia familiar, as pessoas são designadas por seu papel familiar, por exemplo Avó, Pai etc., e os filhos por ordem de idade, por exemplo Filho 1, Filho 2 etc. Na análise, todas as pessoas que não são terapeutas são chamadas de “pessoas atendidas” (“clients” no original).

Repetições como heteroiniciação de reparo

Na AC, o reparo designa um conjunto de práticas para interromper o andamento de uma conversa a fim de lidar com problemas de fala, audição ou compreensão (Hayashi et al., 2013; Schegloff et al., 1977). Constatamos que uma das funções das repetições terapêuticas é a heteroiniciação de reparo, ou seja, o reparo iniciado por uma pessoa diferente da que produziu a fonte do problema (Hayashi et al., 2013; Schegloff et al., 1977). No trecho 1, Terapeuta 1 usa uma repetição que resulta numa solução de reparo fornecida pela falante anterior, a Avó.

Trecho 1 (S6.rpt3)

Trecho 1, transcrição original em inglês segundo as convenções da análise da conversa
GMO: avó; CH1: filho 1 (Gregory); CH4: criança 4; TH1: terapeuta 1; TH2: terapeuta 2.

Tradução das falas

1-3 GMO: Então vocês gostariam… pessoal… tipo… Sam… Gregory, de combinar mais uma noite?

5 CH4: Aham.

6 GMO: É?

7 TH1: Another [mais uma]… (olhando para GMO)

9 GMO: Noite.

10 TH1: Mais uma noite. É.

11 TH2: Hm?

Na linha 1, a Avó pergunta às crianças se gostariam que o irmão Gregory (que mora com outro parente) as visitasse uma noite a mais por semana. A Avó diz primeiro “Sam” (outro irmão) e se autocorrige para “Gregory”. CH4 responde “aham” (linha 5), seguido da confirmação da Avó, “é”. Na linha 7, Terapeuta 1 inicia um reparo com uma repetição de another (“mais uma”), espelhando o turno da Avó na linha 3. Essa repetição inclui um alongamento da última sílaba de another, com entonação plana e olhar dirigido à Avó, que é assim selecionada como destinatária. Essa repetição mostra que Terapeuta 1 recebeu adequadamente a primeira parte do turno e situa a fonte do problema depois de another (Walker e Benjamin, 2017). A Avó responde completando a repetição de seu turno original, iniciada por Terapeuta 1, com night (“noite”). A Avó trata a repetição de Terapeuta 1 como início de um reparo de audição, fornecendo a solução “noite”. Não a trata como início de um reparo de compreensão; do contrário, explicaria o sentido de sua fala ou daria conta dela. Terapeuta 1 acusa o recebimento da solução com uma repetição de recebimento, another night (“mais uma noite”, discutida adiante), e um “é” de confirmação.

Como mostra esse exemplo, as repetições que iniciam um reparo de audição são seguidas de respostas mínimas das pessoas atendidas, que fornecem apenas a parte do turno identificada como não ouvida. Elas servem, assim, para manter a intersubjetividade ou a compreensão compartilhada (Albert e de Ruiter, 2018); mas não suscitam expansão ou elaboração como propõem os escritos sobre o Diálogo Aberto.

No trecho 2, a repetição de Terapeuta 2 também heteroinicia um reparo, mas, desta vez, o reparo indica um problema de compreensão, e não de audição. Nessas situações, há alguma forma de elaboração pela pessoa atendida, ao contrário das respostas mínimas nos reparos de audição. No início do trecho 2, a Mãe descreveu uma briga entre sua filha, a Cliente, e a irmã da Cliente (Samantha), que levou a Cliente ao tribunal.

Trecho 2 (S5.rpt1)

Trecho 2, transcrição original em inglês segundo as convenções da análise da conversa
MOT: mãe; CLT: cliente; TH1: terapeuta 1; TH2: terapeuta 2.

Tradução das falas

1-4 MOT: Então fomos ao tribunal e… a AVO foi concedida, então agora ela não pode chegar perto da casa do pai.

6 MOT: [Nem da irmã ou da avó.]

7 CLT: [Nem do McDonald’s do meu bairro.]

8 (1,0) (T1 e T2 olham para a cliente)

13 TH2: Or your local McDonald’s [nem do McDonald’s do seu bairro].

14-15 MOT: A Samantha trabalha no McDonald’s do bairro.

