Family Process · Terapia familiar
Quando A tem um encontro com C, como B pode se regular? E o que acontece com a terapia de casal quando a “relação” reúne três ou quatro pessoas? Caitlin Edwards, Robert Allan, Nick Marzo, Ted Wynfield e Ryan Hicks propõem estender a terapia focada nas emoções (EFT) aos polículos: ciclos diádicos entrelaçados, parcialidade multidirecional, ciúme tratado como emoção secundária, acordos em vez de regras e recusa de fazer da monogamia a solução.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de O uso da terapia focada nas emoções com relações poliamorosas, de Caitlin Edwards, Robert Allan, Nick Marzo, Ted Wynfield e Ryan Hicks, publicado na Family Process (Wiley) (2023), doi: 10.1111/famp.12934, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
É essencial acreditar, e depois assegurar à relação, que a solução para o problema apresentado não é se tornar monogâmica.
Caitlin Edwards, Robert Allan, Nick Marzo, Ted Wynfield e Ryan Hicks
Resumo
Cerca de 5% das pessoas nos Estados Unidos praticam alguma forma de não monogamia consensual (NMC; Archives of Sexual Behavior, 2018, 47, 1439). Na terapia, cresce a consciência da necessidade de atender membros de relações não monogâmicas consensuais, entre elas as relações poliamorosas. Até hoje, nenhuma pesquisa foi feita e pouco se escreveu sobre a aplicação a relações não monogâmicas ou poliamorosas dos modelos existentes de terapia de casal, normatizados em relações heterossexuais, cisgênero e monogâmicas. A terapia focada nas emoções (EFT, emotionally focused therapy) é um tratamento com apoio empírico para o sofrimento relacional, promissor para o trabalho com relações poliamorosas por causa de seus fundamentos teóricos sistêmicos e de apego. Propomos que a EFT é um modelo ideal para trabalhar com relações poliamorosas por sua ênfase na externalização, na coerência emocional e experiencial interpessoal e intrapessoal e no vínculo de apego. Construir e manter múltiplas relações de apego permite atender a uma ampla gama de necessidades e desejos relacionais e oferece uma base segura para a exploração individual e relacional. Neste artigo, apresentamos primeiro informações gerais sobre o poliamor e discutimos a pesquisa sobre teoria do apego e poliamor. Depois, oferecemos uma conceituação, passo a passo, de como terapeutas EFT podem ampliar o modelo para incluir relações de apego extradiádicas. Incluímos também as adaptações específicas que o modelo exige no trabalho com pessoas poliamorosas. Concluímos com recomendações para terapeutas EFT que trabalham com relações poliamorosas.
As relações não monogâmicas consensuais (NMC), isto é, estruturas relacionais em que cada pessoa concordou em ter múltiplas relações amorosas ou sexuais, estão se tornando cada vez mais visíveis e normalizadas (Haupert et al., 2017). Entre elas estão as relações poliamorosas, “uma forma de NMC em que adultos negociam múltiplas relações amorosas com o consentimento de seus parceiros” (Henrich e Trawinski, 2016, p. 1). No entanto, nenhum tratamento para o sofrimento relacional foi desenvolvido com amostras NMC, e nenhum modelo terapêutico com apoio empírico foi aplicado ao trabalho com relações NMC ou poliamorosas. A terapia focada nas emoções (EFT; Johnson, 2019; Johnson e Greenberg, 1985a) é especialmente adequada ao trabalho com relações poliamorosas, por seus fundamentos nas teorias do apego e dos sistemas e por intervenções que buscam aumentar a coerência e a conexão emocionais intrapessoais e interpessoais. Este artigo discute como a EFT pode ser aplicada ao trabalho com relações poliamorosas. Examinamos o trabalho de terapeutas sobre o próprio self, descrevemos cada passo e estágio da EFT e detalhamos o uso do metaprocesso do Tango da EFT com essas relações. Começamos com uma breve revisão da EFT e da NMC antes de sintetizar a pesquisa atual sobre poliamor e teoria do apego.
A EFT (Johnson, 2019; Johnson e Greenberg, 1985b) é um tratamento com apoio empírico para o sofrimento relacional (Spengler et al., 2022). A EFT postula que o sofrimento resulta de respostas emocionais restritivas e repetidas que reforçam padrões de desconexão (Johnson, 2019). A EFT desloca esses padrões para um apego seguro, aumentando a coerência emocional e a empatia mútua (Johnson, 2019).
NMC é um termo guarda-chuva para relações em que todas as pessoas envolvidas consentem explicitamente em ter relações amorosas, íntimas ou sexuais com mais de uma pessoa. A NMC oferece um quadro para desenvolver e manter relações que podem ser amorosas, arromânticas, sexuais, não sexuais ou centradas em necessidades estruturais (por exemplo, moradia, finanças). As variações incluem: (1) relações abertas ou “monogamish” (relações diádicas sexualmente não exclusivas); (2) swing (interações sexuais casuais entre vários casais); (3) “anarquia relacional” (múltiplas relações com prioridade igual); e (4) poliamor (Hamilton et al., 2021).
O poliamor foi descrito como uma identidade pessoal (Klesse, 2006), uma estrutura relacional (Easton e Hardy, 2017) e uma orientação relacional (Blumer et al., 2014). As relações poliamorosas (por exemplo, os polículos) podem envolver vínculos sexuais, emocionais, espirituais, de companheirismo, financeiros, estruturais ou parentais. Embora cada estrutura relacional traga considerações clínicas, nossa intenção não é fazer uma descrição exaustiva, mas oferecer um panorama das relações poliamorosas no contexto da EFT. Recomendamos enfaticamente a consulta a outras obras (por exemplo, Easton e Hardy, 2017; Kauppi, 2022) para mais informações.
