Diálogo Aberto · Formação

Formar em Diálogo Aberto e prática dialógica: responder com criatividade, como formadoras e como autoras

Quatro formadoras — da Finlândia, do Reino Unido, da Austrália e dos Estados Unidos — passaram a se encontrar on-line durante a pandemia, a princípio apenas para se apoiarem mutuamente como escritoras. Dessas conversas nasceu este texto, que deixa de lado a pergunta do currículo (o que colocar em uma formação em Diálogo Aberto?) e coloca outra em seu lugar: o que acontece entre uma formadora e as pessoas que ela forma, e do que precisa um espaço de formação dialógico? Elas respondem com quatro relatos em primeira pessoa, vinhetas de formação e uma lista de palavras que foram surgindo pelo caminho.

Autoras Catherine Thorley, Judith M. Brown, Mia Kurtti, Alita TaylorPublicação original Frontiers in Psychology, 4 de outubro de 2023Licença CC BY 4.0Tradução Complexe Systémique

Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de Training in Open Dialogue and Dialogical Practice: creatively responding as trainers and writers, de Catherine Thorley, Judith M. Brown, Mia Kurtti e Alita Taylor, publicado em Frontiers in Psychology (2023), DOI 10.3389/fpsyg.2023.1174680, sob licença CC BY 4.0. O texto foi modificado: traduzido para o português pelo Complexe Systémique em 7 de setembro de 2026. Esta tradução não provém das autoras nem da editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Resumo

Este artigo nasce de uma série de conversas sobre a formação em Diálogo Aberto e em prática dialógica. No curso do nosso diálogo, fomos nos afastando da busca por respostas definitivas sobre o conteúdo (o que incluir?) ou sobre o processo (como incluir?). Perguntamos a nós mesmas: “Por que estamos fazendo esta pergunta sobre formação, afinal?” Talvez porque muitas pessoas que acompanham, e profissionais de todo tipo em todo o mundo, estejam realmente perguntando: “Como fazemos, ou como aprendemos a fazer ‘diálogo aberto’?” E essa pergunta começa por outra: “Como formar outras pessoas nessa prática?”

Voltamo-nos então para as nossas próprias perguntas: o que oferecemos como formadoras, e o que buscam as pessoas que formamos? Quisemos explorar o que exige um espaço de formação capaz de acolher as esperanças de cada pessoa. Palavras surgiram enquanto conversávamos; nós as escutamos, deixamos que descessem em nós e refletimos sobre elas. Algumas ressoavam conosco como formadoras; outras se ligavam ao que observávamos da experiência das pessoas em formação, inclusive a nossa; outras deixavam entrever a relação entre formadora e pessoas em formação. Essas palavras emergentes apontam para uma série de aprendizados, aspectos da formação que viemos a acreditar serem importantes. Este artigo desdobra essas palavras, misturando a elas trechos reais de nossos diálogos e vinhetas de formação. Ilustramos assim nossa aprendizagem contínua como formadoras de Diálogo Aberto e prática dialógica, tal como ela ocorre na singularidade de cada formação que oferecemos.

Introdução

Olá, e boas-vindas ao nosso artigo. Vamos explorar aqui nossas experiências e discussões como formadoras de Diálogo Aberto e de prática dialógica, em nossos quatro países e quatro contextos diferentes. Qual é a história que nos trouxe até aqui? No início da pandemia, um grupo de mulheres se reuniu para se apoiar mutuamente como escritoras. Encontrávamo-nos on-line uma vez por mês, e nosso primeiro desafio foi achar horários possíveis entre a Finlândia, o Reino Unido, os Estados Unidos e a Austrália. Com alguns acordos — de manhã cedo para umas, tarde da noite para outras —, conseguimos. Ao longo dos meses, nossa ligação se aprofundou: chegávamos aos encontros sem pauta. Apenas escutávamos, e éramos escutadas. Ver e ser vistas: era isso que nos fazia voltar. Desse espaço, ideias emergiram. Com o tempo, tínhamos usado esse espaço para falar de nossas diferentes experiências de formação; assim, quando chegou o convite para escrever para esta revista, todas quisemos escrever juntas. No espírito da prática dialógica, queremos ser transparentes sobre aquilo a que estamos convidando você. Em essência, exploramos as qualidades e os processos que fazem parte da prática dialógica e da formação. Nossa atenção está antes de tudo no como “ser”, menos no como “fazer”.