16 TH2: Ah.

17 TH1: Certo.

Nas linhas 1-4, a Mãe descreve o resultado da audiência, uma AVO (Apprehended Violence Order, medida protetiva contra violência): a Cliente não pode chegar perto da casa do pai (onde o incidente ocorreu). Na linha 6, a Mãe acrescenta que outra condição da AVO é que a Cliente não pode chegar perto da irmã ou da avó. Em sobreposição, a Cliente acrescenta que também não pode chegar perto do “McDonald’s do bairro” (linha 7). Segue-se um silêncio na linha 8, com Terapeuta 2 olhando para a cliente. Nenhum esclarecimento vem da Cliente e, na linha 13, Terapeuta 2 repete or your local McDonald’s (“nem do McDonald’s do seu bairro”), com entonação levemente ascendente e olhar para a cliente. É uma repetição completa do turno da Cliente, que descarta um problema de audição e indica, antes, um problema de compreensão do turno inteiro (Robinson e Kevoe-Feldman, 2010). Na linha 14, a Mãe trata essa repetição como início de um reparo que pede uma explicação, respondendo que a irmã da Cliente, Samantha, trabalha no McDonald’s do bairro (como mencionado na linha 6, a cliente não pode chegar perto da irmã). Terapeuta 2 aparentemente não sabia que Samantha trabalhava no McDonald’s do bairro, e essa assimetria epistêmica (diferença de conhecimento) entre a família e Terapeuta 2 (além da repetição completa, que descarta um problema de audição) é relevante para que a Mãe atribua à repetição de Terapeuta 2 o valor de início de um reparo de compreensão (Robinson, 2013). Na linha 16, Terapeuta 2 responde com um marcador de mudança de estado, “ah”, indicando que a resposta da Mãe era uma informação nova (Heritage, 1984a) e que a repetição da linha 13 buscava de fato um reparo de compreensão. A repetição das palavras da cliente e a assimetria epistêmica bastam para iniciar com sucesso uma sequência de reparo, embora a fonte do problema tenha sido enunciada pela Cliente e a solução fornecida pela Mãe. Ao contrário da resposta mínima do trecho 1, essa forma de reparo suscita elaboração e uma informação nova que Terapeuta 2 desconhecia. Embora a resposta da Mãe fosse uma informação nova para Terapeuta 2, tratava-se de uma informação factual que não suscitou mais discussão ou diálogo entre os membros da família.

Repetições como sinais de recebimento em terceira posição

A equipe terapêutica também usava repetições para mostrar o reconhecimento e o recebimento da fala anterior e para encerrar sequências (Schegloff, 2007). Esses exemplos ocorrem geralmente em terceira posição, no fechamento de uma sequência composta de uma pergunta feita na terapia, uma resposta de um membro da família e uma repetição. No trecho 1 (acima), a primeira repetição de Terapeuta 1, another (linha 7), inicia uma sequência de reparo de um problema de audição. Depois que a Avó fornece a solução de reparo na linha 9, Terapeuta 1 repete o turno inteiro, another night (linha 10), mostrando o recebimento da solução.

No trecho 3, Terapeuta pergunta à Cliente se ela está no nono ano da escola (linha 2). A Cliente responde com uma negação, indicando que está no oitavo ano. Terapeuta acusa o recebimento com uma repetição de year eight (“oitavo ano”). Segue-se um silêncio antes que Terapeuta passe a um novo tema (dados não mostrados).

Trecho 3 (S11.rpt1)

Trecho 3, transcrição original em inglês segundo as convenções da análise da conversa
THP: terapeuta; CLT: cliente.

Tradução das falas

2 THP: Você está no nono ano [agora?]

3 CLT: [Oitavo] ano.

4 THP: Year eight [oitavo ano].

Esse exemplo mostra o uso da repetição em terceira posição para sinalizar o recebimento ou o reconhecimento da resposta do membro da família. Essas repetições mostram que a fala do membro da família foi ouvida adequadamente e não levam a sequências de reparo, mesmo quando a repetição termina com entonação levemente ascendente (como no trecho 2). Isso pode ser explicado pela posição sequencial da repetição e pela distribuição simétrica do conhecimento a ela associada. A pergunta original implica uma posição epistêmica rebaixada: fazer uma pergunta é se posicionar como sabendo menos que o destinatário, que passa a ter uma posição epistêmica, de “quem sabe”, mais forte. Depois que o destinatário responde, há uma distribuição mais simétrica do conhecimento (Heritage e Raymond, 2005). A repetição que se segue ocorre numa posição sequencial depois que a pessoa terapeuta recebeu a “informação” e mostra o recebimento dessa informação nova.