Há várias configurações de relações poliamorosas. Por exemplo, um “V” inclui três pessoas: uma está intimamente ligada a duas outras que não têm envolvimento amoroso ou sexual entre si. Uma tríade é uma relação em que as três pessoas têm envolvimento sexual ou amoroso entre si. Um “Z” ou um “N” é uma variante comum do V: muitas vezes, dois casais se ligam quando duas pessoas desses casais também têm envolvimento amoroso ou sexual. Um quarteto, uma ampulheta ou uma teia é um grupo de quatro ou mais pessoas ligadas intimamente de algum modo. Essa estrutura pode ser aberta, permitindo outras relações, ou fechada (Hamilton et al., 2021; Kauppi, 2022).
Este artigo se concentra especificamente em relações multiamorosas não hierárquicas. A hierarquia relacional descreve como as pessoas classificam, na prática, a importância de suas relações íntimas e determina como interagem com outras pessoas com base nessa classificação (Gahran, 2017). Por exemplo, pessoas em relações monogâmicas costumam priorizar a relação amorosa em relação às amizades. As relações não hierárquicas sustentam a equidade, a agência pessoal e a autonomia, ao permitir que as necessidades de cada membro da relação sejam consideradas e atendidas com base nos acordos relacionais vigentes. Essas estruturas se baseiam na confiança e na responsabilidade e muitas vezes exigem honestidade radical. Escolhemos esse tipo de configuração por ser o menos descrito e abordado na literatura e porque buscamos um modo de falar da EFT para além de uma compreensão diádica e monocêntrica das relações amorosas.
A prática do poliamor varia conforme o gênero e a orientação sexual (Levine et al., 2018). Pessoas gays, lésbicas e bissexuais têm mais probabilidade de se engajar em relações NMC do que pessoas heterossexuais (Levine et al., 2018). Especificamente, pessoas bissexuais praticam NMC em níveis significativamente mais altos do que homens gays e lésbicas (Haupert et al., 2017).
Pouquíssima pesquisa explorou as motivações de quem escolhe a NMC. Moors et al. (2021) relatam que autonomia, crenças e valores, relacionalidade, sexualidade, crescimento e pragmatismo estão entre os motivos para escolher relações poliamorosas. Hnatkovicova e Bianchi (2022) confirmam esses achados: a satisfação de necessidades relacionais, o crescimento pessoal e a autonomia, o desenvolvimento da identidade, a expressão de valores, a exploração de identidades minorizadas (por exemplo, a bissexualidade), o pertencimento a uma comunidade e o desejo de diversidade sexual levam as pessoas a se engajar e permanecer em relações poliamorosas.
A teoria do apego (Ainsworth et al., 1978; Bowlby, 1988) descreve o mecanismo humano de sobrevivência que consiste em estabelecer laços afetivos com pessoas significativas, o que influencia a regulação emocional e a forma como se pede e se recebe cuidado e conforto nas relações (Johnson, 2019). Pouca pesquisa descreveu a associação entre apego e poliamor, e apenas um artigo (Katz e Katz, 2021) descreve o apego pela lente do poliamor. A pesquisa existente conclui em geral que pessoas poliamorosas usam estratégias de apego seguro com mais frequência do que pessoas em relações monogâmicas (Moors et al., 2019; Morrison et al., 2011; Kolmes e Witherspoon, 2017). Especificamente, Morrison et al. (2011) verificaram que pessoas poliamorosas tinham mais probabilidade de apresentar uma estratégia de apego seguro do que pessoas monogâmicas (52% contra 44%), e Kolmes e Witherspoon (2017) indicaram que todas as pessoas de seu estudo de caso apresentavam estratégias seguras.
O restante da literatura, porém, mostra achados mistos. Ka et al. (2020) relataram que pessoas com estratégia de apego ansiosa se engajavam em relações poliamorosas em busca de atenção e afeto. De fato, Morrison et al. (2011) indicaram que 20% das pessoas poliamorosas da amostra apresentavam estratégia ansiosa, contra 13% das pessoas monogâmicas. Por outro lado, Moors et al. (2015) verificaram que o apego ansioso não estava associado nem à disposição para se engajar em relações poliamorosas nem à prática atual ou passada do poliamor. Moors et al. (2015) e Moors et al. (2023) também verificaram que a evitação no apego estava positivamente correlacionada com a disposição para se engajar em relações poliamorosas, mas não com o engajamento efetivo. De fato, pessoas em relações poliamorosas apresentam menos frequentemente níveis altos de evitação do que pessoas monogâmicas (Moors et al., 2015, 2019; Morrison et al., 2011).
Embora a literatura sobre poliamor e apego seja limitada, é importante notar que as evidências empíricas existentes não mostram que as relações poliamorosas provenham de pessoas com estratégias de apego desorganizadas. Isso desfaz um mito antigo de que o poliamor poderia ser entendido, em bloco, como uma estratégia de apego desorganizada. Do mesmo modo, as evidências disponíveis mostram que pessoas poliamorosas usam estratégias seguras com mais frequência do que pessoas em relações monogâmicas, o que indica que o apego seguro caracteriza as relações poliamorosas.
