Journal of Solution Focused Practices · Estudo de caso
Dezessete sessões em dezesseis meses, a distância, entre Adelaide e o Arkansas, com os pais na sala. Maggie tem 29 anos, é autista, atravessou um câncer de mama aos 22, uma fibromialgia, enxaquecas crônicas e dores diárias. David Hains, enfermeiro e terapeuta de sessão única, nunca tinha atendido alguém mais de três vezes. Kate Kowalski, a mãe, formou-se no Brief Family Therapy Center de Milwaukee em 1985 sob a supervisão de Eve Lipchik. Três vozes contam o que funcionou: não a pergunta do milagre (nunca feita), uma única pergunta de escala em dezessete sessões, mas a confiança, a escuta, o ritmo de Maggie, objetivos minúsculos – sair do quarto – e um terapeuta que, em vez do primeiro honorário, pede aos pais que vão almoçar fora.
Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de Beyond Technique: Maggie’s Story of Determination, Resilience and Growth Through SFBT and a Focus on the Therapeutic Relationship, de David Hains, Kate Kowalski e Maggie Krogull, publicado no Journal of Solution Focused Practices (2024), doi: 10.59874/001c.124265, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para o português e reformatado, com os trechos de sessão e de e-mails apresentados em quadros e os dois apêndices colocados antes das referências, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As bandeiras que acompanham o título original indicam resumos em chinês no site da revista. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Só me dou conta, quando falo com você, de que já tenho as respostas, ou pedaços da resposta, e você me ajuda a ver isso.
Maggie, décima quarta sessão
Resumo
Este artigo oferece percepções e reflexões sobre o uso da terapia breve focada nas soluções (TBFS) ao longo de dezesseis meses para ajudar uma cliente com uma história complicada e necessidades complexas. No entanto, não se trata de um estudo de caso típico. O propósito deste artigo não é fornecer detalhes sobre a TBFS nem uma análise detalhada da conversa nas sessões, mas sim oferecer as perspectivas de cada uma das pessoas envolvidas: a cliente (Maggie), o clínico (David) e a mãe (Kate). Cada uma dessas pessoas tem uma expertise própria, mas Kate tem uma quarta perspectiva, muito singular, como uma das primeiras integrantes da equipe do Brief Family Therapy Center de Milwaukee nos anos 1980.
Neste artigo, faremos referência direta às sessões, bem como aos e-mails e às atividades ocorridas entre as sessões. O nosso objetivo é mostrar que a TBFS é uma abordagem que pode ser usada em terapia de longo prazo e em situações complexas, enfatizando que é necessária uma abordagem flexível e sob medida, e que a relação terapêutica é parte integrante da terapia.
Palavras-chave: terapia breve focada nas soluções, relação terapêutica, enfermagem em saúde mental.
DH: Sou enfermeiro registrado em Adelaide, na Austrália, e comecei a usar a abordagem focada nas soluções em 2014, quando trabalhava no serviço de emergência de um hospital terciário (ver Durrant, 2016). Depois de um workshop de dois dias com Michael Durrant, fiquei fisgado, e hoje sou uma das muitas pessoas da Australásia que devem muito a Michael por compartilhar o seu conhecimento e o seu entusiasmo. Nos anos seguintes, iniciei uma comunidade de prática de TBFS em Adelaide, e depois uma pequena empresa de formação (www.leftturnsolutions.com.au). De 2018 a 2022, tive o privilégio de ser presidente da Australasian Solution Focused Association (ASFA), bem como presidente e gestor do Journal of Solution Focused Practices. Atualmente trabalho numa clínica de terapia de sessão única (single session therapy, SST) numa organização de saúde mental para jovens, de modo que é muito incomum para mim atender um cliente por mais de três sessões.
KK: Tenho um duplo papel neste projeto. Primeiro, como mãe de Maggie e participante das suas sessões de terapia com David. Segundo, como praticante focada nas soluções, com uma história com a abordagem que remonta a quase quarenta anos. Em 1985-86, participei do programa intensivo de formação de um ano oferecido pela equipe do Brief Family Therapy Center (BFTC) em Milwaukee, e tive o privilégio de ter Eve Lipchik como supervisora e mentora. Sou grata pela ligação com Eve, que mudou a minha vida, tanto profissional quanto pessoalmente, e continuamos a compartilhar uma profunda amizade. Depois da formação, tive a honra de ser convidada a integrar a equipe do BFTC. Depois de visitar a Austrália em 1987, tomei a decisão de me mudar para Sydney para integrar o consultório de Michael Durrant, onde conduzi terapia e formação focadas nas soluções a partir de 1989. Ao voltar a Milwaukee em 1991, trabalhei como terapeuta no Family Health Plan, uma organização de manutenção da saúde, com a equipe liderada por dois dos primeiros colaboradores do desenvolvimento da TBFS: Don Norum e Marilyn La Court. A minha carreira evoluiu, e passei a me dedicar a funções administrativas, programáticas e educacionais nos serviços sociais e no ensino superior, aposentando-me da Universidade de Wisconsin em 2019. Trinta e nove anos depois da minha primeira formação no BFTC, estou novamente envolvida com o trabalho focado nas soluções, desta vez como coach profissional credenciada pela International Coaching Federation (ICF) e pelo European Mentoring and Coaching Council (EMCC). Como uma das primeiras vozes da TBFS e alguém que participou da divulgação inicial da abordagem nos Estados Unidos e na Austrália, sinto que a vida fechou um ciclo.
MK: Eu sou a Maggie e tenho 29 anos. Sou autista, o que significa que vejo e vivo o mundo de um jeito diferente da maioria das pessoas. Um dos meus hobbies é a leitura, especialmente fanfics. Quando eu era pequena, os meus pais sempre sabiam quando eu estava lendo fanfic pela expressão do meu rosto. A minha mãe chamava isso de minha “cara de encantamento” ou “cara de fanfic”, que lhe dizia na hora que eu estava lendo em vez de fazer a lição de casa. Ler fanfics me ajudou ao longo dos anos a lidar com os meus numerosos problemas de saúde e com a dor crônica. Também adoro artesanato e confeitaria, porque gosto de ser criativa e porque o processo passo a passo me ajuda a acalmar e relaxar. Também gosto de fazer as pessoas felizes, e como a regra na nossa casa é que tudo o que eu asso precisa sair de casa, gosto do processo de escolher quem recebe o que eu faço.
