Australian and New Zealand Journal of Family Therapy · Terapia familiar

Usar a entrevista de exploração do apego adulto (AEAI) para romper o ciclo do trauma intergeracional: ilustrações de um programa de reunificação familiar

Como ajudar pais e mães cujos filhos foram acolhidos a não repetir a própria história? Em Adelaide, um serviço de reunificação familiar confiou às equipes de acompanhamento uma ferramenta vinda da terapia familiar, a Adult Exploration of Attachment Interview: genograma e, depois, mapas do que cada figura de cuidado ensinou sobre ser pai ou mãe e ser criança. As histórias de dois pais, Gary e Peter, mostram como a empatia pela criança que se foi pode reabrir a empatia pelo próprio filho.

Autores Jackie Amos (Centacare Catholic Family Services e University of South Australia, Adelaide, Austrália); Bryan Todd, Bryony Gibson e Samuel Carpenter (Centacare Catholic Family Services, Adelaide, Austrália); Catia G. Malvaso e Paul H. Delfabbro (Universidade de Adelaide, Austrália)Primeira publicação Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, 19 de maio de 2022Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Usar a entrevista de exploração do apego adulto (AEAI) para romper o ciclo do trauma intergeracional: ilustrações de um programa de reunificação familiar, de Jackie Amos, Bryan Todd, Bryony Gibson, Samuel Carpenter, Catia G. Malvaso e Paul H. Delfabbro, publicado na Australian and New Zealand Journal of Family Therapy (Wiley) (2022), doi: 10.1002/anzf.1490, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de listas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Focar o luto pelas experiências que faltaram, em vez da aceitação da culpa, pode estimular a reflexão e a autoconsciência.

Jackie Amos, Bryan Todd, Bryony Gibson, Samuel Carpenter, Catia G. Malvaso e Paul H. Delfabbro

Resumo

A reunificação familiar é uma área de grande importância política para os sistemas de proteção à infância. O retorno seguro de crianças em acolhimento fora do lar para seus pais biológicos ou parentes, e a preservação da família a longo prazo, podem atenuar os efeitos prejudiciais da separação entre as crianças e suas famílias. Neste artigo, descrevemos um tipo de família para o qual a reunificação foi considerada: as famílias afetadas pelo trauma intergeracional. Ajudar famílias afetadas pelo trauma e pelo abuso intergeracionais exige compreender os mecanismos e processos que mantêm o trauma intergeracional e como eles podem orientar abordagens terapêuticas para o trabalho com as crianças e suas famílias. Este artigo usa estudos de caso para ilustrar o uso da Adult Exploration of Attachment Interview (AEAI), entrevista de exploração do apego no adulto, como parte de um programa terapêutico de reunificação mais amplo num estado australiano. A AEAI se concentra em ajudar pais e mães a tomar consciência do impacto de experiências anteriores da própria infância e a atenuar sentimentos de vergonha, autoculpabilização e inadequação, ajudando a figura parental a enfrentar as experiências negativas do passado. O objetivo é ajudar a figura parental a reconhecer a importância do passado, consolidar suas forças e desenvolver relações mais nutridoras com os filhos. As ilustrações de caso mostram que essa terapia foi um dos componentes que permitiram enfrentar, em duas famílias, as causas do comportamento e do sofrimento psicológico que vinham impedindo a reunificação após o acolhimento. Isso foi alcançado por meio de um processo de reflexão e autoconsciência, e não de um processo centrado na culpa ou na vergonha, com a pessoa terapeuta presente para ajudar a verbalizar e formular o que, de outra forma, poderiam ter permanecido processos ocultos ou implícitos. Nos dois casos, essa consciência ajudou a ressignificar a relação entre pai ou mãe e filho e levou a mudanças comportamentais observáveis nas práticas parentais.

Pontos-chave

  1. É importante focar os padrões intergeracionais de trauma do apego na família de origem de pais e mães quando esses padrões levaram à retirada da criança por motivos de proteção à infância.
  2. Focar o luto pelas experiências que faltaram, em vez da aceitação da culpa, pode estimular a reflexão e a autoconsciência em pais e mães com história de trauma do apego, evitando desencadear uma culpa e uma vergonha impossíveis de manejar.
  3. Inserir a terapia na perspectiva mais ampla do acompanhamento social e oferecer os serviços na casa da família pode facilitar o engajamento, pois isso pode dar a pais e mães um elemento de controle e um senso de igualdade, e ser uma experiência menos confrontadora e mais manejável do que intervenções terapêuticas mais tradicionais, em consultório.
  4. Formar e apoiar profissionais do acompanhamento social para oferecer terapia sensível ao trauma pode melhorar o acesso das famílias a essas intervenções e seu engajamento nelas, já que a terapia pode acontecer dentro de uma relação de confiança, quando a pessoa atendida se diz pronta, sem encaminhamento a um novo serviço.
  5. A terapia combinada com abordagens multidisciplinares que atendam às necessidades tanto de pais e mães quanto das crianças pode facilitar o sucesso da reunificação familiar.

A reunificação ou restauração familiar diz respeito ao retorno seguro de crianças em acolhimento fora do lar para suas famílias biológicas ou parentes. A reunificação foi apontada como prioridade política na Austrália. Isso se deve em grande parte às preocupações com os efeitos a longo prazo das retiradas sobre as crianças, em especial as crianças aborígenes, e em parte ao fato de a reunificação ser uma das poucas saídas do acolhimento potencialmente permanentes. Aumentar as taxas de reunificação tem se mostrado mais difícil na prática (AIHW, 2019).

