Red Sistémica · Entrevista
O Dr. Ricardo Grimson, médico psiquiatra e, na época, secretário nacional de Dependências Químicas, foi convidado pelo prestigioso centro de formação sistêmica CEFYP para expor diferentes aspectos de sua longa trajetória no campo das dependências. O material dessa conferência-entrevista foi em seguida transcrito e editado para Perspectivas Sistémicas. As perguntas feitas durante a exposição do Dr. Grimson foram formuladas pelo coordenador da atividade, Jorge Basile, e a edição posterior, junto com o entrevistado, foi realizada por Horacio Serebrinsky.
“O que quer que façamos, o que precisamos criar para um dependente que quer deixar de sê-lo é a possibilidade de converter seu desespero em pensamento.”
Ricardo W. Grimson
Nota da redação de Perspectivas Sistémicas
Agradecemos aos diretores do CEFYP, María Rosa Glasserman e Adolfo Loketek, por sua gentil e total colaboração na realização e na publicação desta entrevista. Jorge Basile é coordenador da equipe de crianças e adolescentes e das atividades científicas do CEFYP. Horacio Serebrinsky é diretor do centro de formação ESA e colaborador permanente de Perspectivas Sistémicas.
O que significa ocupar um cargo tão importante quanto o de secretário nacional de Dependências Químicas, e que apoio político você recebeu?
Ocupar um cargo público neste momento é algo bastante atípico. Em geral, os funcionários têm uma visibilidade no tempo. Acho que nós, ao contrário, temos uma imprevisibilidade do tempo; diante disso, há duas coisas a fazer: uma é se desesperar, a outra é agir como se essa variável independente não ocupasse o lugar que realmente ocupa. Todos os dias temos alguma incerteza, há noites em que não se dorme pensando no que se deveria ter feito. Esta gestão pode durar algumas semanas a mais, ou durar, como de fato está proposto e como pensam os mais otimistas entre nós, até a próxima transição de governo, sem interrupção.
Paradoxalmente, o apoio político é maciço. Fui proposto por Eduardo Amadeo, que é uma das figuras mais representativas de uma posição socialmente consciente dos problemas do país e portador de algumas das soluções que é preciso dar a eles. Ele cobre, com sua equipe, o Ministério do Desenvolvimento Social, o setor da Cultura e a nossa Secretaria.
Fale-me desse “desembarque”: foi fácil?
Na realidade, desembarca-se em terreno inimigo, no sentido de que há toda uma estrutura conservadora de cargos de direção. O Presidente está bastante consciente disso e me perguntou: “O que aconteceu com as camadas geológicas de apadrinhados?” A pergunta me pareceu inteligente, porque se vê que Duhalde reconhece que, em todas essas estruturas da administração pública, temos um problema comum: as camadas residuais das administrações sucessivas. Nesse desembarque, conseguimos encerrar as funções de todos aqueles de quem era possível se separar, isto é, os contratados e os bolsistas, o que nos deixou um certo número de cargos a preencher, e trouxemos entre trinta e quarenta pessoas escolhidas por nós. Resta um conjunto de pessoas que se opuseram à minha vinda à Secretaria, por meio de denúncias fraudulentas e dessas coisas que acontecem neste país.
O que havia acontecido no ano passado se repetiu, com os mesmos materiais, pela circulação de um e-mail difamatório.
O Presidente, consultado sobre o assunto por Amadeo, disse que não lia cartas anônimas, o que me pareceu uma resposta muito digna. Além disso, seu apoio ficou entre o humorístico e o efetivo. Do lado do humor, no dia em que prestei juramento diante do Presidente na residência presidencial, ele estava olhando o orçamento e, quando entrei, me disse: “Nove milhões e trezentos, isso não vai ser suficiente para você; agora, se quiser jurar, jure.” O que implica também um certo reconhecimento de que a situação não é uma situação privilegiada. Também não é que administremos a miséria, mas os recursos são extremamente limitados e ainda podem se reduzir.
Como funciona a Secretaria hoje?
Conduzimos uma gestão trazendo a ela algumas décadas, eu disse três mas são quatro, algumas décadas de experiência no tratamento da patologia psiquiátrica grave, na abordagem preventiva das dependências e na abordagem terapêutica das dependências em hospital-dia, que são três das coisas que fiz ao longo de uma história que tem pelo menos o mérito da duração. Durante muitos anos, dediquei-me à psicose e à transformação das estruturas asilares, as quais demonstraram ter um poder de conservação superior ao meu. As mesmas estruturas asilares sobrevivem com pessoas diferentes mas com os mesmos critérios: maus-tratos aos pacientes, condenação civil, conversão da internação por psicose em perda do que poderia ser a capacidade de recuperação. Temos quarenta ou cinquenta anos de atraso em psiquiatria institucional, salvo em alguns lugares, como por exemplo certos serviços de emergência psiquiátrica do Borda ou do Moyano, que funcionam realmente como unidades modelo no conjunto.
Na perspectiva global do país, continuamos a ter cerca de 30.000 pessoas internadas e, para essas 30.000 pessoas, que representam um por mil da população do país, não existe política pública. Não existe sequer mais uma Diretoria Nacional de Saúde Mental. Além disso, tivemos também a infelicidade da incompetência de certos funcionários da Cidade de Buenos Aires.
Parece-me que a administração das políticas públicas desses últimos anos foi pobre. Há uma foto de que eu me lembrava hoje: Graciela Fernández Meijide diante do Obelisco e, às suas costas, um garoto cheirando cola. Acho que todos nós a vimos, e essa era a realidade. Deu-se as costas às políticas sociais, não houve gestão no Ministério do Desenvolvimento Social, não houve gestão na Secretaria de Dependências Químicas durante muitos anos, e não houve gestão naquilo que nos interessa, que é a saúde mental.
E o que se faz, diante desse panorama que você descreve?
A designação de um funcionário como Soriano, que assume o campo da saúde mental da Cidade de Buenos Aires, é de bom augúrio. É um profissional inteligente, trabalhador, muito engajado no atendimento e na formação.