A EFT é um modelo sólido para trabalhar com relações poliamorosas por vários motivos. Primeiro, a EFT tem uma forte base de pesquisa (Beasley e Ager, 2019; Spengler et al., 2022), e a dedicação de sua comunidade de prática a pensar o trabalho multicultural dentro do modelo (por exemplo, Allan et al., 2022; Guillory, 2021; Nightingale et al., 2019; Soleimani et al., 2015; Tseng, 2022) indica a aplicação do modelo em diferentes contextos e culturas. Além disso, a natureza não patologizante da EFT e suas raízes na teoria dos sistemas e na teoria do apego oferecem uma base segura para tratar polículos. Os parágrafos seguintes expõem nossa proposta de conceituação da EFT aplicada ao poliamor.
No trabalho com pessoas poliamorosas, a terapia EFT pode encontrar dificuldades para desconstruir a mononormatividade hegemônica (o pressuposto de que relações diádicas exclusivas seriam a forma preferível, e a única, de viver relações amorosas). Embora haja evidências de que uma pessoa pode ter múltiplas relações de apego (Doherty e Feeney, 2004; Overall et al., 2003), a teoria do apego foi tradicionalmente interpretada de forma diádica (Katz e Katz, 2021). É importante que terapeutas EFT tenham consciência de seus pensamentos e sentimentos sobre relações de apego extradiádicas e ampliem seu conhecimento da teoria do apego como processo independente da monogamia, pois isso afetará a relação terapêutica, a segurança e sua capacidade de tratar as preocupações relacionais de quem atendem. É essencial que terapeutas atuem dentro de sua competência e saibam quando seus vieses pessoais, suas experiências passadas com a não monogamia ou sua falta de experiência indicam que é melhor não assumir o trabalho com relações poliamorosas.
Recomendamos que terapeutas reflitam sobre seus vieses ligados às narrativas internas sobre a não monogamia. Essa reflexão pode envolver conceitos ligados à intimidade emocional e sexual, à singularidade e à pluralidade, às mensagens culturais internalizadas sobre monogamia e não monogamia e ao conhecimento das várias formas de NMC, bem como às reações internas que cada uma desperta. Especificamente, a supervisão com alguém que conheça a NMC e a acolha é um excelente meio de aprimorar habilidades, obter apoio e trabalhar os vieses. Além disso, terapeutas podem se beneficiar de experiências imersivas, como participar de um encontro, grupo de apoio, convenção ou espaço de reunião voltado para a informação e a conscientização sobre pessoas e relações NMC. Por exemplo, diante da dificuldade com a polissexualidade própria do swing, pode ser útil uma sexual attitudes reassessment (SAR), um processo experiencial de desenvolvimento profissional que facilita o exame de atitudes, crenças, valores e práticas sexuais, bem como buscar supervisão.
Além da supervisão e de oportunidades de desenvolvimento profissional favoráveis à NMC, terapeutas podem recorrer a livros e outras mídias para aumentar seu conhecimento, conforto e competência com relações poliamorosas. Por exemplo, a série You Me Her e o filme Professor Marston and the Wonder Women retratam positivamente relações poliamorosas. Livros como Sex at Dawn, The Ethical Slut e Polyamory: A Clinical Toolkit for Therapists (and their clients) são recursos úteis. Por fim, podcasts como Multiamory e Life on the Swingset também podem ajudar a se familiarizar com a NMC.
Lidar com o ciúme nas relações poliamorosas é um desafio particular. É importante que terapeutas EFT explorem suas próprias experiências e crenças sobre o ciúme nas relações íntimas. No poliamor, o ciúme é visto como expressão de emoções subjacentes, como medo de abandono, rejeição, inadequação, ameaça ou solidão (Easton e Hardy, 2017). Em EFT, com relações poliamorosas, convém ver o ciúme como qualquer emoção secundária, embora ele seja muitas vezes evitado nas relações monogâmicas (Davidson, 2002). Por exemplo, na EFT, emoções como raiva e culpa costumam ser vistas como secundárias (Johnson, 2019): bloqueiam o acesso a emoções primárias mais profundas, como medo e tristeza (Johnson, 2019). Diante do ciúme, cabe à terapia EFT explorar sua relação com as emoções e necessidades de apego, como se faz com a raiva e a culpa.
Um objetivo central da EFT é aumentar a corregulação entre parceiros (a capacidade de regular emoções e comportamentos angustiantes com a ajuda de outras pessoas seguras, tranquilizadoras e conectadas; Johnson, 2019). Ao descrever a terapia individual focada nas emoções (EFIT), Johnson (2019) descreve o uso de um outro imaginado (uma experiência internalizada) como fonte de conforto em momentos de sofrimento. Numa perspectiva de apego, esse pode ser um excelente meio de ajudar membros de polículos a se acalmar quando não há contato físico possível com as outras pessoas da relação. Por exemplo, quando A está num encontro com C, B pode se regular imaginando contar a A seu sofrimento e acessando uma sensação sentida de conforto.
Além disso, as relações poliamorosas abrem portas para diversas formas de regulação, em vez de se concentrar apenas na corregulação entre parceiros. Outras terapias focadas nas emoções (por exemplo, Greenberg e Goldman, 2008) oferecem métodos para ampliar a capacidade de cada pessoa de se regular no sofrimento emocional. Com base nelas, é importante ver a autorregulação como chave para a saúde e o bem-estar e ampliar as opções de cada pessoa para vários tipos de regulação. Torna-se, portanto, necessário buscar recursos fora das relações diádicas. Por exemplo, estar com pessoas amigas enquanto alguém da relação está num encontro oferece uma oportunidade de corregulação fora da díade amorosa, a meditação apoia a autorregulação e conversas regulares de acompanhamento permitem que todo o polículo se corregule.