O Diálogo Aberto, como abordagem, é um modelo e um enquadre para organizar os serviços de saúde mental. Há um deslocamento global em curso: em toda parte, explora-se o que o Diálogo Aberto e a prática dialógica podem trazer aos serviços de saúde mental. As perguntas sobre formação estão presentes, e diferentes programas vêm sendo desenvolvidos. À medida que mais e mais pessoas pensam sobre esses temas, faz sentido que permaneçam muitas perguntas abertas sobre as competências e as intuições que o Diálogo Aberto como sistema de cuidado e a prática dialógica exigem. Essas perguntas surgem assim que se trata de desenhar um programa de formação que se sustente.

Ao escrever este artigo, oferecemos nossa contribuição a essa conversa. O Diálogo Aberto é uma mudança de paradigma na saúde mental: passa-se de um saber especialista e de uma pauta fixada de antemão, centrada na redução de sintomas, para uma atenção dialógica voltada às relações, às compreensões e às histórias. Nossa escrita reflete esse deslocamento. Nosso processo, aqui, espelha um modo dialógico de trabalhar — seja como terapeuta em reuniões de rede, como supervisora ou como formadora. Poderíamos descrever este trabalho como em parte (poli)autoetnografia e em parte ensaio de perspectiva; mas a natureza dialógica de sua metodologia talvez sugira que ele está inacabado, à imagem da inacababilidade das reuniões de rede. Ao adotar uma postura de não saber (Anderson e Goolishian, 1992) para permanecer curiosas, privilegiamos a escuta e a resposta em vez da certeza de uma teoria ou de um destino predeterminado. Como nas reuniões de rede, buscamos estar presentes ao instante da escrita tal como ela se desdobrava: escutar e responder ao que emergia de cada uma, privilegiar nossa relação, trazer mais de nós mesmas ao texto. Buscamos permanecer com nossas vozes, sentimentos e emoções diferentes, e sustentamos o espaço dos silêncios, entre nossos encontros e dentro deles. Buscamos honrar a emergência das muitas vozes dentro de cada uma de nós, como nas reuniões de rede. Na escrita, confiamos no diálogo e no processo dialógico.

Convidamos você a entrar nesse diálogo, nessa confiança no processo dialógico, em que há momentos em que não se tem ideia clara de para onde se vai. Como no início de qualquer sessão de formação dialógica ou de qualquer reunião de rede, perguntamos: “Sobre o que você gostaria de conversar hoje?” Como na prática e na formação dialógicas, não visamos a uma resposta fixa de sua parte, mas a tantas respostas diferentes quantas forem as pessoas que nos leem. Para citar o capítulo “A criatividade na vida inteira”, em uma seção dedicada ao diálogo e à cultura: “é preciso sublinhar que o que se segue não é dado no espírito de uma prescrição que a sociedade deva seguir. É antes um convite a quem lê para começar a investigar e explorar no espírito do livre jogo das ideias e sem a restrição da necessidade absoluta de qualquer meta ou fim” (Bohm e Peat, 1987). Talvez seja útil tomar um instante para considerar como você está entrando neste espaço. Quais são suas curiosidades, seus espantos? Quais são seus sentimentos? Há alguma sensação em seu corpo, neste começo? À medida que for lendo, talvez note como seus pensamentos, sentimentos e sensações corporais se movem e mudam.

Ao ler, você talvez note que algumas palavras estão em itálico. São palavras que se destacaram para nós. Parecem ser as qualidades que buscamos suscitar nas diferentes formas de formação que cada uma de nós oferece. Talvez sejam também os desafios de uma formação conduzida de modo dialógico. Eis, pois, nossas reflexões, compartilhadas com você neste espaço entre nossas palavras e sua experiência.

A voz de Mia

Quando comecei a me sintonizar com este tema, meu primeiro pensamento foi o começo. Como damos início ao processo de formação? O que há aí, para todas nós, a pensar, se quisermos construir um programa de formação em Diálogo Aberto e prática dialógica plenamente competente, capaz de oferecer às pessoas um enquadre de aprendizagem adequado?

