Adoption & Fostering · Proteção à infância
Quase um quarto dos bebês em acolhimento familiar apresentava um transtorno de apego, e 40% das crianças com dois anos ou mais tinham pelo menos um diagnóstico psiquiátrico ou do neurodesenvolvimento. A equipe do ensaio BeST?, realizado com 488 crianças pequenas acolhidas em Glasgow e em Londres, relê seus dados sob a ótica da adoção. Defende uma avaliação integral e contínua de cada criança e uma “dupla habilitação”, que confiaria o bebê desde o início a uma família acolhedora apta a adotá-lo.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Como atender da melhor forma às necessidades das famílias adotivas? Resultados relevantes de um grande ensaio clínico randomizado, o BeST, com bebês em acolhimento familiar no Reino Unido, de Fiona Turner, Gary Kainth, Karen Crawford e Helen Minnis, publicado na Adoption & Fostering (SAGE) (2026), doi: 10.1177/03085759261483169, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As listas numeradas do original são apresentadas como listas; as declarações do fim do artigo (conflitos de interesse, aprovação ética, consentimento, financiamento) foram reunidas nas notas; o endereço para correspondência, os identificadores ORCID, a declaração de disponibilidade de dados e as notas biográficas não foram reproduzidos. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
É provável que, em muitos casos, “o amor não baste”.
Fiona Turner, Gary Kainth, Karen Crawford e Helen Minnis
Resumo
O ensaio sobre os serviços BeST? foi a primeira vez que uma abordagem de saúde mental do bebê para avaliar e tratar situações de maus-tratos foi testada no Reino Unido. Embora os principais resultados já tenham sido publicados, os dados relativos à nossa coorte de 488 crianças ainda não tinham sido examinados no contexto da adoção.
Este artigo discute dois grandes conjuntos de resultados que consideramos os mais relevantes para apoiar as famílias adotivas: primeiro, os relacionados à saúde mental e à neurodivergência das crianças; segundo, os relacionados às trajetórias das crianças no sistema de acolhimento. Em seguida, fazemos recomendações para a prática fundamentadas em nossos dados.
Primeiro, as dificuldades significativas e múltiplas das crianças, bem como os padrões complexos de recuperação ao longo do tempo, reforçam o apelo por uma avaliação integral e oportuna das crianças maltratadas pelos serviços de saúde mental, e por seu acompanhamento, para que as famílias adotivas possam desenvolver expectativas informadas, conhecimentos e habilidades em relação à criança.
Segundo, os atrasos significativos até que as crianças cheguem a uma colocação permanente, e a consequente preocupação com os efeitos da incerteza prolongada sobre a saúde mental, nos levam a recomendar a adoção de um sistema de dupla habilitação. Embora a reforma de um sistema seja difícil, as diferenças significativas que encontramos entre jurisdições vizinhas mostram a influência de efeitos sistêmicos, que podem ser modificados.
Palavras-chave: bebê, saúde mental, maus-tratos, abuso, negligência, adoção, apoio, acolhimento familiar, transtornos de apego, neurodivergência
As questões sobre a forma mais eficaz de intervir junto a famílias cujos filhos foram colocados em acolhimento familiar deram origem a um grande projeto de pesquisa no Reino Unido: o ensaio sobre os serviços BeST? comparou uma abordagem de saúde mental do bebê, recém-implantada, com os “serviços habituais” do serviço social (SAU, services as usual). O objetivo geral era determinar qual método era “o melhor” (best) para as crianças (isto é, qual era o mais eficaz e o mais custo-efetivo) em relação a dois desfechos principais: sua saúde mental e o tempo necessário para chegar a uma colocação permanente (incluindo um retorno definitivo à família de origem). No ensaio clínico randomizado (ECR), 488 bebês e crianças pequenas (de 0 a 5 anos) foram alocados aleatoriamente, pouco depois da entrada no acolhimento, à equipe de saúde mental do bebê ou aos SAU, e seu bem-estar foi acompanhado durante dois anos e meio (aos 15 meses e, novamente, aos dois anos e meio). As medidas utilizadas pela equipe de pesquisa, o número de crianças que permaneceram no estudo e a metodologia geral do ensaio podem ser consultados no artigo de Crawford e colegas (Crawford et al., 2025).
O ensaio nasceu de preocupações com a saúde mental e a instabilidade das colocações das crianças acolhidas. Na época, levantou-se a hipótese de que elementos de uma abordagem de saúde mental do bebê já consolidada – o Modelo de Intervenção de Nova Orleans (NIM, New Orleans Intervention Model) – poderiam ajudar a preencher algumas das lacunas identificadas para crianças e famílias no contexto britânico (Minnis et al., 2010). Embora o NIM não tivesse passado por testes científicos rigorosos, resultados preliminares indicavam êxito no apoio à saúde mental infantil (Robinson et al., 2012). Comparações “antes e depois” nos Estados Unidos também indicavam que, para as crianças devolvidas à família de origem, houve uma redução significativa dos maus-tratos repetidos contra as crianças do estudo e contra os irmãos nascidos depois (Zeanah et al., 2001). Na época, esses dados dialogavam com os resultados de uma auditoria em Glasgow, onde dois terços das crianças sofriam maus-tratos repetidos, o que produzia um “efeito porta giratória”: crianças indo e voltando entre a família de origem e o acolhimento familiar (Minnis et al., 2010).
Ao longo de todo o ensaio, tanto o NIM quanto os SAU realizaram uma avaliação de três meses de cada família participante, com base em “lentes” de avaliação que diferem entre as abordagens: enquanto os SAU realizam observações naturalísticas da relação pais-criança como parte da avaliação da capacidade parental, o NIM segue uma abordagem baseada no apego, com instrumentos padronizados. Depois da avaliação, os SAU fazem uma recomendação sobre o retorno ou não da criança para casa, ao passo que o NIM oferece ainda à família uma fase de tratamento experimental de seis a nove meses antes de fazer sua recomendação. O tratamento consiste em intervenções relacionais baseadas em evidências, conduzidas por uma equipe multidisciplinar de psicologia, psiquiatria, serviço social e psicoterapia. Quando os pais não conseguem se engajar na fase de tratamento, ou quando não é seguro fazê-lo (por exemplo, se ainda estão em uma dependência não controlada), o NIM trabalha com a criança e com sua família acolhedora, com o mesmo objetivo de melhorar a saúde mental do bebê.
