Red Sistémica · Terapia familiar

Patologia da família e intervenções terapêuticas em um ambiente democrático: que efeitos?

O que acontece com a família quando o macrossistema que a abriga passa da ditadura à democracia e depois desaba economicamente? Claudio Des Champs relê trinta anos de história argentina — os anos de chumbo, a restauração democrática de 1983, o desmonte neoliberal dos anos 1990, a crise de 2001 — para mostrar como os abalos do macrossistema repercutem até dentro das hierarquias familiares, e como a terapia familiar sistêmica pode responder a eles. Ele se apoia em uma intervenção de grande escala conduzida na província de Buenos Aires junto a doze milhões de habitantes, e na clínica de um exilado que voltou ao país.

Autor Claudio Des Champs, psicólogo pela Universidade de Buenos Aires, psicoterapeuta individual, de casal e de famíliaPrimeira publicação 53ª Conferência Internacional do CIRCF, “Família e democracia: compatibilidade, incompatibilidade, oportunidade ou desafio?”, Lyon, 7-10 de junho de 2006Tradução Complexe Systémique, a partir do original em francês do autor

Nota da tradução

Este texto supõe conhecida a história argentina recente, o que raramente acontece fora do país. De 1976 a 1983, a Argentina viveu sob a mais dura de suas ditaduras militares, responsável pelo desaparecimento forçado de milhares de pessoas; a democracia, restaurada em 1983, permaneceu frágil por muito tempo, sacudida por levantes militares e pela hiperinflação. Os anos 1990, sob os dois mandatos do presidente Carlos Menem, viram a aplicação brutal de políticas neoliberais, antes do colapso de dezembro de 2001: motins, cinco presidentes em dez dias, moratória da dívida do Estado e congelamento dos depósitos bancários — o famoso corralito. É esse macrossistema que Claudio Des Champs põe em paralelo com o microssistema familiar, em uma conferência proferida em Lyon, em 2006, diante de uma plateia europeia.

Introdução

Depois de longos anos de períodos de regimes democráticos interrompidos por golpes de Estado militares desde 1930 e, sobretudo, depois dos “anos de chumbo” da última ditadura (1976-83), a mais cruel e devastadora das ditaduras, responsável por torturas, estupros, sequestros, pelo desaparecimento de milhares de pessoas, pela falência econômica do país e por uma guerra contra a Inglaterra em 1982 no conflito das ilhas Malvinas (ato que constituiu o canto do cisne do mais sinistro regime militar da história argentina), a Argentina começou um período inédito de sua história, no qual um presidente substitui o anterior ao fim do respectivo mandato presidencial.

A sociedade argentina assumiu pouco a pouco a restauração definitiva da democracia, apesar de um processo de sucessão presidencial que se desenrolou, em geral, com certa angústia: o primeiro presidente da democracia recuperada, Raúl Alfonsín, teve de enfrentar dois levantes militares e abandonou a presidência antecipando em quase um ano a eleição presidencial, em plena crise econômica, com uma inflação galopante que criou um verdadeiro estado de pânico na população.

O período seguinte terminou com as pessoas se manifestando na rua e o presidente saindo do Palácio Presidencial quase fugindo diante da multidão, em seu helicóptero. Imediatamente depois, cinco presidentes interinos se sucederam no prazo de dez dias.

Depois desse período de graves distúrbios sociais e políticos, uma terrível crise econômica (mais uma) sacudiu a Nação, que “celebrou” a declaração do estado de “falência” do Estado argentino perante o FMI.

Pouco depois, em dezembro de 2001, o último presidente interino decidiu o congelamento dos depósitos bancários, durante o qual os dólares poupados foram convertidos em pesos, perdendo assim dois terços de seu valor. Na melhor das hipóteses, milhões de cidadãos argentinos levaram meses ou anos para recuperar o dinheiro retido pelo Estado no apelidado “pequeno curral”. Essa medida constituiu um golpe que impediu temporariamente os cidadãos de dispor do dinheiro depositado no banco.

Na maioria dos casos, as pessoas recuperaram todo ou grande parte do dinheiro depositado em pesos, mas somente um terço do dinheiro depositado em dólares.

O campo psicológico

No campo da psicologia, depois da noite dos “bastões longos”, em 1967, quando os militares invadiram a universidade e espancaram professores e estudantes, violando assim o recinto universitário público que atravessava o período mais brilhante de sua história, centenas de professores, de prestigiosos psicoterapeutas e acadêmicos foram expulsos da universidade, perseguidos e, em alguns casos, sequestrados e assassinados.

Um bom número se exilou, e entre eles alguns aproveitaram a restauração da democracia em 1983 e tomaram a decisão de voltar; outros, a maioria, partiram para sempre. Esses acontecimentos se repetiram em 1976, com violência e crueldade multiplicadas, e muitos outros psicoterapeutas tiveram o mesmo destino.

Pouco a pouco, a psicanálise de orientação lacaniana começou a reinar em toda a universidade. A linguagem abstrusa e a manifesta falta de interesse pela política, somadas a uma posição especialmente acrítica em relação ao regime ditatorial, garantiram-lhes a permanência nas universidades e produziram uma hegemonia total da psicoterapia lacaniana durante longos anos.

Recentemente, a partir de 1983, muito lentamente e sobretudo nas universidades privadas que hoje têm programas que ensinam as diversas teorias e as diferentes práticas clínicas, começou certo interesse pela inserção da psicologia cognitiva, gestáltica e sistêmica nos círculos acadêmicos.