Fico feliz em fazer parte deste projeto. Conversar com David tem sido muito útil e estou contente por termos encontrado ele. Agradeço muito que ele tenha aceitado me atender como a sua primeira cliente de longo prazo. Sou grata por até onde consegui chegar com a ajuda dele.
Maggie deseja muito que a sua história seja compartilhada para que outros, tanto clínicos quanto, mais importante, clientes, possam se beneficiar das suas experiências. Assim, ela deu permissão para usarmos o seu nome, detalhes da sua vida, e para citarmos diretamente sessões e e-mails. Steve (o pai de Maggie) também deu o seu consentimento.
DH: Não só gostei muito de trabalhar com Maggie e a sua família, como também fiquei completamente impressionado com o que ela foi capaz de realizar. Refletindo sobre as nossas sessões, quis explorar como tudo isso aconteceu. Então, no mais puro estilo da TBFS, quis saber o que estava funcionando para poder continuar a fazê-lo.
A história de Maggie tinha um aspecto muito singular. Maggie havia pedido aos pais, Kate e Steve, que assistissem a todas as sessões, o que por si só se revelou inestimável. Mas Kate agora via a abordagem sendo usada para ajudar a sua filha. Fiquei curioso sobre as perspectivas de Kate, tanto como mãe quanto como clínica e ex-integrante do BFTC. Queria saber o que acontecia na vida real entre as sessões. Queria saber o que Kate pensava sobre o que estava funcionando, e por quê. Queria saber mais sobre a história da TBFS e o desenvolvimento da abordagem. Queria também saber o que funcionou da perspectiva de Maggie, porque na literatura da TBFS a voz do cliente está notavelmente ausente. Comecei a ter a ideia de que essa era uma história que precisava ser compartilhada.
KK: Vi muitas sessões de TBFS ao longo dos anos, a começar pelo BFTC, observando Steve, Insoo, Eve, Elam, Wally e outros, mas essa foi a primeira vez em que encontrei a abordagem com a minha própria família. Revelou-se uma experiência fascinante – não só ver a abordagem de David, mas também refletir sobre a minha perspectiva de mãe e de praticante. A experiência abriu uma nova compreensão da TBFS.
O meu propósito principal neste projeto é compartilhar como a TBFS pode ser usada para fazer uma diferença positiva na vida de pessoas que lidam com problemas crônicos de saúde e de desenvolvimento ao longo de toda a vida, e das suas famílias. É uma história que pode se somar à literatura atual sobre a TBFS, mostrando como a abordagem pode ser benéfica para pessoas que vivem com problemas complexos e de longa data. Além disso, a TBFS não deve ser vista apenas como uma “terapia breve”, e queremos compartilhar como a abordagem pode ser usada por um período mais longo e produzir resultados continuados.
MK: Desde que nasci, e até antes, tive muitos problemas de saúde. Nasci dez semanas prematura por complicações da gravidez, e senti dor quase todos os dias da minha vida, pelo menos desde que me lembro. Quando era muito pequena, tinha muitas dores de estômago, infecções de ouvido e dores de cabeça. Aos dez anos, as minhas dores de cabeça se tornaram insuportáveis, e me disseram que eu tinha enxaqueca. Os meus pais me levaram a vários médicos, mas nada parecia ajudar. Com o tempo, as enxaquecas se tornaram crônicas. Faltei muito à escola porque eram muito fortes. No fim da adolescência, desenvolvi dores muito fortes nas articulações, que dificultavam ser ativa. Antes disso, eu adorava andar de bicicleta e brincar ao ar livre. Mas a dor articular, combinada com as enxaquecas, tornou isso difícil. Acabei recebendo o diagnóstico de fibromialgia, e acontece que as pessoas com enxaqueca frequentemente têm fibromialgia também.
O problema de saúde mais assustador começou quando eu tinha 22 anos e encontrei um nódulo na lateral do seio. Tudo foi bem rápido depois disso. Fiz um ultrassom, uma mamografia, uma biópsia e depois uma ressonância da mama. Recebi o diagnóstico de uma forma agressiva de câncer. Três semanas depois do diagnóstico, comecei a quimioterapia, e fiz seis ciclos de quimio antes de uma mastectomia parcial. Precisei de uma segunda cirurgia, porque a primeira não deixou margem suficiente. Depois de me recuperar da cirurgia, comecei sete semanas de radioterapia diária. Quando terminou, veio mais quimioterapia. O tratamento durou dezoito meses.
Desde então, vivo com o medo de uma recidiva. O medo era tão forte, e tive tantos sustos, que há dois anos decidi fazer uma mastectomia dupla. Sinto-me muito bem com a decisão e não tenho arrependimentos. Também decidi fazer uma histerectomia no fim do ano passado, depois de desenvolver uma endometriose muito dolorosa há cerca de dezoito meses. Há outros problemas de saúde sobre os quais eu poderia escrever, como a dor óssea intensa que desenvolvi depois de receber uma das vacinas contra a Covid. Também estou constantemente cansada, tanto porque sentir dor é exaustivo quanto porque vários dos medicamentos que tomo causam fadiga.
KK: No fim de 2022, Maggie começou a pensar em voltar a ver um terapeuta. Ela havia consultado vários ao longo da vida, mas muitas vezes saía desanimada com alguns que não pareciam compreender até que ponto os seus desafios de desenvolvimento, os seus múltiplos problemas de saúde e a sua dor crônica afetam a sua vida. Maggie se sentia especialmente não ouvida quanto às suas lutas de saúde de toda uma vida, e por isso era extremamente importante para ela que qualquer futuro terapeuta apreciasse de verdade esses desafios.
Há muito tempo eu sentia que Maggie se beneficiaria de trabalhar com um terapeuta focado nas soluções, mas encontrar alguém com essa formação era difícil – mesmo no Wisconsin, berço da TBFS. Mas nesse período pós-Covid, com as reuniões virtuais tendo se tornado corriqueiras, já não estávamos limitados por fronteiras geográficas. Comecei a considerar os diversos praticantes focados nas soluções ao redor do mundo com quem eu poderia entrar em contato.
