Family Relations · Família
Estar presente, incentivar o sucesso, dar autonomia: como mães e pais de adolescentes vivem as normas da parentalidade intensiva e como dividem a tarefa? Ao entrevistar separadamente as duas pessoas de seis casais da Suíça francófona, a equipe de Gaëlle Venard evidencia uma “complementaridade” que muitas vezes deixa a carga mental com as mães.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Normas parentais contemporâneas e coordenação coparental: explorando narrativas de mães e pais de adolescentes, de Gaëlle Venard, Elli-Anastasia Lamprianidou, Cindy Eira Nunes, Maria del Rio Carral, Stijn Van Petegem e Grégoire Zimmermann, publicado na Family Relations (Wiley) (2026), doi: 10.1111/fare.70075, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela é apresentada em forma de lista. As falas de mães e pais, colhidas em francês e publicadas em inglês, foram traduzidas aqui a partir do inglês. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
As pessoas participantes muitas vezes priorizavam o ideal do trabalho em equipe em detrimento das preocupações com a justiça na divisão das tarefas, o que sugere uma internalização das normas de gênero relativas aos papéis e às responsabilidades parentais.
Gaëlle Venard, Elli-Anastasia Lamprianidou, Cindy Eira Nunes, Maria del Rio Carral, Stijn Van Petegem e Grégoire Zimmermann
Resumo
Objetivo. Este estudo examinou como mães e pais de adolescentes dão sentido à sua parentalidade à luz das normas contemporâneas e que significados atribuem à sua coordenação coparental.
Contexto. As expectativas contemporâneas sobre a parentalidade enfatizam o atendimento das necessidades emocionais e físicas das crianças e costumam ser orientadas por conselhos de especialistas e por recomendações veiculadas pela mídia. Na adolescência, essas normas também podem entrar em conflito com a necessidade de autonomia própria dessa fase do desenvolvimento, criando possíveis tensões na relação com a criança e na coordenação coparental. Além disso, elas podem afetar mães e pais de maneira diferente, em razão dos papéis de gênero predominantes, o que influencia a forma como se coordenam e dividem responsabilidades na relação coparental.
Método. Foram realizadas doze entrevistas individuais com mães e pais de adolescentes (seis casais), analisadas por meio de análise temática reflexiva, num referencial socioconstrutivista.
Resultados. Foram produzidos três temas principais: “adesão às expectativas sociais sobre os papéis parentais”, “a evolução do vínculo entre figuras parentais e adolescentes” e “trabalho em equipe com marca de gênero?”. Enquanto o primeiro e o segundo temas dizem respeito à maneira como as famílias dão sentido à parentalidade contemporânea, o terceiro tem mais a ver com a coordenação dentro do casal.
Conclusão. Mães e pais adotam as normas da parentalidade intensiva ao mesmo tempo que se esforçam para respeitar a autonomia de adolescentes. A coordenação na relação coparental tende a refletir papéis complementares, e não iguais, o que pode trazer desafios, sobretudo para as mães. Apesar dessas dinâmicas, as duas figuras parentais aspiram a funcionar como uma equipe coesa.
Implicações. Este estudo lança luz sobre como fatores macrossociais, incluindo as normas prescritivas de parentalidade e as normas de gênero, moldam as práticas coparentais na adolescência. Oferece também subsídios para que a clínica considere melhor as necessidades e as expectativas próprias de cada gênero na relação coparental.
Desde meados da década de 1970, a noção de “parentalidade” deixou de ser vista como intuitiva e instintiva e passou a ser entendida como uma responsabilidade que exige orientação especializada (Faircloth, 2023; Lee et al., 2024). Na sociedade ocidental contemporânea, espera-se cada vez mais que mães e pais atendam a todas as necessidades emocionais e físicas das crianças, seguindo de perto as recomendações de especialistas (Lee et al., 2024). Essas expectativas são reforçadas e perpetuadas por diversas mídias (por exemplo, Miller, 2018). Esse ideal dominante de parentalidade é amplamente considerado a maneira “correta” de criar os filhos (Faircloth, 2023). Apesar do amplo reconhecimento de que esses ideais podem ser irrealistas, inalcançáveis e até prejudiciais, o modelo da parentalidade intensiva continua a ter papel central na forma como mães e pais constroem suas identidades, valores e práticas (Faircloth, 2021). Nesse contexto, também proliferaram os conselhos às famílias sobre o desenvolvimento, o desempenho e a segurança de adolescentes (Darling e Steinberg, 2017; Lee, 2023). No entanto, há uma falta significativa de pesquisas qualitativas sobre como mães e pais de adolescentes dão sentido ao seu papel e sobre as expectativas e normas em torno das práticas parentais que podem entrar em conflito com a necessidade de autonomia de adolescentes. Além disso, como a coordenação entre as figuras parentais pode moldar de forma significativa os comportamentos parentais (Feinberg et al., 2007), parece crucial examinar como essas normas de parentalidade são adotadas na relação coparental. Este estudo busca explorar as perspectivas de quem exerce a coparentalidade, reconhecendo que a parentalidade é uma experiência compartilhada e que as dinâmicas coparentais merecem exame atento (Eisikovits e Koren, 2010). Ao examinar como mães e pais dão sentido às suas experiências de parentalidade e coparentalidade na adolescência e as constroem, buscamos aprofundar a compreensão de como as práticas parentais são coloridas por fatores macrossociais, incluindo normas prescritivas de parentalidade e expectativas de gênero associadas à parentalidade.
A adolescência é uma fase do desenvolvimento marcada por desafios específicos tanto para adolescentes quanto para suas famílias (Smetana e Rote, 2019). Esse período se define por um desejo crescente de independência e autonomia (Smetana e Rote, 2019; Smetana et al., 2015). De fato, o desenvolvimento da autonomia se torna uma tarefa central nessa etapa, pois adolescentes começam a passar mais tempo fora de casa e mostram uma inclinação mais forte para a experimentação e a exploração de diferentes alternativas identitárias (Smetana e Rote, 2019; Smetana et al., 2015; Zimmer-Gembeck et al., 2018; Zimmermann et al., 2017). Ainda assim, embora a influência dos pares se torne cada vez mais importante na adolescência (Rageliene, 2016), muitos trabalhos destacam que mães e pais continuam a ter papel crucial, oferecendo apoio ao longo desse período do desenvolvimento (Pinquart, 2017; Smetana e Rote, 2019; Zimmermann et al., 2017). O principal desafio para as famílias é, então, equilibrar o envolvimento na vida de quem está na adolescência para promover um desenvolvimento saudável, deixando ao mesmo tempo o espaço necessário para o crescimento independente (Smetana e Rote, 2019; Van Petegem et al., 2013).
No entanto, alcançar esse equilíbrio pode ser especialmente difícil diante das normas contemporâneas de parentalidade, que muitas vezes exigem alto envolvimento emocional, físico e financeiro (Lee et al., 2024). A literatura sociológica chama essa abordagem de “parentalidade intensiva”, que exige das famílias esforços consideráveis para garantir o sucesso futuro das crianças (Hays, 1996; Lee et al., 2024). A parentalidade intensiva implica centrar-se muito na criança e ampliar seu capital social por meio de atividades extracurriculares enriquecedoras (Lareau, 2018), além de se dedicar à “preservação do status” (por exemplo, com grande investimento na escolaridade), para ajudar a criança a alcançar uma posição social igual ou superior à de suas figuras parentais (Milkie e Warner, 2014, p. 3). Ela se baseia na crença de que o futuro das crianças depende do que as famílias investem (Martin e Leloup, 2020). Essas normas, muitas vezes inalcançáveis, são reforçadas por especialistas e também pela mídia tradicional e por redes sociais como o Instagram e fóruns on-line (Scheibling e Milkie, 2023). Nesse contexto, mães e pais costumam sentir a pressão de se conformar a esses padrões para serem vistos como uma “boa mãe” ou um “bom pai” (Hays, 1996; Wall, 2010).
Essas normas, porém, podem sair pela culatra e promover mais formas negativas do que positivas de envolvimento. De fato, pesquisas anteriores com mães e pais de adolescentes sugerem que a adesão a esses ideais e a pressão social para ser uma figura parental perfeita estão associadas à parentalidade superprotetora, que consiste em oferecer mais proteção do que exige o estágio de desenvolvimento de quem está na adolescência (Thomasgard et al., 1995), e à parentalidade controladora, que consiste em pressionar e invadir o espaço emocional e psicológico de adolescentes, induzindo ansiedade e culpa para obter obediência (Lamprianidou, Eira Nunes, et al., 2025; Venard et al., 2024). Isso levanta a questão de como essas normas se manifestam no dia a dia das famílias, que buscam lidar com as exigências de uma parentalidade intensiva que pede alto envolvimento parental, o que pode estar em desacordo com as necessidades de desenvolvimento de adolescentes que buscam mais independência em relação às figuras parentais.
Além disso, essas expectativas parentais diferem para mães e pais, e a dimensão de gênero é especialmente evidente na noção original de “maternidade intensiva” (Hays, 1996). Uma ideologia de parentalidade intensiva costuma vir acompanhada de uma concepção essencialista da parentalidade, na qual as mães são vistas como naturalmente mais aptas do que os pais para a criação dos filhos (Forbes et al., 2020). Assim, as normas da parentalidade intensiva e as expectativas associadas pesam de forma desproporcional sobre as mães, que continuam a ser consideradas a figura parental “naturalmente” mais capaz (Hays, 1996; Ennis, 2014). A pesquisa mostrou amplamente que a parentalidade intensiva está fortemente ligada às mães, mobilizando suas emoções e inseguranças quanto ao papel parental (Verniers et al., 2022; Wall, 2010). Em geral, as mães são mais cobradas do que os pais por acompanhar e aprimorar o desenvolvimento emocional e cognitivo das crianças, por meio de tarefas de cuidado adicionais (Wall, 2010). Em suas análises comparativas de publicações de mommy bloggers e dad bloggers de grande audiência nos Estados Unidos e no Canadá, Scheibling e Milkie (2023) mostraram que garantir o sucesso das crianças por meio da educação e das atividades extracurriculares continua a ser visto sobretudo como um dever materno. Como resultado, as mães tendem a passar mais tempo com filhas e filhos adolescentes (Mastrotheodoros et al., 2019; Phares et al., 2009) e a sentir uma pressão maior para encarnar o ideal da “mãe perfeita” nesse período do desenvolvimento (Venard et al., 2024).
