Journal of Child and Family Studies · Família

Crianças intérpretes nos cuidados de saúde: explorando a interseção entre poder e idade nas práticas de mediação

No médico, uma vizinha pede à jovem Sorraya que traduza que ela dá tapas no filho. O que dizer? Duas pesquisadoras de Londres apresentaram esse dilema a 29 jovens de 13 a 16 anos que interpretam toda semana para a família: a maioria omitiria ou suavizaria a informação, ganharia tempo, protegeria a adulta, e mede o peso de um poder que lhe é confiado cedo demais.

Autoras Humera Iqbal (Thomas Coram Research Unit, Social Research Institute, University College London, Londres) e Sarah Crafter (School of Psychology and Counselling, The Open University, Milton Keynes), Reino UnidoPrimeira publicação Journal of Child and Family Studies, 10 de agosto de 2022Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Crianças intérpretes nos cuidados de saúde: explorando a interseção entre poder e idade nas práticas de mediação, de Humera Iqbal e Sarah Crafter, publicado na Journal of Child and Family Studies (Springer) (2023), doi: 10.1007/s10826-022-02376-0, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Os destaques do original (Highlights) foram reunidos no quadro do resumo; a troca entre Dimitar e a entrevistadora é apresentada em forma de diálogo. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Essas crianças têm um papel vital na proteção das pessoas para quem interpretam.

Humera Iqbal e Sarah Crafter

Resumo

Este artigo busca explorar a perspectiva de jovens sobre um cenário real de intermediação linguística infantil (child language brokering) num contexto de saúde (o consultório médico), quando o assunto em discussão é sensível e potencialmente conflituoso. Crianças intérpretes são jovens migrantes que traduzem e interpretam para membros da família, pares e a comunidade local. Os espaços em que as crianças atuam como intérpretes (por exemplo, serviços de saúde, bancos), aqui chamados de “zonas de contato”, costumam ser dominados por adultos em posições de autoridade e marcados por diferenças de poder desiguais. A criança intérprete e as pessoas para quem ela interpreta podem estar numa posição de menor poder por causa do status migratório ou da idade. A pesquisa existente se concentrou principalmente no ponto de vista dos adultos, e a perspectiva de jovens sobre essa prática permanece pouco explorada. Recorremos à literatura existente para explorar como jovens intérpretes compreendem o contexto social mais amplo e as estratégias que empregam para lidar com o conflito. São apresentados resultados de 29 entrevistas qualitativas individuais baseadas em vinhetas, realizadas no Reino Unido com jovens intérpretes (de 13 a 16 anos) e analisadas qualitativamente. Os resultados mostram que essas crianças têm um papel vital na proteção das pessoas para quem interpretam, muitas vezes transitando por interações sociais e táticas sofisticadas (como a protelação e a modificação seletiva). Da mesma forma, carregam o peso da responsabilidade de lidar com situações complicadas e talvez moralmente questionáveis. Ao pedir a jovens intérpretes que reflitam sobre um cenário real de saúde, avançamos na compreensão de jovens migrantes que atuam como intérpretes e das famílias que apoiam no dia a dia.

Pontos-chave

  • Crianças intérpretes se veem interpretando em serviços de saúde marcados por relações de poder desiguais.
  • A metodologia das vinhetas é um meio útil de captar relatos complexos, sensíveis e conflituosos de crianças sobre a intermediação linguística na saúde.
  • Interpretar no consultório médico exigia das crianças conhecimento dos atores da interação a três, dos fatores institucionais e das normas sociais mais amplas.
  • Jovens usavam diferentes estratégias para lidar com o conflito (por exemplo, táticas de protelação e modificação seletiva).
  • São necessárias diretrizes mais claras sobre a intermediação linguística infantil em contextos médicos e em espaços com fortes desigualdades de poder.

Palavras-chave: intermediação linguística infantil, migração, família, língua, mediação cultural

Este artigo busca explorar a perspectiva de jovens sobre a intermediação linguística infantil num contexto de saúde, a saber, o consultório de um clínico geral, quando o assunto em discussão é sensível e potencialmente conflituoso. No Reino Unido, o general practitioner é um médico de família; em outras partes do mundo, usam-se os termos médico de família, médico da atenção primária ou clínico geral. Crianças intérpretes são crianças e jovens que, depois da migração, atuam como tradutores e mediadores para os pais, os pares e membros da comunidade local (Tse, 1996; Orellana, 2009; Weisskirch, 2007). Evidências empíricas de pesquisas anteriores sugerem que, em muitos países, é considerado inaceitável usar jovens como intérpretes em serviços de saúde, posição endossada pelo pequeno número de estudos realizados com profissionais de saúde (ver Abreu e O’Dell, 2017; Cohen et al., 1999; Giordano, 2007). No entanto, as evidências também mostram que tanto jovens quanto profissionais de saúde confirmam que a intermediação linguística ocorre com frequência em consultórios, clínicas e hospitais (Katz, 2014; García-Sánchez, 2018). As perspectivas pessoais de jovens sobre essa prática permanecem pouco exploradas porque sua “ilegalidade” faz dela uma atividade que continua invisível (Antonini, 2010).

A intermediação linguística foi descrita como um processo triádico de troca de informações (Hall, 2004), porque a comunicação a três costuma envolver a criança intérprete, o membro da família (ou da comunidade local) e o outro adulto, muitas vezes um profissional em posição de poder. Essas pessoas jovens podem atuar na mediação cultural entre a cultura de acolhimento e as culturas de sua casa e de sua comunidade. Desenvolvem habilidades para transitar pelos valores culturais e pelas normas sociais e compreendê-los, o que pode ajudar a defender os próprios interesses e os da família nesses contextos (Hall, 2004; Weisskirch, 2007). É importante notar que esse processo triádico (Hall, 2004) muitas vezes não ocorre em condições de igualdade em termos de dinâmicas de poder. Jovens intérpretes podem viver uma dupla vulnerabilidade: a juventude os submete ao poder e ao controle dos adultos; a migração pode expô-los à exclusão e à discriminação (Massaroni, 2020; Reynolds e Orellana, 2009). Além disso, a prática da intermediação linguística infantil foi apontada como motivo de preocupação porque daria à pessoa jovem poder “demais” dentro da família (ver Crafter e Iqbal, 2021). Isso vale sobretudo quando se trata de questões de saúde.

Já se sugeriu que, na intermediação linguística em serviços de saúde, há três tipos de consulta: simples, complexas e sensíveis (Cohen et al., 1999; Abreu e O’Dell, 2017). Nas consultas simples, para doenças comuns, jovens descreveram a tradução como sem problemas (Free et al., 2003; Katz, 2014). As consultas complexas geralmente dizem respeito ao diagnóstico de doenças e trazem dificuldades de vocabulário e de expressão cultural. As consultas sensíveis envolvem conversas sobre condições íntimas do corpo, como a saúde reprodutiva, e sobre dificuldades emocionais pessoais. Este artigo amplia o tipo “sensível” de consulta ao explorar um dilema moralmente ambíguo e potencialmente conflituoso enfrentado por uma jovem intérprete durante uma consulta com um clínico geral. Com base em entrevistas qualitativas com vinhetas realizadas com vinte e nove jovens intérpretes (de 13 a 16 anos) no Reino Unido, este artigo usa o marco teórico da zona de contato para explorar as respostas de jovens intérpretes a uma situação sensível e conflituosa no consultório médico. A situação de conflito envolvia três atores: um médico (profissional), uma adulta vizinha da jovem intérprete e a própria jovem intérprete. A vinheta se baseia num episódio real de intermediação linguística.

