Violence Against Women · Violência

Keeping Safe Together: a experiência de homens e mulheres em um programa-piloto de intervenção “toda a família” contra a violência doméstica em Melbourne, na Austrália

Em Melbourne, o programa-piloto Keeping Safe Together atendia famílias em que há violência doméstica, mas em que a separação não é desejada nem possível: cada membro da família era acompanhado à parte, sob uma coordenação comum. A equipe de Kristin Diemer entrevistou oito mulheres e cinco homens. As mulheres ganharam segurança e empoderamento; os homens, de forma desigual, responsabilização. As crianças continuam à margem do relato dos pais.

Autores Kristin Diemer, Anneliese Spiteri-Staines, Kate Hammond e Cathy Humphreys (Universidade de Melbourne, Austrália)Primeira publicação Violence Against Women, 20 de agosto de 2025Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Keeping Safe Together: a experiência de homens e mulheres em um programa-piloto de intervenção “toda a família” contra a violência doméstica em Melbourne, na Austrália, de Kristin Diemer, Anneliese Spiteri-Staines, Kate Hammond e Cathy Humphreys, publicado na Violence Against Women (SAGE) (2026), doi: 10.1177/10778012251366244, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As duas tabelas são apresentadas em forma de listas; as biografias dos autores não foram reproduzidas; as declarações de fim de artigo foram reunidas nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Nessas famílias, buscar apoio “juntos” diante da violência pode ser a opção mais adequada, realista e segura para preservar o bem-estar individual e coletivo.

Kristin Diemer, Anneliese Spiteri-Staines, Kate Hammond e Cathy Humphreys

Resumo

Há poucas intervenções voltadas para vítimas-sobreviventes de violência doméstica que não querem ou não podem sair de uma situação violenta. Para suprir essa lacuna, o programa Keeping Safe Together (KST) testou, no estado de Victoria, na Austrália, um serviço de apoio destinado a todos os membros da família. Este artigo apresenta os resultados da avaliação qualitativa realizada com as pessoas adultas atendidas. Foram realizadas treze entrevistas com mulheres vítimas-sobreviventes (n = 8) e homens autores de violência (n = 5). Os resultados mostram que as mulheres do programa ganharam mais segurança e apoio, enquanto um trabalho de responsabilização era conduzido com os homens. Entre os pontos a melhorar estão uma compreensão maior, por parte dos pais e mães, dos efeitos da violência doméstica sobre as crianças, e uma abordagem de terapia familiar adequada e segura diante da violência doméstica.

Palavras-chave: violência doméstica, violência familiar, resposta “toda a família”, resposta “família inteira”, programa de mudança de comportamento para homens

Introdução

Contexto

Novos programas estão surgindo para trabalhar com famílias em que há violência doméstica, mas cujas vítimas-sobreviventes não podem ou não querem sair da situação violenta. Essas famílias continuam morando juntas ou mantêm contato regular, em geral sem medida protetiva civil em vigor. Os modelos de apoio a essas famílias estão em estágio inicial de desenvolvimento e variam em suas abordagens. Por isso, as evidências sobre o que funciona são limitadas (Stanley & Humphreys, 2017). Este artigo expõe as questões levantadas pelo programa Keeping Safe Together (KST) e discute os desafios e as possibilidades de uma abordagem “toda a família” da violência doméstica, tal como vividos pelas pessoas atendidas. No Keeping Safe Together, as vítimas-sobreviventes adultas eram mulheres, e os autores da violência doméstica eram homens. A terminologia de gênero usada ao longo do artigo reflete esse padrão dominante. A equipe também optou pelo termo “toda a família” (all of family) em vez de “família inteira” (whole of family), porque a consulta às partes interessadas da área mostrou que o segundo pressupõe que a família busca permanecer unida, “inteira”. O primeiro traduz melhor uma abordagem que inclui e atende todos os membros da família que mantêm contato entre si, quer o casal continue ou não na relação.

As lacunas das intervenções de mudança de comportamento em violência doméstica

Nas últimas décadas, as respostas convencionais à violência doméstica se basearam na ideia de que são necessários serviços separados para os homens que usam violência e para as vítimas-sobreviventes, crianças e adultas (Pence & Paymar, 1993). O atendimento conjunto de casais e famílias em situações de violência doméstica foi considerado inseguro, ineficaz e prejudicial às vítimas-sobreviventes, porque tende a apresentar a violência como um problema mútuo a ser resolvido (Goldner et al., 1990; Stith et al., 2011). É em parte por isso que, na Austrália, a presença de violência doméstica permite a dispensa da mediação ou do aconselhamento obrigatórios no âmbito do direito de família (Commonwealth of Australia, 1975). Os modelos de intervenção atuais e dominantes não são pensados para famílias que desejam permanecer juntas, nem mesmo para aquelas em que há separação, mas em que é preciso negociar uma coparentalidade significativa ou uma parentalidade paralela.

O modelo de intervenção separado e marcado por gênero apresenta vários problemas, sobretudo quanto ao acesso das vítimas-sobreviventes que permanecem em uma relação abusiva, seja porque desejam ficar, seja por fatores fora de seu controle que as impedem de sair. Por exemplo, mulheres e crianças migrantes e refugiadas muitas vezes enfrentam restrições de visto que vinculam sua situação de residência ao autor da violência e limitam seu acesso a apoios governamentais e redes de proteção social (Humphreys & Campo, 2017). Na Austrália, mulheres aborígenes podem não querer deixar sua terra cultural e as redes de sua família extensa, centrais para sua identidade (Meyer & Stambe, 2020; Murray, 2008). Moradia acessível pode estar fora do alcance das vítimas-sobreviventes de violência doméstica, por falta de oferta, discriminação no mercado de aluguel e inadequação às necessidades culturais e/ou religiosas (Meyer & Stambe, 2020; Murray et al., 2022). Mulheres podem ter de escolher entre a pobreza e a violência (Summers, 2022). O abrigo pode não ser uma opção quando implica afastar-se das redes sociais e da escola dos filhos, impede as mulheres de manter o emprego ou quando elas estão acompanhadas de filhos adolescentes do sexo masculino (Murray et al., 2022). Separar-se de um parceiro abusivo pode deixar as mulheres diante do desemprego, da falta de moradia, do risco de violência em um alojamento alternativo e, no fim, sem estar mais seguras (Diemer et al., 2017).

Além disso, há indícios de que sair da situação abusiva não resulta necessariamente em mais segurança. Na Austrália, cerca de 40% dos incidentes de violência doméstica registrados pela polícia ocorrem após a separação, muitas vezes no contexto do contato com os filhos (Humphreys et al., 2018; Humphreys & Campo, 2017). Muitas mulheres acreditam sinceramente que é melhor, para elas e para os filhos, permanecer em um lar intacto, apesar da violência que sofrem (El Matrah et al., 2011; Stanley & Humphreys, 2017). A existência de serviços para famílias que permanecem juntas pode favorecer a busca de ajuda mais cedo, antes que a intervenção em crise se torne necessária.

Explorando abordagens “toda a família” nos programas de intervenção

Diante dessas questões, é possível defender a necessidade de explorar outros modelos de intervenção com todos os membros da família quando há violência doméstica. Os programas de mudança de comportamento para homens (Men’s Behavior Change Programs, MBCP) e os programas para pais que usam violência buscam promover a segurança das mulheres e das crianças trabalhando os valores, as atitudes e as ações dos homens que alimentam o comportamento abusivo (O’Connor et al., 2022; Scott et al., 2021). No entanto, esses programas podem falhar em estabelecer contato e vínculo com as mulheres e as crianças afetadas pela violência (Day et al., 2019). O homem que usa violência é o foco de uma intervenção em grupo, embora mulheres e crianças sejam frequentemente apontadas como as principais beneficiárias desse trabalho. Mas o modelo de trabalho de apoio “à parceira”, ou de um serviço para mulheres paralelo ao serviço para homens, não se mostrou necessariamente bem-sucedido (Babcock et al., 2011). No contexto australiano, os MBCP costumam ser mal financiados, e o programa de apoio às mulheres pode se tornar marginal e, às vezes, protocolar (Smith et al., 2014).

