Red Sistémica · Psicoterapia
Os sentimentos do terapeuta são importantes tanto para o bom andamento dos casos quanto para a própria saúde no trabalho de quem atende. As terapias já foram descritas de diferentes maneiras: como resolução de problemas, como desenvolvimento humano, como estratégias, como estruturas, etc. Este relato propõe uma leitura complementar a todas essas outras: a cartografia dos sentimentos do terapeuta, em sua referência a múltiplos contextos. A proposta baseia-se nisto: o terapeuta é o recurso mais à mão para ser modificado, de modo que essa modificação ajude a mudar o sistema terapêutico. Os sentimentos do terapeuta, vistos como patterns ou hologramas, poderiam servir de passos na coconstrução de ecologias alternativas.
“Fazer terapia é uma coisa séria demais para não ser levada com humor.”
Lino Guevara
Farei, a título de introdução, uma aproximação ao tema dos sentimentos, e relatarei exemplos capazes de surgir nos diferentes âmbitos de pertencimento de quem faz terapia.
Para usar de modo operativo o sentido mais amplo do termo “sentimentos”, e para os fins desta conversa, proponho a vocês a seguinte definição:
“os sentimentos são o que todo mundo entende por isso”. Contentemo-nos por ora com essa tautologia. No campo sistêmico, faz tempo que nos afastamos dessas zonas de ambiguidade, aproximando-nos mais da matemática e confiando mais no observável, nas condutas. Fizemos bem. Em parte porque precisávamos manejar linguagens formalizáveis, de acordo com a tradição científica.
Devo dizer, contudo, que me lembro de uma conversa com o Dr. Hugo Cowes, semiólogo, na qual falávamos das ciências duras e das ciências moles, e da física das relações, e na qual ele de repente me disse: “a única disciplina que fala da realidade é a poesia”. Lembro-me disso agora porque também creio, como todo mundo, que os sentimentos são realidades muito importantes.
Concordo com meu amigo: falar dos sentimentos pertence ao domínio da poesia, a qual, aliás, cuida muito bem da questão. Pensemos em nosso Pablo Neruda.
Mas como os sentimentos são coisa séria, é preciso falar deles, mesmo que tenhamos de atravessar zonas imprecisas. Imprecisa é a noção que lhes é ligada, a noção de “alma”. Para dizer alma, os Guaranis diziam “sol do peito”, e para dizer amigo diziam “meu outro coração”. E é por aí que os sentimentos passeiam: no coração dos sistemas terapêuticos; na “boa” ou na “má” disposição de quem consulta, e nas ressonâncias de quem atende. O termo “joining” remete aos sentimentos. Assim também quando se diz que a calibração adequada da relação terapêutica é o preâmbulo de uma intervenção feliz. Mas um bom “joining” contribui também para a saúde no trabalho de quem atende. Sabe-se que fazer terapia implica um trabalho complexo de administração das próprias emoções a serviço da terapia, da equipe e de seu crescimento pessoal. É um trabalho complexo, e o é em parte porque a questão dos sentimentos foi tratada como uma “caixa-preta” na teoria sistêmica. Retomamos agora, mais uma vez, a tarefa de formalizar valores emocionais. Começamos a pôr palavras nisso.
No tempo em que, vindos da psicanálise, não sabíamos nomear as relações interpessoais, tínhamos o costume de fazer um gesto com a mão que as representava. Esse gesto caiu em desuso, talvez porque aprendemos a nomear a interação. Criamos as palavras necessárias. Agora precisamos aprender a nomear os sentimentos. E, enquanto isso, fazemos gestos (lembro-me de Carmine Saccu, num workshop, perguntando a um terapeuta como ele havia se sentido durante o atendimento, e fazendo-o enquanto movia a mão à altura do epigástrio) — embora os sentimentos também possam passear mais acima ou mais abaixo.
Nesta exposição, falarei dos sentimentos do terapeuta sistêmico contando alguns fatos e alguns sentimentos tais como os terapeutas poderiam percebê-los em seu trabalho. Farei isso às vezes sob a forma de reflexões sobre a minha própria experiência, e com curiosidade pelas de vocês. Comentarei aspectos da profissão, das terapias, das equipes e das instituições como fontes de sentimentos para quem atende.
