The British Journal of Social Work · Serviço social

Vozes do campo: explorando a experiência de assistentes sociais no apoio às famílias de avós

Na República Tcheca, mais de sete em cada dez crianças acolhidas por parentes vivem com os avós. O que faz o serviço social que as acompanha? Vinte e quatro entrevistas desenham um ofício de confiança paciente, de ressignificação da culpa e de luta discreta contra o estigma, da família até a escola.

Autores Adéla Souralová, Eliška Beránková e Linda Koshi (Faculdade de Estudos Sociais, Universidade Masaryk, Brno, República Tcheca)Primeira publicação The British Journal of Social Work, 29 de março de 2025Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Vozes do campo: explorando a experiência de assistentes sociais no apoio às famílias de avós, de Adéla Souralová, Eliška Beránková e Linda Koshi, publicado na The British Journal of Social Work (Oxford University Press) (2025), doi: 10.1093/bjsw/bcaf069, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Os trechos de entrevistas, fundidos aos parágrafos na versão on-line, são apresentados em citações destacadas; os agradecimentos, o financiamento e a declaração de conflito de interesses foram reunidos nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

A desestigmatização facilitada pelo serviço social não é um aspecto acessório de seu trabalho, mas é intrínseca ao próprio processo.

Adéla Souralová, Eliška Beránková e Linda Koshi

Resumo

Este artigo explora as experiências de assistentes sociais no acolhimento familiar por parentes, em especial de quem apoia avós na República Tcheca. Apesar do papel central dessas equipes, os desafios que enfrentam continuam pouco explorados na produção acadêmica em serviço social. Com base em vinte e quatro entrevistas em profundidade, o estudo revela a complexidade desse trabalho, mostrando como se equilibram obrigações legais, relações pessoais e apoio emocional. O texto mostra como assistentes sociais percebem seu papel, desde a construção da confiança com os avós e o enfrentamento das dificuldades cotidianas até a busca de reconhecimento pelo trabalho e de um sentimento de realização. Também lança luz sobre esforços muitas vezes invisíveis que vão além das obrigações legais e revelam objetivos mais profundos. O texto mostra que esse trabalho é movido pela necessidade de desestigmatizar e normalizar arranjos familiares que não se conformam às normas socioculturais, ajudando as famílias de avós a se adaptar à nova situação e a lidar com as expectativas sociais.

Introdução

Assistentes sociais desempenham um papel crucial no sistema de acolhimento familiar, oferecendo apoio essencial às famílias acolhedoras. Suas experiências, porém, continuam pouco exploradas. Quando a pesquisa ouve assistentes sociais, o foco tende a recair sobre as famílias acolhedoras, o que deixa uma compreensão limitada do que significa atuar no serviço social do acolhimento familiar. Apesar de algumas exceções notáveis (Schofield et al. 2011; Vetfuti, Goliath e Perumal 2019; Tovaryšová e Řezáč 2022; Dunkerley et al. 2023), essa perspectiva permanece em grande parte inexplorada.

Este artigo examina as experiências de assistentes sociais no acolhimento familiar por parentes. Focalizamos especificamente quem trabalha com avós em organizações de serviços sociais na República Tcheca. Ao examinar os desafios que essas equipes enfrentam, o estudo ilumina a complexidade de seus papéis, suas interações com as famílias acolhedoras e a forma como lidam com as exigências do acolhimento familiar por parentes. Com essa exploração, contribuímos para uma compreensão mais profunda das experiências decisivas do serviço social nessa área especializada do acolhimento familiar.

Realizamos vinte e quatro entrevistas com assistentes sociais de organizações de acompanhamento com as quais as famílias acolhedoras são legalmente obrigadas a colaborar. Nossas entrevistas em profundidade foram guiadas pelas seguintes perguntas de pesquisa: como assistentes sociais percebem seu papel no acolhimento familiar por parentes e que sentidos atribuem ao seu trabalho? Que desafios enfrentam nesse contexto? Responder a essas perguntas preenche uma lacuna na produção acadêmica em serviço social e dá voz a atores-chave do sistema de acolhimento familiar.

Contexto: o cuidado familiar substituto na República Tcheca

O acolhimento familiar de longo prazo, ao lado da adoção, do acolhimento familiar temporário, da tutela e da guarda, é um pilar fundamental do cuidado familiar substituto para crianças que não podem ser criadas pelos pais biológicos. Oferecido em ambiente familiar, ele busca permitir que as crianças cresçam em um ambiente próximo de sua própria família (MPSV 2025a). Contextos culturais familiares ajudam a atenuar riscos comportamentais (Conway e Hutson 2007). Os tribunais dão prioridade a parentes como responsáveis pelo cuidado, a menos que isso contrarie o melhor interesse da criança (Lei n.º 89/2012 Col. 2012). O acolhimento familiar costuma terminar com a maioridade ou com a plena capacidade civil.

O sistema de acolhimento familiar distingue ainda o acolhimento mediado e o não mediado. Em ambos os casos, o tribunal toma a decisão final sobre a colocação da criança. No acolhimento mediado, porém, os futuros pais acolhedores sem parentesco devem primeiro apresentar um pedido para que uma criança seja colocada sob seus cuidados e comprometer-se a concluir uma formação específica. Depois de passar por uma avaliação profissional, são incluídos no cadastro da autoridade regional responsável pela mediação do acolhimento familiar. Uma vez identificada uma família acolhedora adequada para a criança, a proposta de colocação é submetida à aprovação do tribunal. Já as pessoas que acolhem sem mediação (parentes ou outras pessoas próximas) podem recorrer diretamente ao tribunal, sem formação ou avaliação profissional prévia. O tribunal, no entanto, leva em conta o parecer da Autoridade de Proteção Social e Jurídica da Criança ao tomar sua decisão (Lei n.º 359/1999 Col. 1999; MPSV 2019). Na República Tcheca, o acolhimento por parentes responde por mais de dois terços de todos os casos de acolhimento familiar (Tovaryšová e Řezáč 2022), e mais de 72% das pessoas que acolhem crianças da própria família são avós, na maioria das vezes avós mulheres de sessenta anos ou mais, que em geral cuidam de netos de seis a quinze anos (Lipová, Krbcová e Tomanová 2019).