Embora alguns programas, como o programa Caledonian, na Escócia, tenham avançado para modelos mais inclusivos (Ormston et al., 2016), o foco principal dos MBCP é o trabalho direto com os homens. O trabalho de apoio às mulheres recebe muito menos financiamento e, por isso, funciona mais como um “complemento” da oferta de serviço. O contato com as parceiras dos homens inscritos nos programas é importante para avaliar a segurança das mulheres e, como forma de responsabilização, para acompanhar o progresso dos homens. Embora o apoio às parceiras possa encaminhar mulheres e crianças a serviços conforme a necessidade, ele não é pensado para atender diretamente às necessidades delas. Assim, o apoio a mulheres e crianças não está no centro dos MBCP e muitas vezes não se estende além do período em que o parceiro frequenta o programa (Smith et al., 2014). Como as taxas de abandono são altas nos programas de intervenção voltados a autores de violência, inclusive nos MBCP (Cunha et al., 2022; Donovan & Griffiths, 2015), as vítimas-sobreviventes correm o risco de perder um apoio profissional que depende do engajamento do parceiro em um programa.

Também se argumenta que os programas de intervenção que trabalham com os homens sem envolver ou incluir as mulheres correm o risco de conluio com o autor da violência (Costello, 2006; Reimer, 2020). Às vezes, só depois de conversar com as parceiras é que as equipes percebem que o tratamento não está se traduzindo em melhor comportamento em casa, e que os autores de violência vêm enganando todo mundo ao longo do tratamento (Reimer, 2020). Também é verdade que uma das principais motivações dos homens para frequentar um MBCP é a deterioração da relação e a possibilidade de a parceira deixá-los por causa da violência (Fitz-Gibbon et al., 2024). Nessas situações, as mulheres podem ter desistido da relação, e pode ser difícil envolvê-las no apoio às parceiras para que deem retorno sobre as mudanças de comportamento.

Embora os MBCP sejam um elemento importante do panorama de intervenções em violência doméstica, eles alcançam a mudança de comportamento em graus variados, conforme o homem (O’Connor et al., 2022). Por isso, são necessárias outras opções, complementares ou alternativas, para enfrentar a violência doméstica. Alguns programas voltados a reduzir a violência dos homens adotaram uma abordagem baseada no casal, com trabalho conjunto com a vítima-sobrevivente e o autor da violência (John et al., 2022; Méndez et al., 2014). A pesquisa sobre esses programas mostra que alguns casais relatam mudanças positivas para si e para a relação ao longo do programa: maior satisfação na relação, maior responsabilização do autor da violência, redução da violência e melhora da comunicação (John et al., 2022; Méndez et al., 2014). No entanto, esses programas não são adequados a todos os casais e costumam ser pensados para casais em que o nível de risco é baixo e a violência não se agravou (McConnell et al., 2020; Méndez et al., 2014).

Outros programas vão além do trabalho com o casal e incluem também o trabalho com as crianças. Esses programas usam uma abordagem “toda a família” na intervenção em violência doméstica. No Reino Unido e na Austrália, programas como o Doncaster Stronger Families e o Walking with Dads, do estado de Queensland, são exemplos de intervenções “toda a família” (Meyer et al., 2019; Stanley & Humphreys, 2017). Esses programas se concentram primeiro em melhorar o apoio oferecido a mulheres e crianças e depois incorporam o trabalho com os homens ou autores de violência. Por exemplo, o programa Doncaster Stronger Families reduziu o número de casos das equipes de proteção à infância especializadas em violência doméstica e redirecionou esse tempo para o trabalho com cada membro da família. O programa constatou, porém, que as equipes não se sentiam seguras para trabalhar com pais que usavam violência e acabavam encaminhando-os a programas especializados para autores de violência, o que isolava o trabalho em compartimentos (Stanley & Humphreys, 2017).

O programa Walking with Dads oferece um exemplo mais bem-sucedido de abordagem “toda a família” na intervenção em violência doméstica. Ele consiste em formar especialistas em proteção à infância no modelo Safe & Together (Mandel, 2023), para trabalhar diretamente com todos os membros da família e realizar consultorias secundárias às equipes de proteção à infância (Meyer et al., 2019). O modelo inclui diversas estratégias para manter o autor da violência no campo de visão e para estabelecer uma parceria proativa com o genitor não agressor (em geral, a mãe). O trabalho com os homens se concentra em seu papel de pai, na compreensão dos comportamentos parentais e no reconhecimento do impacto de seu comportamento sobre o funcionamento familiar.

O desenvolvimento das intervenções “toda a família” em violência doméstica está em fase inicial. Enquanto alguns programas mostram sinais positivos, ao permitir o trabalho com todos os membros da família preservando a segurança de mulheres e crianças, outros evidenciam a necessidade de mais formação das equipes e de uma compreensão mais ampla dessa abordagem no setor.

Apresentação do programa KST

O programa KST foi testado para responder às necessidades de famílias que precisavam de apoio em violência doméstica, mas que optavam por não se separar ou não podiam fazê-lo. O KST funcionava no estado de Victoria, na Austrália, e durou 18 meses. O programa foi desenvolvido em colaboração entre três serviços distintos: um serviço especializado em violência doméstica contra mulheres, que coordenava o piloto, um prestador de MBCP e um centro de terapia familiar.

As pessoas responsáveis pela coordenação familiar (Family Coordinators), que trabalhavam com as mulheres, e a gerência do programa eram contratadas pelo serviço especializado para mulheres. As pessoas responsáveis pelo acompanhamento dos homens, a responsável pelo acompanhamento das crianças e a assistência administrativa eram contratadas pelo prestador de MBCP. O centro de terapia familiar desempenhava vários papéis no modelo: oferecer supervisão clínica, contribuir para a cocriação contínua do programa por meio de pesquisa-ação participativa e conduzir reuniões regulares da equipe, chamadas reuniões de coprodução.

Os membros da equipe vinham de referenciais teóricos e competências variados. As pessoas responsáveis pelo acompanhamento dos homens e das mulheres vinham da área de violência doméstica (gestão de casos e prática em programas de mudança de comportamento para homens), enquanto a pessoa responsável pelo acompanhamento das crianças e as pessoas responsáveis pela terapia e pela coordenação familiares vinham da área terapêutica. As duas pessoas encarregadas da supervisão clínica externa, vindas do centro de terapia familiar, também tinham um olhar terapêutico, e uma delas tinha experiência de trabalho com famílias em recuperação da violência doméstica.

Nos dias de KST, a equipe dos três serviços ficava reunida nas instalações do serviço especializado para mulheres. Todos os membros da equipe dividiam um escritório aberto, para favorecer discussões informais sobre os casos. Reuniões formais de gestão de casos sobre famílias específicas eram marcadas conforme a necessidade.

Mães, pais e crianças recebiam serviços separados, com gestão de casos compartilhada entre os membros da equipe. Essas sessões individuais envolviam primeiro a coleta de informações para compreender a situação da pessoa, antes de passar à psicoeducação e ao desenvolvimento de um “letramento” em violência doméstica. Essa etapa convida homens e mulheres a refletir sobre seu comportamento, com o objetivo de aliviar a autoculpabilização das mulheres e aumentar a responsabilização dos homens. Além das sessões presenciais, as pessoas atendidas podiam ter apoio não agendado por telefone quando necessário: ligações da equipe para saber como estavam, apoio emocional e planos de segurança.

Sessões familiares ou sessões conjuntas entre os pais só eram oferecidas depois de concluído o trabalho individual, e apenas se consideradas adequadas e seguras. Cada pessoa recebia atendimento individual, apoio de gestão de casos em violência doméstica e encaminhamentos a outros serviços conforme a necessidade, incluindo MBCP, Caring Dads e serviços de álcool e outras drogas (AOD). O programa KST foi desenhado de modo que todos os membros da família concordassem em participar e soubessem que os demais recebiam apoio relacionado à violência doméstica.

