Journal of Child and Family Studies · Família

O papel dos processos sensoriais e narrativos no bem-estar e no pertencimento de jovens em situação de refúgio: uma revisão de escopo

Música, dança, desenho, fantoches, poesia, histórias contadas: o que essas mediações fazem por crianças e jovens que fugiram da guerra ou da perseguição? Anna Gilleard e colegas, em Leeds, reúnem quinze estudos realizados em quatro continentes. Encontram conexões sociais que reparam, agência recuperada, uma comunicação que vai além das palavras e uma ponte entre a cultura da família e a do país de acolhimento.

Autores Anna Gilleard (Leeds Institute of Health Sciences, Universidade de Leeds, e Leeds Teaching Hospitals NHS Trust, Reino Unido); Luise V. Marino (Pesquisa e Desenvolvimento, South West Yorkshire Partnership NHS Foundation Trust, Hospital Fieldhead, Wakefield, Reino Unido); Tracey Smith (direção das profissões psicológicas, South West Yorkshire Partnership NHS Foundation Trust, Leeds, Reino Unido); David Turgoose (Programa de Psicologia Clínica, Leeds Institute of Health Sciences, Faculdade de Medicina, Leeds, Reino Unido)Primeira publicação Journal of Child and Family Studies, 17 de setembro de 2025Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de O papel dos processos sensoriais e narrativos no bem-estar e no pertencimento de jovens em situação de refúgio: uma revisão de escopo, de Anna Gilleard, Luise V. Marino, Tracey Smith e David Turgoose, publicado na Journal of Child and Family Studies (Springer) (2025), doi: 10.1007/s10826-025-03145-5, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As duas tabelas são apresentadas em forma de listas (os termos de busca da tabela 1 permanecem em inglês); as duas figuras permanecem em inglês, com legendas traduzidas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Pertencer ao lugar passado ou ao presente é melhor do que aquele que talvez seja o maior risco para a juventude: não pertencer a lugar nenhum.

Anna Gilleard, Luise V. Marino, Tracey Smith e David Turgoose

Resumo

Pesquisas anteriores destacaram o valor potencial das abordagens terapêuticas narrativas e do engajamento multissensorial com crianças e adolescentes em situação de refúgio. Foi realizada uma revisão de escopo para explorar o papel dos processos narrativos e sensoriais no senso de pertencimento, na integração social e no bem-estar da juventude refugiada. A busca em bases de dados identificou 307 registros, dos quais 15 foram incluídos na revisão final. A análise temática dos dados sintetizados encontrou 11 subtemas e 4 temas abrangentes relativos às formas pelas quais as abordagens narrativas e sensoriais apoiam o bem-estar e o pertencimento das pessoas refugiadas: (1) conexões sociais positivas e reparadoras, (2) conexões com a identidade cultural, (3) bem-estar e comunicação e (4) empoderamento juvenil. As abordagens narrativas e sensoriais podem promover o bem-estar, o desenvolvimento da identidade e conexões positivas com as novas culturas e comunidades de acolhimento da juventude refugiada e, por isso, podem ser integradas com proveito a futuras intervenções terapêuticas em contextos clínicos, educacionais e de assistência social. Pesquisas futuras devem explorar a experiência individual de identidade e pertencimento da criança, especificamente nos grupos refugiados mais jovens.

Pontos-chave

  • As abordagens sensoriais e narrativas têm benefício terapêutico para a juventude refugiada.
  • Jovens em situação de refúgio se engajam em processos sensoriais e narrativos como parte das interações sociais cotidianas, de um modo que parece favorecer conexões com culturas e comunidades passadas e presentes.
  • Esses processos podem ser incorporados com sucesso a intervenções de apoio, para favorecer o bem-estar, o pertencimento, a identidade e as conexões sociais positivas das pessoas refugiadas.

Palavras-chave: pessoas refugiadas, saúde mental, crianças, pertencimento, migração, narrativas, sentidos, bem-estar

Estima-se que haja no mundo cerca de 47 milhões de crianças e jovens em situação de refúgio fugindo de conflitos, violência e perseguição (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados [ACNUR], 2024). A vida das crianças está profundamente inscrita nos sistemas sociais que os conflitos desorganizam e corroem (Bennouna et al., 2020). Por isso, suas necessidades psicossociais provavelmente são complexas e exigem atenção (Frounfelker et al., 2020; Hodes e Vostanis, 2019). Este artigo adota a definição de “refugiado” da Convenção das Nações Unidas de 1951, para abranger todas as pessoas deslocadas à força em razão de conflito ou perseguição (ACNUR, 2011).

Processos narrativos

Os processos narrativos dizem respeito à forma como os indivíduos dão sentido à própria vida avaliando o passado e antecipando o futuro (Arvanitis e Yelland, 2021). As teorias narrativas sustentam que, individualmente e em grupo, construímos histórias (narrativas) por meio desses processos de produção de sentido (Riessman, 2008). O contexto social é considerado decisivo na construção narrativa, pois vemos nossa posição no mundo em relação às outras pessoas à nossa volta (Chen e Schweitzer, 2019; Draper et al., 2024). Narrativas também podem ser criadas por grupos para gerar formas compartilhadas de interpretar o mundo. Ao fazê-lo, cultivamos conexões sociais, identidades compartilhadas e pertencimento. As narrativas nos falam, portanto, das formas individuais e compartilhadas pelas quais as pessoas interpretam os mundos sociais que habitam, reivindicam identidades e os vivenciam (Riessman, 2008).

Pesquisas anteriores sugerem que as formas pelas quais jovens dão sentido ao conflito do qual escaparam têm papel importante na sua saúde mental (Bennouna et al., 2020). Crianças capazes de construir uma narrativa coesa sobre o que aconteceu podem se recuperar melhor do trauma vivido e se adaptar à vida após o reassentamento (Arvanitis e Yelland, 2021; Draper et al., 2024). Dar sentido ao passado pode apoiar a identidade em formação da criança e seu senso de segurança (Lock, 2016). O deslocamento, o desenraizamento e a insegurança da migração forçada perturbam experiências formativas da infância, como a educação, o desenvolvimento social e a experiência de uma base segura (Fantino e Colak, 2001; Lord e Muñoz, 2023). Diante disso, os processos narrativos podem ser importantes no reassentamento e no ajustamento psicossocial da juventude refugiada (Warshaw, 2019).

Os processos narrativos são usados nas terapias psicológicas para ajudar as pessoas a construir histórias positivas e desestigmatizantes, que tragam à luz a força pessoal, a singularidade, o enfrentamento e a resiliência; por isso, podem ser vistos como dotados de valor “terapêutico” (Mohammad e Samarah, 2024). Eles podem oferecer a jovens em situação de refúgio a oportunidade de reescrever o roteiro da própria vida e, em certo sentido, integrar o passado (o antigo lar) ao presente (o novo lar) (Rysst, 2016).

