Child & Family Social Work · Serviço social
Na Escócia, onze famílias com uma criança em risco de acolhimento participaram de uma conferência de grupo familiar, dispositivo nascido na Nova Zelândia em que a própria família extensa elabora um plano de proteção. Pelo menos um ano depois, Mary Mitchell recolheu os relatos de 60 pessoas: crianças, pais, parentes e profissionais. O que importa para as famílias não coincide com o que os serviços medem.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Repensar os resultados da proteção à infância: o que ensina a conferência de grupo familiar, de Mary Mitchell, publicado na Child & Family Social Work (Wiley) (2020), doi: 10.1111/cfs.12676, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de listas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Serviços eficazes exigem maior envolvimento das pessoas usuárias (inclusive as crianças), ao lado das equipes profissionais, na definição dos resultados na proteção à infância.
Mary Mitchell
Resumo
Este artigo relata um estudo qualitativo que buscou compreender, retrospectivamente, a contribuição da conferência de grupo familiar (family group conferencing, CGF) para os resultados de longo prazo de crianças em risco de acolhimento pelo Estado e de suas famílias. Onze exemplos de CGF foram estudados em cinco governos locais da Escócia. Cada exemplo reunia as perspectivas das diferentes partes envolvidas no processo: as crianças, seus pais ou as pessoas que cuidam delas e a família extensa (n = 32), e profissionais que as acompanhavam (n = 28). O estudo identificou várias questões interligadas quanto à contribuição da CGF para os resultados. Primeiro, a experiência pessoal do processo importa para a pessoa usuária do serviço e para a opinião que ela forma sobre os resultados obtidos. Segundo, o que as equipes profissionais fazem, e a maneira como fazem, pode influenciar os resultados de quem precisa de apoio. Assim, a relação entre profissionais e pessoas usuárias é central para entender por que e como as famílias alcançam resultados de longo prazo. Por fim, quem define os resultados, e com que finalidade, é decisivo para compreendê-los. Este artigo apresenta dois conjuntos de resultados da CGF identificados no estudo: pessoais e profissionais. Defendendo uma compreensão mais matizada dos resultados na proteção à infância, o artigo começa a explorar, e a questionar, a maneira como os resultados são definidos e valorizados nesse campo.
Nos últimos 20 anos, na Escócia e em todo o Reino Unido, a integração e a modernização dos serviços para a infância produziram um discurso orientado por resultados nas políticas e práticas de proteção à infância (Davis e Smith, 2012; Frost e Stein, 2009; ver também Mitchell, 2018). Canavan, Coen, Dolan e Whyte (2009) afirmam que, desde os anos 1990, as medidas de resultado se tornaram uma forma central de definir e medir a qualidade dos serviços, com foco no que as organizações alcançam e não no que fazem nem em como fazem. Nesse período, as organizações de serviço social dos setores voluntário e público passaram a ser cada vez mais cobradas a demonstrar resultados para obter financiamento e cumprir metas fixadas pelo governo (Burns, 2017; Richards, Tolbot e Munro, 2015). Avaliar a efetividade é totalmente desejável para saber se os serviços atendem às necessidades identificadas, se têm boa relação custo-benefício e se são necessárias mudanças para melhorar a qualidade de vida das pessoas usuárias.
Como em muitos países do mundo, a Escócia (foco deste estudo) passou por mudanças legislativas e políticas consideráveis no campo da proteção à infância, que pediam a modernização, a mudança e o aprimoramento do serviço social para enfrentar ineficiências percebidas e a falta de resposta às necessidades de quem usa os serviços sociais (Christie, 2011; Scottish Government, 2015, 2011, 2007). Os serviços para a infância vêm sendo desafiados a se tornar mais relacionais e a encontrar novas formas de se envolver com crianças e famílias, num cenário de restrição financeira (Audit Scotland, 2016; Ofsted, 2015).
Um desafio das políticas e práticas atuais de proteção à infância tem sido ver pais e crianças como parte da parceria na busca de soluções, ao mesmo tempo que fazem parte do problema a ser resolvido (Morris e Featherstone, 2010). Na proteção à infância, o direito da criança de participar muitas vezes entra em choque com seu direito à proteção, e os pais com quem é preciso construir parceria são também as pessoas consideradas carentes de apoio, orientação e correção (Barnsdale e Walker, 2007). As famílias com necessidades de cuidado e proteção ficam muitas vezes presas entre expectativas contraditórias das políticas e das práticas: espera-se que os pais assumam responsabilidades de cuidado, enquanto são colocados na posição de quem fracassa (Featherstone, White e Morris, 2014). Esse posicionamento dicotômico muitas vezes contradiz o discurso sobre resultados na proteção à infância e afeta a forma de abordar o trabalho com crianças e famílias. Este artigo defende um discurso centrado em resultados que considere tanto a complexidade das experiências das pessoas usuárias quanto a qualidade e a efetividade dos processos oferecidos a elas. O texto começa discutindo a literatura empírica sobre a CGF e depois apresenta os achados de um estudo qualitativo que buscou compreender a contribuição da CGF para os resultados de longo prazo de crianças em risco de acolhimento pelo Estado e de suas famílias, que participaram do processo.
A CGF (também chamada de Family Group Decision Making, tomada de decisão pelo grupo familiar) é um processo de decisão conduzido pela família, conhecido internacionalmente por envolver as famílias nas decisões para proteger o bem-estar de suas crianças. Surgida na Nova Zelândia nos anos 1980, a CGF nasceu dos debates sobre a sobrerrepresentação de crianças maori nos sistemas de proteção e de justiça. Como em muitos países ocidentais, o sistema neozelandês de proteção à infância era visto como pouco eficaz, com processos de proteção focados demais no risco e pouco no envolvimento e no apoio às famílias. Por isso, recomendou-se que as famílias fossem mais envolvidas na tomada de decisões quando o Estado intervém na esfera privada da família (Marsh e Crow, 1998).