Muito diferente da abordagem tradicional do serviço social para avaliar e apoiar famílias com bebês acolhidos, a implantação do NIM no contexto britânico representou uma maneira radicalmente diferente de intervir em situações de maus-tratos. Acompanhamos e pesquisamos com interesse sua trajetória de implantação: do exame de sua recepção no contexto britânico de proteção à infância (Turner-Halliday et al., 2017) à exploração das perspectivas de pais, famílias acolhedoras, equipes de serviço social, advocacia, magistratura e equipes do NIM, por meio de entrevistas e grupos focais, no que se conhece como “avaliação de processo” (Kainth et al., 2022, 2024). As equipes do NIM ofereceram recentemente uma visão retrospectiva das dificuldades que enfrentaram ao transpor o modelo entre contextos de proteção à infância (em Nova Orleans, na Escócia e na Inglaterra) que diferem muito entre si, sobretudo em seus sistemas jurídicos (Donaldson et al., 2025).
Já publicamos os principais resultados do ensaio, que podem ser condensados em três mensagens-chave do artigo de Crawford e colegas (Crawford et al., 2025):
Até agora, não havíamos examinado o que esses resultados gerais, e outros resultados do ensaio, significam para o contexto da adoção. Este artigo busca preencher essa lacuna, apresentando e discutindo os resultados do ensaio que consideramos especialmente importantes para a adoção.
O exame dos resultados do estudo e a extração dos mais relevantes para a adoção foram realizados pela equipe de pesquisa (todas as pessoas que assinam este artigo) por meio de discussões focalizadas.
Identificamos duas grandes áreas de especial importância quando se aplica uma “lente da adoção” aos dados. São elas:
Para cada uma das duas áreas, fazemos diversas recomendações baseadas em evidências sobre como as famílias adotivas podem ser mais bem apoiadas.
Embora não tenhamos encontrado diferença entre o NIM e os SAU quanto à saúde mental das crianças, podemos oferecer um panorama da saúde mental e das taxas de neurodivergência das crianças no momento em que entraram no estudo e ao longo dos dois anos e meio de acompanhamento:
No conjunto, as crianças do ensaio apresentavam taxas de neurodivergência e de transtornos psiquiátricos muito mais altas que a população geral: entre as crianças de 2 anos ou mais (a faixa etária adequada à medida de bem-estar e desenvolvimento global), 40% tinham pelo menos um diagnóstico logo após a entrada no acolhimento, contra estimativas de 7% a 9% na população geral (Wichstrøm et al., 2012; Gleason et al., 2011). Além disso, as crianças muitas vezes se enquadravam em várias categorias diagnósticas (para o detalhamento completo: Crawford et al., 2025).
Esses resultados são coerentes com pesquisas anteriores que mostram a maior prevalência de transtornos mentais entre crianças maltratadas (Engler et al., 2022) e suas taxas muito mais altas de neurodivergência de base genética (Dinkler et al., 2017). Também confirmam o que já se sabe sobre a probabilidade de as crianças apresentarem uma sobreposição complexa de diferenças de saúde mental, cognitivas e do neurodesenvolvimento (Wilkinson et al., 2025; Minnis, 2013).
Quase um quarto das crianças preenchia os critérios de um transtorno de apego ao entrar no estudo (Crawford et al., 2025). Os sintomas incluem dificuldades para sinalizar as próprias necessidades, por exemplo, quando a criança se machuca, tem fome ou está angustiada. Quando as dificuldades para buscar ou aceitar conforto são graves, fala-se em transtorno de apego reativo (RAD, Reactive Attachment Disorder) (Minnis et al., 2013; Lehmann et al., 2020; Zeanah e Gleason, 2015). Algumas crianças maltratadas têm comportamentos indiscriminados compatíveis com o transtorno de interação social desinibida (DSED, Disinhibited Social Engagement Disorder); em outras palavras, tendem a se afastar sem voltar a buscar os pais ou as pessoas que cuidam delas, e podem até buscar conforto junto a estranhos (Lehmann et al., 2020). Constatou-se que a maioria das crianças e adolescentes com diagnóstico de RAD ou de DSED apresenta vários transtornos psiquiátricos e problemas psicossociais concomitantes (Minnis et al., 2013; Seim et al., 2022).
O fato de que, ao entrar no acolhimento, nossa coorte de crianças tinha uma prevalência de transtornos psiquiátricos ou de neurodivergência cerca de cinco vezes maior que a da população geral é de enorme importância no contexto da adoção, quando consideramos o que já sabemos sobre as trajetórias ao longo do tempo:
Em primeiro lugar, sabemos que a neurodivergência é um aspecto inerente e permanente da constituição de uma pessoa, ainda que sua apresentação possa mudar e evoluir com o tempo. Em segundo lugar, embora alguns efeitos dos maus-tratos possam ser atendidos pela oferta de cuidados seguros, constantes e afetuosos, outros efeitos podem persistir ao longo do tempo: por exemplo, as consequências para a saúde mental (Macpherson et al., 2021) e os comportamentos indiscriminados associados ao DSED (Kennedy et al., 2017; Sonuga-Barke et al., 2017). As razões da persistência das dificuldades são claramente multifatoriais e incluem influências sistêmicas (discutidas adiante) que podem afetar os ambientes de cuidado após os maus-tratos. Sabemos, por exemplo, que uma parentalidade junto a crianças maltratadas que não seja informada por um aporte terapêutico pode perpetuar as dificuldades de apego, sobretudo se a pessoa cuidadora apenas responde com sensibilidade aos sinais da criança, quando a criança tem, de saída, dificuldade para sinalizar (manifestar ou comunicar) suas necessidades (Dozier, 2003). É provável que, em muitos casos, “o amor não baste” e que as pessoas cuidadoras precisem ir além da parentalidade “comum” e se formar em habilidades mais específicas, incluindo habilidades terapêuticas que buscam remodelar o modelo operativo interno de apego da criança após os maus-tratos (Dozier, 2003). Nosso trabalho qualitativo com a equipe do NIM no BeST? revelou que ela precisou dedicar muito mais recursos e atenção do que o previsto inicialmente para favorecer habilidades terapêuticas no acolhimento familiar (Turner et al., 2023). Isso significa que as crianças podem chegar à adoção sem a experiência prévia de um cuidado que tenha conseguido atender plenamente às suas necessidades.