Embora os pais sejam cada vez mais incentivados a assumir papéis de cuidado e a passar mais tempo cuidando diretamente dos filhos (Dermott, 2008; Harrington, 2011; McGill, 2014), eles podem enfrentar outros tipos de pressão. Tradicionalmente, esperava-se que fossem o chefe da família, o principal tomador de decisões e a figura disciplinadora encarregada de estabelecer regras e impor obediência (Summers et al., 1999). Shirani et al. (2012) observaram que, embora os pais em geral enfrentem menos pressão social do que as mães e se envolvam mais nos aspectos lúdicos da parentalidade, eles vivem um estresse considerável ligado ao papel de provedores, visto como um aspecto central da responsabilidade paterna. Nessa linha, resultados recentes de Lamprianidou, Eira Nunes, et al. (2025) sugerem que a paternidade hoje envolve lidar com expectativas sociais múltiplas e às vezes conflitantes. Usando uma abordagem centrada na pessoa, essa equipe identificou um grande grupo de pais (65,1%) que mostravam sensibilidade moderada às normas da parentalidade intensiva. Mas também identificou um perfil específico de pais (quase 25% da amostra), caracterizado por forte adesão tanto à parentalidade intensiva quanto a crenças essencialistas. Os pais desse perfil apresentavam níveis mais altos de envolvimento inadequado, incluindo parentalidade superprotetora e controladora. Esse resultado pode refletir as mensagens contraditórias dirigidas aos pais nas sociedades ocidentais, que promovem ao mesmo tempo o ideal do “novo pai”, envolvido e centrado na criança, e mantêm a expectativa tradicional do pai como principal provedor (Kangas et al., 2019).
Consequentemente, mães e pais se deparam com culturas parentais que acentuam as distinções de gênero nos papéis e nas práticas parentais (Eira Nunes et al., 2025). Enquanto das mães se espera socialmente que assumam a responsabilidade principal pelo desenvolvimento escolar e socioemocional dos filhos, os pais tendem a ser vistos como figuras de apoio, cujo envolvimento parental se mede por contribuições financeiras ou tempo de qualidade, e não como igualmente responsáveis pelo trabalho cotidiano de cuidado (Brugeilles e Sebille, 2015; Le Moal, 2024; Scheibling e Milkie, 2023; Shirani et al., 2012). Até onde sabemos, ainda não foi estudado como os casais lidam com as normas da parentalidade intensiva e com as expectativas de gênero na relação parental durante a adolescência. Este estudo busca, portanto, explorar como mães e pais de adolescentes podem internalizar esses padrões e dar sentido às suas práticas, e como esses papéis e expectativas são negociados na relação coparental.
De uma perspectiva sistêmica, a relação coparental constitui uma dinâmica relacional própria, que deve ser distinguida do envolvimento de cada figura parental em práticas parentais específicas. Essa relação coparental também é moldada por normas de gênero internalizadas e por crenças compartilhadas sobre os papéis parentais (Minuchin, 1974). A coparentalidade é definida como a “atividade compartilhada realizada pelos adultos responsáveis pelo cuidado e pela criação das crianças” (McHale e Irace, 2011, p. 16). Feinberg et al. (2012) identificaram cinco domínios interligados da coparentalidade: (a) o acordo sobre a criação, que envolve alinhar as visões parentais sobre disciplina, expectativas, moral e necessidades emocionais; (b) o apoio coparental, que inclui a afirmação mútua das capacidades parentais e a tomada de decisão conjunta, ao passo que o boicote coparental envolve crítica e culpabilização; (c) a divisão do trabalho, que trata da distribuição das tarefas cotidianas de criação; (d) a gestão conjunta, que se concentra no estabelecimento de normas, explícitas ou implícitas, para as interações familiares; e (e) a proximidade coparental, que mede o grau em que a coparentalidade aumentou a intimidade e fortaleceu a relação do casal. Muitas pesquisas mostraram que a qualidade da relação coparental prediz as práticas parentais e o desenvolvimento infantil (Bonds e Gondoli, 2007; Carlson e Högnäs, 2011). Especificamente na adolescência, pesquisas anteriores mostraram que a tomada de decisão compartilhada e o envolvimento parental conjunto podem proteger adolescentes de comportamentos de risco (Riina e McHale, 2014). Além disso, a cooperação coparental favorece uma parentalidade que apoia a autonomia, o que, em última análise, incentiva uma formação identitária saudável na adolescência (Albert Sznitman et al., 2019). Por outro lado, as pesquisas mostraram que uma relação coparental pouco satisfatória, marcada por conflito ou triangulação, pode prejudicar a qualidade da parentalidade. Nesses casos, em que uma das figuras parentais envolve a criança nas tensões com a outra, adolescentes ficam mais sujeitos a dificuldades de ajustamento psicossocial (Zimmermann et al., 2022).
Como mencionado, tanto as práticas parentais quanto as coparentais vão além da relação entre as figuras parentais, sendo fortemente moldadas pelas expectativas sociais e pelas normas culturais (Minuchin, 1974). Embora essas normas e ideais não ditem estritamente o comportamento, eles oferecem quadros simbólicos que orientam a maneira como as famílias organizam suas ações e raciocínios (Faircloth, 2021, 2023). Esse pano de fundo cultural pode criar contradições entre os ideais cultivados na relação de casal, como igualdade, intimidade e independência, e as expectativas depositadas nos papéis parentais, que muitas vezes privilegiam uma visão fortemente marcada pelo gênero do cuidado, com ênfase especial num modelo intensivo de maternidade (Faircloth, 2021). Consequentemente, o gênero costuma ter papel importante na configuração das dinâmicas coparentais e dos níveis de envolvimento. Por exemplo, como as mulheres são frequentemente consideradas especialmente conhecedoras do cuidado e da criação dos filhos, isso pode às vezes gerar conflitos com parceiros que têm dificuldade de fazer valer sua influência (Allen e Hawkins, 1999; Stamp, 1994). No entanto, as duas figuras parentais podem ter papel ativo na definição do próprio envolvimento. Nesse sentido, Autret e van Eeden-Moorefield (2024) ofereceram uma leitura matizada do envolvimento parental, enfatizando sua complexidade e destacando o papel ativo dos pais, questionando assim a ênfase predominante no papel das mães encontrada em estudos anteriores. Por exemplo, homens e mulheres justificam o envolvimento limitado dos pais como mais “prático”, em razão de condições culturais e estruturais, como a licença-paternidade curta (Calarco et al., 2021). Além disso, Eira Nunes et al. (2025) sugeriram que os valores de igualdade de gênero das mães podem tanto facilitar o afeto dos pais e uma coparentalidade colaborativa quanto ser facilitados por eles. Em suma, é essencial explorar como as normas de gênero e de parentalidade moldam a coparentalidade, a distribuição das responsabilidades e o envolvimento, examinando assim como mães e pais interpretam e dão sentido às disparidades de gênero (em tempo e esforço) na criação de adolescentes.
Diante da presença crescente de uma ideologia de “parentalidade intensiva” na mídia tradicional e nas redes sociais (Lee et al., 2024), este estudo explora a maneira como famílias suíças dão sentido às suas experiências de parentalidade e coparentalidade contemporâneas. Na Suíça, onde as estruturas familiares tradicionais continuam muito presentes, a maioria dos casais com filhos menores de 25 anos é casada, e as mães são as principais responsáveis pelas tarefas domésticas e pelos cuidados com as crianças (Federal Statistical Office, 2019, 2024). Esse contexto convida a examinar como as normas de parentalidade e de gênero moldam as experiências de mães e pais de adolescentes.
Adotando um referencial socioconstrucionista, segundo o qual as experiências e as práticas são coproduzidas e reproduzidas socialmente por meio da linguagem e das interações sociais, adotamos uma metodologia de pesquisa qualitativa (Biggerstaff, 2012). Realizamos entrevistas semiestruturadas com cada integrante de seis casais parentais (ou seja, 12 mães e pais no total) e fizemos uma análise temática de conteúdo combinada a uma análise diádica, para responder a duas perguntas principais: (a) Como mães e pais descrevem seu papel junto a adolescentes no contexto da parentalidade intensiva, considerando as necessidades crescentes de autonomia de adolescentes, os significados atribuídos à parentalidade e suas visões sobre a “figura parental perfeita”? (b) Como mães e pais dão sentido à sua coordenação coparental, sobretudo quanto à divisão diária das tarefas parentais e domésticas? Esse método nos permitiu coletar dados qualitativos ricos e aprofundados por meio de uma abordagem indireta, que facilitou o surgimento de percepções mais matizadas sobre as experiências vividas pelas pessoas participantes (del Rio Carral, 2014).
Os dados analisados consistiram em 12 entrevistas individuais semiestruturadas com uma amostra de mães e pais da Suíça francófona (ver a Tabela 1), incluindo um casal do mesmo sexo e cinco casais de sexos diferentes (Nmães = 7, Npais = 5). Cada pessoa participante tinha pelo menos um filho ou filha adolescente (duas meninas, quatro meninos), com idade entre 14 e 17 anos (Midade = 15,67, DP = 1,21), que não era necessariamente a primeira criança da família. A idade das figuras parentais variava de 42 a 60 anos (Midade = 48,08, DP = 5,44). A maioria dos casais era casada (N = 10 pessoas), com uma mãe e um padrasto em união estável. Metade da amostra tinha diploma de ensino superior (pelo menos bacharelado), e a outra metade havia concluído uma aprendizagem profissional (isto é, formação profissionalizante). Dada a sensibilidade cultural em torno de questões financeiras, não se pediu às pessoas participantes que informassem a renda. Todas moravam nos arredores de uma cidade de porte médio. Ao se concentrar num número limitado de participantes, este estudo garantiu uma exploração aprofundada do contexto e das percepções próprias de cada figura parental.