Repetições que indicam temas e suscitam elaboração

Outras repetições terapêuticas serviam para indicar temas para mais elaboração. Nesses contextos, a repetição vinha depois de alguma afirmação ou relato de um membro da família, indicava um tema a desenvolver e iniciava uma sequência com mais elaboração do falante anterior. No trecho 4, a repetição de Terapeuta 1 suscita respostas de elaboração de vários membros da família. No início do trecho, a Filha 4 vinha descrevendo as mudanças na irmã (a cliente) desde que esta passou a viver um sofrimento psíquico.

Trecho 4 (S4.rpt12)

Trecho 4, transcrição original em inglês segundo as convenções da análise da conversa
CH1: filha 1; CH2: criança 2; CH4: filha 4; MOT: mãe; TH1: terapeuta 1.

Tradução das falas

1 CH4: Sei lá, ela ria mais antes.

3 CH4: [Pra mim.]

4 CH1: [É.]

5 TH1: Ah, she used to laugh more [ela ria mais antes].

6 MOT: [Hmm.]

7 CH1: [E os abraços dela] também são diferentes.

8-9 CH4: [Ela ri] ainda, mas… é só que…

10 CH1: [É muito estranho.]

12 CH4: [É uma risada estranha.]

13 CH2: [É diferente.]

Na linha 1, a Filha 4 afirma que a irmã (identificada como a cliente) ria mais antes. Depois de um silêncio, a Filha 4 acrescenta um incremento, “pra mim”, enfatizando que sua fala era uma observação própria. Isso ocorre em sobreposição com a irmã mais velha (CH1, que não é a cliente), que concorda com um “é”. Na linha 5, Terapeuta 1 começa com “ah”, um marcador de mudança de estado que sugere o recebimento de uma informação nova ou uma nova compreensão (Heritage, 1984a), e continua com uma repetição das palavras da Filha 4, she used to laugh more (“ela ria mais antes”). Três pessoas respondem em rápida sucessão. A Mãe responde com um “hmm” alongado, de entonação plana, sem dizer mais nada. Em sobreposição (linha 7), a Filha 1 acrescenta que os abraços da cliente também são diferentes. A Filha 4 responde, em sobreposição com a Filha 1, que a irmã ainda ri (linha 8). Isso esclarece sua posição anterior, sugerindo que ela ria mais no passado. Depois de alguns silêncios no turno da Filha 4 (linhas 8-9), a Filha 1 acrescenta em sobreposição que a risada da cliente é “muito estranha”. A Filha 4 concorda na linha 12: “é uma risada estranha”.

A repetição de Terapeuta 1 tem um aspecto projetivo que seleciona uma parte da fala anterior da Filha 4 e a transforma em tema para mais elaboração. A repetição é tratada pelos destinatários como algo que pede resposta, com respostas de vários membros da família, incluindo uma possível confirmação da Mãe, informações adicionais da Filha 1 e um esclarecimento da Filha 4. A repetição indicou, assim, um tema para mais discussão e estimulou a elaboração, sem especificar um tipo ou formato de resposta, favorecendo a flexibilidade responsiva (Enfield, 2017).

No trecho 5, a repetição de Terapeuta 1 ocorre em terceira posição com entonação descendente, semelhante às repetições em terceira posição que mostram recebimento. No entanto, depois de um silêncio, o falante anterior fornece mais detalhes, tratando a repetição como um contexto relevante para elaborar. Pouco antes desse trecho, o Filho 2 tinha dito que tinha uma coisa grande para dizer, mas, na linha 1, recusa-se a elaborar (“deixa pra lá”). O trecho começa com o Padrasto pedindo ao Filho 2 que fale mais.

Trecho 5 (S9.rpt4)

Trecho 5, transcrição original em inglês segundo as convenções da análise da conversa
CH2: filho 2; SFA: padrasto; TH1: terapeuta 1.

Tradução das falas

1-2 SFA: Não, qual é a sua coisa grande? Você disse que tinha uma coisa grande.