Por onde se começa? Reuni-me com profissionais competentes, amigos de longa data, Camilo Verruno por exemplo, chefe do serviço de atendimento do hospital de Lanús, uma pessoa muito engajada, e com diferentes pessoas que se reconhecem como tendo participado de algo que se chamava, numa certa época, “a luta pela saúde mental pública”, isto é, conceber a saúde mental como política de Estado, como política pública.
Quando se fala de políticas de Estado, percebe-se que há uma coisa que se enuncia ao contrário: o estado da política. E como o estado da política é o que é, as políticas de Estado são o que são. Quero dizer que a deterioração da classe política na Argentina contribuiu para que as políticas públicas não fossem implementadas. Nem sequer pensadas.
Pela primeira vez em muitos anos, temos um ministro da Saúde Pública, Ginés, que é um sanitarista, que compreende o que faz, o que quer fazer, e que sabe também que poderá levar algumas coisas a cabo e outras não.
Fale-me de algumas propostas em andamento.
Nossa situação é excepcional: com um orçamento limitado, conseguimos reunir pessoas que querem trabalhar. Se nos deixarem fazer, vamos ter um certo impacto e inscrever uma série de ações concebidas para um ano. Uma parte dessas ações consiste em inscrever a Secretaria numa unificação do problema do álcool dentro do campo das drogas. Acredito que a ignorância, ou a má vontade, ou determinados interesses, fizeram com que nem os psicotrópicos nem o álcool fossem incluídos entre os componentes dos transtornos aditivos, quando na realidade são componentes fundamentais deles. Por que as campanhas publicitárias não tocam no assunto? Porque os viticultores e os laboratórios ficariam zangados. Como podemos nos perguntar se os laboratórios e os viticultores vão ficar zangados, quando na realidade o que estamos fazendo é criar condições que favorecem a destruição química do cérebro dos nossos filhos adolescentes? A integração do álcool nas políticas de drogas é uma das coisas fundamentais que queremos desenvolver.
Outra coisa é prestar atenção ao abuso de psicotrópicos. Romper a dependência de psicotrópicos é muitas vezes mais complicado do que romper a dependência de substâncias como a cocaína. Se um paciente está pronto para parar a cocaína, ele pode pará-la, e o que vai ter é uma certa oscilação do humor durante um tempo, que pode ser medicada em alguns casos, tratada em psicoterapia em outros, mas que não lhe causa transtornos, porque não há síndrome de abstinência. A cocaína não tem síndrome de abstinência; quem diz o contrário viu outra coisa, se chamamos síndrome de abstinência aquilo a que Jellinek se refere para o alcoolismo, isto é, a incapacidade de se abster, a incapacidade de parar e a incapacidade de eliminar o consumo. Os cocainômanos mais avançados demonstram que podem cortar o consumo de um dia para o outro, desde que lhes seja fornecido um espaço onde possam ser contidos, eliminar a angústia e elaborar outras coisas.
Além disso, temos a sorte de não ter opiáceos, embora pudéssemos tê-los, porque as condições geopolíticas latino-americanas tendem a unificar o consumo. A Colômbia é especializada no processamento da droga que chega sob a forma de pasta base da Bolívia e do Peru e passa pelos laboratórios colombianos. Eles são especializados na transformação da folha de coca, via pasta base, em produto final, o cloridrato, e, ultimamente, plantam muito mais para produzir heroína; produzem uma heroína de qualidade bastante boa que transita pela Argentina. Outro dia, apreenderam-se três quilos em Mendoza, o que constitui um carregamento importante; a pessoa que transporta isso recebe 2.000 dólares, além das despesas de viagem, hospedagem etc. É muito tentador. Por outro lado, temos empresas produtoras. Os narcotraficantes não são senhores que cultivam arbustos porque têm um fundo de quintal, nem garotos que põem mudinhas de maconha em vasos, isso é inofensivo. Esses senhores liberam territórios com base em acordos de conveniência entre uma guerrilha guiada por seus princípios ideológicos e um narcotráfico guiado por seus interesses econômicos. Poderia-se pensar que isso é incompatível; sempre pensei que a guerrilha jamais protegeria os laboratórios de transformação do cloridrato de cocaína. Hoje, é evidente que os grupos guerrilheiros colombianos estão decididos a proteger os laboratórios, porque tiram benefícios da persistência dos narcotraficantes, de seus laboratórios etc. O Afeganistão, por exemplo, é o primeiro produtor de heroína do mundo, e a última guerra aconteceu no Afeganistão; não acredito que a presença da droga como principal produto de fabricação dos afegãos seja estranha a essa circunstância; alguém que estudasse geopolítica poderia ver quais correlações existem, por que isso começou, quando começou etc. Muitos países produzem cotas de heroína reguladas pela Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes, para preparar medicamentos.
Que papel desempenham a religião e suas instituições nesse domínio?
O número de comunidades dirigidas por padres na Colômbia e no Equador é surpreendente. O papel de engajamento social da Igreja Católica na Itália é impressionante. Trabalhei no CeIS de Roma de 1990 a 1994, em formação e em prevenção, e, dos sessenta diretores de programas com os quais trabalhei, mais de quarenta eram padres. O padre italiano tem uma inscrição na realidade social que faria com que aqui ele fosse considerado terceiro-mundista. São pessoas que vão à favela e trabalham com o dependente, recebem-no em entrevista, preparam-se para saber como se conduz uma entrevista, como se conduz uma entrevista familiar, como se ajuda, como se motiva para iniciar um tratamento, e depois desenvolvem um sistema terapêutico.
Curiosamente, foi exatamente isso que aconteceu em Nova York e em Roma. Os dois personagens que começaram isso são Mario Picchi e monsenhor O’Brien. O primeiro é um padre muito conhecido de Roma, que aconselhou vários papas e recusou fazer carreira como cardeal. Sua tarefa concreta foi criar o Centro Italiano de Solidariedade, com o qual a Argentina teve enormes relações, porque dezoito pessoas se formaram lá no início, que depois dirigiram comunidades terapêuticas em 1988. Elas se formaram como operadores na Itália e voltaram para cá. Desse grupo de pessoas que voltaram e criaram comunidades terapêuticas, muitas ainda sobrevivem e estão entre as mais conhecidas.