É uma profissão fascinante. Também pode ser angustiante. Avançamos muitas vezes sobre areias movediças. Ela exige, além disso, certa capacidade de sacrifício, se nos interessamos pelos contextos de descoberta. Pode acontecer de nos encontrarmos na contracorrente desta ou daquela instituição, em percursos quase contraculturais. Quando se “escolhe a profissão psi”, acredita-se que primeiro se adquirirá um conhecimento e que depois se o aplicará, simplesmente. No momento de receber o diploma, suspeita-se com certo espanto que se vai formar sem possuir o conhecimento acabado. Ao espanto segue-se então o pânico. Já é preciso trabalhar para subsistir. Sente-se que não se tem a menor ideia de como se exerce essa profissão, e já é tarde demais: caiu-se na armadilha, é preciso começar a construir quase do zero o conhecimento necessário ao trabalho concreto — e isso trabalhando, atendendo seres humanos! Tem-se apenas o consolo de algum amuleto, como as classificações das doenças (lembro-me muito bem do modo como eu explicava às primeiras pessoas que atendi a estrutura do aparelho psíquico). Mas o desafio acaba sendo sedutor, e aí, sim, a pessoa se vê presa na armadilha, sem saída, mesmo que a suposta patologia que a teria levado a escolher esse ofício já esteja resolvida. E o amor pelos mistérios permanece, com aquela “vocação para fazer desfalecer as aparências”, como diz Lacan. Assim, pois, essa profissão consiste em trabalhar “como psi”! Ora, as instituições pagam pela realização de tarefas que elas mesmas determinam, e solicitam um perfil profissional apto a esse fim. Isso se aproximará ou não do ideal que cada terapeuta faz de sua profissão. A população que consulta, por sua vez, age como se estivesse se adaptando aos marcos institucionais, mas anda com todo o seu sistema de crenças nas costas, mais ou menos dissimulado, e configura de sua parte certo perfil da demanda. No meio do sanduíche, quem exerce a profissão trata de se agarrar à sua fonte de trabalho, trata de responder à encomenda da instituição e à demanda das pessoas, e ainda por cima, como se tudo isso não bastasse, senhoras e senhores, deve escutar o chamado da selva de suas próprias teorias, técnicas e crenças. De modo que, à primeira vista, o que se sente na terapia tem a ver com o grau de coerência obtido conforme se harmonizem melhor ou pior todas essas demandas. Às vezes maravilhosamente, às vezes fazendo malabarismos: é preciso fazer malabarismos com os mitos sobre o adoecer e o curar, com a comunidade científica, com a própria família, etc. Assim, o que se exerce nesse papel heroico de terapeuta é a aprendizagem da própria profissão.
No meu caso particular, depois de alguns anos de peripécias, entre fazer comunidade terapêutica e sobreviver aos governos militares dos anos 1960, lancei âncora em Neuquén em 1972. Entre conquista do Oeste e exílio precoce. O congresso de 1970 havia legitimado para mim a prática da terapia familiar que fazíamos às escondidas das cátedras universitárias, e organizei minha autoaprendizagem, tal como continuo fazendo hoje. Uso o procedimento que consiste em rever, ao final de cada ano, toda a casuística recebida. A avaliação das terapias me permite descobrir que tipo de esquema ou de modelo empreguei no ano anterior. Determino erros e construo correções; obtenho também algumas quantificações. Por exemplo, se tomo os últimos dez anos (de 1980 a 1990), observo que a cada ano indiquei 60% de terapias familiares e de casal, e 30% de terapias individuais, sempre com um modelo sistêmico. Os 10% restantes se repartem entre intervenções junto a instituições, perícias em direito do trabalho, etc. Assim, nestes quase vinte últimos anos, trabalhei escolhendo como eixo principal esse modelo em construção permanente que aparecia ao longo das avaliações retrospectivas; ou seja, tentei construir uma epistemologia tão independente quanto possível, a mesma para todos os casos, qualquer que fosse o lugar onde eu atendia e qualquer que fosse a remuneração. Impus essa condição nas ocasiões em que trabalhei para instituições públicas (o que foi possível numa cidade de dimensões limitadas e situada no interior do país). Isto é, privilegiei o aspecto de pesquisa clínica da tarefa.
Usar um modelo em construção permanente proporciona a satisfação da liberdade, mas também certa expectativa, o prazer da descoberta, o horror do erro, a paixão de conhecer. Eu disse mesmo: sentimentos. Qualquer que seja a maneira como você trabalha, essa maneira gera em você diversos sentimentos. Façamos justiça: aprende-se com o próprio trabalho e com o trabalho de colegas, que também aprendem e dão provas de generosidade. Tive a sorte de aprender muitas coisas com muitas pessoas; a experiência de aprendizagem mais importante foi a associação com o Dr. Escot, hoje radicado na França.