Como apontam Farmer (2018), Fernandez (2013) e Fernandez e Lee (2013), o sucesso da reunificação (geralmente definido como um período de pelo menos seis a 12 meses de estabilidade após o retorno para casa) é mais provável quando os programas envolvem apoio intensivo e flexível, apoio e capacitação de pais e mães e apoio prático; quando houve mudanças na composição da família (por exemplo, a pessoa abusiva ou desestabilizadora saiu de casa); e quando o motivo do acolhimento não foi abuso ou negligência graves nem conflito familiar grave e persistente (ver Farmer, 2018, para uma revisão abrangente). No entanto, negligência e abuso significativos são antecedentes comuns da retirada compulsória de crianças de suas famílias de origem no contexto do trauma intergeracional, inclusive em famílias nas quais a reunificação está sendo seriamente considerada.

Outra dificuldade relacionada é que uma porcentagem considerável das tentativas de reunificação fracassa depois que as crianças voltam para casa. Neil, Gitsels e Thoburn (2019), num artigo de revisão recente, identificam que entre 45% e 65% das crianças que voltam para os pais de origem reingressam no acolhimento em até cinco anos. Para essas crianças, submetidas a nova negligência, novo abuso e nova retirada, o dano aumenta. É compreensível que os serviços públicos se esforcem para evitar esse desfecho.

O trauma na proteção à infância

O objetivo deste artigo é descrever a inclusão de uma intervenção sensível ao trauma num serviço de reunificação baseado no acompanhamento social, por meio de dois estudos de caso ilustrativos. Nos contextos de proteção à infância, o trauma, em qualquer geração, pode surgir de uma série de fatores. Alguns desses fatores podem ser estruturais (por exemplo, falta de emprego, dificuldades de moradia), de modo que a figura parental enfrenta pressões externas tão fortes que consomem seus recursos a ponto de resultar em negligência ou abuso da criança. Além disso, muitos pais e mães apresentam vulnerabilidades emocionais, mentais e físicas, inclusive uso problemático de substâncias, em consequência da exposição crônica ao trauma em relações íntimas e de relações de apego gravemente perturbadas na primeira infância (Thompson, 2018). Isso agrava os efeitos da desvantagem estrutural. Sabe-se que pais e mães das Primeiras Nações ou de origem aborígene correm um risco particular, em razão das histórias de colonização ou das políticas de retirada forçada. Reconhecemos também a associação significativa entre o fato de pais e mães terem passado por acolhimento e a probabilidade de seus próprios filhos serem notificados ou entrarem no acolhimento (Wall-Wieler et al., 2018).

Thompson (2018), referindo-se ao trauma vivido na primeira infância, na infância e na vida adulta, identifica que o estresse traumático não resolvido na figura parental contribui fortemente não só para as dificuldades parentais, mas também para um baixo engajamento com os serviços públicos. Ela argumenta que, a menos que se resolvam o estresse traumático resultante da traumatização interpessoal crônica e precoce e as dificuldades associadas de formar relações íntimas confiantes e abertas, os esforços de reunificação ficarão comprometidos.

A abordagem conceitual que fundamenta a integração do cuidado sensível ao trauma ao acompanhamento social tradicional foi descrita por Amos, Furber e Segal (2011), Amos (2017) e Amos, Segal e Cantor (2015), e incorporada a um referencial terapêutico adotado pelo serviço de reunificação. Esses trabalhos sintetizaram achados da pesquisa sobre apego em famílias de alto risco (Lyons-Ruth & Jacobitz, 1999; Lyons-Ruth, Yellin, Melnick, & Atwood, 2005; Liotti, 2011; Liotti & Gilbert, 2011), da dissociação estrutural da personalidade (Van der Hart, Nijenhuis, & Stell, 2006), de uma compreensão, em termos de sistemas sociais, das adaptações dos mamíferos a ambientes pobres em recursos e traumatizantes (Kortmulder & Robbers, 2005), e conceitos das teorias psicodinâmicas e da aprendizagem.

O modelo afirma que níveis elevados de medo e vergonha impossíveis de resolver são centrais na transmissão intergeracional da negligência e do abuso. O medo e a vergonha da primeira infância da figura parental são reativados pela parentalidade, o que perturba a comunicação emocional entre a figura parental e o bebê (Lyons-Ruth, Yellin, Melnick, & Atwood, 2005). Os maus-tratos agudos e episódicos da criança por sua figura parental são entendidos como uma tentativa de estabilizar a reativação do medo e da vergonha evocada pela presença do bebê ou da criança (Amos, Furber, & Segal, 2011). As lutas crônicas de poder nessas relações entre pais e filhos são entendidas como tentativas de usar dinâmicas relacionais competitivas para estabelecer um equilíbrio tenso e de baixa intensidade que, paradoxalmente, traz estabilidade à custa do vínculo emocional (Amos, Segal, & Cantor, 2015).

Esse modelo foi usado para prever os objetivos de qualquer intervenção eficaz para romper os ciclos de transmissão intergeracional dos maus-tratos infantis. Trata-se de identificar e elaborar as emoções ligadas ao trauma, inclusive medo e vergonha avassaladores, romper a dependência de dinâmicas relacionais competitivas, apoiar a cooperação e ajudar a figura parental a se diferenciar da criança, para que a criança seja vista como um indivíduo separado, com identidade e agência próprias (Amos & Segal 2018).