4-5 TH1: [Hã, tem]… é… ah… tem uma coisa grande?

6 CH2: Comunicação.

8 TH1: Communication [comunicação].

9 SFA: [(Certo.)]

10 (0,8) (SFA e TH1 continuam olhando para CH2)

11 CH2: (…) A gente não conversa.

12 TH1: É.

14-17 CH2: E… isso… não dá certo, [tipo] tudo vai pro buraco.

Nas linhas 3 e 4, há sobreposição entre o Filho 2 e Terapeuta 1. O turno do Filho 2 é inaudível e ele o abandona. Terapeuta 1 hesita brevemente depois da sobreposição e reformula como sua a pergunta anterior do Padrasto: “tem uma coisa grande?”. De modo semelhante às questões de primazia epistêmica (Heritage e Raymond, 2005; Thompson et al., 2015), essa reformulação implica que Terapeuta 1 chegou à pergunta de forma independente, com primazia deôntica e autoridade para dirigir a sessão. Na linha 6, o Filho 2 responde “comunicação”. Há um silêncio antes que Terapeuta 1 repita communication com entonação descendente na linha 8 (semelhante ao trecho 1, linha 10). O Padrasto também acusa o recebimento com um “certo” em sobreposição com a fala de Terapeuta 1. O Filho 2 trata a repetição como um contexto relevante para elaborar, respondendo com mais detalhes: quando a família não conversa, “tudo vai pro buraco” (linhas 14-17). Como mostrado antes, repetições em terceira posição podem mostrar o recebimento da informação anterior e encerrar a discussão sobre o tema (Schegloff, 2007). No entanto, como demonstra o trecho 5, as repetições em terceira posição são potencialmente equívocas e podem encerrar ou prolongar uma sequência de fala (Schegloff, 2007).

O trecho 6 mostra como a equivocidade das repetições pode não levar à resposta esperada, e Terapeuta então prossegue com outro enunciado que suscita elaboração. O trecho 6 começa com o Cliente falando de suas dificuldades com a alimentação e de sua ansiedade.

Trecho 6 (S1.R1)

Trecho 6, transcrição original em inglês segundo as convenções da análise da conversa
CLT: cliente; FAT: pai; THP: terapeuta.

Tradução das falas

1-2 CLT: Hã, eu comia e… ficava bem.

4 THP: Você… you’d be alright [você ficava bem].

5 CLT: É.

7 THP: Você se recuperava.

9 THP: Tipo…

10-13 CLT: Não, eu… eu comia, e aí não me preocupava com o que estava comendo, ou coisa assim, e sentia que estava comendo direito.

15 THP: Hm.

Na linha 1, o Cliente diz que comia e depois ficava bem. Segue-se um longo silêncio de 1,4 segundo (linha 3), com acenos de cabeça de Terapeuta. Na linha 4, Terapeuta começa um turno com you’d get (“você…”), que projeta um resumo ou uma formulação do turno anterior do Cliente. Em vez disso, Terapeuta se autocorrige com you’d be alright (“você ficava bem”), uma repetição das palavras do Cliente com entonação levemente ascendente. Na linha 5, o Cliente trata a repetição de Terapeuta como pedido de confirmação (e não de elaboração), respondendo “é”, sem mais elaboração. Essa confirmação não parece ser o que Terapeuta buscava, porque, depois de um silêncio na linha 6, Terapeuta acrescenta you’d recover (“você se recuperava”), que dá outra descrição do estado do Cliente além de “ficar bem”. De início, o Cliente não retoma, e Terapeuta começa outro turno com “tipo” na linha 9, projetando uma autocorreção ou um esclarecimento. Na linha 10, o Cliente interrompe Terapeuta e rejeita a interpretação “você se recuperava”, elaborando e dizendo que comia e depois não se preocupava com o que estava comendo. A repetição inicial de Terapeuta recebe um “é” do Cliente, o que sugere que o cliente entendeu a repetição como pedido de confirmação. Terapeuta, porém, não acusa o recebimento da confirmação do Cliente e responde revisando seu turno, tratando assim a confirmação do Cliente como insuficiente. Vemos aqui, então, como a indeterminação de algumas repetições pode resultar em várias tentativas de obter da pessoa atendida uma fala mais elaborada.

