Family Relations · Família

“Eu me protejo para evitar a proteção à infância”: os medos de pessoas trans com filhos diante da busca de ajuda e dos sistemas de serviço social

Nos Estados Unidos, nos primeiros meses do segundo mandato de Donald Trump, 108 pessoas trans com filhos responderam a um questionário sobre o medo de denúncia aos serviços de proteção à criança. A equipe de Abbie E. Goldberg mostra como esse medo, alimentado pelo clima político, leva muitas dessas pessoas a reduzir sua visibilidade e a abrir mão de cuidados necessários, inclusive em saúde mental.

Autores Abbie E. Goldberg (Universidade Clark, Worcester), Elizabeth R. Boskey (Escola de Medicina de Harvard e Escola de Saúde Pública T.H. Chan de Harvard, Boston), JuliAnna Z. Smith (consultora, Amherst) e Ariel K. Berman (Escola de Medicina de Harvard e Hospital Infantil de Boston), Massachusetts, Estados UnidosPrimeira publicação Family Relations, 18 de agosto de 2026Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de “Eu me protejo para evitar a proteção à infância”: os medos de pessoas trans com filhos diante da busca de ajuda e dos sistemas de serviço social, de Abbie E. Goldberg, Elizabeth R. Boskey, JuliAnna Z. Smith e Ariel K. Berman, publicado na Family Relations (Wiley) (2026), doi: 10.1111/fare.70269, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de listas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

O sistema de proteção à infância pode ser usado menos para proteger as crianças e mais para estabelecer que tipos de parentalidade e de família são considerados aceitáveis em determinado ambiente.

Abbie E. Goldberg, Elizabeth R. Boskey, JuliAnna Z. Smith e Ariel K. Berman

Resumo

Objetivo. Este estudo de métodos mistos examinou as preocupações de pessoas transgênero (trans) com filhos quanto ao risco de se tornarem alvo de denúncias aos serviços de proteção à criança por parte de escolas, profissionais de saúde, vizinhança e familiares.

Contexto. As pessoas trans, e em especial as que têm filhos, podem estar vivendo medos intensificados em relação a fontes potenciais de apoio (ou de dano) em meio ao atual clima sociopolítico antitrans nos Estados Unidos.

Método. Realizamos análises quantitativas (estatística descritiva e regressão logística) e qualitativas das respostas de 108 pessoas trans com filhos, residentes nos Estados Unidos, a perguntas fechadas e abertas de um questionário. A maioria enfrentava preocupações financeiras e dependia de pelo menos uma forma de assistência governamental.

Resultados. Ter uma pessoa trans como parceira, ter filhos pequenos, viver em área urbana e viver em um estado com mais políticas antitrans foram os fatores mais fortemente associados às preocupações parentais com a possibilidade de ser alvo de denúncia aos serviços de proteção à criança em diversas áreas da vida. Os relatos das pessoas participantes evidenciaram a crescente sensação de desconforto e vulnerabilidade em suas comunidades desde a reeleição de Donald J. Trump, o que contribuía para que evitassem os sistemas governamentais e sociais e os serviços de saúde. A maioria tinha dificuldades de saúde mental, mas muitas evitavam buscar ajuda por medo de escrutínio e vigilância.

Conclusão. Pessoas trans com filhos estão vivendo medos intensificados neste período sociopoliticamente turbulento nos Estados Unidos e podem estar evitando apoios formais e informais por medo de se tornar alvo em razão de sua identidade de gênero.

Implicações. Nossos achados ressaltam a necessidade de que profissionais que atuam com famílias e áreas afins conheçam as pressões que as pessoas trans com filhos enfrentam hoje e acompanhem a evolução das políticas vigentes, para melhor apoiá-las na tarefa de se proteger.

1 Introdução

Nos Estados Unidos, as pessoas transgênero (trans) enfrentam níveis históricos de escrutínio e medo. Após a eleição do presidente Donald J. Trump para um segundo mandato, em 5 de novembro de 2024, muitas pessoas trans no país relataram sentir medo, ansiedade e raiva intensos (Goldberg e Sears 2025). Durante a campanha, Trump prometeu acabar com o que chamou de “insanidade transgênero”, por exemplo cortando o financiamento do Medicaid e do Medicare a prestadores de cuidados de afirmação de gênero (Sosin 2024). A campanha gastou mais de 200 milhões de dólares em anúncios políticos antitrans que amplificaram a reação contra as pessoas LGBTQ+, e especialmente trans, nos Estados Unidos (Alfonsica e Kim 2024; Kemp 2024).

Em sua posse, em 20 de janeiro de 2025, o presidente Trump declarou que “a política oficial do governo dos Estados Unidos é que existem apenas dois sexos, masculino e feminino” (Axios 2025). Um de seus primeiros decretos buscou apagar a identidade das pessoas trans para fins de legislação e políticas federais, com amplas implicações para as proteções contra a discriminação, a exatidão dos documentos de identificação federais, o alojamento de pessoas trans encarceradas, o acesso de jovens trans aos cuidados de saúde, o acesso a abrigos e o acesso igualitário de estudantes à educação (Redfield e Chokshi 2025). Outro decreto revogou decretos e orientações da administração Biden que buscavam proteger os direitos das pessoas trans (Redfield e Chokshi 2025).

O impacto da administração Trump sobre as pessoas trans vai além das políticas antitrans. Muitas pessoas trans têm outras identidades que criam vulnerabilidades adicionais diante de diversas políticas, como ter baixa renda, ser uma pessoa não branca, ter deficiência ou ser imigrante (James et al. 2024). As pessoas trans com filhos constituem um grupo particularmente vulnerável, dada a longa história de discriminação legislativa contra elas (Minter 2018, 2019), somada à posição da administração Trump de que as crianças são prejudicadas pela “ideologia de gênero”, que inclui a ideia de que o gênero não deriva necessariamente do sexo (Kurtzleben 2025; Smallens 2025). Nos últimos anos, cresceram os ataques aos direitos tanto de famílias de jovens trans quanto de pessoas trans com filhos, e esses ataques recorrem à linguagem da “proteção à criança” para enquadrar a afirmação de gênero como abuso (Kant et al. 2025; Siegel 2024). Em sua proclamação no Mês de Prevenção do Abuso Infantil, em vez de se concentrar em ameaças à juventude como a insegurança alimentar e a violência, Trump atacou quem apoia jovens trans, descrevendo a “ideologia de gênero” como uma das “formas mais prevalentes de abuso infantil” e chamando de “maligno” o cuidado de afirmação de gênero, amplamente considerado pelas profissões de saúde um cuidado baseado em evidências (Smallens 2025). Diante da animosidade da atual administração presidencial contra as pessoas trans e de sua tendência a apresentar as crianças pequenas em particular como inocentes e necessitadas de proteção contra a “ideologia de gênero” (Snaider 2024), as pessoas trans com filhos podem estar vivendo, no clima atual, preocupações intensificadas, e legítimas, com a segurança e o bem-estar de sua família.

1.1 Parentalidade trans e vulnerabilidade jurídica

As pessoas trans foram historicamente estigmatizadas como doentes mentais, um estigma que confunde questões de identidade de gênero, disforia de gênero e sofrimento emocional, e que ignora os fatores sistêmicos que aumentam o estresse de minoria e o risco de saúde mental precária nas populações trans (Howansky et al. 2021; Reed et al. 2015). As disparidades de saúde mental entre as pessoas trans refletem o estigma interpessoal e estrutural e são agravadas por ele (Hanna et al. 2019; Scheim et al. 2022). A discriminação e a rejeição nos relacionamentos, no trabalho e na comunidade também podem contribuir para o estresse, o isolamento e a desvantagem social (Sherman et al. 2024). Somam-se a esse risco de sofrimento psíquico as barreiras que as pessoas trans enfrentam ao buscar cuidados de saúde mental, entre elas o medo de serem patologizadas, o custo dos cuidados e o histórico de maus-tratos por parte de profissionais, fatores que também podem levar a evitar os cuidados (Kcomt et al. 2020; Snow et al. 2019).

Os estereótipos que retratam as pessoas trans como doentes mentais e desviantes (Howansky et al. 2021) podem contribuir para que sejam vistas como inadequadas ou indignas para a parentalidade (Massey et al. 2021; Worthen e Herbolsheimer 2022) e para a presunção de que seus filhos correm maior risco de vitimização e de má adaptação (Di Battista et al. 2024). Essas visões são contrariadas pelas poucas pesquisas que sugerem que nem a identidade de gênero nem a orientação sexual determinam a capacidade parental das pessoas, o desenvolvimento de seus filhos ou a qualidade da relação entre quem exerce a parentalidade e a criança (Imrie et al. 2020; Patterson 2024; Tornello et al. 2025). Os dados sugerem que as pessoas trans com filhos demonstram forte investimento e compromisso com a parentalidade (Hafford-Letchfield et al. 2019) e que é o estresse parental, e não a identidade de gênero, o que está mais estreitamente relacionado aos desfechos psicológicos de seus filhos (Tornello et al. 2025). A comunicação familiar, uma aceitação mais ampla na família e recursos de apoio suficientes podem, ao contrário, ajudar as crianças de famílias trans a se desenvolverem bem (Dierckx et al. 2017; Patterson 2024; Veldorale-Griffin 2014).

Apesar das pesquisas que mostram que a parentalidade trans não afeta negativamente as crianças, pressupostos equivocados podem orientar as políticas e as decisões de profissionais das áreas social e jurídica que têm o poder de conceder ou retirar direitos parentais. Há exemplos bem documentados de pessoas trans que perderam direitos parentais ou tiveram esses direitos restringidos com base em argumentos injustificados apresentados pela outra parte, cisgênero (cis), e em decisões judiciais segundo as quais não seria do melhor interesse da criança manter uma relação ou morar com a pessoa trans (Cohen 2017; Donelson e Polikoff 2020). Um estudo canadense com 110 pessoas trans com filhos constatou que 18,1% não tinham nenhum acesso legal à criança e que 17,7% tinham perdido a guarda ou tido a guarda reduzida por serem trans (Pyne et al. 2015). Em um estudo brasileiro, 17,1% de 45 pessoas trans com filhos relataram ter perdido a guarda ou tido a guarda reduzida por serem trans, e 48,1% suspeitavam ou tinham ouvido que essas perdas se deviam à sua identidade de gênero (Silva et al. 2023). Em seu estudo com 50 pessoas trans com filhos nos Estados Unidos, Haines et al. (2014) observaram que “as pessoas relataram que sua identidade trans foi usada contra elas em conflitos sobre visitas ou guarda” e concluíram que o medo de sofrer discriminação na Vara de Família é um “fator de estresse importante, que pode interferir na capacidade de pessoas trans exercerem a parentalidade”, um fardo que provavelmente seria “especialmente pesado para quem tem baixa renda e para outros grupos que enfrentam discriminação no sistema judicial” (p. 243). Outros trabalhos também constataram que pessoas trans com filhos envolvidas em processos de guarda percebem formas implícitas e explícitas de viés por parte da magistratura, da advocacia e de profissões afins (por exemplo, a curadoria especial da criança e o serviço social responsável pelo caso; Minter 2018, 2019; Pyne et al. 2015; Siegel 2024), notando sentimentos antitrans nos julgamentos profissionais sobre sua “aptidão parental” (Siegel 2024).

1.2 Parentalidade trans, serviços sociais e outras instituições de vigilância

O sistema de proteção à infância1 (CWS, child welfare system) tem sido chamado de sistema de regulação das famílias por especialistas que observam que sua função não é apenas cuidar do bem-estar das crianças, mas também policiar, controlar e regular as famílias (Polikoff e Spinak 2021). Dessa perspectiva crítica, o CWS muitas vezes funciona de maneiras que podem causar danos às famílias, pois trata as famílias, em particular as não normativas, como a origem de quaisquer problemas e “pretende enfrentar esses problemas por meio da vigilância, da intervenção na vida familiar, de uma forte dependência da retirada das crianças e da oferta às famílias de serviços que raramente atendem a suas necessidades complexas” (p. 433). Em vez de apoiar essas famílias, o sistema com mais frequência interfere nelas (Polikoff e Spinak 2021). Além disso, o CWS depende de pessoas legalmente obrigadas a notificar, como profissionais de creche, docentes e profissionais de saúde, para comunicar suspeitas de abuso ou negligência, o que coloca esses recursos supostamente de apoio numa posição em que podem despertar desconfiança, em meio a temores de viés ou de vigilância (Child Welfare Information Gateway [CWIG] 2023). Essas notificações podem desencadear uma resposta do braço investigativo do CWS, os serviços de proteção à criança (CPS, child protective services), cujo mandato é avaliar a segurança da criança e o perigo a que está exposta e, nos casos graves, retirá-la de casa (CWIG 2023). As pessoas obrigadas a notificar frequentemente apresentam vieses que fazem com que certos grupos (por exemplo, pessoas pobres, não brancas, queer, trans) tenham maior probabilidade de ser alvo de suspeita e de investigação (Dettlaff 2025).