Na proteção à infância, a CGF busca aumentar a segurança da criança e reduzir a necessidade de cuidado e intervenção profissionais (Dijkstra, Creemers, Asscher, Deković e Stams, 2016). Quando há preocupações, convoca-se uma reunião da família extensa e da rede social da criança para envolvê-las nas decisões e nos planos relativos ao bem-estar dela. A reunião é organizada com a ajuda de uma pessoa coordenadora de CGF independente. A independência significa que essa pessoa não exerce nenhum outro papel profissional além de conduzir o serviço de CGF com a família (McKillop, 2016). O processo de CGF tem várias etapas distintas depois do recebimento do encaminhamento inicial. A primeira prepara para a reunião a família e as equipes profissionais que trabalham com ela. Esse tempo serve para compartilhar informações com a família e dar a quem vai participar a oportunidade de conversar sobre as dificuldades e pensar em como contribuir para as soluções. A segunda etapa é a reunião, ou conferência. No início da reunião, familiares e profissionais, inclusive a pessoa assistente social, compartilham de novo as informações e retomam suas preocupações, o objetivo da reunião e as decisões a tomar. Depois desse compartilhamento, há um tempo reservado à família, em que ela discute suas preocupações sem profissionais presentes e elabora um plano. O plano é então discutido e acordado entre a família e as equipes profissionais. A última etapa do processo é a de revisão: quem participou da reunião inicial (família e profissionais) examina o andamento do plano e faz ajustes, se necessário.
A abordagem se espalhou pelo mundo desde os anos 1980, chegando também ao Reino Unido (ver Edwards e Parkinson, 2018, p. 3-5, para uma discussão da história da CGF no Reino Unido). Mais recentemente, na Escócia, as diretrizes nacionais para a Parte 12 da Lei das Crianças e Jovens de 2014 (Children and Young People (Scotland) Act 2014) estabelecem que as famílias devem ser apoiadas para tomar decisões antes que as crianças sejam acolhidas e citam a tomada de decisão pelo grupo familiar como exemplo de “boa prática” (Scottish Government, 2016, p. 9-10). Essa menção nas diretrizes do governo escocês despertou um interesse nacional pela CGF, tendência que se repete em outras partes do Reino Unido (Munro, Meetoo, Quy et al., 2017).
Os resultados da CGF foram objeto de avaliações e metanálises, algumas das quais encontraram efeitos positivos, como: altos níveis de satisfação de quem participa; aproximação entre familiares e fortalecimento de laços familiares positivos; segurança das crianças, graças à execução de um plano que protege crianças e pais ou pessoas cuidadoras; melhor parceria entre as famílias e os serviços sociais; obtenção mais rápida de estabilidade e saída mais rápida do acolhimento fora de casa (Pennell e Burford, 2000; Merkel-Holguin, 2003; Holland, Scourfield, O'Neill e Pithouse, 2005; Marsh, 2013; Metze, Kwekkeboom e Abma, 2015; ver também Mitchell, 2018). Outros estudos tiveram resultados mistos, apontando efeitos neutros ou negativos da CGF (Berzin, 2006; Sundell e Vinnerljung, 2004).
Mais recentemente, Dijkstra et al. (2016) fizeram uma metanálise da efetividade da CGF no atendimento a jovens com base em 17 estudos. A análise não encontrou redução significativa dos maus-tratos, dos acolhimentos fora de casa nem do envolvimento com os serviços para jovens. Hollinshead et al. (2017, p. 286) realizaram um ensaio controlado sobre uma tríade comum de resultados ligados ao envolvimento com a proteção à infância depois de uma CGF. O estudo não encontrou efeito estatisticamente significativo sobre a probabilidade de uma notificação, de uma nova notificação confirmada ou de acolhimento fora de casa. Como aponta Fox (2018), esses estudos tiveram dificuldade em compreender a CGF por meio de uma abordagem estatística quantitativa: por exemplo, os fatores que afetavam os grupos de pesquisa, o tamanho das amostras, as atividades realizadas e as definições usadas mudaram ao longo do tempo. A literatura qualitativa indica fortemente a satisfação dos membros da família com o programa e a eficácia dos programas de CGF, mas pouco se sabe sobre os resultados de longo prazo para crianças e familiares (Edwards e Parkinson, 2018; Munro et al., 2017). Esses estudos tendem a ser menores e a abranger áreas geográficas mais restritas.
A literatura empírica sobre os resultados da CGF foi criticada por sua fragilidade metodológica (Crampton, 2007; Frost, Abram e Burgess, 2014). Parece difícil isolar os efeitos da CGF da influência de outros serviços que costumam ser oferecidos junto com ela (Crampton, 2007). Sobretudo, as crianças parecem amplamente ignoradas como fonte de conhecimento sobre a CGF (Holland e Rivett, 2008). Os estudos que as envolvem tendem a se concentrar na satisfação com o programa, e não em sua percepção dos resultados (Bell e Wilson, 2006). As variações locais da prática da CGF levantam a questão do que é uma prática autêntica de CGF e de como medi-la. Também são problemáticos: definir quais resultados de proteção à infância a CGF deve melhorar, chegar a um acordo sobre os objetivos da abordagem, estabelecer padrões claros e avaliáveis e medir os produtos associados (Barnsdale e Walker, 2007; Crampton, 2007). Os ensaios randomizados também se mostraram operacionalmente difíceis, já que um dos desafios de implementá-los em programas de CGF é a dificuldade de recrutar famílias para o estudo (Crampton, 2007).