De todo modo, a hegemonia da psicanálise em geral, apesar da quantidade de psicólogos clínicos de diversas orientações, penetrou de tal forma na linguagem que, ainda hoje, e apesar da informação da mídia e do tempo decorrido, a maioria das pessoas que faz uma psicoterapia não psicanalítica diz que vai ao “analista” sistêmico, em vez de dizer que vai ao psicoterapeuta de orientação sistêmica ou cognitiva.

No entanto, os efeitos dos novos programas e o maior número de escolhas e de novas possibilidades que a psicoterapia oferece atualmente e, sobretudo, pacientes e clientes mais informados, mais exigentes e menos submissos do que na época dos regimes ditatoriais, mudaram muito a paisagem da psicoterapia na Argentina.

Os novos clientes não aceitam o divã, preferem a simetria do diálogo, a troca, ou mesmo a discussão, e não os longos silêncios angustiantes, a relação complementar e a posição de poder de um psicoterapeuta “que detinha todo o saber” diante de um paciente ignorante, desprovido de qualquer saber, que aguardava a interpretação do oráculo. Os clientes atuais buscam soluções concretas para problemas concretos. Os grupos de autogestão ou coordenados por um profissional, a terapia de grupo, os grupos psicoeducativos multifamiliares, a mediação e as intervenções em rede ganharam um impulso enorme e, com o desenvolvimento exponencial das ONGs, a maneira de produzir mudanças, de resolver conflitos e dificuldades modificou-se enormemente com o surgimento de novos procedimentos, notadamente mais adaptados aos novos contextos.

A meu ver, a recuperação definitiva da democracia trouxe, portanto, possibilidades inéditas e também, claro, novos conflitos. Mas pôs definitivamente fim aos regimes militares e aos golpes de Estado que contavam com o apoio implícito e explícito de boa parte da população civil, de certos partidos políticos, de certos intelectuais, de parte da imprensa e do clero católico.

A partir desse momento começou o longo e pedregoso caminho rumo a uma sociedade não autoritária, que decide passar da longa noite do silêncio, dos segredos e da delação aos problemas e às diferenças trazidos à luz, aos riscos da livre expressão das diferenças, à resolução pacífica dos conflitos familiares e sociais. Como em uma terapia de família ou de casal, na qual cada membro, cada versão, cada relato será escutado com respeito, todos os atores de uma democracia, todos os setores do conflito social terão direito, por sua vez, à palavra, e seus pontos de vista serão legitimados.

A crise do Estado de bem-estar

Finalmente, a crise do Estado de bem-estar explodiu nos anos 90, durante a presidência muito corrupta do presidente Menem, com a aplicação selvagem das fórmulas econômicas neoliberais (a mesma política econômica do regime ditatorial de 1976-82), e desestabilizou a sociedade argentina de forma inédita e devastadora.

O efeito dessas medidas econômicas neoliberais globalizantes pulverizava as redes de proteção social e produzia um crescimento dramático do desemprego, que atingiu todas as camadas sociais: empresários, gerentes médios, operários.

A repercussão sobre a família foi terrível: a hierarquia familiar se abalou, a perda do papel do pai, reduzido ao desemprego, teve como consequência, em muitos casos, a depressão, a violência, o alcoolismo e o abandono do lar familiar por esses homens sem trabalho e sem proteção do Estado; as mulheres, já antes mais ou menos engajadas no mercado de trabalho, foram literalmente lançadas nesse mercado, e muitas delas, na melhor das hipóteses, assumiram a responsabilidade de sustentar suas famílias.

Por sua vez, os adolescentes e as crianças tiveram a percepção da perda da família-providência da classe média majoritária (já muito abalada pelas crises anteriores), classe social que caracterizou a Argentina ao longo de toda a sua história.

Esse atentado contra a família desencadeou todo tipo de patologias: violência, abuso, adições, alcoolismo, delinquência em geral e juvenil em particular, prostituição, e o desmembramento de muitas famílias, devido à emigração forçada de alguns de seus membros ou ao desenraizamento de famílias inteiras. Algumas voltaram nestes últimos anos e outras, como antes, partiram para sempre.

Funções das famílias: a família, uma rede relacional

“O grito provocador de André Gide — Famílias, eu vos odeio! — que teve tanto sucesso nos anos sessenta, inclinados às comunas e à vagabundagem, parece ter sido substituído hoje por um suspiro discretamente murmurado: Famílias, sentimos falta de vocês.

Fernando Savater

Muitos profissionais especializados no estudo das famílias no contexto atual observam um prestígio crescente delas em nossa sociedade, gerado por uma maior necessidade psicológica que temos delas e pela perda de sua importância institucional. A esse respeito, Luis Flaquer (1998) afirma:

“A perda do peso da família na organização social foi seguida por uma importância crescente dela como fonte de identificação emocional. À medida que ela se vê privada de importância como instituição, mais nós a estimamos. Um dos princípios das ciências econômicas é que estimamos precisamente a falta e não a abundância. No domínio da afetividade, acontece exatamente a mesma coisa: se nos anos sessenta a família estava sobrando, hoje ela nos faz falta.”

E ele acrescenta: “A família é um grupo humano cujo sentido, cuja razão de ser, é a procriação, a educação e a socialização dos filhos. Encontramos esse microssistema elementar de pais em quase todas as sociedades.”