Repetições como sinais de recebimento fora dos lugares relevantes para a transição

Nos trechos a seguir, apresentamos repetições terapêuticas fora dos lugares relevantes para a transição. Os lugares relevantes para a transição são momentos em que a troca de falante é normativamente esperada (mas pode ou não ocorrer; Schegloff, 2007). As repetições que não ocorriam num lugar relevante para a transição (ou logo depois) resultavam em sobreposição com a fala de um membro da família. Essas repetições ocorriam em dois contextos diferentes e não suscitavam resposta explícita. No primeiro, a repetição incide sobre uma palavra, em sobreposição com o falante em curso. No segundo, incide sobre uma palavra do turno do falante anterior, em sobreposição com um novo falante. O trecho 7 é um exemplo de repetição de Terapeuta em sobreposição com a fala do falante em curso, fora de um lugar relevante para a transição. Ela é seguida de um silêncio sem resposta, antes que a Mãe tome a palavra por conta própria e responda ao turno anterior da Cliente. Pouco antes do trecho, a Mãe tinha sugerido que a Cliente acha útil conversar com sua terapeuta e fazer “planos”. A partir da linha 1, a Cliente responde que nada parece resultar dos planos.

Trecho 7 (S5.rpt9)

Trecho 7, transcrição original em inglês segundo as convenções da análise da conversa
CLT: cliente; THP: terapeuta 2; MOT: mãe.

Tradução das falas

1-6 CLT: Mas tipo… a questão é que o plano de ação, tipo, nunca se concretiza, ou… nada… ele só é dito… e aí é isso, tipo, ele é dito, e… [nada mais acontece.]

7 THP: [Gets said] [ele é dito] (olhando para a cliente, com acenos lentos)

8 (1,3)

9-11 MOT: Bem, geralmente é porque a nossa família inventa um drama incrível para estragar tudo.

Nas linhas 4-6, a Cliente afirma que o plano de ação “só é dito” e nada acontece em consequência. Na linha 7, Terapeuta repete gets said (“ele é dito”) em sobreposição com o fim do turno da Cliente, “nada mais acontece”, num ponto em que o turno da Cliente ainda não está completo. A repetição é dita num volume bem audível, com ênfase em said, olhar para a Cliente e acenos lentos. Segue-se um silêncio de 1,3 segundo na linha 8, antes que a Mãe diga que a família costuma criar algum drama, como razão pela qual os planos não são postos em prática. A repetição de Terapeuta ocorre fora de um lugar relevante para a transição e ninguém responde a ela; Terapeuta também não a reformula nem revisa o turno para buscar uma resposta durante o longo silêncio da linha 8. Em vez disso, a Mãe responde à fala anterior da Cliente, e não à repetição de Terapeuta. A repetição não é tratada, portanto, nem como início de reparo nem como pedido de elaboração; junto com os acenos lentos e a falta de continuidade por parte de Terapeuta, parece funcionar como um sinal de recebimento da fala da Cliente que não projeta normativamente uma resposta oral.

No trecho 8, a repetição de Terapeuta 1 fora de um lugar relevante para a transição ocorre em sobreposição com o turno do falante seguinte. Mas, em vez de sinal de recebimento, como no trecho anterior, a repetição serve para voltar ao tema anterior e evitar uma possível discussão. O trecho começa com a Mãe dizendo que o Cliente não participou de um programa escolar quando esteve internado porque “não gostava dos professores de lá”.

Trecho 8 (S10.rpt4)

Trecho 8, transcrição original em inglês segundo as convenções da análise da conversa
MOT: mãe; CLT: cliente; FAT: pai; TH1: terapeuta 1; TH2: terapeuta 2.

Tradução das falas

1 MOT: Ele não gostava dos professores de lá?

3 CLT: E das regras deles.

5 MOT: E das regras deles.

6 (0,7) (olhar mútuo entre CLT e MOT)

7 MOT: Você pode dizer a eles por quê.

8-12 FAT: Não olha [pra mamãe, você tem que olhar para as outras] pessoas que estão aqui; a mamãe não [vai ser a sua salvadora], [então] sabe, você fala…

10 MOT: [É… você…]

13 TH1: [Their rules] [as regras deles] (olhando para CLT; CLT olha para TH1)

14 TH2: Hm.

15 FAT: … com as pessoas, [(e elas) vão te ajudar.]

16-18 CLT: [É, tipo…] se você tem cicatrizes e tal, tem que cobrir vinte e quatro horas por dia.