Tabela 1 — Características das pessoas participantes
H = homem; M = mulher. Jornada de trabalho em porcentagem.
Três casais foram recrutados por amostragem em bola de neve, a partir da rede pessoal da primeira autora e de seus contatos na comunidade local. Dois outros casais foram selecionados aleatoriamente entre participantes de um estudo quantitativo anterior sobre parentalidade, em que havia a opção de deixar contato para pesquisas futuras. Um último casal foi alcançado por meio dos primeiros casais participantes. O critério de elegibilidade era ter pelo menos um filho ou filha adolescente de 14 a 17 anos. O estudo se concentrou em mães e pais de adolescentes no último ano da escolaridade obrigatória ou nos dois primeiros anos do ensino secundário pós-obrigatório (isto é, a via acadêmica, conhecida na Suíça como “gymnase”), por se tratar em geral de um período de transição em que adolescentes ganham mais independência, especialmente no contexto escolar. Como o objetivo era explorar a parentalidade de forma mais ampla na sociedade contemporânea, identificar-se como “figura parental intensiva” não fazia parte dos critérios de inclusão. Antes da coleta de dados, as pessoas participantes foram informadas, por meio de uma ficha informativa, sobre os objetivos do estudo e sobre a participação de seu parceiro ou parceira. Esse documento também esclarecia o direito de desistir a qualquer momento e o tratamento confidencial dos dados, incluindo o uso de pseudônimos para garantir o anonimato. Em seguida, obteve-se o consentimento informado por escrito de todas as pessoas participantes. Informações sociodemográficas básicas (idade, profissão, estado civil, número de filhos, região de residência) foram coletadas por questionário. Com base nessas informações, foi possível considerar diferentes tipos de configurações coparentais, refletindo variações de nível socioeconômico e de jornada de trabalho das mães. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade de Lausanne.
A reflexividade é um componente central da pesquisa qualitativa e exige que a equipe de pesquisa considere como sua trajetória e suas experiências moldam seu olhar. Neste estudo, vale notar que a primeira autora é uma mulher sem filhos, psicóloga e doutoranda, cujo olhar é informado por sua própria adolescência difícil e pelo contato com abordagens parentais diversas no contexto de uma família divorciada. Essa trajetória pessoal motivou seu interesse em compreender como os padrões contemporâneos de parentalidade influenciam a parentalidade na adolescência, sobretudo do ponto de vista de mães e pais.
Antes das entrevistas semiestruturadas, foi elaborado um roteiro para permitir às pessoas participantes explorar e expressar suas experiências relativas à parentalidade, à condição parental e ao seu papel no casal parental. Esse roteiro (ver o Apêndice nos materiais suplementares) incluía perguntas abertas sobre temas como a vida cotidiana, a divisão das tarefas parentais e domésticas, a compreensão das exigências da parentalidade, a coparentalidade, a vida profissional e possíveis pressões sociais ligadas à parentalidade. Com um amplo leque de perguntas abertas, garantimos que as pessoas participantes pudessem trazer e desenvolver temas além do escopo predefinido. Por exemplo, perguntar como é um “dia típico” permitia abordar de maneira mais fluida aspectos organizacionais, parentais e coparentais (del Rio Carral, 2014). Uma primeira entrevista piloto foi realizada com o pai de uma adolescente para avaliar a qualidade do roteiro. Essa entrevista foi excluída da análise, pois o roteiro foi revisado em seguida para ganhar clareza. Todas as entrevistas foram conduzidas pela primeira autora, para manter a consistência do estilo de entrevista e garantir uma interpretação coerente dos temas entre as pessoas participantes.
Depois que um casal aceitava participar, eram marcadas entrevistas individuais com cada integrante, num local de sua escolha, como a casa, o local de trabalho ou um café do bairro. As entrevistas em casa ocorriam quando a pessoa estava sozinha em casa ou num cômodo separado, de modo que nem as crianças nem o parceiro ou parceira pudessem ouvir a conversa ou interromper a entrevista. Pedia-se às pessoas entrevistadas que não conversassem sobre a entrevista com o parceiro ou parceira até que ambas as entrevistas tivessem sido feitas, para que a primeira não influenciasse a segunda. Usamos o mesmo conjunto de perguntas para as duas pessoas do casal, independentemente das respostas individuais. Para preservar a confidencialidade, as pessoas participantes não eram informadas se seus relatos coincidiam ou não com os do parceiro ou parceira.
As entrevistas duraram cerca de uma hora (de 35 minutos a 1 hora e 39 minutos) e foram gravadas em áudio com o consentimento da pessoa entrevistada. Cada entrevista foi então transcrita literalmente, com a remoção de todos os dados pessoais identificáveis para garantir a confidencialidade.
Fazer entrevistas separadas com cada integrante do casal permitiu às pessoas participantes expressar experiências e opiniões que poderiam hesitar em compartilhar na presença da outra pessoa, favorecendo relatos francos e pessoais (Esterberg, 2002). De um ponto de vista socioconstrutivista, como exposto por Reczek (2014), entrevistas separadas facilitam a exploração de pontos de vista semelhantes e diferentes, iluminando como as perspectivas individuais são moldadas coletivamente na equipe parental. Elas também oferecem uma compreensão mais rica e com vários ângulos das dinâmicas familiares, captando interpretações matizadas ou até contraditórias da coparentalidade (Reczek, 2014).
As transcrições das entrevistas foram primeiro analisadas por meio da análise temática reflexiva (Braun e Clarke, 2019), uma variante específica da análise temática amplamente usada em psicologia. A análise temática reflexiva oferece um método rigoroso e sistemático de codificação de dados qualitativos, no qual os temas são vistos como ativamente coconstruídos por quem pesquisa, na “interseção entre dados, processo analítico e subjetividade” (Braun e Clarke, 2019, p. 594). Esse método é especialmente adequado para explorar experiências complexas e multifacetadas, como a parentalidade na adolescência, pois acolhe a natureza ao mesmo tempo subjetiva e interpretativa dos dados. Ao enfatizar a reflexividade de quem pesquisa, essa abordagem garante que a análise permaneça fiel às perspectivas das pessoas participantes e aberta a padrões e temas mais amplos no conjunto de dados (Braun e Clarke, 2021). Os relatos foram analisados de forma indutiva, começando pela criação de códigos semânticos, depois agrupados em subtemas compartilhados e em temas gerais com base em semelhanças e diferenças semânticas. Numa etapa final, esses temas foram revistos criticamente e refinados, garantindo coerência e pertinência. Depois da identificação dos temas e subtemas, realizamos uma análise diádica para examinar convergências e divergências nos relatos das duas pessoas do casal em cada tema (Reczek, 2014). Em alguns casos, as figuras parentais deram relatos divergentes, interpretados não como falhas metodológicas, mas como sinal do caráter intrinsecamente complexo e subjetivo da coparentalidade. Como a estrutura da entrevista se mantinha a mesma independentemente das respostas do parceiro ou parceira, essas diferenças enriqueceram a análise ao revelar pontos de vista convergentes e contrastantes dentro dos casais.
A primeira autora codificou sistematicamente os dados no software NVivo 14 (QSR International, 2023) e seguiu um protocolo rigoroso de codificação única validado pela consistência intracodificadora (Kawamoto et al., 2023), e a segunda e a terceira pessoas signatárias codificaram de forma independente três entrevistas, de modo que metade das entrevistas teve dupla codificação, para aumentar a confiabilidade da análise (Church et al., 2019). Essa codificação colaborativa foi enriquecida por reuniões regulares para discutir os códigos iniciais, os temas e os subtemas, garantindo uma abordagem rigorosa da análise temática reflexiva. As três outras pessoas da equipe contribuíram para elaborar o protocolo de pesquisa, identificar os temas principais e construir a discussão dos resultados, além de oferecer supervisão baseada em sua experiência em psicologia do desenvolvimento e da família, em análise qualitativa e em estudos de gênero, garantindo um referencial analítico sólido e abrangente. Para assegurar o rigor dos resultados, a pesquisadora principal seguiu os critérios de Lincoln e Guba (1985): credibilidade, transferibilidade, dependabilidade e confirmabilidade. A credibilidade foi reforçada pelo trabalho aprofundado com os dados e pela prática de memorandos reflexivos. Uma descrição densa do processo de pesquisa apoiou a transferibilidade, e sessões de debriefing entre pares reforçaram tanto a credibilidade quanto a dependabilidade. A confirmabilidade foi garantida por um diário reflexivo, que registrava as reações pessoais da pesquisadora e atenuava possíveis vieses, mantendo assim a distância adequada em relação aos relatos das pessoas.
Por meio da análise temática reflexiva, foram identificados três temas principais. Enquanto os temas “adesão às expectativas sociais sobre os papéis parentais” e “a evolução da relação entre figuras parentais e adolescentes” iluminam sobretudo a primeira pergunta de pesquisa, a segunda pergunta é tratada pelo tema “trabalho em equipe com marca de gênero?”.
Este tema explora como mães e pais retratam seu papel e como essas construções se relacionam com expectativas sociais mais amplas. Ao examinar o que priorizam na parentalidade e como imaginam a “figura parental perfeita” no contexto atual, compreende-se melhor como se apropriam das normas contemporâneas e as adaptam. O subtema “disponibilidade emocional e física” destaca a importância que as famílias dão a estar presentes, física e emocionalmente, para os filhos, assim como a culpa que sentem quando acham que não estão à altura. O segundo subtema, “expectativas parentais de desenvolvimento e sucesso”, trata das altas expectativas que mães e pais mantêm, muitas vezes reflexo de visões sociais sobre as responsabilidades da parentalidade.