A intermediação linguística infantil na saúde: a interseção entre poder e idade

Define-se criança intérprete como a criança ou jovem “que interpreta e traduz entre pessoas cultural e linguisticamente diferentes e medeia interações em situações variadas” (Tse, 1996, p. 226). Já se observou que crianças a partir de 3 anos atuam como intérpretes ou praticam uma forma de tradução natural para a família (Harris, 1977). O conceito de intermediação linguística designa alguém que faz uma mediação ao mesmo tempo cultural e linguística entre a família, os pares e membros da comunidade local, de um lado, e outras pessoas da cultura de acolhimento ou local, de outro (Kam e Lazarevic, 2014; Jones e Trickett, 2005). O termo reconhece que a criança intérprete pode tomar a iniciativa de negociar ou mudar a mensagem em benefício de sua própria situação ou da situação da família.

Com acesso variável a serviços profissionais de tradução, em contextos linguísticos cada vez mais diversos em muitos países, crianças intérpretes costumam ser as principais mediadoras linguísticas e culturais das famílias migrantes entre a casa e as instituições profissionais (Crafter e Iqbal, 2020; Reynolds e Orellana, 2009). Facilitam a integração social e cultural da família no novo país de acolhimento (Foner e Dreby, 2011) numa ampla gama de espaços, incluindo bancos, comércio, saúde, justiça, assistência social, repartições públicas e polícia, por meio da tradução de textos (por exemplo, e-mails, documentos jurídicos, cartas da escola) e da interpretação de conversas (Dorner et al., 2007; Tse e McQuillan, 1995; Valdés, 2003). A variedade de atividades e de contextos em que jovens atuam como intérpretes faz com que suas experiências vão de trocas cotidianas ou rotineiras a situações mais complexas ou conflituosas (Iqbal, 2019). A pesquisa sobre os impactos sociais e psicológicos da intermediação linguística infantil apresenta um quadro complexo e misto, que vai de associações com estresse e ansiedade a sentimentos de orgulho e realização (Chao, 2006; Kam e Lazarevic, 2014). O ambiente físico e cultural em que ocorre a intermediação linguística, as influências familiares e relacionais, o tipo de tarefa realizada e os objetivos das pessoas envolvidas são variáveis que podem ter um papel mediador na experiência da pessoa jovem (Kam e Lazarevic, 2014).

A intermediação linguística em contextos como o consultório do clínico geral ou outros serviços de saúde tem, compreensivelmente, suscitado preocupações entre profissionais dos serviços de linha de frente (Gustafsson et al., 2019; Cohen et al., 1999). Na ausência de intérpretes adultos com formação, traduzir em contextos médicos pode ser algo comum para muitas pessoas jovens intérpretes. Isso pode exigir conhecimento técnico e dos sistemas, além de interação com um profissional (Gustafsson et al., 2019; Martinez, 2019; Katz., 2014). A maior parte das pesquisas em serviços de saúde adota a perspectiva dos adultos, e poucas examinam diretamente a perspectiva de crianças e jovens (Martinez, 2019). Por exemplo, Cohen et al. (1999) exploraram, no contexto do Reino Unido, a visão de médicos sobre crianças intérpretes quando traduzem para pacientes adultos (geralmente familiares) durante a consulta. Segundo esse estudo, embora os médicos aceitem crianças como intérpretes por falta de intérpretes comunitários adultos disponíveis, essa aceitação depende da natureza da consulta: simples, complicada ou sensível. A hesitação e a oposição expressas pelos médicos estavam ligadas sobretudo à visão tradicional das crianças como inocentes, sem agência e com necessidade de viver uma infância despreocupada (Cohen et al., 1999), mas também à ideia de que as crianças não têm o conhecimento necessário para transmitir conceitos médicos. Isso se refletiu em entrevistas com equipes de saúde em Los Angeles, nos Estados Unidos, que se preocupavam com a transgressão de limites adequados à idade, mesmo quando viam algumas vantagens no uso de crianças intérpretes (Katz, 2014). Essas equipes sentiam que a qualidade do cuidado ficava comprometida e que as interações se tornavam mais difíceis. A competência linguística e a transposição de limites adequados à idade também foram apontadas como preocupações. Além disso, podem existir divergências de opinião sobre o tratamento entre o paciente (para quem a criança traduz) e o profissional de saúde, cabendo à criança intérprete mediar e lidar com essas tensões (García-Sánchez, 2014). Nem todas as pesquisas, porém, encontraram tal oposição. Num estudo realizado na Itália, uma pessoa da gestão da autoridade sanitária apresentou uma opinião contrária, sugerindo que as crianças intérpretes não deveriam ser completamente descartadas (Antonini, 2010).

As pesquisas que incluem a perspectiva de crianças e jovens sobre a intermediação linguística em serviços de saúde geralmente concluem que interpretar nesse contexto é mais desafiador do que em contextos como a escola, por causa da incerteza sobre procedimentos desconhecidos, da linguagem complexa e da variedade de questões que podem precisar ser tratadas, de situações de emergência a situações não emergenciais (Katz, 2014). No entanto, tanto no trabalho de Katz quanto no nosso (Crafter e Iqbal, 2021), constatamos que as crianças nem sempre agiam sozinhas e muitas vezes combinavam estratégias com os pais sobre o que seria discutido e como. García-Sánchez (2014), em seu trabalho sobre crianças de famílias imigrantes marroquinas no consultório médico na Espanha, descreve como jovens usavam estratégias de “modificações seletivas” (p. 232). García-Sánchez distingue os casos em que as crianças tinham dificuldade para entender uma informação e, por isso, a omitiam sem querer, dos casos em que as crianças modificavam a informação de propósito. Ela escreve (p. 232): “Crianças imigrantes marroquinas empregam estrategicamente essas modificações em suas traduções quando se deparam com universos morais, crenças e práticas conflitantes relativos à criação dos filhos e às questões de saúde”. Algumas das razões dessas modificações ecoam as ideias de Bauer (2013) sobre identidades morais. Elas dizem respeito à forma como as crianças gerenciam e constroem determinadas identidades positivas das pessoas para quem interpretam, por meio da transmissão cuidadosa da mensagem. Outras razões estavam ligadas à proteção dos interesses da família ao transitar por diferentes estruturas e sistemas, de modo a apresentar a família sob determinada luz ao “outro” adulto.