A maioria das famílias foi encaminhada ao KST pela proteção à infância (36%) ou por serviços para crianças e famílias e/ou outros encaminhamentos internos (36%). Cinco mulheres e seis homens procuraram o programa por iniciativa própria. A equipe relatou que algumas pessoas tinham ouvido falar do programa no tribunal, no Family Services Victoria, no Caring Dads e em outros MBCP.

Embora o programa fosse voluntário, muitas vezes havia fortes motivações formais para participar (a proteção à infância condicionando a manutenção dos direitos parentais à participação) ou informais (parceiros ou parceiras “ameaçando” ir embora). O programa havia sido desenhado inicialmente para famílias em que o nível de violência era considerado de risco baixo a médio. No entanto, com base em uma avaliação de risco padronizada, a maioria dos encaminhamentos envolvia famílias de risco médio a alto. O desenho do programa KST foi então modificado para acolher famílias de risco mais alto, com mais planejamento de segurança e a garantia de estratégias adequadas de redução de risco quando se consideravam sessões conjuntas com os dois parceiros.

O programa foi pensado para ser flexível, adequar-se às necessidades de cada pessoa e de cada família e permitir adaptação cultural. A maioria das pessoas atendidas no KST vinha de contextos cultural e linguisticamente diversos (Culturally and Linguistically Diverse, CALD), uma população que frequentemente enfrenta barreiras adicionais para obter apoio. Alguns membros da equipe tinham formação e experiência especializadas no trabalho com comunidades CALD e compartilhavam esse conhecimento com colegas em formações internas. O objetivo era garantir que a equipe fosse sensível às questões e normas culturais. O KST também atendia um pequeno número de pessoas aborígenes, que recebiam apoio adicional de uma organização comunitária aborígene (Aboriginal Community Controlled Organization, ACCO).

Enquanto o programa funcionou, não havia limite de número nem de frequência de sessões. No momento do estudo, a “conclusão” do programa só havia sido registrada para um pequeno número de pessoas que se desligaram. Salvo desligamento, as pessoas atendidas no KST permanecem “ativas”, para poderem voltar ao programa conforme a necessidade. Entre os dois homens, as três mulheres e a criança que “concluíram” o programa (isto é, com desligamento formal), o período de participação variou de 9 a 18 meses. No conjunto, o fato de a maioria dos prontuários ter permanecido “aberta” e a duração relativamente longa da participação medida indicam a necessidade de um trabalho de longo prazo.

O piloto do KST foi financiado pelo governo do estado de Victoria por 18 meses. Ao fim desse período, as organizações executoras se comprometeram a financiar o programa com recursos próprios por três meses, enquanto buscavam novos financiamentos. O programa não conseguiu obter financiamento adicional além desse ponto e, por isso, foi encerrado.

Metodologia

Diante da necessidade de mais evidências sobre a eficácia e a adequação das abordagens “toda a família” na intervenção em violência doméstica, esta avaliação de programa buscou responder à seguinte pergunta: Como as pessoas adultas atendidas vivenciaram o programa KST e que mudanças, se houve alguma, ocorreram em sua segurança e em sua situação?

Este artigo utiliza dados de entrevistas qualitativas coletados em uma avaliação mais ampla do programa KST. Essa avaliação adotou uma abordagem de avaliação realista e se concentra não apenas nos resultados da intervenção, mas também em como eles são produzidos e no que é relevante nas condições variáveis em que as intervenções ocorrem (Pawson & Tilley, 1997). A avaliação geral explorou as condições contextuais que tornam a intervenção do KST eficaz ou não e buscou aprendizados sobre como o contexto e o desenho do programa produzem resultados.

A avaliação incluiu componentes formativos e somativos, com métodos mistos: dados de resultados dos prontuários das pessoas atendidas, entrevistas semiestruturadas, grupos focais e dois estudos de caso que mostravam como o programa KST funcionava. Os dados foram coletados entre março e junho de 2019, em duas partes. A primeira buscou esclarecer o modelo do programa e avaliar a implementação do KST. A segunda se concentrou nos resultados para cada membro da família, incluindo mulheres adultas, homens e crianças/jovens envolvidos no programa KST. Como a avaliação foi encomendada nos seis últimos meses do programa, não foi possível realizar entrevistas iniciais (pré-programa) com as pessoas atendidas.

Para compreender o impacto do programa, as pessoas atendidas no KST foram apresentadas à avaliação pela pessoa responsável por seu caso. A equipe de pesquisa então contatou as pessoas que poderiam participar e fez um recrutamento confidencial. Foram realizadas treze entrevistas semiestruturadas com pessoas adultas atendidas. As pessoas participantes receberam um documento em linguagem simples, que explicava o processo da entrevista e assegurava seu consentimento informado. Dada a natureza sensível da conversa, foram informadas de que todas as perguntas eram opcionais e de que podiam fazer pausas ou encerrar a entrevista se necessário.

As entrevistas foram conduzidas a partir de uma perspectiva construtivista social feminista, que enfatiza o lugar da linguagem na construção da realidade social. As pessoas participantes foram incentivadas a falar de suas experiências vividas (Sarantakos, 2005) relacionadas à avaliação. A condução das entrevistas se apoiou em uma metodologia de empoderamento relacional, para criar um espaço acolhedor e comunicativo que ajudasse cada pessoa a esclarecer seus sentimentos e pensamentos (VanderPlaat, 1998). Essa abordagem permitiu coletar dados ricos em um ambiente seguro para quem participava. As entrevistas foram feitas presencialmente por três membros da equipe de pesquisa. As pessoas participantes escolheram o horário e o local da entrevista conforme sua conveniência, e a maioria ocorreu no escritório do KST, junto aos atendimentos.

Os membros da equipe que conduziram as entrevistas tinham ampla experiência em pesquisa com vítimas-sobreviventes e autores de violência doméstica. As pessoas participantes receberam apoio para se sentirem seguras ao falar de sua participação nos programas e de sua experiência, ou de seu uso, da violência. Entrevistas com vítimas-sobreviventes podem envolver riscos, como sofrimento, desconforto e nova violência em retaliação à participação (Elsberg & Heise, 2002; Hamberger et al., 2020). Entrevistar autores de violência doméstica também pode desencadear emoções fortes, entre elas sofrimento e vergonha. Além disso, pode haver o risco de quem entrevista adotar comportamentos de conluio ou de justificação (Reimer, 2020). A experiência da equipe de pesquisa era, portanto, importante para que esses riscos fossem manejados adequadamente. Também é importante lembrar que muitas vítimas-sobreviventes de violência consideram a participação em pesquisas catártica e empoderadora, mesmo quando vem acompanhada de emoções fortes (Valpied et al., 2014).

As transcrições das entrevistas foram anonimizadas, e cada pessoa participante recebeu um pseudônimo para proteger sua privacidade. Os dados foram codificados segundo as etapas descritas por Braun e Clarke (2013), para identificar temas comuns e ideias abrangentes. Dois membros da equipe codificaram as mesmas três entrevistas; em seguida, compararam a codificação e elaboraram um quadro de codificação para garantir a consistência da análise. As demais entrevistas foram codificadas segundo esse quadro.

A aprovação ética foi obtida junto ao comitê de ética da Universidade de Melbourne [identificador ético 1853008.1]. Havia protocolos de segurança para tratar da confidencialidade e da revelação de qualquer abuso infantil atual e não notificado, ou de risco de autolesão.

As entrevistas finais incluíram oito (36%) das 22 mulheres que participavam do programa no momento da avaliação e cinco (22%) dos 22 homens.

A análise das entrevistas com crianças e jovens foi publicada em um relatório breve separado (Diemer et al., 2024). Este artigo se limita aos resultados das entrevistas qualitativas individuais com mães e pais.

Resultados

Entrevistas com as mulheres

Das oito mulheres entrevistadas, seis ainda estavam em um relacionamento com seus parceiros. Tinham entre 32 e 51 anos; a maioria nasceu na Austrália, e duas se identificavam como vindas de comunidades cultural e linguisticamente diversas (CALD). Metade dos filhos dessas mulheres também participava do programa KST. Quatro dos homens entrevistados eram parceiros de mulheres entrevistadas (tabela 1).