Há uma literatura extensa sobre o processo da CGF, mas poucos estudos relatam resultados de longo prazo (Frost et al., 2014; Frost e Jackson, 2018). Os estudos sobre o processo continuam positivos, embora os achados sobre os resultados sejam mistos, ou seja, neutros, positivos ou negativos. Os dados empíricos sobre os resultados da CGF parecem limitados, um tanto datados e, às vezes, contraditórios, o que parece ligado às diferentes abordagens metodológicas dos estudos (Frost et al., 2014; Fox, 2018; ver também Mitchell, 2018). Construir conhecimento sobre a prática e os resultados da CGF é difícil por muitas razões, entre elas a forma de conceber o que os resultados podem significar para as diferentes partes envolvidas e a dificuldade de atribuir resultados em contextos complexos (Mayne, 2008; Patton, 2012). Quem define os resultados e como eles são medidos influencia o que se considera importante saber sobre a CGF (Mitchell, 2018). É nesse debate que se situa o presente estudo sobre os resultados da CGF, que busca captar qualitativamente sua contribuição a partir das perspectivas retrospectivas de quem participou dela.
Os dados deste artigo vêm de um doutorado colaborativo financiado pelo ESRC e pela Children 1st, organização nacional escocesa de proteção à infância do terceiro setor, realizado entre 2013 e 2018. O estudo explorou criticamente a contribuição da CGF para os resultados de longo prazo de crianças sob cuidados do Estado (looked after children) em risco de acolhimento, e de suas famílias, na Escócia. Na Escócia, as “crianças sob cuidados do Estado” são aquelas acompanhadas pelos serviços sociais com uma medida de supervisão pelo serviço social, voluntária ou compulsória, prevista na Lei das Crianças de 1995 (Children (Scotland) Act 1995).
O desenho do estudo adotou uma abordagem qualitativa e retrospectiva de estudo de caso. A metodologia qualitativa permitiu uma compreensão profunda das experiências pessoais da CGF. O estudo buscou construir uma compreensão rica do processo e dos resultados da CGF a partir das diferentes perspectivas de quem participou dele; por isso, foram feitas entrevistas com crianças, familiares e profissionais. Os documentos da CGF também foram examinados em cada exemplo de caso, fornecendo dados produzidos no momento da CGF.
A unidade de análise é a experiência de CGF vivida pela família, em famílias com uma criança em risco de acolhimento pelo Estado. O estudo examinou alguns exemplos de CGF (n = 11), selecionados de forma intencional. Esses exemplos intencionais podem ser descritos como “bons” exemplos da experiência de CGF. Considerar bons casos no estudo permite construir uma compreensão da prática da CGF a partir da qual se pode explorar e extrapolar (Lewis, 2003; Snape e Spencer, 2003).
Todas as famílias do estudo tinham sido encaminhadas à CGF pelos serviços sociais porque uma ou mais crianças da família estavam em risco de acolhimento pelo Estado no momento do encaminhamento. O acesso foi negociado com 11 famílias que passaram por uma CGF em cinco governos locais da Escócia. O trabalho de campo ocorreu em 2014 e 2015. Dada a sensibilidade do estudo e a participação de crianças e jovens, foi exigida uma avaliação ética mais intensiva, de nível 2, aprovada pela Universidade de Edimburgo.
Os dados foram coletados por dois métodos: entrevistas semiestruturadas em profundidade e análise documental dos arquivos de CGF mantidos pelo governo local ou pela Children 1st. Como o estudo era retrospectivo, todas as pessoas participantes foram entrevistadas pelo menos um ano depois de sua primeira reunião de CGF. Algumas preferiram ser entrevistadas ao mesmo tempo, em duplas ou em pequenos grupos familiares. Ao todo, 60 pessoas, crianças (10), familiares adultos (22) e profissionais (28), foram entrevistadas em 44 entrevistas semiestruturadas distintas. Os roteiros de entrevista foram elaborados depois de uma revisão sistêmica da literatura sobre CGF e de discussões com a orientação da tese. Para facilitar a comparação, as entrevistas com adultos e com crianças cobriam os mesmos grandes temas e incluíam perguntas orais e recursos de apoio para descrever as famílias. As entrevistas duraram de 40 a 90 minutos e foram todas transcritas integralmente pela pessoa que conduziu a pesquisa. Além disso, 94 documentos (n = 94) foram examinados nos 11 casos.
A análise identificou os temas a partir dos relatos das pessoas participantes, e não de uma hipótese (Bazeley, 2013). Códigos iniciais foram desenvolvidos de forma indutiva durante a transcrição das entrevistas. Outros códigos surgiram ao longo da análise, com a ajuda do software NVivo. A análise foi feita dentro de cada caso e entre casos, com leitura e releitura atentas dos dados (Braun e Clarke, 2013). Os dados foram analisados tematicamente, e os temas identificados foram reorganizados em um número menor de categorias mais conceituais (Bazeley, 2013; Ritchie, Lewis e Ellam, 2003).