Embora poucas pesquisas tenham examinado as experiências de pessoas trans com filhos com o CWS, há mais pesquisas sobre as experiências de famílias de minorias sexuais (por exemplo, lésbicas, gays, bi, queer; LGBQ+) (Goldberg e Frost 2025; Harp e Oser 2016), o que pode refletir estigmas que se sobrepõem. As pessoas trans têm com frequência orientações sexuais, comportamentos e estruturas relacionais diversos, também vulneráveis ao estigma que atinge as minorias sexuais (Reisner et al. 2023).

As famílias LGBQ+ (queer), assim como as famílias trans, sofrem escrutínio por parte dos sistemas sociais e, na medida em que percebem o risco de vieses ligados à orientação sexual quanto à sua capacidade parental, podem temer uma intrusão do CWS (Goldberg e Frost 2025). Essas preocupações podem ser maiores em contextos de pobreza ou de problemas de saúde mental, áreas também implicadas nas decisões sobre a “aptidão” parental (Harp e Oser 2016; Washington 2022). Um estudo estadunidense com mais de 600 mães negras, 21% das quais eram lésbicas ou bissexuais (LB), constatou que as mães LB tinham mais de quatro vezes mais chances de ter perdido a guarda dos filhos do que as mães heterossexuais, o que, segundo a equipe de pesquisa, pode refletir vieses ligados ao seu status de minoria sexual (Harp e Oser 2016). As mães LB também correm maior risco de viver na pobreza, o que pode agravar o risco de perda da guarda (Wilson e Bouton 2024).

Como observado, os serviços de saúde representam uma das fontes de encaminhamento ao CWS. Existe uma deferência mútua entre os sistemas médico e jurídico que leva cada um a aceitar a avaliação do outro “sem questionar”, o que protege ambos os sistemas de responsabilização enquanto impõe danos às famílias (Presler 2021). Diante do poder de vigilância do sistema médico sobre suas famílias e do papel das equipes de saúde como obrigadas a notificar, parte das famílias queer e trans pode evitar o acesso aos cuidados de saúde por medo de que buscar ajuda leve a um envolvimento do CWS. Goldberg e Frost (2025) estudaram 99 pessoas queer com filhos e constataram que a maioria relatou problemas de saúde mental no pós-parto, mas muitas evitaram buscar ajuda por medo de discriminação e julgamento, e mais da metade relatou medo de ser considerada “inapta” pelas equipes de saúde. Pessoas queer com filhos que eram jovens ou tinham baixa renda temiam especialmente o contato com o CWS e o risco de retirada da criança (Goldberg e Frost 2025), o que reflete a exposição a múltiplas formas de exclusão social e a um escrutínio intensificado por parte dos sistemas sociais (Kuri 2020).

Os encaminhamentos ao CWS também vêm das escolas. O pessoal escolar é a principal fonte de alegações de maus-tratos infantis, embora as pesquisas mostrem que as notificações feitas pelo corpo docente são as que têm menor probabilidade de ser confirmadas, o que sugere que essas notificações, mesmo bem-intencionadas, muitas vezes são feitas por engano e à custa das famílias (Harvey et al. 2021). Famílias vulneráveis, como as famílias trans, podem sentir ansiedade e desconforto nas interações com a escola, vista então como um lugar de escrutínio e de dano potencial, e não como uma fonte de apoio (Harvey et al. 2021; Pyne et al. 2015).

1.3 Famílias LGBTQ+ no atual clima sociopolítico

À medida que os projetos de lei anti-LGBTQ+ se multiplicaram nos últimos anos, famílias de muitos estados passaram a receber ameaças de interferência do CWS caso sua forma de criar os filhos fosse considerada contrária às normas sexuais e de gênero (Dettlaff 2025; Dey e Harper 2022; Washington 2022). O medo de interferência provavelmente se intensificou, durante o segundo mandato de Trump, tanto entre famílias de crianças trans quanto entre pessoas trans com filhos (Dettlaff 2025; Goldberg e Sears 2025; Lang 2025). Pesquisas com pessoas adultas trans (Price et al. 2021; Veldhuis et al. 2018) e com famílias LGBQ+ (Gabriele-Black et al. 2022; Radis e Nadan 2021) sugerem que a escalada de leis e sentimentos anti-LGBTQ+ pode alimentar preocupações com a segurança da família e esforços de proteção associados. Um estudo com 15 mães lésbicas negras constatou que elas relatavam medos significativos pela segurança da família diante dos riscos interseccionais trazidos pela presidência Trump, com a cultura da supremacia branca e o movimento evangélico conservador criando um clima no qual as mulheres se sentiam cada vez mais vulneráveis (Radis e Nadan 2021).

Constatou-se que parte das famílias LGBQ+ toma medidas para diminuir sua visibilidade e reduzir o envolvimento comunitário para proteger a família em ambientes politicamente hostis. Em um estudo com famílias LG que adotaram, após a eleição estadunidense de 2016, Gabriele-Black et al. (2022) constataram que essas famílias muitas vezes buscavam ser menos visíveis nas escolas e em espaços públicos por medo de discriminação. Após a aprovação, na Flórida, da Lei dos Direitos dos Pais na Educação, a chamada lei “Don’t Say Gay”, Goldberg et al. (2024) constataram que as pessoas trans com filhos, as famílias que relatavam níveis mais altos de viés e as famílias que relatavam que sinais de inclusão LGBTQ+ tinham sido retirados da escola dos filhos eram as que mais tendiam a relatar mudanças para ficar menos visíveis.

Como a reeleição de Trump é recente, há poucas pesquisas sobre as preocupações das pessoas LGBTQ+ com as políticas propostas por ele. Há, no entanto, indícios iniciais de que as pessoas trans percebem uma ameaça maior e se sentem menos seguras. Goldberg e Sears (2025) realizaram um levantamento com pessoas adultas trans logo após a eleição de 2024 e constataram que 93% estavam preocupadas com o que uma presidência Trump poderia significar para as pessoas trans, 83% relatavam medo maior de discriminação e 83% preocupações maiores com a própria saúde mental. Além disso, 73% temiam que a qualidade de seus cuidados de saúde piorasse, sobretudo entre as pessoas trans mais pobres. A maioria (80%) planejava adotar comportamentos de encobrimento para reduzir sua visibilidade como pessoa trans e diminuir as chances de escrutínio (Goldberg e Sears 2025).

As pessoas trans com filhos podem se sentir especialmente vulneráveis no clima atual, sobretudo no contato com sistemas governamentais, serviços sociais, escolas e profissionais de saúde, contextos de escrutínio e julgamento nos quais seus direitos podem estar ameaçados. De fato, ainda que nenhuma política federal ou estadual que vise explicitamente os direitos de pessoas trans com filhos tenha sido aprovada, há indícios de que a ameaça dessas políticas e um clima cada vez mais hostil estão afetando a sensação de segurança e o bem-estar das pessoas trans (Goldberg e Sears 2025).

Parte das pessoas trans com filhos pode se sentir especialmente vulnerável a uma vigilância potencial no clima atual, em razão de diversos fatores individuais, familiares e contextuais que podem aumentar sua exposição a vieses e escrutínio. Pessoas trans com filhos que têm outras identidades marginalizadas, como ser uma pessoa não branca, ter deficiência, ter baixa renda ou ser jovem, podem se sentir especialmente vulneráveis (por exemplo, Goldberg e Frost 2025; James et al. 2024). Pessoas trans com filhos pequenos também podem sentir um medo especial, pois os grupos antitrans costumam retratar as crianças pequenas como as mais vulneráveis e necessitadas de proteção contra ideologias “perigosas” sobre gênero e sexualidade (Snaider 2024). As crianças pequenas também correm o maior risco de retirada do lar pelos CPS (Annie E. Casey Foundation 2024), em parte por seu contato frequente com diversas pessoas obrigadas a notificar (por exemplo, pediatras e profissionais de creche; Grossman et al. 2023). As pessoas trans com filhos que não têm outras formas de privilégio ou de controle sobre sua visibilidade, como ser “visivelmente trans” ou não conforme ao gênero (Rogers 2019), ou ter uma pessoa trans como parceira, o que pode aumentar a visibilidade do núcleo familiar (Siegel 2024), podem se sentir menos seguras ao interagir com esses sistemas. Além disso, as pessoas trans com filhos que vivem em áreas urbanas podem ter mais acesso a recursos específicos para pessoas trans, mas também podem ter mais interações (potencialmente escrutinadoras) com pessoas desconhecidas e, por isso, sentir mais medo (Lampe et al. 2020). Por fim, quem vive em estados com mais políticas antitrans também pode sentir mais medo (Goldberg e Sears 2025).

1.4 Perspectiva teórica

Esta investigação se apoia em um referencial de estigma estrutural, que inclui “condições sociais, normas culturais e políticas institucionais que restringem as oportunidades, os recursos e o bem-estar das pessoas estigmatizadas” (Hatzenbuehler e Link 2014, 2). Neste estudo, o estigma estrutural abrange as práticas institucionais, as políticas e as normas presentes nos sistemas de saúde, escolar, governamental e de serviços sociais, incluindo o CWS. Trabalhos anteriores estabeleceram como os cuidados de saúde (Falck e Bränström 2023), os sistemas de serviços sociais (McGrath et al. 2023) e o sistema jurídico (Siegel 2024) podem representar contextos estruturalmente estigmatizantes que perpetuam desfechos negativos em grupos vulneráveis, incluindo as pessoas trans. Este estudo também se apoia no modelo do estresse de minoria, que busca explicar os processos pelos quais o estigma estrutural e outros fatores, em especial os ligados à discriminação e à marginalização, afetam as pessoas minorizadas (Meyer 2003).

Os impactos do estigma estrutural são muitas vezes sentidos de forma diferente pelos diversos membros dos grupos minorizados e podem ser maiores para pessoas com múltiplas identidades marginalizadas que se cruzam, o que contribui para mais estresse de minoria (por exemplo, estigma internalizado, medo, hipervigilância) e mais dificuldades de saúde mental (Price et al. 2024). Pessoas trans pobres, negras, jovens ou com deficiência, por exemplo, podem enfrentar estigma significativo em contextos de saúde e em programas de serviço social (Kattari et al. 2017; Lacombe-Duncan et al. 2022; Velasco et al. 2022). As pessoas trans com filhos também correm riscos específicos ao se assumirem na escola dos filhos, sobretudo quando já se sentem sob escrutínio por outros motivos, como deficiência ou pobreza (Goldberg e Smith 2024). Esses efeitos interseccionais podem aumentar o risco de atenção e interferência indesejadas, inclusive por parte dos CPS (Polikoff e Spinak 2021).

Este estudo também se apoia em um referencial ecológico (Bronfenbrenner 1986), que enfatiza os múltiplos contextos que moldam pessoas e famílias, com influências que vão dos contextos distais, ou macrossistemas (por exemplo, instituições governamentais), aos contextos proximais, ou microssistemas (por exemplo, família, escola). Esse referencial também enfatiza as interações entre ambientes ou contextos, como entre escola e família. Além disso, permite observar como as pessoas obrigadas a notificar em diversos contextos (por exemplo, docentes e profissionais de saúde) não apenas atuam para observar e proteger (Rochford et al. 2023), mas também podem sustentar perspectivas e adotar comportamentos que refletem, perpetuam e servem a códigos ideológicos no nível mais amplo, o que pode afetar negativamente pessoas e famílias que fogem às expectativas normativas.

1.5 O presente estudo

Este estudo buscou compreender as experiências e preocupações de 108 pessoas trans com filhos nos Estados Unidos durante os primeiros meses do segundo governo Trump, em meio a um clima social e político cada vez mais antitrans, que pode afetar sua confiança, sua segurança e seu bem-estar nos contextos familiar e comunitário, bem como em suas interações com sistemas sociais como a escola, os sistemas governamentais e os serviços de saúde. Embora esses contextos e sistemas devam, em teoria, ser fontes de apoio e de serviços, no clima atual eles podem, ao contrário, ser vistos pelas pessoas trans com filhos como lugares de julgamento e de dano potenciais. Nosso objetivo de pesquisa foi compreender (a) as experiências de vulnerabilidade das pessoas trans com filhos em meio ao estigma estrutural e ao estresse de minoria exacerbados pelo atual clima sociopolítico, e (b) se e como o medo de vieses e as preocupações com ameaças a seus direitos parentais afetam suas decisões e experiências na interação com diversos sistemas e serviços. As perguntas de pesquisa mais específicas que orientam este estudo são:

  1. (Como) o medo do escrutínio, da vigilância e da denúncia aos CPS molda a disposição dessas famílias de recorrer a serviços governamentais? Em que medida esses medos aumentaram desde o início do governo Trump?
  2. (Como) o medo do escrutínio, da vigilância e da denúncia aos CPS molda o envolvimento dessas famílias com contextos-chave como a escola e os cuidados de saúde?
    1. Quais fatores individuais, da família nuclear e do contexto social (ou quais vulnerabilidades) estão associados a um maior medo de se tornar alvo da escola, de profissionais de saúde, da vizinhança e de familiares?
    2. Em meio a altos níveis de dificuldades de saúde mental, qual é a natureza das experiências dessas pessoas com profissionais de saúde e de seus medos de buscar ajuda?
    3. Considerando o papel poderoso de um tipo específico de familiar, parcerias atuais e anteriores, no contexto das preocupações com os direitos parentais e a retirada das crianças, quais são as experiências e preocupações dessas pessoas quanto à forma como sua identidade de gênero poderia ser usada contra elas numa Vara de Família?