Tabela 1 — Situação das mulheres entrevistadas (n = 8)

  • Mulheres que não estão mais em um relacionamento com homens também atendidos no programa KST. 2.
  • Entrevistas realizadas com parceiros ou ex-parceiros das mulheres incluídas na avaliação (pares correspondentes). 4.
  • Mulheres que se separaram do parceiro ou ex-parceiro durante o programa. 2.
  • Mulheres com medida protetiva civil contra o parceiro ou ex-parceiro. 1.
  • Mulheres com medida protetiva civil que afasta o parceiro ou ex-parceiro dos filhos. 1.

Visão geral: suprir uma lacuna de serviços

As mulheres se mostraram muito positivas em relação ao programa e manifestaram o desejo de continuar participando. Algumas não tinham percebido que viviam violência doméstica quando chegaram ao programa, e as que suspeitavam disso se sentiram validadas pelo que aprenderam no KST. Munidas de ferramentas para buscar ajuda e apoio, as mulheres puderam decidir com conhecimento de causa se iriam se separar do parceiro ou ex-parceiro, ou usar o apoio do KST para trabalhar por um ambiente familiar mais seguro. Por exemplo, Maria e o marido foram encaminhados ao KST pela proteção à infância. Disseram-lhes que, se quisessem continuar juntos e manter os filhos sob seus cuidados, frequentar o KST era a única opção.

Chris e Maddy conheceram o KST no tribunal de primeira instância, ao pedir uma medida protetiva civil após um incidente de violência doméstica. Da mesma forma, Sima encontrou o programa depois de comparecer ao tribunal com o marido, que recebeu uma medida protetiva civil por causa da violência que praticou. Sima pediu que a medida fosse alterada para permitir que o marido morasse com ela, sob a condição de que ele não lhe fizesse mal. Como Maddy e Sima continuavam morando com os parceiros abusivos, o apoio de um serviço especializado em violência doméstica teria sido muito restrito ou inacessível para elas. Como disse Maddy: “sem isso [o KST], a gente provavelmente estaria no tribunal e separados a essa altura”.

Para algumas mulheres, foi o nome do programa, e saber que ele se destinava a apoiar famílias que viviam com violência doméstica, que as levou de início a participar. Rana se interessou pelo KST porque os materiais falavam de casais que “permanecem juntos” e ela não queria deixar o parceiro.

Para nos ajudar, como família, a ter saúde… um programa para ajudar com a comunicação e os problemas. (Rana)

Ninguém quer romper a relação, e foi assim que eu entrei neste programa, com a ajuda do meu clínico geral. “Keeping Safe Together” [permanecer juntos em segurança] é um nome importante, porque toda esposa quer estar orientada com o marido. (Gina)

Tema emergente: empoderamento

O aumento do empoderamento foi um tema que se destacou de imediato nas entrevistas com as mulheres. Elas valorizaram muito o apoio e a ajuda recebidos para identificar e nomear o comportamento do parceiro ou ex-parceiro como adequado ou inadequado. A participação no KST também lhes deu ferramentas para se comunicar com o parceiro ou ex-parceiro e com outras pessoas sobre o que estavam vivendo. O componente de psicoeducação do programa KST foi apontado como particularmente útil para desenvolver o letramento em violência doméstica e tomar decisões informadas sobre a própria vida.

[Agora eu consigo] honrar minhas próprias experiências em vez de perdoar coisas imperdoáveis. Retomar o controle e o poder por meio da linguagem. (Rachel)

[A pessoa que me acompanhava] me ajudou a me sentir à vontade para contar a ele [ex-parceiro/parceiro] o meu problema. (Sima)

[Eu] parei de me culpar pelo que ele faz. (Chris)

As mulheres também valorizaram poder conversar com uma terceira pessoa imparcial. A maioria não se sentia à vontade para falar com as amizades, sobretudo antes de participar do KST. Algumas relataram se sentir mais à vontade para se abrir com a família e com o círculo de amizades graças ao KST. Essas participantes sentiram que sua experiência foi validada e que a participação no KST as ajudou a construir uma rede de apoio social mais ampla.

O KST… é bom ter uma pessoa imparcial que dá a sua opinião. (Chris)

Recebi muita validação e reforço. Eu me sentia bem isolada antes. Não falava disso com a minha família. Recebi validação [por meio do KST]. (Rachel)

Tema emergente: melhores relações familiares

As mulheres relataram melhoras nas relações familiares, com os próprios filhos, com o parceiro ou ex-parceiro e, em alguns casos, também melhoras nas relações do pai com os filhos. Elas atribuíram essas melhoras ao foco do KST no desenvolvimento de uma comunicação eficaz e respeitosa.

Mudei tanto a minha vida. Primeiro, reconhecer que não se muda ninguém discutindo, pressionando: a pessoa precisa fazer as próprias escolhas. (Maria)

Ele mudou muito desde o KST, a nossa relação ficou mais forte, e ele aprendeu a respeitar todo mundo da mesma forma. (Sima)

Algumas mães se preocupavam com o fato de os filhos terem presenciado comportamentos relacionais pouco saudáveis antes do KST. O programa as ajudou a aprender a se comunicar melhor com os filhos e a ajudá-los a entender como é uma relação saudável. Em alguns casos, isso trouxe mais confiança e abertura em casa.

[Mostrar às crianças que] a vida não precisa ser gritaria e berros. Você pode mudar a si mesmo; você pode conversar. (Rana)

Com este programa comecei a ficar atenta à minha segurança; antes, eu nunca tinha percebido como a minha segurança é importante, para os meus filhos também. (Gina)

Por exemplo, antes eles [os filhos] escondiam de mim tudo o que tinham no celular. Agora eles vêm me perguntar o que fazer se forem contatados por um número desconhecido e me mostram o que estão fazendo. (Maddy)

Tema emergente: identificar o comportamento abusivo e sentir segurança para denunciá-lo

As mulheres que antes se sentiam inseguras perto do parceiro ou ex-parceiro relataram mais sensação de segurança durante a participação no KST. Embora parte disso resultasse da mudança de comportamento dos homens, com mais frequência se devia ao fato de as mulheres se tornarem mais hábeis em identificar comportamentos manipuladores e perigosos, ou de terem um plano de segurança.

Embora todas as mulheres estivessem mais aptas a reconhecer comportamentos inadequados e inseguros, algumas também relataram uma nova confiança para dizer ao parceiro ou ex-parceiro quando o comportamento dele era abusivo. Essa confiança se devia ao fato de o KST apoiar as duas partes.

Ele [o parceiro] dizia que era tudo coisa da minha cabeça, que o comportamento dele era aceitável. Mas agora outras pessoas dizem que não está certo. Elas escutarem e dizerem que você não está ficando louca é um alívio, não é você [não é culpa sua]. Eu me sinto mais segura para apontar o mau comportamento e recorrer aos serviços para pedir ajuda quando não me sinto segura. (Rana)

[Eu me] sinto mais capaz de dizer [a ele] o que é um comportamento aceitável… Também estou preparada para deixá-lo, e saber disso teve efeito sobre o comportamento dele. (Chris)

Com este programa comecei a ficar atenta à minha segurança; antes, eu nunca tinha percebido como a minha segurança é importante, para os meus filhos também. (Gina)

Uma mulher atribuiu as mudanças que viu no parceiro ou ex-parceiro não só a conversar mais sobre o comportamento dele, mas também à abordagem que o KST adotava nas sessões com os homens. Em particular, ao fato de os homens terem espaço para contar sua história e se sentirem ouvidos:

Se tivesse havido acusação, [ele teria] uma reação automática, em vez de haver espaço para que ele aprendesse. [Ele] não tinha percebido que era violento, e recebeu apoio para aprender sobre o próprio comportamento sem que ninguém apontasse o dedo. (Rachel)

Infelizmente, a sensação de maior segurança nem sempre se mantinha. Algumas mulheres relataram que, embora tivessem se sentido mais seguras perto do parceiro ou ex-parceiro no início da participação no KST, acreditavam que a mudança era temporária. Uma participante afirmou que o progresso “foi se desgastando com o tempo. Dá para aprender só um tanto de coisa nova antes que os velhos hábitos voltem” (Rachel).