O serviço de reunificação

O serviço de reunificação discutido aqui é oferecido por uma grande organização não governamental, a Centacare Catholic Family Services, em Adelaide, na Austrália. O serviço integra apoio prático para enfrentar a desvantagem estrutural a intervenções terapêuticas focadas nas origens traumáticas de uma parentalidade aquém do ideal. A equipe inclui uma pessoa em tempo integral na gestão e na prática sênior, sete equivalentes de tempo integral (ETI) de atuação em reunificação e 0,3 ETI de psiquiatria da infância e da adolescência, numa função de terapia especializada. O programa é financiado pelo serviço público estadual de proteção à infância para oferecer apoio intensivo a famílias cujos filhos foram retirados pela autoridade pública e colocados em acolhimento.

As crianças atendidas pelo serviço em geral estão sujeitas a ordens judiciais ou acordos de curta duração, entre três e 12 meses, embora a equipe também atenda jovens com ordens de longa duração, que podem estar em acolhimento há muitos anos. O propósito geral desses serviços é ajudar as famílias a enfrentar os problemas que levaram à retirada da criança, das crianças ou dos adolescentes, para permitir um retorno seguro à família de origem, sem supervisão estatal.

Em 2019–2021, período abordado neste relato, o serviço de reunificação ofereceu atendimento domiciliar voluntário com duração de até 12 meses. As famílias recebiam até 11 horas de serviço por semana (incluindo todas as tarefas de acompanhamento). Os contratos de reunificação familiar definiam como elegíveis as famílias cujos filhos estavam sob custódia ou tutela da autoridade pública e cujo plano de caso era a reunificação ou restauração à família de origem. No período 2019/2020, o serviço trabalhou com 72 famílias e, no ano seguinte, com 55.

Neste artigo, mostramos como um dos componentes da intervenção terapêutica, a Adult Exploration of Attachment Interview (AEAI; Chambers, 2012), ajudou a enfrentar o trauma subjacente à parentalidade comprometida que o serviço público identificara como obstáculo à reunificação.

A Adult Exploration of Attachment Interview

A AEAI foi desenvolvida por Chambers (2012) como forma de abordar, na terapia familiar, as influências indesejadas da família de origem em pais e mães, ajudando essas figuras parentais a superar padrões relacionais repetitivos e pouco úteis nas relações íntimas, como a relação entre pais e filhos. Com base na teoria do apego, Chambers reconhece que episódios de intensa ativação emocional muitas vezes desorientam os adultos e interferem na capacidade de ser a figura parental desejada. Supõe-se que essas reações venham da repetição dolorosa de procedimentos relacionais codificados implicitamente, originados nas relações traumatizantes da primeira infância da figura parental, que contêm informações sobre o que pais e filhos podem esperar uns dos outros, transmitidas inconscientemente de geração em geração.

A AEAI é uma das partes de uma intervenção semimanualizada em quatro etapas, a Parallel Parent and Child Therapy (P-PACT, terapia paralela de pais e filhos) (Chambers, Amos, Allison, & Roeger, 2006; Amos, Beal, & Furber; 2007). A P-PACT tem sido usada em serviços de saúde mental da infância e da adolescência e na clínica privada na Austrália e na Nova Zelândia. Há pesquisas que apoiam seu uso em famílias nas quais o cuidado e a proteção das crianças estão comprometidos, mas as crianças continuam sob os cuidados da família (Furber, Amos, Segal, & Kasprzak, 2013).

O serviço de reunificação identificou a AEAI como um processo estruturado que poderia ajudar a equipe a explorar com pais e mães como as experiências de trauma nas primeiras relações de apego afetam sua parentalidade. Isso amplia o uso da AEAI, pois nessa coorte a retirada das crianças foi motivada por sérias preocupações com sua segurança, ligadas, segundo nossa hipótese, ao trauma que pais e mães viveram na primeira infância.

Inicialmente, a AEAI era conduzida pela pessoa terapeuta especializada. Ao longo de três anos, as pessoas responsáveis pelo acompanhamento terapêutico assumiram a condução da AEAI. Antes de conduzir a AEAI, cada uma dessas pessoas tinha de passar pelo processo completo da AEAI com um membro da equipe, tanto no papel de participante quanto no de facilitação, sob supervisão direta da pessoa terapeuta especializada de referência. Isso vinha depois de um período acompanhando essa pessoa terapeuta nas sessões com as famílias, junto com uma formação teórica formal para compreender o modelo subjacente. Hoje, a AEAI é oferecida à maioria de pais e mães que chegam ao serviço de reunificação. A adesão tem aumentado de forma constante: mais de 50% de pais e mães aceitam hoje o convite para explorar sua AEAI.

Durante a AEAI, a pessoa responsável pelo acompanhamento terapêutico e a figura parental exploram em detalhe o que esta aprendeu sobre as relações entre pais e filhos a partir das próprias experiências de buscar cuidado e de ser cuidada (Chambers, 2012). Primeiro, a pessoa responsável pelo acompanhamento orienta a figura parental na construção de um genograma. Embora a pessoa atendida seja adulta, o genograma enfatiza sua posição de filho ou filha. Isso ajuda a voltar a atenção da figura parental para as próprias experiências de infância e permite, a ela e a quem a acompanha, identificar as pessoas que tiveram papéis importantes de cuidado em sua infância e adolescência.

A segunda etapa consiste em construir, junto com a pessoa atendida, uma série de mapas do modelo operativo interno para cada figura de cuidado significativa. Esse processo é guiado por duas perguntas: 1) O que você aprendeu com essa pessoa sobre ser pai ou mãe? e 2) O que você aprendeu com essa pessoa sobre ser criança? (Chambers, 2012). Entre as habilidades-chave do acompanhamento estão ajudar a pessoa a explorar memórias, histórias e sensações viscerais ligadas às experiências de cuidado na infância, e formular, a partir desses relatos de experiências relacionais, enunciados gerais sobre ser pai ou mãe e ser criança. Em seguida, prepara-se um livreto com os mapas, e uma cópia é entregue à figura parental.