Quando se perguntava sobre sua visão do papel parental e sobre o que significa ser uma “boa mãe” ou um “bom pai”, mães e pais em geral enfatizavam a importância de uma presença emocional e física junto a filhas e filhos adolescentes. Essa expectativa era compartilhada por mães e pais, que destacavam a importância de manter uma presença parental em casa e de organizar a rotina de acordo com isso. Por exemplo, Fabien, pai de dois filhos, particularmente atento à saúde mental dos filhos, expressou essa prioridade: “Então, para mim, o mais importante é realmente, como eu disse antes, não é necessariamente a atividade, mas a presença, para que as crianças saibam que estamos disponíveis.” Sua esposa, Ariana, ecoou esse sentimento, falando da organização diária: “Onde eu não abro mão é que eu não quero estar ausente, na verdade. Não quero que eles sintam a minha falta, é isso.” Da mesma forma, Christelle, mãe de três filhos que fica em casa, enfatizou o valor da presença física:
Posso incluir também o meu marido, na verdade a gente é muito, a gente cerca eles bem, então não estamos sempre atrás deles, mas acho que eles têm essa presença em casa, já que eu não trabalho fora, é verdade que eles sempre têm uma referência que está ali, que está presente.
Paralelamente, as figuras parentais que sentiam não estar suficientemente presentes muitas vezes sentiam culpa. Por exemplo, David, pai de quatro filhos, expressou esse sentimento quando lhe perguntaram se sentia que fazia demais ou de menos: “De menos, claramente. Eu gostaria de estar um pouco mais por perto, mas é isso. Escolhemos nossa vida de patrões e autônomos, então quando é preciso trabalhar, a gente trabalha, e aí trabalha muito.” Na mesma linha, Fabien expressou frustração por não estar tão presente e envolvido quanto gostaria:
E de menos, sim, porque a gente sempre queria estar mais presente para as crianças, sobretudo nos fins de semana. Bom, em relação à escola, é verdade que a gente volta de um dia, a gente está, a gente, a gente não tem necessariamente a energia que tem de manhã.
Essa preocupação em estar disponível emocional e fisicamente reflete uma expectativa social contemporânea mais ampla. Muitas mães e muitos pais contrastavam sua abordagem com a própria criação, lembrando que suas figuras parentais tinham sido menos presentes ou menos envolvidas emocionalmente durante a adolescência. Chamavam esse tipo de parentalidade desengajada de “da velha escola”, ultrapassada e inadequada. Por exemplo, Monique, mãe de quatro filhos, lembrou que os pais dela pouco se envolveram em seu desenvolvimento emocional: “Eles estavam presentes, mas nada investidos em… Nunca me perguntaram como eu estava vivendo minha adolescência, como, não, era realmente.” A maneira como as próprias figuras parentais se comportavam é, portanto, raramente uma referência, e mães e pais se distanciam dela invocando os padrões atuais de atenção emocional.
Além das expectativas sobre si, muitas mães e muitos pais também formulavam exigências específicas para os filhos, sobretudo quanto à participação em atividades extracurriculares, como esportes e música, consideradas essenciais para um desenvolvimento bem-sucedido. Essas expectativas refletiam o desejo de dar aos filhos ferramentas para o sucesso futuro. Por exemplo, Pierre, padrasto e pai de três filhos, enfatizou o papel das figuras parentais em ampliar os horizontes das crianças: “O papel dos pais é abrir a cabeça deles para coisas que podem ser importantes para outras pessoas, que existem ao lado do que eles fazem.” Sua esposa, Kate, ecoou essa visão, enfatizando seu empenho em expor o filho a experiências culturais:
Ele não lê nada. Então, uma vez durante as férias de verão, eu dou um livro para ele ler, e aí ele vai e respeita. E aí eu tenho uma assinatura no teatro em [lugar], e todo ano eu levo ele a três ou quatro espetáculos, e ele sabe que tem de ir. Não tem discussão.
O parceiro dela, porém, adotava uma postura mais equilibrada, ressaltando a importância de ajustar as expectativas ao estágio de desenvolvimento de quem está na adolescência. De modo semelhante, Chantal fazia questão de que as duas filhas praticassem um esporte e uma atividade musical: “De todo modo, eu disse que elas deviam ter pelo menos um instrumento e um esporte.” Sua parceira, Christine, concordava, destacando os benefícios cognitivos dessas atividades:
Tinha algumas coisas que eu insisti que ela fizesse, tipo, bom, isso era a Chantal, mais a música. E aí o esporte. Acho que, se você quer estudar direito, se quer que o cérebro seja bem irrigado, o esporte é exatamente o que precisa.
Quando adolescentes não correspondiam a essas expectativas, mães e pais muitas vezes sentiam culpa e se recriminavam. Patrick, pai de três filhos, refletiu sobre a decisão do filho de parar de tocar piano: “Acho que não o incentivei o bastante na música. Ele desistiu do piano, mas isso é tão típico.” Da mesma forma, Ariana se sentia culpada pela pouca participação do filho em esportes e música, comparando-se a outras famílias:
Quando você ouve amigos dizendo que os filhos deles, bom, estão indo muito bem na escola, que estão matriculados no conservatório ou que fazem um monte de esportes e atividades, e não é necessariamente o caso dos seus, sim. Você não se sente uma mãe ou um pai incrível.
O marido, Fabien, compartilhava essas preocupações e essa autocrítica em relação à falta de envolvimento do filho em atividades extracurriculares, questionando sua responsabilidade e comparando-se a outros pais. Ariana, porém, atenuava a culpa relativizando as coisas e ressaltando que o mais importante para ela é que o filho se sinta bem consigo mesmo.
Em resumo, os papéis parentais são coloridos por expectativas sociais que definem o que significa ser uma boa mãe ou um bom pai, com ênfase na importância de oferecer experiências e oportunidades diversas para preparar os filhos para o futuro. Essas expectativas são muitas vezes rígidas, idealizadas e às vezes contraditórias, criando uma pressão significativa para que as famílias se conformem. Essa tensão evidencia o descompasso entre os ideais sociais, enraizados em discursos e valores, e as realidades vividas da parentalidade. Ao tentar conciliar esses ideais com as próprias práticas, mães e pais podem sentir que não estão à altura, o que alimenta uma culpa difusa. Essa distância entre os padrões sociais e a autopercepção parental ressalta a natureza complexa e muitas vezes desafiadora da parentalidade moderna na adolescência.
Outro tema central nos relatos foi o caráter evolutivo da relação com os filhos adolescentes. Reconhecendo mudanças no comportamento dos filhos, mães e pais admitiam a necessidade de recuar para favorecer a autonomia. Esse tema é examinado por meio de três subtemas: “buscar o equilíbrio certo”, em que as famílias descreviam sua ambivalência em confiar nas capacidades de quem está na adolescência; “estabelecer limites”, que destaca o envolvimento parental na educação e no planejamento profissional de adolescentes, mesmo quando se incentiva sua autonomia e independência; e “criar momentos compartilhados”, que ressalta a importância dos rituais familiares para os vínculos e a conexão à medida que adolescentes se tornam cada vez mais independentes.
Os relatos evidenciavam uma ambivalência entre favorecer a autonomia dos filhos e se conformar às normas da parentalidade intensiva, que priorizam um envolvimento parental substancial. Assim, as famílias descreviam uma mudança notável na relação com adolescentes, marcada por uma tendência crescente a conceder mais autonomia, o que exige confiar na capacidade de quem está na adolescência de agir com responsabilidade. Monique, como muitas mães e pais, observou que a filha agora passa boa parte do tempo sozinha e que ela já não se sente capaz de controlar como a filha administra o tempo livre:
Agora eles têm uma esfera privada. Não é como os pequenos; agora você tem de deixar eles no quarto, deixar eles em paz, administrar o tempo deles, a vida deles, e ao mesmo tempo manter o diálogo, né?
O marido, David, enfatizou a importância de dar a adolescentes a liberdade de crescer, permanecendo disponível para apoiar se necessário: “Tem de soltar. Eles têm de poder evoluir sozinhos. É o que eu dizia antes: dar as ferramentas e depois estar lá se houver um problema.” Kate ecoou esse sentimento, sobretudo ao reconhecer que não sabe o que o filho faz no dia a dia: “Sinceramente, durante o dia, eu não sei o que ele está fazendo, não sei onde ele está neste momento.”
No entanto, esse desejo de conceder mais independência muitas vezes resultava numa ambivalência quanto ao papel parental. Pierre, parceiro de Kate, reconheceu o desafio constante de encontrar o equilíbrio adequado entre controle e autonomia:
Sim, claro, é sempre difícil colocar o cursor no lugar certo. E às vezes você vê que soltou um pouco demais, e às vezes vê que precisa pegar mais leve consigo mesmo. Mas é uma obra sempre em andamento.
Da mesma forma, Christelle e o parceiro, Auguste, tinham dificuldade de estabelecer limites adequados, sobretudo em relação à escola e às responsabilidades domésticas:
Bom, ao mesmo tempo, eu queria que eles fossem mais autônomos, mas ao mesmo tempo eu penso que aqui eu teria de ser mais, hã, diretiva, e ao mesmo tempo eu não deveria ser demais, porque eu acho que eles já têm tanta coisa… é uma questão de encontrar o equilíbrio certo, mas por enquanto eu ainda não encontrei. (Christelle, 50 anos)
No conjunto, as famílias expressavam uma confiança crescente em adolescentes, reconhecendo cada vez mais sua responsabilidade e sua independência, ao mesmo tempo que tentavam equilibrar essa confiança com orientação e estrutura adequadas.