Toda família acolhedora, no acolhimento mediado ou não, é legalmente obrigada a assinar um acordo de acolhimento com a autoridade municipal com competências ampliadas, uma autoridade local ou regional ou uma organização credenciada (chamada organização de acompanhamento) (Lei n.º 359/1999 Col. 1999) e a utilizar seus serviços. Esses serviços envolvem a colaboração com uma pessoa de referência do serviço social, designada para a família, que a apoia durante todo o acolhimento. A pessoa de referência ajuda nas questões relativas ao acordo, garante que os pais acolhedores cumpram as 24 horas anuais obrigatórias de formação, coloca-os em contato com serviços de apoio especializados, organiza períodos de descanso, facilita o contato entre a criança e os pais biológicos, faz visitas domiciliares e oferece assistência profissional (Lei n.º 359/1999 Col. 1999).

Espera-se que os pais acolhedores assinem o acordo de acolhimento prioritariamente com a autoridade local de proteção social e jurídica da criança. Com o consentimento da autoridade local de seu local de residência, porém, podem escolher outras entidades com as quais assinar o acordo (MPSV 2025b), sendo a recusa excepcional, por exemplo quando haveria conflito de interesses. Assim, as organizações que acompanham as famílias acolhedoras, com cujas equipes conversamos durante a pesquisa, desempenham um papel-chave no sistema tcheco de acolhimento familiar. Na maioria das vezes, são organizações sem fins lucrativos e, com menos frequência, organizações públicas criadas por regiões ou municípios.

Referencial

Nas famílias de avós, assistentes sociais ajudam os avós a lidar com as exigências do cuidado e com os desafios que possam encontrar. A atuação do serviço social molda a dinâmica familiar, influencia as relações entre crianças e avós (Dolbin-MacNab, Smith e Hayslip 2022) e molda a percepção do genitor biológico (Wissö et al. 2022) e dos avós (Souralová, Koshi e Beránková 2025). Além disso, em diversos estudos, assistentes sociais relatam as condições de vida das famílias de avós.

A pesquisa tem destacado os vários desafios enfrentados pelos avós. Muitos decorrem diretamente da formação repentina da família de avós e das mudanças de estilo de vida que se seguem (Baldock 2007; Davis et al. 2020). Os desafios mencionados na literatura costumam estar ligados à saúde física e mental (Baldock 2007; Dolbin-MacNab, Smith e Hayslip 2022; Kaylor-Tapscott e Sullivan 2024), às dificuldades econômicas e à precariedade financeira (Baldock, 2007; Williams, 2011; Davis et al., 2020; Dolbin-MacNab, Smith e Hayslip 2022; Kaylor-Tapscott e Sullivan, 2024). O conflito de papéis também é uma questão comum, já que os avós precisam lidar com a complexidade de se tornar cuidadores em tempo integral enquanto administram suas próprias identidades pessoais e sociais (Backhouse e Graham 2012; Taylor et al. 2016; Zuchowski et al. 2019).

A formação de uma família de avós costuma ser desencadeada por um acontecimento traumático ou uma crise que impede os pais da criança de cuidar dos filhos, o que leva os avós a assumir o papel de cuidado. Muitas vezes, os avós não esperavam, nessa fase da vida, voltar a ser os principais responsáveis por uma criança pequena, e essa combinação de fatores pode gerar sentimentos de privação, ruptura e dor (Langosch 2012). O ressentimento em relação ao próprio filho ou filha pode se intensificar em consequência desse papel inesperado (Kelley e Whitley 2003). Strong, Bean e Feinauer (2010: 46) observaram que “em alguns casos, ao ganhar um neto, os avós podem estar perdendo o próprio filho”, por morte, dependência química ou maus-tratos infantis. Essa perda é frequentemente acompanhada de um luto intenso (Pinson-Millburn 1996).

Ao refletir sobre sua experiência profissional com famílias de avós, assistentes sociais reconhecem tanto os benefícios quanto os desafios do acolhimento familiar por parentes. A revisão sistemática de Winokur et al. (2014) conclui que “as crianças acolhidas por parentes têm melhores desfechos do que as crianças em acolhimento familiar no que diz respeito a problemas de comportamento, comportamentos adaptativos, transtornos psiquiátricos, bem-estar, estabilidade do acolhimento (locais de acolhimento, número de acolhimentos e rupturas de acolhimento), tutela e abuso institucional” (Winokur et al. 2014: 20). As crianças permanecem, assim, em um ambiente familiar, com pessoas que conhecem desde pequenas, o que facilita a transição para o acolhimento e ajuda a manter os laços familiares (Peters 2005; Tovaryšová e Řezáč 2022). Além disso, a estabilidade do acolhimento oferece um ambiente consistente e duradouro que favorece o bem-estar da criança (Albert, Iaci e Catlin 2004; Farmer 2010; Koh 2010; Winokur et al. 2014). Nesse contexto, Farmer (2010) concentrou seu olhar na persistência demonstrada pelos parentes que acolhem como sua contribuição essencial: “os parentes que acolhem persistem no cuidado de crianças com níveis elevados de dificuldade para além do ponto em que pessoas acolhedoras sem parentesco pediriam uma mudança” (Farmer 2010: 442).