Caderno de formadora de Mia, 2017

É inacreditável como a presença essencial das pessoas é a mesma no mundo inteiro: as pessoas querem se ligar e criar espaços dialógicos. Isso ajuda!

A prática exige competências dialógicas quando se encontram pessoas e redes em sofrimento. Como desenhar uma formação que sustente o processo de aprendizagem e ofereça às pessoas em formação a possibilidade de fazer as mudanças necessárias em sua prática? Como convidar a equipe de formação e as pessoas em formação a uma jornada comum em que se gere conhecimento, de modo que possam adquirir uma prática dialógica — com também a compreensão necessária dos diferentes níveis do Diálogo Aberto como prática e como sistema de cuidado? Há muitas perguntas que a equipe de formação precisa discutir ao planejar o processo de maneira colaborativa. Ao criar os enquadres gerais, é importante também acolher o fato de que todo processo de aprendizagem é único e de que cada pessoa precisa de tempo e de espaço para encontrar seu próprio caminho, em seu próprio ritmo.

Em minha experiência, o planejamento do programa de formação exige considerar o contexto da formação. Devemos honrar o local ao construir os enquadres e as circunstâncias que permitem às pessoas ocupar uma posição de poder em relação à nova abordagem que estão conhecendo. Quais são as necessidades de formação dialógica nas diferentes organizações do mundo? Como construir uma formação ajustada às necessidades, respeitando ao mesmo tempo os princípios fundamentais de uma prática de Diálogo Aberto (Seikkula e Alakare, 2004)? Quando estabelecemos um programa de formação, a que estamos convidando as pessoas? Pergunto-me se as pessoas em formação têm informação suficiente sobre a finalidade da formação em seu contexto para poderem trazer suas próprias necessidades. Seria possível encorajá-las a se perguntar: “Minhas necessidades estão sendo atendidas aqui, e como trago minhas perguntas ao processo?”

Carrego também minha própria história e meu contexto como praticante e formadora vinda da Lapônia ocidental, na Finlândia. O Diálogo Aberto e a prática dialógica na Lapônia ocidental não teriam sido possíveis sem uma formação extensa, ao longo de vários anos. A prática foi sustentada por uma formação em terapia dialógica da família e da rede, oferecida a todo o pessoal do departamento de psiquiatria e à comunidade mais ampla. Aprendendo por vias entrelaçadas — teoria, supervisão e processos de família de origem —, as pessoas são convidadas a criar uma dimensão dialógica em sua prática. O trabalho mostrou que o diálogo nas reuniões de rede exige confiança entre os membros da equipe e também uma boa compreensão do uso da prática reflexiva, capaz de gerar entendimento sobre o tema e a situação em questão. É preciso ainda saber escutar tanto os diálogos externos quanto os internos ao facilitar as reuniões. Cada pessoa presente na reunião reflete as vozes de múltiplos papéis, identidades e experiências, carregadas e guardadas em uma narrativa e em uma memória corporal (Haarakangas, 1997; Haarakangas et al., 2006). Desses aspectos pode nascer um diálogo multifacetado, capaz de oferecer às pessoas presentes compreensões novas e decisivas — desde que quem pratica e forma tenha consciência de suas próprias vozes internas, inclusive do modo como essas vozes emergem em seu papel profissional a cada momento.

Uma perspectiva que me parece crucial é que a equipe de formação precisa ter a experiência de estar com pessoas em sofrimento psíquico e um saber corporal sobre a natureza desses processos (Lyons-Ruth, 1998; Shotter, 2011). Isso pode ajudar a gerar senso de agência na aprendizagem de quem está em formação (Rautkallio, 2019). Meu objetivo principal é que, ao final, seja o processo, e as pessoas em formação nele, que tenham feito o processo; à equipe de formação cabe o privilégio de testemunhá-lo, de estar “com”.