Durante quinze anos, fomos supervisores um do outro; coterapeutas e confidentes. Atualmente compartilho a tarefa com minha companheira Mary Raña, assim como com Elsa Peralta, Alicia Stuller, Pablo Idiazábal e María Virginia Aguirre (de Córdoba). As ideias felizes saem da tarefa compartilhada. Compartilhamos também tantos afetos. Falo de sentimentos, e de aprendizagem. Satisfaz-me pensar na “recirculação” dos sentimentos e das ideias, à maneira de Boscolo e Cecchin em seu trabalho de formação.
Toda vida humana, bem observada, tem muito de tragédia. Se, diante do caso que nos consulta, não experimentamos a dimensão de drama dessa vida, é porque ainda não entramos em contato. Devemos também experimentar sua dimensão de ternura, ou o fato de que se trate de uma comédia de intrigas. Mas para além do ridículo, do absurdo ou do sublime, tomamos parte a cada hora num drama profundo, diferente, original. Por isso fazer terapia é uma coisa séria demais para não ser levada com humor. Creio que é por isso que o humor é necessário na terapia: não como catarse, à maneira do centro cirúrgico, não como camuflagem, mas o humor como forma do conhecimento, como mirante epistemológico. É que temos o hábito de nos ocupar dos temas extremos: o amor, a morte, a loucura. Em nosso trabalho, é frequente que haja certa tensão.
Como nos engajar emocionalmente sem perder a autonomia de julgamento? Na tensão-transação da consulta, quem consulta e quem atende buscam o equilíbrio entre ser e pertencer, a cada inefável momento que lhes é dado.
Não acontece apenas de quem atende contaminar os casos com a própria história; os casos também podem contaminar quem atende. As características dos casos podem determinar em terapeutas sentimentos de inferioridade, de superioridade, de confusão, ou outras distorções. Em particular, certos isomorfismos entre traços parciais de cada caso e os aspectos correspondentes de questões muito prementes para a própria existência determinam em quem atende fascinações, vieses e ecos. Como se diz correntemente, é possível ficar “grudado” ou “carregado”.
Chamou-me a atenção certa pressa de terapeutas em se afastar do consultório ao fim do dia. A precipitação com que nós, terapeutas, às vezes escapamos da instituição depois do último atendimento do dia (o prontuário do último atendimento fica sem ser redigido). Às vezes essa precipitação não serve de muito, pois, uma vez na rua, esquecemos de novo onde deixamos o carro. E é preciso então dar aquelas voltas dissimuladas, como se estivéssemos olhando as vitrines, para que o senhor da banca não vá comentar: “Doutor! O senhor esqueceu de novo onde estacionou o carro? O que será que esses psicólogos têm na cabeça?”
Por mais longo que seja o trajeto de volta, pode ser que levemos conosco os problemas do trabalho. E pode haver ecos domésticos, uma contaminação de nossas próprias relações familiares por restos de casos. Nem sempre se pode deixar os problemas do trabalho no trabalho. É possível que nossas famílias recebam demandas exacerbadas ou outras projeções. De diversas maneiras, nosso trabalho pode ser um trabalho insalubre. Mary Raña me dizia, num intervalo da tarefa: “Até onde devo suportar as grosserias desse paciente mal-educado?” E pensávamos na vulnerabilidade de quem atende. Às vezes é preciso pôr limites para se defender. Ao contrário, em outros casos, uma ampliação dos sentimentos de quem atende pode ser requerida para poder tratar, por exemplo, famílias que comportam membros abusadores e membros abusados. E é preciso se treinar para superar os preconceitos raciais ou de gênero. Como levar as pessoas a mudar, respeitando-as ao mesmo tempo?
Nos casos opostos, quando a relação com as pessoas que consultam é preciosa e ainda por cima gratificante, temos, ao encerrar o tratamento, de enfrentar a perda: devemos nos separar. Custa separar-se.
O primeiro objetivo do atendimento familiar (dizia Minuchin nos primórdios da terapia familiar), o primeiro objetivo é que a família volte ao próximo atendimento. Hoje, eu diria que o segundo objetivo é conseguir que quem atende aceite que a família não volte mais, uma vez resolvido o problema combinado no início.
Há também perdas, separações também, de colegas, de estudantes, etc. Não se pode se implicar e se desimplicar como se troca de roupa.