O papel da pessoa responsável pelo acompanhamento terapêutico é ajudar a figura parental a verbalizar (ou tornar explícito) o que, de outra forma, poderia ser um processo oculto ou implícito, e a desenvolver um referencial conceitual, um “mapa”, capaz de explicar a relação entre as próprias experiências e as interações com o filho ou a filha. O processo de narrar a própria história costuma revelar uma mistura confusa de padrões cooperativos e competitivos de interação familiar ao longo das gerações.

Reconhecer esses padrões serve para: a) reduzir a vergonha e a autoculpabilização, contextualizando as dificuldades parentais; b) oferecer uma narrativa coerente e um novo sentido para a situação; e c) ajudar a distinguir quais aspectos da identidade e do comportamento parentais decorrem das circunstâncias precoces e do trauma relacional da figura parental. Além disso, desenvolver empatia pela criança que se foi permite fortalecer a própria identidade, ao mesmo tempo que aumenta a capacidade de empatia com o filho, a filha ou os filhos. Esses resultados atendem aos objetivos de um tratamento eficaz, derivados da teoria, discutidos anteriormente.

Por meio desse processo, a figura parental toma consciência dos aspectos do seu modelo parental que se ajustam ao ideal parental buscado e daqueles que se afastam dele. O caráter automático dessas experiências codificadas implicitamente faz com que elas muitas vezes continuem a invadir a relação entre pais e filhos. No entanto, com o livreto de mapas como recurso, essas crenças podem ser reexaminadas nos momentos difíceis, para entender como o passado está influenciando o sistema relacional entre pais e filhos e apoiar a continuidade do trabalho rumo à mudança.

Estudos de caso que ilustram a AEAI num programa de reunificação mais amplo

Este artigo apresenta dois estudos de caso em que o processo da AEAI foi usado com pais (homens) no âmbito do programa de reunificação oferecido pela Centacare Catholic Family Services e financiado pelo órgão de proteção à infância do estado. A aprovação ética para a publicação dos estudos de caso foi concedida pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da universidade (número de aprovação: H-2017-230). Usam-se pseudônimos, e as descrições potencialmente identificadoras foram adaptadas para proteger o anonimato dos entrevistados. Nos dois casos, o caminho até a reunificação completa foi complexo. Estas ilustrações não detalham toda a intervenção de acompanhamento, mas examinam como a inclusão da AEAI apoiou o processo de reunificação em duas famílias nas quais o órgão público tinha dúvidas sobre a viabilidade da reunificação. Em cada caso, as pessoas participantes descreveram o processo como extremamente difícil do ponto de vista emocional. Isso se refletiu em sessões perdidas e em dificuldades intermitentes de engajamento emocional no processo da AEAI. Ambos conseguiram concluir o processo com o apoio e o incentivo das pessoas que os acompanhavam.

Caso 1: Gary

Apresentação do caso

Quando Gary começou a participar do serviço de reunificação, ele criava o filho sozinho. O bebê tinha sido retirado ao nascer dos cuidados de Gary e da pessoa com quem ele vivia, depois de apresentar sintomas de abstinência por ter nascido exposto a substâncias ilícitas. O bebê tinha seis meses quando Gary foi encaminhado ao serviço de reunificação, e a reunificação ocorreu quando a criança tinha 16 meses.

Na primeira infância, Gary foi cuidado pelo pai, que tinha uma deficiência. No início da adolescência, Gary rejeitou o pai e voltou a morar com a mãe e o padrasto. Foi apresentado às drogas e se tornou vítima de exploração sexual. A mãe e o padrasto permitiam o abuso em troca de drogas ilícitas mais baratas. Gary passou a usar substâncias regularmente a partir dos 14 anos, o que resultou num longo período de uso crônico e em atividade criminosa associada. Gary tinha três filhos e começou o tratamento depois que o terceiro (o bebê em questão) foi retirado ao nascer. Ele estava abstinente havia quatro meses quando o órgão público de proteção à infância considerou seriamente a reunificação. Gary não tinha conseguido o retorno dos dois filhos mais velhos por causa do uso persistente de substâncias.

A AEAI

De início, Gary relutou em participar da AEAI. Ele tinha trabalhado com várias pessoas terapeutas na década anterior e não queria revisitar memórias dolorosas das relações com os pais, nem decisões que tinha tomado em relação ao comportamento criminoso. Um incidente traumático quase precipitou uma recaída no uso de drogas e o fim dos esforços de reunificação, o que deu a Gary a motivação para participar da AEAI. O engajamento dependia de a pessoa terapeuta especializada e a pessoa responsável pelo acompanhamento terapêutico estruturarem a AEAI de modo a permitir que Gary se concentrasse em lembranças boas, e não em lembranças difíceis.

A AEAI começou focando o pai biológico de Gary e foi realizada em três sessões. A dupla terapêutica reuniu três páginas de enunciados positivos sobre ser criança e ser pai ou mãe. Eles estão resumidos na tabela 1. Gary refletiu sobre inúmeras atividades positivas que pais e mães fazem com os filhos, por exemplo, andar de bicicleta, ler, brincadeiras de faz de conta, eventos comunitários, construir viveiros de pássaros.

Tabela 1 — Enunciados positivos sobre parentalidade formulados por Gary durante a AEAI, com foco no pai

Coluna da esquerda: “O que você aprendeu com seu pai sobre ser pai ou mãe? Primeira infância”; coluna da direita: “O que você aprendeu com seu pai sobre ser criança? Primeira infância”.