Por outro lado, em Nova York, há monsenhor O’Brien, que continua sendo presidente da Federação Mundial de Comunidades Terapêuticas. Ele tem oitenta e dois anos e conseguiu organizar em sua igreja reuniões diárias de dependentes que queriam passar à abstinência e que dormiam no seminário, que havia se esvaziado. Como vocês sabem, a Igreja Católica vê diminuir há décadas seu número de padres e de religiosas; o lugar onde se formavam os padres ficava, portanto, livre, e foi exatamente lá que esse padre hospedava os dependentes. Em consequência disso, ele foi preso por “produção de dependentes”, segundo a imprensa. Publicaram isto: “Monsenhor O’Brien foi preso porque hospedava dependentes que ele alimentava”, como que para dizer que os alimentava com droga. Na realidade, ele os alimentava com sopa, com comida quente, dava-lhes abrigo. Produziu-se um escândalo muito semelhante ao que aconteceu com Mario Picchi em Roma. Assim, Mario Picchi em Roma fazia algo muito semelhante ao que fazia monsenhor O’Brien em Nova York. Por esses fenômenos de evolução do saber que se produzem simultaneamente, eles faziam a mesma coisa, no mesmo momento. Tentavam compreender o que lhes trazia Maxwell Jones, que conhecíamos pela psiquiatria social: o que ele trazia ao tratamento dos dependentes, e como o dependente se cura quando vive em comunidade, e como a comunidade deve ser a mais horizontal possível.
Depois do escândalo midiático, os dois padres permaneceram na prisão até que jornais responsáveis como La Repubblica em Roma, que é o jornal da Democracia Cristã, e o New York Times nos Estados Unidos, se apoderassem do caso e demonstrassem que se tratava de uma mentira total, que os dois religiosos ajudavam os dependentes e que não existia política pública para os dependentes, o que demonstrava uma falha no sistema de saúde. A mesma coisa que descobriríamos pouco depois na Argentina. Os religiosos passaram então da denigração ao primeiro plano: quando monsenhor O’Brien recuperou a liberdade, aconteceu uma dessas coisas que acontecem nos Estados Unidos. Um senhor lhe disse: “Acho muito bom o que o senhor faz. Tenho um hotel, aqui, na rua 40, a um quarteirão e meio da Quinta Avenida, isso lhe conviria?” “Seria maravilhoso.” “Bom, eu o deixo com o senhor, tenho cinco ou seis hotéis, não preciso deste.” O hotel ainda existe e é a sede da Federação Mundial de Comunidades Terapêuticas.
O CeIS de Roma se parece mais com o que fazemos: tem a ver com a família, com as intervenções familiares, e é justamente um argentino, Francisco Mele, que está lá há um bom número de anos, quem coordena o trabalho de terapia familiar. Eles incluíram a terapia familiar nos tratamentos bem antes dos norte-americanos, mas as populações com as quais trabalham também são diferentes. Em um grupo de terapia de Nova York, um participante possível poderia ser alguém que degolou a mãe porque ela não quis lhe dar o cofrinho, e que se injeta heroína há dez anos; outra seria alguém que se prostitui porque a necessidade de crack é tão intensa que não pode fazer outra coisa senão ir praticar uma felação para obtê-lo. Lá, o crack é acondicionado sob a forma de ampolas que se quebram e se inalam.
Mas esses programas não são governamentais.
O que aconteceu é que esses programas começaram a conhecer um grande desenvolvimento, uma grande influência no mundo, porque a saúde pública mundial deixou de lado o problema das dependências, como havia deixado de lado anteriormente o alcoolismo, porque não se sabe o que fazer.
O alcoólatra chega ao hospital e é tratado se está em estado de embriaguez, é hidratado, se recupera e é mandado para casa; não ocorre a ninguém dizer: bom, talvez desta vez, quando você se embriagou, tivesse uma preocupação particular, ou tenha perdido seu emprego, ou um de seus filhos tenha morrido, ou sei lá o quê, isto é, interrogar a causa desse estado de embriaguez. Se isso for elaborado no nível do pensamento, pode ser elaborado terapeuticamente. Tanto aquele que se droga quanto aquele que responde a isso a partir do cuidado obedecem a um sistema de interrupção do pensamento: o dependente interrompe o pensamento pela ação psicoativa do que ingere, porque algo o desespera tanto que ele não pode tolerar o que está pensando; e para não convertê-lo em pensamento, ele o transforma em sensação, em euforia, em excitação, em alucinação ou o que quer que seja, e estabelece assim uma espécie de recreação da imaginação, para que o pensamento não possa funcionar.
O que deveria fazer um sistema terapêutico eficaz?
O que ele deveria se propor é criar a possibilidade de gerar pensamento. O que quer que façamos, o que precisamos criar para um dependente que quer deixar de sê-lo é a possibilidade de converter seu desespero em pensamento. Se conseguíssemos fazer isso, pouco importa o programa, desde que seja respeitoso e eficaz. A eficácia seria poder converter o desejo de permanecer saturado de imagens, de sensorialidade, de excitação, de perda de controle, em um processo que lhe permita pensar, refletir. Se pudermos elaborar a sensação pelo pensamento, a pessoa começa a se deprimir e, a partir da depressão, começa a perceber que há uma distância em relação à droga, que a droga incorporada é uma droga da qual ela também pode se afastar, e que esse afastamento, no melhor dos casos, pode lhe permitir (nem sempre é o caso) reencontrar vivências próprias, pessoais, que são sua riqueza individual e que devem ser salvas. É o processo de individuação que a pessoa que foi dependente por muito tempo tem o direito de percorrer, e o que precisamos ter é um espaço terapêutico para que isso possa acontecer.