O grupo familiar constitui-se, para certos autores, como a base da posição social, núcleo das relações sociais, via para encontrar um emprego, apoio e sustentação em caso de crise, proteção e provedor de cuidados em caso de problemas de saúde. Para a maioria da população, a qualidade essencial da vida familiar é um contrato ou compromisso emocional e afetivo, apesar dos conflitos e das dificuldades internas que ela possa ter.

Família, sociedade e o retorno às fontes

O J’accuse l’intégrisme économique de Albert Jacquard e a refundação antropológico-política de Edgar Morin

“Afirmam-nos que a economia governa o mundo, que as leis da rentabilidade e do mercado constituem uma verdade absoluta. Mas pode uma sociedade humana viver sem outro valor além do valor mercantil? Quem contesta essa nova religião é imediatamente tratado como irresponsável”, escreve Albert Jacquard, e ele nos mostra os malefícios do economicismo fanático que pretende hoje nos governar. Em seu livro J’accuse l’économie triomphante, ele nos convida a recusar a fatalidade do integrismo econômico.

“O liberalismo à ocidental, afirma Jacquard, é sinônimo de escravidão para a grande maioria dos homens, sejam eles cidadãos dos países do Sul ou relegados às camadas desfavorecidas dos países do Norte. A tarefa mais urgente não é entregar, como fazem atualmente o Banco Mundial e o FMI, os desprovidos ao apetite dos abastados, mas preservar duradouramente as garantias sociais ou ecológicas obtidas por alguns, muitas vezes ao preço de duras lutas. E depois estender essas garantias a todos os terráqueos.”

E ele acrescenta mais adiante:

“A riqueza da coletividade é gerada pela colocação em comunicação daqueles que têm necessidades e daqueles que podem respondê-las. A riqueza são os outros. Ou, mais exatamente, é a possibilidade de trocar com os outros… O ato constitutivo da pessoa humana é a troca… É o fato de trocar que é uma necessidade, não o conteúdo dessa troca.”

Essa análise reforça a necessidade e a importância dos vínculos humanos, da sociedade de trocas, da comunicação, e põe o acento na passagem do integrismo econômico à integração da diversidade humana que podemos imaginar como a grande família planetária.

Edgar Morin, por sua vez (1997), expressa-se assim:

“É preciso reintroduzir o ser humano como meio, fim, objeto e sujeito da política… Autonomia e dependência são inseparáveis, pois dependemos de tudo o que nos nutre e nos desenvolve; somos possuídos por aquilo que possuímos: a vida, o sexo, a cultura. As ideias de libertação absoluta, de conquista da natureza, de salvação na terra são fruto de um delírio abstrato. Mas o homem… é um ser trinitário, indivíduo / espécie / sociedade, autoproduzindo-se e autodestruindo-se em sua história… Trata-se, ao mesmo tempo, de restabelecer em toda a sua complexidade um ser que não se reduz às relações de produção nem às relações econômicas, mas que é ao mesmo tempo biológico, social, econômico, mitológico. A pátria terrestre não é abstrata, pois foi dela que surgiu a humanidade… a diversidade humana é o tesouro da unidade humana, a qual é o tesouro da diversidade humana. Daí o duplo imperativo: reencontrar e realizar a unidade humana no florescimento das diversidades. Ao mesmo tempo salvar singularidades e diversidades e instituir um tecido comum.”

A família rede relacional como campo da terapia familiar

A família, esse microssistema essencial da humanidade, é uma excelente metáfora encarnada desse tecido comum, dessa unidade na diversidade de que nos fala Morin. Essa família que sofre na Argentina (e alhures) verdadeiros atentados por parte dessa sociedade de consumo, da lei do mercado denunciada pelo professor Jacquard, é precisamente o campo da terapia familiar. Quando essa unidade composta de indivíduos de sexo e idade diferentes, oriundos de meios sociais mais ou menos favorecidos ou desfavorecidos, pertencentes a diversas culturas, a diferentes religiões, nos convoca, é porque sente necessidade de ajuda diante da adição de um ou de vários de seus membros, da violência familiar, da anorexia, do abuso sexual, entre outros conflitos ou problemas possíveis, sem falar das doenças ditas psiquiátricas, ou da crise da família a partir do desemprego ou da doença orgânica grave de um de seus membros, sem falar do efeito das crises desencadeadas pelo ciclo vital familiar.

A terapia familiar responde a esses desafios ativando os recursos dos membros da família, ajudando-os a se ajudarem mutuamente, a serem mais solidários, mais emocionalmente inteligentes, a se comunicarem melhor entre si, a reencontrarem a ecologia protetora e o ambiente não poluído da afetividade familiar, e ao mesmo tempo melhorando e aumentando a conectividade, o pertencimento e a participação ativa dessas famílias com seu entorno imediato.

Esse retorno às raízes do bem-estar familiar beneficia-se de um macroecossistema democrático que, apesar de todos os seus defeitos ou limitações, nos permite a possibilidade da correção permanente, da resolução civilizada dos conflitos. Essa ecologia democrática possui uma estrutura hierárquica, regras de funcionamento, um sistema de recompensas e de sanções, assim como sistemas mais ou menos eficazes, imperfeitos mas aperfeiçoáveis, de proteção da infância e da velhice.

De fato, a família, como o Estado democrático, ocupa-se em princípio e por princípio da educação e da saúde de seus membros.

É bastante evidente que podemos encontrar certas analogias, ou melhor, analogias certeiras, entre o macrossistema da democracia e o microssistema da família como organismos vivos, coevoluindo em uma interdependência entrelaçada, numa espiral infinita de circuitos de interações e de retroações.