A pessoa que conduziu a pesquisa sabia que quem aceitou participar do estudo podia ter uma atitude mais positiva em relação à experiência de CGF do que quem teria recusado, o que sugere a possibilidade de um viés positivo nos casos estudados. Como aponta Mason (2002, p. 65), não é possível eliminar o viés na pesquisa qualitativa; o objetivo é, antes, tentar compreender complexidades e interações e “desenvolver uma compreensão de como o contexto e a situação funcionam”, em vez de sugerir que os aspectos-chave da pesquisa podem ser controlados. O estudo é pequeno e, por isso, lança luz sobre a relação entre o processo e os resultados identificados. Além disso, embora se tenha tentado ouvir as crianças, apenas um pequeno número delas (n = 10) aceitou dar entrevista; por isso, os dados vindos das crianças foram incorporados à categoria “crianças e familiares”.
Historicamente, as pessoas apoiadas pelos serviços sociais e envolvidas com eles foram chamadas de “casos”. Na prática, uma CGF envolve mais gente do que a pessoa usuária do serviço social. Podem participar de uma CGF: a criança, os membros de sua “família” e a rede social ampliada, a pessoa assistente social ou outros profissionais designados, e a pessoa coordenadora da CGF. Para maior clareza, cada exemplo de CGF, ou caso que descreve o agrupamento mais amplo em torno da CGF, foi chamado de “pod de CGF” (FGC pod) (Ney, Stoltz e Maloney, 2011). Os achados discutidos a seguir se baseiam nos dados das entrevistas qualitativas.
O estudo constatou que os resultados vividos pelas crianças e pelos membros da família são diferentes dos vividos pelas equipes profissionais que trabalham com as famílias envolvidas na CGF e as apoiam.
O estudo constatou que crianças e familiares adultos vivem a CGF como uma experiência contínua, muitas vezes carregada de emoção, que pode influenciar suas capacidades e sua identidade não só durante o processo de CGF, mas também depois da reunião, chegando a afetar a qualidade de vida de algumas pessoas. Com base nas pesquisas sobre resultados pessoais e na tipologia que Miller (2011) e Cook e Miller (2012) desenvolveram a partir de pesquisas empíricas sobre assistência social a adultos, este estudo constatou que os resultados pessoais, aqueles que importam para as crianças e os membros da família envolvidos na CGF, se dividem em três categorias: processo, aprendizagem e mudança e qualidade de vida (ver Tabela 1 abaixo).
Tabela 1 — Resultados pessoais da conferência de grupo familiar
Nota. Baseado no trabalho de Cook e Miller (2012). No original, as três categorias formam as colunas de uma tabela intitulada “Resultados pessoais”.
Os resultados de processo são aqueles que crianças e familiares atribuem ao processo de CGF: as experiências em que, por exemplo, a pessoa foi reconhecida no processo com suas preocupações próprias, recebeu apoio para participar e pôde compreender a perspectiva dos outros.
Neste estudo, muitos membros das famílias expressaram emoções variadas sobre a experiência do processo de CGF. Jill (todos os nomes são pseudônimos), uma mãe solo que falava de sua experiência na CGF, é um exemplo:
Foi bom falar positivamente do Dillon (o filho dela) e não vê-lo só como um problema. A gente estava olhando para a frente, e isso foi uma coisa boa. (Jill, mãe, pod 8)
Aqui, Jill conta que o processo lhe permitiu expressar sentimentos e pensamentos sobre o filho de um jeito diferente, mais positivo. A prática da CGF focada em soluções, refletida na fala dela, ajudou-a, assim como outras crianças e familiares, a se sentir motivada com o processo e mais esperançosa quanto ao futuro.
Daryl é um pai cujas duas crianças corriam o risco de ser retiradas definitivamente da guarda dele e da esposa, Moyra. Daryl tem uma história longa e tensa com os serviços sociais. Por exemplo, antes da CGF, a polícia era muitas vezes chamada a estar presente nas reuniões com os serviços sociais para reduzir o risco de conflito com as autoridades. Aqui, Daryl descreve sua experiência do processo de CGF, em especial o tempo reservado à família durante a reunião:
Dava para dizer coisas que a gente não ia necessariamente querer dizer com alguém do serviço social ali, esse tipo de coisa. Basicamente quer dizer que o plano é seu. Não é o serviço social dizendo: “bom, eu acho que isso devia ficar aqui e aquilo ali”. Acho que um dos motivos de ser feito assim é… se a gente faz sozinho depois que o serviço social vai embora, então o plano é nosso. Então a gente decide. (Daryl, pai, pod 2)
Parte do processo de CGF é o tempo reservado à família, em que uma parte da reunião fica com os membros da família para planejar a proteção da criança. Aqui, Daryl descreve o processo e o efeito dessa experiência sobre seu sentimento de que o plano para as crianças lhe pertencia. Ele reflete sobre ter participado de um processo que lhe permitiu definir os resultados que queria alcançar. Essa experiência sugere que o processo lhe deu poder de agir, fazendo com que o apoio oferecido pelos serviços sociais para proteger a criança ganhasse mais sentido para ele e para a família.
Poder dizer com segurança coisas muitas vezes difíceis de dizer, e ser ouvido pelos outros familiares e pelas equipes profissionais, era importante para muitos membros das famílias do estudo. Kate, uma jovem que mora com a mãe e a irmã mais velha, é uma dessas pessoas:
É, porque poder falar e contar para elas (a mãe e a irmã Justine) como eu me sentia com aquilo e com tudo o que estava acontecendo. Eu podia contar como eu me sentia com as duas brigando e, sabe, com todas nós brigando. Foi fácil contar para elas. (Kate, jovem, pod 3)
Um elemento importante no relato de Kate foi o sentimento de poder expressar seu ponto de vista. Isso sugere que as estratégias de conversa usadas no processo de CGF ajudam os membros da família a expressar suas preocupações num clima de respeito e de conforto. O relato de Kate sugere que ela talvez estivesse vivendo um grau de respeito e reconhecimento que nunca tinha experimentado. O processo a ajudou a ser vista e ouvida na família, ao mesmo tempo que lhe deu a oportunidade de trazer informações novas e importantes sobre a dinâmica familiar, até então desconhecidas ou não reconhecidas.