Eu conhecia David pelas suas funções no Journal of Solution Focused Practices e na Australasian Solution Focused Association. Tinha lido a sua biografia e assistido a um vídeo em que ele era entrevistado sobre o seu trabalho (Family Based Solutions, 2021). Fiquei impressionada com o que aprendi e notei especialmente a formação e a experiência de David como enfermeiro registrado que utiliza uma abordagem focada nas soluções. Então, com a permissão de Maggie, entrei em contato e perguntei a David se ele consideraria trabalhar com ela.
DH: Quando chegou o primeiro e-mail de Kate, o meu primeiro pensamento foi: “por que você passou por 10.000 praticantes de foco nas soluções perfeitamente bons e veio me procurar?” Eu não sabia quem era Kate, além de ser uma mãe, mas sabia que ela tinha algum conhecimento da TBFS. Só depois da primeira sessão me dei conta da história de Kate com o BFTC, e me pergunto se teria conduzido a primeira sessão de outro modo se soubesse disso.
O segundo e-mail de Kate chegou numa manhã de domingo (ver apêndice 1). Na primeira sessão, chamei esse e-mail de “o manifesto”. Kate reconhecia que as informações que fornecia seriam “bastante saturadas de problemas”, mas que era importante para Maggie que eu conhecesse boa parte da sua história. Kate também incluiu informações sobre as forças e a resiliência de Maggie, mas eu não levei isso muito em conta, pois fiquei completamente desnorteado com a longa lista de problemas que havia começado no útero e se acumulado ao longo de toda a sua vida. Passei o dia inteiro pensando nisso e, com o coração pesado e a cabeça zumbindo, o meu único pensamento era: “O que diabos eu posso fazer?” Carreguei isso comigo o dia todo.
Devo observar que, no meu outro trabalho, normalmente presto pouca atenção às informações de encaminhamento. Como terapeuta de TBFS, aprendi que não é preciso conhecer o problema para encontrar uma solução. Já constatei que o foco nas informações de encaminhamento muitas vezes me desvia de fazer terapia de sessão única (SST). Quanto mais me concentro na complexidade de uma situação, menos confiante fico em ajudar dentro de um quadro de sessão única, e isso afeta a condução da sessão.
Em algum ponto entre esse momento e a nossa primeira sessão, decidi que não havia nada que eu pudesse fazer, exceto me ater ao modelo. Kate havia sugerido a Maggie que experimentasse um terapeuta focado nas soluções. O que eu poderia fazer, senão oferecer-lhes uma sessão focada nas soluções e confiar que o modelo funciona?
KK: Com o meu conhecimento de fundo da TBFS, presumi que David não precisava conhecer muito da história de Maggie, mas Maggie tinha outras ideias. Era muito importante para ela que David conhecesse e apreciasse a natureza dos desafios de saúde que ela enfrentou.
Escrever o e-mail se revelou mais difícil do que eu previa. Não era que eu não conseguisse lembrar os acontecimentos ou os detalhes; era, antes, emocionalmente mais difícil do que eu esperava recordar e explicar as suas numerosas experiências. Refletindo agora, percebo que só incluí as lutas de saúde de Maggie, mas esqueci de mencionar os seus desafios de desenvolvimento e de escolaridade. Quando terminei a mensagem e a mostrei a Maggie para revisão, estava emocionalmente esgotada. Peguei-me pensando: se é assim que me sinto escrevendo sobre isso, como deve ser para Maggie viver isso?
DH: Lembro-me de me sentir esgotado quando li “o manifesto” pela primeira vez, mas ler as palavras de Kate acima (escritas quase um ano depois da nossa primeira consulta) coloca as coisas em perspectiva – eu apenas o lia, elas o viviam.
DH: Antes da primeira sessão, achei importante discutir o quadro da SST pelo qual eu me guiaria. Expliquei que, na minha carreira, só havia feito terapia breve e nunca havia atendido um cliente por mais de três sessões. Não colocaria necessariamente um limite de sessões, mas adotaria uma abordagem de “uma sessão de cada vez”, e Maggie poderia ter tantas sessões quantas quisesse, desde que as achasse úteis. Eu sabia que Maggie queria que os pais assistissem à sessão, mas quis esclarecer se seria a sessão de Maggie com o apoio deles, ou uma sessão familiar. Por fim, perguntei a Maggie se ela aceitaria refletir sobre algumas perguntas pré-sessão e trazer as suas reflexões à sessão:
A mudança pré-sessão é uma ideia discutida no início do desenvolvimento da TBFS (Weiner-Davis et al., 1987), que se revelou útil tanto antes da nossa primeira sessão quanto de várias sessões posteriores. Às vezes, quando Maggie escrevia para marcar a consulta seguinte, eu lhe pedia que pensasse sobre o que queria conversar e como conversar sobre isso seria útil. Essas perguntas também ajudaram a estabelecer um ponto de partida ou “projeto comum” (Korman, 2017).
A última coisa que pedi antes da sessão foi se Maggie (e a família) aceitariam que eu gravasse a sessão. Dadas as complexidades da vida de Maggie, pensei que, mesmo que eu não pudesse ajudá-la, ao menos poderia aprender com a experiência.
KK: Gostei de receber a mensagem de David com os esclarecimentos e as perguntas que ele propôs. Não sabia bem o que pensar do fato de David mencionar que normalmente atende clientes a curto prazo, mas fiquei tranquilizada com o seu comentário sobre não colocar limite ao número de sessões. Isso era coerente com a maneira como eu normalmente abordava o trabalho com clientes durante a minha carreira de terapeuta e agora no meu trabalho como coach.
Quando fui saber de Maggie, fiquei contente em ouvir que ela já estava pensando nas suas respostas às perguntas de David e que ia escrever as suas ideias para se preparar para a primeira sessão. Deixei por aí, pois tomei cuidado para não interferir. Fiquei feliz em ver, durante a sessão, que Maggie de fato havia escrito as suas ideias e estava contente em compartilhá-las com David.