Na linha 3, o Cliente acrescenta um incremento ao turno da Mãe: não gostava da escola por causa das “regras deles”. Depois de um silêncio, a Mãe incentiva o Cliente a falar (linha 7). Na linha 8, o Pai diz ao Cliente que olhe para a equipe terapêutica e não para a Mãe, e que a Mãe não vai ser sua salvadora, referência ao fato de o Cliente não falar por si mesmo. A repetição de Terapeuta 1 na linha 13, their rules (“as regras deles”), com ênfase e alongamento, ocorre em sobreposição com a fala do Pai, com o olhar dirigido ao Cliente. Essa repetição transforma em tema a fala anterior sobre as “regras deles” e compete com o turno do Pai (Schegloff, 2000). O Cliente é interpelado ao mesmo tempo pelo Pai, que lhe diz para falar com a equipe terapêutica, e por Terapeuta 1, que o convida a falar do tema anterior, as “regras deles”. A repetição de Terapeuta 1 também afasta o Cliente de responder à repreensão do Pai e de uma possível discussão. A repetição cumpre, assim, duas funções: um pedido de elaboração e o desvio de uma trajetória conversacional que poderia resultar em conflito aberto.

Discussão

Neste estudo, as repetições feitas pela equipe terapêutica cumpriam uma grande variedade de funções interacionais, como iniciar reparo, marcar recebimento, indicar um tema para mais discussão e desviar a conversa de uma área indesejada. Embora essas repetições sejam semelhantes às identificadas na conversa cotidiana, são usadas para realizar objetivos institucionais situados, pertinentes a uma abordagem de Diálogo Aberto. Por exemplo, ao usar repetições para iniciar reparo e mostrar recebimento, a equipe terapêutica também demonstra que acompanha de perto a fala das pessoas atendidas e incorporando essa fala às suas respostas.

Da mesma forma, as repetições eram usadas para criar contextos sequenciais que incentivam respostas elaboradas das pessoas atendidas, sem recorrer a uma ação ou prática que imponha restrições mais fortes à resposta (por exemplo, um turno interrogativo). Essas repetições funcionam como um estímulo mínimo que prolonga o tema da conversa e oferece ao destinatário uma variedade maior de respostas possíveis, dentro de um campo temático determinado na terapia. Esses usos das repetições estão estreitamente alinhados à literatura do Diálogo Aberto, que recomenda a terapeutas incorporar e repetir as palavras da família para incentivar a elaboração.

Quando as repetições fora de lugares relevantes para a transição ocorrem durante a fala do mesmo falante da primeira ocorrência, geralmente não recebem resposta nem afetam a trajetória sequencial do turno. Funcionam, assim, como sinais de recebimento de parte do turno em curso, que não exigem resposta. Quando as repetições fora de lugares relevantes para a transição ocorriam durante a fala do falante seguinte, sua função era menos constante. No trecho 8, a repetição competia com outro falante e cumpria a dupla função de pedir elaboração sobre um tema terapeuticamente relevante e desviar a conversa de uma possível discussão. As repetições fora de lugares relevantes para a transição geralmente não interrompem o andamento da conversa e mostram o recebimento, o reconhecimento e a atenção terapêutica à fala da rede em desenvolvimento. Nesse sentido, são coerentes com uma abordagem de Diálogo Aberto, mas geralmente não levam à elaboração proposta nos escritos sobre as repetições no Diálogo Aberto.

Pesquisas anteriores de AC sobre o Diálogo Aberto mostraram que terapeutas usam diferentes práticas que produzem resultados semelhantes. Por exemplo, Ong et al. (2021b) descrevem como terapeutas usam a expressão “fico me perguntando” para suscitar posicionamentos dos membros da família. Essas formas de construção do turno permitem respostas variadas dos destinatários e, em certa medida, atenuam a autoridade terapêutica. Esses resultados também se alinham ao trabalho de Knol et al. (2020), que descrevem como as repetições especulares feitas em psicoterapia servem como pedidos de elaboração que evitam acrescentar uma interpretação terapêutica.