A segunda categoria do quadro de resultados pessoais, identificada pelas crianças e pelos membros da família do estudo, é a dos resultados de aprendizagem e mudança pessoais. Eles surgem quando a pessoa supera obstáculos que afetam sua qualidade de vida. Nas entrevistas, muitos membros das famílias citaram várias coisas que aprenderam com a experiência de CGF e que afetaram suas capacidades e seu senso de identidade. Grace e Shane, um casal casado, pais de cinco crianças, fazem parte desse grupo:
… Acho que, se eu não tivesse ido às reuniões e aprendido outras formas de tentar lidar com as situações, eu podia ter machucado uma delas [das crianças]. Podia mesmo… Acho que a gente está muito melhor nisso (em se comunicar). Estamos melhores do que éramos… (Grace, mãe de Shannon, pod 1)
Aprender a realmente falar dos problemas… é, isso ajudou. (Shane, pai de Shannon, pod 1)
Aqui, Shane relata que conseguiu expressar os próprios sentimentos e, ao mesmo tempo, aprender a ouvir o que os outros diziam e a encontrar outras formas de abordar a questão ou de “lidar” com ela. Já a reflexão de Grace sugere que ela reconhece ter melhores habilidades para lidar com uma gama maior de situações, o que torna menos provável que ela faça mal a alguém. Muitos membros das famílias do estudo reconheceram que suas habilidades de comunicação e de decisão melhoraram, o que afeta a capacidade de cada pessoa de sustentar a mudança a longo prazo. Vê-se aqui que as aprendizagens da experiência de CGF são uma categoria de resultados própria para os membros da família.
A última categoria de resultados pessoais é a daqueles que afetam a qualidade de vida. Os resultados de qualidade de vida são os que têm impacto sobre a criança ou os membros da família adultos no conjunto de suas situações de vida. Eles podem se refletir, por exemplo, numa sensação maior de segurança, numa relação melhor com as pessoas consideradas importantes, na capacidade de tomar as próprias decisões ou no fim da presença do serviço social na vida da pessoa. Leonie e Rita (mãe e avó materna de Sasha), do pod 7, refletem sobre os resultados de qualidade de vida de longo prazo que identificaram para Sasha a partir da experiência de CGF:
Para a Sasha foi bom por causa do contato com a família… A tia dela, Perla, veio e esteve nas reuniões também… Ela é um bom apoio. Continua apoiando… teve viagem de férias, e ainda FaceTime e Facebook, falam com ela, mandam mensagem e tudo. (Leonie, mãe de Sasha, pod 7)
Com certeza, do nosso ponto de vista… trouxe tranquilidade. Comecei a saber o que estava acontecendo. Acho que quem mais se beneficiou das reuniões foi a Sasha, porque agora ela tem os dois lados da família, o que nunca tinha tido. (Rita, avó materna de Sasha, pod 7)
Leonie e Rita destacaram, cada uma, o impacto de longo prazo da experiência de CGF sobre Sasha, que tinha manifestado o desejo de ter mais contato com a família do pai, de quem estava afastada. Isso sugere que um dos resultados da participação na CGF pode ser um contato maior com pessoas importantes para cada um.
As relações interpessoais dos membros da família foram um tema importante no estudo. As entrevistas ecoavam a forma como o processo fizera as pessoas se sentirem respeitadas, apoiadas, valorizadas e reconhecidas (ou não) pela família extensa, durante a experiência de CGF e por causa dela. Para algumas pessoas entrevistadas, essa experiência sustentou a capacidade de trabalhar em conjunto para fazer as mudanças necessárias. Daryl e Moyra refletem a seguir sobre sua experiência de CGF e sobre como, na visão deles, ela mudou a relação do casal e permitiu que trabalhassem juntos para “ter as crianças de volta”:
Moyra: Acho que ajudou a construir uma relação mais forte para nós e as crianças e a minha mãe, nós e as crianças. Estamos mais próximos agora.
Daryl: porque antes… era tipo… A gente também ficava se culpando em vez de tentar trabalhar junto…
… ah, eles (os serviços sociais) estavam preocupados com as condições da casa na época, com a limpeza, que estava fugindo do nosso controle, esse tipo de coisa. Ah, as crianças foram acolhidas, ah, enquanto a gente tinha que pôr tudo em ordem. Pegamos elas de volta… finalmente nos livramos do serviço social uns meses atrás.
Pergunta: então, se vocês não tivessem tido uma reunião?
Daryl: a gente não teria as nossas crianças de volta
Os dados do estudo mostram a interligação dos resultados, cada um afetando o outro, conforme as circunstâncias de cada pessoa envolvida. A experiência das pessoas sugere uma contribuição do processo de CGF para os resultados pessoais em várias camadas, dinâmica e complexa. Por exemplo, a qualidade da participação de uma pessoa na tomada de decisão, como a de Daryl no trecho acima, pode afetar sua capacidade de compreender a própria situação, construir relações e aprender a trabalhar com outras pessoas para mudar e melhorar, a longo prazo, a situação dele e a das crianças. Nas entrevistas, crianças e familiares consideraram que seus resultados estavam ligados à experiência pessoal da CGF. As famílias expressavam os resultados em termos de processo, de aprendizagem ou de mudança na qualidade de vida, ou de várias dessas dimensões ao mesmo tempo.