Há uma grande variedade de ferramentas e modelos terapêuticos para ampliar as opções de regulação, entre eles a EFIT, o EMDR (dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares), a terapia comportamental dialética (DBT), a terapia de aceitação e compromisso (ACT), a terapia comportamental, a terapia cognitivo-comportamental (TCC), a atenção plena e a meditação. Todas podem ser intervenções importantes que terapeutas EFT integram para ajudar os polículos a ampliar suas opções de regulação das emoções angustiantes. A integração pode ocorrer em vários momentos: como intervenção separada no início da terapia, como intervenção no começo de uma sessão ou no segundo movimento do Tango.
Ao integrar a autorregulação na sessão, é preciso garantir a participação de cada membro. Por exemplo, a pessoa terapeuta pode ajudar A a praticar o acesso à sua experiência internalizada e à sensação sentida de B, com quem A tem uma relação. Depois, deve elaborar com A a experiência de acessar essa sensação antes de ampliar para uma encenação com todo o polículo. Pode pedir a A que compartilhe sua experiência e perguntar aos outros membros o que suscitou observar A se regular usando suas experiências internalizadas. O foco deve estar em validar e consolidar os temas de apego entre todas as pessoas do polículo, para apoiar tanto a autorregulação quanto a corregulação.
Em linhas gerais, a avaliação na EFT envolve explorar os ciclos de proximidade e distância, as forças da relação, as agendas e objetivos da terapia, levantar uma história do apego e da saúde sexual e avaliar o papel que a violência por parceiro íntimo, o uso de substâncias ou os apegos extradiádicos têm no ou nos ciclos negativos da relação. O processo foca as maneiras concretas pelas quais as relações ficam presas no conflito e na distância, tentam resolver seus problemas e regulam a emoção. As sessões de avaliação costumam envolver uma sessão conjunta seguida de duas individuais (Johnson, 2019). Com polículos, valem as mesmas regras de triagem para a EFT (por exemplo, violência por parceiro íntimo atual e grave é uma contraindicação).
Ao trabalhar com relações poliamorosas, é importante refletir sobre com quem se está trabalhando, do ponto de vista da avaliação e da aliança. Especificamente, a avaliação envolve esclarecer com quem o trabalho é feito, e trabalhar com relações poliamorosas supõe compreender a variedade de maneiras de “fazer” NMC. Cada tipo de relação poliamorosa traz considerações clínicas para o acoplamento. Por exemplo, se o problema apresentado envolve a comunicação sobre o espaço compartilhado, pode valer a pena incluir todas as pessoas que coabitam. Embora não possamos oferecer um modelo linear de decisão sobre quem incluir na terapia, em linha com Kauppi (2022) recomendamos incluir todas as pessoas com poder de decisão. Pode ser preciso ajustar a estrutura das sessões conforme a forma como o polículo organiza sua relação e os subsistemas relacionais a trabalhar, com base em suas dinâmicas interacionais e em sua história relacional.
Cabe à terapia perguntar sobre os acordos relacionais. Especificamente, é importante avaliar a presença de acordos, e não de regras. Os acordos se baseiam num apego seguro ou no desejo dele. As regras, por outro lado, costumam ser tentativas, intencionais ou não, de exercer poder ou controle sobre um ou mais membros do polículo. A avaliação pode incluir perguntas abertas exploratórias como “como vocês chegaram a essa decisão?”, “como essa decisão afeta sua(s) relação(ões)?” e “vocês praticam a polifidelidade, ou poliamor fechado, ou cada pessoa explora e constrói suas próprias relações?”. Outras perguntas podem ser “como vocês descreveriam a estrutura da relação?”, “vocês têm filhos com algum dos parceiros?” e “vocês compartilham finanças com algum dos parceiros?”. Não podemos dar uma lista exaustiva, mas vários trabalhos (por exemplo, LaSala, 2001; Kauppi, 2022) oferecem perguntas de avaliação adequadas a polículos. Para perguntas específicas da EFT, Johnson (2019) apresenta as que terapeutas EFT fazem para avaliar o apego e as dinâmicas relacionais.
As relações poliamorosas não podem se apoiar nos pressupostos inerentes à monogamia. É necessário perguntar especificamente o que e como os membros do polículo negociaram em termos de conexões emocionais, espirituais, sexuais, amorosas e sociais. Essa informação permite saber quando e como intervir relacionalmente. É preciso discernir em que medida os desafios da relação se devem aos estressores do poliamor ou a questões comuns às relações amorosas em geral (Finn et al., 2012) e incluir discussões contínuas sobre como fatores socioculturais e sociopolíticos afetam a relação.
Também é preciso avaliar se os membros têm capacidade de regulação emocional e segurança relacional suficientes para levantar em conjunto as histórias de apego e de saúde sexual. Johnson (2019) recomenda levantar as histórias de apego separadamente. Embora concordemos que seja uma prática útil, ela pode ser pouco viável com vários membros de uma relação poliamorosa, por causa do tempo, da urgência percebida do problema e de restrições financeiras, entre outras. Desde que cada membro consinta, haja segurança suficiente na relação e cada pessoa consiga vivenciar, expressar e usar a emoção de forma adaptativa (Eisenberg et al., 2000), levantar essas histórias em conjunto pode ampliar a compreensão das experiências e comportamentos relacionais de cada membro. Enfatizamos fortemente o consentimento: cada membro do polículo tem o direito de decidir o que compartilhar, e quando, com cada outra pessoa.