  • Ser pai ou mãe. Pais e mães têm muita paciência, aguentam as birras das crianças mas mesmo assim mantêm os limites. Ser criança. As crianças são persistentes e podem testar os limites com segurança.
  • Ser pai ou mãe. Pais e mães ensinam que a honestidade é a melhor política e são mais razoáveis quando as crianças dizem a verdade. Ser criança. As crianças podem confiar em pais e mães e receber bons conselhos.
  • Ser pai ou mãe. Pais e mães estão presentes, escutam, consolam, ficam calmos quando as crianças falam das suas preocupações, são incríveis nos momentos de crise e estão sempre lá. Ser criança. As crianças podem contar com pais e mães, levar a eles suas preocupações, ser consoladas, receber ajuda quando precisam e contar com eles nos momentos difíceis.
  • Ser pai ou mãe. Pais e mães amam seus filhos. Ser criança. As crianças amam seus pais e mães.
  • Ser pai ou mãe. Pais e mães compensam coisas que outros pais e mães fazem e que machucam as crianças. Ser criança. As crianças escolhem morar com o pai.
  • Ser pai ou mãe. Pais e mães passam muito tempo de qualidade com os filhos. Ser criança. As crianças guardam lembranças preciosas de pais e mães.
  • Ser pai ou mãe. Pais e mães protegem as crianças. Ser criança. As crianças se sentem TÃO SEGURAS com pais e mães.

Ficou evidente que, na adolescência, Gary viveu uma ruptura completa na relação com o pai, precipitada por um bullying extremo na escola e agravada pela deficiência do pai e por sua incapacidade de responder às necessidades de um adolescente complexo. Foi nesse momento que ele se reaproximou da mãe. A AEAI ajudou Gary a refletir sobre essa experiência e a encontrar narrativas alternativas que explicassem o rompimento da relação com o pai (resumidas na tabela 2).

Tabela 2 — Enunciados de narrativas alternativas formulados por Gary durante a AEAI, explorando a ruptura da relação com o pai

Coluna da esquerda: “O que você aprendeu com seu pai sobre ser pai ou mãe? Adolescência”; coluna da direita: “O que você aprendeu com seu pai sobre ser criança? Adolescência”.

  • Ser pai ou mãe. Pais e mães podem chegar ao limite da paciência. Ser criança. Adolescentes podem ser muito temperamentais e responder mal a pais e mães.
  • Ser pai ou mãe. Às vezes pais e mães cedem. Ser criança. Adolescentes podem ter ideias e planos próprios, por exemplo, voltar a morar com a mãe aos 14 anos.
  • Ser pai ou mãe. Às vezes pais e mães desistem. Ser criança. Adolescentes sentem que são demais, grandes demais e difíceis demais de ajudar.
  • Ser pai ou mãe. Às vezes pais e mães esquecem, ou não entendem, como é ser adolescente. Ser criança. Às vezes adolescentes têm dificuldade de aceitar aspectos essenciais de pais e mães que diferem do que a sociedade considera normal.
  • Ser pai ou mãe. Pais e mães podem se magoar e tentam esconder a mágoa. Ser criança. Às vezes adolescentes magoam pais e mães sem querer, mas conseguem ler os sentimentos deles.

A reaproximação com a mãe marcou o início da dependência química de Gary e do seu trauma interpessoal. Gary teve dificuldade para encontrar enunciados positivos sobre a mãe e só conseguiu formular dois, da primeira infância (resumidos na tabela 3). Ele continuou sem querer explorar outros aspectos da relação dos dois.

Tabela 3 — Enunciados positivos sobre parentalidade formulados por Gary durante a AEAI, com foco na mãe

Coluna da esquerda: “O que você aprendeu com sua mãe sobre ser pai ou mãe?”; coluna da direita: “O que você aprendeu com sua mãe sobre ser criança?”.

  • Ser pai ou mãe. As mães fazem cafuné nos filhos por horas. Ser criança. As crianças adoram cafuné porque adoram o carinho.
  • Ser pai ou mãe. Às vezes as mães precisam deixar os filhos partir. Ser criança. Os pais não deixam as crianças cometerem o erro de pensar que a mãe não as ama.

Perto do fim do processo, Gary começou a se mostrar protetor em relação à mãe. Essa novidade foi interpretada como o início da compreensão das vulnerabilidades que podem levar a uma parentalidade deficiente, tanto na mãe quanto nele mesmo. Gary conseguiu sentir alguma empatia por si mesmo e por não ter conseguido cuidar dos filhos, dois dos quais estavam em acolhimento familiar de longo prazo.

Só então Gary conseguiu identificar como sua parentalidade afetava os filhos. Depois de fazer essa conexão, Gary conseguiu lembrar um momento em que não foi capaz de dar ao filho, que estava angustiado, o apoio emocional de que ele precisava, e o quanto o filho devia ter se sentido completamente sozinho naquele momento. Traçar paralelos entre o que o filho sentiu e o que ele mesmo tinha sentido com a mãe biológica foi, para Gary, um momento emocionalmente devastador, mas decisivo. A consciência da própria solidão, duradoura e dolorosa, foi aos poucos se traduzindo numa maior disponibilidade emocional de Gary e num envolvimento ativo com o filho e suas necessidades.