O segundo conjunto de resultados identificado no estudo foi o dos resultados profissionais.
As equipes profissionais do estudo incluíam pessoas coordenadoras de CGF, assistentes sociais, profissionais de saúde e uma pessoa docente (n = 28). Como nas pesquisas empíricas de Marsh e Walsh (2007) e de Munro et al. (2017), as equipes profissionais deste estudo tendiam a usar o processo como uma janela para observar a dinâmica familiar e como uma oportunidade de opinar sobre a situação da família em um dado momento. Além disso, essas equipes definiam os resultados em função da missão de sua própria organização: por exemplo, se uma criança tinha sido acolhida, se uma reunião tinha sido organizada e se um plano tinha sido elaborado. Assim, a concepção profissional de resultados no estudo muitas vezes diferia qualitativamente da de quem usava o serviço e era definida por uma lente profissional.
Como as equipes profissionais do estudo tendiam a conceber os resultados de uma forma que muitas vezes refletia exigências e metas profissionais ou organizacionais, os resultados profissionais foram agrupados em várias categorias e subconjuntos. Para começar, eles têm duas categorias principais: resultados de prática e resultados organizacionais. Os resultados de prática foram por sua vez divididos em duas subcategorias: resultados de processo e resultados de mudança e aprendizagem (ver Tabela 2: Resultados profissionais).
Tabela 2 — Resultados profissionais da conferência de grupo familiar
Nota. No original, as três colunas estão agrupadas sob o título “Resultados profissionais”, as duas primeiras sob “Resultados de prática” e a terceira sob “Resultados organizacionais”.
Os resultados de prática são aqueles que refletem as interações de profissionais com a pessoa usuária e os membros da família, e as observações feitas sobre essas pessoas, e que ajudam no exercício do papel profissional junto à família. Eles foram divididos em duas subcategorias no conjunto de dados: resultados de processo e resultados de mudança e aprendizagem. Os resultados de processo são aqueles em que a pessoa profissional reflete sobre como o processo de CGF a ajudou a trabalhar com os membros da família. Os resultados apontados pelas equipes nessa subcategoria podem ajudá-las a compreender o processo de CGF e a identificar tarefas profissionais-chave. Um exemplo é Fran, coordenadora da CGF de Jake:
Eu confirmei isso com o Jake (o jovem) e, sim, era o que ele queria. Ele não estava nada contente de vir à reunião, mas estava de acordo que ela acontecesse e sabia qual era o objetivo: ver como ajudar a avó dele a cuidar dele. (Fran, coordenadora de CGF, pod 11)
As falas de Fran refletem a complexidade de algumas das questões de prática envolvidas em seu papel de coordenadora de CGF, por exemplo: ouvir o ponto de vista da criança, lidar com a emoção das pessoas envolvidas e, ao mesmo tempo, garantir que os membros da família tenham clareza sobre o objetivo da reunião e tenham considerado plenamente as formas de participar do processo, e conciliar as necessidades dos diferentes familiares dentro do processo. Levar em conta esses resultados de prática pode tornar mais claro o papel dinâmico da pessoa coordenadora de CGF (e de outras equipes profissionais envolvidas com a família) e ampliar as oportunidades de prática reflexiva.
Os resultados de mudança e aprendizagem dizem respeito às novas informações que a pessoa profissional aprende e/ou às mudanças que observa na pessoa usuária. A experiência de participar do processo e de observar os membros da família marcou as equipes profissionais que também estavam envolvidas, ajudando-as em seu trabalho. Sara é uma das pessoas entrevistadas que consideraram essa experiência profissionalmente significativa:
A família chegou a planos bem concretos, para o aqui e agora, em termos de segurança… Um plano era o que ela precisava… e foi elaborado um plano positivo, prático e viável.
… Acho que, para mim, ver aquilo foi decisivo. A gente lê sobre isso na literatura… em termos do lado positivo da CGF, apoiar-se nas forças da família e encontrar força e ver isso acontecendo diante dos seus olhos é muito poderoso. Foi realmente incrível. (Sara, coordenação de CGF, pod 6)
A experiência do processo favoreceu uma prática profissional reflexiva: uma pessoa profissional pode, por exemplo, observar uma família apoiando seus membros e realizando tarefas de maneiras nunca vistas antes. Na prática do serviço social, essas observações são importantes e podem ajudar a compreender a situação de uma família para avaliação ou intervenção, além de mostrar a teoria em ação, como neste exemplo: as abordagens baseadas nas forças (Payne, 2014).
As equipes profissionais observaram que a experiência de CGF também podia afetar a relação de trabalho com os membros da família, como ilustra o relato de Lorri a seguir:
Acho que provavelmente melhorou a nossa relação porque eu… também pude dar a minha opinião. Então, como observadora, eu podia dizer: “Olha, Grace, acho que a questão talvez seja esta” ou “Shannon, isso é justo, mas aconteceu isto”… Não sei o que a família achou disso, mas eu com certeza sinto que ajudou, e me ajudou a ver que, na verdade, há trabalho a ser feito aqui. (Lorri, assistente social, pod 1)
O relato de Lorri mostra como ela, enquanto assistente social da família, conseguiu usar a experiência da CGF para se comunicar de outra forma com os membros da família. As pessoas assistentes sociais do estudo descreveram seu papel numa CGF como diferente do que exercem em outras reuniões do serviço social: não precisavam conduzir a reunião de CGF, mas participavam dela. Por isso, como sugere Lorri, o diálogo com os membros da família pode mudar, e a comunicação sobre as preocupações do serviço social com uma família pode se tornar mais eficaz. Neste exemplo, a experiência ajudou Lorri a ressignificar a forma como via a família e trabalhava com ela. Esse relato ecoava a experiência de outras pessoas profissionais entrevistadas sobre o processo de CGF.