Recomendamos, claro, que terapeutas EFT avaliem separadamente, com flexibilidade, a segurança física, emocional, psicológica e financeira na relação. Isso pode ocorrer em sessões individuais, se desejado e se for acessível, ou em sessões parciais, dedicando-se um tempo mínimo e suficiente às perguntas sobre segurança. Por exemplo, com uma tríade, é possível encontrar cada membro por 20 minutos de uma sessão de 60 minutos para avaliar a segurança.
Por fim, recomendamos perguntar especificamente sobre infidelidade, com as palavras de quem é atendido. Johnson (2019) usa a expressão “apegos concorrentes” (p. 133) ao descrever o processo de avaliação. Convidamos terapeutas EFT a deslocar sua compreensão do “apego concorrente”: não mais qualquer apego extradiádico, mas qualquer relação que fuja dos arranjos combinados pelo polículo. Incentivamos terapeutas EFT que trabalham com relações poliamorosas a acolher os apegos múltiplos e a avaliar especificamente as quebras de confiança nas relações passadas e presentes de cada membro.
A pesquisa sobre aliança na EFT indica que a aliança nas tarefas (o fato de os métodos usados para alcançar os objetivos definidos em conjunto na terapia serem pertinentes e eficazes) tem o maior impacto nos resultados (Johnson e Talitman, 1997). Criar e manter a aliança na terapia de casal, relacional e familiar é especialmente difícil, pois ela se mantém não só ao longo do tempo, mas também com várias pessoas (Sprenkle e Blow, 2004). Por isso, a formação da aliança com relações poliamorosas deve se apoiar no princípio da parcialidade multidirecional (Boszormenyi-Nagy, 1974), compreendendo, acolhendo com empatia e validando as perspectivas diversas, e às vezes conflitantes, de cada membro. Cabe ainda à equipe terapêutica engajar ativamente cada membro, manter atenção constante à aliança ao longo da terapia e privilegiar os comportamentos de acoplamento: usar a linguagem das pessoas atendidas, demonstrar respeito a cada membro do polículo, instilar esperança, reenquadrar e oferecer apoio (Minuchin e Fishman, 1981). Com relações poliamorosas, é essencial usar a linguagem de quem é atendido. Embora tenhamos oferecido algumas definições gerais, cada termo é tão singular quanto a relação que o usa. É preciso, portanto, perguntar especificamente sobre a terminologia e seus sentidos próprios.
Uma parte essencial do primeiro estágio é a criação da segurança. A ênfase da EFT na validação, na empatia incansável e no uso das palavras de quem é atendido é uma força no trabalho com relações poliamorosas e na criação da segurança (Johnson, 2019). Na EFT, a segurança está associada à tomada de riscos emocionais vulneráveis entre os membros da relação (Johnson, 2019) e em todo o sistema terapêutico (Friedlander et al., 2006). Quando se percebe o momento em que o ciclo de interação negativo ocorre e se consegue criar novas experiências na sala, a própria terapia se torna uma base segura para a tomada de riscos emocionais e novos níveis de engajamento (Welch et al., 2019). A segurança pode ser mais difícil de criar com relações poliamorosas, pois há vários adultos com diferentes níveis de engajamento emocional em cada subsistema relacional. Por isso, ela se torna primordial. Com polículos, a terapia EFT deve ir devagar, com responsividade, engajamento e sintonia com o efeito de suas intervenções sobre cada membro. Cada intervenção se baseia no consentimento de todo o polículo. Os reflexos empáticos, a validação e a normalização são habilidades essenciais, a usar de forma lenta e cautelosa para garantir a aceitação de todo o polículo.
Além disso, terapeutas EFT devem saber quando e como os ciclos negativos ocorrem no polículo, pois interrompê-los é a chave para desenvolver a segurança (Welch et al., 2019). Na EFT, é preciso garantir que a estrutura poliamorosa seja continuamente validada: é essencial acreditar, e depois assegurar à relação, que a solução para o problema apresentado não é se tornar monogâmica. Por exemplo, com uma tríade, pode-se dizer: “Acho que entendi. Quando vocês caem nesse ciclo com seus parceiros, o desânimo, a tristeza e a solidão tomam conta de você. Nesses momentos, tudo o que você quer é encontrar o caminho de volta até essas pessoas, mas simplesmente não sabe como.”
A avaliação na EFT também costuma envolver a análise da função dos comportamentos de apego para situar cada membro do lado da “perseguição” ou do “retraimento”. Essa avaliação serve para compreender as estratégias de apego e determinar o curso do tratamento (por exemplo, o reengajamento de quem se retrai ocorre antes do abrandamento de quem persegue). Em geral, atribui-se a quem persegue uma estratégia de apego ansiosa (Johnson, 2019), com a tentativa de atender às necessidades relacionais “hiperativando” a necessidade de proximidade, por meio de demandas de cuidado ou da ruminação de rejeição ou abandono percebidos. A quem se retrai, por sua vez, atribui-se muitas vezes uma estratégia de evitação (Johnson, 2019), suprimindo suas necessidades e emoções de apego por meio do distanciamento e de comportamentos defensivos (Mikulincer e Shaver, 2023).