Resta saber em que medida essa integração psicológica do passado e do presente acompanha o processo de integração social de jovens em situação de refúgio. Integração social, nesse contexto, refere-se ao processo de formar conexões positivas compartilhadas, um senso de cidadania e de pertencimento à comunidade local (Ager e Strang, 2008). A integração social é vista como parte esperada da adaptação cultural (a “aculturação”) e considerada importante para o bem-estar geral (Oudshoorn et al., 2020). O bem-estar, nesse sentido, é considerado um indicador integral do bem-estar psicossocial que inclui recursos, saúde, vínculo e a necessidade de pertencer (Haswell, 2023; Maslow, 1962). A integração social pode favorecer experiências relacionais pró-sociais e ajudar a construir redes sociais (Ager e Strang, 2008). Isso abre a possibilidade de que novos discursos positivos sejam construídos, tanto para as próprias pessoas refugiadas quanto para a comunidade mais ampla, o que por sua vez poderia reduzir as atitudes negativas que ameaçam o senso de pertencimento e de inclusão das crianças (Mitchell et al., 2020). Do ponto de vista psicológico, pode ser igualmente importante que jovens em situação de refúgio mantenham conexões com a(s) cultura(s) de origem (Pieloch et al., 2016).

Processos sensoriais

Os processos sensoriais dizem respeito às formas pelas quais os seres humanos interagem com o ambiente externo por meio da percepção sensorial (Ayres e Robbins, 2005). Os principais sentidos são a visão, a audição, o paladar, o olfato, o tato, a propriocepção, o sentido vestibular e o sistema de percepção dos órgãos internos, a interocepção (Ayres e Robbins, 2005). Processos narrativos e sensoriais podem funcionar em paralelo: o processamento narrativo integra aspectos-chave dos nossos mundos subjetivos, enquanto o processamento sensorial integra o mundo externo ao interno. Diante disso, talvez não surpreenda que as histórias sejam muitas vezes contadas por meio de múltiplos processos sensoriais (Chen e Schweitzer, 2019).

O processamento multissensorial também participa do desenvolvimento do autoconceito: aprendemos quem somos no mundo por meio de experiências corporificadas de si (Scheller e Sui, 2022; Serino, 2019). Contar histórias com brinquedos, materiais de arte e objetos de brincadeira tem sido usado terapeuticamente para fortalecer conexões sociais e vínculos entre crianças (Creegan e Cuthbert, 2014). O próprio brincar mobiliza uma série de modalidades sensoriais e é reconhecido como favorável ao bem-estar de crianças em situação de refúgio, como parte fundamental do desenvolvimento psicossocial infantil (Allport et al., 2019).

Narrativas pessoais complicadas

Há complexidades nas histórias de vida de jovens em situação de refúgio que podem implicar pertencer a redes sociais complicadas (Chen e Schweitzer, 2019): por exemplo, pertencer a uma minoria perseguida, identificar-se com uma milícia ou um grupo terrorista, o recrutamento como criança-soldado ou pertencer a uma comunidade abalada e dividida (Creegan e Cuthbert, 2014; Rutter, 2003). Nesse sentido, o pertencimento nem sempre é vivido como positivo; pode, ao contrário, estar ligado à necessidade, à sobrevivência, à exclusão ou à vergonha (McIntyre, 2024).

As posições sociais relativas de onde as crianças vêm também influenciam essas atribuições de pertencimento (Vitus, 2022). Vir de uma família com posição social relativamente elevada pode fazer da herança familiar um recurso positivo para jovens. Laços familiares mantidos com firmeza, que apoiam e nutrem, podem oferecer uma base segura e um roteiro familiar positivo a partir dos quais viver o pertencimento e o bem-estar (Haswell, 2023). Para outras crianças em situação de refúgio, porém, futuros incertos e contestados trarão dificuldades persistentes, que tornam a relação com o “lar” e com o lugar a que “pertencem” complexa, ambígua e dolorosa (Arvanitis e Yelland, 2021). Consequentemente, a capacidade das crianças de escolher sua identidade e seus lugares de pertencimento será moldada pelas circunstâncias sociais que continuam atravessando (Chase, 2020).

A presente revisão

Engajar-se na construção de narrativas e na expressão criativa multissensorial pode apoiar crianças em situação de refúgio diante desses desafios (Goodman e Dent, 2019; Warshaw, 2019). Não existe hoje nenhuma revisão que reúna esses processos para essa população. Seria útil, portanto, consolidar o conhecimento sobre os processos narrativos e sensoriais em jovens em situação de refúgio e avaliar se eles podem favorecer o bem-estar, o pertencimento e a integração social. Isso pode ajudar a orientar os tipos de apoio oferecidos à juventude refugiada em contextos educacionais, clínicos e de assistência social, incluindo o desenho de futuras intervenções terapêuticas e os esforços para favorecer a integração social.

Métodos

Optou-se por uma revisão de escopo por ser adequada para sintetizar pesquisas de uma variedade de abordagens metodológicas e disciplinas acadêmicas. Esta revisão buscou responder às duas perguntas de pesquisa a seguir:

  1. O que se sabe sobre o papel dos processos narrativos e sensoriais com jovens em situação de refúgio?
  2. Como essas abordagens podem afetar o pertencimento, a integração social e o bem-estar?

Estratégia de busca

Uma busca preliminar no Google Acadêmico e no PsycINFO confirmou que não havia revisões publicadas sobre o tema e identificou artigos-chave. Termos-chave e descritores foram gerados com o referencial SPIDER (Cooke et al., 2012). Eles definiam a forma como os três desfechos avaliados são conceituados na literatura. O referencial SPIDER definiu a amostra (Sample: crianças e adolescentes em situação de refúgio), os fenômenos de interesse (Phenomena of Interest: processos sensoriais e narrativos), a avaliação (Evaluation: desfechos de bem-estar, incluindo pertencimento e integração social) e o tipo de pesquisa (Research type: todos os delineamentos, incluindo estudos qualitativos, quantitativos, mistos, de intervenção, observacionais e naturalísticos) (tabela 1).

Tabela 1 — Estratégia de busca (termos de busca em inglês, tal como usados nas bases de dados)

  • Amostra. Unaccompanied minor*, refugee youth, refugee children*, refugee young*, child migrant*, young migrant*, asylum seek* child
  • AND
  • Fenômeno de interesse 1. (Sensory stor*, sensory experience*, senses, sensory memor*, smell*, taste*, touch, sound*, music, image*, song*
  • OR
  • Fenômeno de interesse 2. Intervenção 2: Storytelling, narrative*, story, stories, “tree of life”, “river* of experience”)
  • AND
  • Avaliação. Social integration, social connection, belonging, connection, mental health, well?being, social inclusion, home

Estudos revisados por pares e teses de doutorado foram buscados nas seguintes bases de dados Ovid: Social Science, Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), PsycInfo, Embase e MEDLINE. As buscas foram realizadas em agosto e setembro de 2024.