DH: Como terapeuta predominantemente de sessão única, tenho a forte convicção de que, para muitas pessoas, uma sessão muitas vezes basta, independentemente da complexidade aparente do seu problema. Há alguns pressupostos importantes na SST (Talmon, 1990):
No entanto, como eu nunca tinha atendido um cliente com esse nível de complexidade, estava muito mais nervoso e muito menos confiante ao entrar na sessão do que normalmente estaria.
DH: De modo geral, tenho, sim, uma abordagem “típica” da primeira sessão (ou da sessão única), mas uma versão simples poderia se resumir a apenas duas perguntas:
Há apenas uma letra de diferença entre essas duas frases em inglês (for/from), mas são duas perguntas completamente diferentes. A primeira estabelece o que o cliente quer que aconteça na sessão, enquanto a segunda e as perguntas seguintes dizem respeito ao futuro preferido.
A primeira sessão com Maggie não foi a minha abordagem típica de sessão única, pois passei muito mais tempo construindo o vínculo e a relação, com uma boa dose de validação, de enfrentamento, de extração de algumas forças e recursos, e de discussão do que já estava funcionando. Isso também deu a Maggie tempo de sobra para me dizer sobre o que queria conversar, mas, sobretudo (como Maggie explicou mais tarde), Maggie começou imediatamente a sentir que alguém a estava ouvindo. Só me dei conta muito mais tarde do quanto isso era importante para ela.
Já estávamos com quase trinta minutos de sessão quando perguntei especificamente sobre as perguntas pré-sessão que eu havia enviado, na esperança de levar a conversa rumo às “melhores esperanças A PARTIR DESTA sessão” de Maggie. Maggie tirou uma folha de papel e começou a ler as suas respostas:
Primeira sessão
M: “Estratégias para lidar com náusea, tontura, vertigem, fadiga”
M: “Como funcionar estando com dor”
M: “Alcançar o objetivo de uma vida melhor”
D: “Gosto dessa”
M: “Conselhos de alguém que sabe”
D: “Sabe o quê?”
M: “Sabe o que significa estar com dor”
D: “Acho que sei do ponto de vista teórico, mas não vivi isso como você”
M: “Quero conseguir fazer confeitaria… [e] frequentar uma escola de culinária… um dia… se possível… mas isso é mais um objetivo de longo prazo”
D: “Então… por qual devemos começar hoje?”
M: “O equilíbrio entre tratamento e qualidade de vida… conseguir viver a vida… a questão da qualidade de vida é o que quero levantar… Não estou esperando milagres, só um progresso lento.”
Numa sessão, costumo anotar rapidamente as palavras ou expressões que o meu cliente usa, para poder usar as palavras exatas nas perguntas seguintes. Tento identificar palavras sobre forças, enfrentamento e futuro preferido, e não palavras orientadas para o problema. Várias palavras se destacaram aqui:
Prossegui com algumas perguntas sobre o que tinha ajudado, e como Maggie vinha lidando até então. Maggie novamente respondeu rápido:
Aos 43 minutos, tentei ser mais específico sobre como poderiam ser os primeiros passos:
Primeira sessão, minuto 43
D: “Se pudéssemos fazer algumas coisas, talvez estratégias de enfrentamento, e algo mudasse… e você começasse a caminhar para uma melhor qualidade de vida, ou algo ficasse um pouquinho melhor… qual você acha que seria a primeira coisa, ou as duas ou três primeiras coisas, que você notaria e que lhe diriam que está indo nessa direção? O que seria diferente?”
Maggie respondeu de imediato:
Embora eu não seja terapeuta de família, o meu chefe sempre enfatizou a importância de usar a família na terapia. Então me voltei para os dois elefantes na sala e pedi que compartilhassem as suas reflexões sobre momentos em que houve vislumbres dessas coisas no passado, ou sobre qual poderia ser o primeiro sinal em Maggie que lhes diria que ela está caminhando para um bom lugar. Eles responderam:
Já era quase o fim da sessão e eu estava consciente de não ter usado nenhuma pergunta técnica tradicional da abordagem. Pensei que uma pergunta de escala sobre a confiança se encaixaria bem, mas não fui muito longe. Maggie respondeu tão rápido, antes mesmo de eu montar a escala, que na verdade não fizemos uma escala no sentido tradicional da TBFS:
Primeira sessão, fim
D: “Mais uma pergunta rápida, quero perguntar sobre a sua confiança, o quanto você está confiante de que consegue caminhar para esse lugar melhor…?”
M (me interrompendo antes mesmo de eu mencionar a escala): “Sei que consigo… só que nem sempre tenho as ferramentas ou o conhecimento para saber qual é o próximo passo.”
Depois de fracassar na tentativa de escala, achei que era hora de encerrar:
Primeira sessão, encerramento
D: “Bem, tenho uma boa notícia e uma má notícia”
M: “Sim”
D: “A má notícia: não sei qual é o próximo passo. [Maggie ri.] Não sei como você consegue, e nem vou dizer que conheço alguma boa estratégia, vou ser absolutamente honesto com você. Mas a boa notícia é que fico feliz em tentar descobrir isso com você.”
M: “Parece bom”
Por fim, refleti que Maggie é a especialista, por ter “percorrido o caminho”, enquanto eu apenas li a história. No entanto, não pude deixar de dizer a Maggie que havia uma “aura de positividade” ao seu redor, que ela está sempre procurando “o lado bom”, que não consegue deixar de compartilhar, e que isso faz bem às pessoas ao seu redor.
Depois de uma breve discussão sobre as opções para as próximas consultas, Maggie e eu compartilhamos os nossos planos para a semana seguinte, e combinamos que trocaríamos fotos de algo agradável que fizéssemos antes do próximo encontro (essencialmente, isso era ao mesmo tempo uma tarefa de casa e uma forma de fortalecer a relação). A literatura focada nas soluções dos primórdios falava de “tarefas” (Durrant, 2024) e, embora as abordagens mais contemporâneas descartem a prescrição de tarefas (como explica McKergow, 2016), ainda acho que isso pode ser uma ferramenta poderosa no contexto certo. Observe-se que a tarefa era me avisar por e-mail de algo agradável que ela tivesse feito antes da sessão seguinte, mas fora isso não fui específico sobre o que fazer. Encerrei dizendo que estava ansioso para ouvir sobre a semana seguinte, numa tentativa de comunicar a minha crença na competência e no comprometimento de Maggie.