Irène Théry (1997) considera que a família contemporânea não é mais uma instituição, e sim uma rede relacional. A família não é mais o que era porque sua função se modificou radicalmente. Assim, François de Singly, traduzindo bem a opinião generalizada dos estudiosos da família, resume:

“Sim, a família mudou. Não apenas seu quadro institucional se estilhaçou, mas sua função essencial se modificou dramaticamente. Durante muito tempo, seu objetivo fundamental foi a transmissão do patrimônio econômico e das tradições morais de uma geração à seguinte. Atualmente, a família tende a privilegiar a construção da identidade pessoal, tanto nas relações conjugais quanto nas parentais-filiais.”

Desse ponto de vista, a família como grupo pode ser considerada o produto da individualização democrática, e não como oposta a ela.

“Em consonância com um movimento de crescente psicologização e sentimentalização do fenômeno familiar, a ideia dominante na atualidade é a intersubjetividade. É a razão de ser da família, do mesmo modo que o amor é seu princípio de funcionamento.” (Théry, 1997)

Apesar da diversidade de opiniões sobre o estado atual da família, apesar das discussões entre os “pessimistas” (a família é uma espécie em via de desaparecimento) e os “otimistas” (a família vai perfeitamente bem), ela conserva algumas de suas funções essenciais, abandona outras, muda e cria novas, sendo as mudanças próprias da evolução, sobretudo em macroecossistemas democráticos.

Trata-se, portanto, de acompanhar ativamente a coevolução da democracia enquanto ambiente salutar da família, e da família enquanto ambiente salutar do indivíduo.

Cumprir a mesma tarefa em relação à organização democrática e familiar enquanto redes relacionais, como fatores fundamentais da construção da identidade individual, enquanto fator de coesão social: eis os dois objetivos essenciais da terapia familiar sistêmica, que se opõe assim à entropia da exclusão, da marginalização, e à visão de um horizonte fechado, sem futuro e portanto sem esperança, da sociedade contemporânea.

A terapia familiar

“Se você quer ver, aprenda a agir.”

Heinz von Foerster

A terapia familiar sistêmica é uma prática enquadrada em uma epistemologia que não apenas reúne, eventualmente, os membros de uma família, de um casal, de uma organização, para trabalharem juntos, mas que sobretudo se caracteriza “por uma ênfase nas regras da comunicação interpessoal, nos processos interacionais (modelos delimitados pelo tempo), nas estruturas interpessoais (mapas enraizados pelo espaço, fronteiras rígidas ou difusas), nos processos funcionais (as relações entre os sistemas micro, meso e macro), nos processos evolutivos (gênese e mudança nos sistemas) e nos processos recursivos de segunda ordem (relação entre quem observa e o que é observado), o que, por sua vez, conduziu a investigações sobre o que constitui a realidade e sobre o papel central das narrativas na terapia” (Sluzki, 1991).

Abordagem psicoterapêutica múltipla e simultânea dos diferentes sistemas

Fui chamado, entre 1993 e 1997, a participar da Secretaria de Adições da província de Buenos Aires, a mais populosa das províncias da Argentina (um terço da população argentina). Naquele momento, a situação era muito grave e era apenas o começo: os números da economia iam bem, mas todos os dias fechavam-se fábricas, o desemprego atingia proporções alarmantes e as cidades se povoavam de mendigos, o que estava muito longe de caracterizar a Argentina: a mendicância em grande escala não era um fenômeno conhecido na Argentina. E, no entanto, isso não apenas aconteceu como se instalou até os nossos dias, apesar de certos progressos atuais.

Retomando o assunto da minha participação profissional, trabalhamos com o macrossistema de uma população de 12 milhões de habitantes em plena decomposição de suas redes (hospitais, escolas, associações diversas, clubes esportivos), o que desencadeou uma violência social, abuso de drogas e de álcool e um nível alarmante de delinquência juvenil. As ideias fortes que guiaram nossa intervenção foram o pensamento complexo do professor Edgar Morin, convidado pela Secretaria, a abordagem sistêmica construtivista e a noção de redes humanas. Sabíamos que múltiplas variáveis conspiravam para o desastre generalizado: fatores políticos, econômicos, o peso de certas instituições governamentais, como por exemplo a polícia da província de Buenos Aires, ligada à repressão mais sanguinária e delituosa do último regime militar, que se tornara uma das mais corruptas de todo o país, cúmplice dos traficantes de drogas e muito difícil de controlar.

Os educadores, os diretores de escola, os professores do ensino fundamental e especialmente os professores do ensino médio estavam sobrecarregados.

Uma reflexão teórica sobre esse ecossistema em crise: micro, meso, exo e macrossistema

“Um ser humano só é um indivíduo no contexto dos sistemas sociais em que se integra, e sem seres individuais não haveria fenômenos sociais humanos.”

Humberto Maturana

A análise ecossistêmica das relações familiares nos diz que a primeira camada social diz respeito às relações entre o indivíduo e seu entorno imediato, a família. Em nossos consultórios, começamos nosso trabalho com esse microssistema engajado em um processo coevolutivo entre seus membros. Mas sabemos que, embora a família possua recursos muito importantes, a capacidade e os esforços dos pais para criar, cuidar e velar por seus filhos com alguma possibilidade de sucesso dependem, em boa parte, do ambiente social dessas famílias.