Gary também identificou uma amiga da mãe que foi para ele uma fonte importante de apoio. Gary contou como ela o havia “adotado” quando ele tinha 12 anos e ela 24, e como os dois continuaram tendo uma forte amizade. Gary formulou vários enunciados positivos sobre essa relação (resumidos na tabela 4). Esse aspecto da AEAI continuou a solidificar a compreensão de Gary sobre os modelos positivos em que podia se apoiar para exercer a parentalidade. Também se concluiu o Circle of Security-Parent (COS-P, Círculo de Segurança Parental) para consolidar esses modelos como os que guiariam sua parentalidade futura.

Tabela 4 — Enunciados positivos sobre parentalidade formulados por Gary durante a AEAI, com foco na amiga da mãe

Coluna da esquerda: “O que você aprendeu com a amiga da sua mãe sobre ser pai ou mãe?”; coluna da direita: “O que você aprendeu com a amiga da sua mãe sobre ser criança?”.

  • Ser pai ou mãe. As mães estão fisicamente presentes e são fáceis de encontrar. Ser criança. As crianças podem contar com as mães e encontrá-las.
  • Ser pai ou mãe. As mães se sentam e tomam uma xícara de chá enquanto as crianças falam das suas preocupações. Ser criança. As crianças podem fazer sua voz ser ouvida e levar suas preocupações às mães.
  • Ser pai ou mãe. As mães dão bronca se for preciso (não com frequência) e tentam fazer você cair em si com poucas palavras. Ser criança. As crianças confiam que, se a mãe dá bronca, é importante escutar.
  • Ser pai ou mãe. As mães escolhem momentos em que você pode escutar e se abrir para dar orientação. Ser criança. As crianças podem ter desejos próprios e seu próprio jeito de fazer as coisas.
  • Ser pai ou mãe. As mães são fortes nos momentos difíceis e nas crises. Estão presentes em tudo, por maior que seja. Ser criança. As crianças podem contar com a mãe para ajudar nos momentos mais difíceis.

Quando finalmente se reuniu com o filho de 16 meses, o menino logo mostrou uma clara preferência por Gary em relação à mãe acolhedora que cuidava dele desde a retirada ao nascer. Na creche, quando Gary e a mãe acolhedora estavam presentes, a criança buscava o pai biológico como figura principal de apego. Isso mostrou a Gary como os vínculos de apego podiam ser reparados e como vínculos saudáveis podem continuar a se formar com múltiplas figuras de apego ao longo do desenvolvimento. Gary e a mãe acolhedora mantiveram contato, e ela passou a fazer parte da rede familiar ampliada da criança. Com o tempo, o contato com a mãe acolhedora ficou menos frequente, mas não cessou completamente.

Caso 2: Peter

Apresentação do caso

Peter criava os filhos sozinho e passava pelo processo de reunificação com os dois filhos pequenos (de dois e três anos). O motivo principal da retirada das crianças foi a grave violência doméstica cometida por Peter contra a esposa, mãe dos filhos, pela qual ele tinha sido preso. Outras preocupações incluíam os problemas de saúde mental de Peter, a raiva, uma tendência ao controle coercitivo nas relações íntimas, o uso problemático de drogas e álcool e a negligência física e médica dos filhos. No momento do encaminhamento ao serviço de reunificação, Peter estava em situação de rua, alternando entre dormir na rua e dormir no sofá de conhecidos. Com o apoio coordenado de vários serviços, Peter conseguiu uma moradia considerada adequada para viver com dois dos filhos. No momento da reunificação completa, os filhos de Peter estavam fora dos seus cuidados havia 23 meses.

Os filhos de Peter tinham sofrido um trauma significativo, agravado por frequentes mudanças de lugar de acolhimento após a entrada no sistema. Inicialmente foram acolhidos pela avó materna, mas, depois que esse arranjo fracassou, uma das crianças foi para um acolhimento familiar especializado e a outra foi colocada com outro membro da família. As crianças apresentavam problemas de comportamento, incluindo birras, acúmulo de comida, retraimento emocional e dissociação.

A AEAI

De início, Peter tinha pouca compreensão de como seu comportamento violento tinha afetado os filhos. Ele já tinha feito terapia voltada para resolver os problemas com drogas e álcool, a violência doméstica e as questões de raiva relacionadas. Um laudo psicológico ainda apontava a preocupação de que Peter não tinha nenhuma capacidade de empatia, minimizando o que os filhos tinham vivido com a sua violência e culpando outras pessoas pelo próprio comportamento. Por exemplo, certa vez Peter quebrou todas as janelas da casa da família enquanto as crianças estavam lá dentro. Ele não conseguia ver o impacto sobre as crianças, pois sua intenção consciente era intimidar a mãe delas. O laudo concluiu que, sem desenvolver capacidade de empatia, Peter não conseguiria compreender as necessidades dos filhos nem responder a elas.

A AEAI foi usada para explorar e aumentar a capacidade de empatia de Peter, a partir de exemplos da sua própria infância. Quando Peter conseguiu ver o impacto do comportamento do pai sobre ele quando criança, através do olhar de criança novamente, pôde então ver o impacto do seu comportamento adulto sobre os filhos (tabela 5).

Tabela 5 — Enunciados sobre parentalidade formulados por Peter durante a AEAI, com foco no pai

Coluna da esquerda: “O que você aprendeu com seu pai sobre ser pai?”; coluna da direita: “O que você aprendeu com seu pai sobre ser criança?”.

  • Ser pai. Os pais são fisicamente violentos com os filhos e usam o medo, o controle e a agressividade para intimidá-los. Ser criança. As crianças são tão poderosas, destrutivas, malvadas e ruins que os pais precisam usar a agressividade para controlá-las.