Usamos estatística descritiva e análise qualitativa para responder às perguntas 1, 2b e 2c, e regressão logística para responder à pergunta 2a.

2 Método

As pessoas participantes (N = 108), todas com filhos e identificadas como trans ou não binárias, foram recrutadas pela Prolific, uma plataforma on-line de recrutamento que usa técnicas especializadas de segmentação para oferecer questionários a pessoas previamente cadastradas. As pessoas que (a) tinham indicado seu gênero como “mulher transgênero”, “homem transgênero”, “transgênero” ou “não binário”, (b) viviam nos Estados Unidos e (c) tinham pelo menos um filho ou uma filha com menos de 18 anos foram convidadas a responder a um questionário anônimo entre 19 de junho e 14 de julho de 2025. Todas passaram por uma verificação de identidade pela Prolific para garantir a validade da participação. Foi-lhes informado que o questionário anônimo incluía “perguntas fechadas e abertas sobre parentalidade, bem-estar e questões ligadas à visibilidade e à segurança como pessoa transgênero e, mais especificamente, como pessoa transgênero com filhos”. O questionário ficou hospedado na plataforma on-line Qualtrics e levou em média 43 minutos para ser respondido (DP = 19,4 min). Foi aprovado pelo comitê de ética institucional da Universidade Clark.

2.1 Descrição da amostra

Ver a Tabela 1 para dados sociodemográficos adicionais e mais detalhados da amostra. A maioria das pessoas participantes se identificava como mulher trans, não binária ou homem trans. Dois terços eram brancas. A maioria (91%) tinha mudado de nome, de pronomes ou de aparência. Pouco menos de um terço (32%) tinha feito mudanças legais no marcador de gênero ou no nome. A maioria se identificava como bissexual, queer ou pansexual. Quase dois terços tinham 35 anos ou menos.

Tabela 1 — Dados sociodemográficos (N, %)

  • Identidade de gênero. Mulher trans: 34 (31,5%); homem trans: 20 (18,5%); não binária: 40 (37,0%); homem de experiência trans: 4 (3,7%); genderqueer: 3 (2,8%); outra (por exemplo, gênero fluido, genderflux): 7 (6,5%).
  • Transição de gênero, mudanças legais. Mudança do marcador de gênero (por exemplo, em documentos oficiais): 35 (32,4%); mudança do nome legal: 27 (25,0%).
  • Transição de gênero, mudanças sociais e médicas. Uso de terapia hormonal: 42 (38,9%); mudança nos pelos faciais: 39 (36,1%); uso de outros pronomes: 76 (70,4%); uso de outro nome: 43 (39,8%); mudança de roupas, acessórios ou penteado de acordo com a identidade de gênero: 74 (68,5%); começou ou deixou de usar maquiagem: 46 (42,6%); nenhuma mudança social ou médica: 9 (8,3%).
  • Orientação sexual. Bissexual: 49 (45,4%); queer: 13 (12,0%); pansexual: 13 (12,0%); gay: 11 (10,2%); lésbica: 8 (7,4%); outra (por exemplo, assexual, demissexual, heterossexual): 14 (13,0%).
  • Raça/cora. Branca: 78 (72,2%); negra: 29 (26,9%); hispânica: 4 (3,7%); asiática: 2 (1,9%); nativa havaiana ou de outras ilhas do Pacífico: 1 (0,9%); indígena norte-americana ou nativa do Alasca: 1 (0,9%); outra (a saber, “mista”): 1 (0,9%).
  • Idade. 18–25 anos: 19 (17,6%); 26–30 anos: 25 (23,1%); 31–35 anos: 26 (24,1%); 36–40 anos: 23 (21,3%); 41–45 anos: 10 (9,3%); 46–50 anos: 3 (2,8%); 51 anos ou mais: 2 (1,8%).
  • Escolaridade. Ensino médio: 8 (7,4%); ensino superior incompleto ou tecnológico (associate’s degree): 16 (14,8%); bacharelado: 30 (27,8%); mestrado: 39 (36,1%); doutorado (PhD, JD, MD): 15 (13,9%).
  • Renda familiar. US$ 0 a 12.500: 8 (7,4%); US$ 12.501 a 25.000: 7 (6,5%); US$ 25.001 a 50.000: 14 (13,0%); US$ 50.001 a 75.000: 20 (18,5%); US$ 75.001 a 100.000: 9 (8,3%); US$ 101.001 a 125.000: 16 (14,8%); US$ 125.001 a 150.000: 9 (8,3%); US$ 150.001 a 175.000: 8 (7,3%); US$ 175.001 a 200.000: 3 (2,8%); mais de US$ 200.000: 14 (13,0%).
  • Dificuldades financeiras (último ano). Dificuldade para pagar o aluguel: 37 (34,3%); dificuldade para pagar as despesas básicas da casa: 45 (41,7%); dependeu de assistência governamental (por exemplo, auxílio-alimentação, Medicare): 36 (33,3%); dependeu de família ou amizades para pagar o custo de vida: 32 (29,6%); dormiu na rua, em abrigo ou em lugar não destinado a dormir: 4 (3,7%).
  • Caminho para a parentalidade. Algum filho ou filha por relação sexual, com a parceria atual: 56 (51,9%); por relação sexual, fora da parceria atual: 8 (7,4%); por inseminação com doador (ID), gestando a criança: 14 (13,0%); ID, sem gestar a criança: 13 (12,0%); ID com FIV recíproca (RIVF), gestando a criança: 5 (4,6%); ID com RIVF, sem gestar a criança: 9 (8,3%); gestação por substituição: 7 (6,5%); adoção pelo sistema de acolhimento familiar: 21 (19,4%); adoção privada: 10 (9,3%); adoção internacional: 5 (4,6%); acolhimento familiar: 3 (2,8%); parentalidade por afinidade: 7 (6,5%); outro caminho: 3 (2,8%).

a As pessoas participantes podiam indicar quantas categorias se aplicassem; por isso, os números somam mais de 100.

A maioria das pessoas participantes (n = 100; 92,6%) tinha emprego. Mais de um quarto (27%) relatou renda domiciliar (RD) de até US$ 50 mil por ano; 27%, RD de US$ 51 mil a 100 mil por ano; e 46%, RD acima de US$ 100 mil por ano. Quase três quartos (73%) relataram pelo menos uma dificuldade financeira no último ano. Por exemplo, mais de um terço (42%) tinha tido dificuldade para pagar as despesas básicas da casa, 34% para pagar o aluguel, 33% tinham dependido de assistência governamental para suprir necessidades básicas e 30% tinham contado com a família ou com amizades para pagar o custo de vida. Apenas 4% tinham dormido na rua ou em abrigo.

Mais de dois terços das pessoas participantes viviam em casamento (n = 76; 70,4%) e quase um quinto vivia em união sem casamento (n = 19; 17,6%). Entre as pessoas casadas ou em união (n = 99), considerando a identidade de gênero das parcerias, 22 (22,2%) eram mulheres cis, 20 (20,2%) mulheres trans, 18 (18,2%) homens trans, 17 (17,2%) homens cis, 11 (11,1%) pessoas não binárias, sete (6,5%) homens de experiência trans e quatro (4%) tinham outras identidades (por exemplo, genderqueer, mulher de experiência trans). Nove pessoas indicaram estar em separação ou divórcio em relação à pessoa com quem têm pelo menos um filho ou filha.

A maioria tinha um filho ou filha (n = 46; 42,6%) ou dois (n = 46; 42,6%); apenas 9 (8,3%) tinham três, quatro (3,7%) tinham quatro e três tinham cinco ou mais. Metade (n = 54) tinha pelo menos uma criança de 0 a 5 anos, quase dois terços (n = 65; 60,2%) pelo menos uma de 6 a 12 anos e mais de um terço (n = 39; 36,1%) pelo menos uma de 13 a 18 anos. Sessenta e cinco (60,2%) tinham pelo menos um menino cis, 59 (54,6%) pelo menos uma menina cis, duas (1,9%) um menino trans, quatro (3,7%) uma menina trans e uma (0,9%) uma criança não binária. A maioria tinha vínculo parental legal com todos os filhos (n = 100; 92,6%); três (2,8%) tinham com alguns deles e cinco (4,6%) não tinham. Os caminhos para a parentalidade mais comuns foram a relação sexual com a parceria atual (51,9%) e a adoção pelo sistema de acolhimento familiar (19,4%).

O maior número de participantes vinha do Texas (n = 17; 15,7%), de Nova York (n = 8; 7,4%), da Virgínia (n = 8; 7,4%), da Carolina do Norte (n = 6; 5,6%) e da Flórida (n = 5; 4,6%), com 1 a 4 participantes em outros 29 estados.

2.2 Medidas

As perguntas do questionário se basearam em nosso referencial teórico, em nosso conhecimento da literatura pertinente e em nossas pesquisas anteriores sobre temas relacionados. Durante a elaboração, a pessoa que assina em primeiro lugar consultou várias pessoas colegas com experiência em comunidades trans e em (a) pobreza, (b) CWS, (c) parentalidade e (d) contexto sociopolítico atual. O funcionamento e a facilidade de uso do questionário foram testados por várias pessoas da pós-graduação em psicologia clínica.

2.2.1 Variáveis de desfecho

2.2.1.1 Medo de denúncia

Perguntou-se às pessoas participantes: “Você sente medo de que [grupo] denuncie você aos serviços de proteção à criança e à família (por exemplo, CPS, DCF, DSS, DCF) por você ser trans ou por causa da sua identidade de gênero?”. A pergunta foi feita a respeito de quatro instâncias diferentes: (1) escola ou creche dos filhos (1 = sim, 41%; 0 = não, 59%); (2) profissionais de saúde (1 = sim, 38%; 0 = não, 62%); (3) vizinhança (1 = sim, 42%; 0 = não, 58%); e (4) familiares (1 = sim, 30%; 0 = não, 70%; Tabela 3). Esses itens foram o desfecho de uma série de regressões logísticas que examinaram os preditores do medo de denúncia aos CPS em diversos contextos entre as pessoas trans com filhos.

2.2.2 Variáveis preditoras

As variáveis preditoras foram vulnerabilidades individuais, da família nuclear e do contexto social que, segundo nossa hipótese, afetariam a probabilidade do desfecho (isto é, o medo de denúncia aos CPS por pessoas de quatro domínios).

2.2.3 Variáveis preditoras do contexto individual

2.2.3.1 Percepção como pessoa trans

Perguntou-se às pessoas participantes: “Você acredita que as outras pessoas percebem você como uma pessoa transgênero?”, e essa variável foi usada como marcador de visibilidade ou de vulnerabilidade. Ao todo, 14 (13,9%) responderam “com certeza”, 34 (33,7%) “em parte”, 25 (24,8%) “depende do contexto ou da pessoa”, 17 (16,8%) “não muito” e 11 (10,9%) “de modo algum”. A variável foi recodificada como dicotômica: com certeza ou em parte = 1 (n = 48; 47,5%); depende, não muito e de modo algum = 0 (n = 53; 52,5%).

2.2.3.2 Pessoa não branca

As pessoas que indicaram raça/cor ou etnia diferente de branca foram classificadas como não brancas (n = 36; 33,3%) e codificadas como 1. As pessoas participantes exclusivamente brancas (n = 72; 66,7%) foram codificadas como 0.

2.2.3.3 Baixa renda

As pessoas que relataram renda familiar abaixo de US$ 50 mil (n = 29; 26,9%) foram codificadas como 1, e as que tinham renda familiar acima de US$ 50 mil (n = 79; 73,1%), como 0.

2.2.4 Variáveis preditoras do contexto familiar

2.2.4.1 Parceria trans ou não cis

Ter uma pessoa trans ou não cis como parceira (n = 63; 62,4%) foi codificado como 1, e ter uma pessoa cis como parceira (n = 38; 37,6%), como 0.

2.2.4.2 Filhos de 5 anos ou menos

Ter filhos com menos de seis anos foi codificado como 1 (n = 48; 47,5%) e não ter filhos com menos de 6 anos, como 0 (n = 53; 52,5%).

2.2.5 Variáveis preditoras do contexto social

2.2.5.1 Comunidades urbanas ou metropolitanas

As pessoas participantes que viviam no que descreviam como áreas urbanas foram codificadas como 1 (n = 46; 42,6%), e as que viviam em comunidades rurais (n = 16; 14,8%) ou suburbanas (n = 46; 42,6%), como 0.