Há uma interação complexa entre a prática da intermediação linguística infantil, o emaranhado de relações de poder assimétricas no contexto da interpretação e as compreensíveis preocupações com a idade da criança intérprete. Há quem argumente que as demandas conflitantes dos adultos no processo triádico podem deixar a pessoa jovem “no meio” (Hall, 2004). Ou seja, embora as crianças estejam numa posição de poder por poderem influenciar ou mudar a mensagem, o terreno pode ser difícil de percorrer, e esse poder às vezes pesa sobre elas. As relações de poder são fluidas nesse contexto porque, ao contrário do que ocorre com intérpretes profissionais, a pessoa jovem tem laços estreitos com um dos adultos, o que leva a temer que os adultos pareçam “desqualificados” (Hall, 2004, p. 12): sem saber se a criança está mudando o conteúdo da mensagem durante a tradução (Hall e Sham, 2007; Wagner, 1993) ou se jovens estão defendendo seus interesses com vigor excessivo (Katz, 2014). As crianças ocupam uma posição diferente da de intérpretes adultos, porque vivem com as pessoas para quem realizam essas tarefas e recebem os cuidados delas, o que faz com que alguns profissionais, mesmo quando veem de forma positiva o papel de jovens, possam retratar os pais como passivamente protegidos pelos filhos (Katz, 2014).

Trabalhos anteriores usaram expressões como “parentificação” e “adultificação” para descrever um deslocamento das dinâmicas entre pais e filhos devido às responsabilidades maiores assumidas por jovens intérpretes na família (Vasquez et al., 1994; Weisskirch, 2007). Argumentamos em outro artigo (Crafter e Iqbal, 2021) que esses termos sugerem uma relação de poder muito estática entre pais e filhos. Outros trabalhos defenderam que a intermediação linguística pode ser entendida como “interpretação familiar”, enfatizando a família como equipe de atuação (Valdés, 2003), ou como atos de cuidado que permitem às famílias funcionar em ambientes migratórios por vezes difíceis (García-Sánchez, 2018). Isso tem implicações políticas, na medida em que essas crianças facilitam o acesso das famílias aos cuidados de saúde, à tecnologia, aos serviços financeiros e a recursos (dos quais as famílias imigrantes recém-chegadas muitas vezes podem ser excluídas). Também pode significar que crianças migrantes que atuam como intérpretes fiquem diretamente expostas ao racismo cotidiano e às microagressões (Nash, 2017) em espaços públicos da sociedade de acolhimento, como os serviços de saúde (Reynolds e Orellana, 2009).

Marco teórico: a zona de contato

O foco de nosso artigo está na perspectiva de jovens intérpretes sobre uma situação moralmente ambígua e conflituosa que ocorre num serviço de saúde atravessado por desigualdades de poder e de idade. Conceitualmente, este artigo se baseia no trabalho de Mary Pratt (1991) sobre a zona de contato, “termo que designa espaços sociais onde culturas se encontram, se chocam e se enfrentam, muitas vezes em contextos de relações de poder altamente assimétricas, como o colonialismo, a escravidão ou seus desdobramentos, tal como são vividos hoje em muitas partes do mundo” (p. 33). A ideia foi usada inicialmente em relação às teorias do letramento, mas depois passou a ser empregada em várias disciplinas, incluindo a psicologia e a educação (Crafter e Iqbal, 2019; Hermans, 2001; Malsbary, 2014). Ela se articula particularmente bem com a intermediação linguística infantil, prática que é uma manifestação da globalização e da migração e que pode colocar famílias e comunidades em posição marginalizada por falta de conhecimento linguístico e cultural da sociedade de acolhimento.

A língua está no centro da zona de contato e pode ser vista como um código social que cria um sentido compartilhado de comunidade e de patrimônio dentro de um mundo social homogêneo e unificado. No entanto, esse pressuposto se torna excludente quando falantes de diferentes classes sociais e origens culturais entram em diferentes contextos de zona de contato, como salas de aula, serviços de saúde e espaços burocráticos. Dierkheimer e Helbrect (2015) argumentam que, ao pensar em encontros conflituosos entre desconhecidos, pode ocorrer entre os atores sociais uma disputa por prestígio e por dominação situacional. Porém, quando um dos atores de uma troca social é uma pessoa jovem, o status e a dominância que ela consegue trazer para o encontro podem ser diferentes dos de um adulto profissional (como um médico). De fato, jovens intérpretes migrantes e suas famílias podem não dispor dos códigos sociais e dos conjuntos de normas e regras necessários para uma comunicação compartilhada (Pratt, 1991). Isso pode levar uma das partes (neste caso, o profissional num serviço de saúde) a exercer autoridade sobre a outra.

A zona de contato é um espaço que pode ser dinâmico, de confronto e conflito (um espaço inseguro, constituído por relações de poder desiguais), mas também reconfortante e conforme (o que Pratt chama de “casa segura”, constituída por relações de poder mais igualitárias) (Atari, 2013). É importante notar que a relação entre espaços seguros e inseguros não é fixa, mas fluida e mutável, às vezes ambígua, o que mostra que o jogo de poder na zona de contato é influenciado por várias categorias sociais, como língua, classe, etnia e religião. Pratt argumenta que os atores sociais exercem o poder de modo diferente em espaços diferentes: podem estar em posição dominada num espaço e dominante em outro. É importante ter isso em mente ao pensar nos encontros na zona de contato. Recorremos a essas ideias teóricas para examinar como jovens intérpretes lidam com o conflito num consultório médico.

Desenho da pesquisa e métodos

O objetivo do projeto de pesquisa mais amplo em que este artigo se baseia era explorar como jovens que atuam regularmente como intérpretes fazem a mediação de saberes e identidades culturais em diferentes espaços e contextos. Os dados foram coletados por uma combinação de métodos tradicionais das ciências sociais, qualitativos e quantitativos (entrevistas com vinhetas, observações, questionário), e de abordagens baseadas nas artes (oficinas de teatro, podcast e artes visuais). Todos os dados foram coletados após a aprovação ética do estudo pelo comitê de ética em pesquisa da instituição da pessoa que assina em primeiro lugar, e todos foram coletados pelas duas autoras do artigo. As duas pesquisadoras eram mulheres de classe média, uma britânica de origem sul-asiática e a outra britânica branca. Neste artigo, concentramo-nos nas 29 entrevistas com vinhetas (23 meninas, 6 meninos) realizadas com jovens de 13 a 16 anos de três escolas da Grande Londres, no Reino Unido. Obteve-se consentimento separado dos jovens e das pessoas responsáveis por eles. O termo de consentimento e a folha de informações foram redigidos em linguagem simples, sem jargão, e revisamos esses documentos com os jovens, que os levaram para casa para explicá-los às pessoas responsáveis e obter a assinatura. A escola também facilitou esse processo, e os pais tiveram a oportunidade de tirar dúvidas com a equipe de pesquisa e com o corpo docente antes de assinar. Demos informações claras sobre o projeto e garantimos que os pais entendessem que a participação dos filhos era voluntária e que tinham o direito de desistir. Os detalhes completos do método utilizado e mais informações sobre a amostra podem ser encontrados aqui: https://languagebrokeringidentities.files.wordpress.com/2019/03/ahrc-final-report-clb-as-mediators.pdf.