Seleção dos estudos

A triagem por título e resumo e, depois, por texto completo foi feita predominantemente por uma pessoa da equipe (AG), em consulta com a equipe de pesquisa. As duplicatas foram eliminadas e os artigos em texto completo foram avaliados para inclusão com o referencial SPIDER, aplicando os seguintes critérios de inclusão: (1) qualquer delineamento de estudo; (2) língua inglesa; (3) crianças e adolescentes em situação de refúgio (0-18 anos); (4) inclusão de processos narrativos ou sensoriais; (5) avaliação do bem-estar, do pertencimento ou da integração social. Nenhum intervalo de datas de publicação foi especificado na busca. Revisões sistemáticas não foram incluídas, mas as referências das revisões pertinentes foram examinadas manualmente em busca de citações anteriores que pudessem preencher os critérios de inclusão. Os artigos foram excluídos quando: (1) não estavam em inglês; (2) não tinham relação com jovens em situação de deslocamento forçado, de refúgio ou de solicitação de asilo (por exemplo, pessoas migrantes, adultos com mais de 19 anos); (3) não continham processos sensoriais ou narrativos; (4) não continham desfechos de bem-estar, pertencimento ou integração social.

Após a remoção dos registros duplicados, 307 títulos e resumos foram triados para inclusão. Os textos completos de 58 artigos foram avaliados segundo os critérios SPIDER e, por fim, 15 estudos (datados de 2003 a 2024) foram incluídos na revisão final. A figura 1 documenta o processo de revisão com um fluxograma PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses), modificado para incorporar a “recuperação” dos artigos àqueles “avaliados” quanto à elegibilidade (Moher et al., 2009).

Fluxograma PRISMA em quatro etapas: 308 registros identificados e sem duplicatas; 307 triados pelo resumo, dos quais 248 excluídos (amostra não refugiada, 35; amostra não infantil, 39; sem elemento sensorial ou narrativo, 151; sem desfecho de bem-estar ou pertencimento, 23); 58 textos completos avaliados, dos quais 43 excluídos (sem elemento sensorial, 33; sem tradução em inglês, 3; amostra não infantil, 2; população não refugiada, 5); 15 estudos incluídos na síntese
Figura 1. Fluxograma PRISMA modificado, baseado nas diretrizes de relato da seleção de estudos (Moher et al., 2009) (esquema original em inglês)

Síntese dos dados

Foram extraídos dados sobre o delineamento do estudo, o objetivo, as pessoas participantes, o local, os principais resultados e as lacunas de evidência relativas aos fenômenos de interesse. A revisão empregou uma análise temática para relatar temas comuns na literatura (Braun e Clarke, 2006; Pollock et al., 2023). A extração de dados e a análise temática foram feitas no Microsoft Excel. A análise temática buscou captar os aspectos descritivos, a metodologia e os principais resultados dos estudos incluídos. Um processo de codificação em quatro etapas foi usado para codificar os dados em subtemas e temas abrangentes, a fim de desenvolver um referencial conceitual:

Etapa 1: uma amostra inicial de códigos brutos relativos aos fenômenos e à avaliação de interesse passou por codificação aberta, feita por duas pessoas da equipe (AG e LVM). Etapa 2: os códigos foram transformados em categorias subordinadas e um referencial inicial foi compilado (AG e LVM). As discordâncias entre temas foram resolvidas com uma terceira pessoa da equipe (DT). Etapa 3: o referencial de melhor ajuste orientou a categorização de todas as categorias dos dados em subtemas (AG), com refinamento adicional (LVM e DT). Etapa 4: os temas abrangentes foram identificados. Os subtemas foram contados para identificar e equilibrar o peso respectivo dentro de cada tema abrangente. Houve considerável sobreposição nos dados ricos sobre os componentes sensoriais das intervenções estudadas e os desfechos de bem-estar. Os temas abrangentes foram usados para desenvolver um referencial conceitual.

Resultados

Características dos estudos

Os 15 estudos incluídos consideraram (a) processos sensoriais e narrativos (n = 2) ou (b) apenas processos sensoriais (n = 13), e como esses processos afetam o pertencimento, a integração social e o bem-estar. O bem-estar foi definido em sentido amplo, incluindo desfechos de saúde mental, integração social, agência, identidade e pertencimento (Dhillon et al., 2020; Heynen et al., 2022; Beauregard et al., 2024). Os processos sensoriais foram descritos sobretudo em termos de métodos de artes criativas, alguns dos quais também continham princípios narrativos incorporados (Quinlan et al., 2016; Beauregard et al., 2017; Kevers et al., 2022). A revisão incluiu n = 9 estudos qualitativos (Beauregard et al., 2017; Bujorbarua, 2020; Dhillon et al., 2020; Enge e Stige, 2022; Heynen et al., 2022; Marsh e Dieckmann, 2017; Norton e Sliep, 2019; Phillips, 2021; Rousseau et al., 2003), n = 4 estudos quantitativos (Gerber et al., 2014; Kevers et al., 2022; Meyer DeMott et al., 2017; Quinlan et al., 2016) e n = 2 estudos de métodos mistos (Grasser et al., 2019; Kwon e Lee, 2018). Os estudos vieram de vários países e foram todos publicados entre 2003 e 2024. Dos estudos qualitativos, n = 2 eram etnografias (Marsh e Dieckmann, 2017; Dhillon et al., 2020) e n = 1 era uma pesquisa-ação participativa (Norton e Sliep, 2019). Vários eram estudos de caso focados ou de um único local dentro de um projeto mais amplo (multicasos) (Rousseau et al., 2003; Enge e Stige, 2022). O tamanho das amostras variou de n = 1 (Beauregard et al., 2024) e n = 145 (Meyer DeMott et al., 2017) até duas escolas com participação integral. As idades variaram de cerca de 5 a 18 anos (tabela 2).

Tabela 2 — Características dos estudos incluídos (n = 15)