Segundo os relatos, embora apoiassem a autonomia de quem está na adolescência, mães e pais também enfatizavam a importância de manter limites claros, especialmente quanto ao uso do smartphone, às saídas e às responsabilidades escolares. Essas regras, embora muitas vezes flexíveis e negociáveis com a filha ou o filho, eram vistas como necessárias para orientar o comportamento. Por exemplo, Patrick explicou como o uso do celular é regulado em casa: “O celular, em certos aplicativos, vai dizer para ele ‘você atingiu seu limite de tempo’, e ele pode pedir mais. Às vezes ele vem me pedir uma hora a mais, e eu deixo se for fim de semana.” Já a esposa, Déborah, adotava uma postura mais rígida, preocupada com a queda da atenção causada pelo uso de tecnologia e com o possível impacto na escolaridade dos filhos: “Então, sim, eu estabeleço as regras, mas o Patrick, na verdade, tira as regras [risos]. Quando eu estou em casa, tem regras.” Patrick esclareceu ainda que sua atenção vai além do tempo de tela e inclui o conteúdo acessado: “Para ela, o computador não presta, mas eu me preocupo mais com a maneira como eles usam, em vez de só dizer não.” Da mesma forma, David impunha uma regra de acesso ao conteúdo do celular da filha a qualquer momento que ele pedisse, para garantir um uso adequado: “Uma regra é que a gente pode ter acesso o tempo todo, que ela possa me mostrar o conteúdo do celular dela.”
Quanto às saídas com amigos, as famílias buscavam manter uma estrutura sem restringir completamente a liberdade de adolescentes. Por exemplo, Chantal e Christine permitiam que a filha saísse uma vez por fim de semana, para que os estudos não fossem prejudicados. O horário de volta era flexível, como explicou Chantal: “A gente dá um horário para voltarem, e às vezes elas mandam mensagem pedindo para estender. Aí a gente conversa e decide se sim ou não.” Essa abordagem reflete uma tendência de negociação das regras, com adolescentes e figuras parentais estabelecendo limites juntos.
O sucesso escolar e as perspectivas profissionais, porém, continuavam sendo uma grande área de preocupação parental. Muitas mães e muitos pais disseram se sentir responsáveis por “garantir” o futuro dos filhos e relataram dificuldade de abrir mão do controle sobre as questões escolares. Patrick, por exemplo, via o desempenho escolar do filho como pré-requisito para poder manter certo estilo de vida: “Tente ir bem na escola para ter um trabalho que te permita manter a vida que você tinha quando era jovem.” Déborah também destacava o valor dos estudos: “Se chegamos até aqui, é porque trabalhamos; as crianças estão acostumadas a um certo padrão de vida, e eu quero que mantenham esse padrão.” Muitas mães e muitos pais disseram se sentir no direito de adotar uma postura mais diretiva nessa área quando percebiam problemas, embora isso às vezes levasse a dúvidas posteriores. Kate, por exemplo, contou que deixou o filho decidir se repetiria o ano, mas depois questionou essa decisão: “Eu não deveria ter dado a escolha a ele, porque ele não tinha maturidade.” No conjunto, as famílias mostravam graus variados de preocupação com o futuro de adolescentes, mas concordavam unanimemente sobre a importância de estabelecer limites e de orientar as escolhas escolares e profissionais.
À medida que adolescentes ganhavam mais autonomia e passavam mais tempo com os pares, mães e pais enfatizavam a importância de manter rotinas familiares, como as refeições compartilhadas, como forma de sustentar interações regulares e nutrir a relação com quem está na adolescência nesse período decisivo do desenvolvimento. Por exemplo, Christine descreveu uma tradição de longa data em sua casa: “Nos fins de semana, temos uma tradição: sexta à noite é noite de pizza. Então todo mundo sabe que tem de estar lá na sexta à noite para a pizza.” Esse ritual tinha mais importância para Christine do que para a parceira, Chantal, que insistia menos em reunir todo mundo para comer: “Minha esposa queria que a gente estivesse o tempo todo em volta da mesa. Eu não obrigo ninguém a comer, mas não faço outra refeição para quem não gosta do que está sendo servido.”
Algumas famílias introduziram novos rituais em resposta à crescente independência de adolescentes. Por exemplo, Kate explicou: “Recentemente criamos uma noite em família em que todo mundo está presente e todo mundo participa. […] Em compensação, o resto das noites é uma bagunça.” Da mesma forma, Fabien destacou a importância das refeições compartilhadas como momentos de conexão: “Mas está claro, quando ele vem comer e estamos todos à mesa, para nós, é um, é, é normal, ninguém fica com o celular, é um momento que passamos juntos, conversamos.” Ao preservar esses momentos compartilhados, as famílias buscavam manter vínculos significativos com adolescentes, apesar da redução do tempo passado juntos. Essas rotinas também serviam como um quadro estruturante num contexto de independência e autonomia crescentes.
O último tema se concentrou nos relatos sobre como as tarefas de cuidado eram organizadas no casal e como as responsabilidades pela educação de adolescentes eram (ou não) distribuídas. Embora todas as figuras parentais afirmassem o compromisso com uma parentalidade colaborativa em benefício dos filhos adolescentes, seus papéis eram muitas vezes moldados por normas de gênero tradicionais. Esse tema se desdobra em três subtemas. O primeiro, “a mãe como gestora da família”, destaca o papel central das mães na organização familiar e a carga mental que muitas vezes carregam. Apesar disso, mães e pais descreviam frequentemente seus papéis como complementares, porém delicados, noção explorada em “complementaridade e desigualdade parental”. Por fim, “formar uma equipe coerente” destaca que, apesar das diferenças de papel, as figuras parentais em geral se esforçavam para se apoiar mutuamente e discutiam juntas a educação e a criação dos filhos, favorecendo uma abordagem unificada.
O primeiro subtema destaca a carga mental que as mães carregam e seu papel central na gestão da família. Nas entrevistas, as mães eram sistematicamente retratadas como as principais organizadoras, garantindo o bom funcionamento da casa. Monique cuidava da escolaridade dos filhos e da organização das atividades familiares. Ela comentou: “A organização do tempo livre em família é 100% comigo.” O marido não mencionou a gestão do tempo familiar, mas, quando questionado, admitiu que Monique também era a principal responsável pela educação dos filhos: “É principalmente a minha esposa que cuida disso, eu estou sempre por perto, mas sim, é ela que se encarrega. Reuniões de pais também, eu fui a uma ou duas, mas é uma chatice.” Era também uma responsabilidade pesada, como lembrou Kate, contando que isso às vezes a acordava no meio da noite.
A rigidez também apareceu como uma questão relacionada, com as mães frequentemente vistas como mais rígidas do que os pais na aplicação das regras. Por exemplo, durante a entrevista, Kate percebeu que tinha expectativas mais altas em relação às boas maneiras, enquanto o parceiro, Pierre, via a parentalidade como um processo mais instintivo. Ele sugeriu que a pressão sentida por Kate podia resultar das expectativas pessoais dela: “Mas claro, sim, dá para se sentir sob pressão. Mas eu acho que muitas vezes é a própria pessoa que sente essa pressão.” Ainda assim, todas as mães reconheciam sua postura mais rígida, como exemplificou Déborah, identificada por ela mesma e pelo parceiro, Patrick, como a principal responsável por fazer cumprir as regras. Em suma, as mães eram em geral vistas como coordenadoras das atividades familiares, mantenedoras das rotinas e principais responsáveis pelo cumprimento das regras.
Na maioria das entrevistas, mães e pais falavam de “complementaridade” para descrever sua coordenação, referindo-se à maneira como equilibravam e coordenavam suas abordagens distintas na criação dos filhos. Tipicamente, uma das figuras parentais assumia um papel mais rígido e a outra, um papel mais flexível, criando uma dinâmica equilibrada muitas vezes descrita como a estratégia do “policial bonzinho e policial malvado”. Para Patrick e Déborah, por exemplo, essa complementaridade era vista como benéfica, como observou Patrick: “A dualidade é muito importante para mim. Que a gente se complemente bem, e isso é algo que fazemos muito bem, eu acho, a Déborah e eu.” Da mesma forma, Christine, parceira de Chantal, observou: “Então eu sou o policial bonzinho, a Chantal é o policial malvado, por causa do temperamento dela.” Esse exemplo, de um casal do mesmo sexo, indica que essa divisão de papéis pode ultrapassar as expectativas de gênero tradicionais. No entanto, pais e mães reconheciam a possível dificuldade dessa dinâmica, como observou Auguste: “É difícil, minha esposa acha que eu não sou rígido o bastante, e é difícil não dar o papel de policial para uma pessoa enquanto a outra faz o papel do bonzinho.” Isso ilustra como podem surgir tensões quando uma das figuras parentais fica sempre com o papel de “policial malvado”.
A complementaridade se estendia também à divisão tradicional das tarefas domésticas e parentais, com as mães geralmente assumindo mais responsabilidades, o que muitas vezes era justificado, por elas e pelos parceiros, pelo fato de estarem menos envolvidas na esfera profissional do que eles. Essa priorização da família em relação à carreira costumava começar com o nascimento dos filhos e se prolongava até a adolescência. Monique contou que às vezes se sentia sobrecarregada com esse arranjo: “Eu administro tudo em casa, a logística, a roupa, as refeições, mas às vezes pesa ter de cuidar sozinha dos passatempos e do tempo livre da família.” Ela também mencionou discussões ocasionais com o marido sobre esse desequilíbrio:
Eu queria um pouco de ajuda, às vezes. Tenho crises em que digo a ele que estou farta, aí ele organiza alguma coisa, e funciona por duas ou três semanas até ele esquecer de novo, e eu tenho de dizer mais uma vez.
Alguns casais, porém, relataram uma organização cotidiana mais flexível. Por exemplo, Patrick mencionou a responsabilidade compartilhada na preparação do almoço: “Tudo bem, nós dois fazemos naturalmente, conforme quem está disponível. Agora, geralmente sou eu, porque estou em casa na hora do almoço, enquanto ela trabalha mais.” Mesmo nessas situações, as mães mantinham um papel de direção, como esclareceu Déborah, esposa de Patrick: “Bom, eu sempre tenho de dizer para ele pôr tal prato no forno a tal hora, ou… então eu preparo as refeições com antecedência.” Isso mostrava os limites do conceito de complementaridade para algumas famílias, evidenciando como, mesmo em arranjos flexíveis, as mães muitas vezes conservavam a supervisão principal da logística familiar.