Nossos resultados reforçam o apelo para que os serviços de saúde mental infantil realizem rotineiramente avaliações integrais e baseadas em evidências, que considerem os efeitos dos maus-tratos e a possibilidade de neurodivergência (Gajwani e Minnis, 2023; Hiller et al., 2023; Wilkinson et al., 2025), com informações de múltiplas fontes (por exemplo, a pessoa responsável pelo acompanhamento social da criança, a equipe docente etc.). Quando os serviços não mantêm as duas possibilidades em mente, corre-se o risco de atribuir todas as dificuldades da criança a uma ou a outra origem, limitando assim a compreensão do conjunto de suas necessidades. No caso do transtorno de apego, sua frequente coocorrência com outros transtornos faz com que alguns sintomas possam ser atribuídos erroneamente a outras condições, como o TDAH, e ele pode passar despercebido pelos serviços com frequência (Davidson et al., 2023). Inversamente, quando se sabe que houve maus-tratos, há o risco de explicar todas as dificuldades como relacionadas a dificuldades ou transtornos de apego, deixando de lado a possibilidade de outros impactos sobre o funcionamento da criança (por exemplo, os relacionados à neurodivergência ou ao TEPT) (Hiller et al., 2023). Considerar a interação entre os efeitos dos maus-tratos e a neurodivergência também é importante; por exemplo, já se propôs teoricamente que essa interação pode funcionar como um risco “aditivo” e ameaçar a saúde mental com impacto duplicado (Gajwani e Minnis, 2023). A identificação precoce é, portanto, essencial e, embora muitos recursos de formação e informação sobre adoção possam oferecer informações, apoio e orientação valiosos, eles não substituem a necessidade de que os serviços de saúde mental formulem as necessidades de cada criança singular, cujas dificuldades sobrepostas podem exigir uma avaliação especializada (Davidson et al., 2023) e uma compreensão dos processos complexos e multinível envolvidos na promoção de um funcionamento resiliente após os maus-tratos (Ioannidis et al., 2020).
Uma avaliação integral e baseada em evidências é vital para ajudar os pais adotivos a reconhecer e compreender as necessidades da criança quando ela chega à adoção, para que possam tomar decisões precoces e informadas sobre os muitos fatores envolvidos em seu cuidado: por exemplo, escolher onde e quando buscar apoio, escolher como adaptar a parentalidade e o ambiente doméstico, e escolher os tipos de adaptação do ambiente escolar da criança que talvez queiram reivindicar. O sofrimento vivido pelas famílias adotivas quando não puderam ter expectativas informadas, nem se preparar com conhecimento de causa, já foi relatado (Bejenaru et al., 2024). Considerando que as famílias acolhedoras e os pais adotivos também relatam uma falta geral de informações sobre a história e as experiências da criança (Whincup et al., 2019), e que as famílias acolhedoras podem subnotificar ou normalizar as dificuldades complexas das crianças (Pritchett et al., 2016; Turner et al., 2023), há o risco de que, sem uma avaliação precoce padronizada, as famílias adotivas fiquem “no escuro” quando se trata de compreender com nuances as necessidades das crianças. Além disso, se as famílias adotivas não conhecem os sintomas ou as características comuns (e se a avaliação de rotina não estiver prevista como padrão), podem não buscar ajuda nos serviços, ou não saber que forma de ajuda é a mais adequada. Em consequência, há um risco contínuo de necessidades não atendidas, que pode afetar negativamente o funcionamento de toda a família ao longo do tempo.
Além da avaliação, muitas famílias adotivas precisam de apoio e intervenção oportunos. O conhecimento que têm das dificuldades da criança não se traduz automaticamente, sem aporte especializado, em estratégias parentais eficazes ou em uma adaptação construtiva do ambiente da criança, o que pode incluir a já mencionada necessidade de desenvolver uma abordagem terapêutica da parentalidade (Dozier et al., 2013). Os sintomas associados aos transtornos de apego podem dificultar especialmente o desenvolvimento de relações íntimas em novos ambientes de cuidado – e, portanto, na adoção –, porque perturbam múltiplos domínios do funcionamento social e, assim, a forma como a criança se relaciona com os outros (Guyon-Harris et al., 2019). Os sintomas de RAD, por exemplo, podem melhorar – em alguns casos – somente se quem adota adquirir habilidades terapêuticas como o “desafio suave” (gentle challenge), que pode melhorar a capacidade da criança de buscar e aceitar conforto e ajuda. É pouco provável que esse tipo de habilidade terapêutica seja intuitivo, e reconhece-se que ele pode até contrariar nossos instintos naturais como pessoas cuidadoras, o que significa que essas habilidades precisam ser aprendidas e praticadas por meio de uma intervenção especializada (Dozier, 2003). Os desafios de exercer a parentalidade com crianças neurodivergentes após a adoção também são conhecidos (Hunt e Rodwell, 2018), e isso pode ser especialmente complexo se a criança também tiver comportamentos relacionados aos maus-tratos que a tornem menos capaz de buscar ou aceitar o apoio parental. Embora as crianças neurodivergentes (incluindo TDAH, autismo, transtorno de tique e transtorno do desenvolvimento da coordenação) possam se desenvolver bem com as adaptações certas em seu ambiente, as famílias podem precisar de apoio especializado, sobretudo se as crianças resistirem ao apoio parental (Hunt e Rodwell, 2018).
Embora a necessidade de intervenção precoce seja clara, já se mostrou que faltam tratamentos baseados em evidências e consistentes para melhorar o apego em crianças pequenas (Wright et al., 2023), e faltam tratamentos plenamente testados para a sobreposição complexa de dificuldades relacionadas aos maus-tratos. Uma forma de apoiar as famílias adotivas, portanto, é fazer avançar o conhecimento e a prática por meio da pesquisa de intervenção. Como evidências pontuais sugerem efeitos positivos da Psicoterapia Diádica do Desenvolvimento (DDP, Dyadic Developmental Psychotherapy) (por exemplo, Burch et al., 2023), estamos realizando atualmente um ECR de grande porte sobre a DDP com famílias adotivas para examinar sua eficácia (Turner-Halliday et al., 2014; Biggs et al., 2025). Os resultados serão conhecidos no início de 2027.