Na Itália, isso se faz por meio dos centros de agregação juvenil, que são os centros para os jovens de rua. Vi as famosas piazzas, que são praças de cimento; nós as pensamos em termos vegetais e eles em termos minerais. A piazza é o lugar de reunião dos adolescentes italianos, diferenciado por faixas etárias: há a dos doze-quatorze anos, a dos quatorze-dezesseis anos, a dos dezessete-dezenove anos, e eles não se misturam na mesma piazza. O operador que formamos, o operador de rua, precisa saber quais são os valores, qual é a cultura, quais são as expectativas, as necessidades e os problemas das diferentes faixas etárias; a adolescência aos doze anos é uma coisa, aos dezesseis ou dezessete outra…
Para lembrar
Para Grimson, a droga é um sistema de interrupção do pensamento: o que não pode ser pensado é transformado em sensação. O trabalho terapêutico, qualquer que seja o programa, consiste em reabrir essa possibilidade de pensar, aceitando que a depressão que se segue seja o sinal de uma distância reencontrada em relação ao produto e o início de um processo de individuação.
As drogas mudam, tornam-se mais potentes?
Hoje, manipulam-se geneticamente os cultivos de maconha para produzir uma maconha vinte vezes mais potente do que a que conhecemos nos anos 1960, isto é, ela contém vinte vezes mais THC, o tetraidrocanabinol. A droga contida no que se fuma é como passar da Coca-Cola ao uísque sem perceber. O que se nota? Que o efeito é diferente; mas não só o efeito é diferente, como o estímulo que produz esse efeito no cérebro é vinte vezes mais potente.
A cocaína que chega aqui tem um bom nível de pureza, mas como em tudo as classes sociais pesam; então, por exemplo, nas favelas vende-se cocaína misturada com tubo de néon moído. Moem-no e o misturam ao pó de cocaína. Acrescenta-se anfetamina, e quem compra isso por 5 pesos acredita estar comprando cocaína. Talvez note que seu nariz sangra mais do que de costume, ou que tem depois um efeito tóxico, ou que há anfetamina. Mas quem não entende muito do assunto acredita que o efeito euforizante da anfetamina vem da cocaína, e se engana, é claro. Vendem-lhes um produto mais barato como se fosse mais caro, porque até 5 pesos, é lucro.
Em outra ordem de ideias, fui a Gualeguaychú e, em um encontro com alunos do segundo ano de uma escola secundária, eles me pedem para fazer uma oficina com eles. Então, meio filósofo, penso: “Gualeguaychú, bem no interior, aqui deve haver… gaúchos judeus, deve ser uma cultura ancestral, eles fazem o carnaval, mas todo o resto deve ser muito tradicional, devem ser pessoas que tomam mate na porta de casa, que veem os vizinhos passar…” Então, por via das dúvidas, pergunto ingenuamente: “Vocês se sentem próximos da questão da droga?” E um deles, bem pequeno, doze anos, me responde: “Bom, bastante próximos: aqui, a vinte metros, no quiosque, vende-se a maconha a 5 pesos, a cocaína a 10 e o ácido a 15, mas é preciso encomendá-lo de Paraná porque aqui eles não têm.” Não é que ele se sentisse próximo: a droga estava totalmente disponível e fazia parte do seu contexto.
Na primeira etapa, digamos de 1960 a 1975, as drogas estavam lá, fora, tinham um uso mais recreativo, experimental, e era justamente a época experimental, a época da boemia de Buenos Aires. Tratava-se de uma postura contracultural, rebelde. Confundia-se a rebeldia com não sei o quê. Certamente, quem consome tem uma necessidade que não conseguimos perceber; se pudéssemos nomeá-la, estaríamos mais perto; o que acontece é que não percebemos a necessidade enquanto não vemos as consequências do que ele faz para satisfazê-la. Além disso, aquela época estava inundada de álcool e de maconha; havia algumas anfetaminas, mas não era o essencial; o que havia, em contrapartida, eram psicotrópicos.
A anfetamina, por exemplo, usava-se para estudar, para aguentar, na faculdade de medicina, diante dos longos tomos de anatomia humana, mas não se tratava de um uso aditivo. Conheci pouquíssimas pessoas na faculdade que tiveram problemas com anfetamina. Mais tarde, vi muito mais pessoas que tinham problemas com anfetamina por causa de seu efeito anorexígeno, quando a patologia alimentar começou a crescer, mas não era uma coisa difundida.
O argentino sempre foi polivalente em tudo, fazemos tudo junto, em matéria de drogas também: o sujeito que chegava para consulta no Cenareso, inaugurado em 1972, era um dependente polivalente; havia consumido na última semana um ácido, maconha quase todos os dias, psicotrópicos, anfetaminas e um pouco de cocaína, mas menos, porque não havia muita e, além disso, ela não tinha prestígio; depois isso mudou.
Na segunda etapa, de 1975 a 1990, temos uma predominância da cocaína, quase um monopólio da cocaína, sempre acompanhada de álcool, mas o álcool passa a ser usado mais como um “digestivo” da cocaína, como moderador da excitação: quando o sujeito se sente rígido, quando diz “estou de madeira”, aí ele tomava álcool para descer, e é daí que vem a famosa mistura cocaína-álcool, em que se poderia dizer que não se buscava embriagar-se, mas automedicar a excitação da cocaína: tomava-se, portanto, a cocaína para subir e o álcool para descer.
A terceira etapa, a partir dos anos 1990, tornou-se uma época ainda dominada pela cocaína, mas com um papel de destaque para o ecstasy. Neste momento, o mais preocupante são as drogas sintéticas, e não apenas pelo seu efeito: vocês viram os jovens que morreram na Espanha há três semanas, o El País dedicou um número especial a isso; aqui, foi comentado em alguns jornais, publicaram artigos, mas não lhe deram a importância que deveriam. Qualquer usuário ou abusador de drogas sabe que a mistura de ecstasy, que é uma anfetamina, com álcool é mortal, a tal ponto que no jargão a chamam de “bomba”; pois bem, isso mata, e matou três adolescentes de dezessete a dezenove anos em um fim de semana na Espanha.