Christine, assistente social do pod 11, também falou de sua experiência de CGF:
A lembrança que eu tenho da primeira reunião é muito, muito boa. A família trouxe um monte de coisas boas (para o plano). Me surpreendeu mesmo. A gente meio que pendurou um quadro e falou da família, falou dos problemas, esse tipo de coisa, e, sim, a família foi muito boa em identificar o que podia mudar… Achei bem perspicaz. Não sei por que isso me surpreendeu, mas surpreendeu. Eu não esperava que ela fosse capaz disso e fiquei bastante impressionada com o jeito como fez. (Christine, assistente social de crianças e famílias, pod 11)
Nas entrevistas, as pessoas profissionais consideraram que o processo de CGF lhes permitiu observar famílias trabalhando juntas de maneiras nunca vistas antes. Isso não só favoreceu a participação de pessoas usuárias e de profissionais na tomada de decisão, como a experiência também ajudou as equipes a ver outro lado das dinâmicas e dos saberes familiares, como expressam os relatos acima.
Por fim, os resultados organizacionais são os que se referem aos objetivos ou à finalidade do trabalho realizado com a pessoa usuária (muitas vezes refletidos nos motivos originais do encaminhamento). São os resultados considerados importantes, a médio e longo prazo, pela pessoa profissional e pelas organizações em que ela trabalha. Eles são determinados, em parte, pelos motivos originais do encaminhamento a um serviço. Embora todas as famílias do estudo tenham sido encaminhadas à CGF num momento em que uma criança da família estava em risco de acolhimento pelo Estado, cada família também tinha questões contextuais e fatores de estresse diferentes, que afetavam cada familiar, por exemplo (mas não exclusivamente): violência; luto; problemas de saúde mental; abuso de álcool e/ou drogas; impacto de uma deficiência; faltas à escola; impacto de transições de vida; e problemas com a polícia na comunidade. Os encaminhamentos do estudo também apontavam preocupações como: comunicação familiar precária (n = 6); preocupações com a segurança de uma criança na família (n = 8); conflito familiar, incluindo, em alguns casos, violência doméstica ou discussões agressivas entre familiares (n = 10).
O quadro de resultados profissionais (Tabela 2) identifica vários resultados definidos pelas organizações, presentes nos 11 pods de CGF do estudo. Os resultados organizacionais para os quais a CGF contribuiu incluem: mais segurança para a criança e, em alguns casos, para outros membros da família; uma sensação maior, entre os membros da família, de controle sobre a própria vida; um compromisso maior da rede familiar e um melhor funcionamento familiar, favorecendo melhores relações dentro da família; e um uso mais adequado do apoio profissional e, em vários casos, o fim da presença do serviço social junto à família. Uma discussão aprofundada desses resultados organizacionais pode ser encontrada em Mitchell (2018, p. 237-244).
Um resultado, em termos simples, é aquilo que decorre de uma atividade, de um apoio ou de um serviço e pode ser atribuído a ele (Frost e Stein, 2009). Mas o conceito não é simples. O que é um resultado, e quem o conceitua, é muitas vezes objeto de disputa na prática e na literatura do serviço social. Este estudo identificou vários desafios ligados ao uso do termo “resultado”. Esses desafios, embora não estejam explicitamente ligados, podem, juntos, revelar pressupostos sobre os resultados que talvez limitem a forma de abordar o trabalho com crianças e famílias, e mostram a necessidade de repensar o uso do termo na CGF e, de modo mais amplo, no cuidado e na proteção à infância.
Miller (2011, p. 3) ressalta que certos serviços podem enfatizar de forma estreita tipos específicos de resultados, criando uma falsa separação entre processo e identificação de resultados. É importante levar em conta o que quem usa os serviços consideraria resultados desejáveis, e as medidas escolhidas pelas equipes de pesquisa e/ou pelas equipes profissionais podem não ser as que importam para crianças e famílias. A pesquisa empírica indica que as pessoas usuárias do serviço social não separam o processo, nem a forma como se envolvem nele, dos resultados que vivem (Beresford e Branfield, 2006; Frost e Stein, 2009). Esses achados se repetiram neste estudo. As diferentes experiências e percepções de familiares e profissionais afetam a forma como as pessoas entrevistadas concebem os resultados. Assim, tanto resultados pessoais quanto profissionais decorrem da participação na CGF.
Apesar da ênfase das políticas nos resultados, medi-los continua difícil. É importante distinguir os resultados que importam para as pessoas envolvidas no serviço daqueles definidos pelas equipes profissionais e pelo serviço em nome da pessoa usuária. Compreender os resultados pessoais, do ponto de vista da pessoa usuária, tem vários propósitos. Para começar, não se pode supor que os resultados identificados por crianças e familiares serão os mesmos identificados pelas equipes profissionais. Como explorado neste estudo, a experiência pessoal do processo importa para a pessoa usuária e afeta sua percepção da relevância do apoio oferecido, seu poder de agir e sua concepção dos resultados alcançados. Para as equipes profissionais, elaborar planos com os membros da família pode trazer clareza de propósito, conhecimento valioso e melhores relações de trabalho com as pessoas acompanhadas. Saber mais sobre o que as equipes profissionais fazem, e como fazem, pode influenciar suas relações com as pessoas usuárias e afetar os resultados de quem precisa de apoio. Para as organizações, compreender os resultados pessoais e profissionais pode ajudar a reconectar-se com uma base de valores centrada no que faz diferença para quem usa o serviço (Miller, 2011).