Aprofundar a compreensão do “que funciona” para as famílias adotivas precisa ser um objetivo central nesse contexto, porque continuamos a constatar uma falta geral de apoio em nossas diversas linhas de pesquisa. Os pais adotivos de nosso ECR sobre a DDP expressam preocupação com a falta de acesso a avaliação e intervenção quando buscam ajuda (Biggs et al., 2025) e destacam as grandes dificuldades que encontram para se orientar em um panorama de serviços extremamente complexo (Aleid et al., 2026). Muitas vezes, essas barreiras podem ser ainda maiores do que as enfrentadas pelas famílias acolhedoras, devido à falta de serviços especializados de saúde mental da infância e da adolescência disponíveis para as famílias adotivas. Elas também podem ser maiores por causa da forma como os serviços veem as dificuldades das crianças maltratadas e respondem a elas (Hiller et al., 2023), por exemplo, se atribuem todas as dificuldades aos maus-tratos e deixam de lado a neurodivergência. Ao mesmo tempo, há barreiras ao acesso aos serviços gerais de saúde mental do bebê (Hickey et al., 2024; McFadyen, 2024) e, como mencionado acima, o ensaio sobre os serviços BeST? demonstrou que a intervenção NIM não pôde ser aplicada como previsto no Reino Unido devido às barreiras criadas pelos sistemas judicial e de acolhimento familiar (Crawford et al., 2025). Em conjunto, essas múltiplas barreiras fazem com que as famílias adotivas possam muitas vezes ficar “com o bebê no colo”, sozinhas, ao tentar atender às necessidades complexas da criança.
Quando acompanhamos a coorte de crianças ao longo dos dois anos e meio, a neurodivergência tendeu a se manter estável, ao passo que os transtornos de apego diminuíram na coorte durante o período. Também obtivemos percepções interessantes sobre a possível complexidade dos perfis de saúde mental das crianças ao longo do tempo, quando examinamos os efeitos do compromisso das famílias acolhedoras sobre os sintomas de transtornos de apego e os problemas de saúde mental das crianças. O compromisso da família acolhedora é definido como “uma motivação para ter uma relação duradoura com a criança”, o que implica também um investimento emocional na criança (Dozier e Lindhiem, 2006). Embora tenhamos constatado que os sintomas de RAD melhoraram significativamente no ponto de acompanhamento de 15 meses quando os bebês tiveram uma primeira família acolhedora muito comprometida, níveis elevados de compromisso no acolhimento estiveram significativamente associados a níveis mais altos de problemas de saúde mental no ponto de acompanhamento de dois anos e meio (Turner et al., 2022).
Nossos resultados em relação ao RAD foram os esperados, mas os resultados sobre o efeito do compromisso elevado na saúde mental foram mais intrigantes. Em primeiro lugar, uma saúde mental que piora em vez de melhorar sugere que as dificuldades das crianças maltratadas podem não simplesmente melhorar com o tempo. Em segundo lugar, o fato de esse efeito só ter aparecido dois anos e meio depois da entrada das crianças no acolhimento sugere que um cuidado comprometido pode ter efeitos tardios sobre a saúde mental da criança. Entrevistas com pessoas cuidadoras e equipes clínicas sugerem que nossos resultados podem refletir um processo em que as crianças “botam tudo para fora” à medida que se sentem à vontade e menos inibidas com pessoas cuidadoras muito comprometidas. É provável que exista um “período de lua de mel”, em que as dificuldades das crianças ficam menos visíveis. Alternativamente, ou além disso (e como nossa medida do funcionamento em saúde mental se baseava no relato das famílias acolhedoras), as famílias acolhedoras podem se tornar mais atentas aos sintomas da criança com o passar do tempo. Isso é coerente com outros estudos, por exemplo o de Staines e colegas (2019), segundo o qual a percepção que os pais adotivos tinham do comportamento da criança mudou ao longo da DDP à medida que sua empatia aumentava, o que resultou em um aumento inesperado dos relatos de sofrimento emocional das crianças após a DDP. Temos grande interesse em realizar uma pesquisa longitudinal que acompanhe as crianças ao longo de vários anos, na qual esperamos ver também em nossa coorte as melhorias na saúde mental encontradas em outros estudos longitudinais de crianças adotadas; por exemplo, no Bucharest Early Intervention Project (Smyke et al., 2012; Smyke et al., 2002; Zeanah et al., 2017) e no English and Romanian Adoptees Study (O’Connor et al., 1999; Sonuga-Barke et al., 2017).
Pesquisas anteriores mostraram que um acolhimento familiar comprometido está associado a uma maior probabilidade de colocação de longo prazo ou de adoção (Dozier e Lindhiem, 2006), a menos problemas de comportamento relatados nas crianças (Lindhiem e Dozier, 2007) e a expressões de prazer, por parte da família acolhedora, na relação (Bernard e Dozier, 2011). Teoriza-se também que ele é fundamental para o desenvolvimento de uma relação de apego saudável entre a criança e quem a acolhe (Bernard e Dozier, 2011). Nossos resultados sobre seu efeito positivo no RAD (e na saúde mental, se essas mudanças se revelarem positivas ao final) comprovam sua importância; no entanto, constatamos que, em nosso sistema atual de acolhimento, havia mais barreiras do que fatores favoráveis para que bebês em acolhimento familiar vivessem um cuidado comprometido (Turner et al., 2023). Não surpreende, portanto, que o compromisso medido tenha se mostrado mais alto entre famílias adotivas e mais variável entre famílias acolhedoras (Cleary et al., 2018), o que significa que muitas crianças provavelmente têm mais chances de viver uma relação muito comprometida na adoção. Embora o BeST? não tenha acompanhado as crianças por tempo suficiente para examinar se a adoção levava a melhores desfechos que o acolhimento familiar temporário (o número de crianças adotadas aos dois anos e meio era pequeno demais para análise), os efeitos positivos do compromisso elevado em Turner et al. (2022) sugerem que “uma motivação para ter uma relação duradoura com uma criança” importa.