Essa segunda camada ecológica, segundo Bronfenbrenner (1997), o mesossistema, diz respeito às relações entre os microssistemas. Isto é, à inter-relação entre os principais meios que acolhem e participam da educação e do desenvolvimento de um ser humano durante um período particular de sua vida. Por exemplo, as relações entre a família e a escola: um microssistema afetará o outro, e reciprocamente.

A terceira camada, segundo o mesmo autor, é o exossistema: o mundo do trabalho, as características do bairro, a rede de relações sociais, a distribuição de bens e de serviços. Assim, os acontecimentos que se produzem no meio de trabalho dos pais terão necessariamente consequências sobre a vida das crianças.

Finalmente, a quarta camada, o macrossistema, representa os valores culturais, o sistema de crenças e os acontecimentos históricos (guerras, crises sociais, enchentes etc.) que podem afetar os outros sistemas ecológicos. Isto é: quais são os preconceitos sociais dessa sociedade? Quais são as atitudes desse contexto social em particular em relação à droga, à sexualidade, à questão dos imigrantes, a respeito do aborto?

A saúde das famílias em uma sociedade depende, portanto, de que os filhos e os pais tenham a possibilidade de estabelecer uma conectividade salutar, vínculos sólidos e duradouros com outros sistemas humanos fora do meio familiar.

E isso dependerá, por sua vez, da forma e do modo como as forças externas penetrarão no lar familiar e regularão, de certa maneira, as relações entre os pais e seus filhos e, sobretudo, das regras de conduta do entorno imediato da família e das circunstâncias sócio-históricas e da cultura que constituirão o macroecossistema dessas famílias.

No exemplo da intervenção conduzida na província de Buenos Aires pela Secretaria, devíamos agir simultaneamente sobre o micro, sobre o meso, sobre o exo e sobre o macrossistema.

A abordagem sistêmica

Além das contribuições bem conhecidas da prática sistêmica, como as intervenções no contexto da comunicação, a correção da disfunção da estrutura familiar, o bloqueio da solução tentada, a possibilidade de criar novos caminhos evolutivos e, sobretudo, de reescrever novos roteiros, de criar novas narrativas, uma orientação surgida nos anos 80 se instala e faz nascer as abordagens construtivistas.

Baseados nas narrativas, já presentes nos escritos de Paul Watzlawick, na técnica de reenquadramento da equipe de Palo Alto e na psicoterapia hipnótica de Milton Erickson, esses modelos tornaram-se a vanguarda do desenvolvimento das ideias no campo da terapia familiar, criando assim, com o tempo, uma maneira de conceber a psicoterapia, a terapia narrativa, que impregnou o campo sistêmico e cognitivo e os domínios da mediação e da resolução de conflitos.

De todo modo, a formulação esquemática “a descrição do problema constitui o problema” pode ser considerada equivalente a “os problemas existem na descrição que utilizamos”, “os problemas são significações em torno das quais se organizam comportamentos problemáticos” e “a mudança é o processo de dizer as coisas de outro modo”. Todas essas formulações partilham um elemento comum: o DIZER, ou seja, a práxis da linguagem, o fato de contar histórias, sendo a descrição dos fatos, afinal, uma narrativa provável entre outras.

Utilizando esse modelo como ponto de referência, pode-se usar a terapia familiar como a prática de ajudar as pessoas a transformarem suas histórias, suas narrativas, a fim de aumentar o número e a qualidade de suas escolhas, de suas possibilidades, de seus juízos de valor, e para dissolver o problema até então ancorado em sua velha narrativa. As descrições, as histórias, isto é, as estruturas narrativas, são sistemas semânticos que encerram como elementos um roteiro (“o quê”), personagens (“quem”) e um contexto (“onde e quando”) (Sluzki, C., 1991).

Intervenção na província de Buenos Aires

Do roteiro “Cada um por si, socorram-nos, estamos no limite” ao roteiro “Um por todos e todos por um”: trabalho de equipe solidário e estímulo da resiliência

A Secretaria de Adições encarregou a mim e a outros colegas de formar os profissionais que trabalhavam nos centros de recuperação de adições estabelecidos nas diferentes cidades e bairros da província.

Antes de mais nada, a abordagem sistêmica permitiu a esses assistentes sociais e a esses psicoterapeutas entrar em contato e intervir no meio familiar, isto é, em um primeiro nível, microssistêmico, porém mais complexo e mais eficaz do que o toxicômano isolado, como se se tratasse de uma problemática individual.

Ao mesmo tempo, participei também da formação dos educadores, dos párocos e dos voluntários ou coordenadores não profissionais dos centros onde se reuniam os vizinhos dos diferentes bairros. Dessa forma, trabalhamos para ampliar os círculos concêntricos da intervenção sistêmica a um nível mesossistêmico.

Pouco a pouco, começamos a nos deslocar, com a intenção de alcançar um novo círculo concêntrico, o exossistema: o bairro era convocado, as reuniões aconteciam nas escolas, nas paróquias, em grandes salas de conferência ou de teatro, nas instalações de clubes esportivos. As autoridades, os diretores das escolas participavam e se engajavam no combate à droga.

E, sobretudo, os jovens eram convocados e podiam exprimir sua raiva e seu desamparo, fazer perguntas, falar dos professores e dos maus-tratos que sofriam sempre que eram acusados de má conduta ou de falta de respeito às autoridades escolares. Lembro-me de que ficavam muito surpresos quando eu lhes pedia para subir ao mesmo palco que os conferencistas e lhes passava o microfone.