2.2.5.2 Estados hostis às pessoas trans

As pessoas participantes que viviam em estados considerados, segundo a contagem de políticas de identidade de gênero do Movement Advancement Project (MAP 2025), como tendo proteções baixas ou negativas para pessoas trans foram codificadas como 1 (n = 70; 64,8%), enquanto as que viviam em estados com proteções altas, médias ou razoáveis foram codificadas como 0 (n = 38; 35,2%).

2.2.6 Outras perguntas fechadas

Além dos itens demográficos (gênero, orientação sexual, idade, raça/cor, renda, situação conjugal, situação de emprego, local de residência, filhos e caminho para a parentalidade; ver a descrição da amostra e a Tabela 1), o questionário perguntava sobre condições de saúde mental e se tinham sido diagnosticadas por profissionais ou autodiagnosticadas. Perguntava também se as pessoas participantes tinham buscado ajuda de terapeuta ou de outras profissões de saúde; se sentiam medos ou preocupações relacionados à busca de ajuda; e, em caso afirmativo, pedia que indicassem as fontes desses medos numa lista predefinida (por exemplo, medo de um julgamento de “inaptidão”). Por fim, as pessoas participantes foram questionadas sobre o receio de que parcerias anteriores ou atuais usassem sua identidade de gênero contra elas (por exemplo, para obter a guarda principal dos filhos).

2.2.7 Perguntas abertas

Pediu-se às pessoas participantes que desenvolvessem suas respostas aos itens fechados (por exemplo, sobre o medo de se tornar alvo). Perguntou-se, por exemplo, por que temiam ser denunciadas aos CPS por diversas instâncias. Também foram feitas perguntas abertas independentes, como: De que forma, se for o caso, você observou mudanças na sua comunidade quanto à sensação de aceitação? De que forma, se for o caso, a presidência Trump e o clima sociopolítico mais amplo afetaram você no exercício da parentalidade?

2.3 Limpeza dos dados e seleção da amostra

As pessoas participantes foram recrutadas pela Prolific, uma plataforma de pesquisa on-line que conta com múltiplas salvaguardas para preservar a qualidade dos dados, reduz robôs e fraudes e tem se mostrado um meio confiável e eficiente de coletar dados (Bradley 2018; Palan e Schitter 2018). O conjunto de participantes da Prolific tem grande diversidade econômica e racial, o que garante representação adequada de pessoas com menor probabilidade de serem incluídas em pesquisas sobre pessoas LGBTQ+ (Goldberg e Frost 2025). Embora a Prolific faça uma triagem prévia de todas as participações para garantir sua validade (por meio de verificação de identidade), excluímos 31 pessoas de nossa amostra total de 139 em razão de (a) respostas incompletas ou tempos de resposta curtos, (b) numerosas respostas suspeitas de terem sido geradas por IA ou (c) não atendimento aos critérios de inclusão já “dentro” do estudo, mesmo após o consentimento, talvez por problemas de compreensão. A amostra final foi de 108 pessoas.

2.4 Análise dos dados

Este estudo emprega um delineamento de métodos mistos, combinando abordagens indutivas e dedutivas. Aproveitamos as contribuições específicas de cada abordagem, o que favorece uma compreensão mais abrangente e matizada de fenômenos que incluem questões sociais complexas (Lincoln e Guba 1985; Mason 2006). Nossa abordagem quantitativa permite focalizar padrões gerais nos dados e associações entre as variáveis de interesse, enquanto nosso componente qualitativo dá profundidade e sentido aos achados quantitativos (Mason 2006). Algumas perguntas abertas estavam estreitamente articuladas aos dados quantitativos (por exemplo, pedindo detalhes) para ilustrar de forma significativa os padrões nos dados, enquanto outras eram mais gerais e buscavam compreender a perspectiva das pessoas participantes em suas próprias palavras.

2.4.1 Análise quantitativa

Foram calculadas estatísticas descritivas básicas. Também realizamos uma série de regressões logísticas para verificar se o medo de denúncia aos CPS em quatro domínios distintos (escola ou creche, profissionais de saúde, vizinhança, familiares) entre as pessoas trans com filhos era predito por vulnerabilidades individuais (percepção como pessoa trans, pessoa não branca, baixa renda), familiares (parceria trans, filho ou filha com menos de 6 anos) e do contexto social (área urbana, estado hostil às pessoas trans). Dado o caráter exploratório do estudo, registramos os achados marginalmente significativos (p < 0,10).

2.4.2 Análise qualitativa

Para aumentar a confiabilidade na preparação do estudo e na coleta de dados, adotamos uma estratégia de coleta que, a nosso ver, produziria dados de alta qualidade e contextualmente válidos (Elo et al. 2014; Lincoln e Guba 1985). Também fizemos perguntas abertas e fechadas para obter múltiplas formas de dados que favorecessem uma compreensão mais matizada dos fenômenos de interesse (Morrow 2005). Nossa análise também se beneficiou da diversidade de nossas posições como pessoas autoras e de nossa disposição de nos engajar num processo reflexivo ao longo de toda a escrita, examinando como nossas experiências e pressupostos moldavam nossa relação com os dados (Morrow 2005). Nossa equipe de pesquisa é diversa em formação disciplinar, contexto profissional, estágio de carreira, identidade de gênero e situação parental, e recorremos a essas identidades variadas ao longo de todo o processo analítico, o que permitiu uma descrição e uma interpretação mais profundas, ricas e abrangentes de nossos achados (Goldberg e Allen 2024).

As respostas às partes abertas do questionário variaram de uma frase a meia página de texto, e a maioria das pessoas participantes respondeu com duas a cinco frases. A pessoa que assina em primeiro lugar usou a análise de conteúdo qualitativa (Krippendorff 2004) para examinar as respostas abertas. A análise de conteúdo é um método padrão para examinar respostas abertas de questionários, gerando novas compreensões por meio da identificação, da codificação e da categorização sistemáticas dos principais padrões ou temas presentes nos dados. Por meio de uma exploração cuidadosa, condensamos o texto em categorias de conteúdo para desenvolver um sistema de codificação que organizasse os dados (Bogdan e Biklen 2007).

A análise se concentrou nas reflexões das pessoas participantes sobre seu bem-estar, sua busca de ajuda e seus medos relacionados à retirada das crianças e à segurança jurídica. Ela se apoiou na literatura anterior e nos referenciais do estigma estrutural, do estresse de minoria e da abordagem ecológica. A pessoa que assina em primeiro lugar leu inicialmente todas as respostas abertas para se familiarizar com os dados, inclusive com os temas gerais das respostas. Ela registrou, e colocou entre parênteses, suas próprias experiências e ideias preconcebidas para favorecer uma postura curiosa e aberta. Em seguida, as respostas foram anotadas: por meio de codificação linha a linha, ela rotulou expressões relevantes para os principais domínios de interesse (por exemplo, razões para o medo de se tornar alvo). Esses códigos foram abstraídos em categorias e subcategorias mais amplas, posicionadas umas em relação às outras de modo a estabelecer conexões (por exemplo, entre o medo de se tornar alvo, a hipervigilância e o ocultamento, e as consequências do ocultamento) para descrever as experiências das pessoas trans com filhos. Essas conexões se basearam em nossos referenciais teóricos e os refletiram: prestamos atenção à forma como o estigma estrutural se manifestava em múltiplos contextos sociais e institucionais, era perpetuado por diversos sistemas e contribuía para o estresse de minoria. Um esquema provisório foi produzido e reaplicado, de modo que todos os dados foram recodificados de acordo com ele.

A segunda pessoa autora contribuiu com uma leitura crítica em várias etapas da codificação e com comentários adicionais sobre a estrutura final de codificação. Para reforçar ainda mais a credibilidade, várias pessoas da equipe de assistência de pesquisa atuaram como auditoria, codificando de forma independente um terço das respostas abertas como uma “checagem” básica dos temas principais, para fortalecer a credibilidade analítica (Goldberg e Allen 2015). Pequenas discrepâncias foram discutidas e resolvidas com a pessoa que assina em primeiro lugar. Os dados de várias seções foram recodificados segundo o esquema ligeiramente revisado. Depois de chegar à estrutura temática final, as duas primeiras pessoas autoras não identificaram nenhum conceito, código ou tema novo, o que indicou que a saturação dos dados tinha sido alcançada (Lincoln e Guba 1985). A terceira e a quarta pessoas autoras então revisaram o esquema de codificação, o que levou a algumas pequenas mudanças de coesão e fluidez. Nosso artigo está organizado em torno desse esquema final de codificação.

3 Resultados

As pessoas trans com filhos podem lidar com múltiplos contextos de que precisam (por exemplo, para obter apoio), mas que também reconhecem como lugares potenciais de vigilância, escrutínio e risco. Esses contextos vão dos mais distais (por exemplo, assistência governamental, sistema jurídico) aos mais proximais (por exemplo, família, escola, cuidados de saúde) e podem refletir e perpetuar ideologias estigmatizantes que colocam essas famílias em risco de retirada das crianças. Por isso, organizamos os resultados da seguinte forma. Primeiro, diante dos níveis moderados a altos de necessidade financeira nesta amostra, tratamos da dependência das pessoas participantes em relação à assistência governamental e do que sentem ao recorrer a serviços governamentais desde o início do governo Trump. Segundo, tratamos do medo de se tornar alvo e de denúncia aos CPS, dos preditores desse medo e de sua natureza e nuances, com atenção especial ao papel do clima sociopolítico. Terceiro, diante dos altos níveis de sofrimento psíquico nesta amostra, examinamos as experiências dessas pessoas com profissionais de saúde e seus medos de buscar ajuda, observando como as preocupações com julgamentos sobre a “aptidão” parental amplificavam esses medos. Por fim, tratamos das preocupações quanto aos direitos parentais e à guarda em relação às parcerias atuais e anteriores, que reúnem de modo singular proximidade e poder.

3.1 Recurso a serviços governamentais

Como detalhado na descrição da amostra, a maioria das pessoas participantes enfrentava dificuldades financeiras. Assim, mais de dois terços (n = 75; 69%) tinham recorrido a pelo menos uma forma de apoio governamental no último ano (Tabela 2). Ao todo, 44% recebiam cobertura de saúde federal ou estadual, 25% serviços de saúde mental subsidiados pelo governo e 22% auxílio-alimentação. Números menores usavam assistência em dinheiro (10%), o programa Head Start (8%), apoio ao emprego (8%), serviços para pessoas com deficiência (7%), auxílio-moradia (7%), auxílio para contas de consumo (7%) e benefícios para veteranos de guerra (6%), e 5% tinham tido contato com os serviços de proteção à infância.

Tabela 2 — Dependência atual de assistência governamental: apoio recebido atualmente de órgãos de serviço social (N, %)

  • Seguro-saúde (por exemplo, Medicaid, Medicare). 47 (43,5%).
  • Serviços de saúde mental. 25 (23,1%).
  • Auxílio-alimentação (por exemplo, SNAP, WIC). 24 (22,2%).
  • Assistência financeira ou em dinheiro. 11 (10,2%).
  • Cuidado infantil (por exemplo, Head Start). 9 (8,3%).
  • Apoio ao emprego. 9 (8,3%).
  • Abrigo e auxílio-moradia. 8 (7,4%).
  • Auxílio para contas de consumo. 8 (7,4%).
  • Serviços para pessoas com deficiência. 7 (6,5%).
  • Serviços para veteranos e famílias de militares. 6 (5,6%).
  • Proteção à infância (por exemplo, DCF). 5 (4,6%).
  • Nenhum destes. 33 (30,6%).

Quase dois terços das pessoas participantes que recorriam a pelo menos uma forma de apoio governamental (64%; 48 de 75) relataram “mais ansiedade, hesitação ou incerteza” ao usar esses serviços desde que Trump iniciou o segundo mandato. Quando convidadas a detalhar sua precariedade financeira e sua dependência desses sistemas, muitas pessoas destacaram uma tensão entre a necessidade dos serviços e as preocupações com os riscos de recorrer a eles como pessoas trans com filhos. A maioria enfatizou o receio de julgamento ou de sinalização, de maus-tratos ou recusa de serviços, ou até de denúncia ao CWS (por exemplo, “[por] eu ser trans e não me apresentar de forma tradicional”). De modo geral, viam os sistemas governamentais como menos previsíveis e seguros no clima atual: “Há mais medo de que sistemas feitos para nos apoiar se tornem punitivos, especialmente para pessoas trans com filhos.” Uma pessoa disse: “Tenho sentido mais ansiedade com a possibilidade de julgamento… ao lidar com sistemas como o Medicaid, os serviços de saúde mental e o Head Start, [pensando] que podem usar minha identidade de gênero, minha saúde mental ou a estrutura queer da nossa família para questionar minha aptidão parental.” Algumas pessoas estavam evitando usar novos serviços, como os voltados à deficiência e ao emprego, por medo de sofrer “perfilamento”.