Pode ser, então, que a pessoa do terapeuta fique limitada, reprimida em seu trabalho. E pode ser que o trabalho do terapeuta esteja presente demais em sua vida.
Para lembrar
Quem atende não contamina apenas os casos com a própria história: também se contamina com eles. Os isomorfismos entre um traço do caso e uma questão viva da própria existência produzem fascinações, vieses e ecos — e não existe eclusa que permita implicar-se e depois desimplicar-se como se troca de roupa.
A equipe fornece visões binoculares que às vezes compensam esses vieses individuais, mas, como já foi assinalado em outras comunicações, a equipe, enquanto conjunto, também pode cair na armadilha de maneiras identificáveis.
A equipe faz os sentimentos recircularem. Para obter um bom clima de trabalho, é possível que a equipe precise de uma etapa social antes de começar o pré-atendimento, a título de aquecimento para a montagem. Nesses primeiros momentos, cada membro conta mais ou menos informalmente como está hoje: como vão seus próximos, seus medos, seus desejos e suas realizações. Essa atualização permite à equipe habilitar e integrar seus membros. Depois, na saída do atendimento, para os diálogos de supervisão, uma informação preciosa para começar a pensar é: “Como você está se sentindo?” O que equivale a dizer: como confluem as influências da família e que tipo de ecos elas despertam em você? Como nos sentimos de um lado e do outro do espelho? (mesmo que se diga “observei”, “penso”, é “senti”, “sinto”.) Ao final de um diálogo de supervisão, um indicador de que a equipe encontrou formulações satisfatórias é que quem conduz o atendimento tenha perdido o impulso de voltar às pressas a ele, à família. É preciso ter convicção das formulações construídas para que a intervenção seja convincente e para que se fique em paz depois que a família tenha ido embora.
Muito brevemente: é possível usar um modelo sistêmico “à Haley” e não se preocupar com os próprios sentimentos, mas com as estratégias adequadas à resolução do problema. Se valorizamos o trabalho “à Erickson”, consideraremos minuciosamente os sentimentos de quem consulta, e não os nossos. No entanto, os sentimentos do terapeuta existem (veja antes Michelle Ritterman). Com Mony Elkaïm, incorporaremos a noção de “ressonâncias”. O grande Whitaker, operacionalizando os seus próprios sentimentos, considera que, se isso não lhe serve, se ele não desfruta disso, a terapia não tem sentido.
Em minha experiência, a facilidade com que as grandes figuras me influenciaram é notável. Fui fanático interacional, estratégico e estrutural, experiencial e hipnoterapeuta, milanês e “à romana”. Não consegui me divorciar de nenhuma delas! E pior ainda: não consigo evitar construir as minhas próprias construções.
O contato com as famílias ou com as pessoas é um contato emocional mobilizador. Durante os atendimentos, pode ser que falemos de nós ou que não o façamos, conforme o modelo teórico que estamos experimentando. Poderemos usar exemplos tirados de nossas próprias vidas e de nossas próprias famílias, ou não o faremos. Mas há sempre certa dose de repressão dos sentimentos próprios. Quer o espelho nos proteja, quer estejamos ao vivo com as pessoas. Não temos (e é bom que assim seja) liberdade de expressão. Como no teatro, a nossa atuação deve ajustar-se mais ao personagem exigido pelo roteiro que se desenrola do que ao desejo de quem atua, de modo que o tempo de trabalho pode tornar-se, perigosamente, em certas ocasiões, um tempo posto entre parênteses de nossa vida.
Quanto mais horas de trabalho, maior a exposição a mil estimulações e a mil repressões. As emoções familiares e suas ressonâncias superestimulam quem atende, que deverá exercer um controle muito maior do que numa troca social comum.
Pergunto-me se não é por isso que minha mulher diz que falar de mim mesmo é o meu assunto preferido.
A remuneração da tarefa terapêutica pode assumir a forma de um salário, de um pagamento por atendimento, das obras sociales (os planos de saúde), de uma captação de clientela, de cooperativas, de fundações, etc. — todas são imperfeitas. Essa questão do pagamento de quem atende deveria ser incluída nas avaliações e em nossas trocas. Pode haver exploração; a má remuneração é frequente. Sob pretexto de formação, há serviços que exploram. Os hospitais exigem quantidades, estatísticas. Ou então, no outro extremo, há influência demais da remuneração sobre a epistemologia. A classe alta, as pessoas que pagam melhor, acaba muitas vezes se apropriando de parte da categoria, que passa assim do estatuto de freelance ao de quase assalariamento.