  • Dhillon et al. (2020), Canadá. Objetivo: examinar o uso do movimento físico para favorecer a criatividade e as conexões sociais; delineamento: estudo etnográfico observacional de um programa comunitário de artes em ambiente escolar; participantes: N = 17 jovens em situação de refúgio (gêneros mistos, n.e.), 11-18 anos, do Afeganistão, Bósnia, Congo, República Dominicana, Eritreia, Haiti, Iraque, Somália e Síria; elemento sensorial: auditivo, vestibular (música, dança); principais resultados: a dança e o movimento corporal aumentaram as conexões sociais e a aculturação desse público jovem.
  • Beauregard et al. (2024), Canadá. Objetivo: avaliar como uma menina refugiada se engajou em artes expressivas mistas e se isso favoreceu empoderamento, agência e bem-estar; delineamento: estudo observacional de caso único de uma criança matriculada num programa escolar de artes criativas com múltiplos métodos; participante: N = 1 menina, 7 anos, da Síria; elementos sensoriais: tátil, auditivo, visual (contação de histórias, brincadeira, fantoches, desenhos); elementos narrativos: contação de histórias; principais resultados: a introdução dos fantoches ajudou a participante a expressar sentimentos, descrever e construir sentido à medida que narrativas pessoais eram exploradas; as artes participativas criativas apoiaram o bem-estar; sinais de maior autocontrole mais adiante no programa.
  • Bujorbarua (2020), Estados Unidos. Objetivo: explorar a criação de histórias e o bem-estar de crianças em situação de refúgio por meio do movimento e da dança; delineamento: estudo de intervenção de oficinas de movimento e dança num centro comunitário; participantes: N = 2 crianças em situação de refúgio (1 menino, 1 menina), com chegada havia menos de 5 anos, 7 e 11 anos, do Iraque; elementos sensoriais: visual, vestibular, auditivo, tátil; principais resultados: mais alegria, habilidades de comunicação, regulação emocional, autoestima e autoconsciência; o movimento favoreceu conexões entre pares e a autoexpressão; as crianças mobilizaram múltiplos modos sensoriais de expressão nas oficinas.
  • Heynen et al. (2022), Países Baixos. Objetivo: avaliar a implementação e os efeitos percebidos de uma intervenção escolar de musicoterapia sobre a conexão social e os afetos; delineamento: estudo de intervenção de um programa de musicoterapia; participantes: N = 108 jovens em situação de refúgio (gênero n.e.), 6-17 anos, da Síria, do Irã, da Eritreia e de outros países n.e.; elemento sensorial: auditivo (música); principais resultados: segundo relatos do corpo docente, o grupo de musicoterapia reduziu afetos negativos e fortaleceu o senso de conexão e pertencimento; observou-se no grupo de musicoterapia um senso de solidariedade, inclusão e preservação da identidade cultural.
  • Gerber et al. (2014), Kosovo. Objetivo: avaliar o efeito de um programa comunitário de música sobre a saúde mental de jovens no Kosovo pós-conflito; delineamento: estudo de intervenção de um programa escolar de música; participantes: N = 74 jovens em situação de deslocamento forçado (32 meninas, 42 meninos), 8-18 anos, da Albânia; elemento sensorial: auditivo (música); principais resultados: no seguimento de um ano, as crianças do programa de música apresentaram menos dificuldades de humor e cognitivas e menos sintomas de TEPT do que as que não participaram; apoio social e senso de unidade comunitária gerados pelo programa.
  • Grasser et al. (2019), Estados Unidos. Objetivo: avaliar a terapia por dança e movimento para reduzir dificuldades de saúde mental (estresse e sintomas traumáticos) no grupo comunitário; delineamento: estudo de intervenção de um grupo de terapia por dança e movimento; participantes: N = 16 jovens em situação de refúgio (8 meninas, 8 meninos), 7-14 anos, com chegada havia 2 anos em média, da Síria; elementos sensoriais: vestibular, tátil (dança); principais resultados: efeitos positivos sobre a saúde mental; a dança aumentou a coesão do grupo e a expressão; a dança foi descrita como um método culturalmente aceitável e inclusivo de envolver jovens em situação de refúgio.
  • Quinlan et al. (2016), Austrália. Objetivo: avaliar uma terapia escolar por artes criativas para jovens em situação de refúgio em termos de bem-estar psicológico; delineamento: estudo de intervenção de um programa de grupo de artes criativas; participantes: N = 42 jovens em situação de refúgio (gêneros mistos, n.e.), idade média de 15 anos, amplitude n.e., com chegada havia 4 a 11 meses, do Oriente Médio, da África e da Ásia; elemento sensorial: sentidos mistos; principais resultados: redução das dificuldades comportamentais e do sofrimento psicológico (HSCL-25, SDQ); as escolas ofereciam um ambiente seguro.
  • Rousseau et al. (2003), Canadá. Objetivo: investigar o uso da contação de histórias e da expressão criativa como ferramentas terapêuticas para crianças imigrantes e em situação de refúgio recém-chegadas; delineamento: estudo de intervenção de oficinas de contação de histórias e expressão criativa; participantes: N = 40 crianças em situação de refúgio, dois grupos de idade, 6-7 anos (n = 19) e 11-12 anos (n = 21); elemento sensorial: auditivo (histórias contadas); elementos narrativos: contação de histórias, mitos; principais resultados: jovens em situação de refúgio recorrem a uma grande variedade de referentes míticos, que ajudam as crianças a representar melhor as distâncias entre casa e escola, passado e presente, e criam a possibilidade de hibridizar seus mundos; os mitos ofereceram conexões identitárias entre a realidade interior e o mundo social.
  • Kwon e Lee (2018), Coreia do Sul. Objetivo: investigar o papel do brincar e de métodos criativos mistos na recuperação psicológica, no bem-estar e na cura; delineamento: estudo de intervenção de ludoterapia com métodos criativos mistos; participantes: N = 4 meninas refugiadas, 8-9 anos, da Coreia do Norte; elemento sensorial: tátil (brincar); principais resultados: o brincar favoreceu a expressão emocional e o bem-estar e reduziu as dificuldades internalizantes e externalizantes.
  • Enge e Stige (2022), Noruega. Objetivo: explorar como a participação na musicoterapia pode contribuir para o bem-estar social de crianças em situação de refúgio e para sua experiência de comunidade entre pares; delineamento: estudo de intervenção com quatro crianças num programa escolar mais amplo de musicoterapia; participantes: N = 4 crianças em situação de refúgio (2 meninas, 2 meninos), 8-12 anos, com chegada havia de 6 meses a 4 anos, país de origem n.e.; elemento sensorial: auditivo (música); principais resultados: as crianças mostraram participação social pelo compartilhamento e pelo prazer mútuo da música; a colaboração foi um elemento-chave da musicoterapia, mas apresentou alguns desafios; as músicas pop criaram capital cultural compartilhado.
  • Phillips (2021), Reino Unido. Objetivo: explorar o papel de projetos de artes visuais para o bem-estar de pessoas refugiadas; delineamento: estudo observacional de participantes de um projeto de artes visuais (colorir mandalas e desenho livre); participantes: N = 8 pessoas refugiadas de idades (crianças e adultos) e origens variadas, falantes de árabe e farsi, de vários países n.e., entre eles o Irã; elemento sensorial: visual (arte, desenho); principais resultados: segundo os relatos qualitativos, colorir favoreceu o bem-estar, aumentou a autoexpressão e reduziu o estresse; a reflexão e a distração ajudaram nesse processo.
  • Norton e Sliep (2019), África do Sul. Objetivo: avaliar a utilidade da pesquisa-ação participativa narrativa com jovens em situação de refúgio; delineamento: pesquisa-ação participativa com oficinas de expressão criativa e poesia; participantes: N = 21 jovens em situação de refúgio (gêneros mistos, n.e.), idade média de 14 anos, amplitude n.e., de vários países n.e., entre eles a República Democrática do Congo; elemento sensorial: auditivo (poesia); elemento narrativo: sentido compartilhado e diálogo; principais resultados: a poesia ajudou a revelar a narrativa compartilhada; foi descrita como veículo de diálogos sociais reparadores, conexão social, coconstrução de sentido, agência compartilhada e força após a adversidade.
  • Meyer DeMott et al. (2017), Noruega. Objetivo: examinar se intervenções de artes expressivas podem aliviar sintomas traumáticos e aumentar indicadores de bem-estar; delineamento: estudo de intervenção de um programa de artes expressivas; participantes: N = 145 meninos solicitantes de asilo desacompanhados, 15-18 anos, chegados havia 3 a 6 semanas, do Afeganistão, Somália, Irã, Saara Ocidental, Palestina e Argélia; elemento sensorial: sentidos mistos; principais resultados: no grupo de intervenção, os sintomas traumáticos (PTSS) e o sofrimento psicológico (HSCL-25A) diminuíram, enquanto a satisfação com a vida e o senso de controle aumentaram; os efeitos da intervenção se desenvolveram gradualmente ao longo do estudo; as artes ajudaram os meninos a reconstruir sentido e a desenvolver conexões sociais.
  • Marsh e Dieckmann (2017), Austrália. Objetivo: investigar como o brincar musical pode apoiar conexões com a identidade cultural, a participação e a inclusão social; delineamento: estudo etnográfico observacional do canto no pátio e na escola; participantes: N = 63 estudantes em situação de refúgio ou não (observação próxima dentro de uma escola primária inteira), idades do ensino fundamental, n.e., majoritariamente do Iraque (26%), e também da Bósnia e Herzegovina, Afeganistão, Sudão, Serra Leoa, RDC, Nigéria, Uganda, Libéria, Irã, Timor-Leste e Mianmar; elemento sensorial: auditivo (música, canto); principais resultados: o canto facilitou a participação social e a integração; o brincar musical cria um lugar onde jovens em situação de refúgio podem pertencer e formar conexões entre a cultura de acolhimento e a de origem.
  • Kevers et al. (2022), Bélgica. Objetivo: avaliar como a expressão criativa pode apoiar a saúde mental infantil e as relações sociais em sala de aula; delineamento: estudo de intervenção (ensaio randomizado por conglomerados) de um programa de expressão criativa; participantes: N = 120 crianças de origem migrante, 47% em situação de refúgio e 53% de famílias imigrantes (1ª a 3ª geração), 8-12 anos, com chegada havia de menos de 1 ano a 10 anos, da Síria e do Afeganistão; elemento sensorial: sentidos mistos; principais resultados: as crianças em situação de refúgio mostraram maior redução dos sintomas de TEPT do que as crianças imigrantes sem condição de refúgio; 11% do grupo de intervenção passaram de níveis clínicos para subclínicos de sintomas de TEPT; o grupo expressivo melhorou o clima da sala de aula; o clima da sala melhorou para as crianças do grupo.