Peter percebeu que o sentido que tinha dado à violência do pai contra ele era que ele, quando criança, era tão poderoso, mau, destrutivo e malvado que o pai precisava usar a violência para controlá-lo. Peter também conseguiu identificar a interação em que ele próprio usou agressividade e violência pela primeira vez (tabela 6).

Tabela 6 — Enunciados sobre parentalidade formulados por Peter durante a AEAI, com foco no padrasto

Coluna da esquerda: “O que você aprendeu com seu padrasto sobre ser pai?”; coluna da direita: “O que você aprendeu com seu padrasto sobre ser criança?”.

  • Ser pai. Os homens batem nas crianças para lidar com elas. Ser criança. Crianças e jovens têm medo dos adultos.
  • Ser pai. Os pensamentos e as justificativas dos adultos são perigosos, e não há consequências para os atos deles. Ser criança. Às vezes crianças e jovens revidam quando têm medo, porque ninguém mais os protege.
  • Ser pai. Os adultos levam os jovens ao limite. Ser criança. Os jovens podem ser levados ao limite, até a fúria, e isso pode defini-los por um tempo ou para sempre.

Ao longo da AEAI, a dupla terapêutica observou mudanças na linguagem e no tom de voz de Peter: se antes ele discutia, questionava ou discordava da pessoa que o acompanhava, em especial em temas como violência doméstica e controle da raiva, Peter começou a colaborar com ela. Peter descreveu o processo da AEAI como “desafiador” e “confrontador”, mas disse que “tirou muita coisa dele” e que recomendaria o processo a outras pessoas.

Discussão e recomendações para a prática

O objetivo principal da AEAI é ajudar pais e mães a compreender como as experiências de trauma nas primeiras relações com suas figuras de cuidado afetam, no presente, as relações parentais com os próprios filhos. Por meio de um processo de autorreflexão apoiada, e não de um processo centrado na culpa e na vergonha, participar da AEAI ajudou os pais descritos aqui a formular o que, de outra forma, poderia ter permanecido oculto.

A terapia ajudou os dois pais a tomar consciência dos aspectos dos seus modelos operativos internos de parentalidade que eram úteis e dos que não eram. Por exemplo, Gary conseguiu se apoiar nos enunciados positivos sobre a relação com o próprio pai e ressignificar o rompimento dessa relação. Mais tarde, Gary comentaria que era a primeira vez que recebia apoio para explorar os aspectos positivos dos seus primeiros anos. Ele também conseguiu identificar e compreender as vulnerabilidades que levaram à parentalidade deficiente da mãe e que ele reproduzia na própria parentalidade. Isso favoreceu sentimentos de compreensão e de perdão em relação à mãe e, por extensão, a si mesmo. Desvendar esse modelo operativo interno mais positivo permitiu a Gary acessar o modelo operativo interno da relação mais funcional com o pai, que seria a base para se tornar o pai que ele queria ser para o bebê. À medida que avançava na AEAI, Gary conseguia recorrer de forma mais automática aos modelos parentais positivos que tinha identificado, mas que antes estavam encobertos pelas lembranças do trauma.

Para Peter, compreender o impacto da violência do pai e do padrasto sobre ele quando criança ajudou-o a perceber que um dos filhos talvez tivesse entendido a violência familiar de Peter como necessária para controlar a sua “maldade” inerente, exatamente como o próprio Peter tinha feito. Embora essa compreensão tenha colocado Peter diante do fato devastador de que ele tinha machucado os próprios filhos e dado continuidade ao ciclo traumático que desejara evitar, ele conseguiu usar essa consciência de forma construtiva nas interações com o filho. Isso deu início a um processo de autoperdão, semelhante ao vivido por Gary.

De fato, uma chave para o progresso dos dois pais foi construir “empatia” por si mesmos por meio de um processo de tomada de consciência. Ao refletir e tomar consciência de como os comportamentos dos próprios pais os tinham afetado quando crianças, ambos conseguiram identificar como essas experiências tinham influenciado suas práticas parentais e os efeitos disso sobre os próprios filhos. Assim, ao iniciar o processo de perdão, puderam avançar para práticas parentais mais nutridoras e positivas e começar a reparar as relações com os filhos.

Dois processos sustentaram a introdução bem-sucedida da AEAI no programa: a exigência de que as pessoas responsáveis pelo acompanhamento terapêutico vivessem a AEAI tanto no papel de participante quanto no de facilitação, e o acesso a supervisão clínica regular. Essas exigências de formação e supervisão apoiaram o desenvolvimento de habilidades nas fases iniciais da condução da AEAI e reduziram o risco de que as próprias vulnerabilidades e estratégias de proteção (conhecidas e ocultas) dessas pessoas influenciassem o processo terapêutico. As pessoas responsáveis pelo acompanhamento terapêutico relataram que isso lhes deu uma base de apoio e confiança para envolver pais e mães em conversas às vezes difíceis e carregadas de emoção, que favorecem uma reflexão mais “profunda”.

A AEAI foi uma parte significativa da intervenção terapêutica, oferecida junto com um programa de trabalho mais amplo. Houve diferenças entre as abordagens tradicionais de terapia e a forma como a AEAI foi conduzida. Terapia e acompanhamento social foram combinados para criar um processo de acompanhamento terapêutico da reunificação, equilibrando o componente terapêutico das sessões e o apoio a outras necessidades do dia a dia, incluindo questões de gestão da vida e da casa e estratégias parentais práticas. Dar igual importância às necessidades terapêuticas de pais e mães e às suas necessidades práticas, na “segurança” da própria casa, ajudou a integrar as descobertas terapêuticas à vida cotidiana. As tarefas práticas também traziam desafios imprevistos, no momento, que eram incorporados ao trabalho terapêutico. Essa abordagem permitia às pessoas responsáveis pelo acompanhamento terapêutico destacar as forças e as dificuldades da figura parental, oferecendo oportunidades imediatas de retorno positivo e de construção de narrativas alternativas em tempo real. Inserir a terapia nas tarefas do dia a dia dava a pais e mães um elemento de “controle” e um senso de “igualdade”, e parecia ser uma experiência menos confrontadora e mais manejável do que intervenções terapêuticas mais “tradicionais”, em consultório.