A voz de Alita

O que é uma formação em diálogo aberto? Às vezes me pergunto se “formação” é a palavra certa. No que se pensa quando se ouve “diálogo aberto”? Será uma “coisa” que esperam “implantar”, ou com a qual esperam mudar os outros? Os modos de aprender informação em blocos e pedaços de saber formulaico, historicamente servidos por quem detém o poder, estão mudando. O saber encarnado, implícito, ou saber dialógico, é um pouco diferente (Lyons-Ruth, 1998; Brown, 2015). Se, ou quando, quem facilita, forma ou ensina consegue suscitar um espaço em que se convida as pessoas em formação a se mover mais na direção desse momento encarnado, implícito ou dialógico, e um pouco para longe do formulaico, talvez o dialogismo comece. O que quero dizer é que há corpos juntos numa sala, seja numa reunião de tratamento, seja num ambiente de formação e aprendizagem, e esses corpos chegam com um saber implícito. Como sabem o que sabem? E podemos nós, como formadoras, nos perguntar se estamos agindo sobre o co-saber que pode vir do “encontro” dos outros corpos na sala, ou se estamos iniciando um movimento em direção a ele ou para longe dele? Esses movimentos de aproximação e de afastamento acontecem o tempo todo. Prestamos atenção a eles?

A caminho… (trecho), de Alita Taylor

A caminho do oceano, é na beira do rio que a mais corajosa das almas pioneiras se entrega ao caminho?

O que se passa em nossas águas? O que acontece em nosso mundo? O que se pode aprender disso em parceria, em colaboração, que jamais se poderá aprender na hierarquia…

Pausa.

Uma coisa não para de me pressionar, em momentos diferentes, quando pondero sobre espaços de formação dialógica: “Quem forma?” E a pessoa que forma? Tem humildade, abertura, é confiável? Importa-se de fato com as pessoas que forma? Como ela se sente agora, aqui, neste momento comigo? Será honesta? Quer me ajudar a “pegar” algo que gostaria que eu pegasse e que ainda não peguei? Quem pode nos ensinar alguma coisa? De que modos somos ensináveis, e de que modos as pessoas que ensinam ou formam permanecem presentes, compassivas e amorosas? Estão com fome? E têm abertura para todos os ingredientes presentes na sala para fazer juntos uma espécie de sopa de aprendizagem?

Como formamos? Reunindo nosso próprio preparo de material (exercícios de base psicodinâmica e sistêmica, tarefas de família de origem e de supervisão trazidas à vida num processo reflexivo facilitado pela equipe de formação, dramatizações improvisadas), não podemos esquecer de perguntar às pessoas em formação, ao longo dos dias: “Como você gostaria de usar este espaço hoje?” Negociamos juntos como usar o espaço, e a equipe de formação co-constrói um espaço seguro. Mas o que é um espaço dialógico seguro (Simon, 2023)? Não podemos saber isso sem curiosidade, sem perguntar e escutar quem está na sala. A questão é: o que acontece com o espaço quando ele não é negociado de antemão, ou quando uma ou mais vozes são mais poderosas? Como isso é para a equipe de formação e para as pessoas em formação? O que está surgindo nelas? Tornar disponível espaço bastante para explorar e batalhar juntos. A equipe de formação participa como continente, sustentando o espaço, com disposição para compartilhá-lo, praticando a corregulação. Perguntamos a cada pessoa: “Como isto está para você neste momento presente?” Espantar-se junto é um processo criativo do aqui e agora, dentro de qualquer momento de qualquer dramatização ou exercício reflexivo compartilhado.

O dialogismo é como estar com uma criança. Esperar e parar, não dizer tudo o que nos passa pela cabeça. Dar tempo para a digestão, escutar a construção de sentido, como fazer uma receita com as mãos, sem aroma artificial de manteiga, mas estando no fluxo, espantando-se, perguntando sem expectativa de uma resposta certa, sem um “jeito certo”, confiando na agência daquilo que se organiza aqui e agora. Confiar na agência do organismo, em todos os seres do aqui e agora deste novo encontro ou formação de que todo mundo participa e em que todo mundo importa. Como “ordenar com elegância” as vozes, os corpos que abrigam as vozes, os apoios próximos e distantes, engajando-se e dando-se conta dos contextos? Como a incerteza pode ser uma ponte, um luto comum expresso, um ambiente que sustenta, como a improvisação de um cachorro brincando na água.