n.e.: “não especificado”.

Processos narrativos e sensoriais da juventude refugiada

A partir de 45 códigos iniciais, a análise temática identificou, na literatura revisada, 11 subtemas e 4 temas abrangentes sobre o papel das abordagens narrativas e sensoriais e sua relação com desfechos de bem-estar. Esses temas foram reunidos num referencial conceitual que descreve como as abordagens narrativas ou sensoriais podem afetar o bem-estar, a integração social e o pertencimento de jovens em situação de refúgio (figura 2).

Esquema encabeçado pelo título “Abordagens narrativas e sensoriais”, com quatro temas abrangentes e seus subtemas: conexão social positiva e reparadora (segurança e proteção social; superar divisões sociais); a expressão criativa como empoderamento (ser conduzido pela criança; aumentar a agência das crianças; unir o individual e o coletivo); bem-estar e comunicação (a expressão ocorre por múltiplos sentidos; um meio de comunicar; os sentidos ajudaram o processo narrativo); conexões com a identidade cultural (criar novos pontos em comum com os pares; cultivar uma identidade cultural compartilhada; conexões sensoriais com a cultura familiar)
Figura 2. Referencial conceitual dos temas emergentes: as formas pelas quais as abordagens narrativas e sensoriais podem promover o pertencimento e o bem-estar de jovens em situação de refúgio (esquema original em inglês)

Conexões sociais positivas e reparadoras

Segurança e proteção social

O apoio entre pares e o senso de conexão foram favorecidos pela música e pela dança praticadas em conjunto (Dhillon et al., 2020; Gerber et al., 2014; Heynen et al., 2022). Dhillon et al. (2020) descreveram como os grupos de música criavam respeito mútuo e atenção compartilhada. Heynen et al. (2022) observaram conexão social e pertencimento por meio da descoberta mútua dos talentos de cada participante, do compartilhamento de histórias e do apoio às contribuições dos demais. A equipe de pesquisa relatou que esse tipo de engajamento musical compartilhado melhorou a percepção do clima geral da sala de aula por jovens em situação de refúgio, o que sugere que as crianças das comunidades locais e das recém-chegadas compartilhavam, por meio da música, aspectos de sua identidade de um modo que apoiava o pertencimento de todas as pessoas (Heynen et al., 2022).

Superar divisões sociais

As oportunidades de estabelecer conexões interculturais podem ser mais acessíveis por meio de formas não verbais de expressão. Observou-se que as crianças traziam instintivamente a música de seu país para as interações entre pares no pátio (Marsh, 2017). As canções funcionavam como veículo de participação social, acolhendo e celebrando a música de todas as nacionalidades. Isso foi relatado como uma experiência desestigmatizante, que favorecia a aculturação pelo aprendizado mútuo e pelo prazer compartilhado de culturas novas que, de outro modo, poderiam ser desconhecidas ou temidas (Marsh, 2017). As intervenções estudadas ocorriam, na maioria das vezes, nas escolas, amplamente descritas como um ambiente seguro para envolver as crianças (Quinlan et al., 2016). A escolarização pode oferecer a rotina e a estrutura essenciais para estabelecer segurança durante o reassentamento (Ehntholt e Yule, 2006; Arvanitis e Yelland, 2021).

A expressão criativa como empoderamento

Ser conduzido pela criança

As narrativas podem ser expressas por múltiplos meios criativos e sensoriais. Elas eram inteiramente conduzidas pela criança ou estimuladas pelo adulto, no caso das crianças mais novas (Beauregard et al., 2024). Embora muitos estudos definissem previamente a tarefa e os meios, as crianças muitas vezes assumiam a condução, dirigindo a atenção para seus modos de expressão preferidos.

Aumentar a agência das crianças

Os estudos descreveram o papel decisivo da escolha e da agência no processo de expressão criativa, multissensorial e narrativa. Mencionavam as oportunidades trazidas pela existência de múltiplos modos de expressão, que permitem a crianças e jovens determinar como e quando se expressar. Por exemplo, ao decidir quando entrar numa canção de grupo ou contribuir para uma história em construção, as crianças se tornavam mais criativas e espontâneas na participação, recorrendo a movimentos de dança, vocalizações e jogo dramático (Meyer DeMott et al., 2017; Bujorbarua, 2020). Isso parecia romper as barreiras linguísticas e os meios didáticos tradicionais de engajamento, o que pode ser benéfico no trabalho com jovens de línguas diversas em escolas e contextos comunitários (Bujorbarua, 2020; Heynen et al., 2022). Métodos criativos e narrativos como a poesia permitiram que jovens vivessem uma agência compartilhada e uma força coletiva após as dificuldades enfrentadas (Norton e Sliep, 2019).