DH: Fiquei um pouco atônito depois da primeira sessão. Não achava que nada do que eu tinha feito fosse especial; na verdade, fiquei bastante decepcionado com o meu desempenho. Assistir ao vídeo mais tarde não mudou a minha opinião, e me perguntei se alguém que assistisse consideraria sequer que a sessão era TBFS. Lembro-me do sentimento de admiração que tinha por Maggie. Depois de ler o “manifesto” de Kate, eu tinha ficado com o coração pesado, mas agora estava simplesmente impressionado com as realizações, a resiliência e o otimismo de Maggie.
No estilo típico da SST, eu normalmente deixaria o cliente decidir se queria outra sessão. Maggie quis conversar de novo em uma semana. A SST me diria para confiar no processo e ter confiança de que muita coisa pode acontecer numa só sessão, mas eu ainda estava nervoso com o que aconteceria.
Maggie deu continuidade à sessão me enviando um link para o seu programa de TV favorito, Taskmaster, assim como a letra de uma canção que significava muito para ela. Respondi enviando a Maggie uma foto de umas pizzas que assei depois da nossa sessão.
KK: Como mãe, tanto durante a sessão quanto depois, senti otimismo e esperança. Foi bastante emocionante, na verdade, vivenciar a consideração positiva incondicional que David transmitia a Maggie, e o reconhecimento que ele demonstrava pelo que a nossa família viveu ao longo da vida de Maggie.
Quando Maggie disse que era importante para ela conversar com alguém que “entendesse” os seus problemas médicos, o que ela queria dizer era alguém que, com base em ao menos alguma formação médica, apreciasse de verdade as implicações dos seus múltiplos problemas de saúde. Ficou claro em poucos minutos de conversa com David que ele entendia. Mais ou menos na metade da sessão, ele voltou ao e-mail que eu lhe enviara explicando a história de Maggie e compartilhou como se sentiu ao lê-lo. Refletiu sobre a capacidade de Maggie de ter uma visão positiva apesar de tudo o que passou. Perguntou como ela conseguiu permanecer positiva diante dos desafios significativos que enfrentou. Os comentários de David e essa pergunta comunicaram uma validação poderosa da experiência de Maggie, sobre a qual ela comentou depois com Steve e comigo. Receber esse reconhecimento significou muito para ela.
Logo depois da sessão, Steve, Maggie e eu nos reunimos na cozinha para refletir sobre como achávamos que tinha sido. Maggie sorria e comentou que gostava muito de David. Disse que sentia que ele a entendia, e que podia confiar nele. Aqueceu o meu coração ouvir isso e me deu esperança. Esperança de quê? Talvez de que a experiência que Maggie tem de si mesma pudesse começar a se expandir para incluir elementos além de ser autista, sobrevivente de câncer, uma pessoa com muitos problemas de saúde e uma jovem que vive com dor crônica diária.
DH: Só soube disso muito mais tarde, mas logo depois da sessão Maggie saiu do quarto e foi conversar com os pais na cozinha! Mal sabíamos que aquilo era um sinal do que viria.
27 de fevereiro, e-mail de Kate para David
Olá, David,
Espero não estar passando dos limites ao escrever separadamente de Maggie. Só queria dizer o quanto apreciei a maneira como você estruturou a conversa hoje e o quanto sou grata pela sua disposição em trabalhar com Maggie. Adorei a sua abordagem e fiquei realmente encantada e tocada com as respostas de Maggie. A sua validação da experiência dela e o foco em pequenos passos eram exatamente o que ela precisava.
Obrigada!
KK: Como Maggie, Steve e eu experimentamos ambos um sentimento de validação. Isso aconteceu tanto durante a primeira sessão quanto depois, com uma tarefa e algumas perguntas que David nos pediu para discutir (apêndice 2). Isso foi especialmente significativo para mim, como principal cuidadora de Maggie. É claro que cuido de Maggie de bom grado, por amor profundo e gratidão pela sua presença nas nossas vidas. Ainda assim, às vezes pode ser mental e emocionalmente exaustivo. Entre agendar e levar Maggie às consultas, ajudar a administrar os seus medicamentos, lidar com o nosso seguro e resolver os frequentes problemas que surgem com tudo isso, passo muitas horas por semana cuidando dos muitos aspectos práticos dos seus cuidados. Também passo um tempo todos os dias resolvendo problemas com Maggie, enquanto ela enfrenta o desafio daquele dia. Não são atividades normalmente reconhecidas ou apreciadas pelos profissionais que consultamos. Assim, ter David claramente nos “vendo”, a nós e ao impacto dos desafios de Maggie na nossa família, foi bastante poderoso. Outra coisa que tornou esse reconhecimento tão profundo foi que, na verdade, não falamos de nada disso durante a sessão. David simplesmente viu. Assim como Maggie se sentiu vista, ouvida e reconhecida, Steve e eu também nos sentimos.
Então, que diferença essa validação fez? Por um lado, me deu nova energia para continuar. Também ajudou a diminuir as perguntas persistentes, ou a culpa, que carrego sobre se fiz o suficiente ou estou fazendo o suficiente para apoiar Maggie. Essas perguntas pesam sobre mim às vezes, então um pouco de alívio foi muito bem-vindo.
DH: Se eu fosse um terapeuta de TBFS e de família mais esperto, talvez tivesse chamado a minha sugestão de “tarefa de casa” e dito que a fiz deliberadamente. Infelizmente, não sou tão esperto. Enquanto tentava validar as suas experiências e os seus sucessos como família, na hora não me dei conta do impacto profundo que isso teria em toda a família.
DH: Não sou muito bom em segundas sessões, principalmente porque não faço muitas.
Costuma-se dizer que se abre a segunda sessão com algo como: “O que está melhor desde o nosso último encontro?”. Tenho certeza de que o meu mentor Michael Durrant (Durrant, 2024) teria ficado bastante decepcionado com a minha abertura patética, que foi assim:
Segunda sessão, abertura
D: “Bom, eu tive uma boa semana, não sei quanto a vocês, então, o que você andou fazendo, Maggie?”
M: “Hum, não muita coisa… só ficando no computador… eu acho, embora eu não me lembre da maioria das semanas.”