Contexto da pesquisa e participantes

Na Grande Londres, quase 40% da população nasceu fora do Reino Unido, e mais de 300 línguas são faladas na cidade (Rogers, 2013). Recebemos um convite para coletar os dados em três escolas secundárias, com jovens de 13 a 16 anos: Murry Green (N = 9, todas meninas), Rutland (N = 9, 6 meninas, 3 meninos) e Drake (N = 11, 9 meninas, 2 meninos) (os nomes de todas as escolas foram alterados). Cada uma foi escolhida cuidadosamente com base em vários critérios, incluindo: a localização (todas ficavam em áreas com muitas chegadas recentes de pessoas migrantes); uma alta proporção de estudantes com o inglês como língua adicional (English as an Additional Language, EAL), um indicador importante da prática da intermediação linguística infantil; vínculos da escola com uma organização local de jovens intérpretes (Young Interpreters); e, em uma das escolas, uma colaboração de pesquisa anterior. Os jovens das escolas responderam a um questionário on-line, que nos ajudou a identificar quem atuava ativamente como intérprete. Quem interpretava mais de uma vez por semana para membros da família recebeu convite para participar das entrevistas e das oficinas.

As pessoas participantes têm trajetórias migratórias variadas. Alguns jovens e suas famílias vieram diretamente para a Inglaterra de seus países de origem, entre eles Polônia, Bulgária, Colômbia e Equador. Outros fizeram trajetórias migratórias transnacionais: eles próprios ou os pais nasceram em países como Bangladesh, Sri Lanka ou Nigéria e passaram por outro país, como a Itália ou a Espanha, antes de se estabelecer na Inglaterra. Dezenove pessoas da amostra chegaram ao Reino Unido entre os 11 e os 16 anos, 5 relataram ter chegado entre os 6 e os 9 anos, 1 contou ter chegado entre os 2 e os 3 anos, e 4 não nos deram essa informação. Em nossa análise, não examinamos em detalhe como a idade de chegada influenciava a maneira de interpretar a ambiguidade moral do cenário da vinheta (apresentado na próxima seção). Selecionamos, no entanto, nossa amostra com cuidado. Antes de realizar as entrevistas e aplicar o questionário, passamos um tempo conhecendo os jovens e conduzindo uma série de oficinas sobre os espaços, lugares e situações em que atuavam como intérpretes. Todos os jovens selecionados atuavam ativamente como intérpretes para a família e tinham experiência e conhecimento da intermediação em diversos sistemas e contextos no Reino Unido (incluindo o consultório médico). Todas as entrevistas puderam ser feitas em inglês. Nossos trechos mantêm eventuais erros gramaticais e o jeito de falar londrino.

Entrevistas com vinhetas

Coletamos os dados por meio de entrevistas qualitativas com vinhetas. Uma vinheta oferece uma história-estímulo que permite à pessoa entrevistada refletir sobre os dilemas das personagens. Já descrita como uma abordagem eticamente sensível (Barter e Renold, 2000), a metodologia das vinhetas permite discutir questões a partir de uma perspectiva não pessoal e, portanto, menos ameaçadora (Crafter et al., 2015). Como o inglês não era a primeira língua das pessoas participantes, considerou-se também que a vinheta as ajudaria a comunicar suas próprias perspectivas e experiências durante a entrevista.

Todas as nossas vinhetas foram elaboradas a partir de exemplos da literatura sobre intermediação linguística. Criamos cada vinheta de modo que a pessoa entrevistada tivesse de negociar uma situação difícil ou conflituosa, além de possíveis disputas de poder. Em outras palavras, criamos uma zona de contato (Pratt, 1991). Apresentamos os resultados de uma das quatro vinhetas apresentadas aos jovens durante a entrevista (para detalhes das outras três, ver Crafter e Iqbal, 2020). A história da vinheta discutida neste artigo se baseia numa ida ao médico e foi adaptada de uma situação real de intermediação na saúde descrita por García-Sánchez (2014) em seu livro sobre imigrantes marroquinos na Espanha. O cenário envolve uma jovem intérprete, Sorraya (a personagem), que interpreta para a vizinha no consultório médico. A equipe de pesquisa lia a seguinte vinheta para os jovens:

Sorraya está traduzindo para a vizinha no médico. O filho pequeno dessa mulher não está comendo, e esta é a segunda consulta em quatro meses. Depois de uma breve conversa, o médico diz que a mãe precisa parar de dar tantos doces ao menino. A mãe pede, toda alegre, que Sorraya diga ao médico que, quando ele começa a gritar, ela lhe dá um tapa. Sorraya sabe que o médico não vai aprovar que ela bata no filho.

Em seguida, cada participante respondia às seguintes perguntas:

  1. O que você acha que está acontecendo nessa situação?
  2. Como você descreveria o mal-entendido cultural que ocorreu?
  3. Como você acha que a criança da história lidaria com isso?
  4. Exercício de dramatização: imagine que você está nessa situação. Eu sou o médico e você é Sorraya. Você acabou de explicar à vizinha que ela deveria parar de dar doces ao filho, e a vizinha respondeu com o comentário sobre o tapa. A entrevistadora diz em tom profissional: “Você pode me explicar o que a sua vizinha disse?”. O que você faria/diria?

O conflito na história surge quando a jovem (Sorraya) ouve a vizinha (para quem está traduzindo) lhe apresentar uma informação inesperada: ela dá tapas no filho. Assim, a personagem da vinheta e as pessoas entrevistadas se veem diante de um conflito moral que envolve normas e valores culturais. As três primeiras perguntas pedem que as pessoas entrevistadas comentem o que acham que a personagem faria na situação em que se encontra, enquanto a pergunta 4 pede que se imaginem no lugar da personagem. Essa pergunta buscava ajudar as pessoas entrevistadas a trazer seus próprios relatos de experiências semelhantes em contextos médicos. Das 29 entrevistas aprofundadas com jovens, 26 trouxeram respostas detalhadas a essa vinheta. Era a última vinheta da entrevista, e restrições de tempo fizeram com que três entrevistas terminassem abruptamente. Essa é uma das limitações do trabalho em escolas.