Esses benefícios, porém, são ofuscados pelos desafios discutidos na pesquisa sobre famílias de avós (Brisebois 2013: 304). Assistentes sociais relatam que as famílias acolhedoras com parentesco, em especial as famílias de avós, são mais exigentes de supervisionar do que as famílias sem parentesco, em razão de sua dinâmica complexa (Beeman e Boisen 1999). Relações familiares tensas e os traumas associados complicam o cuidado e muitas vezes exigem que o serviço social faça a mediação entre a criança, os pais biológicos e os parentes que acolhem (Peters 2005; Brisebois 2013). Essa mediação pode desviar recursos das necessidades da criança. Outras barreiras, como uma cooperação difícil com os avós acolhedores ou a violência doméstica, agravam esses desafios (Gladstone, Brown e Fitzgerald 2009; Holt e Birchall 2022). Peters (2005) argumentou que reconhecer essas questões pode levar a estratégias de serviço social mais eficazes. Lidar com essas dinâmicas exige recursos significativos e uma abordagem matizada para equilibrar os interesses de todas as partes, garantindo ao mesmo tempo o melhor interesse da criança.

Métodos

Desenho do estudo

A pesquisa com assistentes sociais que atuam no acolhimento familiar fazia parte de um projeto de pesquisa mais amplo sobre famílias de avós na República Tcheca, centrado nas relações intergeracionais, no cuidado cotidiano e nas questões da avosidade e da condição de neto. Na parte dedicada a assistentes sociais que visitam as famílias acolhedoras, procuramos captar o contexto da vida cotidiana dessas famílias. Consideramos o serviço social um ator-chave no sistema de acolhimento familiar, que influencia a forma do cuidado cotidiano prestado pelos avós. Muitos avós encontram em assistentes sociais parcerias indispensáveis para se tornarem os principais responsáveis pelo cuidado. Nosso objetivo era compreender a natureza desse trabalho, sua relevância para quem o exerce e os desafios enfrentados.

Amostra

Para os fins do estudo, contatamos assistentes sociais de organizações de serviços sociais. Os principais critérios de seleção eram trabalhar diretamente com as famílias e ter, entre as famílias atendidas, avós acolhedores. A amostra foi composta em várias regiões da República Tcheca. Realizamos vinte e quatro entrevistas com vinte e sete participantes (uma entrevista foi feita com duas pessoas ao mesmo tempo e outra com quatro). Uma pessoa foi entrevistada duas vezes. A amostra apresentava certo desequilíbrio de gênero; essa desproporção reflete a distribuição de gênero mais ampla no serviço social na República Tcheca. Para garantir a confidencialidade, omitimos os nomes das pessoas entrevistadas, das organizações a que estão vinculadas e das localidades dessas organizações.

Entrevistas

Nossas entrevistas semiestruturadas exploraram como assistentes sociais veem seu papel, o alcance de seu trabalho, sua contextualização em um marco sociocultural e jurídico e suas relações com as famílias. Interessava-nos também o significado desse trabalho na vida de quem o exerce. As entrevistas foram organizadas em várias seções temáticas sobre os seguintes tópicos: como o serviço social influencia a prática do cuidado, apoia as famílias acolhedoras e lida com questões ligadas às responsabilidades profissionais; o papel de assistentes sociais em suas instituições e seu envolvimento com as famílias acolhedoras; e, por fim, as estratégias de autocuidado, incluindo o uso da supervisão e do apoio entre pares.

Ética

Realizamos a pesquisa de acordo com as diretrizes éticas definidas pela universidade (anonimizada). Para garantir o cumprimento dos princípios éticos, fornecemos a cada participante, antes de sua participação, tanto uma explicação verbal dos objetivos do estudo e da natureza das perguntas que lhe seriam feitas quanto um termo escrito de informação e consentimento sobre a pesquisa. O termo de consentimento foi feito em duas vias, cada uma com os dados de contato da equipe de pesquisa. A equipe de pesquisa e cada participante receberam uma via. As pessoas participantes foram claramente informadas de seu direito de se retirar do estudo. A equipe de pesquisa também expôs os limites da confidencialidade e do anonimato. Nenhum dilema ético ou dano potencial às pessoas entrevistadas ocorreu durante as entrevistas. Além disso, ninguém encerrou a entrevista prematuramente nem manifestou o desejo de se retirar da pesquisa. Ao contrário, o nosso interesse por suas experiências pessoais suscitou muitas vezes reações positivas.

Análise

As entrevistas foram gravadas, transcritas e codificadas sistematicamente pelas três pessoas da equipe de pesquisa, com consentimento informado. Usamos a análise temática reflexiva (Braun e Clarke 2022) para identificar e analisar padrões de significado compartilhado nos dados. Cada integrante da equipe percorreu as transcrições de forma independente e gerou códigos preliminares a partir de temas iniciais. Os códigos resultantes desse trabalho independente foram então comparados e discutidos em equipe. Por meio de discussão e reflexão contínuas, conseguimos identificar os temas-chave que serão apresentados neste artigo. Na seção seguinte, apresentamos os resultados da análise ao mesmo tempo que os colocamos em diálogo com as pesquisas pertinentes, para contextualizá-los e compará-los com os estudos existentes. Essa abordagem nos permite destacar pontos de convergência ou divergência e situar nossos resultados no debate acadêmico mais amplo. Dado o papel significativo que a literatura existente desempenhou na interpretação dos dados e no desenvolvimento dos temas, refletimos sobre como as pesquisas anteriores informaram nossa compreensão dos resultados e moldaram a análise, oferecendo um contexto mais claro para os resultados.

O papel do serviço social no acolhimento por avós: entre apoio, construção de vínculo e autocuidado

Este artigo examina o acolhimento não mediado por avós, em que as pessoas que acolhem muitas vezes não receberam formação, o que torna desafiador para o serviço social lidar com dinâmicas familiares complexas. Primeiro, explora o cuidado com as relações, à medida que assistentes sociais constroem confiança com os avós sem deixar de exercer alguma supervisão. Em segundo lugar, trata do cuidado com quem acolhe e com as crianças, com foco no apoio necessário para enfrentar desafios físicos, emocionais e relacionais. Em terceiro lugar, destaca o autocuidado de assistentes sociais, enfatizando estratégias para dar conta de responsabilidades exigentes e reconhecendo as recompensas desse trabalho.