O fato de só termos encontrado uma relação entre o compromisso elevado da família acolhedora e o aumento dos problemas de saúde mental dois anos e meio depois (Turner et al., 2022) é importante para as famílias adotivas e reforça o apelo por uma avaliação integral contínua (como descrito acima), que se estenda para além da entrada no acolhimento (Gajwani e Minnis, 2023; Hiller et al., 2023; Wilkinson et al., 2025). Depois de um tempo em acolhimento familiar, as famílias adotivas podem esperar que as crianças que chegam à família sigam uma progressão linear de recuperação. Assim, quando as crianças se estabelecem na família e só então começam a manifestar comportamentos difíceis, ou se os sintomas das dificuldades são mais bem identificados com o tempo, as famílias adotivas podem se culpar, e os serviços podem atribuir esse padrão a problemas de capacidade parental. Embora suspeitemos que “botar tudo para fora” possa ser um sinal saudável de progresso para a criança, que indica um cuidado comprometido, ou que a capacidade crescente dos pais e das famílias acolhedoras de perceber as dificuldades seja igualmente um progresso e possa aumentar a busca de ajuda nos serviços, essas mudanças podem não ser recebidas dessa forma pelas famílias adotivas. Se as famílias adotivas atribuem as dificuldades da criança a supostas falhas em sua parentalidade, por exemplo, isso pode, ao contrário, diminuir a probabilidade de que busquem ajuda nos serviços. Esse é um momento crucial, em que a própria adoção pode começar a ficar sob tensão, e existe até o risco de ruptura da adoção nesse período vulnerável.
É de importância vital que as famílias adotivas conheçam esses padrões, pois esse é o momento do percurso familiar em que mais precisam da ajuda dos serviços para apoiar a criança e para acreditar em sua capacidade como pais. Além da evidente necessidade de avaliação e apoio contínuos, descrita acima, sugerimos que é importante que as famílias adotivas compreendam os efeitos diferenciados do cuidado comprometido sobre os transtornos de apego, em comparação com a saúde mental. Isso pode ser apoiado, na pesquisa e na prática, por uma avaliação que examine os sintomas de transtorno de apego separadamente dos sintomas de problemas de saúde mental, para que se alcance uma compreensão mais refinada do percurso de recuperação ao longo do tempo.
Sabe-se há muitos anos que uma entrada mais tardia no acolhimento e uma colocação adotiva mais tardia estão associadas a uma maior probabilidade de problemas de saúde mental na criança; por isso, uma tomada de decisão oportuna é crucial quando uma criança foi maltratada. No entanto, apenas um quarto das crianças da coorte BeST? estava em uma colocação permanente aos dois anos e meio, o que indica que, quando as crianças chegam à adoção, a maioria viveu no sistema de acolhimento “temporário” durante períodos significativos da primeira infância. Como nosso acompanhamento terminou após dois anos e meio, não podemos dizer quando, em média, as crianças finalmente deixaram o acolhimento familiar temporário; um novo acompanhamento da coorte seria útil nesse sentido. Um acompanhamento anterior de grande porte das trajetórias de crianças pequenas no sistema de acolhimento na Escócia constatou que a maioria das adoções só ocorria três a quatro anos após a entrada da criança no acolhimento (Biehal et al., 2019).
Nosso trabalho qualitativo com famílias acolhedoras ao longo de todo o ensaio sugere que esses prazos prolongados são “a norma”. Ficou claro que as famílias acolhedoras, que descreviam um investimento emocional significativo nas crianças acolhidas, estavam extremamente preocupadas com a ruptura dos vínculos de apego após períodos tão longos. Embora as famílias acolhedoras vissem seu papel como uma “ponte” necessária, também percebiam que os prazos para os bebês tinham ido muito além de uma função de ponte, avançando para o terreno do dano e do atraso da adoção:
“Ele só foi adotado aos quinze meses – e isso, ao que parece, é uma história de sucesso porque foram ‘só’ quinze meses… ele acabou sendo adotado por um casal que já tinha os dois irmãos dele. Eles [o serviço social] sabiam antes de ele nascer que ele nunca voltaria para casa e que os pais nunca o teriam de volta… por que ele ficou comigo quinze meses? E por que isso é uma conquista? … Ele era tão apegado a nós, e nós a ele, aos quinze meses, e teria sido muito melhor se ele tivesse seguido em frente muito mais rápido e tivesse a sua família ‘para sempre’ muito mais rápido” (Turner et al., 2023).
Como descrevemos em Turner e colegas (2023), o impacto prejudicial de viver em um estado de incerteza – ou liminaridade – já foi pesquisado em outros contextos, e foi um tema central ao longo de toda a avaliação de processo do ensaio. Nosso trabalho qualitativo expressa as perspectivas carregadas de emoção de famílias acolhedoras supostamente “de curto prazo”, incapazes de oferecer qualquer tipo de certeza à criança por longos períodos. Tratava-se sobretudo da incerteza quanto ao momento em que a criança passaria do acolhimento familiar à adoção:
“Ela está comigo há quase três anos, e ela sabe há muito tempo que não vai voltar, e ela sabe disso…. é todo esse não saber para a criança que eu acho a pior parte. ‘Vou estar aqui no Natal?’ ‘Vou estar aqui no meu aniversário?’ ‘Vou estar aqui quando a gente sair de férias?’ Acho que essa é a pior parte para a criança… . Eu digo ‘Também não sei’, e é bem difícil …. sabe, a gente está tentando organizar umas férias em família também; eu nem sei se ela vai estar aqui” (Turner et al., 2023).
Bebês vivendo em estados de incerteza, com pessoas cuidadoras temporárias (cujo nível de compromisso pode variar [Bernard e Dozier, 2011]), é o oposto do que sabemos que os bebês precisam para um desenvolvimento saudável. A primeira infância é um período crucialmente sensível para o desenvolvimento socioemocional (Zeanah et al., 2011; Zeanah e Humphreys, 2018) e, embora o abuso e a negligência nesses períodos possam ser particularmente prejudiciais, o inverso também vale: a primeira infância oferece a maior oportunidade de mudança sustentável e de recuperação após os maus-tratos (Chinitz et al., 2017; Tarren-Sweeney, 2014). Embora tenhamos visto o impacto positivo do acolhimento familiar comprometido sobre nossos bebês (Turner et al., 2022), a incerteza prolongada que nossos resultados evidenciam pode não apenas causar danos, mas também desperdiçar uma janela vital para aproveitar ao máximo as oportunidades de recuperação.