O processo analítico

A análise das entrevistas com vinhetas combinou codificação manual e um software de análise de dados qualitativos (NVivo). Lemos as transcrições das entrevistas e desenvolvemos categorias temáticas iniciais com base na teoria existente, em nossas perguntas de pesquisa e na literatura sobre intermediação linguística infantil. Esse livro de códigos inicial foi elaborado em discussões da equipe centradas numa amostra inicial de transcrições. Os códigos foram depois refinados e postos à prova por um trabalho mais aprofundado com os dados e por sua análise, e agrupados em temas (Flick, 2014). A equipe de análise era composta por três pessoas (as duas autoras e uma pessoa colega externa ao projeto), que analisaram as transcrições de forma independente e depois se reuniram para comparar os temas. Em caso de desacordo, os temas eram abandonados ou retrabalhados até se chegar a um consenso. Quando membros da equipe introduziam códigos distintos, eles eram comparados com os códigos existentes em busca de semelhanças e, em seguida, integrados, acrescentados à lista de codificação ou descartados. Uma vez finalizado, o esquema foi usado para analisar as transcrições restantes, e os membros da equipe continuaram a se consultar quando surgiam dúvidas. Durante esse processo de análise, concentramo-nos na relação diádica entre a personagem da vinheta e as posições próprias da pessoa jovem durante a entrevista. Ao discutir os resultados da vinheta, deixamos claro que, embora muitas vezes eles possam ser projeções da tomada de decisão das crianças sobre a personagem, aqui os usamos como meio de explorar múltiplas posições e dinâmicas de poder (Crafter et al., 2015). Neste caso, a vinheta remetia a um cenário em que a personagem (Sorraya) se depara com uma consulta sensível que envolve um dilema moral no consultório médico enquanto interpreta para a vizinha. Interessava-nos não só como as pessoas participantes diziam que Sorraya lidaria com a situação, mas também os relatos de suas próprias experiências semelhantes em contextos médicos que elas traziam. Nossa estratégia de codificação incorporou essa distinção. No artigo, deixaremos claro quando as pessoas entrevistadas se basearam em suas próprias experiências e quando refletiram sobre a personagem da vinheta.

Resultados

Todas as pessoas jovens intérpretes tinham experiência real de intermediação em contexto médico, como um consultório, um hospital ou uma farmácia. Nenhuma tinha vivido um dilema moral ou uma situação semelhante à de Sorraya (a personagem da vinheta), mas as pessoas entrevistadas conseguiram refletir sobre as complexidades levantadas pela vinheta. No cenário, há três relações de poder centrais associadas à intermediação em contexto médico: (1) a vizinha adulta e sua relação com a criança intérprete, (2) o médico (que atua como figura de autoridade detentora de saber) e sua relação com a criança intérprete e, por fim, (3) a compreensão, pela criança intérprete, das possíveis consequências mais amplas, para a vizinha, de revelar que ela dá tapas no filho. Essas relações de poder correspondem a diferentes elementos da zona de contato, como a relação triádica entre a vizinha, o médico e Sorraya, e as políticas nacionais e normas culturais mais amplas em torno do bem-estar e da proteção da infância.

Compreensão do problema e dinâmicas institucionais de poder na zona de contato

Todas as pessoas jovens entrevistadas tinham consciência de que a intermediação linguística ocorria em situações sociais complexas, que exigiam conhecimento tanto dos atores da interação triádica quanto dos fatores institucionais e das normas sociais mais amplas. As pessoas participantes refletiram sobre o dilema de Sorraya (a personagem da vinheta) e sobre as repercussões de ela traduzir para o médico o que a vizinha lhe disse. Tereza, 16 anos, fala sobre isso:

Eu acho que a Sorraya, … sabe que se ela contar para o médico que a vizinha bate no pequeno, isso vai chegar nos assistentes sociais e aí eles vão simplesmente tentar tirar a criança dela… os assistentes sociais vão na sua casa e vão tentar investigar o que está acontecendo. … então eu acho que ela está meio preocupada, tipo, que palavras eu vou usar, será que eu conto isso para ele, ou será que eu só explico de um jeito diferente.

Muitas outras pessoas participantes refletiram sobre os possíveis problemas enfrentados pela vizinha da vinheta, sobretudo porque entendiam o consultório médico como um ponto de ligação entre a família e os serviços sociais mais amplos. Reconheciam que o Estado tinha o direito de colocar a criança sob proteção se o bem-estar dela fosse avaliado como em risco. Embora nem todas as crianças conhecessem a terminologia, todas entendiam as piores implicações possíveis, como Anca, 13 anos: “você sabe como é lá [no Reino Unido], se você bate no seu filho, as pessoas vêm e levam o seu filho embora”.

Ao refletir sobre o contexto sociocultural mais amplo e sobre uma prática parental controversa, algumas pessoas entrevistadas compararam as normas sociais dos países de antes da migração e da nova vida na Inglaterra. Samir, 14 anos, do Afeganistão, refletiu sobre a história da vinheta e sobre sua própria experiência pessoal de ser disciplinado por um dos pais:

Porque em países diferentes você tem ideias diferentes sobre as coisas, e acho que se você fizer a mesma coisa no meu país o médico vai aprovar.

Pesquisas anteriores argumentaram que a prática da intermediação linguística amplia a compreensão que a pessoa jovem tem tanto da cultura de origem quanto da cultura de acolhimento (Birman e Trickett, 2001). A fala de Samir sugere que ele entende o tapa da vizinha como uma forma aceitável de disciplina num contexto, mas também que o conhecimento aprofundado que Sorraya tem das normas culturais da cultura de acolhimento a coloca numa posição de mais saber do que a vizinha. Tereza, 16 anos, levanta um ponto semelhante, situando a vizinha numa posição de menor poder por não entender as normas sociais e de proteção social:

A mãe deve ser de outro país. Por exemplo, se você é africano, se você dá um tapa no seu filho, você só está educando ele, tudo bem. Mas tipo, em britânico [sic], acho que eles levam isso longe demais, a ponto de você não poder encostar no seu filho, ponto… Acho que a mãe não entende que se ela disser isso para um médico britânico vai ser entendido de outro jeito e a mãe vai ter problemas

Para além de sua perspectiva sobre as práticas parentais no contexto britânico, Tereza reconhece o que é necessário para transitar pelo sistema de saúde. Nessa zona de contato que é o contexto médico, Tereza mostra que consegue recorrer aos códigos sociais que adquiriu para facilitar uma “troca ordenada e coerente” (Pratt, 1991, p. 38) e, assim, evitar uma situação que causaria problemas para a mãe.

Para as pessoas jovens intérpretes entrevistadas, o dilema moral apresentado na vinheta também trazia desafios emocionais para Sorraya, a personagem da vinheta. Ellora, 14 anos, percorre as diferentes dimensões complexas que Sorraya poderia considerar:

Porque eu sei que se uma criança é maltratada e leva tapa e, hum, apanha. Tem tipo consequências legais. Acho que a Sorraya sabe disso, então ela não quer que a polícia separe a mãe da criança, então talvez a Sorraya esteja pensando na criança. Ela não quer que a criança viva sem mãe, porque mãe é uma coisa importante … Então ela está pensando nisso e ela pensa, eu preciso achar uma solução para tirar eles dessa. Então é uma coisa muito difícil. Se eu estivesse no lugar da Sorraya, eu ia surtar.