As preocupações com o escrutínio pareciam ligadas tanto às interações interpessoais (por exemplo, a forma como agentes do governo poderiam reagir à sua identidade ou expressão de gênero) quanto às informações pessoais fornecidas na documentação exigida para receber diversos serviços. Por sua vez, o medo de se tornar alvo levava a uma hipervigilância: era preciso “tomar muito cuidado, conferir duas vezes os formulários e pensar duas vezes antes de revelar qualquer coisa pessoal”, por medo de que as informações fornecidas fossem usadas contra a família, uma vigilância constante descrita como “exaustiva”.

Além das preocupações ligadas à identidade de gênero, um quarto das pessoas participantes tinha receio de perder benefícios governamentais, reconhecendo que, sob o governo atual, “muitos desses programas, já subfinanciados, em breve terão seu financiamento cortado de novo e ainda mais obstáculos a superar”. As pessoas participantes observaram que o governo Trump estava fazendo “mudanças no Medicaid e no SNAP que podem dificultar o acesso”, e uma delas contou: “Tenho medo de perder o Medicaid, o WIC e o auxílio-aluguel agora que as leis de diversidade, equidade e inclusão (DEI) estão sendo revogadas.” Olhando para o futuro, preparavam-se para uma piora da situação: “O BBB [big beautiful bill], se for aprovado, vai eliminar os degraus para sair da pobreza que usei para que não precisássemos recorrer a bancos de alimentos, e a minha cobertura de saúde.” Outra pessoa disse: “Como Trump está tentando acabar com esses serviços, tenho medo, porque estou tentando conseguir um emprego [melhor], mas é mais difícil por eu ser trans e também por causa do mercado.”

Assim, as pessoas participantes muitas vezes viviam uma preocupação intensificada ao lidar com os sistemas governamentais por causa de sua vulnerabilidade como pessoas trans com filhos, somada a dificuldades financeiras persistentes, ao medo de perder benefícios e à preocupação com um recuo mais geral da assistência. Fundamentavam suas preocupações nas prioridades declaradas do governo e em políticas específicas propostas, o que evidencia sua experiência vivida em meio a níveis elevados de ansiedade antecipatória e à ameaça muito real de uma rede de proteção social em declínio. Dessa forma, suas identidades marginalizadas, trans e de baixa renda, criavam formas singulares e interseccionais de estresse de minoria, agravadas por forças estruturais (por exemplo, políticas federais e estaduais) e pelo crescimento do sentimento antitrans e “anti-DEI”.

3.2 Medo de denúncia aos CPS

Perguntou-se às pessoas participantes se sentiam medo de que diversas instâncias (escola, serviços de saúde, vizinhança ou familiares) as denunciassem aos CPS por causa de sua identidade de gênero, de sua orientação sexual ou de outras condições relevantes (por exemplo, raça/cor, classe social, deficiência, saúde mental). Ver a Tabela 3.

Tabela 3 — Medo de denúncia à proteção à infância e de interferência: medo de que [a instância] me denuncie aos serviços de proteção à criança e à família por causa de… (N, %)

  • Minha identidade de gênero. Escola ou creche: 44 (40,7%); profissionais de saúde: 41 (38,0%); vizinhança: 45 (41,7%); familiares: 32 (29,6%).
  • Minha orientação sexual ou relação homoafetiva. Escola ou creche: 32 (29,6%); profissionais de saúde: 28 (25,9%); vizinhança: 35 (32,4%); familiares: 27 (25,0%).
  • Minha raça/cor ou etnia. Escola ou creche: 13 (12,0%); profissionais de saúde: 17 (15,7%); vizinhança: 15 (13,9%); familiares: 12 (11,1%).
  • Minha condição socioeconômica ou baixa renda. Escola ou creche: 9 (8,3%); profissionais de saúde: 7 (6,5%); vizinhança: 13 (12,0%); familiares: 4 (3,7%).
  • Minha religião. Escola ou creche: 9 (8,3%); profissionais de saúde: 5 (4,6%); vizinhança: 8 (7,4%); familiares: 7 (6,5%).
  • Minha situação migratória. Escola ou creche: 0 (0%); profissionais de saúde: 0 (0%); vizinhança: 0 (0%); familiares: 1 (0,9%).
  • Minha saúde mental. Escola ou creche: 12 (11,1%); profissionais de saúde: 15 (13,9%); vizinhança: 9 (8,3%); familiares: 10 (9,3%).
  • Minha deficiência. Escola ou creche: 8 (7,4%); profissionais de saúde: 5 (4,6%); vizinhança: 9 (8,3%); familiares: 6 (5,6%).
  • Minhas convicções ou orientação políticas. Escola ou creche: 8 (7,4%); profissionais de saúde: 7 (6,5%); vizinhança: 12 (11,1%); familiares: 8 (7,4%).
  • Não sinto preocupação. Escola ou creche: 42 (38,9%); profissionais de saúde: 49 (45,4%); vizinhança: 40 (37,0%); familiares: 57 (52,8%).

Medo de que [a instância] me denuncie por causa da minha identidade de gênero: exemplos de citações.

  • Escola ou creche, 44 (40,7%). “A falta de compreensão [da equipe] me leva à cautela quanto a uma revelação completa, dependendo de com quem estou lidando.” “Algumas pessoas claramente não aceitam e se esforçaram para me expor ‘discretamente’, não mudando meu nome depois que souberam. Às vezes chegaram a usar de propósito outro nome.”
  • Profissionais de saúde, 41 (38,0%). “Evitei serviços médicos por medo de julgamento ou de desrespeito ao meu gênero, mesmo quando precisava de cuidados.” “Não quero que me julguem sem aptidão e me separem do meu bebê.” “O pronto-socorro daqui é administrado por uma empresa cristã que já demonstrou discriminação… contra pessoas [LGBTQ].”
  • Vizinhança, 45 (41,7%). “Vi uma polarização maior. Uma parte do bairro dá mais apoio, e outra é mais abertamente avessa às famílias e aos direitos queer.” “[Parte da vizinhança] ficou mais ousada em sua hostilidade ou em seu julgamento.”
  • Família, 32 (29,6%). “A pessoa de quem me separei, outros familiares e algumas autoridades falaram abertamente que eu não estava criando meu filho… corretamente. Essa pessoa chegou a ameaçar tirá-lo de mim por causa de ‘saúde mental’, principalmente por causa da minha identidade de gênero.”

De forma significativa, as pessoas participantes apontaram sistematicamente sua identidade de gênero como o alvo mais saliente de denúncia por todas essas instâncias. Por causa de sua identidade trans, 42% temiam ser denunciadas pela vizinhança; 41% pela escola ou creche; 38% por profissionais de saúde; e 30% pela família. (Ver a Tabela 3 para citações que ilustram esses medos.) A orientação sexual foi o segundo foco de possível perseguição mais citado, seguida da raça/cor e, depois, da saúde mental.

3.2.1 Regressão logística: predizer o medo de se tornar alvo e de denúncia por causa da identidade de gênero

Para compreender melhor como diferentes vulnerabilidades potenciais ligadas aos contextos individual, familiar e social se relacionavam ao medo de denúncia aos CPS, foi conduzida uma série de quatro regressões logísticas, tendo como desfechos o “medo de denúncia por causa da própria identidade de gênero” por cada uma das quatro fontes (escola, profissionais de saúde, vizinhança, família). As variáveis preditoras de nível individual foram a percepção ou não como pessoa trans, ser uma pessoa não branca ou branca e ter ou não baixa renda. As variáveis preditoras do contexto familiar foram a presença de parceria trans ou não cis e a presença de filhos de 5 anos ou menos. Por fim, as variáveis preditoras do contexto social foram área urbana versus rural ou suburbana e estado hostil às pessoas trans ou não.

3.2.1.1 Escola ou creche

As pessoas participantes cuja parceria não era cis (isto é, era trans ou não binária) tinham maior probabilidade de temer que a escola as denunciasse por causa de sua identidade de gênero (B = 0,99, EP = 0,50, Wald = 3,97, Exp(B) = 2,70, p = 0,046). Quem tinha filhos pequenos tinha probabilidade um pouco maior de temer uma denúncia pela escola, em nível de tendência (B = 0,85, EP = 0,45, Wald = 3,48, Exp(B) = 2,40, p = 0,062). Quem vivia em áreas urbanas tinha maior probabilidade de temer uma denúncia pela escola (B = 1,55, EP = 0,48, Wald = 10,22, Exp(B) = 4,70, p = 0,001).

3.2.1.2 Profissionais de saúde

Quem tinha filhos pequenos tinha probabilidade um pouco maior de temer uma denúncia por profissionais de saúde por causa de sua identidade de gênero, em nível de tendência (B = 0,75, EP = 0,45, Wald = 2,79, Exp(B) = 2,12, p = 0,095). Quem vivia em áreas urbanas tinha maior probabilidade de temer uma denúncia por profissionais de saúde (B = 1,39, EP = 0,49, Wald = 8,17, Exp(B) = 4,02, p = 0,004). Quem vivia em estados hostis às pessoas trans tinha maior probabilidade de temer uma denúncia por profissionais de saúde (B = 1,21, EP = 0,53, Wald = 5,20, Exp(B) = 3,37, p = 0,023).

3.2.1.3 Vizinhança

Quem vivia em áreas urbanas tinha maior probabilidade de temer uma denúncia pela vizinhança por causa de sua identidade de gênero (B = 1,08, EP = 0,45, Wald = 5,84, Exp(B) = 2,95, p = 0,016).

3.2.1.4 Familiares

As pessoas cuja parceria era trans ou não binária tinham maior probabilidade de temer uma denúncia por familiares por causa de sua identidade de gênero (B = 1,80, EP = 0,63, Wald = 8,07, Exp(B) = 6,03, p = 0,005). Quem vivia em estados hostis às pessoas trans tinha maior probabilidade de temer uma denúncia por familiares (B = 1,26, EP = 0,60, Wald = 4,40, Exp(B) = 3,52, p = 0,036).

Assim, no contexto familiar, ter filhos pequenos parecia aumentar a vulnerabilidade percebida a se tornar alvo nos domínios da escola e dos cuidados de saúde; ter parceria trans aumentava a sensação de vulnerabilidade nos domínios da escola e da família. No contexto social mais amplo, os ambientes urbanos se relacionavam a uma sensação maior de vulnerabilidade nos domínios da escola, dos cuidados de saúde e da vizinhança, e viver em estados mais hostis se associava a uma sensação maior de vulnerabilidade nos domínios dos cuidados de saúde e da família ampliada. As características individuais, isto é, ser percebida como pessoa trans, ser uma pessoa não branca e ter baixa renda, não tiveram relação significativa com o medo de denúncia.

3.2.2 “Falta de confiança” e “ansiedade de fundo”: a natureza dos medos

Pediu-se às pessoas participantes que detalhassem a natureza e a experiência de seus medos de denúncia ou de se tornar alvo. Muitas relataram uma sensação geral de ansiedade, desconforto e vulnerabilidade ao descrever a possibilidade de serem destacadas para escrutínio por causa de sua identidade de gênero ou por outras razões. Mencionaram desconfiança em relação aos sistemas de autoridade e, em alguns casos, a membros de sua comunidade, incluindo a vizinhança e o corpo docente. Reconheciam que “qualquer pessoa desconhecida ou profissional [poderia] interpretar nossa família por uma lente preconceituosa”. Uma pessoa disse: “Eu simplesmente me preocupo. Nunca se sabe quem pode se voltar contra você. Podem inventar motivos e, com baixa renda, não temos de fato os recursos para nos defender tão bem quanto as pessoas ricas.” Outra pessoa relatou uma “preocupação constante, de baixa intensidade, de que ser trans e criar filhos faça de mim um alvo, mesmo quando faço tudo certo. Sempre há o medo de que alguém, seja da administração da escola, seja da vizinhança, tire conclusões e me denuncie sem motivo real”.

Algumas pessoas falaram especificamente da natureza interseccional de seus medos. Descreveram como sua identidade ou expressão de gênero, sua raça/cor, sua classe social e sua idade se cruzavam para influenciar o julgamento de terceiros, podendo levar profissionais de saúde, docentes, outras pessoas obrigadas a notificar ou algum órgão governamental a contestar seus direitos ou sua capacidade parental e a denunciá-las aos CPS. Uma pessoa contou: “Tenho medo de que minha identidade não binária, somada ao fato de eu criar meus filhos como pessoa não branca e às vezes com renda limitada, leve algumas autoridades a questionar minha forma de criá-los.” Referindo-se a profissionais de saúde e à administração escolar, outra pessoa disse: “Tenho medo de que encontrem defeitos em mim por eu ser trans e bi e de algum jeito encontrem uma forma de tirar meus filhos. Nunca tive problemas e prefiro que continue assim.”

Algumas pessoas destacaram que os diagnósticos ou a neurodivergência dos filhos representavam razões adicionais para se tornarem alvo, e que poderiam ser usados contra elas para argumentar que as crianças deveriam ser retiradas de seus cuidados. Uma delas disse: “Minha criança também é autista. Tenho medo de que isso vire uma arma para atacar nossos direitos parentais se um dia formos alvo por causa do nosso ativismo político.” Outra pessoa contou: “Uma parte de mim continua com medo de que, se as coisas continuarem piorando [no clima antitrans], me acusem de ‘aliciamento’ (grooming) da minha criança e usem o autismo dela como desculpa para tirá-la de nós.”