É raro ver remunerado o tempo do trabalho em equipe, ou o tempo para ler, para se formar, etc. E nós, terapeutas, só nos sentimos bem quando experimentamos que podemos nos formar permanentemente.
A remuneração não constitui apenas um reconhecimento profissional: ela irrita quando não é suficiente, ou pode ser fonte de insatisfação. Não tenho a solução para esse problema, mas tenho certeza de que os rendimentos econômicos têm a ver com os sentimentos do terapeuta.
Não sei se as políticas de saúde geram sentimentos em vocês; em mim, sim. Às vezes me identifico totalmente com o Minuchin de Family Kaleidoscope. Em vinte e cinco anos de psiquiatria, passei o tempo tentando convencer as pessoas de que elas não tinham uma doença mental, e tentando convencer as instituições a não dividir as famílias. Os programas destinados a patologias específicas, entendidas como individuais, produzem nas redes sociais rasgos que não se reparam. Quantos workshops Jorge Colapinto ainda terá de conduzir para nos contar que, em Nova York, sua agência trabalha para reunir os membros das famílias que se encontram separadas porque o programa da criança leva a criança, o programa da mulher leva a mulher, o do homem também — e que a moradia, uma vez vazia, é recuperada pelo órgão de habitação. Como corolário, se alguém da família puder voltar, já não há para onde ir. É melhor, portanto, participar da elaboração de políticas adequadas e das leis correspondentes. Não se trata de simplesmente nos opormos às instituições. Tampouco se trata de simplesmente executarmos políticas partidárias disfarçadas de bem comum.
O terapeuta, como pessoa, vive as suas circunstâncias, que também geram sentimentos.
Na Argentina, sabemos que hoje os problemas das pessoas dizem respeito à sobrevivência imediata. “Mais de vinte milhões de pessoas” não têm com que viver em nosso país. “Alguns milhões percorrem os centros turísticos.” Todo o país sofreu com o terrorismo de Estado, e agora com o neoliberalismo. Há, no entanto, em nosso país uma consciência crescente da necessidade da ética e uma participação maior nas questões políticas: começa o fim dos nepotismos provinciais, certa democratização dos corpos intermediários, as diversas marchas. Reduz-se agora o tamanho do Estado, e há nisso algo de bom, mas não é possível abdicar das responsabilidades do Estado em matéria de educação e de saúde, por exemplo, se queremos nos parecer com um país desenvolvido.
No plano internacional, vivemos com terror, neste verão, a Guerra do Golfo. Isso são sentimentos. Que não teríamos querido viver. Mas estamos no mesmo planeta. É preciso pensar muito nisso. Ou seja, se quisermos ir da história concreta à prática terapêutica, e se quisermos coconstruir e não apenas replicar.
Não creio que estejamos diante do fim da história, como alguns dizem. Creio, em compensação, que desmoronam os muros que nos impediam de ver além, e que as soluções dependerão muito de acordos e de planejamentos locais. Isso tem a ver conosco, pois talvez comece a era (nas palavras de Minuchin) em que se verão mais as relações, mais aquilo que liga, a solidariedade e a responsabilidade, em vez de nos centrarmos no individual, na territorialidade, na discriminação e na agressão.
Passei sumariamente em revista alguns acontecimentos e alguns sentimentos que o terapeuta pode perceber. Talvez eu tenha dito até aqui apenas duas coisas:
1) que o terapeuta é uma pessoa; 2) que os sentimentos são variáveis. No duplo sentido do termo: eles são variáveis, mas são também uma variável a levar em conta para novas formalizações.
Trabalhar habitualmente em zonas de incerteza é às vezes agradável; podemos ver isso do ponto de vista da possibilidade de criar. Desfrutamos da euforia da criatividade. Outras vezes não: simplesmente sofremos a incerteza. É importante ponderar as condutas e os fatos, mas não se trata, por isso, de que a subjetividade permaneça no domínio daquilo que se pode desviar ou daquilo que incomoda. Haverá coisas difíceis de medir, como a paixão de curar. Mas muitas coisas poderiam ser formalizadas; é preciso continuar, senão não podemos nem avaliar nem aprender. Pois a experiência que os anos dão ajuda, mas infelizmente a experiência é “uma passagem só de ida”. Ela serve para tolerar melhor certas coisas, por exemplo que a maior parte das hipóteses que formamos deva ser corrigida. Ou, nos termos de Whitaker: “a única coisa que o terapeuta pode escolher é a maneira como vai se enganar”. Mas também já se disse: não basta confessar a própria confusão na terapia. Aliás, não tenho certeza de que a única coisa a fazer seja perturbar. Prefiro as formulações positivas. É certo que há algo disso — perturba-se e o sistema se reorganiza —, mas prefiro descrever, sem desviar dos sentimentos, as formas que ajudam as pessoas a ver se conseguimos, coletivamente, ganhar em liberdade, em responsabilidade e em vínculo.