Cuidar das relações entre os membros da família e o serviço social

A relação entre assistente social e pessoa atendida é um elemento fundante do serviço social e constitui o núcleo de todo o processo de ajuda. Esse envolvimento pessoal permite estabelecer e cultivar a confiança com as pessoas atendidas, possibilitando uma colaboração eficaz.

Nas entrevistas, foram destacadas diferenças entre os pais acolhedores profissionais e os parentes que acolhem. Os pais acolhedores profissionais costumam receber formação preparatória e ter contato com organizações de serviços sociais antes de cuidar de uma criança. Tendem a contar com o serviço social para obter apoio e a concordar com ele sobre as soluções, como se vê no trecho a seguir.

Profissional 1: Os pais acolhedores de longo prazo estão mais alinhados com a gente. Nós cuidamos, eles cuidam, e não existe a mesma ligação biológica que com os parentes que acolhem. Fica mais fácil chegar a um acordo sobre muitas questões, porque eles sabem que o Estado lhes confiou crianças com limitações importantes.

Os parentes que acolhem, por outro lado, muitas vezes se aproximam do serviço social com desconfiança, vendo-o como um intruso sem direito de interferir nos assuntos da família. A pesquisa de Gladstone, Brown e Fitzgerald (2009) indicou que essas percepções afetam negativamente a busca de ajuda. Por essas e outras razões, Beeman e Boisen (1999) argumentam que os parentes que acolhem costumam ser mais difíceis de supervisionar, visão que coincide com o que relataram as pessoas que entrevistamos.

Nos relatos das pessoas entrevistadas, a desconfiança que os avós acolhedores sentem em relação às organizações, e em particular ao serviço social, decorre de vários fatores. Os avós podem se considerar plenamente capazes de criar o neto ou a neta, já que criaram os próprios filhos. Esse sentimento de experiência os leva a acreditar que não precisam de conselhos de fora. Isso costuma ser agravado por uma grande diferença de idade entre os avós e a pessoa de referência da família: quem acolhe, com mais idade, pode achar que profissionais mais jovens e sem filhos não têm a experiência de vida necessária para dar conselhos competentes. Além disso, barreiras de linguagem podem dificultar a confiança, sobretudo se a pessoa de referência não adaptar sua forma de comunicação às necessidades da família.

As pessoas entrevistadas relataram que se distanciam desse papel fiscalizador, atribuindo-o aos serviços de proteção à infância. Em vez disso, como ilustram os trechos a seguir, enfatizaram seu papel de apoio, descrevendo-se como intermediárias, guias, pessoas de confiança e parceiras que acompanham os avós acolhedores ao longo do sistema de acolhimento familiar.

Profissional 16: Gosto muito da palavra “acompanhamento”, da ideia de que caminhamos ao lado dos pais acolhedores. Servimos de corrimão, damos apoio e ajuda, e talvez o corrimão tenha outro sentido: tentamos manter os pais acolhedores em um certo caminho na jornada da vida.

Em consonância com os achados de Dunkerley et al. (2023), as pessoas entrevistadas enfatizaram a necessidade de uma colaboração baseada na relação e na confiança com os parentes que acolhem. As primeiras interações são feitas com cautela, com a pessoa de referência entrando com cuidado no ambiente da família para compreender a dinâmica, o papel da criança e o funcionamento familiar. Antes que se estabeleça uma relação próxima, é preciso oferecer os serviços respeitando a autonomia dos avós acolhedores (para achados semelhantes, ver Fulcher e McGladdery 2011), como mostra a fala de Profissional 11:

Construo as relações visitando e conversando de maneira informal. Nossa abordagem é não pressionar os avós acolhedores a nada. Simplesmente oferecemos opções e respeitamos as decisões deles.

Mesmo depois de estabelecida a confiança, persiste a responsabilidade de manter e cultivar a relação. A confiança entre o serviço social e os parentes que acolhem é frágil. As pessoas entrevistadas reconheceram implicitamente essa fragilidade, enfatizando qualidades como gentileza, paciência, abertura e honestidade para manter essas relações.

Uma vez estabelecida uma relação estável e baseada na confiança, o serviço social pode guiar com eficácia os avós acolhedores pelas complexidades do sistema de acolhimento familiar, ajudando-os a compreender seus direitos e responsabilidades e facilitando o acesso a apoio jurídico, médico ou psicológico. A pessoa de referência também passa a motivar, guiando os avós acolhedores para o cumprimento da obrigação legal de 24 horas anuais de formação. Como a maioria dos avós acolhedores demonstra uma atitude de desdém em relação à formação (como também relatam Tovaryšová e Řezáč 2022), assistentes sociais procuram uma opção fácil, mas valiosa, geralmente oferecendo grupos de apoio e formação individualizada por meio de conversas sobre materiais impressos e vídeos.

Cuidar de quem acolhe e das crianças

Nesta seção, concebemos o cuidado como o apoio prestado por meio do acompanhamento tanto dos avós quanto dos netos. Esse processo se concentra em três áreas: primeiro, melhorar as relações dentro da família de avós, em que o serviço social favorece uma dinâmica interna saudável; segundo, apoiar a relação entre a família de avós e o genitor biológico, destacando sua importância na dinâmica familiar; e, terceiro, para além da família de avós, tratando das interações da família de avós com os ambientes externos.

Dentro da família de avós

O aspecto mais decisivo das intervenções do serviço social nas famílias de avós é remodelar e fortalecer as relações entre avós e netos, abordando três questões-chave: (1) o trauma dos avós, (2) o trauma da criança e (3) a ponte entre as gerações.

Ao abordar o trauma dos avós, assistentes sociais oferecem apoio emocional essencial e acesso a recursos psicológicos, reconhecendo que a capacidade dos avós de cuidar dos netos é limitada por seu próprio trauma (Strong, Bean e Feinauer 2010) e que suas dificuldades de saúde mental e emoções como culpa, vergonha, ansiedade e raiva podem complicar seu papel de cuidado (Hayslip e Kaminski 2005). Priorizar o bem-estar psicológico dos avós é crucial para criar um ambiente estável na família de avós. O serviço social guia os avós por um processo de cura interligado, centrado em três etapas-chave simultâneas: (1) reconciliar-se com o que é percebido como o fracasso do próprio filho ou filha; (2) adaptar-se ao novo papel de cuidado; e (3) integrar esse papel à sua biografia pessoal.