Algumas pessoas lidavam com seus medos (por exemplo: “Quanto deixo outras famílias ou docentes saberem sobre minha identidade? Me assumir vai prejudicar minha criança?”) reduzindo sua visibilidade ou revelando sua identidade de forma seletiva. Essa decisão era muitas vezes penosa e tinha consequências para quem não se sentia em condições de viver sua identidade de forma autêntica e de existir abertamente em seu gênero. Uma pessoa disse: “É difícil saber que preciso manter minha identidade em segredo em tantos espaços. Toda vez que tenho que me descrever como mulher, eu me encolho por dentro. É difícil de explicar, mas isso me mata um pouco a cada vez. Mas sei que faço isso para manter nossa família em segurança.” Outra pessoa revelou ter decidido pelo ensino domiciliar “para que minha criança e eu não possamos ser alvo injusto”, observando: “[Eu] limitei minha ‘visibilidade’ nos espaços públicos, especialmente em contextos ligados à igreja. Ainda vamos à igreja, mas expliquei que não podemos revelar que sou [trans]. Ele parece entender.”

3.3 O papel do clima sociopolítico e legislativo nos medos

Convidadas a detalhar se tinham passado por experiências que as faziam temer se tornar alvo ou ser denunciadas, a maioria das pessoas participantes apontou o discurso antitrans que permeia o país e suas comunidades específicas. Observando o desprezo do governo pela comunidade trans e sua disposição de “violar a Constituição para prender as pessoas de quem não gosta e mandá-las para prisões em outros países”, uma pessoa disse: “Não é muito difícil acreditar que nossas comunidades possam ser o próximo alvo.” Outra pessoa disse: “A propaganda que tenta retratar as pessoas queer e trans como predadoras me faz temer que minha família seja destruída.”

As pessoas participantes reconheciam que o atual ambiente antitrans poderia “incentivar ou possibilitar denúncias contra famílias LGBTQ, mesmo quando não existe nenhuma irregularidade real”. Uma pessoa refletiu: “Sei que algumas pessoas, inclusive em posição de autoridade, ainda carregam vieses nocivos… Tenho medo de mal-entendidos, especialmente num clima político que demonizou as pessoas trans.” Algumas pessoas viviam em áreas “muito cristãs” ou conservadoras, o que ampliava sua preocupação com “perfilamento”, com ser “apontada como um problema” ou com “ter minha forma de criar os filhos vigiada”.

Algumas pessoas destacaram que projetos de lei que previam consequências para quem apoiasse a não conformidade de gênero dos filhos aumentavam sua ansiedade, pois essas leis pareciam mirar as famílias cuja forma de criar os filhos pudesse ser vista como uma ameaça ou uma perturbação ao desenvolvimento “normal” da identidade de gênero, incluindo as pessoas trans com filhos. Uma pessoa disse: “Algumas leis foram aprovadas exigindo que docentes e equipes médicas denunciem famílias que permitem cuidados de afirmação de gênero”, observando “eu sou trans” e dando a entender que essas leis poderiam ser aplicadas para atacar sua família. Algumas pessoas descreveram como a cobertura da mídia sobre pessoas trans com filhos que enfrentaram discriminação e ameaças de retirada das crianças tinha aumentado suas preocupações com a vigilância. Uma pessoa disse:

“Tenho medo de interpretações erradas em contextos em que as pessoas veem minha identidade de gênero ou meu jeito de criar meus filhos como pouco convencionais ou inseguros. As histórias na mídia sobre pessoas trans que perdem a guarda ou sofrem assédio dos sistemas estatais me deixaram com mais cautela, mesmo que isso não tenha acontecido comigo.”

Além de fundamentar seus medos na cobertura da mídia de histórias das quais estavam um tanto distantes, algumas pessoas participantes tinham medos que vinham de experiências negativas com pessoas de sua comunidade, das quais sentiam “muito julgamento”. Uma pessoa contou: “Já teve gente da vizinhança fazendo comentários de que eu estava estragando a vida das minhas meninas… mas não passou disso, de comentários.” Outra pessoa contou ter sofrido uma agressão “no caminho para casa”, o que lhe tirou a sensação de segurança no próprio bairro. A maioria, porém, falou de uma sensação geral de insegurança em suas comunidades, e não de ameaças diretas. Assim, muitas pessoas falaram de uma mudança no clima da comunidade desde a reeleição de Trump, que alimentava seu desconforto, observando que os membros da comunidade pareciam mais hostis, mais distantes ou mais “cautelosos em expressar apoio abertamente”. Uma pessoa contou: “Quando me mudei para cá, as pessoas não eram necessariamente acolhedoras, mas guardavam suas opiniões para si. Agora as pessoas são abertamente hostis e assediam as pessoas queer que moram na cidade.” Outra disse: “As pessoas carolas estão mais dispostas a gritar aos quatro ventos o quanto é mau quem não é igual a elas.” Ao descrever a mudança no sentimento da comunidade, as pessoas participantes citaram o cancelamento de eventos comunitários LGBTQ+ locais, discussões antitrans em fóruns on-line locais e o aumento de certas bandeiras e placas nos jardins (“por exemplo, mais bandeiras e slogans promovendo os ‘direitos dos pais’, e mais reação contra tudo o que é queer”). Essas mudanças sinalizavam um ambiente cada vez menos seguro para as pessoas trans e suas famílias.

3.4 Dificuldades de saúde mental, experiências com profissionais de saúde e medos associados

Interessava-nos em especial saber como as interações das pessoas participantes com profissionais de saúde poderiam ser afetadas de modo significativo por sua sensação intensificada de escrutínio em torno da identidade de gênero ou de possíveis ameaças a seus direitos parentais, sobretudo diante das altas taxas de dificuldades de saúde mental relatadas na amostra (Tabela 4). Essas dificuldades evidenciam tanto (a) um alto nível de necessidade de apoio em saúde mental na amostra quanto (b) a vulnerabilidade das pessoas trans com filhos que têm dificuldades de saúde mental diante da vigilância e de uma possível denúncia aos CPS.

Tabela 4 — Dificuldades de saúde mental e enfrentamento

  • Depressão. Diagnóstico profissional: 54 (50,0%); autodiagnóstico: 18 (16,7%); total: 72 (66,7%).
  • Ansiedade. Diagnóstico profissional: 65 (60,2%); autodiagnóstico: 21 (19,4%); total: 86 (79,6%).
  • Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Diagnóstico profissional: 12 (11,1%); autodiagnóstico: 6 (5,6%); total: 18 (16,8%).
  • Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Diagnóstico profissional: 23 (21,3%); autodiagnóstico: 14 (13,0%); total: 37 (34,3%).
  • Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Diagnóstico profissional: 24 (22,2%); autodiagnóstico: 14 (13,0%); total: 38 (35,2%).
  • Transtorno bipolar. Diagnóstico profissional: 11 (10,2%); autodiagnóstico: 2 (1,9%); total: 13 (12,1%).
  • Transtorno alimentar. Diagnóstico profissional: 5 (4,6%); autodiagnóstico: 6 (5,6%); total: 11 (10,2%).
  • Outro. Total: 5 (4,6%), entre eles autismo, n = 3 (dois autodiagnósticos, um diagnóstico profissional), e transtorno dissociativo de identidade, n = 2 (ambos com diagnóstico profissional).
  • Nenhuma dessas dificuldades, sem dificuldades de saúde mental. Total: 7 (6,5%).
  • Enfrentamento das dificuldades de saúde mental (sim, N, %). Acompanhamento com terapeuta: 56 (51,9%); acompanhamento psiquiátrico: 31 (28,7%); uso de medicação: 51 (47,2%); grupo de apoio ou terapia de grupo: 13 (12,0%); exercício físico: 46 (42,6%); meditação: 34 (31,5%); tempo com amizades ou família: 40 (37,0%); hobbies: 45 (41,7%); evitar notícias e mídia: 25 (23,1%); tempo com animais de estimação: 32 (29,6%); trabalho: 35 (32,4%); uso de álcool ou drogas: 14 (13,0%).

Quase 80% relataram ansiedade atual (60% com diagnóstico profissional, 19% com autodiagnóstico) e mais de dois terços relataram depressão atual (50% com diagnóstico profissional, 17% com autodiagnóstico). Apenas 7% não relataram nenhuma dificuldade de saúde mental. Quando se perguntou como estavam lidando com essas dificuldades, verificou-se que mais da metade da amostra fazia acompanhamento terapêutico, pouco menos da metade tomava medicação e mais de 40% se dedicavam a hobbies ou faziam exercício.

3.4.1 Preocupações com a busca de ajuda em saúde mental

Em teoria, o sistema de saúde mental pode oferecer às pessoas trans com filhos apoio e recursos para lidar com as consequências do estigma estrutural e do estresse de minoria, mas pode não inspirar confiança diante de exemplos históricos e contemporâneos de maus-tratos e vieses. Por isso, interessava-nos saber em que medida as pessoas participantes tinham medos, preocupações ou receios que poderiam ter dificultado a busca de ajuda para suas dificuldades de saúde mental. Quando perguntadas se tinham medo de buscar ajuda para as dificuldades descritas acima, 10 (9,3%) responderam “com certeza”, 35 (32,4%) “em parte”, 20 (18,5%) “neutro, depende”, 17 (15,7%) “não muito” e 21 (19,4%) “de modo algum”, com 5 respostas faltantes (4,6%). Assim, mais de 40% da amostra (n = 45) sentia pelo menos alguma preocupação em buscar ajuda para suas dificuldades de saúde mental.

Considerando apenas quem tinha muito ou algum medo de buscar ajuda, ou sentimentos ambivalentes a respeito (n = 65), ao serem perguntadas sobre as razões desses medos, quase metade (n = 31; 47,7%) indicou o medo de ser julgada “inapta” para a parentalidade por profissionais de saúde, e quase um terço (n = 21; 32,3%) indicou medo do CWS (por exemplo, de ter os filhos retirados). Ao todo, 41,5% (n = 27) temiam ser vistas como “loucas” por familiares, 40,0% (n = 26) temiam ser vistas como “loucas” por profissionais de saúde, 43,1% (n = 28) temiam que suas preocupações fossem invalidadas pelo sistema médico, 30,8% (n = 20) temiam homofobia ou transfobia do sistema médico, 13,8% (n = 9) temiam racismo do sistema médico e 6,2% (n = 4) indicaram outras preocupações (por exemplo, encontrar terapeuta que afirme identidades trans; falta de plano de saúde).

Quando convidadas a detalhar seus medos, muitas pessoas participantes destacaram sua vulnerabilidade ao buscar apoio em saúde mental sendo trans e tendo filhos, situação em que “interpretações enviesadas da minha identidade ou da minha saúde mental poderiam levar a investigações ou a questionamentos da minha parentalidade”. Reconheciam que sua identidade de gênero, somada à saúde mental ou à baixa renda, poderia levar profissionais de saúde mental ou de medicina a “ver minhas dificuldades como negligência, e não como necessidade de apoio”. Uma pessoa disse: “Tenho medo constante de que alguém da área olhe para o meu TEPT e decida me afastar de qualquer função de cuidado.”

Outra pessoa participante se preocupava com a possibilidade de, ao falar demais sobre

“a depressão, sobre a sensação de sobrecarga, alguém me ver como uma pessoa instável. Como pessoa trans, já sinto o peso do escrutínio, e sei que muitas pessoas trans com filhos foram investigadas injustamente. Isso cria um efeito inibidor. [Quero] evitar acender sinais de alerta.”

Algumas pessoas participantes adiaram tratamentos de que precisavam por causa dessas preocupações. Como contou uma delas: “Levei muito tempo para buscar ajuda para meus problemas de saúde mental no pós-parto, porque tinha receio de um envolvimento dos CPS caso achassem que minha criança não estava em segurança comigo, [embora] não houvesse nenhum fundamento para esse receio.”

As pessoas participantes viviam em hipervigilância e em constante avaliação de riscos, muitas vezes andando na corda bamba entre falar abertamente e ter cautela ao revelar informações pessoais, pesando a necessidade de ajuda contra o risco de discriminação. Uma pessoa disse: “Meu medo nem sempre me impede de pedir ajuda, mas com certeza torna isso mais difícil.” Outra pessoa disse: “Carrego muito medo de que falar abertamente sobre saúde mental ou dificuldades financeiras possa ser usado contra mim, especialmente por eu ser uma pessoa trans com filhos. Há uma tensão entre pedir ajuda e ficar fora do radar.” Algumas pessoas tinham decidido não ter “total transparência” sobre suas dificuldades de saúde mental quando buscavam ajuda, com receio de que “revelar demais possa desencadear uma denúncia ou um viés, mesmo que eu só esteja tentando cuidar de mim e da minha criança com responsabilidade”.