Algumas participantes também atribuíram a maior sensação de segurança ao fato de terem deixado a relação, e não a um trabalho de mudança de comportamento feito junto com o parceiro ou ex-parceiro. As sessões do KST tinham oferecido espaço e apoio para avaliarem o que era melhor e mais seguro para elas e como alcançar essa segurança. As que escolheram deixar a relação eram gratas pelo apoio que o KST deu nesse processo, inclusive apoio prático, como ajuda financeira e de moradia.

Tema emergente: consciência das necessidades dos filhos

As mulheres participavam do programa KST sobretudo para reduzir a violência do parceiro ou ex-parceiro e favorecer a reparação da relação. Embora as necessidades dos filhos e o impacto da violência estivessem em primeiro plano para muitas, algumas precisavam ser estimuladas a pensar em como e se o KST tinha afetado o bem-estar dos filhos. A conversa com Maddy foi uma exceção. Ela disse que nunca se sentiu insegura com o parceiro, mas que se preocupava com a segurança da filha mais velha.

Ele [o pai] sabe que não pode fazer o que fez com ela [a filha]. Ele tenta não lidar com ela, [dá a ela] mais espaço. Antes ele gritava, repetia sem parar. Ele falava alto, e isso fazia ela explodir. Agora ele sabe a hora de parar. (Maddy)

Para a maioria das mulheres, um ambiente doméstico seguro para os filhos e a melhora das práticas parentais eram vistos como objetivos secundários do programa. No entanto, quando perguntadas, conseguiam descrever mudanças gerais nos filhos durante o programa KST, mas sem entrar em muitos detalhes. Viam o programa KST principalmente como um meio de melhorar a relação com os filhos. As melhoras para os filhos eram secundárias ou incidentais.

Entrevistas com os homens

Ao todo, cinco homens foram entrevistados. Eles participavam do programa KST havia de 3 a 6 meses. No momento da entrevista, quatro continuavam com as parceiras, e um teve o relacionamento encerrado durante o programa. Dois dos homens tinham medidas protetivas civis contra si. A idade deles variava de 29 a 56 anos (tabela 2).

Tabela 2 — Situação dos homens entrevistados (n = 5)

  • Entrevistas realizadas com parceiras ou ex-parceiras dos homens incluídos na avaliação (pares correspondentes). 4.
  • Homens que se separaram da parceira ou ex-parceira durante o programa. 1.
  • Homens com medida protetiva civil contra si. 2.
  • Homens com medida protetiva civil que os afasta dos filhos. 1.

Tema emergente: reconhecimento e reflexão

Os relatos dos homens foram mais variados do que os das mulheres. Quatro deles tinham começado a ficar mais reflexivos graças à participação no programa e reconheciam ter questões a trabalhar. Antes do KST, alguns homens não sabiam que a violência verbal era uma forma de violência doméstica, e o programa os ajudou a entender que seu comportamento passado precisava ser enfrentado. Eles passaram a compreender melhor como suas ações podiam fazer as parceiras ou ex-parceiras se sentirem.

Aprendi no programa que gritar e xingar é uma forma de violência doméstica. Não sabia disso antes. […] [Eu] preciso assumir a responsabilidade pelos meus atos, não importa o quanto elas [parceira/ex-parceira] me tirem do sério. (Sam)

Os homens eram gratos pelo atendimento e pela psicoeducação recebidos, que os ajudaram a mudar sua visão e sua perspectiva sobre o uso da violência. Assim puderam reconhecer seu papel na criação de um ambiente doméstico seguro.

Eu gosto [da abordagem do KST]. Cada um vê as coisas de um jeito. Mas a essência [do programa] é criar um ambiente em que todo mundo se sinta seguro. (Jalal)

Logo comecei a perceber que meu comportamento não tinha sido respeitoso. Era por causa das diferenças de cultura e das pressões financeiras de viver na Austrália. Agora entendo que a minha origem italiana/espanhola é barulhenta, e que eu não comunico bem as discordâncias. (Marco)

Alguns homens, porém, ainda não tinham se beneficiado da psicoeducação e, no momento da entrevista, continuavam resistentes a assumir a responsabilidade. Os homens que estavam no início do programa tinham avançado um pouco, mas continuavam culpando as (ex-)parceiras por “levá-los” aos comportamentos abusivos. Alguns homens também expressaram frustração com as parceiras ou ex-parceiras e achavam que estavam fazendo sozinhos todo o trabalho “pesado” de mudança de comportamento.

A MP [medida protetiva] deu proteção a ela. Deu a ela proteção contra mim de forma legal, mas também deu permissão para ela me provocar. (Sam)

O KST fez lavagem cerebral na minha mulher. Desde o começo, ela passou a falar dos direitos dela, financeiros e outros. A relação ficou mais tensa por causa de todas as informações com que o KST encheu a cabeça dela. (Amin)

Embora alguns homens ainda não tivessem desenvolvido nenhuma compreensão do próprio comportamento, todos planejavam continuar frequentando o KST, pois começavam a ver melhoras nas relações. Alguns homens relataram, no entanto, que as melhoras estavam ligadas a uma melhora no comportamento dela.

Nessas duas últimas semanas, o comportamento dela melhorou. Pedi a [pessoa responsável pelo meu caso] que passasse a informação para [a pessoa responsável pelo caso dela]. Eu disse para fazerem com que ela olhasse para o próprio comportamento. Eu não queria bater nela [na esposa], mas ela me levou ao limite. Acho que eles entendem, então vou continuar vindo [ao KST]. (Amin)

Tema emergente: reparar a relação

A principal expectativa dos homens ao entrar no programa KST era que fosse uma forma de terapia de casal. O foco na permanência da relação atraía mais os homens do que as mulheres. Alguns homens manifestaram o desejo de fazer mais trabalho de casal no programa. No entanto, a descrição do trabalho que queriam fazer em sessões conjuntas mostrava que não compreendiam seu papel na criação de um ambiente inseguro para a parceira. Sam se disse decepcionado por ele e a ex-parceira não terem chegado à etapa da “terapia de casal”, e atribui a isso o fato de talvez terem se separado. Amin estava ressentido por não poderem ter sessões conjuntas, afirmando que “[o] primeiro erro deles foi separar a mim e a minha mulher. Nós chegamos lá juntos. Isso mostra o nosso compromisso” (Amin).

Ainda assim, a maioria dos homens valorizava as sessões individuais. Elas permitiam que se concentrassem no próprio trabalho com profissional de aconselhamento antes de qualquer trabalho conjunto. Alguns homens disseram que a participação da parceira ou ex-parceira os fazia sentir que estavam trabalhando juntos, mesmo em sessões individuais, porque ambos demonstravam compromisso em reparar a relação. Essa crença de que a parceira ou ex-parceira tinha igual responsabilidade no trabalho sobre a relação revela falta de compreensão do próprio papel na violência.

[A minha mulher] fazer o programa também mostra que ela também está comprometida com o trabalho… Trabalho em equipe, não sou só eu o vilão. (Marco)

Não pude ver meus filhos por causa da IVO [medida protetiva civil]. Mas eu nunca fiz nada de errado perto das crianças. Com [a parceira] é outra história. Ela também está no programa [KST], mas pode ver as crianças. (Joshua)

Outros homens estavam mais aptos a reconhecer seu papel na reparação da relação e o impacto que seu comportamento podia ter, graças ao programa. A palavra “respeito” foi mencionada por três dos cinco homens entrevistados.

Em vez de provocar emoções negativas, respeitar um pouco mais um ao outro e ser mais reflexivo. (Jalal)

Tema emergente: manejo do comportamento

Embora os homens entrevistados não estivessem dispostos a assumir plena responsabilidade por seus atos, a maioria reconhecia que seu comportamento podia melhorar. Apenas um dos entrevistados culpava inteiramente a parceira ou ex-parceira por seu comportamento. Mesmo quando negavam a extensão de sua responsabilidade, os homens em geral conseguiam reconhecer a necessidade de melhorar o comportamento e lidar melhor com as emoções.