Unir o individual e o coletivo

Em quatro dos estudos, a identidade surgiu como indicador-chave da mudança psicológica positiva trazida pelas intervenções criativas. Em alguns casos, tratava-se de uma identidade individual, como a expressão positiva da identidade por meio da música e das artes (Meyer DeMott et al., 2017; Enge e Stige, 2022). Em outros estudos, ela era pensada em termos de identidade coletiva, realizada ou coconstruída com pares em situação de refúgio de um modo que podia ser transformador (Marsh e Dieckmann, 2017; Norton e Sliep, 2019).

Bem-estar e comunicação

A expressão ocorre por múltiplos sentidos

Os estudos relataram que as abordagens sensoriais e narrativas produziram mudanças positivas numa série de indicadores de bem-estar. As intervenções criativas multissensoriais reduziram dificuldades psicológicas como o TEPT, o estresse, as emoções negativas e as dificuldades comportamentais (Gerber et al., 2014; Grasser et al., 2019; Heynen et al., 2022; Quinlan et al., 2016). Além de reduzir o sofrimento, as abordagens sensoriais e narrativas aumentaram outros desfechos positivos (Kevers et al., 2022; Beauregard et al., 2024). A dança aumentou a expressão emocional positiva, enquanto as artes expressivas mistas pareceram melhorar a empatia das crianças, sua satisfação com a vida e sua esperança no futuro (Meyer DeMott et al., 2017; Kwon e Lee, 2018; Bujorbarua, 2020).

Um meio de comunicar

As capacidades de comunicação se ampliaram com a introdução de múltiplas modalidades de expressão. Por exemplo, numa oficina de expressão criativa, os fantoches aumentaram o conforto, o engajamento e a autoexpressão das crianças (Beauregard et al., 2024). As múltiplas modalidades sensoriais foram descritas como apoio a uma expressão espontânea, livre e criativa das crianças (Bujorbarua, 2020). Isso reforçou ainda mais a confiança da criança e a expressão de suas forças pessoais (Meyer DeMott et al., 2017).

Os sentidos ajudaram o processo narrativo

Os métodos de artes criativas descritos nos estudos traziam vários elementos sensoriais que ajudavam o processo narrativo. A visão estava presente nas artes visuais, como desenho e pintura (n = 8 estudos), e na arte digital, como fotografia e filme (n = 2). Os processos auditivos estavam presentes nos métodos baseados em música (n = 7), contação de histórias (n = 6) e poesia (n = 2). Os processos vestibulares estavam presentes nos métodos baseados em dança (n = 5) e teatro (n = 4). Os elementos táteis estavam presentes nos métodos baseados no brincar (n = 3), em fantoches ou brinquedos (n = 2) e em modelagem ou construção com massinha (Play-Doh), tecidos e areia (n = 2). Cinco estudos mobilizaram múltiplas modalidades sensoriais em intervenções de artes expressivas mistas (n = 5).

As múltiplas modalidades sensoriais também foram usadas para complementar ou ampliar as capacidades narrativas de jovens em situação de refúgio, para comunicar sentimentos e obter um senso de controle sobre suas experiências (Beauregard et al., 2024): por exemplo, construir uma cena imaginada de uma história por meio de diferentes sentidos, criar uma “colcha de retalhos” de memórias da própria vida ou desenhar parte de uma história (Rousseau et al., 2003; Kevers et al., 2022). Isso sugere que as crianças podem mobilizar múltiplas modalidades sensoriais para se conectar positivamente a partes importantes de sua vida e a seu lugar no mundo (Mitchell et al., 2020).

Conexões com a identidade cultural

Criar novos pontos em comum com os pares

As abordagens sensoriais e narrativas ofereceram um meio de conexão com a cultura familiar das crianças e com a cultura do país de acolhimento. Os meios multissensoriais foram descritos como úteis mediadores culturais: por exemplo, compartilhar a música, os jogos e as comidas da própria cultura de origem e, em troca, apreciar os emblemas culturais da comunidade de acolhimento (Meyer DeMott et al., 2017).

Cultivar o senso de uma identidade cultural compartilhada

A música criou pontes culturais e linguísticas nos pátios escolares. Canções populares da comunidade de acolhimento eram cantadas coletivamente, e algumas delas já eram conhecidas de estudantes em situação de refúgio, apesar da nova língua (Marsh e Dieckmann, 2017). A reciprocidade que a canção torna possível pode funcionar como uma forma de capital cultural (Enge e Stige, 2022). Criar pontos em comum pode ajudar jovens em situação de refúgio a se conectar e a sentir que pertencem ao novo mundo social. Canções, jogos e brincadeiras pareceram ser meios-chave para que as crianças pequenas fizessem isso (Kwon e Lee, 2018; Rousseau et al., 2003).

Conexões sensoriais com a cultura familiar

As artes multimídia permitiram que crianças em situação de refúgio se conectassem a aspectos de sua família e das culturas de origem. Os referentes culturais eram explicitamente visados nas intervenções estudadas ou observados por meio de uma série de processos sensoriais, incluindo mitos, desenho, artesanato, dança, canto, fantoches e brincadeira (Beauregard et al., 2024; Heynen et al., 2022).

Discussão

Os resultados desta revisão de escopo sugerem que há pelo menos quatro formas pelas quais os processos narrativos e sensoriais podem melhorar o bem-estar de jovens em situação de refúgio: (a) por conexões sociais positivas e reparadoras, (b) pela expressão criativa como empoderamento, (c) pelo bem-estar e pela comunicação e (d) por conexões com a identidade cultural. A literatura revisada descreve como as narrativas podem ser expressas por múltiplos meios criativos e sensoriais (Beauregard et al., 2024). As modalidades sensoriais visuais foram as mais empregadas como meio de contar histórias, por exemplo no desenho, na pintura, na fotografia e no teatro (Beauregard et al., 2024; Bujorbarua, 2020; Phillips, 2021). Isso se reflete na literatura neuropsicológica mais ampla, que em geral se concentra na visão, um sistema sensorial que se desenvolve mais tarde do que os outros sentidos (Hutmacher, 2019). Como sentido distal, a visão ganha importância quando exploramos ativamente o ambiente e interagimos com ele, ao contrário dos sentidos proximais, como o tato e o olfato, que comunicam imediatamente “a mamãe está aqui” ou “estou em segurança”. Jovens em situação de refúgio podem, portanto, ter mais facilidade para se conectar, pela via visual, às experiências fundadoras de cuidado, apego e pertencimento do início da vida (Cowie e Mitchell, 2021).

O uso do olfato e do paladar como processos sensoriais foi menos bem descrito. Embora esses sentidos não fossem o foco explícito da intervenção, Kwon e Lee (2018) observaram que eles eram ativados pelas brincadeiras com comida. As meninas demonstravam cuidado umas com as outras criando e compartilhando comidinhas de massinha. Isso tem sido observado mais amplamente em crianças afetadas por trauma, que podem expressar necessidades de cuidado por meio de encenações lúdicas (Hyder, 2005). Como a informação sensorial está fortemente ligada à memória emocional, seria razoável sugerir que, para uma parte da juventude refugiada, conectar-se no presente a essas memórias de cheiros e sabores pode ajudar a reencontrar os sentimentos positivos do passado: família, pertencimento, conforto e lar (Akhtar, 2011; Wallace e Lewis, 2020).