O desregramento atual do uso de drogas é determinado por uma oferta sem limites, pelo prestígio adquirido pelas drogas: elas deixaram de ser o que eram antes, quando eram distantes, quando não eram tão acessíveis e o consumo estava associado a um ato de rebeldia, ou o significava. Se eu fumava um baseado, estava fora do sistema; “vocês bebem uísque”, dizia-se aos pais, “nós fumamos maconha”, e apareciam Bob Marley, as folhas de maconha e todo o resto. Depois, tornou-se uma coisa de que o sistema precisava, socializou-se. Então, em vez de setores marginais, eram setores que queriam acabar, sem saber, como marginais. Não há droga cujo consumo exagerado, abusivo, seja inofensivo. A longo prazo, o fumante de maconha a três ou quatro baseados por dia é um sujeito que acaba num canto, em desmotivação social, sem interesse por nenhum projeto nem por fazer nada, e em um estado de quase alucinação. Diríamos: não sei se ele é catatônico ou estúpido. Hoje, é muito difícil saber o que é a estupidez; vocês viram que um grupo político de uma faculdade da Universidade de Buenos Aires se chama “Burros, mas nem tanto”, e que ele ganhou as eleições. Estamos realmente fazendo da estupidez uma espécie de bandeira.
Há uma primeira etapa, de 1960 a 1975, em que a intenção era mais a experimentação ou a recreação; no período seguinte, de 1975 a 1990, aparecem as dependências: já não é uma intenção, mas a resolução de uma problemática mais cega. É preciso resolver a situação de dependência, que exige a alimentação persistente e contínua de droga; e de 1990 a 1995, temos o aparecimento da dependência e das drogas prestigiosas. Foi assim que surgiu o ecstasy, com essa história das raves e das danças intermináveis, o que se chama na Espanha de “ruta del bacalao”, que consiste em ir a uma boate, depois a outra, depois a outra…
Isso se torna uma obrigação cultural: o sujeito deixou de ser um sujeito dotado de intenção. Dizíamos: o que é a consciência? É a busca de um objeto externo; e agora o objeto se internalizou e determina a conduta, e acreditamos escolher quando na realidade somos determinados por uma necessidade à qual não podemos dar nome. O tipo de drogas volta a ser álcool, maconha e psicotrópicos, com uma presença marginal de anfetaminas. Por exemplo, o paciente usava anfetaminas de vez em quando, usava muitos psicotrópicos para se acalmar, para subir, para descer; era a época das pílulas nos Estados Unidos: os executivos, que estavam à frente dos nossos, tomavam cinco ou seis pílulas por dia, uma para a ansiedade, uma para se levantar de manhã, outra para dormir à noite, e isso se converteu em uma cultura química.
A cultura química prepara o caminho para que nossos filhos compreendam que devemos aproveitar essa cultura para o que quisermos. O garoto que consome drogas tem, na maioria das vezes, um pai que tem problemas com o álcool, nada mais: não um bêbado, um pai que tem problemas com o álcool e que, com o uísque na mão, lhe diz: “Você não deveria ter o cabelo tão comprido, porque com o cabelo tão comprido não vai conseguir entrar em nenhuma faculdade”; e o filho lhe responde: “Quem quer ir à faculdade?” Com a esposa, ele tem relações sexuais pouco frequentes, e a esposa se acalma com Lexotan, o que é uma coisa que já incorporamos.
Há um sujeito que projeta drogas no Chile e que pode fabricar ácidos com duração de quinze minutos, que alguns consideram uma boa coisa porque podem ser usados em sessão; esse tipo de droga não será usado para o bem, alguns terão a ideia de comercializá-las. O ecstasy é uma anfetamina que foi descartada da produção e à qual se pôs um X, que quer dizer perigo, porque tem uma toxicidade superior à das anfetaminas comuns; é uma anfetamina altamente tóxica, com danos cerebrais irreversíveis, e faz-se publicidade dela e vende-se na internet como a droga do amor.
As famílias desempenham um papel de continente?
A família dos anos 1960 e até 1975, para começar, não tinha nenhuma ideia do que lhe estavam falando. Quando lhe diziam: seu filho se droga, ela respondia: como assim, ele se droga? O médico deve ter lhe dado alguma coisa. Ignoravam o assunto; era algo distante do saber da cultura da época.
Hoje, os jovens entram na adolescência em um estado de vulnerabilidade, com uma superestimulação e uma incapacidade, ou pelo menos uma dificuldade, de socializar o pensamento. Acredito que a responsabilidade da nossa cultura é criar, como patogenia, uma superestimulação sensorial, quando não se pode elaborar o que se quer ter: como é o que se quer ter? o que se quer fazer? E há, além disso, uma perda da relação entre a cabeça, a mão e o objeto. Estamos produzindo uma hipertrofia do polegar, porque o polegar se torna o músculo mais importante do corpo: ele governa o controle remoto da televisão e, além disso, com ele podemos manejar quase todos os estímulos. Os garotos podem estar batendo papo na tela, assistindo à televisão e ouvindo um disco que toca outra música. Estamos produzindo uma espécie de esquizofrenia experimental, ou lhes ensinando que a dissociação é excelente. Acho difícil formar uma cultura reflexiva sobre o destino da humanidade, questão na qual será preciso pensar um dia.
A família muda de 1975 a 1990. Em vez de estar desconcertada, ela aparece preocupada, porque começa a registrar sinais culturais midiáticos indicando que isso é um problema, e começa a reconhecer o problema, mas o reconhece primeiro fora antes de reconhecê-lo dentro, nos outros e não nos próprios filhos.