Pois, enquanto desafiamos as pessoas que nos consultam, o desafio para nós é preservar a própria integridade e continuar a estudar, a crescer e a desfrutar de nosso trabalho. Pois existem aqueles momentos gloriosos em que, enfim, compreendemos. Em que tudo se fechou, em que já não há sintoma e em que tudo se une magnificamente numa única configuração geral de sentido: o caso, a equipe, quem observa e nós. Isso se sente, aqui. É fantástico. É um grande prazer. Mas isso não acontece o tempo todo. Restarão muitos mistérios.
Para Einstein, “a coisa mais bela que podemos experimentar é o mistério. Ele é a fonte de toda arte e de toda ciência verdadeiras.”
Para concluir: quem faz terapia trabalha, tem família, pertence a equipes, a instituições, a teorias. Há sentimentos em toda parte. Ora, esquematizando “à Bateson”, diríamos que, enquanto a consciência (as palavras, o formal) só nos permite ver porções de circuitos ecológicos, os sentimentos, esses, são patterns. “Como vivemos num mundo de estruturas em circuito, é o reconhecimento dessa circularidade que constitui a sabedoria.” “Neste planeta, o amor não pode sobreviver (sigo aqui Bateson) a não ser que a sabedoria adquira uma voz mais eficaz.”
E, parafraseando: que espécie de correção se obteria quanto à orientação da sabedoria, se os sentimentos do terapeuta fossem levados em consideração?
As terapias foram descritas como resolução de problemas, como o fato de que a solução é o problema, como crescimento, etc. Entre esses múltiplos caminhos, seria interessante construir também as terapias com o itinerário dos sentimentos do terapeuta, em seus diferentes momentos, com suas múltiplas vozes. Obteríamos assim mapas complementares que, ao lado daqueles que traçamos habitualmente, talvez nos ajudassem a iluminar os nossos caminhos. Um caminho de complexidades entre o determinismo e o acaso, entre a turbulência e a serenidade, entre o rigor e a imaginação.
“A única coisa que o terapeuta pode escolher é a maneira como vai se enganar.”
Carl Whitaker, citado pelo autor
Nota do original
(*) Este trabalho foi publicado no n° 17 de Perspectivas Sistémicas (julho-agosto de 1991) e apresentado anteriormente nas 2as Jornadas de intercâmbio sistêmico, realizadas nos dias 2, 3 e 4 de maio de 1991 na cidade de Córdoba. Um público numeroso e a qualidade dos trabalhos fizeram desse encontro um acontecimento importante no campo da terapia sistêmica. A Perspectivas Sistémicas esteve presente por intermédio de seu representante em Córdoba, o Dr. Guillermo “Willy” Visotsky, que nos envia esse rico material de sua escolha. Destacamos igualmente a boa organização do evento por seu principal animador, Mauricio Salgado, falecido recentemente, prestigiado terapeuta familiar dessa cidade do interior do país: que este breve comentário valha como uma tardia mas sincera e sensível homenagem póstuma a um colega estimado.
Quem é Lino Guevara
(1) O Dr. Lino Guevara foi diretor do Centro de Terapia Familiar de Neuquén. É diretor de ensino do Centro de Estudios Sistémicos (CES).
Este artigo é a tradução para o português de “En torno a la cuestión de los sentimientos del terapeuta sistémico”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Perspectivas Sistémicas, n° 17, juillet-août 1991). Traduzido e republicado com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Guevara, L. (2022). Em torno da questão dos sentimentos do terapeuta sistêmico (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/em-torno-da-questao-dos-sentimentos-do-terapeuta-sistemico (Obra original publicada em 1991 em Perspectivas Sistémicas, n° 17, juillet-août 1991; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/06/21/en-torno-a-la-cuestion-de-los-sentimientos-del-terapeuta-sistemico/)
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