Na hora, eu não sabia que “Hum, não muita coisa” era um enorme eufemismo, mas as melhores informações só saíram depois que a segunda sessão terminou e eu parei a gravação. Como a segunda sessão poderia ter sido diferente se eu tivesse começado perguntando a Maggie uma versão de “O que está melhor?”, e depois perguntado a Kate e Steve o que eles tinham notado?
Depois de um constrangimento inicial, perguntei a Maggie sobre a tarefa de casa que havíamos combinado, mas Maggie disse que não conseguia lembrar o que era. Mais constrangimento.
Eu tinha vindo a essa sessão com a minha própria agenda de fazer uma segunda sessão de TBFS. Maggie tinha vindo à sessão querendo me falar das suas “teorias da dor”, mas eu não lhe tinha perguntado sobre o que queria conversar. Foi desconfortável para mim me afastar do que havia planejado, mas, em retrospecto, isso era na verdade dar a Maggie o que ela queria, isto é, as suas melhores esperanças PARA ESTA sessão eram encontrar sentido na sua experiência de dor. No entanto, dentro disso, ainda consegui anotar certas palavras e ideias a desenvolver, e isso levou às suas melhores esperanças A PARTIR DESTA sessão:
Maggie também identificou alguns objetivos de médio e longo prazo:
Embora eu não tivesse percebido que Maggie já havia começado a passar significativamente mais tempo fora do quarto, ninguém teria previsto que, em doze meses, Maggie faria três viagens de carro ao Wisconsin, a doze horas de estrada.
KK: Continuei impressionada com o estilo conversacional envolvente de David. Ele transmite um interesse genuíno, o que parece tornar fácil para Maggie responder às suas perguntas. Como mãe, uma das coisas que me chamaram a atenção nessa sessão foi, de novo, o quanto Maggie estava relaxada e à vontade com David. Foi maravilhoso vê-la tão aberta em compartilhar as suas experiências, esperanças e perspectivas. Lembro-me de pensar que a abordagem e a postura de David pareciam tocar um lado muito reflexivo, forte e resiliente de Maggie. É uma parte dela que sabemos que existe, mas que muitas vezes fica escondida pelos desafios diários que ela enfrenta. Foi realmente comovente.
Lembro-me também de me sentir extremamente grata pela aceitação e pela apreciação de David em relação ao foco de Maggie em pequenos objetivos. Por exemplo, o seu objetivo de passar algumas horas por dia fora da segurança e do abrigo da sua cama. Seria fácil para um terapeuta subestimar ou minimizar o significado disso, mas David reconheceu o quanto esse objetivo era significativo para Maggie. Como mãe, fiquei emocionada ao ouvir Maggie dizer: “O objetivo é parar de ver a minha cama como o meu único lugar seguro.” Foi uma enorme revelação.
Era fácil ver o valor do foco de David em objetivos pequenos e administráveis com Maggie, e como isso claramente ressoava nela. Parecia ajudá-la a ver além da situação atual e a considerar novas possibilidades. Essa abordagem é coerente com o que Valusek (2021) descreve no seu trabalho focado nas soluções de apoio a pessoas que vivem com dor crônica. Ao se concentrar em pequenos passos, dia após dia, elas progridem gradualmente rumo a um futuro pelo qual vale a pena viver, apesar da dor crônica.
David mencionou um certo constrangimento no início da sessão, e eu também o senti. Muitas vezes é difícil para Maggie lembrar o que aconteceu entre as sessões, especialmente as diferenças do dia a dia nas suas atividades ou no seu humor. Por isso, ela tende a responder às perguntas sobre como está a partir de uma perspectiva do momento presente. Isso pode criar uma desconexão. Lembro-me de não saber como reagir, pois eu conhecia as mudanças pequenas mas significativas (por exemplo: interagir com a nossa família fora do quarto, falar de outras coisas além da sua dor etc.) que haviam ocorrido desde que ela vira David pela última vez. Mas como aquela era a sessão de Maggie, e eu estava ali como observadora, decidi esperar e ver como a conversa evoluiria.
Durante essa sessão, como em outras, muitas vezes me peguei alternando a minha perspectiva entre o meu papel de mãe de Maggie e o de praticante focada nas soluções. Tem sido fascinante transitar entre esses pontos de vista diferentes, embora os dois não sejam totalmente desconectados. A minha formação e a minha prática de foco nas soluções aconteceram antes de eu ter filhos, então não há dúvida de que as ideias do foco nas soluções influenciaram a minha maneira de ser mãe e continuam a influenciar. Ainda assim, para os nossos propósitos aqui, acho útil separar as duas perspectivas.
Houve alguns momentos da sessão em que, com o meu chapéu de praticante de foco nas soluções, eu teria feito perguntas diferentes ou respondido de outra maneira a algumas afirmações de Maggie. Por exemplo, quando Maggie falou de “pedras de passagem” e David perguntou:
Segunda sessão
D: “Pedras de passagem para onde?”
M: “O outro lado do rio.… Tenho muitos pequenos objetivos, e isso é mais fácil do que um grande objetivo”
Eu poderia ter perguntado: “O que há do outro lado do rio?”, para ver se isso poderia dar corpo a algumas das melhores esperanças de Maggie ou a elementos do seu futuro preferido. Dito isso, a pergunta de David, “Você está confiante de que consegue?”, revelou-se frutífera, com Maggie respondendo: “Sei que consigo, só vai me levar um tempinho.”
Com isso, eu poderia ter perguntado a Maggie o que ela sabe sobre si mesma que lhe permite estar tão confiante de que consegue. Isso poderia ter aberto espaço para ela falar de realizações anteriores ou de outras possíveis exceções ou recursos. Dito isso, a continuação de David foi produtiva, especialmente a sua pergunta sobre que diferença faria para Maggie se ela começasse a passar tempo fora do quarto.
Segunda sessão
D: “Então, qual é o objetivo de sair para a sala de estar ou para outro espaço?”
M: “Só não estar na minha cama é o objetivo… mesmo que seja na minha escrivaninha ou algo assim”
D: “E o que você faria [quando estivesse] em outro cômodo?”
M: “Eu faria exatamente a mesma coisa que sempre faço no computador. Não mudaria o que faço, só mudaria de lugar. O objetivo é parar de ver a minha cama como o meu único lugar seguro.”