Entre o desamparo e a ignorância desenrola-se uma situação em que o filho precisa fazer o impossível para que a família perceba o que está acontecendo, por exemplo deixar seringas ensanguentadas sobre os armários. Uma mãe me dizia: “Eu via que ele tinha uma seringa, pensava que ele tinha uma doença; então o que eu fazia, todas as manhãs, enquanto ele ainda dormia, eu fervia a seringa para que ele não pegasse uma infecção.” “Mas o que a senhora pensava que ele injetava?” “Bom, um remédio, vitaminas.” A mãe, certamente bem-intencionada, preservava uma ignorância que se revelava cúmplice. A cumplicidade da família é um dos dados e um dos obstáculos que encontramos nos tratamentos.
A situação atual já passou do desamparo à preocupação, e da preocupação ao transbordamento. A família atual está sobrecarregada porque, em uma mesma família, quatro filhos podem consumir simultaneamente. Essas famílias contam: “Um, eu internei, ele está em uma comunidade terapêutica, mas o irmão dele está agora pior do que ele quando eu o internei, e não tenho mais dinheiro para interná-lo; além disso, o plano de saúde não me reembolsa a internação, o plano diz que dependências não, que, no máximo, se fossem problemas psiquiátricos…” Parece que é melhor ter uma psicose do que um problema aditivo; as leis existem, elas tornam o tratamento obrigatório, mas ninguém tem vontade de aplicá-las.
Você pode, então, fazer uma síntese desse percurso?
A primeira etapa, 1960-1975, é a de um objeto distante e opcional, que se adapta a uma necessidade de recreação ou de experimentação; a droga ainda é externa, se não se quer tocar nela, não se toca. Afinal, nos anos 1940, a cocaína se vendia em farmácia porque era usada para fabricar remédios, para as anestesias periféricas; Freud foi um dos primeiros a recomendá-la para as anestesias periféricas, depois não respeitou suas próprias orientações e a usou para outras coisas. A morfina foi indicada nos manuais, em outras épocas, como o melhor remédio contra o diabetes. O diabético recebia morfina e o sujeito ficava “feliz da vida”, porque passava o tempo alucinando, e o diabetes seguia seu curso. A heroína aparece para curar as dependências de opiáceos, chamam-na de “remédio heroico” contra a dependência de opiáceos, e ela se torna o opiáceo químico por excelência a serviço da dependência, e assim por diante. Neste momento, um dos problemas do mundo inteiro, com as famosas políticas de redução de danos, são os dependentes de metadona, introduzida para evitar a dependência de heroína. Temos, portanto, um medicamento introduzido tal como o psicotrópico, sem levar em conta sua periculosidade, mas não há estudo racional e objetivo do que acontece; neste momento, os laboratórios dos Estados Unidos conseguiram impor à agência reguladora de medicamentos a aceitação, em vários estados, da administração de Prozac a menores. Não só vamos ficar sem trabalho, como vamos ter garotos excitados que não sabem por que estão excitados, garotos superestimulados de novo: a mesma história da estimulação que não se converte em pensamento.
O garoto que matou na Inglaterra estava tomando antidepressivos, não?
Claro, e os dois garotos do Central Park que mataram uma pessoa, também. Sobre isso, o New York Times publicou uma série de artigos durante uma semana inteira. Eu estava lá e a acompanhei, horrorizado: mataram um morador de rua às três da tarde, garotos com telefones celulares, com motorista, com todo o luxo. O celular servia para chamar o motorista quando tivessem terminado de brincar no parque. Mataram um morador de rua porque não tinham nada para fazer, estavam drogados. Isso não quer dizer que a droga torne as pessoas más, isso é outra história. O percurso no tempo vai do objeto distante e opcional, na primeira etapa, ao objeto próximo e necessário, na segunda. Se o objeto fica na prateleira, nem por isso ele me persegue. A cocaína não é uma pantera que se lança sobre os adolescentes. Se quero usá-la, eu a uso. Ela se torna um objeto próximo e necessário, e começa a conspiração delituosa intrafamiliar, onde começa a pequena delinquência: vender as lembranças da avó, vender o gravador do irmão… É por isso que uma das primeiras perguntas úteis é: sumiram coisas na sua casa?
Na terceira etapa, esse crescimento do objeto, que é o crescimento da droga, converte-se em anulação do sujeito: o sujeito é então substituído, em seu papel de protagonista, pelo protagonismo que a droga assume, como se ela fosse a iniciadora de tudo.
Uso recreativo, experimental, contracultural. A droga é externa: se não se quer tocar nela, não se toca. As famílias ignoram tudo sobre o assunto.
Aparecimento das dependências, quase monopólio da cocaína. Início da “conspiração delituosa intrafamiliar”. As famílias reconhecem o problema, primeiro nos outros.
Drogas prestigiosas e sintéticas, ecstasy, obrigação cultural. A droga toma o lugar do sujeito como iniciadora de tudo. As famílias estão sobrecarregadas.
O que você pensa da legalização das drogas?
Sou contra, porque penso que ela não produz nenhum benefício. O único benefício que pude observar, lendo Milton Friedman dizer que se poderiam arrecadar impostos, é que ela reduziria o preço da droga e a tornaria, portanto, mais acessível. Como disse Amadeo: a segunda lei de Samuelson estabelece que todo produto cujo preço diminui vê seu consumo aumentar. Então, o que fazemos ao permitir o livre acesso? Porque vão surgir os direitos humanos das crianças: comprar drogas. Eu pergunto: as crianças poderiam legalmente comprar droga? É como se perguntar se as pessoas podem ter armas à sua disposição se quiserem. Acredito que, se partimos do princípio de que a droga não é inofensiva, ou pelo menos de que o abuso de drogas não se revela inofensivo a longo prazo, precisamos regular de uma maneira ou de outra sua disponibilidade.