Nossos resultados sugerem que o uso de repetições proposto para a prática do Diálogo Aberto oferece uma visão simplificada de como as repetições são usadas em conversas terapêuticas reais, porque as repetições cumprem uma variedade de funções que as descrições atuais da prática dialógica não contemplam. Por exemplo, as repetições terapêuticas não são um espelhamento neutro das palavras da família. Elas selecionam e indicam partes específicas da fala anterior para desenvolvimento e refletem, assim, alguma tomada de decisão profissional, que por sua vez orienta a conversa em certas direções. Isso as aproxima de outras respostas terapêuticas, como as formulações, que oferecem um resumo ou uma “conclusão” da fala da pessoa atendida (Antaki, 2008; Antaki et al., 2005). Pesquisas anteriores de AC mostraram, de modo semelhante, que terapeutas do Diálogo Aberto selecionam partes da fala anterior, às vezes com interpretações, e excluem outras, para suscitar posicionamentos de diferentes pessoas (Ong et al., 2021b; Rossen et al., 2020; Schriver et al., 2019). Assim, embora o uso de repetições limite as respostas terapêuticas às próprias palavras das pessoas atendidas, ele ainda envolve um exercício de autoridade, pela seleção e pela orientação da conversa.

Implicações para a prática

Este estudo mostra como as descrições teóricas da prática terapêutica precisam ser confrontadas com interações conversacionais reais para validar as funções que lhes são atribuídas (Peräkylä e Vehviläinen, 2003). O Diálogo Aberto enfatiza uma abordagem colaborativa que põe em primeiro plano as perspectivas da família, e não as da equipe terapêutica. No entanto, mesmo em práticas aparentemente desejáveis como as repetições, alguma seleção, direção da sessão e exercício de autoridade na terapia são inevitáveis. As descrições atuais do Diálogo Aberto não tratam adequadamente da autoridade terapêutica nem dos possíveis benefícios do controle da sessão para favorecer o diálogo (Ong et al., 2021a, 2021b). As descrições teóricas atuais do Diálogo Aberto consistem sobretudo em ideais, enquanto relatos mais práticos e pragmáticos são relativamente pouco desenvolvidos. Para a clínica, isso significa que os ideais teóricos do Diálogo Aberto precisam ser temperados com a realidade da autoridade e do poder terapêutico nas conversas terapêuticas. Qualquer que seja sua abordagem terapêutica, recomendamos a terapeutas que tenham em mente as recomendações contidas nos modelos teóricos e as confrontem com suas experiências terapêuticas reais.

Esta pesquisa mostra que uma prática conversacional como a repetição não produz um único tipo de resultado. É preciso, portanto, que terapeutas prestem atenção à posição sequencial de suas repetições. Depois de uma pergunta factual direta, a repetição da resposta pode mostrar o recebimento dessa informação e encerrar a conversa. Quando uma pessoa atendida termina um turno de fala, uma repetição pode estimulá-la a elaborar um tema específico, dando-lhe ao mesmo tempo flexibilidade na forma de responder. Ou seja, a repetição não direciona a pessoa a dar um tipo particular de resposta nem uma resposta focalizada. Assim, uma repetição nessa situação pode prolongar a fala sobre um tema indicado, mas pode não ser útil quando se busca uma informação específica. Essa função equívoca das repetições também pode ser útil para selecionar um falante específico em meio à disputa pela palavra. Terapeutas podem, assim, indicar ao mesmo tempo um tema e um falante, sem encerrar explicitamente um tema nem repreender um falante que interrompe. As repetições podem, portanto, ajudar a dirigir a conversa minimizando os riscos de romper o engajamento das famílias.

Limitações

Uma limitação deste estudo é que, embora a equipe terapêutica participante tivesse experiência na abordagem do Diálogo Aberto, estavam fazendo formação avançada no momento da coleta dos dados. Esses resultados podem, portanto, representar uma etapa de seu processo de aplicação de uma abordagem dialógica e uma atenção às recomendações prescritivas atuais. Isso se liga a uma questão mais ampla sobre o que constitui as práticas essenciais de uma abordagem dialógica e sobre a atual falta de critérios de fidelidade acordados e operacionalizados. Apresentamos, assim, esses resultados como indicação das práticas reais de terapeutas que se dedicam a uma maneira dialógica de trabalhar. Novas pesquisas poderiam verificar se essas práticas também são usadas por profissionais com mais experiência e se aparecem outras funções das repetições terapêuticas. Como investigávamos o uso das repetições lexicais mencionadas na literatura teórica sobre o Diálogo Aberto, concentramo-nos na produção verbal das repetições, com menos atenção aos recursos multimodais da interação. A pesquisa em AC multimodal pode trazer compreensões mais detalhadas das ações comunicativas, incluindo repetições corporais (Mondada, 2018). Isso fica para estudos futuros.