A primeira etapa do processo de cura consiste em ajudar os avós a se reconciliar com o que é percebido como o fracasso do próprio filho ou filha. Strong, Bean e Feinauer (2010: 46) observaram: “Quando os avós assumem o cuidado, isso costuma acontecer em momentos de grande estresse e crise ou de acontecimentos traumáticos”. Isso mostra que as famílias de avós muitas vezes se formam em circunstâncias traumáticas, em que os avós assumem o cuidado porque o filho ou a filha não pode ou não quer cumprir esse papel. Em consequência, os avós precisam encarar o fracasso do filho ou da filha, debatendo-se com emoções complexas como decepção e raiva, e perguntando-se: “A culpa é minha de isso ter acontecido?” Assistentes sociais observam que os avós lutam com sentimentos de culpa e com o julgamento da sociedade sobre o fracasso do filho ou da filha, como reflete a observação de Profissional 4:

Eles têm um grande desafio para aceitar o que aconteceu. Alguns dizem, outros não dizem, mas eles se perguntam: “Onde foi que a gente errou?” Se sentem que podem se permitir, eles dizem. Mas muitos sentem a condenação da sociedade. A sociedade acha que eles não souberam criar o filho e que é por isso que eles têm de criar os netos.

O objetivo principal é ajudar os avós a ressignificar a situação e a superar a culpa e o arrependimento, que podem interferir em sua capacidade de cuidar com eficácia. Mais fundamentalmente, o serviço social busca transformar essas emoções negativas em uma oportunidade para que os avós enfrentem desafios do passado e contribuam para o bem-estar e o futuro dos netos. Assistentes sociais enfatizam que os avós agora cuidam de uma criança que muitas vezes viveu um trauma e precisa de seu apoio e orientação. Essa mudança de perspectiva é essencial, pois dá aos avós um senso de propósito e lhes permite concentrar-se no presente e no futuro, em vez de remoer as decepções passadas.

Além disso, o serviço social incentiva os avós a ver os netos independentemente dos pais deles, o que inclui temas também discutidos por outras pesquisas. Como observam Taylor, Coall e Karthigesu (2019), muitos avós temem que os netos repitam os erros dos pais, o que leva a práticas parentais problemáticas, como rigidez e superproteção (Dolbin-MacNab e Keiley 2009), e a confundir pais e filhos, o que pode prejudicar o desenvolvimento da criança. Abordar o trauma dos avós é crucial, pois traumas não resolvidos podem afetar negativamente seu papel de cuidado e levar a “estilos parentais inadequados, incapacidade de falar da história familiar com a criança ou falta de compreensão do trauma da criança” (Tovaryšová e Řezáč 2022: 54).

Ao mesmo tempo em que lida com o trauma dos avós, o serviço social tem outra tarefa: ajudá-los a se adaptar ao novo papel de cuidado e a superar o conflito de papéis. Trata-se de um desafio comum, presente também em estudos anteriores (Backhouse e Graham 2012; Taylor et al. 2016; Zuchowski et al. 2019), em que os avós precisam lidar com a complexidade de se tornar cuidadores em tempo integral enquanto administram suas identidades pessoais e sociais.

Profissional 8: Eles estão num conflito de papéis. Adorariam ser aqueles avós só de fim de semana, que mimam as crianças, e em vez disso precisam impor limites e aprender junto com elas.

Além de facilitar a transição para o papel de avós que fazem as vezes de pais, o serviço social também ajuda os avós a integrar esse papel à sua biografia pessoal. As equipes enfatizam que, embora sejam os principais responsáveis pelo cuidado da criança, os avós não são os pais dela.

Profissional 11: A avó acolhedora insiste que a criança a chame de “mãe”, mas a criança sabe que ela não é a mãe. A criança entende que ela é a avó.

Essas expectativas podem gerar confusão identitária, dificultando a compreensão da criança sobre a dinâmica familiar. O serviço social enfatiza junto aos avós a importância de compreender seu papel de principais responsáveis pelo cuidado, distinto do papel de pais, e a necessidade de comunicar esse fato à criança de forma aberta e honesta.

O serviço social aborda o trauma da criança ajudando os avós a elaborar a história da criança, a apoiar a formação de sua identidade e a compreender seu comportamento. A maioria das pessoas entrevistadas enfatizou a importância de elaborar a história da criança, pois as crianças buscam respostas para entender o que aconteceu com elas (ver também Steenbakkers, van der Steen e Grietens 2019). Sem essa compreensão básica, as crianças têm dificuldade de elaborar o trauma, construir identidades pessoais saudáveis e estabelecer relações futuras de confiança.

O serviço social tem um papel crucial em garantir a transparência sobre a história da criança. Muitos avós, porém, podem ter dificuldade com isso, chegando às vezes a dar informações imprecisas sobre os pais da criança na tentativa de resolver uma situação difícil. Assistentes sociais precisam equilibrar com cuidado a defesa do bem-estar da criança e a atenção à complexidade das perspectivas dos avós.

Profissional 23: Trabalhamos com eles para que o assunto dos pais biológicos, mesmo que o contato não seja contínuo, não seja tabu. Ajudamos essas famílias a elaborar a história familiar da criança, orientamos que trabalhem o quanto antes com essas crianças o fato de que a criança simplesmente tem uma mamãe e um papai em algum lugar, e usamos várias técnicas para elaborar isso de modo que a criança entenda, dentro dos limites de suas capacidades e de sua idade, por que precisa crescer fora da sua família biológica.

As pessoas entrevistadas orientaram especificamente os avós a entrelaçar na narrativa da criança os temas da formação da família de avós e dos papéis dos pais biológicos, e oferecem orientação e apoio aos avós para ajudar as crianças a elaborar sua história pessoal de forma adequada à sua fase de desenvolvimento.