A idade de entrada no acolhimento também é importante para o contexto da adoção. Constatamos que, a cada mês a mais de idade na entrada no acolhimento, a probabilidade de ser encaminhado a uma colocação permanente (retorno para casa ou adoção) diminuía 2,4%, e que a probabilidade de chegar a uma colocação permanente se estabiliza em 66% por volta dos oito anos (Kainth et al., 2024). O compromisso de quem acolhe é maior quando a criança é colocada mais nova (Dozier e Lindhiem, 2006), o que reforça ainda mais que, para os bebês acolhidos, o tempo é essencial se algum dia vierem a viver um cuidado estável e comprometido.
Embora não tenhamos encontrado diferenças de prazos entre o NIM e os SAU, constatamos que as crianças em Londres chegavam a uma colocação permanente mais de quatro vezes mais rápido que as de Glasgow. Nossa avaliação de processo qualitativa sugeriu que o sistema jurídico escocês (com ausência de supervisão judicial e de prazo imposto por lei) contribui de forma significativa para o atraso das decisões. Em consequência, nossa avaliação econômica constatou que os custos dos bebês acolhidos na Escócia eram quase o dobro dos da Inglaterra (Crawford et al., 2025; Deidda et al., 2025).
Nosso trabalho qualitativo também observou que a falta de supervisão judicial fazia com que a voz da criança não fosse ouvida nos fóruns em que se tomavam as decisões a seu respeito. Do ponto de vista dos direitos, isso contraria o artigo 12 da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança (o direito à participação efetiva). Famílias adotivas em diferentes localidades geográficas (com sistemas jurídicos diferentes) podem, portanto, vivenciar impactos diferentes da indefinição e dos atrasos sobre a criança.
Nossos resultados sobre os prazos são muito importantes para as famílias adotivas, porque evidenciam a possibilidade de um dano sistêmico antes mesmo de a criança chegar aos seus cuidados. Pouco mais de 70% dos bebês e crianças pequenas de nossa coorte ainda viviam em acolhimento familiar temporário dois anos e meio depois de entrarem no acolhimento. As crianças que chegam à adoção depois de um acolhimento familiar verdadeiramente “temporário” são, portanto, minoria, o que significa que muitas famílias adotivas cuidam de crianças que viveram, após os maus-tratos, em contextos de incerteza prolongada, em um sistema no qual sua família acolhedora provavelmente enfrentou múltiplas barreiras a um cuidado comprometido (Turner et al., 2023).
Alguns trabalhos duvidam da viabilidade de uma reforma do sistema de proteção à infância (Kotlar e Tiemeier, 2025), mas as diferenças significativas nos prazos até a permanência que encontramos entre jurisdições vizinhas mostram que os desfechos das crianças podem depender em grande medida de fatores sistêmicos (modificáveis). Recomendamos uma supervisão judicial forte dos casos de maus-tratos na Escócia (Crawford et al., 2025; Kainth et al., 2024).
Recomendamos também a adoção, para os bebês acolhidos no Reino Unido, de um sistema de dupla habilitação – um sistema no qual as famílias adotivas são habilitadas como famílias acolhedoras, de modo que, se a criança não puder voltar para casa, não seja necessária uma nova ruptura da relação de apego com quem a acolhe (Crawford et al., 2025; Kainth et al., 2024). Essa já é uma prática corrente em alguns outros países (inclusive em Nova Orleans, de onde vem o modelo NIM), e há um pequeno número de famílias acolhedoras com dupla habilitação no Reino Unido. As evidências empíricas que apresentamos aqui devem constituir um forte motor de mudança.
Condensando as implicações para as famílias adotivas e para os processos de adoção, recomendamos a dupla habilitação e processos de permanência ágeis pelos seguintes motivos:
As crianças que não podem voltar para casa e precisam ser adotadas chegariam à família adotiva muito mais rápido do que hoje: um sistema de dupla habilitação pode atenuar o atraso e os possíveis danos. Os efeitos que encontramos – do sistema jurídico sobre os prazos, das barreiras ao compromisso no acolhimento familiar e da probabilidade decrescente, com a idade, de as crianças encontrarem uma colocação permanente – seriam atenuados se as crianças estivessem em colocações concebidas para ser permanentes caso não pudessem voltar para casa.
Além disso, nossos resultados sobre o compromisso em Turner e colegas (2022) sugerem que os sistemas deveriam maximizar a chance de os bebês viverem um cuidado comprometido o mais cedo possível. Embora o compromisso implique investimento emocional na criança, o fato de a família acolhedora ter “uma motivação para ter uma relação duradoura com a criança” tende a ficar comprometido em um sistema baseado na provisoriedade.
Para os bebês, um sistema de dupla habilitação significaria uma única mudança de colocação, caso se decidisse que a criança não poderia ser reunificada com segurança aos pais de origem: embora saibamos que é melhor para os bebês terem vivido relações de apego saudáveis – ainda que temporárias (Garcia Quiroga e Hamilton-Giachritsis, 2016) –, isso não significa que a ruptura dos vínculos de apego não seja prejudicial. As famílias acolhedoras que participaram de nossa avaliação de processo qualitativa descreveram com força o estresse da fase de “ruptura do apego”, não só para elas mesmas, mas para os bebês. Considerando a idade de desenvolvimento e a compreensão da situação em que as crianças estão imersas, as famílias acolhedoras consideravam particularmente prejudicial que as crianças “simplesmente não soubessem” para onde elas tinham ido. Ainda assim, também normalizavam isso como “parte do acolhimento”:
“Acho bem triste que eu esteja com esse menininho desde os sete meses e agora ele tem dois anos… Acho uma pena tão grande que uma criança possa ficar com você todo esse tempo e depois, obviamente, ela vai ser adotada, e isso me preocupa; como ele vai lidar com isso? Porque ele é tão apegado a mim, à pessoa com quem eu vivo e a toda a minha família, e a gente pensa: quando ele for para a adoção, onde ele vai achar que a gente foi parar? E isso me deixa mal… mas isso faz parte do acolhimento, não é? Eu só acho que as crianças não deveriam ficar tanto tempo assim” (Turner et al., 2023).