Com polículos, é possível encontrar vários ciclos relacionais, retraimento/perseguição, retraimento/retraimento ou perseguição/perseguição, pela complexidade do sistema relacional e porque as estratégias de apego dependem do contexto e da relação (Doherty e Feeney, 2004; Overall et al., 2003). Por exemplo, A em geral usa um apego ansioso nas relações, e é o que acontece com B. Com C, porém, A usa uma estratégia segura, pelo nível de sintonia, engajamento e responsividade entre A e C. C, cujo apego a A é seguro, apresenta uma estratégia mais ansiosa com B. B, cuja estratégia também é ansiosa, a usa com A. Assim, ao classificar os padrões de ciclo diádicos, o ciclo de A e B pode ser classificado como perseguição/perseguição; A e C podem ou não apresentar um ciclo de interação negativo; e B e C também podem ser classificados como perseguição/perseguição, a menos que uma das pessoas apresente mais supressão emocional e evitação que o outro.
Com relações poliamorosas, terapeutas precisam compreender a posição de cada membro nos ciclos relacionais, suas emoções secundárias e primárias, como os fatores socioculturais afetam os ciclos e como cada ciclo diádico pode desencadear ciclos maiores nas várias relações ou na estrutura relacional como um todo. Com polículos, será necessário repetir cada intervenção várias vezes, entre e através de díades, tríades e quartetos. O foco estará em ajudar cada membro a destilar e revelar suas emoções de apego a uma, duas ou várias pessoas do polículo.
A terapia também pode vir a trabalhar com vários subsistemas dentro do polículo, por várias razões. O polículo pode conceber sua relação como composta de relações primárias e secundárias; nesse caso, certo subsistema pode pedir ou precisar de mais atenção do que outros. É possível que um subsistema melhore mais cedo ou de forma mais marcante que os outros, o que pode indicar a necessidade de passar mais tempo com parte dos membros em benefício da estrutura poliamorosa. Terapeutas sistêmicos estão acostumados a trabalhar com diferentes subsistemas das famílias para alcançar diferentes objetivos, como aprofundar a conexão numa relação específica ou dar a outro subsistema a oportunidade de resolver problemas.
Além disso, terapeutas EFT podem passar mais tempo inicialmente no comportamento, também por várias razões. Primeiro, é mais comum nas terapias familiares baseadas no apego (a terapia familiar focada nas emoções e a terapia familiar baseada no apego) passar mais tempo no comportamento do que na terapia de casal. Segundo, com vários ciclos ocorrendo simultaneamente na sala, pode ser preciso acompanhar por mais tempo as emoções secundárias ligadas às tendências de ação de cada membro antes de aprofundar para as emoções primárias e as necessidades de apego. Terceiro, é essencial para a desescalada na EFT que cada pessoa assuma suas tendências de ação (Johnson, 2019); com vários membros na sala, isso pode simplesmente levar mais tempo.
O terceiro passo da EFT envolve aprofundar e destilar emoções de apego até então não reconhecidas (Johnson, 2019). Com qualquer relação, isso envolve compreender como gênero, raça ou etnia, orientação sexual e outras identidades marginalizadas afetam o engajamento na experiência emocional. Além disso, experiências contínuas de preconceito ou a necessidade de esconder o envolvimento em múltiplas relações podem desafiar continuamente os modelos internos de funcionamento de si e do outro. Por isso, terapeutas EFT devem se concentrar em como as necessidades de apego são atendidas no contexto de desafios contínuos à relação poliamorosa. À medida que a terapia aborda temas de apego mais intensos para cada membro, que revelam ainda mais os padrões de engajamento e desengajamento relacional, é importante que esses padrões sejam notados e trabalhados no segundo estágio da EFT.
Além disso, com relações poliamorosas hierárquicas, desaconselhamos o conceito de “poder de veto” (uma prática que busca segurança permitindo a parte dos membros proibir outros membros de participar de certos eventos, atividades sexuais ou relações), pois ele costuma ser uma falsa sensação de poder imposta por alguém do polículo para lidar com inseguranças como ansiedade, ciúme, inveja e visões heteropatriarcais não examinadas do sexo e da intimidade. O uso desse poder afasta a não monogamia do consentimento, que exige a agência e a autonomia individuais de cada membro, rumo a um desequilíbrio de poder que pode prejudicar a saúde dos subsistemas relacionais. Em EFT, é possível ajudar as pessoas em terapia a explorar as emoções primárias e secundárias que alimentam o desejo de instituir um “poder de veto” e ajudar a relação a evoluir para acordos baseados em segurança e confiança, respeitando a autonomia e a agência de todas as pessoas envolvidas.
O objetivo do primeiro estágio da EFT é a desescalada do ciclo e a estabilização (Johnson, 2019). Com relações poliamorosas, o processo de estabilização será semelhante. Compreender e externalizar os padrões de interação negativos permite ao polículo ver as dinâmicas relacionais negativas como o inimigo comum, e acessar as emoções primárias permite uma comunicação mais vulnerável, aumentando a empatia e a aceitação.
Finn et al. (2012) recomendam externalizar a mononormatividade afirmando o engajamento no poliamor. Ao ajudar os polículos a se desvincular da crença muitas vezes internalizada de que a monogamia seria a forma preferível, e talvez a única, de viver relações, a terapia ajuda as pessoas atendidas a separar os problemas impostos ao polículo pela mononormatividade hegemônica. Quem pratica EFT costuma ter habilidade para reenquadrar os padrões de interação negativos como ciclos extradiádicos, e não como problemas intrapessoais. O trabalho com relações poliamorosas muitas vezes exige ênfase adicional na externalização para desestigmatizar a complexidade relacional que pode surgir.