Criar agência e escolha

A revisão destacou a importância da escolha e da agência da criança para decidir quando e como se expressar. Oferecer múltiplos meios sensoriais amplia o leque de comunicação possível, enquanto depender apenas da linguagem verbal e da língua do país de acolhimento limita a comunicação de jovens em situação de refúgio (Ayob e Omidire, 2021). A maior parte da juventude refugiada vem de lares onde pouco ou nada da língua nacional é falado (Rutter, 2006). Incluir a língua materna das crianças, ou outros meios criativos não verbais, aumentará a inclusão de crianças de origens linguísticas e culturais diversas em atividades educacionais, de saúde e sociais (Radjack et al., 2020).

Criar oportunidades para que as crianças exerçam escolhas e preferências pode ser decisivo para o sucesso dos esforços de promover o pertencimento entre pares, a coesão social e a integração de jovens em situação de refúgio (Wallace e Lewis, 2020; Sevón et al., 2023). Isso pode ser especialmente importante para esse grupo de crianças, cujas vozes são sistematicamente marginalizadas nas esferas públicas e políticas mais amplas (Norton e Sliep, 2019; Frounfelker et al., 2020). Crianças que viveram a migração forçada podem ser colocadas num estado de entre-lugar, com menos escolha sobre a quem e a quê podem pertencer (Maine et al., 2021). Ter liberdade para se comunicar por meios multissensoriais pode ajudar as crianças a reavaliar questões de migração e identidade transcultural de um modo que as transforme de crianças a quem se faz em crianças que fazem (Alfano et al., 2018). A escolha e a agência podem ajudar as crianças a construir suas próprias identidades e subjetividade, independentemente das que são prescritas pela sociedade mais ampla (Chase, 2020).

Conexões sensoriais e narrativas com a cultura

As abordagens narrativas revelaram as distâncias entre casa e escola, por exemplo nos personagens e mitos distintos descritos nas histórias das crianças (Rousseau et al., 2003). Isso revela as identidades culturais duplas, e muitas vezes concorrentes, com que jovens em situação de refúgio precisam lidar. Mas também evidencia o uso de ferramentas narrativas e processos sensoriais para cultivar um senso de identidade bicultural. Haswell (2023) descreve como, no contexto do reassentamento de pessoas refugiadas, encontrar o mundo social pelos sentidos pode favorecer o senso de pertencimento. Isso ocorre pela restauração no presente, pela manutenção dos vínculos com o passado e pela construção de esperanças para o futuro. As crianças usam a narração visual e verbal para descrever relíquias, objetos simbólicos e representações das diferentes culturas pelas quais passaram, incluindo as do novo país. Engajar-se em interações multissensoriais corporificadas com os pares pode ajudar jovens a sentir que pertencem a múltiplas culturas e, com isso, gerar afetos positivos, realização e um senso de continuidade na narrativa de vida (Haswell, 2023).

Pertencimento e identidade

O pertencimento permite que as crianças percebam o mundo como estável, controlável e situado no lugar físico onde vivem (Erwin et al., 2024). Na literatura revisada, o pertencimento surgiu como uma dimensão importante da forma como crianças em situação de refúgio constroem redes sociais e comunitárias, por meio dos pares e da escola, mas também nas novas comunidades locais. A literatura mais ampla corrobora o papel do pertencimento na mediação dos desfechos de saúde e bem-estar das pessoas refugiadas, em especial o pertencimento ao grupo de pares e à escola (Draper et al., 2024; McIntyre, 2024).

As crianças buscam laços sociais por meio de práticas corporificadas de inclusão, às quais outras pessoas no ambiente compartilhado respondem (Maine et al., 2021). Viver a própria cultura como incluída e, ao mesmo tempo, ter lugar na cultura local, na escola ou em outros espaços sociais, pode ser reparador diante das divisões entre quem é de dentro e quem é de fora que permeiam os discursos sociais sobre condição de refugiado, cidadania e etnia (Erwin et al., 2024). A criança em situação de refúgio, entre (pelo menos) dois mundos culturais, pode encenar e viver o pertencimento por meio dessas formas de inclusão social. Isso evidencia a natureza múltipla do pertencimento. O lugar a que se pertence está em negociação constante, sobretudo nos momentos de migração (Geng et al., 2012; Haswell, 2023). O pertencimento é importante não apenas para o bem-estar subjetivo das crianças, mas também como traço da organização social (Mitchell et al., 2020; Oudshoorn et al., 2020). Coconstruir identidades compartilhadas no exílio pode favorecer a coesão social e a reparação (Maine et al., 2021). Novos conceitos de cidadania podem surgir de modo protetor e reparador, tanto para as comunidades locais quanto para as que chegam (Mitchell et al., 2020; Erwin et al., 2024).

As abordagens multissensoriais e narrativas podem permitir que as crianças transitem por identidades que se cruzam de forma nova, desenvolvendo talvez o senso de que “posso pertencer tanto a lá quanto a aqui”. De fato, pertencer ao lugar passado ou ao presente é melhor do que aquele que talvez seja o maior risco para a juventude: não pertencer a lugar nenhum (Jones et al., 2020). Pode-se argumentar que o pertencimento é uma espécie de pré-requisito para o desenvolvimento de uma identidade positiva (Maine et al., 2021). Para jovens em situação de refúgio, o pertencimento pode ajudar a reparar parte do deslocamento psicológico e das “clivagens” migratórias que a migração forçada cria nas narrativas identitárias das crianças (Radjack et al., 2020).

Ao mesmo tempo, é importante ter em mente a contribuição não só das histórias pessoais, mas também de fatores socioculturais mais amplos na formação das narrativas da juventude refugiada (Chen e Schweitzer, 2019). A disponibilidade e o peso relativo das diferentes pertenças a grupos e lugares variarão de jovem para jovem. A atenção a essas nuances e a essa complexidade apoiará a agência de jovens na construção de suas narrativas pessoais (Warshaw, 2019).

Limitações

A literatura revisada relatou uma ampla gama de metodologias, de qualidade variável. Os estudos incluídos eram, em sua maioria, descritivos e careciam de detalhamento analítico. Muitos relatavam abertamente os benefícios das abordagens multissensoriais e narrativas estudadas, mas não tratavam dos desafios ou obstáculos que essas abordagens enfrentam, deixando de lado a análise crítica necessária. Nos estudos quantitativos, os vieses foram pouco relatados, e pouco esforço foi feito para corrigi-los quando haviam sido reconhecidos (Turner et al., 2013).

Outra limitação possível foi a amplitude dos desfechos revisados. O bem-estar foi operacionalizado de várias maneiras, de desfechos clínicos a construtos mais abstratos, como identidade e agência, enquanto o pertencimento e a integração social foram definidos com mais clareza. Ainda assim, o bem-estar recebeu comparativamente menos peso nos resultados e, por isso, talvez mereça uma revisão própria no futuro.