Ao final dessas reuniões, eles se aproximavam e geralmente me perguntavam o que podiam fazer por aqueles colegas que se drogavam e em relação aos traficantes que ficavam na saída da escola ou aos que vendiam droga dentro das escolas.

A Secretaria ocupou-se especialmente da juventude. Ela constitui o alvo preferido dos traficantes. Os jovens foram, portanto, convocados, não para receber sermão ou para serem informados, mas para que se engajassem no combate à droga, para irem em socorro dos amigos, dos parentes, dos colegas da escola ou do bairro, e essencialmente para formar líderes: “Dez mil líderes pela vida”, como o Dr. Juan Yaría, diretor-geral da Secretaria, chamou o programa destinado a esses jovens.

Finalmente, sob a direção inspiradora e inteligente do Dr. Yaría, o programa se mediu com o macrossistema e apostou todas as suas forças na prevenção. Intelectuais renomados foram convocados a participar dessas conferências massivas, a escrever artigos nos jornais, a falar no rádio, a participar de programas de televisão.

Eu mesmo publiquei dois números especiais de Perspectivas Sistémicas, a revista de terapia familiar que dirijo, dedicados às redes e ao pensamento complexo aplicados à toxicomania, e distribuídos gratuitamente a milhares de profissionais e voluntários que participavam desse programa de assistência e prevenção da toxicomania.

A complexidade empírica, a presença de variáveis aleatórias, interesses político-econômicos poderosos e corruptos foram enfrentados com muita energia, com uma atitude determinada e sobretudo com uma estratégia inteligente que contemplou, desde o início, a complexidade, aplicando um programa de abordagens múltiplas, uma organização à altura do enorme desafio que significava uma província de Buenos Aires superpovoada, com bairros populares muito desfavorecidos, verdadeiras favelas (“cidades da miséria”), sem água encanada nem eletricidade.

Evitou-se, portanto, a via demagógica muito utilizada pelos partidos políticos, o “assistencialismo” que alimenta a dependência, o circuito homeostático esmola-caridade, e antes se incentivaram as iniciativas, a proatividade, a responsabilização e o fato de reaprender a se reunir, a se ajudar mutuamente, a dizer a si mesmos que “juntos é mais fácil, juntos é possível”.

Não fazíamos senão utilizar velhas tradições argentinas, da época dos imigrantes europeus que construíram este país, tradições e valores que era preciso retomar e reaprender.

Lembremos que aprender significa, em termos cibernéticos, que um sistema é capaz de modificar seu comportamento e, eventualmente, seu modo de organização interna, em função da análise dos resultados de sua ação. A informação não é um dado estável, mas um processo. A informação é o nome do conteúdo da nossa troca com o mundo exterior enquanto nos ajustamos a ele e o submetemos ao processo dessa adaptação. Para Norbert Wiener, pai da cibernética, “a comunicação é o cimento da sociedade, e aqueles cujo trabalho consiste em manter livres as vias de comunicação são justamente aqueles de quem depende, sobretudo, a perenidade ou a queda da nossa civilização”.

Mas Wiener não falava apenas dos regimes ditatoriais: ele antecipou e criticou duramente a submissão da imprensa e do rádio unicamente aos interesses comerciais, isto é, a estocagem da informação. As vias de comunicação são estranguladas e mutiladas, dizia ele, se são submetidas apenas à lei do lucro. A transformação da informação em mercadorias estocáveis é inevitavelmente sinônimo de degradação e de enfraquecimento da corrente contínua que deve irrigar a sociedade.

O mesmo vale para a acessibilidade da informação, apesar do que se chama de imperativos da segurança nacional, o que implica a discussão do aspecto ético da comunicação.

Boa parte de nossas intervenções naquela época evocava a ação dos teleevangelistas americanos, esses pastores midiáticos dos Estados Unidos que pregam a boa palavra a milhões de telespectadores. Isso aconteceu com frequência em nosso trabalho em grandes salas e por teleconferência simultânea para milhares de telespectadores, em toda a geografia da grande província de Buenos Aires e da Argentina.

De todo modo, mesmo em meus atendimentos particulares, tenho sempre a preocupação de ajudar os membros do sistema consultante a reparar, a restabelecer, a recriar ou renovar os elos dos vínculos familiares e aqueles que dizem respeito às amizades ou às instituições de seu entorno imediato.

As técnicas e a prática da terapia familiar

A democracia vai permitir e admitir o divórcio, os casais e as famílias homossexuais (ainda em discussão, é verdade, mas bem menos negados socialmente), vai se ocupar das famílias monoparentais, das famílias recompostas (stepfamilies) etc. A difusão de uma informação precisa e sem rodeios evita ou ajuda a corrigir os maus-tratos familiares ou institucionais. Ela contribui para a prevenção e a assistência contra o abuso sexual das crianças, que pode ser denunciado e monitorado, assim como muitos assuntos tabus e secretos serão revelados e discutidos nos ecossistemas democráticos.

Mas se essa liberdade individual que ela proclama não for fraterna, isto é, solidária, e não contar com as redes necessárias para favorecer a igualdade de oportunidades para todos os indivíduos dessa sociedade, o acesso à educação e à saúde, a proteção do Estado; se ela se submeter à lei do mercado, o homem se torna o lobo do homem, como podemos constatar todos os dias.