Saem [coisas] boas do programa. Se não fosse isso, eu teria descumprido a medida [protetiva]… Aprendi [umas coisas] ali. (Joshua)

Menos preocupado com a minha posição na conversa, e pensar na posição da outra pessoa… Mais empatia com as emoções da outra pessoa, em vez de querer ter razão. (Jalal)

Graças ao programa KST, alguns homens descreveram estratégias de enfrentamento a que agora conseguiam recorrer em situações nas quais antes poderiam ter usado violência.

Aprendi a sair de perto em mais situações, em vez de quebrar coisas como eu fazia. (Joshua)

[A pessoa que me acompanhava] tinha me mostrado as etapas da escalada de uma discordância e me ensinou a parar antes que o conflito se agrave, e a ter consciência das consequências. (Marco)

Um homem, que tinha se separado da parceira, continuava comprometido a frequentar o KST por causa do efeito do programa sobre suas habilidades de enfrentamento. Ele refletiu que continuar participando “vai me beneficiar e vai beneficiar os outros com quem eu tenho desavenças” e que ele tem “novas habilidades e estratégias de enfrentamento para o futuro” (Sam).

Apesar de terem aprendido a lidar melhor com as situações em geral, os homens ainda tinham dificuldade de manter a constância em diferentes contextos, sobretudo quando havia uso de álcool e outras drogas. Como contou um participante: “Aprendi técnicas novas para desarmar a situação, mas quando tem álcool no meio, não consigo pegar o jeito” (Sam).

Tema emergente: apoio ao programa

Todos os homens deram retornos positivos sobre a equipe do KST que os acompanhava. Sentiam-se à vontade para conversar com as pessoas responsáveis por seus casos e, em geral, sentiam-se “ouvidos”. Isso era importante para que continuassem participando, mesmo quando já não estavam com as parceiras. Alguns contaram que hesitaram no início, esperando que o programa fosse “contra eles”. Esse desconforto logo foi dissipado pela equipe, que trabalhava com eles, e não contra eles.

Muito incentivo para compartilhar os pensamentos… Não ser criticado. Deixa a gente à vontade. Alguém que escuta, alguém que se importa. (Marco)

Continuar participando vai me beneficiar e vai beneficiar os outros com quem eu tenho desavenças. Novas habilidades e estratégias de enfrentamento para o futuro. (Sam)

Eu estaria bem desesperado sem isso, sem saber o que fazer. Provavelmente faria terapia, mas sem estar 100% à vontade para [isso]. (Jalal)

Um participante era especialmente grato pelas sessões individuais. Ele tinha frequentado outro programa voltado a homens que usam violência e são pais (Caring Dads), mas não se sentia capaz de falar nas sessões em grupo. As sessões individuais do KST ofereciam um ambiente seguro para que expressasse seus sentimentos e pensamentos, ao passo que antes ele “guardava [as coisas] até o ponto de explodir” (Joshua).

Tema emergente: parentalidade

Como a maioria das mães, os pais raramente falavam do impacto do programa sobre os filhos ou sobre a própria prática parental. Alguns demonstravam consciência de comportamentos problemáticos em relação aos filhos, mas não conseguiam pôr em prática alternativas adequadas. Mencionavam com frequência a aprendizagem de uma prática segura: evitar o confronto.

Parece que eu não faço nada certo. Melhor não fazer nada [não disciplinar] do que fazer errado. (Jalal)

Muitos pais estavam focados no impacto do programa sobre a parentalidade da parceira ou ex-parceira.

Ela [agora] reserva um tempo para explicar a eles por que determinado comportamento é ruim, em vez de só dizer para não fazerem as coisas. (Jalal)

No geral, os homens estavam mais centrados em si mesmos e em sua relação com a parceira ou ex-parceira, e raramente mencionavam os filhos. Em comparação, as mulheres tinham uma consciência muito mais aguda dos filhos e dos impactos da violência sobre eles.

Discussão

O programa KST foi um piloto inovador que supriu uma importante lacuna de apoio para famílias que viviam violência doméstica e que não desejavam ou não podiam se separar. Os resultados da avaliação mostraram que, para esse grupo de participantes, o balanço geral foi positivo, embora reforce a necessidade de apoio prolongado para favorecer a segurança e a mudança de comportamento no longo prazo.

As mulheres relataram mais segurança graças ao programa. Em alguns casos, essa segurança maior foi atribuída à mudança de comportamento dos homens; em outros, resultou do maior letramento das mulheres em violência doméstica e do planejamento de segurança. As mulheres se sentiram validadas em suas experiências, passaram a compreender melhor o que é uma relação saudável e ficaram mais bem informadas para tomar decisões sobre suas relações. Também melhoraram a comunicação com os filhos.

No entanto, poucas mulheres e poucos homens viam o programa KST sobretudo como um meio de melhorar a vida dos filhos. Aos olhos dessas pessoas, esse era um benefício secundário ou incidental do programa. Os homens, em particular, estavam centrados em si mesmos e em suas relações adultas, raramente mencionavam os filhos e sabiam pouco se o envolvimento com o KST tinha afetado as crianças. A pesquisa mostra de forma consistente que homens violentos muitas vezes não reconhecem o impacto que a violência contra a parceira tem sobre os filhos (Alderson et al., 2013; Harne, 2005, 2011; O’Connor et al., 2022), e essa tendência parece presente entre os homens atendidos no KST. Futuros programas com abordagem “toda a família” poderiam se beneficiar de um foco maior no apoio às capacidades parentais e de colocar o bem-estar das crianças no centro dos objetivos de mudança de comportamento. Uma estratégia seria os pais do programa se encontrarem diretamente com a pessoa responsável pelo acompanhamento das crianças, sem a presença da criança e se for seguro. Os pais talvez compreendessem melhor o impacto da violência sobre as crianças ouvindo alguém que trabalha diretamente com seu filho ou seus filhos. Talvez também haja aprendizados a tirar do programa Walking with Dads, de Queensland, que também adotou uma abordagem “toda a família” e centrou o programa no apoio aos homens para que reconhecessem e mudassem comportamentos nocivos no contexto da parentalidade (Meyer et al., 2019).

As mães também se beneficiariam de elementos mais focados na parentalidade e nos impactos da violência doméstica sobre as crianças. As entrevistas sugerem, porém, que era difícil se concentrar na narrativa das crianças quando a situação dos pais exige tanta atenção. Como a violência do pai é a causa da violência e da desorganização do lar, as mães podem priorizar essas questões. A relação mãe-filho, fator de proteção fundamental para crianças pequenas, é muitas vezes atacada e minada diretamente pelos autores da violência (Kertesz et al., 2021). Além dos impactos importantes que isso pode ter sobre a saúde mental e física e a autoestima da mãe e da criança, também pode interferir nos processos de apego (Katz, 2019). É possível que as mães do programa KST tenham sofrido esse enfraquecimento e esses ataques à relação com os filhos, o que pode estar afetando sua capacidade e sua confiança no papel de mãe. Como os pais, as mães também poderiam se beneficiar de encontros com a pessoa responsável pelo acompanhamento das crianças, bem como de mais sessões individuais dedicadas exclusivamente à relação mãe-filho e às dificuldades parentais. Comunicar às mães o impacto da violência doméstica sobre os filhos e reorientar seus objetivos no programa para a segurança e o bem-estar das crianças pode ser mais proveitoso, já que elas são alvos, e não autoras, da violência. No trabalho com as mães, o desafio adicional é comunicar o impacto da violência sobre as crianças sem sugerir que elas têm culpa ou que suas capacidades parentais estão sendo postas em xeque, o que reproduziria um discurso de “falha em proteger” (Buchanan & Moulding, 2021; Nixon et al., 2017).