Apesar dos desafios de coordenação dos papéis parentais às vezes mencionados nas entrevistas, as figuras parentais em geral se esforçavam para formar uma equipe coerente e solidária na criação dos filhos. De fato, embora às vezes tivessem dificuldade de se complementar, a importância de formar uma equipe parental continuava claramente enfatizada. Tipicamente, muitas mães e muitos pais destacavam a importância de apresentar uma frente unida diante dos filhos, mesmo quando discordavam em particular sobre certas questões. Christine descreveu essa abordagem:
O quadro pode ser flexível, mas tem de continuar coerente. E se a gente discorda, minha esposa e eu aprendemos a nunca nos criticar na frente das crianças. Mesmo se não concordamos, resolvemos juntas.
Da mesma forma, Patrick reconheceu que, embora nem sempre compartilhasse o entusiasmo da esposa, Déborah, por certas atividades, apoiava as iniciativas dela: “Ela queria visitar o museu no sábado, e no começo eu não estava motivado. Mas mesmo assim eu a incentivei, e encontrei um jeito de motivar as crianças também: ‘Vamos lá, vai ser divertido.’”
Mães e pais também ressaltavam a importância de discutir em conjunto as estratégias educativas para oferecer um apoio unificado a adolescentes. David explicou a abordagem colaborativa do casal para definir regras: “Quase nenhuma decisão importante é tomada de forma unilateral. Somos sempre os dois. Quando minha esposa diz alguma coisa, eu apoio, e vice-versa, então há coerência. Pelo menos, a gente tenta.” Kate e Pierre também enfatizaram as conversas frequentes sobre decisões parentais, como observou Kate: “Sempre peço a opinião dele, e embora nem sempre a siga, valorizo o que ele diz.” Pierre concordou, acrescentando: “Tudo é questão de trabalho em equipe.” Quando não havia acordo, porém, às vezes surgia o conflito, como no caso de Fabien e Ariana. Fabien explicou que sua abordagem mais diplomática às vezes minava a postura mais rígida de Ariana, gerando atrito: “Ao intervir depois do fato, eu a boicotei um pouco. É isso que ela me recrimina.”
Em conclusão, com base nos relatos das pessoas participantes, embora o gênero moldasse a divisão das responsabilidades parentais, as figuras parentais se esforçavam constantemente para manter uma equipe parental coerente e solidária. Ao garantir que seus papéis se complementassem, buscavam oferecer um ambiente estável e coerente aos filhos adolescentes.
A pesquisa anterior sobre parentalidade, coparentalidade e parentalidade intensiva concentrou-se sobretudo nas primeiras etapas da parentalidade, muitas vezes enfatizando as dinâmicas de gênero no casal (Faircloth, 2021). Os estudos com mães e pais de adolescentes e sobre a tensão entre conceder autonomia e a parentalidade intensiva basearam-se principalmente em métodos quantitativos (por exemplo, Lamprianidou, Eira Nunes, et al., 2025; Venard et al., 2024). Apenas alguns estudos usaram abordagens qualitativas para examinar como as famílias interpretam e dão sentido às suas experiências e práticas e como isso ressoa com as normas contemporâneas de parentalidade (por exemplo, Lamprianidou, Venard, et al., 2025), o que limita nossa compreensão do tema nessa fase do desenvolvimento. Além disso, as dinâmicas que moldam a coparentalidade na adolescência, assim como as formas matizadas pelas quais as dinâmicas de gênero se manifestam nessa fase, continuam pouco exploradas. Para preencher essas lacunas, nosso estudo oferece uma exploração qualitativa e aprofundada dos relatos de casais parentais, com foco em suas concepções convergentes e divergentes de parentalidade e coparentalidade. Por meio da análise temática reflexiva e da análise diádica, identificamos três temas centrais que captam as perspectivas das figuras parentais. O primeiro tema, “adesão às expectativas sociais sobre os papéis parentais”, reflete a visão que mães e pais têm de seu papel junto a adolescentes, influenciada pelas expectativas ligadas à parentalidade intensiva. O segundo tema, “a evolução da relação entre figuras parentais e adolescentes”, reflete as dinâmicas em transformação entre as famílias e adolescentes, à medida que a necessidade de conciliar um senso de proximidade e os ditames de uma ideologia de parentalidade intensiva com a concessão de autonomia e independência se torna particularmente saliente nessas relações. Por fim, “trabalho em equipe com marca de gênero?” explora como os casais lidam com seus papéis coparentais, equilibrando a colaboração e a influência das normas de gênero tradicionais. No conjunto, este estudo oferece percepções sobre a interação complexa entre expectativas sociais, relações em transformação com adolescentes e coordenação marcada pelo gênero nas relações coparentais, contribuindo para uma compreensão mais rica dos fatores que moldam as práticas parentais e as experiências de parentalidade na adolescência.
Primeiro, destacamos como mães e pais davam sentido ao seu papel quando os filhos entravam na adolescência, papel moldado pela adesão às normas intensivas contemporâneas e pela evolução da relação com adolescentes. Muitas mães e muitos pais enfatizavam a importância da presença em casa e da atenção ao bem-estar de quem está na adolescência, e a rotina diária muitas vezes se organizava para garantir que pelo menos uma das figuras parentais estivesse disponível em casa. Curiosamente, as pessoas entrevistadas muitas vezes observavam que sua abordagem era diferente da de suas próprias figuras parentais, que em geral davam menos importância à disponibilidade física e emocional. Essa mudança reflete o surgimento de normas contemporâneas de parentalidade que priorizam as necessidades emocionais e físicas da criança, hoje amplamente normativas (Lee et al., 2024; Scheibling e Milkie, 2023). No entanto, embora a intenção de estar disponível seja muitas vezes bem-intencionada, ela pode se tornar um peso para as famílias e até contraproducente na adolescência. De fato, quando o envolvimento parental não se ajusta à necessidade crescente de autonomia de adolescentes, ele pode ser vivido como intrusivo, superprotetor e controlador, provocando conflitos e tensões na relação com a criança (Van Petegem et al., 2020; Venard et al., 2023). Curiosamente, essa preocupação com o envolvimento parecia compartilhada por mães e pais, o que evidencia que as normas da parentalidade intensiva afetam as duas figuras parentais (Lee et al., 2024; Lamprianidou, Eira Nunes, et al., 2025).
Além da importância atribuída à presença emocional e física, mães e pais também formulavam expectativas específicas para os filhos adolescentes e para si, incluindo promover a participação em atividades como esportes ou o aprendizado de um instrumento musical, como destacou o subtema “expectativas parentais de desenvolvimento e sucesso”. Essas expectativas se alinham ao desejo de preparar a criança para se tornar um adulto de alto desempenho e bem-sucedido, como reflete o conceito de “cultivo orquestrado” (concerted cultivation; Lareau, 2018). O cultivo orquestrado designa um estilo parental, particularmente difundido nas famílias ocidentais, que envolve esforços deliberados e organizados para cultivar os talentos, as habilidades e as capacidades das crianças (Lareau, 2018). Nossos resultados, assim como estudos anteriores (por exemplo, Wall, 2010), relacionam esses esforços parentais a um foco no desenvolvimento cognitivo, que muitas vezes envolve a adoção de conselhos de especialistas. Além disso, esse envolvimento pode muitas vezes refletir o desejo de oferecer aos filhos adolescentes oportunidades que as próprias figuras parentais talvez não tenham tido (Wuyts et al., 2015). De fato, nesses casos, as famílias podem ter expectativas particularmente altas em relação à criança, seja por quererem que ela tenha sucesso onde não puderam ter, seja por verem nas conquistas dela um reflexo do próprio sucesso parental (Wuyts et al., 2015). Quando sentiam não estar correspondendo a essas expectativas, mães e pais relatavam com frequência culpa ou desajuste, ecoando pressões sociais mais amplas ligadas às normas de parentalidade e às dinâmicas de comparação social (Lee et al., 2024; Wall, 2010). Assim, essa ambivalência em relação às próprias práticas parentais mostra como a ideologia da parentalidade intensiva pode suscitar autoavaliações tanto positivas quanto negativas, afetando a forma como as famílias julgam sua maneira de criar adolescentes em comparação com a própria criação.
Considerando a evolução das relações com adolescentes, embora haja ênfase na presença parental e no incentivo à participação contínua nas atividades familiares, muitas mães e muitos pais também demonstravam apoio à autonomia dos filhos adolescentes. Levando em conta o estágio de desenvolvimento, as famílias tendiam a respeitar o espaço pessoal de adolescentes e a confiar nelas e neles, o que é benéfico para o desenvolvimento na adolescência (Smetana e Rote, 2019). Certas áreas, no entanto, como a escola e o uso do smartphone, continuavam sob controle parental (por exemplo, Lamprianidou, Venard, et al., 2025), refletindo preocupações com o desempenho e o desenvolvimento cognitivo dos filhos. De fato, mães e pais muitas vezes se preocupavam com a queda da atenção causada pelo uso de tecnologia e com o possível impacto na escolaridade. Segundo seus relatos, seu papel é garantir que os filhos mantenham certo padrão de vida, muitas vezes relacionando as escolhas profissionais ao bem-estar e à satisfação com a vida em geral (Can, 2023). Além disso, as desigualdades de emprego e a insegurança no trabalho também levam as famílias a se envolver mais nas questões escolares dos filhos (Van Petegem et al., 2024). Ainda assim, em respeito à autonomia de adolescentes, as regras eram muitas vezes discutidas e regularmente reavaliadas, o que é típico desse período do desenvolvimento (Smetana e Rote, 2019). O fato de adolescentes muitas vezes terem de se virar por conta própria e, ao mesmo tempo, sofrerem pressão para se destacar na escola também pode refletir o contexto social mais amplo em que crescem. De fato, embora a Suíça se caracterize por uma forte valorização da autonomia individual, ela mantém ao mesmo tempo altas expectativas de realização e sucesso, como mostra o referencial Hofstede Insights, que analisa as culturas nacionais segundo dimensões-chave como o individualismo e a orientação para o desempenho (Norgesklubben, 2018).