Esses estudos de caso e a experiência de inserir a AEAI num serviço em que a terapia normalmente seria terceirizada são encorajadores: indicam que, com formação sólida e supervisão contínua, intervenções terapêuticas estruturadas como a AEAI podem ser incorporadas com segurança e sucesso a serviços não clínicos. Nossa recomendação é que os serviços de apoio às famílias fora do campo da saúde mental incorporem aos seus programas intervenções sensíveis ao trauma como a AEAI. Isso ampliaria o acesso a tratamentos sensíveis ao trauma para algumas famílias muito vulneráveis e traumatizadas.

Limitações e implicações para a pesquisa

Avaliar intervenções desse tipo é difícil. Quando as intervenções são individualizadas e ajustadas às necessidades complexas de cada família, é difícil isolar quais elementos ou fatores estão ligados aos resultados (Malvaso & Delfabbro, 2020). Como destacam Fraser et al. (1996), também é difícil determinar se o sucesso de um caso se deve a intenções prévias ou à disposição para a reunificação, e não à natureza da intervenção oferecida. No entanto, como argumentam Malvaso e Delfabbro (2020), é importante relatar que os programas podem ter sucesso independentemente do caráter seletivo das amostras de reunificação.

Esses relatos de caso, embora encorajadores, são anedóticos, e é necessária uma avaliação mais rigorosa. Novas pesquisas estão previstas. Entre elas, está contatar pais e mães que trabalharam com esse serviço de reunificação para verificar a duração dos retornos ao lar e entender, da perspectiva dessas famílias, quais intervenções foram mais úteis. Além disso, esses resultados serão comparados com as intervenções oferecidas, para examinar se a estabilidade da reunificação pode estar ligada à AEAI ou a uma combinação específica de intervenções. Como o número de pais e mães que participam da AEAI aumentou, a North Carolina Family Assessment Scale (Kirk, Kim, & Griffith, 2005) está sendo incorporada à mensuração rotineira de resultados, para começar a gerar dados empíricos.

Conclusão

Embora não seja possível generalizar para todas as famílias consideradas para reunificação, as abordagens terapêuticas destacadas neste artigo indicam que focar o trauma intergeracional pode ajudar pais e mães a ressignificar as relações com os filhos de maneiras que levam a mudanças comportamentais observáveis na parentalidade e podem facilitar o sucesso da reunificação. No momento da redação deste artigo, até onde sabemos, as crianças continuavam sob os cuidados das suas famílias.

Complexe Systémique: a reter

O artigo tem o mérito de mostrar um gesto clínico preciso, em vez de descrevê-lo de longe: perguntar a um pai ou a uma mãe o que aprendeu, na infância, sobre ser pai ou mãe e ser criança, e depois devolver essas “lições” em forma de livreto. Reconhecem-se o genograma e a leitura transgeracional caros à terapia familiar, mas deslocados para um contexto de proteção à infância, em casa, pelas pessoas que já acompanham a família no dia a dia. A aposta é passar da culpa ao luto: enquanto a vergonha domina, a reflexão se fecha. As vinhetas de Gary e Peter são fortes, mas são dois casos escolhidos, descritos pela equipe que conduziu a intervenção, sem medidas de resultado nem seguimento além da redação. Quem lê com olhar sistêmico sentirá também a falta das outras vozes: as mães, a mãe acolhedora, as próprias crianças, e a questão da segurança quando houve violência conjugal. Fica uma pista útil: formar e supervisionar equipes não clínicas em vez de terceirizar a terapia. Para ler junto com o artigo sobre o reenquadramento relacional na terapia familiar baseada no apego e com o artigo sobre a transcendência transgeracional.

Notas do original

Agradecimentos. Publicação em acesso aberto viabilizada pela University of South Australia, no âmbito do acordo entre a Wiley e a University of South Australia, via Council of Australian University Librarians.

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Tradução não oficial em português de Usar a entrevista de exploração do apego adulto (AEAI) para romper o ciclo do trauma intergeracional: ilustrações de um programa de reunificação familiar, de Jackie Amos, Bryan Todd, Bryony Gibson, Samuel Carpenter, Catia G. Malvaso e Paul H. Delfabbro, Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, vol. 43, no 2 (2022), doi: 10.1002/anzf.1490, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Using the Adult Exploration of Attachment Interview (AEAI) to Break the Cycle of Intergenerational Trauma: Illustrations from a Family Reunification Program”, publicado em Australian and New Zealand Journal of Family Therapy (2022) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Amos, J., Todd, B., Gibson, B., Carpenter, S., Malvaso, C. G., et Delfabbro, P. H. (2022). Usar a entrevista de exploração do apego adulto (AEAI) para romper o ciclo do trauma intergeracional: ilustrações de um programa de reunificação familiar (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/usar-a-entrevista-de-exploracao-do-apego-adulto-aeai-para-romper-o-ciclo-do-trauma (Obra original publicada em 2022 em Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, 43(2), 168-181 (2022); republicada em 2022 por Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/anzf.1490)

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