A época da Lei Seca nos Estados Unidos é frequentemente tomada como modelo para mostrar que a proibição também aumenta o consumo…
Sim, isso é discutível. Não houve taxas de alcoolização mais elevadas. As pessoas bebiam ilegalmente, mas não todos os dias, porque era preciso ir a certos lugares que fingiam servir chá quando na realidade serviam gim; mas, na realidade, as taxas não são muito conclusivas, continua sendo um assunto em discussão. De todo modo, não digo que o objetivo seja tornar a coisa clandestina, pois ela já é, e isso funciona bastante bem. Nem mesmo os narcotraficantes devem querer que se legalize: seria preciso primeiro que eles próprios se legalizassem, o que é a última coisa que desejam fazer, porque seu poder vem daí. A ideia não é que eles busquem que as pessoas consumam droga, mas que busquem fontes ilimitadas de bens. Ainda que certos personagens contraditórios como Pablo Escobar tenham sido adorados na Colômbia, como também o foram certos personagens públicos da nossa história recente em suas terras. Se formos à região deles e perguntarmos o que se pensa de um grande personagem, controverso em nível nacional, as pessoas do lugar responderão com certeza: Dom Fulano, claro, foi ele quem fez a escola, a estrada, o aeroporto. Evidentemente, ele fez tudo com o que lhe sobrava, mas por trás há, muitas vezes, uma história de crime organizado.
Não acredito que a legalização serviria para coisa alguma e, além disso, não se pode legalizar em um país sem convertê-lo em uma ilha do desejo para a região. O presidente do Uruguai anunciou sua ideia de legalizar a droga sem medir as consequências. Vamos todos passar as férias no Uruguai para consumir droga porque é legal, e depois voltamos depois de ter consumido drogas, e alguns tendo se tornado dependentes.
Os assuntos conexos à disponibilidade, nos quais não quis entrar hoje, são o controle dos precursores, que é uma questão de rastreamento da produção de cocaína e de heroína. Para nós, o que mais importa é o que entra; existem estudos internacionais sobre produtos como o permanganato de potássio. Se seguirmos o trajeto do permanganato de potássio importado e exportado, quando seu volume aumenta além do necessário para a indústria química ou a de perfumes, é porque está sendo usado para produzir cocaína.
A lavagem do dinheiro da droga resulta do produto da venda, que não é fácil de introduzir diretamente no circuito financeiro. O problema dos narcotraficantes é que têm cédulas demais e não sabem onde colocá-las; daí toda essa importação de cédulas que se fez aqui com a cumplicidade de personagens de destaque da política local e de funcionários da alfândega que nem sequer sabiam falar espanhol. É indispensável controlar tudo isso se quisermos detectar as ações dos narcotraficantes, que por essa razão querem construir todos esses hotéis inúteis que temos. É por isso que eles precisam investir nesse tipo de construção, que é a maneira de legitimar o dinheiro.
O que você pensa da lei 23.737?
É um bom instrumento, que é preciso saber aplicar. Vi casos bem-sucedidos, mas baseados primeiro em um melhor trabalho com a jurisdição federal. De 1985 a 1995, trabalhamos na formação dos tribunais I e II, os de Marquevich e de Bengesio, na comarca judicial de San Isidro, em San Martín, em Lomas de Zamora, em Quilmes e em algumas outras, e Juan Yaría, o ex-secretário de Dependências Químicas da província de Buenos Aires, fez o mesmo em muitas outras jurisdições. O trabalho com os tribunais se deve à necessidade de superar o desconhecimento que os tribunais têm da 23.737, que é a lei sobre as dependências, uma lei muito discutida, com debates interessantes; a posição de Fapiano, que estava então no Ministério do Interior, foi realmente brilhante e continua disponível para ser comentada.
Essa lei estabelece uma medida de segurança educativa para as pessoas que a polícia encontrou, por exemplo, com um cigarro de maconha no bolso: aplica-se a elas uma medida de segurança educativa, que depende do Ministério da Educação; e, para outros casos, uma medida de segurança curativa, que é a substituição ou a interrupção da condenação pela opção de um tratamento. A pessoa está em processo judicial; toda pessoa em processo judicial a quem se pergunta “prisão ou tratamento?” teria que ser muito boba para optar pela condenação. Aliás, se optasse pela condenação, faria o terceiro ciclo da droga, pois o que são as prisões? Terceiros ciclos da droga. Essa pessoa, já sob sanção judicial, corretamente aconselhada e com serviços disponíveis, pode seguir uma intervenção preventiva de três sessões semanais durante oito semanas, que pode servir como uma espécie de introdução à questão. Ela deverá ou não ser seguida de um tratamento, mas não é uma pessoa acometida de dependência física ou de incapacidade de se abster de consumir. Para esses outros é reservada a medida de segurança curativa. Nesse caso, o juiz ordena: vá a um estabelecimento, que pode ser à escolha da pessoa; muitos pedem então comunidades terapêuticas. Muitos juízes encaminham para comunidades terapêuticas, o Tribunal de San Martín também, mas isso exige um trabalho prévio, no qual centros de prevenção e de atendimento, públicos e/ou privados, se propõem aos tribunais como assessores para a avaliação, e é complicado. Precisamos trabalhar com todos os juízes federais da capital, que são doze.
Por outro lado, há também os juízes de família. Nesses casos, existe uma experiência de transformação do poder judiciário nesses últimos anos, em que, infelizmente, o Dr. Eduardo Cárdenas renunciou, ele que é um exemplo claro da acessibilidade dos juízes à intervenção psicológica, psiquiátrica e terapêutica.
Na minha opinião, não se pode fazer uma recomendação geral; eu não recomendaria a uma família ir procurar o juiz, porque de saída, se não se ultrapassaram outros obstáculos ou outras instâncias, isso implica uma delegação de função, isto é: você vai, e eu o coloco sob a autoridade do juiz. O que isso quer dizer? Se já se fracassou antes, se já se tentaram outros caminhos e se chega a essa instância… Isso acontece com pessoas que já estão na atividade delituosa. Não há resposta única: vi casos que evoluem muito bem, vi outros que, diante da instância judicial, desaparecem; mas o trabalho com os serviços de defesa de menores me interessa muito. Começamos com Atilio Alvarez, há muitíssimos anos, na promotoria de menores. As promotorias de menores e incapazes que intervêm nos hospitais em aplicação da lei 22.914 sobre as internações psiquiátricas: os psicóticos, e também os toxicômanos, como a lei os chama, dependem da promotoria de menores e incapazes e, por conseguinte, as internações devem ser comunicadas a ela, devem ser auditadas; mas nada disso existe, não se comunica, não se audita, não se supervisiona.