Os textos fundadores do Diálogo Aberto incentivaram o uso de repetições porque se supõe que elas permitam à pessoa atendida ouvir e refletir sobre as próprias palavras (Haarakangas et al., 2007; Olson et al., 2014; Seikkula, 2011; Seikkula e Arnkil, 2006; Seikkula e Trimble, 2005). A pesquisa em AC se concentra nos detalhes observáveis da conversa, e qualquer inferência sobre os processos internos de pensamento das pessoas presentes precisa se apoiar em suas interações manifestas. Este estudo não podia avaliar em que medida as repetições incentivavam a reflexão interior das pessoas atendidas. Pudemos mostrar que certas repetições podiam suscitar elaboração e mais detalhes sobre a fala anterior da família, mas não que essa elaboração estivesse ligada a reflexões interiores ou a novas compreensões. Essa questão pode ser tratada em pesquisas futuras de AC, possivelmente com o acréscimo de outros métodos para investigar os processos internos de pensamento das pessoas participantes.

Ao examinar o uso das repetições terapêuticas em conversas terapêuticas reais, procuramos mostrar as várias maneiras pelas quais as repetições podem ser usadas, tanto para fins terapêuticos teorizados quanto para outras funções conversacionais. Uma descrição minuciosa das implicações normativas das práticas conversacionais pode dar a terapeutas uma compreensão do repertório de práticas pertinentes ao Diálogo Aberto, a ser posto em prática de maneira sensível ao contexto. Com isso, esperamos contribuir para uma compreensão mais matizada do trabalho conversacional realizado na terapia e evidenciar os limites de pressupostos sobre as funções de diferentes práticas conversacionais sem referência a resultados empíricos sobre sua organização.

Complexe Systémique: a reter

Este artigo faz o que a literatura do Diálogo Aberto raramente faz: olha o que de fato acontece, linha a linha, quando a pessoa terapeuta repete as palavras de uma família. A lição principal está na noção de “prova do turno seguinte”: uma repetição não tem função em si, tem a que a resposta lhe dá. A mesma repetição pode abrir uma elaboração (“ela ria mais antes” faz três crianças falarem ao mesmo tempo), encerrar uma pergunta factual (“oitavo ano”) ou obter apenas um “é”, como no trecho 6, em que, sem obter uma resposta elaborada, Terapeuta acaba propondo a própria fórmula, “você se recuperava”, logo corrigida pelo rapaz. O trecho 8 é o mais sutil: repetir “as regras deles” permite convidar o adolescente a falar sem contradizer o pai que o repreende. A conclusão não condena a repetição, ela a desidealiza: escolher uma palavra já é dirigir, e é melhor saber disso. Limitações: terapeutas em formação, análise sobretudo verbal, nada sobre a reflexão interior que as repetições deveriam suscitar. Ler com o estudo da mesma equipe sobre as pessoas em formação, que aprendem a “segurar as ideias com leveza”, e com o estudo de caso sobre compartilhar reflexões numa reunião de rede.

Notas do original

Agradecimentos. Ben Ong e Niels Buus contam com o generoso apoio do Open Dialogue Centre de Sydney. Publicação em acesso aberto viabilizada pela Universidade Monash, no âmbito do acordo Wiley-Universidade Monash firmado por meio do Council of Australian University Librarians.

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Tradução não oficial em português de Uma análise da conversa das repetições do terapeuta nas reuniões de rede do Diálogo Aberto, de Ben Ong, Scott Barnes e Niels Buus, Family Process, vol. 63 (2024), doi: 10.1111/famp.12852, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (trechos reproduzidos em inglês, com tradução das falas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “A conversation analysis of therapist repeats in open dialogue network meetings”, publicado em Family Process (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Ong, B., Barnes, S., & Buus, N. (2024). Uma análise da conversa das repetições do terapeuta nas reuniões de rede do Diálogo Aberto (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/uma-analise-da-conversa-das-repeticoes-do-terapeuta-nas-reunioes-de-rede-do-dialogo-aberto (Obra original publicada em 2024 em Family Process, 63(1) (2024); republicada em 2024 por Family Process, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/famp.12852)

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