Em alguns casos, os medos se fundamentavam em experiências negativas anteriores com o sistema de saúde. Essas experiências muitas vezes envolviam invalidação (por exemplo: “[tive] uma terapeuta que me impunha normas de gênero femininas”; “[sofri] uso do gênero errado, invalidação da minha experiência e recusa de atendimento”; e “descaso… com minhas preocupações e meus problemas de saúde mental, [o que me fez] perder a confiança nesses sistemas”). Essa invalidação às vezes vinha acompanhada de julgamentos nocivos. Por exemplo, uma pessoa participante contou que a terapia anterior a “empurrou para conversas e relações com meus pais abusivos”, e observou: “Não encontrei escuta, nem olhar, nem reconhecimento para minhas identidades trans ou não binárias.” Outra pessoa relatou a experiência com uma terapia que a desencorajava de se assumir como pessoa trans e que “se concentrava em como minha vida era e em como eu deveria… não mudar isso [para evitar] perdas”. Às vezes, essas experiências levavam as pessoas participantes a “evitar novos contatos com profissionais de medicina”. Uma pessoa contou:

“Recentemente cortei relações com uma terapeuta porque ela se recusou a me escrever uma carta de apoio para a cirurgia de tórax… então até quem diz oferecer cuidados de afirmação de gênero me abandonou quando eu mais precisava de ajuda. Não procurei outra terapia desde então, e perdi minha cobertura do Medicaid [então não tenho mais como] pagar por atendimento agora.”

Às vezes, profissionais de terapia invalidavam as experiências e as preocupações das pessoas participantes especificamente como pessoas trans com filhos, sem reconhecer “os desafios de criar filhos sendo trans [e sem] perguntar como poderiam apoiar tanto minha identidade quanto meu percurso na parentalidade”.

3.5 Preocupações com contestações judiciais dos direitos parentais por parcerias atuais e anteriores

Além das preocupações com a saúde mental, as pessoas participantes indicaram outras áreas em que sentiam vulnerabilidade quanto a seus direitos parentais no sistema jurídico. Lembrando que 30% temiam ser denunciadas aos CPS por familiares, ficou evidente nas respostas abertas que alguns desses familiares eram de fato parcerias atuais ou anteriores. Dado o poder singular das parcerias atuais e anteriores de mobilizar o sistema jurídico contra pessoas trans numa disputa por direitos parentais, concentramo-nos nesses contextos relacionais específicos.

3.5.1 Parcerias atuais

A maioria das pessoas participantes vivia uma relação conjugal (n = 100; 93%), e a maioria (68%) avaliou essa relação como excelente (n = 36) ou muito boa (n = 32). Vinte e uma pessoas (21%) indicaram que a relação era boa, e as demais a avaliaram como melhor que razoável (n = 3), razoável ou regular (n = 6), pior que razoável (n = 1) e ruim (n = 1). Quando perguntadas se tinham alguma preocupação de que a parceria usasse sua identidade de gênero contra elas (por exemplo, para obter a guarda) em caso de separação ou divórcio, 11 (11%) responderam que sim e 11 (11%) não tinham certeza.

Ao detalhar suas preocupações sobre como sua identidade de gênero poderia ser usada contra elas num contexto judicial por uma parceria atual ou anterior, as pessoas participantes destacaram seu conhecimento e, às vezes, sua exposição pessoal ao viés antitrans no sistema jurídico. Algumas conheciam ou sabiam de outras pessoas trans que tinham perdido a guarda dos filhos, o que alimentava suas preocupações. Uma delas disse: “Tenho medo de que minha identidade de gênero seja… injustamente julgada pelos tribunais ou pela parte contrária numa disputa de guarda, mesmo que eu ofereça um ambiente amoroso e estável… Minha preocupação vem de experiências passadas e de histórias de outras pessoas em situações semelhantes.”

Algumas pessoas participantes expressaram uma sensação de incerteza, reconhecendo tanto que não podiam ter total certeza do que a parceria faria numa situação de separação ou divórcio quanto destacando sua vulnerabilidade como pessoas trans ou a falta de proteções jurídicas em relação aos filhos. Uma pessoa contou que a parceria “nunca deu sinais de usar minha identidade como arma. Mesmo assim, mantenho a cautela por causa da forma como os sistemas jurídicos podem interpretar mal ou amplificar vieses”.

A maioria das pessoas participantes não tinha receio de que a parceria usasse sua identidade de gênero como arma. Mais da metade destacou que confiava na parceria e que a parceria reconhecia suas qualidades na parentalidade. Uma pessoa disse: “Não tenho preocupações com isso por causa da forma como minha parceira me honra, me respeita, me trata e me vê. Confio que ela nunca vai usar isso contra mim de forma alguma.” Algumas pessoas disseram simplesmente não achar que iriam se divorciar, de modo que a questão não se colocava. Uma delas disse: “Simplesmente não vejo um divórcio acontecendo tão cedo. As tensões iniciais [ligadas à minha identidade de gênero ou transição] foram resolvidas logo no começo e hoje vivemos normalmente, então é improvável que isso vire uma questão, e ainda menos provável que seja usado contra mim.” Mais de 10% das pessoas participantes disseram não se preocupar porque a parceria também era trans ou queer (“Somos duas pessoas não binárias”; “Ninguém no nosso casal é hétero, então não há nenhuma possibilidade disso”).

Algumas pessoas observaram que, apesar de serem trans ou não binárias, eram, aos olhos da lei, “a mãe” (por exemplo, por terem dado à luz a criança e serem a mãe biológica legal) e não previam discriminação. Algumas afirmaram ter qualidades na parentalidade e confiar que isso seria uma consideração decisiva. Uma pessoa considerava que a voz dos filhos abafaria qualquer tentativa da parceria de usar sua identidade de gênero contra ela.

3.5.2 Parcerias anteriores

Das nove pessoas participantes em divórcio ou separação em relação à pessoa com quem têm um ou mais filhos, três relataram preocupação de que essa pessoa usasse sua identidade de gênero contra elas para obter a guarda. Uma delas explicou: “Como ele é hétero, pode usar a carta do gênero para obter a guarda principal da nossa criança.” Outra pessoa disse: “A pessoa com quem eu vivia fez comentários velados no passado sobre ‘o que é melhor para as crianças’, especialmente quando comecei a transição. Tenho medo de que ela embarque na retórica antitrans se a guarda legal um dia for revista.” Por fim, em um caso, a parceria anterior “já usou o fato de eu ser trans como argumento para que eu não tivesse a guarda integral da nossa filha”.

As pessoas participantes sem essas preocupações descreveram relações de coparentalidade positivas e o reconhecimento de sua identidade de gênero, e uma delas contou: “Ela também é trans.” Uma pessoa disse: “A separação foi em ótimos termos. Temos a mesma convicção de que o melhor para a criança é contar com a presença de ambas as partes na vida dela, então nos concentramos nisso. Nunca recebi ameaças por causa da minha identidade de gênero nem de nada.” Outra pessoa se sentia tranquila graças a uma “relação de coparentalidade respeitosa; [a pessoa] sempre reconheceu minha identidade e colocou o bem-estar da nossa criança acima de qualquer diferença pessoal”.

4 Discussão

As pessoas trans com filhos deste estudo expressaram preocupações substanciais de que sua identidade de gênero pudesse levar pessoas de quatro domínios de interação (cuidados de saúde, escola, vizinhança e família) a denunciá-las aos serviços sociais, em parte devido ao atual ambiente sociopolítico. Os dados quantitativos mostraram que componentes da visibilidade trans (isto é, ser uma pessoa trans com parceria trans), assim como fatores do contexto social, como a urbanidade e o ambiente jurídico do estado, apresentaram o padrão de associação mais forte com as preocupações parentais em todos os domínios de denúncia. Os dados qualitativos revelaram como diferentes identidades interseccionais, embora não tenham sido preditores estatisticamente significativos em nossas regressões, pesavam nas preocupações das pessoas participantes, que explicaram como o estigma ligado à sua identidade trans, bem como à raça/cor e à baixa renda, alimentava seus medos.

A constatação de que as pessoas trans com filhos e com parceria trans tinham preocupações intensificadas com sua vulnerabilidade a denúncias aos CPS por profissionais tanto do domínio escolar quanto dos cuidados de saúde é importante, pois indica, pelo lado inverso, que as pessoas trans com parceria cis podem contar com uma camada de proteção e de privilégio que as resguarda do estresse de um escrutínio mais intenso (Siegel 2024). É possível que ter uma parceria cis funcione como uma rede de proteção, com essa pessoa sendo o rosto da família em interações ou situações nas quais ser trans provoca insegurança ou vulnerabilidade. Alternativamente, pode ser simplesmente que as pessoas trans com parceria trans fiquem em estado de alerta intensificado nesses contextos pela combinação da própria vigilância com a da parceria, de modo que o estresse de minoria ligado ao medo de escrutínio e de se tornar alvo se acumula para as duas pessoas. Pesquisas futuras podem explorar essa questão.

Nossa constatação de que quem tem filhos pequenos tinha maior probabilidade do que quem tem filhos mais velhos de se preocupar com denúncias aos CPS pela equipe de escolas e creches, bem como por profissionais de saúde, provavelmente reflete a compreensão de que as crianças pequenas, em geral, estão sob mais “olhares” (CWIG 2023). Pode refletir também a consciência do estigma reforçado por discursos políticos e sociais que retratam as crianças pequenas como inocentes e necessitadas de “salvamento” diante de pessoas adultas desviantes (Snaider 2024) e a realidade de que as crianças pequenas são as que mais correm risco de retirada pelos CPS (Annie E. Casey Foundation 2024). Algumas pessoas mencionaram o ensino domiciliar como forma de reduzir a visibilidade e garantir a segurança, a proteção e a privacidade da família. Essa opção pode ser especialmente atraente para quem tem filhos pequenos, pois os prejuízos de sair da escolarização formal podem parecer pequenos em comparação com os riscos de exposição a docentes e equipes de creche com possível propensão ao julgamento, atores poderosos com o dever de denunciar suspeitas de “dano”.

Embora os medos e as experiências descritos pela população do estudo possam ter surgido antes da eleição de Donald Trump para um segundo mandato, eles foram claramente exacerbados por sua campanha, pela retórica associada e pelas políticas propostas. As pessoas participantes explicaram como esses estigmas estruturais, isto é, o crescimento da retórica antitrans e as políticas antitrans propostas e aprovadas, criaram um ambiente menos seguro para viver a própria identidade, usar os recursos necessários, pedir ajuda e revelar dificuldades, na medida em que reconheciam que suas múltiplas vulnerabilidades poderiam ser usadas contra elas. As preocupações estavam presentes mesmo entre pessoas que não tinham sofrido discriminação diretamente, mas reagiam a relatos de discriminação sofrida por outras.

As pessoas participantes reconheciam que as dificuldades de saúde mental que enfrentavam, em parte como resultado de experiências diretas e indiretas de estresse de minoria e de discriminação, poderiam servir de motivo para considerá-las inaptas. Esses achados ecoam outros trabalhos que documentam como pessoas LGBTQ+ marginalizadas em razão de raça/cor e classe, em particular, podem ter medos intensificados de escrutínio e vigilância (Goldberg e Frost 2025) e podem deixar de revelar aspectos centrais de sua identidade e de sua experiência, o que pode ampliar o sofrimento, mas também protegê-las da discriminação (Suppes et al. 2021). Como as pessoas trans com filhos em estados hostis tinham maior probabilidade de temer denúncias aos CPS por profissionais de saúde do que as que viviam em estados que afirmam as identidades trans, há uma clara necessidade de que os serviços de saúde explicitem seu compromisso com um atendimento sem vieses às pessoas trans, reconhecendo que as pessoas trans com filhos, em particular, podem hesitar em buscar cuidados em meio ao discurso antitrans local, estadual e nacional.

Os esforços das pessoas trans com filhos para se proteger de estigma e escrutínio potenciais, por exemplo tentando reduzir sua visibilidade como pessoas trans e limitando seu acesso a cuidados de saúde e apoios em saúde mental, estavam em tensão com o reconhecimento de que esses esforços tinham custos, entre eles a dor de esconder quem são e a falta de serviços necessários. As pessoas trans com filhos deste estudo relataram altos níveis de dificuldades de saúde mental: 60% relataram diagnóstico atual de ansiedade e 50% diagnóstico atual de depressão, taxas mais altas do que as relatadas entre pessoas trans em geral e em contextos clínicos em particular. Por exemplo, usando dados de prontuários eletrônicos, Wanta et al. (2019) constataram que 58% das pessoas trans atendidas tinham pelo menos um diagnóstico psiquiátrico, contra 14% da população atendida cis; mais especificamente, 31% das pessoas trans (contra 6% das pessoas cis) tinham transtorno de ansiedade e 31% das pessoas trans (contra 5% das pessoas cis) tinham depressão maior. Assim, a amostra atual vive altos níveis de sofrimento, provavelmente influenciados ao menos em parte pelo atual ambiente sociopolítico, em consonância com pesquisas recentes (Goldberg e Sears 2025).