Além disso, ajudam os avós a compreender o comportamento da criança, frequentemente influenciado por traumas passados. Esse aspecto decisivo da intervenção do serviço social é exemplificado pela reflexão de Profissional 16:

Criar crianças em acolhimento familiar, seja por parentes, seja mediado, é realmente diferente. Essas crianças, por causa do que viveram, têm necessidades diferentes e um funcionamento diferente. São crianças que foram traumatizadas muito cedo, e quem cuida delas precisa saber disso.

Assistentes sociais relataram ajudar os avós a compreender as manifestações comportamentais das crianças decorrentes de traumas passados. Esse comportamento problemático, que Mitchell (2018) caracterizou como “atuação” (acting out), muitas vezes resulta de experiências adversas precoces. As pessoas entrevistadas afirmaram que as expressões de raiva e outros comportamentos negativos das crianças decorrem com frequência de traumas anteriores. Ao esclarecer as causas subjacentes, o serviço social oferece um referencial para interpretar esses comportamentos e orientações sobre como responder a eles e manejá-los com eficácia.

A terceira área-chave é lidar com as diferenças entre gerações que dificultam a compreensão mútua entre avós e netos. Essas disparidades geracionais podem se manifestar em perspectivas divergentes sobre práticas de criação, estilos de comunicação e expectativas de comportamento. Nessas circunstâncias, assistentes sociais fazem uma intermediação essencial, uma espécie de “tradução entre gerações”, facilitando a comunicação e promovendo a compreensão. A distância geracional que o serviço social ajuda a transpor é moldada pela diferença de idade e pelas mudanças nas práticas parentais (como relatam também Baldock 2007; Dolbin-MacNab, Rodgers e Traylor 2009). Como muitos avós desconhecem as mudanças próprias dessa etapa, assistentes sociais oferecem intervenções educativas para ampliar sua compreensão dessas transições.

Entre a família de avós e o genitor biológico

Na relação entre a família de avós e o genitor biológico da criança, o serviço social se concentra em duas tarefas principais: ajudar avós e netos a se relacionar com o genitor e facilitar o contato direto entre a família de avós e o genitor. Essas duas tarefas guardam uma relação hierárquica, como fica evidente na fala a seguir:

Profissional 3: A criança precisa ter informações e uma relação com o genitor biológico, embora isso nem sempre signifique contato físico. Às vezes o contato físico pode ser problemático e não atender ao melhor interesse da criança. Mas a relação é importante. É possível ter uma relação com uma pessoa falecida sem contato físico. Os avós precisam entender isso.

Assistentes sociais enfatizam a importância e o significado da relação com o genitor biológico acima do contato físico com ele. Fornecer informações sobre o genitor biológico e favorecer uma relação com ele são duas tarefas centrais em que o serviço social auxilia os avós. Além de ajudar os avós a guiar as crianças por sua história pessoal de forma adequada à fase de desenvolvimento, o serviço social tem um papel-chave na maneira como a criança percebe o genitor biológico, o que é decisivo para a construção de sua identidade.

O trecho acima também ressalta que a imagem do genitor biológico, e a relação que deriva dessa imagem, é mais importante do que o contato físico. Essa perspectiva foi reiterada por outras pessoas entrevistadas, que mencionaram situações em que o contato com o genitor biológico poderia ser traumático para a criança. Nesses casos, o serviço social supervisiona ou facilita o contato entre a criança e o genitor biológico para garantir o bem-estar da criança. Com esse apoio, assistentes sociais ajudam a lidar com a dinâmica delicada e complexa entre a família de avós e o genitor biológico, priorizando sempre o melhor interesse da criança em suas intervenções.

Para além da família de avós

O serviço social estende seu apoio para além das famílias de avós, atuando como intermediário entre as famílias e instâncias externas. Assistentes sociais acompanham os avós a repartições públicas, tribunais e escolas, ajudando a obter assistência jurídica e médica.

Pesquisas anteriores relataram que muitas pessoas do serviço social observam que os avós ocultam seu papel de acolhimento para evitar o estigma social. Baldock (2007) e Taylor et al. (2016) destacaram esse estigma, sobretudo quando a ausência do genitor biológico se deve a problemas como o uso abusivo de substâncias. Essa ocultação é especialmente evidente na comunicação com instituições como a escola, como observa Profissional 7.

Para evitar rotular e estigmatizar as crianças, os avós nem contam à escola que as crianças estão em acolhimento familiar. (…) Os avós tentam evitar o rótulo escondendo isso, mas aí a escola trabalha com a criança como com qualquer outra criança não traumatizada. Só que essas crianças em acolhimento familiar costumam ser crianças traumatizadas, privadas desde cedo, então o trabalho com elas precisa ser um pouco mais sensível, um pouco diferente. (…) Então isso não acontece na escola, porque lá ninguém sabe, e o problema se agrava ainda mais. A estigmatização acontece de qualquer jeito, porque a criança é rotulada como problemática, mal-educada, com dificuldades de aprendizagem e assim por diante.

Ironicamente, esse tabu na escola agrava os problemas e leva justamente à estigmatização que os avós procuram evitar. Em vez de compreender as circunstâncias particulares da criança, o corpo docente pode interpretar mal certos comportamentos e rotular a criança como “má” ou “lenta”, sem reconhecer o trauma por trás dessas atitudes.

O serviço social incentiva os avós a uma comunicação transparente. Em muitos casos, as próprias equipes de serviço social fazem a ponte diretamente com as escolas, ajudando o corpo docente a compreender o comportamento da criança no contexto de seu passado traumático. Uma comunicação transparente por parte dos avós, porém, nem sempre garante o sucesso. Peters (2005) observou que muitas pessoas do serviço social viram o pessoal de escolas públicas tratar as crianças acolhidas como crianças “descartáveis”, uma forma de estigmatização que fere gravemente a autoestima da criança e acrescenta mais um fardo externo do qual a criança precisa “se defender” (Peters 2005: 601). Em nosso estudo, diante desses casos de estigmatização institucional, o serviço social defende o melhor interesse da criança e acompanha os avós às reuniões com a direção da escola para garantir que as necessidades da criança sejam devidamente atendidas.