Dada a importância para o desenvolvimento das relações da criança na adoção, são necessárias mais pesquisas sobre o impacto que a incerteza prolongada vivida tanto pelas crianças quanto pelas famílias acolhedoras pode ter na formação de relações de apego saudáveis no acolhimento familiar.
Um sistema de dupla habilitação também pode aumentar a probabilidade de um apoio mais adequado aos problemas de saúde mental que encontramos na entrada no acolhimento: a intervenção em saúde mental para bebês e crianças pequenas é em grande parte relacional, isto é, sabemos que a saúde mental do bebê depende da qualidade de suas relações e, portanto, sabemos que os métodos relacionais são os mais propensos a produzir mudanças positivas (Bakermans-Kranenburg, 2003). No entanto, a equipe do NIM já relatou as dificuldades que enfrentou ao trabalhar com relações temporárias entre o bebê e quem cuida dele:
“Estamos falando de padrões de apego de longo prazo, e elas [as famílias acolhedoras] trabalham com um horizonte de curto prazo” (Turner et al., 2023).
Nos Estados Unidos, de onde vem o NIM, existe um sistema de dupla habilitação em torno da abordagem NIM, o que pode explicar em parte por que não encontramos os benefícios previstos no contexto britânico.
Como já descrito, a necessidade de intervenção precoce em saúde mental para bebês também é bem conhecida. Se os bebês fossem colocados desde o início com a futura família adotiva, o trabalho relacional poderia ser realizado com a criança e com quem cuidará dela de forma permanente o mais cedo possível. Além disso, com as reduções do RAD que encontramos em relação ao cuidado comprometido (isto é, uma motivação para ter uma relação duradoura com uma criança), as crianças poderiam ter melhores chances de uma recuperação mais rápida do RAD em um sistema de dupla habilitação.
As famílias adotivas viveriam – em primeira mão – o processo de recuperação da criança desde a saída das situações de maus-tratos: demonstramos a possibilidade de recuperações complexas e não lineares das crianças após o abuso e a negligência, em que as dificuldades podem não aparecer de início (Turner et al., 2022). Pode ser que um sistema de dupla habilitação permita às famílias adotivas fazer parte do percurso de recuperação da criança antes da fase posterior em que ela “bota tudo para fora”, mas durante as melhorias do RAD, permitindo-lhes compreender e vivenciar em primeira mão as necessidades em mudança da criança. Também pode ser que, ao receber a criança diretamente da família de origem, as famílias adotivas recebam sobre ela informações que não foram diluídas por múltiplas mudanças de colocação.
Os prazos necessários para produzir melhorias na parentalidade (de origem) podem representar um desafio menor em um sistema de dupla habilitação: ao longo do ensaio, a pergunta “quanto tempo se deve dar aos pais de origem para mudar?” foi um discurso predominante, com perspectivas conflitantes sobre o que constitui um prazo que atenda ao melhor interesse da criança (Turner-Halliday et al., 2017; Turner et al., 2023). Há famílias de origem para as quais o retorno da criança teria sido possível, com tempo suficiente para a terapia enquanto a criança estivesse em uma colocação estável com dupla habilitação. Em um sistema de dupla habilitação, poderia haver menos pressão sobre os pais para mudar dentro de prazos apertados, e menos pressão sobre os serviços para comprovar a mudança perante os tribunais (na Inglaterra) e os Children’s Panels (instâncias escocesas que deliberam sobre as crianças), porque a colocação da criança junto a uma família com dupla habilitação não seria afetada se houvesse dificuldades no progresso dos pais de origem. Um sistema de dupla habilitação pode, portanto, ajudar os pais a concluir uma intervenção de reabilitação.
Ao testar uma intervenção de saúde mental do bebê no contexto britânico de proteção à infância, o ensaio sobre os serviços BeST? aprendeu muito sobre os bebês acolhidos. Não apenas lançamos luz sobre os sistemas que envolvem os casos de maus-tratos, como também aprendemos muito sobre as próprias crianças: sua saúde mental, sua neurodivergência e suas trajetórias no sistema de acolhimento. Isso nos permite fazer recomendações para a prática fundamentadas em dados de pesquisa robustos, provenientes de uma coorte expressiva de 488 crianças e de mais de 200 fontes de dados qualitativos nos sistemas que as cercam. Neste artigo, tivemos a oportunidade de examinar em profundidade o que nossos resultados significam para o contexto da adoção.
Em primeiro lugar, nossos resultados sobre saúde mental e neurodivergência ressaltam a necessidade de uma avaliação integral e baseada em evidências desde o início, junto com o acesso a intervenção especializada quando necessário, para que as famílias adotivas estejam plenamente munidas do conhecimento que lhes permita tomar decisões informadas sobre a melhor forma de atender às necessidades da criança. Isso exige uma resposta sistêmica para melhorar os desfechos das crianças maltratadas, na qual as famílias adotivas não fiquem “com o bebê no colo”, sozinhas, diante de necessidades muitas vezes significativas e persistentes, e em que as habilidades parentais exigidas podem ir além – e na contramão – de nossos instintos e expectativas naturais como pessoas cuidadoras.
Não são apenas a amplitude e a persistência das dificuldades das crianças que podem ser complexas; nossos resultados também evidenciam a complexidade do percurso de recuperação e a necessidade de avaliação e apoio contínuos à medida que as necessidades das crianças (e, portanto, das famílias adotivas) mudam ao longo do tempo. Embora a visão da recuperação como feita de “altos e baixos” ou como uma “montanha-russa” talvez já faça sentido tanto para as pessoas cuidadoras quanto para as equipes clínicas, nossos resultados sobre os efeitos do acolhimento familiar comprometido nos bebês oferecem uma base de evidências a partir da qual podemos demonstrar esse padrão. A recuperação complexa e não linear das crianças que sofreram maus-tratos exige muito mais pesquisa, pois acreditamos que esse conhecimento é essencial para uma parentalidade adotiva informada, apoiada por uma prática baseada em evidências.
Em segundo lugar, nossos resultados demonstram que os atrasos e a vida em estados de liminaridade são inaceitáveis para as crianças pequenas e para quem cuida delas, o que nos leva a defender uma mudança no sistema jurídico (Kainth et al., 2024). Eles contrariam tudo o que sabemos sobre aquilo de que as crianças pequenas precisam para um desenvolvimento ideal e ameaçam suas chances de uma recuperação ideal na adoção. Embora a necessidade de melhorias sistêmicas possa parecer óbvia, uma das barreiras mais significativas à mudança é a normalização da ideia de que as crianças em acolhimento familiar vão permanecer por anos em circunstâncias “temporárias” e incertas, formando vínculos de apego que um dia serão rompidos. Quando pensamos nas crianças em famílias biológicas e em nossas expectativas quanto às suas relações de apego, esse “normal” parece tudo, menos normal.