Todos os estudos, exceto um, examinaram desfechos de grupo, e por isso os significados e as narrativas pessoais se perderam em parte. As amostras eram muitas vezes pequenas, como nos estudos de caso aprofundados de uma ou de poucas crianças em situação de refúgio. Isso foi em parte compensado por um registro de caso rico; no entanto, a falta de detalhes demográficos e de relato consistente de fatores individuais (tempo de residência, idade, contexto de reassentamento) dificulta compreender o que é importante para diferentes grupos de jovens em situação de refúgio e corre o risco de homogeneizar ainda mais a experiência das pessoas refugiadas (Chase et al., 2020). As crianças mais novas costumam ser menos visíveis na pesquisa, e recorre-se aos adultos para contar suas histórias, como se constatou na presente revisão. Dado o papel fundamental do pertencimento nos primeiros anos, o estudo do pertencimento e da identidade infantis precisa incluir mais a voz das crianças mais novas (Erwin et al., 2024).

Conclusão

Esta revisão identificou quatro temas abrangentes relativos à forma como as abordagens narrativas e sensoriais podem apoiar o bem-estar e o pertencimento de jovens em situação de refúgio: (a) apoio ao bem-estar e à comunicação, (b) a expressão criativa como empoderamento, (c) conexões sociais positivas e reparadoras e (d) conexões com a identidade cultural. O bem-estar foi descrito como um construto psicológico composto, que abrange pertencimento e identidade, ambos apoiados pelas abordagens narrativas e sensoriais e ligados a desfechos psicossociais mais amplos (Rysst, 2016; Enge e Stige, 2022). As conexões das crianças com a identidade cultural e o pertencimento surgiram como direções importantes para estudos futuros (Marsh e Dieckmann, 2017; Meyer DeMott et al., 2017), em particular a interseção entre o pertencimento a identidades culturais passadas e presentes e a forma como elas podem ter mudado em consequência da migração (Rousseau et al., 2003; Beauregard et al., 2017; Marsh, 2017). As crianças estão sempre “em devir”, e jovens em situação de refúgio continuarão a explorar facetas de sua identidade e de seus pertencimentos, por múltiplos meios sensoriais e narrativos, em suas esferas sociais novas e emergentes. A experiência pessoal, e não grupal, de transitar entre contextos culturais e geográficos, especialmente entre crianças mais novas, será um foco importante de estudos futuros sobre pertencimento e bem-estar de pessoas refugiadas (Erwin et al., 2024). Métodos criativos e participativos tendem a favorecer uma inclusão significativa da juventude refugiada na pesquisa (Chase et al., 2020). Isso é importante diante das barreiras desenvolvimentais e linguísticas à participação significativa das crianças na pesquisa, bem como na vida política e cívica mais ampla (Wallace e Lewis, 2020; Sevón et al., 2023).

Os resultados destacam o valor das intervenções criativas e multissensoriais para jovens em situação de refúgio, em especial no ambiente escolar. O potencial dessas abordagens para favorecer conexões sociais entre grupos em situação de refúgio e grupos de acolhimento aponta sua utilidade para a prática clínica, educacional e de assistência social. Isso pode ajudar a melhorar as relações entre comunidades já estabelecidas e comunidades migrantes e ampliar as experiências de conexão social, bem-estar e pertencimento para toda a infância e a juventude.

Declaração de posicionalidade

As quatro pessoas que assinam o artigo são de origem britânica branca, três mulheres e um homem, e trabalham e residem no Reino Unido. Elas fazem questão de informar que nenhuma delas viveu migração forçada ou deslocamento. As diferenças de etnia, condição socioeconômica e contexto geográfico entre a equipe e as crianças do estudo precisam ser reconhecidas, pois criam diferenciais de poder significativos. Embora essa experiência vivida não seja compartilhada com as pessoas participantes, a equipe tem ampla experiência clínica com comunidades refugiadas e solicitantes de asilo em saúde pediátrica e psicologia clínica, o que motivou esta pesquisa. Esta pesquisa pretende levantar questões preocupantes e possibilidades de apoio criativo, centrado na criança e inclusivo para esse grupo de jovens em situação de marginalização. De uma perspectiva internacionalista e humanista, a equipe defende uma ética da inclusão, do acolhimento e da segurança para a infância e a juventude forçadas a migrar no mundo.

Complexe Systémique: a reter

Esta revisão tem o mérito de deslocar o olhar sobre jovens em situação de refúgio: em vez de partir do trauma e de seus sintomas, olha para o que conecta. Cantar junto no pátio da escola, dançar, desenhar, contar uma história com um fantoche permitem dizer sem passar por uma língua ainda não dominada, escolher quando e como se expressar e fazer circular nos dois sentidos a cultura da família e a do país de acolhimento. Para a clínica sistêmica, o pertencimento aparece aqui como uma construção relacional, nunca garantida, que se joga na escola, entre pares e na família tanto quanto na sessão. Ainda assim, é preciso cautela: treze dos quinze estudos tratam apenas do sensorial, a maioria é descritiva e pouco crítica, e as crianças mais novas raramente falam em nome próprio. O interesse pelo olfato, pelo paladar e pelas brincadeiras com comida mal foi esboçado. Para ler junto com o artigo sobre migração, perda ambígua e rituais e com a revisão sobre o trauma intergeracional em famílias refugiadas.

Notas do original

Conflitos de interesse. Duas pessoas da equipe (LM e TS) trabalham para a Urban House, no âmbito do SWFT NHS Foundation Trust. Uma delas (LM) tem vínculo com a Migration Yorkshire, e toda a equipe tem interesse clínico e acadêmico na saúde mental e no bem-estar de crianças e jovens em situação de refúgio. Fora isso, não há outros conflitos de interesse a declarar.

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Tradução não oficial em português de O papel dos processos sensoriais e narrativos no bem-estar e no pertencimento de jovens em situação de refúgio: uma revisão de escopo, de Anna Gilleard, Luise V. Marino, Tracey Smith e David Turgoose, Journal of Child and Family Studies, vol. 34, no 10 (2025), doi: 10.1007/s10826-025-03145-5, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas, legendas das figuras traduzidas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “A Scoping Review of the Role of Sensory and Narrative Processes in the Wellbeing and Belonging of Young Refugees”, publicado em Journal of Child and Family Studies (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Gilleard, A., Marino, L. V., Smith, T., et Turgoose, D. (2025). O papel dos processos sensoriais e narrativos no bem-estar e no pertencimento de jovens em situação de refúgio: uma revisão de escopo (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/o-papel-dos-processos-sensoriais-e-narrativos-no-bem-estar-e-no-pertencimento-de-jovens (Obra original publicada em 2025 em Journal of Child and Family Studies, 34(10), 2684-2697 (2025); republicada em 2025 por Journal of Child and Family Studies, https://link.springer.com/article/10.1007/s10826-025-03145-5)

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