O reenquadramento provavelmente envolve atribuir mais os problemas às dificuldades de lidar com a mononormatividade hegemônica internalizada, bem como a novas formas de se relacionar que podem trazer entusiasmo e alegria. Por exemplo, terapeutas EFT podem viver as conexões extradiádicas como descobertas alegres, e não como a ameaça relacional e existencial suposta na monogamia. A chegada de novas pessoas pode gerar complexidade, o que exige que terapeutas EFT explorem abertamente como uma miríade de emoções, incluindo medo e entusiasmo, entra no ciclo do polículo.
Como no primeiro estágio, o trabalho do segundo envolve passar de uma experiência intrapessoal para uma experiência interpessoal (Johnson, 2019). Embora certos padrões de interação nas relações poliamorosas provavelmente sejam diádicos, é importante que terapeutas EFT ajudem cada membro a passar de uma experiência intrapessoal para uma experiência relacional que envolva todas as relações de apego do polículo. Por exemplo, quando um membro do polículo compartilha seus medos de apego, a terapia pode ampliar esses medos para incluir todo o polículo e também ajudar cada membro a aprender a acalmar os medos de apego dos outros.
É possível que um membro do polículo se sinta de fora ou à margem da relação. Conforme a relação, isso pode ser confortável ou intencional. Mas, nas relações em que cada membro deseja uma integração plena (cada membro é uma figura de apego), é necessária atenção terapêutica adicional. Um objetivo do segundo estágio pode ser, portanto, reintegrar cada membro à relação. A terapia ajuda os membros “de dentro” a tomar consciência dos medos e necessidades da pessoa que ficou de fora, e trabalha para que se tornem um porto seguro para essas necessidades, ou um lugar seguro para se autorregular, permitindo que essa pessoa seja reincorporada à relação.
É comum que, no segundo estágio, membros do polículo revelem sentimentos de desvalia ou de não merecer amor. Para pessoas em relações poliamorosas, essas narrativas de apego podem estar ligadas à identidade poliamorosa ou a outras identidades, como raça, orientação sexual, gênero e deficiência, entre outras. Cabe, portanto, a terapeutas EFT saber como essas identidades afetam os medos e anseios de apego de cada membro da relação. As narrativas de apego também podem estar ligadas a mensagens sistêmicas baseadas na mononormatividade. Mensagens comuns de “desvalia” ou de “não ser amável” podem ser agravadas pela necessidade de esconder a estrutura relacional da família, de grupos sociais e do ambiente de trabalho, o que resulta em mensagens internalizadas de vergonha e rejeição que aparecem na(s) relação(ões). O apoio terapêutico permite desconstruir essas mensagens e construir resiliência e agência independentes das expectativas sociais baseadas na monogamia.
O sexto passo se caracteriza pela aceitação e pela responsividade a novos níveis de coerência intrapessoal e interpessoal (Johnson, 2019). A terapia ajuda todo o polículo a ganhar responsividade, acessibilidade e engajamento emocional diante da experiência dos medos e necessidades de apego de cada outra pessoa. Na prática, cada membro é ajudado a reconhecer os anseios e medos profundos de apego em todo o grupo poliamoroso e a responder a eles, de modo que qualquer membro possa ver os medos e os pedidos de conexão e responder a eles.
É provável que o sexto passo também envolva trabalhar a aceitação da própria identidade poliamorosa. Outros artigos (por exemplo, Allan e Johnson, 2017; Nightingale et al., 2019) discutiram a importância de aceitar e integrar uma identidade marginalizada no segundo estágio. Como o poliamor pode ser considerado ao mesmo tempo uma identidade relacional (Blumer et al., 2014) e uma estrutura relacional (Easton e Hardy, 2017), o grau de aceitação desse aspecto da identidade pode ser mais importante em algumas relações do que em outras.
A terapia ajuda cada membro do polículo a pedir conforto e apoio a partir de um lugar de vulnerabilidade e ajuda os outros membros a atender a essas necessidades. Como as pessoas do polículo podem apresentar estratégias de apego diferentes em cada díade, tríade e quarteto, os passos cinco a sete podem precisar ser repetidos com cada pessoa ou com diferentes configurações do polículo, para reengajar plenamente os membros com mais retraimento e abrandar quem mais persegue ou vive mais ansiedade. Também pode ser necessário continuar desestigmatizando o atendimento às necessidades relacionais de múltiplas formas e numa variedade de relações.
O terceiro estágio envolve celebrar o progresso e passar a lidar com problemas práticos (Johnson, 2019). A terapia se caracteriza por discussões que já não são inteiramente tomadas por ameaças de apego (Johnson, 2019). Ao contrário, o polículo pode contar com a segurança do apego para resolver problemas de forma criativa e lidar com questões práticas. Essas questões podem assumir a forma de lidar com discriminação e preconceito numa sociedade monogâmica. A equipe terapêutica ajuda os membros do polículo a acessar sua capacidade de buscar proximidade no sofrimento e consolida a base segura que as relações oferecem contra a discriminação externa. Pessoas em relações poliamorosas podem enfrentar problemas práticos adicionais. Por exemplo, um polículo com filhos pode precisar de mais tempo para consolidar as estruturas de parentalidade, pela complexidade adicional de lidar com vários estilos parentais. Assim, terapeutas EFT podem precisar dedicar mais tempo a essas questões práticas e oferecer recursos adicionais adequados ao poliamor.