Neste artigo, expusemos os fundamentos de uma mudança, no Reino Unido, para um sistema de dupla habilitação para bebês, que teria, a nosso ver, um impacto duplo: primeiro, atenuaria muitos dos problemas que nossos dados evidenciam (por exemplo, o atraso e a incerteza no acolhimento familiar temporário) e, segundo, maximizaria a probabilidade de condições-chave que comprovadamente favorecem a recuperação (um cuidado comprometido sem ruptura de apego inerente ao sistema). Parece agora imperativo reunir as perspectivas de grupos que ainda não consultamos, como as famílias acolhedoras com dupla habilitação e as pessoas que trabalham com crianças e jovens com experiência de acolhimento nos serviços de saúde mental e nos serviços sociais. Esses dados podem nos ajudar a compreender melhor os possíveis motores da mudança do sistema e as barreiras a ela.
As recomendações que fazemos são peças fundamentais para que as crianças adotadas tenham as melhores chances de um desenvolvimento saudável após os maus-tratos. Considere um menino de seis anos adotado após duas colocações em acolhimento familiar temporárias, mas prolongadas, e agora à beira de uma ruptura da adoção. Seu TDAH não foi identificado por falta de avaliação de saúde mental, e suas famílias acolhedoras não conseguiram tolerar dificuldades persistentes de sono relacionadas ao TDAH. Esse menino sofreu a perda de múltiplas pessoas cuidadoras e, quando finalmente foi colocado com a futura família adotiva, falta-lhe a confiança necessária para que essa relação dê certo. Para essas crianças, um sistema que ignora suas necessidades e que normaliza a incerteza prolongada e a ruptura do apego pode ser devastador. Ao contrário, um sistema que prioriza a avaliação precoce de rotina, a intervenção especializada e caminhos imediatos para a permanência pode permitir que essas crianças se desenvolvam plenamente.
Todas as nossas recomendações para a prática se relacionam à mudança sistêmica: ampliar os serviços e melhorar o acesso a eles, ou mudar as características dos sistemas que tendem a causar danos. O BeST? demonstrou que, com os métodos de pesquisa adequados, é possível identificar as características específicas dos sistemas que atuam como motores ou barreiras para bons desfechos dos bebês; por exemplo, com as enormes diferenças de prazos que evidenciamos entre a Inglaterra e a Escócia, pudemos identificar que a principal divergência sistêmica está enraizada no sistema jurídico (isto é, na presença, ou na ausência, de supervisão judicial dos casos). Assim como as trajetórias das crianças após os maus-tratos, essas características são por natureza modificáveis. Isso nos dá a esperança de que nossas evidências de pesquisa, cada vez mais numerosas nesse campo, ofereçam a base empírica necessária para a mudança sistêmica, para dar enfim aos bebês e às suas famílias a melhor chance de um futuro apoiado e estável.
Nossos resultados sustentam as recomendações a seguir.
Complexe Systémique: a reter
Este artigo relê um ensaio clínico randomizado “negativo” – nenhuma diferença entre o modelo de Nova Orleans e os serviços habituais – e tira dele uma lição propriamente sistêmica: o destino das crianças depende menos do modelo de intervenção do que do sistema que o recebe. Os mesmos bebês chegam a uma solução de permanência quatro vezes mais rápido em Londres do que em Glasgow, porque falta na Escócia supervisão judicial e prazo legal. Para a clínica com famílias adotivas, um resultado merece atenção: a piora dos problemas de saúde mental após dois anos e meio em crianças confiadas a famílias acolhedoras muito comprometidas. Lida como sinal de uma segurança enfim grande o bastante para “botar tudo para fora”, ela muda de sentido; lida de forma linear, alimenta a culpa dos pais e a suspeita de incapacidade parental, até o risco de ruptura. Limites: um texto de reflexão a partir de resultados já publicados, pouquíssimas crianças adotadas na coorte e uma hipótese apoiada em entrevistas. A dupla habilitação, apresentada como solução, também mereceria ser discutida do ponto de vista das famílias de origem. Para ler junto com o artigo sobre o percurso dos pais diante das dificuldades de apego da criança e com o estudo sobre o bem-estar psicológico de mães adotivas.
Notas do original
Conflitos de interesse. Nenhum.
Aprovação ética. O ensaio sobre os serviços BeST?, e a avaliação de processo qualitativa nele integrada, foram aprovados pelo West of Scotland Research Ethics Committee.
Consentimento para participação. Todas as pessoas participantes deram consentimento por escrito. Os pais e as famílias acolhedoras consentiram com a participação das crianças no ensaio.
Financiamento. Este trabalho foi financiado pelo National Institute of Health Research [processo nº 12/211/54] e por uma doação do programa de dotação da Universidade de Glasgow (University of Glasgow Endowment) [processo nº 246801-01].
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Tradução não oficial em português de Como atender da melhor forma às necessidades das famílias adotivas? Resultados relevantes de um grande ensaio clínico randomizado, o BeST, com bebês em acolhimento familiar no Reino Unido, de Fiona Turner, Gary Kainth, Karen Crawford e Helen Minnis, Adoption & Fostering, publicação on-line antecipada (2026), doi: 10.1177/03085759261483169, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “How can we BeST? meet the needs of adoptive families? Relevant findings from a major Randomised Controlled Trial of infants in foster care in the UK”, publicado em Adoption & Fostering (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Turner, F., Kainth, G., Crawford, K., et Minnis, H. (2026). Como atender da melhor forma às necessidades das famílias adotivas? Resultados relevantes de um grande ensaio clínico randomizado, o BeST, com bebês em acolhimento familiar no Reino Unido (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/como-atender-da-melhor-forma-as-necessidades-das-familias-adotivas-resultados (Obra original publicada em 2026 em Adoption & Fostering, publication en ligne anticipée (2026); republicada em 2026 por Adoption & Fostering, https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/03085759261483169)
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