O primeiro ponto a notar é a escalada que Ellora faz da palavra “tapa” para algo mais grave (surra e maus-tratos). Essa escalada explica a ligação que ela faz com a intervenção policial, que por sua vez leva a uma reflexão sobre a importância da relação entre mãe e filho. A personagem da criança intérprete carrega, nesse cenário, o fardo moral de ter de pensar na perda de uma mãe para uma criança pequena. A ideia de um dilema moral, que atravessa como um fio algumas das respostas das pessoas participantes à vinheta, liga-se ao trabalho de Bauer (2013) sobre a construção e a gestão da moralidade no processo de intermediação linguística. A responsabilidade de tomar decisões morais e cheias de consequências colocava a personagem da vinheta numa posição ao mesmo tempo de poder e de impotência. Por um lado, Sorraya (a personagem) tem um papel de protagonismo na condução da conversa. Por outro, Ellora descreve como, se estivesse no lugar de Sorraya, ela “ia surtar”. Outras pessoas entrevistadas descreveram Sorraya como “sem saída”, “triste” e “desconfortável” caso tivesse de mentir para o médico. Anca, 13 anos, cuja primeira língua é o romeno, descreveu Sorraya como uma “mártir”, mas usou a palavra “vinovat”, que em romeno capta uma emoção também ligada à culpa e à responsabilidade. Com isso, Anca conseguiu descrever o peso da responsabilidade que percebia em Sorraya.

Estratégias usadas por jovens para lidar com dilemas morais e culturais

Muitas pessoas participantes falaram do uso de táticas de protelação em suas próprias situações reais de tradução, sobretudo quando traduziam muitas informações, ou quando a informação era complexa e havia um dilema moral. Da mesma forma, sugeriram que a personagem da vinheta poderia usar essas táticas, que, a seu ver, dariam a Sorraya tempo para pensar na melhor maneira de responder ao que a vizinha disse. Rabiatou, 16 anos, por exemplo, sugere: “Se eu fosse a Sorraya, eu diria para o médico que a gente estava conversando sobre (a questão) e que eu não entendi o que ela quis dizer (quando) ela estava me explicando”. Aqui, Rabiatou afirma que alegaria não ter entendido o problema descrito pela vizinha como forma de protelar (já que o médico não entendia a língua da vizinha), ganhando assim tempo. Pratt (1991) discute o papel da língua e do poder na zona de contato, e é claro que, neste caso, o inglês (língua da sociedade de acolhimento) ocupa uma posição dominante, sendo usado pela figura de autoridade (o médico). No entanto, por meio dessas táticas de protelação que passam pela língua de casa, subordinada, jovens conseguem subverter as dinâmicas de poder na zona de contato. De fato, Daria, 14 anos, sugere que Sorraya converse com a vizinha na língua de casa para informá-la das possíveis repercussões de traduzir diretamente o que ela disse.

É, mas se eles estão falando em outra língua, a Sorraya, ela pode dizer para o médico “Ah, com licença, eu preciso falar sobre, explicar uma coisa para ela”. Ela pode mentir para ele só para explicar para ela que não é bom dizer para o médico que você vai bater no seu filho se ele gritar com você ou berrar ou coisa assim.

Por um lado, a posição de poder de Sorraya na zona de contato do consultório médico é mais baixa por causa de seu status de criança. Por outro, Daria descreve como a personagem poderia usar sua intermediação linguística como estratégia para ganhar tempo e explicar o problema conflituoso à vizinha. Nesse sentido, ela exerce certo poder como intérprete para formar uma aliança mais próxima com a mãe (a vizinha) do que com a figura de autoridade, a fim de fazer a vizinha perceber a gravidade da situação. Ao fazer isso, ela protegeria a mãe da figura mais poderosa da interação, neste caso o médico. Reconhecendo a gravidade da situação de intermediação, algumas crianças, como Rabiatou, 16 anos, disseram que seriam muito diretas com a vizinha, já que havia muito em jogo:

Eu teria dito para a vizinha que não é permitido bater em criança no Reino Unido. É isso que eu teria dito. Porque eles podem levar o seu filho embora, num piscar de olhos.

Embora não afirmemos que as respostas de jovens reflitam o que fariam na vida real, essas respostas são interessantes mesmo assim. Das 26 respostas detalhadas a esse cenário, 22 jovens disseram que omitiriam ou modificariam seletivamente a informação sobre os tapas da vizinha no filho. Três jovens não tinham clareza sobre a decisão que tomariam na vida real, e apenas uma criança afirmou que informaria o médico de que a mãe dava tapas no filho. Em linha com achados semelhantes sobre a “modificação seletiva” relatados por García-Sánchez (2010, 2014), havia diferentes razões para fazer isso, como proteger os interesses da família, reconhecer um dilema moral, querer evitar o conflito e querer apresentar a cultura de origem sob uma luz positiva. Em nosso estudo, Tereza, 16 anos, explica como mudaria o conteúdo da mensagem.

Não acho que ela diria para o médico que a vizinha simplesmente dá tapa na criança. Acho que ela diria com outras [sic] palavras. Ela diria tipo “Eu não gosto quando ele chora muito e eu não quero dar tapa nele.

Neste caso, porém, Tereza se diferencia da personagem da história.

Eu não quero fazer isso. Porque mesmo que você conte para o médico, acho, do meu ponto de vista, se você disser para o médico “ah não, isso é só uma tradição” (diriam) “você está neste país, você está na Grã-Bretanha, aqui não se faz isso”. Porque depois, se a criança aparecer com um roxo em algum lugar, é o médico que vai ver

Há dois aspectos importantes no distanciamento que Tereza estabelece entre sua própria posição e a da personagem da vinheta. Primeiro, ela entende que o saber cultural da “tradição” não tem o mesmo peso que as concepções dominantes de infância e de proteção da infância refletidas na posição do médico como figura de autoridade. Segundo, pesquisas anteriores mostraram que jovens intérpretes têm muita consciência de que os adultos desconfiam de que estejam dizendo a verdade e, por isso, falam da importância de ser verdadeiros com os adultos (Crafter et al., 2017).

O poder dos termos linguísticos foi trazido pelas pessoas participantes em relação ao contexto cultural. Por exemplo, várias crianças mencionaram a palavra smack (“tapa”) e disseram que a trocariam para suavizar a mensagem ao médico, por exemplo por spank (“palmada”). Ania, 13 anos, usa a palavra tap (“tapinha”) ou “bater de leve”, junto com uma explicação sobre as diferenças nas práticas parentais:

Eu só diria que quando ele começa a gritar … tipo ela dá um tapinha nele ou, sabe, bate de leve nele porque é isso que se faz naquela cultura e tipo ela não sabe que não se deve fazer isso, então eu meio que só explicaria para o médico que é isso que se faz naquela cultura

A maneira como as pessoas participantes descreviam a explicação da situação pela criança à vizinha variava. Ania, 13 anos, por exemplo, diz que Sorraya explicaria à mãe a possibilidade de punição por instâncias externas e que dar tapas não era correto:

Para a mãe eu diria que, você não devia fazer isso porque tipo aqui isso não se faz e você pode ser punida por bater numa criança aqui e não é muito adequado

A modificação seletiva também era usada como forma de salvaguardar ou proteger a pessoa com menos poder no contexto da intermediação, neste caso a vizinha. Dimitar, 14 anos, explica como alterar as mensagens é inevitável para proteger os interesses da parte para quem se está traduzindo:

Dimitar: Quer dizer, ela [a personagem, Sorraya, como criança intérprete] provavelmente deveria,… mentir para o médico sobre o que elas disseram uma à outra, porque ela quer que a vizinha fique com o filho, porque isso ia arrasar a vizinha. Ela provavelmente deveria dizer que a gente estava com dificuldade para dizer qual era exatamente o problema, que são os hábitos alimentares dele.