D: “E que diferença isso faria para você, Maggie, se começasse a se espalhar por outros espaços?”
M: “Espero que me deixe mais feliz, só de estar um pouco mais por aí com a minha família, e que melhore o meu humor e, sei lá, já fico bastante no meu quarto.”
Ao escrever isto, lembro-me das inúmeras vezes em que ouvi a equipe do BFTC observar que parte do valor de assistir a diferentes terapeutas usando a abordagem focada nas soluções é ver que não há uma única maneira certa de fazer terapia focada nas soluções. Ela pode parecer diferente e ainda ser focada nas soluções. Steve de Shazer comenta isso na introdução do seu livro Clues: Investigating Solutions in Brief Therapy (1988), em relação aos membros da equipe do BFTC na época: “Quando se olham as entrevistas pela primeira vez, são as diferenças que se destacam. Cada membro da equipe do BFTC tem um estilo diferente e uma maneira diferente de implementar o modelo.” Ele então comenta os estilos únicos de entrevista de Eve Lipchik, Insoo Kim Berg, Elam Nunnally, Wally Gingerich, Ron Kral, de mim e dele mesmo. E conclui: “E, no entanto, cada membro da equipe dirá que estamos fazendo a mesma coisa!”
Não há intenção (nem espaço) de resumir todas as dezessete sessões; em vez disso, consideraremos alguns temas-chave.
Durante grande parte das sessões 3 a 17, a conversa se alinhou naturalmente ao acrônimo E.A.R.S. – Elicit, Amplify, Reflect (eliciar, amplificar, refletir; Turnell & Hopwood, 1994). Por vezes, Maggie tinha dificuldade em lembrar o que havia acontecido entre as sessões, o que dificultava eliciar a mudança. Kate e Steve, porém, não demoravam a intervir (quando convidados) para compartilhar as suas perspectivas. Era importante abrir com perguntas pressuposicionais, para garantir que a conversa eliciasse o que estava funcionando, e não o que não estava. Assim que uma mudança era eliciada, era um processo simples esclarecer, amplificar e refletir.
DH: Repito que não sou terapeuta de família e prefiro trabalhar individualmente com o cliente, sem a família presente. Embora o cliente sempre tenha a opção de ter uma pessoa de apoio presente, eu sempre esclareço o papel dela (por exemplo, observador, apoio emocional, participante etc.). Essas sessões destacaram o papel importante da família e como podemos usar a sua presença como recurso, tanto dentro quanto entre as sessões. Maggie insistiu em ter os pais presentes, mas todos concordaram que era principalmente para ajudar na comunicação, isto é, Maggie afirmou que às vezes não consegue se explicar muito bem. Eu viria a descobrir que Kate e Steve eram recursos valiosos para lembrar a Maggie o que havia acontecido entre as sessões.
Embora fosse prático ter Kate nas sessões, com o seu conhecimento da TBFS, tenho certeza de que a capacidade natural de Maggie de ver o positivo pode ser atribuída à criação que teve com uma mãe focada nas soluções.
KK: Fiquei impressionada e satisfeita por David, ao preparar o seu trabalho com Maggie, ter esclarecido o papel que Maggie queria que Steve e eu desempenhássemos nas sessões. Era importante para todos nós ter um entendimento mútuo sobre se funcionaríamos como participantes plenos das sessões ou como observadores que ocasionalmente seriam convidados a comentar. Maggie foi clara em que queria que as sessões fossem dela, mas com Steve e eu presentes, e a exploração adicional de David sobre os detalhes transmitiu a sua intenção de respeitar e honrar os desejos de Maggie. Era igualmente importante para Steve e para mim saber qual seria, e qual não seria, o nosso papel.
Devo admitir que às vezes foi difícil ser apenas observadora. Houve momentos em que, como mãe, fiquei tentada a intervir para desenvolver ou esclarecer algo que Maggie tinha dito. Houve outros momentos em que, como praticante de TBFS, fiquei tentada a intervir para fazer uma pergunta a Maggie. Mas, na maior parte do tempo, foi fascinante e poderoso me recostar e observar um terapeuta experiente focado nas soluções em ação, e testemunhar o impacto positivo que isso parecia ter para Maggie. Nós a ouvimos dizer coisas sobre si mesma, relacionadas ao seu senso de competência, resiliência, determinação e força interior, que não ouvimos com frequência no curso da vida cotidiana. Foi, por vezes, ao mesmo tempo comovente e reconfortante.
DH: Perto do fim da quarta sessão, Maggie falou da sua jornada pelo câncer de mama e disse que havia discutido isso com um conselheiro anterior, mas ficara com a impressão de que ele não entendia o que ela havia passado. Eu tinha me esforçado ao máximo para não mergulhar nos problemas, mas comecei a me preocupar que, ao fazê-lo, pudesse estar invalidando as suas experiências. Maggie perguntou se poderíamos dedicar a sessão seguinte a falar mais da jornada pelo câncer. Para preparar isso, Maggie me enviou um link para a sua página no site Caring Bridge, um diário on-line com fotos que documentava a sua jornada.
A quinta sessão foi em grande parte ouvir a história do câncer de Maggie, mas era o que Maggie queria PARA a sessão. Abri a sessão explorando as melhores esperanças de Maggie A PARTIR DA sessão. Ela foi muito clara: se se sentisse ouvida, poderia então seguir em frente. Eu sabia que precisava haver um equilíbrio entre ouvir e reconhecer o ruim, e destacar as forças e as conquistas.
17 de abril, e-mail de Kate para David
Olá, David,
Obrigada por mais uma conversa útil. Fui saber de Maggie cerca de uma hora depois da nossa sessão, e ela disse que se sentia esgotada, mas bem. Perguntei se havia algo em particular que ela esperava tirar das conversas sobre a sua jornada pelo câncer, e a resposta de Maggie foi “encerramento”.… ela só disse que foi útil falar sobre isso e se sentir ouvida.
KK: Não me lembro exatamente de como formulei, mas mencionei a David a fadiga emocional que carregamos por saber que o futuro de Maggie provavelmente continuará a envolver outros desafios de saúde e reveses. A minha impressão é que todos nós oscilamos entre preocupação, aceitação, frustração, resignação e determinação. Vivemos dia a dia com o conhecimento, e às vezes o medo, dos desafios adicionais que surgirão.