Acabamos de substituir toda a equipe de auditoria da Secretaria, porque não concordamos com a maneira como se audita. Perguntam: vocês têm umidade? vocês têm café? São as duas etapas da auditoria; se vocês não têm umidade, é um elogio para a instituição. A auditoria deve ir auditar o programa terapêutico e perguntar: há coordenadores de grupo, há terapia familiar, a partir de que momento? Há formação? Na história das dependências, trabalhava-se antigamente com a família no momento de dar alta ao paciente: o paciente ficava um ano e meio internado, não via a família, e no último dia dizia-se: é preciso convocar a família porque o Juanito vai embora. Como se pode convocar a família no momento em que ele vai embora?! Precisamos convocar a família desde o momento da internação, desde o início.
O que você propõe, então?
Somos da opinião de que a família deve sempre participar quando gerimos lugares de internação em psiquiatria. Desde o início, integramos a família, e quando não o fazemos, colocamos em questão a possibilidade de realizar uma internação eficaz. Não se pode tratar um paciente internado sem trabalhar com sua família. O trabalho deve inclusive ser prévio. Trabalhamos muito mais com grupos de pais antes da internação, e menos com a família que, nesse momento, está abalada, ferida e desorientada. Precisamos levar ajuda a essas pessoas, porque as possibilidades de ajuda vêm habitualmente dos leigos, ou da Igreja ou de outros sistemas religiosos; ou então, de pessoas que têm interesses ou apetites lucrativos; os apetites lucrativos são perigosos pelo seu lado lucrativo e pelo seu lado apetite, porque acabam por lucrar e não por ajudar. Há famílias que são convencidas, inclusive a partir da profissão psiquiátrica, de que, se têm um apartamento, poderão vendê-lo para pagar a internação. Se o critério é que os tratamentos sejam acessíveis a todos, precisamos modificar as políticas.
Para lembrar
Grimson inverte a prática asilar clássica que convocava a família no dia da alta: para ele, não se pode tratar um paciente internado sem trabalhar com sua família, desde a admissão e mesmo antes, principalmente por meio de grupos de pais. Uma auditoria séria de uma instituição deveria tratar disso, e não da umidade das paredes.
Como funciona, nos países do primeiro mundo, a questão dos seguros privados para a dependência de drogas?
Em geral, o tratamento é coberto; por exemplo, o CeIS na Itália tem um orçamento de 18 milhões de dólares por ano. Desses 18 milhões, 12 provêm da seguridade social, isto é, dos pacientes em tratamento, e 6 de doações, bolsas, fundações etc. Se doze milhões de dólares provêm da seguridade social, isso quer dizer que o convênio é muito claro. A Itália tem um enorme avanço nesse domínio; para esse país, a dependência de drogas é um fenômeno situado na marginalização social: não que ela produza marginalização social, mas é a marginalização social que produz a dependência. A consciência social do Parlamento italiano é evidente. Quando eu estava lá, um pouco antes da Copa do Mundo de futebol de 1990, discutia-se essa questão no Parlamento, e eu lia com paixão as intervenções de políticos lúcidos, inteligentes, que discutiam políticas públicas como não se costuma discutir aqui. Outro dia, fui à Câmara dos Deputados, à comissão de dependências químicas, e me pediram para, por favor, não ser tão pontual. Se me convocam às 8h30, chego às 8h30. Disseram-me que, com o meu cargo, eu podia chegar às 9 horas. Havia doze deputados e dez assessores, uma verdadeira multidão. Nunca, na comissão de dependências químicas, houve tantos deputados presentes; estavam muito entusiasmados, mas o nível das perguntas era um pouco patético.
Existe um programa de bolsas na Secretaria?
Tentamos fazer a questão avançar e sobreviver como todo mundo. Tenho o raro privilégio de trabalhar quatorze horas por dia, e atendo meus pacientes em um horário limitado no fim da tarde, porque a Secretaria me requisita desde as 8 da manhã. Neste momento, inauguramos o curso de Quilmes: duzentos operadores estão inscritos em uma formação de operadores socioterapêuticos, onde alguns de vocês lecionaram, e estamos aí, tentando continuar avançando, pensando que o país precisa encontrar um equilíbrio melhor do que este, que precisa respeitar os princípios da justiça social e que precisa fazer pelos menos favorecidos o que fez durante tantos anos pelos mais favorecidos.
Quem é Ricardo W. Grimson
Ricardo W. Grimson é médico psiquiatra argentino. Engajado durante décadas no tratamento da patologia psiquiátrica grave, na transformação das estruturas asilares e tanto na prevenção quanto no tratamento das dependências (principalmente em hospital-dia), trabalhou no CeIS de Roma de 1990 a 1994 em formação e em prevenção, e formou os tribunais federais argentinos na aplicação da lei 23.737. No momento desta entrevista (2002), acaba de ser nomeado secretário nacional de Dependências Químicas pelo governo Duhalde.
Esta entrevista é a tradução para o português de “Tres décadas en la droga: Contexto y diferencias. Entrevista a Ricardo W. Grimson”, publicada pela Red Sistémica (primeira publicação: Perspectivas Sistémicas, n° 72, juillet-août 2002). Traduzida e republicada com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Basile, J., & Serebrinsky, H. (2022). Três décadas no campo das drogas: contexto e diferenças. Entrevista com Ricardo W. Grimson (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/tres-decadas-no-campo-das-drogas-contexto-e-diferencas-entrevista-com-ricardo-w-grimson (Obra original publicada em 2002 em Perspectivas Sistémicas, n° 72, juillet-août 2002; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/06/29/tres-decadas-en-la-droga-contexto-y-diferencias-entrevista-a-ricardo-w-grimson/)
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