Autocuidado: entre um trabalho com sentido, esgotamento e supervisão

Assistentes sociais descrevem sua experiência com as famílias acolhedoras como um processo de longo prazo que influencia tanto as recompensas quanto as frustrações vividas. Destacam a realização de testemunhar o progresso das famílias que apoiam, o que contribui para sua satisfação geral. Por outro lado, situações de alta carga emocional, falta de cooperação e os longos prazos necessários para um progresso significativo podem levar ao estresse e ao esgotamento (Mosala e Wilson 2024). A falta de retorno oportuno das famílias complica ainda mais esse trabalho, como explica Profissional 22:

Um grande desafio é a falta de retorno imediato dos avós acolhedores. Precisamos saber que estamos fazendo diferença, mas muitas vezes só ouvimos um reconhecimento depois de muito tempo, às vezes um ano ou mais. Esse reconhecimento tardio pode tornar nosso trabalho menos gratificante.

Isso evidencia uma questão mais ampla do serviço social: o custo emocional do reconhecimento tardio, que pode agravar sentimentos de inadequação profissional e o esgotamento. As reações ambíguas dos avós acolhedores complicam ainda mais a experiência e aumentam a complexidade emocional do papel. Para enfrentar esses desafios, assistentes sociais desenvolvem estratégias que vão da supervisão profissional a rotinas de autocuidado. O autocuidado também é uma parte importante da manutenção do bem-estar emocional. Em concordância com os achados de Peters (2005), as pessoas entrevistadas se sentiam fortemente comprometidas com seu trabalho, que consideravam profundamente significativo, o que as motiva a continuar apesar dos desafios. Profissional 24 ilustrou esse senso de propósito:

Isso realmente faz sentido para mim. Vejo os resultados, vejo o propósito do trabalho e, sinceramente, gosto muito. Não posso dizer que haja uma única família que eu não queira visitar ou que me deixe desconfortável ajudar.

O sentimento de realização que vem de testemunhar o progresso e de fazer uma diferença concreta motiva grande parte de quem atua no serviço social. Mesmo diante da frustração e do esgotamento, poder apoiar as famílias e ver resultados reforça o senso de propósito e a satisfação profissional. Para algumas pessoas, esse trabalho se alinha estreitamente com seus valores e objetivos pessoais, o que faz os desafios valerem a pena. Profissional 13 ressaltou a admiração que sentia pelos avós acolhedores, reconhecendo a imensa dificuldade de seu papel e a falta de apoio adequado:

Todos esses avós merecem um enorme apoio e admiração. Infelizmente, acredito que há muito pouco apoio no nosso país. Os pais biológicos que não cuidam dos filhos recebem apoio e têm todos os direitos, enquanto os avós acolhedores ficam com as responsabilidades. Eu reduziria as responsabilidades deles e aumentaria o apoio em todas as formas. Realmente não é fácil.

Essa fala capta a tensão que assistentes sociais sentem entre os desafios que enfrentam e sua admiração pelos avós acolhedores. Em nosso estudo, assim como na pesquisa realizada por Greeling (2016), a natureza exigente do serviço social com famílias acolhedoras é contrabalançada pelo profundo senso de propósito e realização que assistentes sociais extraem de seus esforços.

Discussão

Este estudo explorou as experiências e perspectivas de assistentes sociais no acolhimento familiar por parentes, em especial de quem apoia avós na República Tcheca. Ao examinar os desafios específicos enfrentados por essas equipes e suas interações com as famílias acolhedoras, a pesquisa destacou o papel muitas vezes negligenciado do serviço social diante de dinâmicas familiares complexas e na promoção de desfechos positivos para as crianças. Pesquisas anteriores identificaram as pesadas cargas emocionais e financeiras impostas aos avós, revelando como o trauma e o conflito de papéis complicam seus esforços de cuidado (Strong, Bean e Feinauer 2010; Brisebois 2013; Kaylor-Tapscott e Sullivan 2024). Estudos enfatizaram a necessidade de o serviço social equilibrar os interesses divergentes das crianças, dos pais biológicos e dos parentes que acolhem para apoiar com eficácia as famílias de avós (Peters 2005). Isso ressalta a necessidade de explorar melhor as experiências de assistentes sociais (Dolbin-MacNab, Smith e Hayslip 2022; Wissö, Melke e Josephson 2022).

O apoio às famílias de avós é um aspecto fundamental do trabalho realizado pelo serviço social. Para além de suas intervenções diretas, porém, assistentes sociais desempenham um papel significativo na desestigmatização e na normalização do acolhimento familiar nas famílias que apoiam. Essa contribuição é um elemento crucial, mas negligenciado, de sua prática, que permeia toda a sua abordagem. Um dos objetivos centrais do serviço social é ajudar a desmontar o estigma associado ao acolhimento familiar, tanto dentro da família de avós quanto em suas interações com a comunidade mais ampla. A desestigmatização ocorre em vários níveis.

Primeiro, dentro da própria família de avós, o serviço social realiza um trabalho delicado, mas essencial, para ajudar os avós a elaborar suas emoções e sua história pessoal, abordando em especial o estigma ligado ao que é percebido como seus fracassos como pais (Hayslip e Kaminski 2005; Strong, Bean e Feinauer 2010). Isso inclui ajudá-los a superar sentimentos negativos ligados às dificuldades do filho ou da filha, permitindo que cuidem dos netos com mais confiança e resiliência emocional. Uma parte decisiva desse processo consiste em incentivar uma comunicação aberta sobre os desafios que enfrentam. Por exemplo, o serviço social ajuda os avós a encarar e superar a vergonha associada aos fracassos do filho ou da filha, facilitando a reconciliação com sua própria história como pais. Esse apoio permite que os avós falem da complexidade de sua situação familiar e do papel do genitor biológico sem medo de julgamento.