Outra dimensão ligada à evolução da relação com adolescentes envolvia a importância que as famílias atribuíam aos momentos compartilhados, em especial às refeições em comum. Esses encontros familiares podem servir para manter os vínculos e facilitar a troca de ideias, funcionando muitas vezes como pedra angular dos sistemas familiares (Wolin e Bennett, 1984). Também podem representar um momento em que certas normas de parentalidade se tornam visíveis, notadamente pelo cuidado muitas vezes dedicado pelas mães para que todo mundo aproveite o momento e consumam uma comida ao mesmo tempo saudável e apetitosa (Brenton, 2017; Le Moal, 2024). A pesquisa sugere que as rotinas estruturadas têm papel decisivo no desenvolvimento infantil, favorecendo habilidades sociais e melhorias de comportamento por meio de ambientes estáveis que permitem praticar e refinar as habilidades emergentes (Spagnola e Fiese, 2007). Além disso, a participação em rotinas familiares consistentes e previsíveis parece reforçar as relações com as crianças e contribuir para uma maior convergência entre as percepções dos membros da família sobre a qualidade das relações (Boat et al., 2025). Esses diferentes relatos, ligados à nossa primeira pergunta de pesquisa, refletem uma transformação em curso na forma como mães e pais concebem o que é exercer bem a parentalidade. Muitas famílias parecem ter internalizado padrões de parentalidade intensiva que, ao mesmo tempo, promovem alto envolvimento e recomendam o processo gradual de “soltar” na adolescência.
Embora mães e pais sejam moldados pelas normas da parentalidade intensiva, a forma como exercem seus papéis continua marcadamente diferente, e vários pontos importantes surgem ao abordar nossa segunda pergunta de pesquisa, sobre a coordenação parental no casal. Primeiro, como nossos resultados sugeriram, o discurso contemporâneo sobre a igualdade das tarefas parentais e domésticas entre parceiros, embora cada vez mais presente, ainda não se concretiza plenamente na criação de adolescentes, ecoando resultados sobre as primeiras etapas da parentalidade (Faircloth, 2021). Apesar do envolvimento crescente dos pais e de seu desejo declarado de estar presentes, o que confirma as concepções contemporâneas de paternidade, em que se espera que os pais se envolvam mais na criação dos filhos do que antes (por exemplo, Dermott, 2003, 2008), as mães muitas vezes falam de sua responsabilidade parental de outra maneira e tendem a assumir a liderança da abordagem familiar como um todo, sobretudo ao estabelecer e fazer cumprir as regras da família. Esse papel materno de gestão contrasta com a visão tradicional dos pais como principais tomadores de decisão e guardiões da família (Collier e Sheldon, 2008; Silverstein e Auerbach, 1999) e reflete uma reconfiguração contemporânea dos papéis parentais. Em consonância com pesquisas anteriores (Blair-Loy e Jacobs, 2003; Scheibling e Milkie, 2023), a maioria dos pais parecia renegociar seu “esquema de devoção ao trabalho”, que antes limitava seu engajamento e seu envolvimento emocional na vida familiar. Essa mudança desafia a imagem tradicional dos pais como emocionalmente distantes (Silverstein e Auerbach, 1999). Eles são muitas vezes colocados na posição de “ajudantes” ou de figura parental “divertida” (Brugeilles e Sebille, 2015; Le Moal, 2024). De fato, as mães entrevistadas também assumem um papel importante de coordenação, o que reflete sua centralidade contínua na vida familiar e a carga mental que carregam em consequência. O conceito de carga mental, que abrange administrar as agendas da família, lembrar os compromissos e organizar as tarefas domésticas, é uma ilustração poderosa do “fazer gênero” (doing gender), caracterizado pela encenação e pelo reforço contínuos das normas de gênero nas interações cotidianas e nas práticas sociais (Daminger, 2019; Haupt e Gelbgiser, 2024; West e Zimmermann, 1987). Assim, o padrão “a mãe como gestora da família” persistiria por meio desse trabalho cognitivo muitas vezes silencioso, geralmente considerado um dever implícito das mães (Daminger, 2019; Faircloth, 2021), o que reforça o estereótipo das mulheres como naturalmente aptas aos papéis de cuidado (Forbes et al., 2020). Ao assumir essas responsabilidades, as mães desempenham papéis socialmente prescritos, ligados a expectativas culturalmente definidas de feminilidade, perpetuando dinâmicas de gênero na família (Forbes et al., 2020). Paralelamente, apesar das boas intenções, pode ser difícil para os pais se envolverem mais, pois alguns relataram conflitos internos entre seu papel tradicional, mais retraído, e o desejo de estar mais presentes (Barbeta-Viñas e Cano, 2017; ver também Meeussen et al., 2020). Por fim, a maneira como as mães concebem sua responsabilidade parental pode levá-las a se envolver mais, possivelmente compensando em excesso nos esforços para cumprir seu papel de cuidado. Aliás, nessa linha, vários estudos mostram que as mães tendem a ser, em média, mais superprotetoras do que os pais (por exemplo, Venard et al., 2023, 2024).
Nesse contexto, os relatos das pessoas participantes evidenciaram uma dinâmica de complementaridade, e não de equidade ou igualdade estrita entre parceiros. De fato, complementaridade parece ser o termo mais preciso para descrever essa dinâmica, sendo um padrão comum o da mãe que adota um papel mais rígido e o do pai que adota uma abordagem mais flexível na hora de aplicar as decisões. Esse termo pode servir para justificar a continuidade de uma divisão desigual do trabalho, limitando possivelmente o envolvimento dos pais aos aspectos mais agradáveis da parentalidade (Brugeilles e Sebille, 2015). Além disso, embora as famílias muitas vezes atribuam a desigualdade dos papéis de cuidado ao menor engajamento profissional das mães, a pesquisa mostra que, nos arranjos coparentais heterossexuais, ainda se espera das mulheres, de forma desproporcional, que administrem as responsabilidades parentais e domésticas. O envolvimento dos pais nos cuidados com as crianças é fortemente influenciado pela jornada de trabalho dos dois parceiros, enquanto o cuidado materno é apenas parcialmente determinado pela situação profissional das mães (Gaunt e Deutsch, 2024). Esse desequilíbrio ficou especialmente visível durante a pandemia de covid-19 (Garcia, 2022) e é particularmente acentuado quando as famílias têm crenças essencialistas que situam o cuidado materno como biologicamente insubstituível (Gaunt e Deutsch, 2024).
Do ponto de vista da coparentalidade, os benefícios da complementaridade têm limites. Disparidades em certos domínios, como quando uma das figuras parentais se sente pouco apoiada ou percebe uma distribuição desigual das responsabilidades, podem contribuir para o conflito coparental (Feinberg, 2003; Feinberg et al., 2012). Isso foi observado sobretudo em situações em que uma das pessoas do casal não aplicava uma regra de forma consistente ou não contribuía para as tarefas de organização. De fato, as discrepâncias na divisão das responsabilidades podem se tornar problemáticas quando há distância entre as expectativas das figuras parentais e a percepção que têm de seu papel no cuidado com as crianças (Feinberg, 2003). Como indicam pesquisas anteriores, esse desalinhamento pode estar associado a maior risco de depressão e a menor ajustamento conjugal nas duas figuras parentais (Frisco e Williams, 2003). Além disso, a rigidez nessas divisões de papéis também pode dificultar a capacidade da família de se adaptar a transições ou ao estresse (Feinberg, 2003).
É importante notar que, embora as figuras parentais às vezes tenham dificuldade de se complementar de forma equitativa, davam grande importância à formação de uma equipe parental unida. As pessoas participantes muitas vezes priorizavam o ideal do trabalho em equipe em detrimento das preocupações com a justiça na divisão das tarefas, o que sugere uma internalização das normas de gênero relativas aos papéis e às responsabilidades parentais (Calarco et al., 2021). Elas destacavam a importância do apoio mútuo para construir uma equipe coparental coesa, o que se associa ao ajustamento das figuras parentais e das crianças, incluindo maior sentimento de competência parental e menos problemas de comportamento na adolescência (Floyd e Zmich, 1991). Quanto à gestão conjunta, embora pudessem se formar alianças entre a criança e a figura parental mais flexível, mães e pais expressavam o desejo de evitar conflitos do casal diante dos filhos, o que é benéfico para adolescentes (Grych et al., 2004). Este estudo, portanto, evidencia benefícios e desafios coparentais específicos das práticas parentais contemporâneas, como equilibrar a divisão do trabalho e chegar a consensos sobre as estratégias de criação.
Nossos resultados gerais sobre os papéis parentais e a coordenação na relação coparental se situam no contexto específico da Suíça, país caracterizado por forte competitividade econômica e por uma abordagem tradicionalmente conservadora da política familiar (Norgesklubben, 2018). A prosperidade econômica permite às famílias praticar e apoiar o cultivo orquestrado, ao mesmo tempo que valorizam a autonomia e a competitividade, como observado anteriormente. No entanto, as políticas familiares, como a licença-paternidade e o acesso a serviços de cuidado infantil, continuam limitadas. Consequentemente, as mães são com mais frequência responsáveis pelas tarefas domésticas (60% das mães contra 6% dos pais) e pelo cuidado das crianças (48% das mães contra 6% dos pais; Federal Statistical Office, 2019, 2024). Embora os pais relatem estar mais envolvidos do que suas próprias figuras parentais estiveram, as mães continuam a ser vistas como as principais cuidadoras, o que reforça a complementaridade na coordenação das duas figuras parentais e limita um envolvimento igualitário.