O trabalho do terceiro estágio com relações poliamorosas também pode envolver uma reestruturação das dinâmicas e dos acordos relacionais: uma mudança na configuração da relação ou nos acordos estruturais, sociais, emocionais ou sexuais do polículo. Por exemplo, uma mudança de estrutura poderia envolver um quarteto antes aberto que se fecha, ou um V aberto que se torna uma tríade fechada. Isso não deve ser entendido como sinal de que as relações poliamorosas não podem dar certo. Convidamos terapeutas EFT a manter abertura, flexibilidade e sintonia empática com as necessidades de quem atendem, incluindo a necessidade de mudar as dinâmicas e a estrutura relacionais.
O Tango da EFT está presente em todos os passos e estágios da EFT. Por isso, escolhemos abordar especificamente seu uso com relações poliamorosas. O Tango tem cinco “movimentos” iterativos. Primeiro, reflete-se o processo presente, com foco nas emoções e nas experiências de apego. Segundo, vem a “montagem do afeto”, que consiste em destilar os cinco componentes de uma experiência emocional: gatilho ou sinal, avaliação imediata, resposta corporal, construção de sentido e tendência de ação. Destilada a emoção, coreografa-se uma encenação. O Tango se conclui com a ajuda a cada membro para integrar suas novas opções de interação com os demais. Com polículos, a encenação pode precisar ser diádica, triádica ou a quatro, conforme a dinâmica e a estrutura da relação.
A sequência das encenações também será importante. Por exemplo, é possível percorrer os movimentos um a três do Tango com uma pessoa; mas, na hora do quarto, outro membro da relação pode estar mais ativado emocionalmente, e o Tango pode precisar recomeçar antes que a encenação seja elaborada e os novos padrões relacionais validados. É importante atender à emoção mais “quente” da sala, sem perder de vista como esse padrão pode atrair parte dos membros e isolar outra parte. Nesse caso, é preciso chamar explicitamente a atenção para esses padrões, como forma de integrar todo o polículo. Pela natureza complexa da encenação, recomendamos que terapeutas EFT dediquem mais tempo a integrar e validar as dinâmicas em mudança do sistema relacional. As mudanças interpessoais e intrapessoais, e as novas formas de se relacionar, devem ser destacadas para celebrar a transformação das dinâmicas relacionais.
Também recomendamos transparência quanto ao processo terapêutico com todo o polículo. É preciso explicar claramente o processo e como a oportunidade de cada membro testemunhar a sequência das encenações beneficia tanto a pessoa quanto o êxito dos objetivos terapêuticos compartilhados do polículo. A oportunidade de um ou mais membros testemunharem e perceberem a própria experiência durante o trabalho com outros membros abre espaço para que quem não está diretamente em cena acompanhe e percebam sua experiência interna. É útil explicar e explorar cedo esse modo de trabalhar, como forma de cuidar das pessoas que já podem sentir o peso das dinâmicas mais complexas da relação e do processo terapêutico.
Há vários artigos conceituais sobre o trabalho com pessoas poliamorosas (Bettinger, 2005; Davidson, 2002; Finn et al., 2012; Girard e Brownlee, 2015; Timm, 2018; Trexler, 2021; Weitzman, 2006; Zimmerman, 2012). No entanto, a pesquisa sobre terapeutas que trabalham com esse público é mínima, e nenhuma pesquisa ampliou modelos de terapia de casal para ele. Oferecemos uma forma de reconceituar e ampliar a EFT no trabalho com relações poliamorosas. Diante das estatísticas crescentes sobre o poliamor (por exemplo, Haupert et al., 2017; Moors et al., 2021), recomendamos mais pesquisas para explorar a ampliação de modelos antes diádicos às relações poliamorosas.
Complexe Systémique: a reter
O artigo interessa muito além do poliamor, porque obriga um modelo pensado para a díade a se reformular em termos de sistema. Três ideias merecem atenção. Primeiro, as estratégias de apego dependem da relação: a mesma pessoa pode ser ansiosa numa relação e segura em outra, de modo que um polículo contém vários ciclos que se disparam mutuamente. Segundo, a equipe reencontra ferramentas clássicas da terapia familiar: a parcialidade multidirecional de Boszormenyi-Nagy, o trabalho com subsistemas, a externalização, aqui da mononormatividade. Terceiro, a distinção entre acordos, baseados na segurança, e regras ou “poder de veto”, instrumentos de controle, vale para qualquer configuração conjugal. Limite claro: é uma proposta conceitual, sem dados clínicos, e os números sobre o apego de pessoas poliamorosas continuam frágeis. Ler com o artigo sobre ménage à trois e outras variações relacionais na psicoterapia de casal e com o estudo de Caitlin Edwards e colegas sobre a EFT na teleterapia.
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Tradução não oficial em português de O uso da terapia focada nas emoções com relações poliamorosas, de Caitlin Edwards, Robert Allan, Nick Marzo, Ted Wynfield e Ryan Hicks, Family Process, vol. 62 (2023), doi: 10.1111/famp.12934, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “The use of emotionally focused therapy with polyamorous relationships”, publicado em Family Process (2023) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Edwards, C., Allan, R., Marzo, N., Wynfield, T., et Hicks, R. (2023). O uso da terapia focada nas emoções com relações poliamorosas (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/o-uso-da-terapia-focada-nas-emocoes-com-relacoes-poliamorosas (Obra original publicada em 2023 em Family Process, 62(4) (2023); republicada em 2023 por Family Process, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/famp.12934)
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