Segundo, o serviço social desempenha um papel crucial na desestigmatização da relação entre as famílias de avós e os pais biológicos, guiando os avós na construção de uma percepção equilibrada do genitor biológico e facilitando um contato adequado. Ao ajudar os avós a reconhecer a importância de manter uma relação com os pais biológicos, o serviço social promove um desenvolvimento identitário saudável da criança. Suas intervenções garantem que interações potencialmente prejudiciais sejam manejadas, priorizando sempre o bem-estar da criança. Com isso, o serviço social favorece a transparência e a abertura, contribuindo para um ambiente familiar mais estável e emocionalmente resiliente.

Terceiro, o serviço social trabalha para superar o estigma que existe entre a família de avós e a comunidade ao redor (ver também Baldock 2007). Isso envolve facilitar uma comunicação transparente entre a família de avós e instituições-chave, como as escolas e as instâncias jurídicas, onde o estigma associado ao acolhimento familiar é sentido com mais intensidade. Por exemplo, assistentes sociais frequentemente incentivam os avós a assumir abertamente sua condição de família acolhedora em vez de ocultá-la, para evitar mal-entendidos ou a rotulação negativa das crianças pelo corpo docente ou por outros membros da comunidade (Peters 2005).

A atuação do serviço social é movida pelo desejo de ajudar as famílias de avós a normalizar sua estrutura familiar no contexto das ideias socioculturais sobre família e parentalidade. Em última análise, a desestigmatização facilitada pelo serviço social não é um aspecto acessório de seu trabalho, mas é intrínseca ao próprio processo. Com esse apoio, assistentes sociais ajudam a criar um ambiente em que os desafios do acolhimento familiar podem ser tratados e discutidos abertamente, nutrindo relações mais saudáveis dentro da família e aliviando o sentimento de isolamento vivido por essas pessoas que acolhem.

Pontos fortes e limitações

A abordagem qualitativa deste estudo ofereceu uma oportunidade valiosa de compreender os desafios e as motivações de assistentes sociais, envolvendo essas pessoas diretamente em conversas sobre seu próprio trabalho. O estudo, porém, não incorpora a visão dos avós, das crianças ou dos pais biológicos sobre as intervenções do serviço social, o que poderia oferecer uma compreensão mais completa de seu impacto. Além disso, seria proveitoso incluir trabalho de campo, em especial observações intensivas de como assistentes sociais abordam as famílias e trabalham com elas. Pesquisas futuras poderiam partir dos resultados aqui apresentados e explorar as diversas perspectivas de todos os atores envolvidos.

Conclusão

A análise de nossos dados empíricos revelou uma narrativa sobre a dinâmica complexa da prática do serviço social, enfatizando em especial a importância de compreender os papéis de assistentes sociais para além de suas interações com o público atendido. O trabalho de assistentes sociais envolve mais do que exigências legais; abrange envolvimento pessoal e vínculos emocionais com as famílias. Essas relações são marcadas pela ambivalência, já que assistentes sociais precisam lidar com avós que podem, de início, resistir à colaboração. Superar essas barreiras pode trazer um sentimento de conquista e realização, embora tais resultados não sejam garantidos.

Complexe Systémique: a reter

O artigo mostra o que a literatura sobre avós que criam os netos costuma deixar na sombra: a pessoa que vem de fora e precisa ser aceita em um sistema familiar ferido. A leitura sistêmica é quase explícita. O serviço social ocupa um lugar de terceiro no triângulo avós, genitor ausente e criança: ressignifica a culpa de ter “falhado” com o próprio filho como possibilidade de reparar, distingue a relação com o genitor do contato com ele, ajuda a criança a construir uma narrativa de suas origens e “traduz” entre duas gerações distantes. Atua também nas fronteiras do sistema, quando o segredo guardado na escola produz exatamente o estigma que pretendia evitar. Para a clínica, essas referências valem para qualquer família em que os avós se tornam pais de fato. Cautela, porém: só se ouve o ponto de vista das equipes, sem os avós nem as crianças, no contexto jurídico tcheco, e a análise permanece próxima do discurso da profissão sobre si mesma. Para ler junto com o artigo sobre as dinâmicas familiares no acolhimento pela família extensa e com o artigo sobre ser mãe ou pai, mas não.

Notas do original

Agradecimentos. A equipe expressa sua sincera gratidão a todas as pessoas do serviço social que, apesar da exigência de suas funções, compartilharam generosamente suas percepções e perspectivas nas entrevistas; suas contribuições foram inestimáveis para esta pesquisa. Agradece também calorosamente aos pareceres anônimos pelos comentários atentos e construtivos, que melhoraram muito a qualidade deste artigo.

Financiamento. Esta pesquisa foi apoiada pela Agência de Fomento da República Tcheca (projeto GA23-06683S).

Conflito de interesses. Nenhum declarado.

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Tradução não oficial em português de Vozes do campo: explorando a experiência de assistentes sociais no apoio às famílias de avós, de Adéla Souralová, Eliška Beránková e Linda Koshi, The British Journal of Social Work, vol. 55, no 6 (2025), doi: 10.1093/bjsw/bcaf069, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (trechos de entrevistas destacados; declarações reunidas nas notas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Voices from the field: Exploring social workers’ experiences in supporting grandfamilies”, publicado em The British Journal of Social Work (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Souralová, A., Beránková, E., et Koshi, L. (2025). Vozes do campo: explorando a experiência de assistentes sociais no apoio às famílias de avós (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/vozes-do-campo-explorando-a-experiencia-de-assistentes-sociais-no-apoio-as-familias (Obra original publicada em 2025 em The British Journal of Social Work, 55(6), 2734-2754 (2025); republicada em 2025 por The British Journal of Social Work, https://academic.oup.com/bjsw/article/55/6/2734/8100450)

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