Buscamos ser convidativas nos exercícios que oferecemos, e tentamos lembrar nosso poder como formadoras e o quanto pode ser difícil recusar um convite. A profundidade e o tema do que se compartilha cabem a quem está em formação, em cada exercício. Buscamos também dar espaço e tempo a cada pessoa para refletir sobre as respostas corporais, emocionais e cognitivas e elaborá-las individualmente e em grupo. Uma dessas práticas importantes chama-se Roda da Consciência (Siegel, 2018), na qual indivíduos e grupos podem exercitar todas as diferentes maneiras de ter consciência. Essas posições podem ser desenvolvidas e trazer ao primeiro plano os modos de conhecer do hemisfério direito. Dar espaço e tempo ao processo do que se vai aprender junto é imperativo. Não pode ser e não é o mesmo todas as vezes. Há sempre novos momentos e novos pensamentos a compartilhar e aos quais responder (Cunliffe e Locke, 2020). O “como” formamos está dentro de nós. Está no modo como vemos e respondemos ao que acontece, e no modo como colaboramos com os outros nesse espaço de fala (Anderson, 2014). Espantar-se junto e deixar lugar. Ter disposição e capacidade para largar posições fixas, abrir-se ao livre jogo do pensamento num espírito de boa vontade e amizade, com disponibilidade para reconhecer qualquer fato e qualquer ponto de vista tal como ele realmente é: é isso que gera uma cultura dialógica nos espaços de formação (Bohm e Peat, 1987).

A voz de Cathy

Estou ao telefone, escutando e falando com uma pessoa (que poderíamos chamar de a pessoa que acessa os serviços) e outra pessoa (que poderíamos chamar de colega). Dito isso, por sermos dialógicas, essas posições não parecem tão rigidamente definidas. Compartilhamos o que temos em mente, aquilo com que estamos sentadas, e às vezes ficamos em silêncio enquanto pensamentos, sentimentos e sensações corporais surgem no espaço. Sou tocada pelo que se compartilha e pelo que aprendo sobre mim mesma. Sinto meus pensamentos e minhas ideias se ampliando. A “pessoa que acessa os serviços” diz que deveríamos chamar esse jeito de trabalhar de “amoroso e nutridor”.

Estou agora num país novo, tendo chegado às duas da manhã. Faz um calor incrível. Caminhando até o local onde vamos formar, tenho lágrimas nos olhos. Trazemos tudo de nós mesmas para a formação. Meu coração está cheio. Minha colega abre o dia falando de suas ligações mistas com o país. Ela trouxe a si mesma para o espaço, com suas próprias vozes internas e externas. Compartilha algo de sua vulnerabilidade. Um espaço seguro parece se abrir, sem que se perca de vista o quanto as posições de segurança em espaços de grupo são transitórias e complexas. No momento, as pessoas em formação experimentam isso e começam a responder com seus próprios sentimentos e pensamentos. À tarde, almoçamos com uma família que até então só havíamos encontrado on-line. Ao encontrá-los pessoalmente, sinto um jorro de alegria e de ligação. Amor. Estou comprando bebidas, e um dos membros da família me ajuda. O pai diz: “Seu irmão está ajudando você a comprar chá.” Isso ressoa em todo mundo.

A família concordou em participar da formação. A família se senta num círculo interno comigo e com mais um membro da equipe de formação em Diálogo Aberto. Já havíamos facilitado juntos reuniões de rede com a família on-line. As pessoas em formação se sentam num círculo externo, à nossa volta. Havíamos combinado com a família que falaríamos em conjunto da experiência dela com as reuniões, em vez de realizar uma reunião de rede ao vivo. Hoje, a família propõe realizar uma. Estou mais hesitante, já que a família acaba de conhecer o grupo de formação; sou transparente quanto a isso, e entramos no não saber. Os membros da família começam falando de sua experiência das reuniões, de como elas funcionam e de como se sentem nelas.

  • “Simplesmente nos perguntam sobre o que queremos falar.”
  • “Quem conduz fala em conjunto sobre o que está sentindo, para que possamos ouvir.”
  • “É como estar em família.”
  • “Ninguém nos julga.”
  • “Todo mundo se sente escutado.”