Entrevistadora: Então ela deveria protegê-la. É bastante coisa para uma criança fazer, você não acha?

Dimitar: É, sim, mas às vezes você tem que fazer o que tem que ser feito.

A simpatia de Dimitar aqui está com a vizinha, apresentada como a personagem que mais precisa de proteção. Essa perspectiva se assemelha às responsabilidades de cuidado que jovens intérpretes, segundo a literatura, assumem em nome de familiares, responsabilidades que têm um componente moral-afetivo que ajuda as crianças a manter os relacionamentos (García-Sánchez, 2018) e que protege quem não consegue se comunicar na língua local de injustiças percebidas (Nash, 2017). A resposta de Dimitar à pergunta da entrevistadora, “você tem que fazer o que tem que ser feito”, também é particularmente interessante. Em outros momentos da entrevista, Dimitar refletiu sobre o quanto estava atento a seu status de criança e reconhecia que esse status lhe permitia desafiar expectativas e enfrentar o conflito quando necessário. Isso não vale necessariamente para todas as pessoas jovens intérpretes, mas valia para Dimitar, que entendia que as ideias tradicionais sobre a infância faziam com que outros, profissionais, pudessem subestimá-lo e não esperar dele certos comportamentos. Ele muitas vezes usava isso a seu favor durante a intermediação (Crafter et al., 2009).

Outras pessoas, de modo muito diferente de Dimitar, refletiram sobre sua posição de criança, com menos poder diante de uma figura adulta, e sentiram que não tinham confiança nem conhecimento para lidar com uma situação tão complexa. Por isso, imaginaram abordagens alternativas para a forma como a personagem lidaria com a situação. Mihal, 13 anos, afirma que a personagem pediria aos próprios pais que interviessem e “resolvessem as coisas”, porque ele acreditava que a vizinha não receberia bem conselhos vindos de uma criança:

Porque seria bom se ela, ela contar, tipo, para alguém da família dela, porque se alguém da família, a família é amiga da vizinha, talvez ela possa conversar com a vizinha e resolver as coisas. Talvez.

Ao trazer um membro externo da família, Mihal considera que isso aliviaria a pressão sobre Sorraya e, de certo modo, reduziria a tensão na zona de contato. Em certos aspectos, esse é um exemplo de como a idade pode ser usada de outra forma vantajosa: por serem crianças, jovens intérpretes podem recorrer legitimamente aos recursos de outros adultos para ajudá-los com seu dilema.

Ellora, 14 anos, também pensa em como obter recursos e conhecimento junto aos adultos. Ela considera que Sorraya seria uma intérprete ativa (Crafter e Iqbal, 2020) e tomaria a iniciativa de reunir informações sobre boas práticas de criação para a vizinha: “Então talvez pedir conselho ao médico sobre como agir nessa situação”. Desse modo, ela consegue criar um espaço seguro dentro de uma zona de contato, embora também modificando seletivamente a informação.

Conclusão, implicações e pesquisas futuras

Conclusão

Este artigo se propôs a explorar como crianças intérpretes falam de um cenário real de intermediação num contexto de saúde (o consultório médico), em que há relações de poder desiguais entre os atores. Cada pessoa jovem intérprete tinha experiência de intermediação em contexto médico, mas nenhuma tinha enfrentado o tipo de dilema moral e conflituoso que apresentamos por meio da personagem da vinheta, Sorraya. As respostas das pessoas participantes são esclarecedoras porque nos permitiram perceber como jovens refletem sobre a responsabilidade de deter poder em espaços institucionais e de servir de voz para um adulto.

Dois resultados principais surgiram em torno da compreensão do problema por jovens. O primeiro estava relacionado ao dilema moral e às desigualdades de poder presentes no cenário de intermediação. Jovens de nosso estudo refletiram sobre o conjunto de fatores institucionais, normas sociais e atores da interação triádica envolvidos no cenário de saúde. Reconheceram que a responsabilidade da intermediação linguística (em relação à personagem) era algo que podia deixar a pessoa jovem com a sensação de ser ao mesmo tempo poderosa (pela tarefa de intérprete que lhe fora confiada) e impotente (quando o resultado de sua intermediação podia ter consequências graves para outras pessoas). O segundo resultado estava associado às estratégias usadas por jovens para lidar com situações complexas de intermediação. Essas estratégias incluíam táticas de protelação, sobretudo quando havia muita informação e ela era complexa ou controversa, e também a omissão de informações ou a modificação seletiva da mensagem. Com o uso dessas estratégias, jovens intérpretes conseguiam subverter as dinâmicas de poder na zona de contato e afirmar certo grau de agência própria. Outra consideração importante do artigo foi o papel da idade numa situação complexa de intermediação.

As pessoas participantes de nosso estudo pareciam reconhecer que crianças intérpretes têm um conhecimento aprofundado de outros valores e tradições culturais. No entanto, essas práticas e tradições nem sempre têm o mesmo peso em todos os contextos. Seu conhecimento se estende, portanto, à compreensão das práticas tanto da cultura de origem quanto da cultura de acolhimento e das consequências mais amplas que as cercam quando ligadas a forças institucionais. Por exemplo, à primeira vista pode parecer que Sorraya (a personagem de nossa vinheta) está numa posição de poder porque pode “modificar seletivamente” a fala. No entanto, numa situação moral-afetiva e conflituosa, Sorraya está numa posição delicada. Suas palavras têm repercussões sérias, e as pessoas entrevistadas situavam o médico como o outro dotado de autoridade, que representa as práticas de proteção social e as normas sociais e culturais do país de acolhimento.

Nosso uso do trabalho de Mary Pratt (1991) sobre a zona de contato oferece um meio útil de pensar as experiências e as dimensões de poder encontradas por uma criança intérprete no processo de mediação em nome de um familiar ou de um membro da comunidade. Ele se apoia nas noções de migração, marginalização e nas posições superordenadas ou subordinadas ocupadas por certas línguas, pessoas e espaços. Como destaca Atari (2013), as zonas de contato estão conectadas, e ações numa delas (neste caso, o consultório médico) podem ter repercussões mais amplas em outra (o sistema estatal de proteção social). O papel da língua nos contextos sociais é particularmente importante. Enquanto Pratt discute como diferentes línguas carregam diferentes representações de poder, o sociolinguista Hymes (1971) pensa em como as crianças, em diferentes contextos, podem não ter acesso aos mesmos recursos sociolinguísticos nem à mesma aquisição da linguagem. Isso vale especialmente para crianças intérpretes, que têm histórias migratórias diferentes e assumem papéis considerados adultos. No contexto de zona de contato do consultório médico (explorado neste artigo), por exemplo, jovens intérpretes podem se deparar com uma terminologia médica linguisticamente complexa, difícil de interpretar.