A simplicidade dos quadros apresentados acima esconde a complexidade e as relações dentro de cada quadro e entre eles, ou seja, qualquer tentativa de afetar um resultado pode afetar outros; há uma dependência interativa entre as atividades, os insumos e as mudanças que podem levar a uma mudança na qualidade de vida das pessoas usuárias (Mitchell, 2018). Os dados deste estudo sugerem que a interação dos resultados vividos por crianças, familiares e profissionais contribui para melhorar os resultados de qualidade de vida de crianças e familiares. A complexidade da experiência de crianças, familiares e profissionais é evidente. Esses quadros oferecem um ponto de partida para compreender a complexidade da contribuição da CGF para os resultados e, de modo mais amplo, da proteção à infância. Sua aplicação exigirá mais investigação, inclusive sobre se as crianças concebem os resultados de forma diferente dos membros da família adultos.
Este artigo traz uma contribuição significativa para a compreensão dos resultados na proteção à infância. A análise apresentada defende repensar os resultados da CGF, considerando os resultados que importam para os membros da família ao lado daqueles concebidos pelas equipes profissionais. Considerar os resultados dessa forma garante uma compreensão mais ampla e matizada da contribuição da CGF, que reflete a complexidade vivida por quem passa pelos serviços de proteção à infância. É importante manter o foco em quem usa o serviço e em quem trabalha com essas pessoas ao conceituar os resultados. A CGF pode oferecer um mecanismo de diálogo compartilhado sobre como aproximar as diferentes expectativas de familiares e profissionais e vê-las como igualmente importantes para que haja avanço. Esses achados têm implicações não só para a medição e o registro dos resultados da CGF, mas também, de modo mais amplo, para os serviços para a infância, pois contribuem para os debates internacionais sobre os resultados que o sistema de proteção à infância busca alcançar, sobre a importância de gerar evidências que nos ajudem a entender o que os resultados podem ser a partir de diferentes perspectivas e sobre como avaliar se esses resultados são alcançados (Shlonsky e Benbenishty, 2014). O registro e a comunicação dos resultados precisam refletir as experiências variadas de quem passa pelo serviço (inclusive as crianças), para que sejam captadas e expressas de maneiras significativas e aceitáveis não só para quem contrata, dirige e compõe os serviços, mas também para as pessoas usuárias. Desse modo, a complexidade da vida das famílias pode ser compreendida no contexto de sua própria identificação dos resultados. Serviços eficazes exigem maior envolvimento das pessoas usuárias (inclusive as crianças), ao lado das equipes profissionais, na definição dos resultados na proteção à infância.
Complexe Systémique: a reter
O estudo desloca uma pergunta que a proteção à infância muitas vezes formula mal: não “a conferência de grupo familiar funciona?”, mas “quem decide o que conta como resultado?”. As metanálises encontram pouco efeito sobre acolhimentos ou notificações; as famílias, por sua vez, falam de terem sido ouvidas, de terem aprendido a conversar, de laços retomados com um lado da família. Para uma leitura sistêmica, dois pontos chamam a atenção. O tempo reservado à família, sem profissionais, devolve ao sistema familiar o lugar de autor do próprio plano, e Daryl diz isso de forma simples: é o “nosso” plano. E as equipes profissionais, colocadas na posição de participantes e não de condutoras, descobrem competências familiares que não viam, o que muda, em troca, a relação com a família. O limite é assumido: onze “bons” casos, escolhidos intencionalmente, entrevistas retrospectivas, poucas crianças. O texto vale sobretudo como grade para interrogar nossos próprios indicadores. Para ler junto com o artigo sobre o trabalho sistêmico com pais cujos filhos estão em acolhimento e com o estudo sobre a experiência dos pais nas reuniões de diálogo aberto.
Notas do original
Agradecimentos. Mary Mitchell agradece aos membros das famílias, às equipes de serviço social e às pessoas coordenadoras de conferências de grupo familiar por compartilharem suas experiências. Agradece também ao Economic and Social Research Council (ESRC) pelo financiamento da bolsa de doutorado, em parceria com a Children 1st e o Centre for Research into Families and Relationships da Universidade de Edimburgo. A orientação acadêmica do projeto de pesquisa ficou a cargo de Kay Tisdall (Prof.) e Autumn Roesch-Marsh (Dr.). Agradece ainda a John Devaney (Prof.), Steve Kirkwood (Dr.) e Jan McClory pelos comentários a versões anteriores do artigo.
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Tradução não oficial em português de Repensar os resultados da proteção à infância: o que ensina a conferência de grupo familiar, de Mary Mitchell, Child & Family Social Work, vol. 25, no 2 (2020), doi: 10.1111/cfs.12676, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Reimagining child welfare outcomes: Learning from Family Group Conferencing”, publicado em Child & Family Social Work (2020) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Mitchell, M. (2020). Repensar os resultados da proteção à infância: o que ensina a conferência de grupo familiar (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/repensar-os-resultados-da-protecao-a-infancia-o-que-ensina-a-conferencia-de-grupo-familiar (Obra original publicada em 2019 em Child & Family Social Work, 25(2), 211-220 (2020); republicada em 2020 por Child & Family Social Work, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/cfs.12676)
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