Então um dos membros da família começa a falar de algo que havia feito e que o incomodava. Parece que se criou um espaço seguro o bastante para que ele trouxesse aqui sua própria vulnerabilidade e se sentisse corajoso o bastante para falar disso. No círculo interno e no externo, as pessoas se inclinam, atentas, enquanto a família fala junto sobre isso. O ritmo é lento, e há muitos silêncios. Lágrimas correm nos dois círculos. É difícil colocar em palavras, mas parece que o tempo desacelerou e que há, entre todas as pessoas presentes, um sentimento de ligação e de amor.

Depois da reunião, a família e a equipe de formação que a encontrou vão juntas a um café próximo, enquanto o restante da equipe de formação e as pessoas em formação escolhem cartões-postais com imagens diferentes para escrever à família algumas palavras sobre o que sentiram. Antes de partir, a família conversa informalmente com o restante da equipe de formação e com as pessoas em formação. Mais ligações e partilhas de coração acontecem. Uma pessoa em formação se levanta quando a família sai, em sinal de gratidão.

Tínhamos feito a viagem juntos, com equipe de formação e pessoas em formação contribuindo igualmente para criar um sentimento encarnado de segurança e de amor na sala (Seikkula e Trimble, 2005). Além do ensino direto sobre como coordenar uma reunião de rede, as pessoas em formação disseram que sentiram o que era fazer parte de uma. No dia seguinte, minha colega e eu falamos de nossa experiência da reunião num espaço de supervisão reflexiva. Às vezes chamamos isso de “intervisão”, por sua hierarquia mais plana. Convidamos três pessoas em formação a escutar e a formar uma equipe reflexiva. Falamos, não do conteúdo da reunião, mas de nós mesmas e do que havia surgido em nós. Mais lágrimas correram. No espírito da prática dialógica, a equipe reflexiva, em seu espaço de supervisão, falou de suas conexões com nossas palavras, sem interpretar, sem oferecer soluções nem conselhos. Uma participante disse sentir inveja de termos um espaço assim, em que podíamos confiar umas nas outras o bastante para compartilhar nossas vulnerabilidades. Outra pessoa em formação disse que agora sabia como a prática dialógica se sentia; que nada havia realmente mudado em sua compreensão, mas que algo havia se deslocado dentro de si.

A voz de Judith

Caderno

Anos atrás comprei um cartão em um dos meus lugares especiais no mundo, com as palavras: “Para descobrir o oceano, é preciso primeiro perder a costa de vista.” De fato. Minha exploração da prática dialógica me levou a aprender e a formar e a aprender e… e assim segue, continuando a me acenar… rumo àquele oceano. A mistura inicial de medo e entusiasmo se acalmou com o tempo, e no entanto o processo dialógico continua a me surpreender…

Estamos no terceiro dia de uma formação introdutória de quatro dias em Diálogo Aberto e prática dialógica. A maior parte das pessoas do grupo aparentemente se acomodou ao deslocamento que as tira de uma formação didática e as leva a uma experiência de formação dialógica, com atenção tanto ao conteúdo quanto ao processo. Desde o primeiro dia, notei um homem mais velho sentado no círculo de cadeiras, às dez horas em relação à minha posição de seis horas. Tenho a sensação de que ele está menos engajado com a formação, menos engajado com o grupo e menos engajado comigo. Perguntei-me se talvez lhe tenham dito para comparecer, ou se isso teria a ver com meu gênero, minha idade ou minha disciplina profissional. Quando ele me dirige perguntas, eu me inclino, metafórica e realmente, para o espaço entre nós dois, para permanecer com sua presença sem ser dominada por ela.

E no terceiro dia surge uma pergunta, não do homem mais velho que eu vinha notando, mas de outra pessoa no círculo: “Mas vocês precisam nos dizer como fazer Diálogo Aberto.” Uma vez dita, todo mundo parece expirar. Encorajo as pessoas em formação a permanecer, por ora, no não saber e na falta de definição. Encorajo-as a confiar que um processo de formação coerente com um modo dialógico de trabalhar — um modo dialógico de ser — dará frutos. Essa resposta parece acalmar o grupo. Ou talvez o próprio ato de dizer a pergunta já o tenha acalmado.