A parcialidade multidirecional de Boszormenyi-Nagy (1966), nos primórdios da história da terapia familiar, exprimia claramente uma ideia de justiça, um “a cada um seus méritos, suas recompensas, seus direitos e suas responsabilidades”.

A validação dos sentimentos, de cada narrativa, a legitimação da visão-versão do conflito familiar de cada membro dessa família que recorre a nós é conceituada pela equipe de Milão com a introdução do conceito de neutralidade. Este engendra uma relação de empatia do terapeuta ou do mediador em relação a cada consultante e o ajuda a manter uma metaposição diante de todos. Mais tarde, o conceito de curiosidade de Gianfranco Cecchin (1989) permitirá intervenções como as perguntas circulares, que servirão para religar os vínculos familiares e, com a contribuição da prática de Tom Andersen das equipes reflexivas, servirão para construir outra maneira de falar e de agir em consequência, não problemática nem conflituosa, e para aumentar assim o número de opções.

Saibamos bem, de todo modo, que no contexto de nossas atuais democracias lidamos com famílias, mas também com multinacionais, às vezes aliadas a governantes cúmplices, com meios de comunicação que pertencem a esses governantes que às vezes pertencem ao mundo dos negócios, associados a funcionários e sindicalistas venais. Lidamos, portanto, com famílias, mas também com valores, com ideias sobre o sucesso, com a ideologia dos winners (vencedores) ou dos losers (perdedores) da sociedade de consumo.

O exemplo do consultante traumatizado pelo exílio forçado e pelo processo do “desexílio”

Jean, 35 anos, voltava de seu exílio na França e me pediu para tratá-lo de seu “trauma do desexílio”, isto é, do fato de ter partido como exilado político para salvar a vida, durante o último regime militar, por causa de seu militantismo político, e das dificuldades e dos sintomas que tinha desde seu retorno à Argentina em 1983, quando da restauração da democracia. Depois dos momentos de empatia, de simplesmente escutar seu relato com respeito e consideração, de compreender seu sofrimento, comecei um trabalho minucioso sobre o relato geral e sobre as palavras com as quais ele descrevia o problema que o afligia. Propus-lhe, pouco a pouco, novas palavras que começaram a se inserir em seu relato original e a modificá-lo sub-repticiamente: o trauma, como bem sabemos, é uma palavra-conceito que encarna o sofrimento passivo, marcas indeléveis e um longo trabalho de um sujeito que deve ser tratado porque está doente e, sobretudo, gravemente atingido.

De fato, suas experiências tinham sido muito duras; ele sofria um duplo desenraizamento, primeiro de seu país, de sua cultura de origem, e depois, uma vez que tinha conseguido integrar-se a uma cultura diferente, após longos esforços, decidiu voltar e recomeçar a vida na Argentina, oito anos após sua partida precipitada. Vocês notarão que eu uso a palavra “experiências” e não “trauma”. Foi exatamente isso que fiz com Jean: primeiro, compreendendo sua dor, perguntei-lhe quais tinham sido seus aprendizados na França, um país de longa tradição democrática, com uma cultura tão rica e diferente da nossa. Pouco a pouco, ele começou um relato diferente, no qual, guiado primeiro por minhas perguntas e depois quase espontaneamente, começou a me descrever como, no início, tinha se refugiado entre outros exilados argentinos e como em seguida encontrara um trabalho. Nesse tempo, com muito esforço, tinha aprendido a língua francesa; conheceu uma jovem francesa e viveu com ela os últimos anos de sua estada na França (empregamos cada vez mais a palavra “estada” em vez da palavra “exílio”).

Eu acompanhava o relato com um espanto sincero, intercalando microintervenções, sobretudo conotações positivas a respeito de sua capacidade de sobreviver primeiro, de se adaptar depois e, finalmente, de se integrar nessas novas e árduas circunstâncias, com dificuldades certamente, mas com um sucesso evidente, diante dos múltiplos desafios e obstáculos que teve de superar. Depois de algumas conversas desse tipo, concluímos que a experiência o tinha feito amadurecer, que ele tinha aprendido uma língua estrangeira, o que, diga-se de passagem, lhe permitiu trabalhar na Air France na Argentina, e que, de fato, o retorno de uma pessoa acima do cidadão argentino médio, alguém com sua experiência de vida, tinha dificuldades lógicas para se reencontrar em um país que dava seus primeiros passos na vida democrática.

Pouco depois, vários de seus companheiros de exílio vieram me procurar, e nenhum me pediu para tratá-lo do trauma do exílio.

Jean, orgulhoso de seu passado, de sua viagem, de sua experiência de vida na França e de seu amor pelo país de origem, nunca mais pronunciou a palavra “trauma” para falar de suas experiências do exílio-estada ou de seu retorno à Argentina.

Conclusões

Desafios e possibilidades da coevolução do macrossistema Democracia e do microssistema Família como comunidade de destino

A democracia é, a meu ver como psicoterapeuta sistêmico construtivista e como cidadão de um país que tem muita dificuldade em construir um contexto democrático, a melhor das organizações ou dos ecossistemas de convivência e de evolução social possível; eu diria o mesmo da família no que diz respeito à formação e ao desenvolvimento do indivíduo.

A democracia, com suas regras do jogo, suas leis, seus direitos e suas obrigações, é um sistema aberto à mudança: o funcionamento de cada etapa de seu ciclo vital constitui um processo de transição. E essa transição, como estado permanente e estrutural da democracia, nos lembra o processo de desenvolvimento das organizações sociais e das instituições, o do ciclo vital familiar e o do desenvolvimento evolutivo de um indivíduo. Indivíduo e grupos humanos que são influenciados por seu ecossistema, mas que ao mesmo tempo agem sobre o sistema em um circuito recursivo de ações e de retroações.