Por fim, julgamos importante destacar os pontos fortes da análise diádica para compreender o casal parental. Primeiro, como desenvolveram Eisikovits e Koren (2010), esse método capta a experiência subjetiva de cada pessoa, mantendo o contexto diádico mais amplo. Também oferece uma compreensão mais matizada e complexa de como as dinâmicas se desenrolam no casal. De fato, ao analisar o que se expressa tanto individualmente quanto como parte de um casal, é possível examinar o conteúdo nos níveis pessoal e relacional. Neste estudo, embora os papéis muitas vezes parecessem estabelecidos, as figuras parentais em geral compartilhavam uma narrativa comum, coconstruindo suas representações da parentalidade. Tipicamente, embora regras e rituais sejam muitas vezes estabelecidos em conjunto, cada figura parental pode matizar seu sentido e sua validade. Além disso, embora criem juntas a mesma criança, as figuras parentais podem interpretar seus papéis de forma diferente e atribuir significados distintos à sua coordenação parental.
Examinar os relatos de mães e pais oferece percepções valiosas sobre os processos parentais e coparentais na adolescência. Nossos resultados revelam que mães e pais podem viver uma tensão entre as normas contemporâneas de parentalidade e a necessidade de apoiar a autonomia de adolescentes nesse período do desenvolvimento. Como se sabe que a culpa e a pressão afetam negativamente a parentalidade (Venard et al., 2024; Wall, 2010), é crucial explorar estratégias para ajudar as famílias a enfrentar esses desafios de forma eficaz. Além disso, a presente contribuição oferece percepções valiosas sobre as dinâmicas coparentais, que podem ajudar a clínica a desenvolver intervenções mais personalizadas e eficazes, que levem em conta tanto essas dinâmicas coparentais quanto o gênero das figuras parentais. De fato, os resultados deste estudo ressaltam a importância de compreender as dinâmicas de gênero, de abordar o papel dos contextos sociais e culturais e de defender a mudança social. Embora mães e pais muitas vezes compartilhem valores fundamentais e uma identidade familiar comum, como a participação em rituais familiares, áreas-chave como a divisão do trabalho e o acordo sobre a criação exigem atenção para melhorar as dinâmicas coparentais. Como observaram Feinberg et al. (2012), questões não resolvidas nessas áreas podem dificultar a cooperação e a satisfação na relação coparental, o que pode acabar se refletindo em estratégias parentais pouco adequadas (por exemplo, Albert Sznitman et al., 2019). Além disso, normas sociais internalizadas podem acentuar as discrepâncias entre as pessoas do casal, levando possivelmente à frustração quando uma delas percebe como inadequada a complementaridade dos papéis. Por isso, é essencial que a terapia aborde essas dinâmicas para promover uma relação coparental mais equilibrada e solidária. Além disso, políticas mais favoráveis às famílias poderiam ajudar a atenuar as disparidades que muitas vezes surgem na transição para a parentalidade (de Laat et al., 2023; Faircloth, 2021). Por exemplo, a criação de uma licença parental remunerada, generosa e intransferível para mães e pais favoreceria o compartilhamento do cuidado e ajudaria a questionar os papéis de gênero tradicionais. Medidas complementares, como arranjos de trabalho flexíveis e acesso a serviços de cuidado infantil acessíveis e de qualidade, podem aliviar ainda mais as pressões profissionais e financeiras enfrentadas pelas famílias, sobretudo pelas mães (de Laat et al., 2023).
Embora este estudo qualitativo contribua para aprofundar a compreensão de como mães e pais percebem seu papel parental diante das normas contemporâneas de parentalidade e de como dão sentido à sua coordenação no casal coparental, várias limitações devem ser mencionadas. Primeiro, a amostra era composta por famílias que viviam na mesma região da Suíça. Pesquisas futuras deveriam entrevistar famílias de diferentes contextos socioculturais, que podem ter visões diferentes sobre as relações com adolescentes e sobre a coparentalidade (Lansford, 2022; Norgesklubben, 2018). Além disso, nossa amostra incluía quatro casais com filhos biológicos, um casal de família recomposta e um casal do mesmo sexo. Embora acreditemos que essa composição reflita fielmente a diversidade das famílias suíças, reconhecemos a possibilidade de viés de amostragem. Por exemplo, embora alguns estudos mostrem que o envolvimento dos padrastos é em geral semelhante ao dos pais (Adamsons et al., 2007), outros mostram que ele é menor (Schwartz e Finley, 2006). Quanto aos casais do mesmo sexo, embora nosso caso particular não refletisse necessariamente isso, as pesquisas sugerem que a divisão de tarefas nesses casais é em geral mais igualitária do que nos casais de sexos diferentes (Goldberg, 2013), o que pode ter influenciado nossos resultados sobre a coordenação parental. Por fim, este estudo não considerou o gênero de quem está na adolescência, tratando as práticas parentais de modo mais geral. Embora alguns estudos relatem apenas pequenas diferenças baseadas no gênero (Endendijk et al., 2016), outros sugerem que as abordagens parentais muitas vezes variam conforme o gênero de adolescentes (Mesman e Groeneveld, 2018). Por exemplo, no contexto da sexualidade, as famílias tendem a adotar atitudes mais restritivas com as filhas do que com os filhos (Endendijk et al., 2020), embora os resultados nesse campo continuem mistos e dependentes do contexto (Lamprianidou, Venard, et al., 2025).
Do ponto de vista metodológico, embora as entrevistas individuais ofereçam percepções pessoais valiosas, elas apresentam certas limitações (Reczek, 2014). Entrevistas feitas com um membro da família podem, sem intenção, moldar as respostas das pessoas entrevistadas em seguida, pois interações anteriores podem introduzir vieses e influenciar os relatos pessoais. Esse potencial de contaminação poderia restringir a autenticidade e a confiabilidade dos dados, limitando assim a capacidade das entrevistas individuais de captar plenamente dinâmicas familiares complexas. Além disso, as entrevistas individuais não conseguem captar as dinâmicas relacionais que poderiam ser observadas na interação direta entre as pessoas. Pesquisas futuras poderiam se beneficiar de entrevistas diádicas ou familiares que incluam adolescentes, permitindo a construção de uma narrativa familiar coletiva. Essa abordagem poderia revelar perspectivas divergentes ou complementares dentro da família, ampliando a compreensão das dinâmicas familiares cotidianas.
As expectativas sociais em torno da parentalidade estão cada vez mais presentes na mídia e podem influenciar a forma como os casais parentais falam de seus papéis e de sua coordenação. Em nosso estudo, adotamos uma abordagem socioconstrutivista para compreender melhor essas questões. Os resultados mostram que mães e pais mantêm, para si e para os filhos, expectativas alinhadas às normas da parentalidade intensiva. Além disso, as famílias indicaram atenção à autonomia de adolescentes, exceto quanto à escola e às redes sociais, que continuam sendo objeto de maior vigilância. Quanto ao significado atribuído à coordenação parental, nossos resultados indicam que mães e pais veem sua família mais como complementar do que como igualitária, o que pode trazer desafios, sobretudo para as mães. Ainda assim, o desejo de formar uma equipe coesa prevalece sobre as demais preocupações. No conjunto, mães e pais coconstroem seu papel parental, guiados pelas normas sociais e pelas interações com o parceiro ou a parceira e com quem está na adolescência.
Complexe Systémique: a reter
No que mães e pais chamam de “complementaridade”, quem trabalha de forma sistêmica vai reconhecer uma relação complementar no sentido de Bateson: uma das figuras parentais faz o “policial malvado”, a outra, o “bonzinho”, e a divisão pode se cristalizar. O interesse do estudo está nas entrevistas separadas: cada pessoa do casal conta a mesma equipe à sua maneira, e a diferença se torna material clínico. Aparecem a carga mental das mães, o ideal de equipe que encobre a desigualdade, a culpa produzida pela parentalidade intensiva e uma coalizão discreta quando um pai suaviza, depois do fato, uma regra imposta pela mãe. O casal do mesmo sexo lembra que a complementaridade não é só uma questão de gênero. Em sessão, é possível questionar esses papéis, rituais como a refeição compartilhada e o espaço deixado à autonomia de quem está na adolescência. Os limites são claros: seis casais da Suíça francófona, recrutados em parte na rede da primeira autora, nenhuma fala de adolescentes e falas traduzidas para o inglês e depois retraduzidas aqui. Para ler junto com o artigo sobre o casal entre conjugalidade e parentalidade e com o estudo de Lausanne sobre a terapia de casal breve para pais.
Notas do original
Agradecimentos. Publicação em acesso aberto viabilizada pela Universidade de Lausanne, no âmbito do acordo entre a Wiley e a Universidade de Lausanne, por meio do Consórcio das Bibliotecas Acadêmicas Suíças.
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Tradução não oficial em português de Normas parentais contemporâneas e coordenação coparental: explorando narrativas de mães e pais de adolescentes, de Gaëlle Venard, Elli-Anastasia Lamprianidou, Cindy Eira Nunes, Maria del Rio Carral, Stijn Van Petegem e Grégoire Zimmermann, Family Relations, vol. 75, no 1 (2026), doi: 10.1111/fare.70075, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista, falas traduzidas a partir do inglês). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Contemporary parenting norms and coparenting coordination: Exploring narratives of parents of adolescents”, publicado em Family Relations (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Venard, G., Lamprianidou, E.-A., Eira Nunes, C., del Rio Carral, M., Van Petegem, S., et Zimmermann, G. (2026). Normas parentais contemporâneas e coordenação coparental: explorando narrativas de mães e pais de adolescentes (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/normas-parentais-contemporaneas-e-coordenacao-coparental-explorando-narrativas-de-maes (Obra original publicada em 2025 em Family Relations, 75(1), 277-300 (2026); republicada em 2026 por Family Relations, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/fare.70075)
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