No dia seguinte, o último da formação, há uma calma no espaço… como de costume. Todo mundo parece à vontade, inclusive o homem mais velho. Ele se aproxima de mim antes de ir embora. Algo nele — e em mim também — se deslocou. É uma sensação, um saber interior. É como se tivéssemos agora fechado o círculo, juntos. Tenho de novo esperança e confiança no processo dialógico da formação, e ainda assim o que acontece continua sendo uma surpresa.

Esses momentos trazem à mente a necessidade de tocar nas experiências matizadas das formações anteriores — a de confiar no processo dialógico. Seja na formação, na supervisão ou no trabalho clínico, isso me ensinou a confiar que cada pessoa na sala está vivendo seu próprio processo, ao mesmo tempo em que vive um processo de grupo. Como praticante, formadora ou supervisora dialógica, o processo dialógico no grupo cabe a mim conduzir, mas o processo de cada pessoa pertence só a ela. Isso fica mais evidente no refrão que emergiu em cada formação introdutória de quatro dias em Diálogo Aberto e prática dialógica. É o momento da pergunta feita pelas pessoas em formação: “Digam-nos o que fazer. Como se faz Diálogo Aberto?”

Em formações passadas, essa pergunta costuma permanecer não dita até o terceiro dia, quando é liberada — ou talvez escape com o impulso de dias sentados com a incerteza. Muitas vezes ela emerge primeiro em um ponto do círculo, antes de ecoar em outros. Na formação dialógica, uma pergunta assim abre a possibilidade de as pessoas em formação experimentarem a confiança nos processos dialógicos sempre emergentes dentro do grupo e dentro de cada uma. Ela pede de quem forma uma resposta que se mantenha firme: mostrar em vez de dizer. Para as pessoas em formação e para a equipe de formação, a pergunta convida cada pessoa a esperar que a aprendizagem emerja, como convém ao seu modo de aprender, ao seu modo de ser. A pergunta faz parte do processo de formação. E a resposta também.

Ao confiar no processo dialógico da formação, um espaço dialógico é criado — poderíamos dizer: composto — pelo grupo e no grupo. Nesse espaço, conceitos dialógicos podem ser introduzidos, começar a ser elaborados e talvez começar a se integrar à prática e ao modo de ser de cada pessoa. Em graus diferentes, é diferente para cada pessoa. Cada pessoa em formação aprende aos poucos a ter uma postura dialógica, em processos individuais e de grupo. E o mesmo vale para a formadora. O devir dialógico é inacabável, nunca está completo (Bakhtin, 1984).

Nossa conclusão é uma pausa

Assim, ao nos reunirmos de modo dialógico, não concluímos aqui: chegamos a uma pausa. Perguntamo-nos: “Usamos este espaço para falar daquilo de que você queria falar hoje?” Nossa escrita foi para nós uma espécie de viagem dialógica, com as ideias e as palavras se desdobrando à medida que continuávamos a falar, a escutar, a refletir e a confiar que algo emergiria. Agora convidamos você a se considerar nesse processo dialógico. O que está surgindo em você? O que você nota sobre si? Gostaríamos de convidar você a tomar um instante para notar essas coisas… neste momento.

A caminho… (continuação), de Alita Taylor

A caminho do oceano, é na beira do rio que a mais corajosa das almas pioneiras se entrega ao caminho?

O que se passa em nossas águas? O que acontece em nosso mundo? O que se pode aprender disso em parceria, em colaboração, que jamais se poderá aprender na hierarquia.

Milagres, eu os vejo em nossas mãos, e com quem está ao nosso lado.

Mais azuis que o mar são nossas tristezas tecidas, que precisamos sustentar com cuidado primoroso.

Quem são os apoios assim? Onde estão as almas prestativas assim, que se importam o bastante para revelar a tristeza de que nossas intervenções psicológicas e comportamentais perderam o caminho; que dizem com força, como diz o rio: não sabemos para onde vamos. Não sabemos o tempo de amanhã, mas sabemos que precisamos fluir com o que é, e não lutar contra as pedras do tempo. Em vez disso, recolhemos luz, caímos livres, fazendo redemoinhos de espanto, deixando o trabalho da natureza a todos os elementos.

Não estamos de passagem, nem somos espíritos inventivos isolados. Estamos em conjunto nisto, para além da ciência e das categorias.