É fundamental enfatizar o caráter centrado na criança do programa, em razão dos impactos graves e potencialmente duradouros de crescer em um lar violento. No curto prazo, o trauma da violência pode afetar vários domínios de funcionamento, provocando ou agravando diversos transtornos mentais, dificuldades de desenvolvimento e prejuízos em processos biológicos (Asiedu & Baliki, 2025; Margolin & Vickerman, 2007). Sem apoio adequado, esses impactos da violência podem se agravar e causar mais sofrimento às crianças e dificuldades mais adiante na vida (Taylor, 2019; Vu et al., 2016). Além da psicoeducação sobre essas questões, o programa poderia se beneficiar de vínculos com profissional de psicologia clínica infantil com experiência em violência doméstica, para quem as famílias pudessem ser encaminhadas. Isso ajudaria a garantir que as crianças fossem diagnosticadas com precisão e cedo, e recebessem o apoio de que precisam.

No geral, os homens tiveram opiniões divididas sobre o impacto do programa para si mesmos. O resultado mais promissor entre eles foi uma maior percepção e compreensão do que constitui comportamento nocivo. Eles mencionaram a capacidade de falar disso com a família, com as parceiras ou ex-parceiras e com os filhos, e alguns desenvolveram habilidades para manejar sua reação aos gatilhos de seu comportamento abusivo. Avaliações de outros programas centrados na família e na parentalidade obtiveram resultados semelhantes: uma análise triangulada dos programas Caring Dads em Melbourne, na Austrália, mostrou que eles tiveram impacto positivo na capacidade dos homens de manejar suas reações exageradas nas relações conjugais e parentais (Diemer et al., 2020). Os programas Caring Dads, porém, pareciam ter mais êxito em usar a relação pai-filho como motivação para a mudança. Mais uma vez, acrescentar componentes mais formalizados sobre os impactos da violência doméstica nas crianças, desenvolver habilidades parentais e centrar a experiência das crianças são aspectos em que o programa KST poderia se concentrar em versões futuras.

Outro resultado positivo foi que, embora alguns homens continuassem resistentes a assumir a responsabilidade pela violência ou falassem negativamente do programa, todos estavam engajados e pretendiam continuar. A escolha de continuar abre espaço para benefícios contínuos e potenciais. Trata-se de uma conquista notável, pois as intervenções com homens/pais costumam ter altas taxas de abandono, seja a participação voluntária ou determinada judicialmente (Daly & Pelowski, 2000; Fitz-Gibbon et al., 2024; Olver et al., 2011).

O formato do apoio do KST foi um dos principais fatores de motivação dos homens. Todos tinham uma visão positiva da equipe do KST e, combinada ao formato individual, sentiam-se à vontade para falar e, em geral, sentiam-se ouvidos. Esses elementos eram importantes para a continuidade do engajamento. Os retornos positivos de homens e mulheres do programa sobre a capacidade da equipe do KST de criar vínculo com os homens, mantendo a prática de responsabilizá-los por seu comportamento, sugerem que o programa não era conivente, crítica feita a alguns outros programas (Costello, 2006; Reimer, 2020). Isso também indica que, diferentemente de algumas intervenções “toda a família” anteriores (Stanley & Humphreys, 2017), a equipe tinha as competências, a experiência e a segurança adequadas para trabalhar com homens que usam violência em um contexto “toda a família”. Além disso, a força do vínculo entre os homens e a equipe que os acompanhava pode ajudar a superar sentimentos desmobilizadores de vergonha, reduzindo o risco de desengajamento (Fitz-Gibbon et al., 2024). Para quem se desengaja, um procedimento formal de retomada de contato pode incentivar ativamente os homens a voltar às sessões.

Também é importante destacar que alguns homens engajados no programa, sobretudo os que estavam no início, às vezes culpavam as (ex-)parceiras por “levá-los” a comportamentos abusivos. No momento da entrevista, os homens estavam no programa havia no mínimo 20 semanas. Embora esse seja um prazo muito curto para mudar conhecimentos, consciência e modos de pensar, 20 semanas é a duração padrão de um programa de mudança de comportamento para homens na Austrália (No To Violence [NTV], 2024). O fato de alguns homens continuarem culpando as (ex-)parceiras pelo próprio comportamento abusivo reforça a necessidade de programas contínuos e prolongados para apoiar mudanças duradouras de atitude e de comportamento, como o KST foi pensado para oferecer.

Algumas mulheres também relataram que, embora tivessem se sentido mais seguras perto do parceiro ou ex-parceiro no início da participação no KST, acreditavam que a mudança era temporária. Isso também reflete a necessidade de processos que apoiem a mudança duradoura de pensamento, atitudes e comportamento. A força do modelo “toda a família” é permitir que cada pessoa continue participando individualmente ou em família, ao contrário de outros MBCP, em que o acesso das mulheres ao serviço costuma depender da continuidade da participação dos homens no programa (Smith et al., 2014). Essa flexibilidade poderia, portanto, ir além, incluindo a possibilidade de as pessoas atendidas voltarem quando as circunstâncias mudam ou quando velhos comportamentos reaparecem.

A impossibilidade de mudar as atitudes e o comportamento de alguns homens revela o desafio que muitos programas de mudança de comportamento enfrentam. Em razão do caráter legal das vias de encaminhamento, isto é, a proteção à infância e os tribunais, algumas pessoas não frequentavam o KST voluntariamente. Esses homens podem estar menos motivados por um desejo genuíno de mudar de comportamento do que por registrar presença. Isso pode resultar em falta de compromisso com a aprendizagem e, em alguns casos, levar ao desengajamento precoce. Alguma motivação para a mudança pode surgir nos homens quando começam a frequentar as sessões, mas isso não acontecerá com todos. O tipo de motivação em que os autores de violência se apoiam ao frequentar programas de mudança de comportamento pode influenciar consideravelmente os resultados (McGinn et al., 2017). A implicação para as equipes dessa área pode ser explorar mais as motivações dos homens para participar, a fim de reorientá-las de “funcionais” (por exemplo, registrar presença ou porque a parceira ameaçou ir embora) para “existenciais” (por exemplo, porque é a coisa certa a fazer, para se sentir melhor com quem se é) (McGinn et al., 2017).

Um aspecto singular do programa KST foi ter acabado por atender famílias com nível de risco mais alto do que o previsto. Outros programas centrados na família, como o britânico Steps to Safety, excluem casais para os quais o trabalho de casal pode ser inadequado (McConnell et al., 2020): quando os pais estão emocionalmente desregulados, quando há níveis graves de controle ou quando a violência tende a se agravar (McConnell et al., 2020). Por causa das vias de encaminhamento ao KST, a equipe optou, ao contrário, por modificar o programa para estender o apoio a famílias de risco mais alto. Embora isso tenha trazido dificuldades, e algumas falhas do programa possam ser atribuídas ao fato de as famílias apresentarem risco mais alto, mostra que esses riscos podem ser manejados de forma eficaz em um programa “toda a família”.

Os resultados mostraram que alguns homens tinham dificuldade de manter a constância diante de fatores de estresse, sobretudo quando havia uso de álcool e outras drogas, uma questão que outros programas para homens que usam violência começam a abordar (Kertesz et al., 2022; Stover, 2015). Embora não se conheça a prevalência de uso nocivo de álcool e outras drogas entre as pessoas entrevistadas, os dados administrativos do programa KST como um todo mostram que 27% dos homens engajados no programa se declaravam “afetados por uma droga que causa dependência (incluindo álcool)”. O apoio em álcool e outras drogas estava fora do escopo do programa KST, e as pessoas eram encaminhadas a serviços externos. No entanto, como essas questões podem estar interligadas e reforçar o uso de violência pelos homens (Our Watch et al., 2015), futuras intervenções “toda a família” podem buscar integrar apoio especializado em álcool e outras drogas.

Outra frente possível de desenvolvimento dos programas “toda a família” é a inclusão das redes familiares mais amplas. O programa KST se concentrava nos casais e nas crianças. No entanto, outros membros da família podem ter papéis de apoio para favorecer a segurança e responsabilizar os homens por seu comportamento. Isso pode ser especialmente pertinente para famílias que vivem em lares multigeracionais. Se os riscos ligados à inclusão de outros membros da família forem manejados, isso também poderia evitar o isolamento das vítimas-sobreviventes e seu afastamento das comunidades sociais e culturais.