O artigo também destaca que crianças podem ser forçadas a tomar grandes decisões que terão impacto sobre pessoas próximas. Nessa linha, as crianças deste estudo falaram de várias estratégias usadas para ganhar tempo, resguardar e proteger outras pessoas, mudando a linguagem e compreendendo melhor o contexto mais amplo. A intermediação linguística é, pode-se dizer, uma prática que se alinha às expectativas culturais de responsabilidades familiares (Spyrou et al., 2018), e alguns trabalhos a enquadraram como um fardo (Tomasi e Narchal, 2019), por causa da responsabilidade que ela coloca sobre crianças e jovens. No entanto, argumentamos em outro trabalho que as próprias crianças, em muitos casos, podem ver de forma positiva sua participação nesse trabalho. Ela pode ser uma forma de adquirir habilidades adicionais e um desenvolvimento à frente da idade cronológica (Crafter e Iqbal, 2021).

Reconhecemos que uma limitação de nosso estudo é termos elaborado deliberadamente histórias de vinhetas com situações conflituosas e desafiadoras, que traziam dilemas morais. Ainda assim, cada uma dessas histórias se baseou num episódio real de intermediação, e esse método indireto de captar as experiências das crianças foi eticamente mais sensível e menos ameaçador do que ter a equipe de pesquisa presente durante um momento tenso de tradução.

Implicações e pesquisas futuras

Com os cortes orçamentários de austeridade nos serviços públicos (como a interpretação profissional), em muitas partes do mundo se gasta menos dinheiro para oferecer às famílias e às pessoas migrantes fácil acesso a tradutores e intérpretes. É provável que crianças e jovens continuem a exercer essa atividade. Além disso, no clima político atual, em que o sentimento anti-imigração é forte em muitas partes do Norte Global, acompanhado de políticas migratórias muitas vezes hostis, questões de confiança fazem com que pais e adultos possam preferir o apoio de familiares, mesmo que sejam crianças.

No Reino Unido, há poucas diretrizes claras e formalizadas sobre o uso de crianças intérpretes em espaços públicos (por exemplo, jurídicos, médicos, financeiros e governamentais). Embora existam algumas orientações para o ambiente escolar (ver https://www.nuffieldfoundation.org/project/child-language-brokering-at-school), elas não tratam adequadamente dos desafios próprios de outros contextos, como a saúde (discutida neste artigo). No entanto, sabemos que essa prática acontece. Diante disso, são necessárias orientações práticas aprimoradas e adaptadas para profissionais de saúde, e o reconhecimento de que há conversas das quais crianças não deveriam participar. Deveria haver compreensão sobre o estabelecimento de limites e reconhecimento da diferença de poder em jogo entre esses profissionais adultos e as crianças que interpretam para a família. Por exemplo, pode haver momentos numa consulta em que uma conversa começa de maneira aceitável, mas depois se transforma em algo de que a criança não deveria participar, e nesse caso quem presta o atendimento precisaria intervir. Além disso, é preciso compreender fatores contextuais mais amplos que podem estar em jogo: status migratório, desconhecimento dos sistemas.

No nível das políticas públicas, são necessários mais debate e mais compreensão sobre a complexidade da intermediação linguística, incluindo na conversa intérpretes jovens e adultos. Além disso, é preciso mais pesquisa na área da intermediação e da saúde. Concluímos com um apelo por pesquisas que busquem especificamente compreender e categorizar a variedade de atividades de intermediação que jovens realizam em contextos médicos e em outros espaços com fortes desigualdades de poder. Uma das áreas de necessidade urgente são as situações de emergência de saúde, em que as crianças são muitas vezes as únicas intérpretes disponíveis.

Complexe Systémique: a reter

Para a clínica sistêmica, este texto desloca de modo útil a questão da “parentificação”: a criança intérprete não é apenas uma criança encarregada de um papel adulto, mas uma pessoa que negocia entre mundos, protege os seus, escolhe as palavras, ganha tempo e às vezes busca aliados adultos. A vinheta também mostra o preço desse poder: sentir-se ao mesmo tempo indispensável e impotente, carregar segredos, antecipar consequências institucionais graves. Em nossos atendimentos, isso convida a nunca pedir a uma criança que interprete assuntos sensíveis, a perguntar à família como a intermediação é vivida em casa e a reconhecer esse saber-fazer sem banalizá-lo. Dois limites pedem cautela: as respostas tratam de um cenário fictício e não dizem o que jovens fariam de fato, e a amostra, recrutada na escola, é composta sobretudo por meninas. Também seria bom ouvir os pais envolvidos. Para ler junto com o artigo sobre os processos dialéticos em famílias somalis na Suécia e com o artigo sobre a experiência emocional da parentificação na infância.

Notas do original

Agradecimentos. A equipe agradece às escolas e aos jovens que generosamente dedicaram seu tempo para tornar esta pesquisa possível, e a Charles Forsdick, AHRC Leadership Fellow, pelo apoio ao projeto no âmbito do tema Translating Cultures.

Financiamento. Este trabalho foi financiado pelo Arts and Humanities Research Council (bolsa AH/M003744/1).

Conflito de interesses. A equipe de pesquisa declara não haver conflito de interesses.

Aprovação ética. Todos os dados foram coletados após a aprovação ética do estudo pelo comitê de ética em pesquisa do IOE, Faculdade de Educação e Sociedade da UCL (REC678).

Consentimento. Obteve-se consentimento informado de todas as pessoas participantes incluídas no estudo, bem como de seus pais ou responsáveis.

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Tradução não oficial em português de Crianças intérpretes nos cuidados de saúde: explorando a interseção entre poder e idade nas práticas de mediação, de Humera Iqbal e Sarah Crafter, Journal of Child and Family Studies, vol. 32, no 2 (2023), doi: 10.1007/s10826-022-02376-0, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (destaques reunidos no quadro do resumo, troca apresentada em diálogo). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Child Language Brokering in Healthcare: Exploring the Intersection of Power and Age in Mediation Practices”, publicado em Journal of Child and Family Studies (2023) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Iqbal, H., et Crafter, S. (2023). Crianças intérpretes nos cuidados de saúde: explorando a interseção entre poder e idade nas práticas de mediação (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/criancas-interpretes-nos-cuidados-de-saude-a-intersecao-entre-poder-e-idade (Obra original publicada em 2022 em Journal of Child and Family Studies, 32(2), 586-597 (2023); republicada em 2023 por Journal of Child and Family Studies, https://link.springer.com/article/10.1007/s10826-022-02376-0)

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