Quando trabalhamos com famílias, organizações ou instituições, sabemos que se trata de um tecido vivo, em permanente transformação.

Nossa observação e nossas intervenções constituem, de certo modo, uma intrusão mais ou menos respeitosa nos sistemas consultantes e, reciprocamente, esses sistemas observados e perturbados por nossa ação agem sobre nós e nos modificam.

Além disso, temos outro grande desafio: não trabalhamos sobre a “verdadeira” família nem sobre o sistema “real”. Na verdade, recortamos continuamente uma parte da “realidade” para poder intervir e ampliar as possibilidades dos membros desse sistema diante de determinado problema.

Quando fazemos a “pergunta do milagre” (De Shazer, 1982) — “Como seria sua vida sem esse problema?”, “O que você faria de diferente se o problema, milagrosamente, não existisse mais?”, “Como as pessoas ao seu redor perceberiam que você não tem mais essa dificuldade?” —, propomos uma conversa diferente. Encaminhamos nossos consultantes para o mapa da terapia orientada para as soluções (solution oriented therapy), uma prática terapêutica que, desde o início, vai em busca das soluções, que faz surgir as condutas que teríamos sem essas dificuldades e que desperta recursos desconhecidos ou simplesmente esquecidos, aspectos resilientes de nossos consultantes.

Esses recursos são, portanto, estimulados por uma linguagem direta como a de Salvador Minuchin e seu modelo de intervenção estrutural, ou indireta, ericksoniana, que conduz de todo modo à ação, à mudança, e desencadeia uma atitude proativa que gerará novos aprendizados e, às vezes, “deuteroaprendizados” (Gregory Bateson), isto é, a experiência de aprender a aprender.

A resposta às perguntas indutivas de De Shazer cria a possibilidade de um futuro diferente, no qual o problema não existe mais, e no qual se podem imaginar condutas mais eficazes, atitudes mais otimistas, relações menos conflituosas e mais afetivas. Esse futuro imaginado em detalhe nos serve para agir sobre nosso contexto atual, para corrigir ou modificar nosso presente, como já vimos no caso dos exilados e da Secretaria de Adições.

Em sociedades por vezes indiferentes, por vezes anômicas, por vezes de grande falta de profundidade, egoístas e competitivas, são finalmente esses dois aspectos — a imaginação criativa e a busca incansável de recursos ligados à solidariedade, à ideia de “comunidades de destino” (Morin, 1997) — que nos permitem imaginar uma realidade diferente, um futuro ligado aos outros pela possibilidade de criar intimidades comuns, reconhecidas e boas para cada um, e intimidades pessoais, respeitadas por si mesmo e pelos outros.

A democracia e a família são construções absolutamente necessárias, mas não suficientes. São os valores e as regras de convivência entre os atores desses sistemas interdependentes que fazem e farão a diferença. A diferença entre relações hostis ou amorosas. Entre a esperança e o desespero.

Quando formamos uma verdadeira aliança terapêutica com nossos consultantes, quando compreendemos sua maneira de produzir mudanças, sua motivação, sua linguagem e sua maneira de cooperar, tornamo-nos ao mesmo tempo as testemunhas benevolentes e curiosas e os catalisadores discretos desses processos de mudança, de reorganização estrutural e de produção de novas narrativas, graças aos quais os sintomas se atenuam, o tecido relacional se regenera, o passado é ressignificado, e o presente e o futuro se aliam para transformar os sonhos em realização.

Buenos Aires, maio de 2006.

Notas do original

“Patologia da família e intervenções terapêuticas em um ambiente democrático: que efeitos?”, maio de 2006. Exposição da 53ª Conferência Internacional do CIRCF (Comissão Internacional das Relações do Casal e da Família), “Família e democracia, compatibilidade, incompatibilidade, oportunidade ou desafio”, 7-10 de junho de 2006. Este trabalho foi publicado no site e no caderno da exposição de 2006 do CIRCF, em inglês e em francês.

Quem é Claudio Des Champs

Claudio Des Champs é psicólogo pela Universidade de Buenos Aires, psicoterapeuta individual, de casal e de família. Professor universitário, é docente e supervisor fundador da ESA (Escola Sistêmica Argentina); forma e supervisiona colegas na Argentina e no resto do mundo há cerca de trinta anos. Editor fundador e diretor da revista Perspectivas Sistémicas (1988-2007), dirige o site redsistemica.com.ar.

Este texto é a tradução para o português do original em francês do autor, publicado como “Pathologie de la famille et interventions thérapeutiques dans un environnement démocratique : quels effets ?” pela Red Sistémica (primeira publicação: 53e Conférence internationale du CIRCF, Lyon, 2006) e republicado com a autorização da revista.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

Des Champs, C. (2023). Patologia da família e intervenções terapêuticas em um ambiente democrático: que efeitos? (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/patologia-da-familia-e-intervencoes-terapeuticas-em-um-ambiente-democratico-que-efeitos (Obra original publicada em 2006 em 53e Conférence internationale du CIRCF, Lyon, 2006; republicada em 2023 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2023/01/30/pathologie-de-la-famille-et-interventions-therapeutiques-dans-un-environnement-democratique-quels-effets-articulo-en-frances/)

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