Por fim, um aspecto importante do programa a considerar é sua eficácia e adequação no trabalho com comunidades diversas. Apenas um pequeno número de participantes desta pesquisa se identificou como CALD, e nenhuma pessoa como aborígene. No entanto, pela análise dos dados administrativos, a equipe de pesquisa sabe que a maioria das pessoas atendidas no programa KST como um todo tem origens diversas (Spiteri-Staines et al., 2019). Como destacado no contexto deste artigo, os programas “toda a família” podem ser particularmente importantes para atender comunidades culturais em que experiências interseccionais afetam a escolha ou a possibilidade de as mulheres deixarem uma relação violenta. Pode haver questões como situação de visto precária (Humphreys & Campo, 2017) ou o desejo de permanecer ligadas a terras e comunidades culturais (Meyer & Stambe, 2020; Murray, 2008). Nessas famílias, buscar apoio “juntos” diante da violência pode ser a opção mais adequada, realista e segura para preservar o bem-estar individual e coletivo. Foi lamentável não ter sido possível entrevistar mais participantes CALD e aborígenes do programa, o que é reconhecido como uma limitação da capacidade de identificar que mudanças poderiam atender melhor às necessidades de famílias e pessoas diversas. Por exemplo, se haveria vantagens em fazer uma correspondência cultural entre as pessoas atendidas e a equipe (Sawrikar, 2013), a necessidade de mais formação para capacitar a equipe a trabalhar com diferentes grupos culturais e linguísticos (Pokharel et al., 2023) ou a incorporação de elementos de prática que partam dos próprios valores e sistemas culturais das pessoas atendidas, incluindo a colaboração com lideranças comunitárias ou religiosas e Anciãos (Morgan et al., 2022; Vaughan et al., 2020). São necessárias, portanto, mais pesquisas sobre se as intervenções “toda a família” conseguem atender especificamente às necessidades de comunidades diversas.

Este estudo tem outras limitações que devem ser apontadas. Primeiro, como a avaliação foi encomendada nos seis últimos meses de financiamento do programa, não foi possível coletar dados de entrevista iniciais. Segundo, o programa era um piloto e o tamanho da amostra era naturalmente limitado, o que também limita a generalização dos resultados. Novas pesquisas sobre programas semelhantes, com uma amostra maior e mais diversa, abrangendo um amplo leque de perfis demográficos e localizações geográficas, trariam experiências mais detalhadas e revelariam novas tendências ou confirmariam as observadas. Terceiro, os dados foram coletados nos últimos meses de financiamento do programa. A análise poderia ser fortalecida por um estudo de seguimento com as mesmas pessoas, para medir o impacto do programa de seis meses a dois anos após a participação. Isso ajudaria a saber se as mudanças positivas apontadas pelas pessoas participantes se mantiveram por mais tempo.

Por fim, embora algumas pessoas participantes tenham podido fazer sessões de casal, o componente de terapia familiar do programa geral não pôde ser avaliado, porque as pessoas entrevistadas não preenchiam os critérios. Esse componente foi pensado como um elemento opcional, para situações em que os dois parceiros desejassem terapia familiar e em que isso fosse considerado seguro. Algumas famílias do programa KST puderam participar de sessões familiares que incluíam as crianças. Infelizmente, nenhuma dessas pessoas consentiu em ser entrevistada, e por isso não há informações sobre sua experiência com esse componente. A impossibilidade de avaliar esse aspecto do programa é reconhecida como uma limitação da pesquisa e mostra como é difícil chegar a essa etapa com segurança. Esse elemento exigiria monitoramento cuidadoso se fosse introduzido em algum programa futuro.

Conclusão

Os programas “toda a família” em violência doméstica são um método de intervenção alternativo e ainda pouco pesquisado. Este estudo traz novas evidências de que um desses programas, o KST, pode produzir resultados positivos, aumentando a segurança de mulheres e crianças e apoiando a mudança de comportamento dos homens enquanto as famílias mantêm contato frequente. Embora sejam necessárias melhorias no programa, a saber, mais atenção à experiência das crianças, deslocar a motivação dos homens para participar da reparação da relação para a redução de danos, e períodos de participação mais longos ou flexíveis, os benefícios para as famílias foram claramente expressos pelas pessoas entrevistadas. Mesmo considerando a curta duração do piloto do KST e o pequeno tamanho da amostra, este estudo indica o valor de continuar explorando programas “toda a família” como o KST.

Complexe Systémique: a reter

O interesse desta avaliação é levar a sério uma realidade que os serviços separados deixam de lado: muitas mulheres permanecem com um parceiro violento, ou em contato próximo com ele, por escolha, por imposição ou porque sair não as protege. O KST responde acompanhando cada membro da família separadamente, sob uma coordenação comum, e só propõe sessões conjuntas depois de garantida a segurança. Para a clínica sistêmica, a lição é dupla. De um lado, um enquadre familiar pode coexistir com a responsabilização: as mulheres ganham segurança, clareza e rede de apoio, e a equipe não se mostra conivente. De outro, os limites são nítidos: os homens muitas vezes esperam uma terapia de casal que repare a relação em vez de fazer cessar a violência, alguns ainda culpam a parceira, e as crianças ficam na periferia do relato dos dois pais. O componente de terapia familiar não pôde ser avaliado, e a amostra é muito pequena. Trabalhar com toda a família não dispensa, portanto, a avaliação contínua do risco nem um lugar explícito para as crianças. Para ler junto com o estudo sobre o duplo percurso rumo à terapia de casal focada na violência e com o artigo sobre como homens em tratamento por violência por parceiro íntimo vivenciam a parentalidade.

Notas do original

Agradecimentos. A pesquisa e este artigo foram preparados por membros da equipe de pesquisa da Universidade de Melbourne. A equipe agradece o apoio da Women’s Health West e a disposição das pessoas participantes do programa em colaborar com esta pesquisa importante.

Considerações éticas. A aprovação ética foi obtida junto à Universidade de Melbourne [identificador ético 1853008.1].

Consentimento para participar. O consentimento informado de todas as pessoas participantes foi obtido. Qualquer informação identificadora foi removida antes da publicação.

Contribuições. Anneliese Spiteri-Staines, Kristin Diemer e Cathy Humphreys conceberam e supervisionaram o estudo. As entrevistas foram realizadas por Kristin Diemer e Anneliese Spiteri-Staines. Toda a equipe contribuiu para a análise dos dados e a redação do manuscrito, e revisou, aprimorou e aprovou a versão final submetida.

Financiamento. A equipe de pesquisa recebeu o seguinte apoio financeiro para a pesquisa, a autoria e/ou a publicação deste artigo: agradece à Women’s Health West pelo financiamento desta avaliação.

Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver potenciais conflitos de interesse em relação à pesquisa, à autoria e/ou à publicação deste artigo.

Disponibilidade de dados. Os dados que sustentam as conclusões deste artigo serão disponibilizados pela equipe de pesquisa, sem reservas indevidas.

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Tradução não oficial em português de Keeping Safe Together: a experiência de homens e mulheres em um programa-piloto de intervenção “toda a família” contra a violência doméstica em Melbourne, na Austrália, de Kristin Diemer, Anneliese Spiteri-Staines, Kate Hammond e Cathy Humphreys, Violence Against Women, vol. 32, no 10 (2026), doi: 10.1177/10778012251366244, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Keeping Safe Together: Exploring Men and Women's Experiences of a Pilot “All of Family” Domestic Violence Intervention Program in Melbourne, Australia”, publicado em Violence Against Women (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Diemer, K., Spiteri-Staines, A., Hammond, K., et Humphreys, C. (2026). Keeping Safe Together: a experiência de homens e mulheres em um programa-piloto de intervenção “toda a família” contra a violência doméstica em Melbourne, na Austrália (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/keeping-safe-together-a-experiencia-de-homens-e-mulheres-em-um-programa-piloto (Obra original publicada em 2025 em Violence Against Women, 32(10), 3358-3383 (2026); republicada em 2026 por Violence Against Women, https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/10778012251366244)

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