Somos artistas andando por aí com instrumentos chamados corpos, com vozes, gritos, dores e ideias. Vamos experimentar tudo isso em conjunto, porque quando não há ninguém para ouvir e ver a experiência alheia, nosso Corpo perde a vida, membro a membro.

No início revelamos que certas palavras e conceitos em itálico ao longo do texto eram aquilo que emergiu para nós como qualidades que buscamos suscitar em uma formação dialógica. Essas qualidades dizem respeito ao estar com ao longo de toda a formação em Diálogo Aberto e prática dialógica, seja nos exercícios dialógicos de família de origem e de rede social, seja na supervisão, seja nos dias de teoria. Elas incluem nosso desejo ou intenção de honrar o local, de ser convidativas naquilo que oferecemos, de refletir sobre as respostas corporais, emocionais e cognitivas, de escutar e lembrar o não saber, de ser transparentes, de sustentar o espaço dialógico, de ser um continente, de dar tempo e espaço para que cada pessoa encontre seu caminho em seu próprio ritmo, de atender ao saber corporal que acontece, de esperar que a aprendizagem emerja, de confiar umas nas outras o bastante para compartilhar nossas vulnerabilidades, equipe de formação e pessoas em formação contribuindo igualmente para criar um sentimento encarnado de segurança e de amor na sala, uma hierarquia mais plana, esperança e confiança no processo dialógico, permanecer com, trazer tudo de nós mesmas, mostrar em vez de dizer, encorajar e sentir nosso saber interior, atender tanto ao conteúdo quanto ao processo, refletir sobre as necessidades sempre mutantes das pessoas em formação e de nós mesmas como formadoras e nos adaptar a elas, buscando oferecer as condições do diálogo.

Essas são as condições que nós, quatro mulheres de quatro partes diferentes do mundo, buscamos oferecer enquanto seguimos nos encontrando on-line para apoiar o trabalho e a vida umas das outras. Durante a pandemia, precisamos umas das outras, e continuamos precisando. Sentimos a importância de manter o diálogo com outras equipes de formação num espaço dialógico seguro: é parte necessária do ofício de facilitar diálogos. Nós também nos envolvemos num processo, tornando-nos vulneráveis, compartilhando umas com as outras nosso diálogo interno, nossas preocupações e esperanças, as dificuldades e as alegrias de trilhar o caminho de formadora em Diálogo Aberto e prática dialógica. Sozinhas não podemos saber o que incluir, o que excluir, nem que currículo deveria se desenvolver, nem como; mas seguimos compartilhando nossas experiências e sendo abertas e criativamente responsivas ao que a formação que oferecemos requer. Em que contextos estamos nos colocando? Quem detém o poder? Onde está nosso próprio poder naquilo a que damos espaço? Ao continuar a apoiar e a escutar as dificuldades e os espantos das experiências de formação, continuamos a aprender mais. Permanecemos em um processo em curso.

Agradecimentos das autoras

As autoras agradecem aos demais membros das equipes de formação, às pessoas em formação e aos membros das redes que lhes deram permissão para compartilhar as vinhetas de diálogo deste artigo, e que fizeram esse caminho com elas, ensinando-lhes tanto.

Nota da tradução

As declarações regulamentares da revista — disponibilidade dos dados, contribuições das autoras, ausência de conflito de interesses, aviso da editora — não foram traduzidas; elas constam da versão original, cujo link está no rodapé. A bibliografia permanece em inglês, como é praxe.

Referências

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Tradução não oficial para o português de “Training in Open Dialogue and Dialogical Practice: creatively responding as trainers and writers”, publicado em Frontiers in Psychology (2023) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Thorley, C., Brown, J. M., Kurtti, M., & Taylor, A. (2023). Formar em Diálogo Aberto e prática dialógica: responder com criatividade, como formadoras e como autoras (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/formar-em-dialogo-aberto-e-pratica-dialogica-responder-com-criatividade-como-formadoras-e-como-autoras (Obra original publicada em 2023 em Frontiers in Psychology, vol. 14, article 1174680; republicada em 2026 por Complexe Systémique, https://www.frontiersin.org/journals/psychology/articles/10.3389/fpsyg.2023.1174680/full)

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