Embora não tenhamos perguntado sobre mudança de residência como estratégia para lidar com esses medos, nossos dados quantitativos destacam a importância do contexto jurídico estadual nas preocupações das pessoas participantes, e outras equipes de pesquisa relataram um número crescente de pessoas trans com filhos e de famílias de crianças trans que deixam tudo para se mudar para lugares mais seguros (Abreu et al. 2022; Goldberg e Sears 2025; Pyne et al. 2015; Lopez et al. 2025). No entanto, dado o papel da renda e de outras dimensões de privilégio (por exemplo, mobilidade profissional) na capacidade das pessoas LGBTQ+ de se mudar, em meio ao impacto cada vez mais nacional das políticas e da retórica anti-LGBTQ+ (Goldberg et al. 2024), é provável que muitas das pessoas participantes não vissem nisso uma opção acessível. Dessa forma, as opções das pessoas trans com filhos para lidar com ambientes estruturalmente estigmatizantes ou escapar deles são inevitavelmente limitadas pelo acesso a recursos, recursos que eram em geral limitados para as pessoas participantes de nosso estudo, a maioria das quais dependia financeiramente de serviços governamentais.

Este estudo evidencia claramente os efeitos profundamente negativos do atual clima político sobre as pessoas trans com filhos e sobre seus filhos. O crescimento das políticas e da retórica antitrans criou um ambiente de ansiedade e desconfiança crescentes em relação à vizinhança, a membros da comunidade, a docentes, a familiares, a profissionais de saúde e a ex-parcerias. Tendo como pano de fundo a intensificação do sentimento antitrans (Kemp 2024) e estereótipos não comprovados de que pessoas trans seriam “inaptas” para a parentalidade (Hafford-Letchfield et al. 2019; Massey et al. 2021), as pessoas trans com filhos deste estudo expressaram um conjunto de medos e experiências que evidenciam como o CWS pode ser usado menos para proteger as crianças e mais para estabelecer que tipos de parentalidade e de família são considerados aceitáveis em determinado ambiente (Goldberg e Frost 2025; Polikoff e Spinak 2021). Mesmo entre quem não tinha sofrido discriminação pessoalmente, havia uma consciência profunda e imediata do potencial de discriminação, e muitas pessoas destacaram como o conhecimento de casos de discriminação (por exemplo, pela mídia) tinha afetado sua sensação de segurança.

Vale notar que o estudo também identificou vários fatores que aumentam a resiliência das pessoas trans com filhos. O ambiente jurídico estadual afetou significativamente o medo de denúncia ao CWS, de modo que quem vivia em estados mais acolhedores tinha menos medo. Esse achado ecoa trabalhos anteriores com pessoas adultas trans (Goldberg e Sears 2025) e com famílias de crianças trans (Abreu et al. 2022) ao ressaltar os efeitos do clima jurídico estadual sobre a sensação de vulnerabilidade e o sofrimento associado. Além disso, os dados qualitativos revelaram que ex-parcerias acolhedoras ajudavam a afastar preocupações com uma possível redução da guarda, o que ressalta a necessidade de que as profissões jurídicas orientem arranjos de coparentalidade respeitosos e cooperativos, que protejam e fortaleçam o direito de ambas as partes aos filhos (Minter 2018, 2019).

4.1 Limitações

Este estudo tem várias limitações. A amostra de pessoas trans com filhos disponível na Prolific, e em particular a parte que respondeu a este questionário, pode não representar plenamente a gama de identidades e experiências das pessoas trans com filhos nos Estados Unidos. O estudo também ocorreu num contexto político muito específico, em que o “Big Beautiful Bill” estava em destaque no noticiário, o que pode ter aumentado a atenção e as preocupações com a perda de financiamento da rede de proteção social (Evans 2025). Além disso, o tamanho da amostra não foi suficiente para avaliar plenamente muitos dos fatores interseccionais que podem ter afetado as preocupações com a vigilância nos diferentes contextos, o que precisará ser avaliado em pesquisas futuras. Também a dicotomização grosseira de raça/cor em branca versus não branca limitou nossa capacidade de testar diferenças raciais. Da mesma forma, o uso de desfechos e preditores dicotômicos reduziu nossa capacidade de detectar efeitos pequenos. De fato, não encontramos resultados significativos para alguns achados esperados (por exemplo, viver num estado com políticas menos afirmativas para pessoas trans não se relacionou ao medo de denúncia pela escola), o que justifica novas pesquisas com amostras maiores e medidas mais refinadas e direcionadas.

4.2 Implicações para políticas, prática e pesquisa

Profissionais que atuam com famílias, profissionais de saúde comportamental e outras profissões de saúde e de serviços comunitários precisam se empenhar em compreender e enfrentar os medos das pessoas trans com filhos e os esforços correspondentes para proteger suas famílias, num momento em que a confiança na eficácia do sistema jurídico estadunidense diminui (Copeland 2025). Em particular, as equipes profissionais devem fazer questão de acompanhar as mudanças na política local e federal que possam afetar pessoas trans e queer com filhos, inclusive sua saúde mental e sua capacidade e disposição de acessar recursos, e devem iniciar discussões no nível organizacional sobre as implicações dessas políticas para a segurança das famílias e sobre a melhor forma de enfrentá-las. Além disso, como as pessoas trans com filhos muitas vezes têm outras identidades vulneráveis, as organizações e as pessoas que trabalham com elas devem ter consciência de suas preocupações muito legítimas com a possível vitimização de suas famílias e delas próprias.

Os dados mostram que muitas pessoas trans, inclusive pessoas trans com filhos e famílias de crianças trans, estão ativamente preocupadas com a possibilidade de que medidas que tomaram anteriormente para a transição legal, ou para melhorar suas experiências com cuidados de saúde e serviços sociais (por exemplo, registrar pronomes e gênero nos prontuários eletrônicos), possam agora aumentar sua visibilidade e sua vulnerabilidade a danos sistemáticos por parte de um regime abertamente opressor (Queerdoc 2025). Para pessoas trans com filhos menores de idade, esse medo claramente se intensificou (Lang 2025). As preocupações relatadas pelas pessoas participantes quanto à busca de ajuda e à revelação da identidade complementam e matizam esses achados emergentes.

Os dados deste estudo foram coletados no quinto e no sexto mês da segunda presidência Trump, antes das notícias de que o FBI estaria considerando classificar pessoas trans como “extremistas violentos niilistas” e antes da publicação, em sites do governo federal, de um banner que incluía os cuidados de afirmação de gênero (chamados de “mutilação de gênero”) entre as razões pelas quais a população não conseguia acessar os benefícios do SNAP durante a paralisação do governo em 2025 (Monteil 2025a, 2025b). Outros estudos relatam que pessoas trans com filhos enfrentam um temor crescente à medida que os direitos civis são corroídos, que atos de exposição à mídia de prontuários médicos privados de jovens trans são descriminalizados (Raymond 2025) e que o governo busca obter os prontuários médicos de pessoas em cuidados de afirmação de gênero, bem como a identidade de quem presta esses cuidados (Associated Press 2025). Por fim, à medida que o acesso a cuidados de afirmação de gênero para pessoas adultas e sua disponibilidade se estreitam, as pessoas trans com filhos provavelmente enfrentarão preocupações com interrupções estruturais da transição médica, que levariam a maior visibilidade na comunidade e a um possível aumento associado da vulnerabilidade e do risco pessoais.

O ambiente político atual levanta a questão de saber se boas práticas desenvolvidas anteriormente para coletar dados sobre orientação sexual e identidade de gênero (por exemplo, Waad e Johnson 2025) poderiam agora causar mais danos do que benefícios, e se a documentação da condição de minoria sexual ou de gênero tanto nos sistemas de saúde quanto em diversos sistemas governamentais poderia levar à criminalização de identidades e à retirada de crianças (Lewis et al. 2025). As equipes de pesquisa precisam, da mesma forma, considerar não só a segurança dos dados de seus estudos, mas também como suas pesquisas poderiam ser deturpadas por agentes mal-intencionados (Wuest 2025).

Os medos das pessoas trans com filhos tendem a aumentar à medida que mais governos estaduais aprovam leis que criminalizam o uso de banheiros e vestiários (por exemplo, o House Bill 752 de Idaho, 2026). Essas proibições não só afetam a segurança e o bem-estar das pessoas trans, como também aumentam o isolamento forçado dessas famílias, já que os estados buscam criminalizar o acesso a espaços públicos aonde as famílias costumam levar as crianças, como parquinhos, piscinas e bibliotecas. Com o aumento do escrutínio apoiado pelos estados sobre pessoas suspeitas de serem trans em banheiros (por exemplo, o House Substitute for Senate Bill 244 do Kansas, 2026) e as penalidades alarmantes em caso de condenação, o aumento da ansiedade e do isolamento entre pessoas trans com filhos é um desfecho provável. Além disso, essas pessoas estão sendo forçadas a considerar que, em caso de prisão, seus filhos provavelmente terão contato com os CPS e que, em caso de encarceramento, correm o risco de destransição forçada em meio ao recuo das medidas de proteção nas prisões (Ferguson 2025). Os serviços de saúde mental precisam estar atentos às graves ameaças que as pessoas trans com filhos enfrentam e buscar oferecer tanto validação quanto apoios estratégicos.

5 Conclusões

Na segunda presidência Trump, os ataques aos direitos e ao bem-estar das pessoas trans nos Estados Unidos aumentaram a vulnerabilidade que muitas pessoas trans com filhos já viviam. Nossa pesquisa mostra como fatores individuais e contextuais, como a visibilidade trans, ter filhos pequenos, viver numa comunidade urbana e o ambiente político do estado, podem afetar a sensação de vulnerabilidade e a preocupação associada de se tornar alvo e de denúncia aos serviços de proteção à infância pelo que essas pessoas são, e não por preocupações reais com sua capacidade parental ou com sua relação com os filhos. Tendo mostrado como essas preocupações podem reduzir a disposição das pessoas trans com filhos de recorrer aos sistemas médicos e de serviço social, ressaltamos a necessidade urgente de determinar como tornar os sistemas sociais mais seguros, a fim de facilitar o acesso dessas pessoas e de seus filhos aos serviços necessários.

Complexe Systémique: a reter

Este texto interessa diretamente a terapeutas de família, porque descreve um paradoxo que a clínica percebe mal: os lugares que deveriam ajudar, escola, saúde, serviços sociais, tornam-se lugares de risco para essas pessoas, e a ajuda que não se pede acaba pesando sobre toda a família. Numa leitura sistêmica, o resultado mais eloquente é relacional: são os casais formados por duas pessoas trans, mais visíveis, que mais se preocupam, e uma parceria cis parece funcionar como escudo. Para a prática, três referências: não ler a cautela dessas famílias como resistência ou desconfiança patológica, explicitar desde o início os limites do sigilo e a obrigação de notificar, e refletir sobre o que se registra nos prontuários. Os limites são os de um levantamento on-line: amostra recrutada numa plataforma, perguntas construídas pela equipe, codificação qualitativa conduzida inicialmente por uma única pessoa e um contexto, os primeiros meses do segundo mandato de Trump, difícil de transpor. Trata-se de medos relatados, não de denúncias medidas. Para ler junto com o artigo sobre os maus-tratos institucionais na proteção da infância e com o estudo sobre a alterização vivida por pessoas LGBTQ+ na terapia de casal.

Notas do original

1 Neste artigo, distinguimos o “sistema de proteção à infância” (child welfare system, ou child welfare services; CWS) dos “serviços de proteção à criança” (child protective services; CPS). Embora esses termos às vezes sejam usados de forma intercambiável para designar os serviços governamentais encarregados de proteger as crianças e priorizar sua segurança, CWS se refere com mais frequência ao sistema mais amplo e abrangente, centrado na estabilidade familiar e na oferta de recursos e serviços, enquanto CPS costuma se referir ao braço reativo e investigativo do CWS (Child Welfare Information Gateway 2025).

Financiamento. A equipe de pesquisa não tem nada a declarar.

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Tradução não oficial em português de “Eu me protejo para evitar a proteção à infância”: os medos de pessoas trans com filhos diante da busca de ajuda e dos sistemas de serviço social, de Abbie E. Goldberg, Elizabeth R. Boskey, JuliAnna Z. Smith e Ariel K. Berman, Family Relations, publicação on-line antecipada (2026), doi: 10.1111/fare.70269, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de ““I Self‐Protect to Avoid Child Protection”: Transgender Parents' Fears of Help‐Seeking and Social Service Systems”, publicado em Family Relations (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Goldberg, A. E., Boskey, E. R., Smith, J. Z., et Berman, A. K. (2026). “Eu me protejo para evitar a proteção à infância”: os medos de pessoas trans com filhos diante da busca de ajuda e dos sistemas de serviço social (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/eu-me-protejo-para-evitar-a-protecao-a-infancia-os-medos-de-pessoas-trans-com-filhos (Obra original publicada em 2026 em Family Relations, e70269, publication en ligne anticipée (2026); republicada em 2026 por Family Relations, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/fare.70269)

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