Lembro-me também de ter compartilhado com David uma analogia em que penso com frequência nos momentos em que Maggie desanima. Imagino um boxeador que, ao longo de uma luta, é derrubado várias vezes. A cada vez, o boxeador se levanta, no início rapidamente, mas depois de um tempo, e com mais golpes, leva cada vez mais tempo. A cada queda, o desafio se torna maior. É isso que vivemos com Maggie ao longo dos anos.
DH: Foi questão de dias até o revés seguinte. Na sexta sessão, me disseram que Maggie acabara de fazer uma biópsia de um cisto no ovário, e havia a preocupação de que pudesse ser um novo câncer. Os resultados só sairiam em duas semanas. Foi, mais uma vez, uma sessão pesada, mas desta vez seguida de uma espera nervosa.
Dez dias depois, recebi um e-mail que dizia simplesmente “Sem câncer”, mas isso não foi o fim.
KK: Em consequência desse susto, junto com dores significativas de endometriose, Maggie decidiu fazer uma histerectomia, para que houvesse menos chance de um câncer se desenvolver no futuro. Foi uma grande decisão e um momento difícil. A partir do diagnóstico original de câncer de mama em 2017, Maggie perdeu qualquer senso de invencibilidade que tantos jovens têm. Para ela, esse senso já era tênue, por causa dos numerosos outros desafios de desenvolvimento e de saúde que havia enfrentado antes. O diagnóstico de câncer o eliminou.
Assim, enquanto para a maioria das jovens ter cistos ovarianos pode ser um incômodo desconfortável, para Maggie pareceu uma crise grave. A sua mente, e a nossa, foram imediatamente se perguntar se poderia ser uma recidiva metastática do câncer de mama, já que o tipo de câncer de mama que Maggie teve tem uma taxa de recidiva mais alta do que outros. Diante disso, não era um medo irreal.
DH: Eu sabia que Maggie já havia feito uma mastectomia dupla eletiva, então tinha esperança de poder me concentrar na sua conquista de ter passado por isso, e usar essa experiência para ajudá-la a atravessar a cirurgia seguinte. No entanto, havia alguns fatores adicionais numa histerectomia, incluindo a infertilidade resultante, sobre a qual Maggie queria falar. Embora a nossa conversa parecesse um luto, ela desenvolveu em Maggie um senso de clareza. O seu foco logo se deslocou para ficar em forma e atravessar a cirurgia. As sessões seguintes foram menos sobre “qual será o primeiro sinal para você de que está se preparando”, e mais, predominantemente, conversas sobre o que Maggie andava fazendo desde a última sessão. Durante esse período, não disse a Maggie para fazer nada. Em vez disso, era Maggie quem de fato tomava a iniciativa de objetivos e atividades, incluindo perder peso, se exercitar mais, mudar a alimentação e estabilizar o diabetes. Maggie também estava se tornando mais natural na sua capacidade de me contar o que andava fazendo (e por quê), em vez de me deixar tentar extrair as informações dela. Maggie estava encontrando ao mesmo tempo a sua voz e a sua autonomia. Só posso me perguntar se ela estava, consciente ou inconscientemente, mais atenta às perguntas que eu faria.
A cirurgia de Maggie foi um sucesso, e ela estava em casa para celebrar o Natal com a família.
KK: David tem um jeito naturalmente relaxado, que é muito calmante e tranquilizador. Fiquei impressionada com a maneira como ele entrelaçava as perguntas focadas nas soluções nas sessões, de um modo que parecia bastante autêntico e genuíno. Em várias ocasiões, ele antecedeu as suas perguntas com afirmações que transmitiam compaixão pelo que estava aprendendo sobre Maggie, e admiração. Isso tornava as perguntas relacionadas ao enfrentamento de Maggie, à sua capacidade de permanecer positiva ou à sua determinação ainda mais poderosas e significativas.
Uma das muitas coisas que apreciei no meu tempo no BFTC foi que, ao ensinar a abordagem, a equipe enunciava claramente os pressupostos subjacentes que serviam de fundamento ao trabalho focado nas soluções. Eve Lipchik faz isso lindamente no seu livro Beyond Technique in Solution-Focused Therapy (2002), onde expõe uma série de pressupostos orientadores. Notei que David empregou muitos deles no seu trabalho com Maggie:
Uma das coisas que me chamaram a atenção na interação de David com Maggie foi que parecia uma conversa genuína. Não era simplesmente David fazendo uma série de perguntas de foco nas soluções ou empregando técnicas sem nada no meio. Ao contrário, as perguntas que David fazia estavam cercadas e embutidas numa postura e numa mentalidade mais amplas de foco nas soluções, coerentes com os pressupostos articulados por Lipchik. Para mim, isso é sinal de um praticante habilidoso, que está à vontade com a abordagem e é capaz de usá-la de maneira autêntica.
O que aprendi, e ainda estou aprendendo, é a levar as coisas no ritmo de Maggie. Entre a sua dor crônica e o autismo (que, para Maggie, envolve numerosos desafios sensoriais, problemas de memória e velocidade de processamento mais lenta), o seu ritmo é bem diferente do meu. De muitas maneiras, isso não é diferente do trabalho de um terapeuta ou coach com os clientes, em que o ritmo (isto é, caminhar ao lado do cliente em vez de conduzir ou empurrar) é uma parte tão importante, mas muitas vezes subestimada, do processo. David parecia ter uma capacidade natural de trabalhar no ritmo de Maggie, e no entanto suspeito que o que eu via era muito diferente do seu trabalho na emergência ou na terapia de sessão única. Nesse aspecto, foi mais um exemplo de adaptação da abordagem ao que Maggie precisava.
DH: Para Maggie, era importante se sentir ouvida, especialmente dada a sua experiência anterior com aconselhamento, na qual sentiu que não havia sido ouvida. Confiança, empatia e validação se revelaram todas importantes para Maggie, assim como avançar no ritmo em que ela se sentia à vontade. Então, como Kate identificou, essas conversas foram menos sobre “fazer TBFS” e mais sobre ter conversas úteis baseadas nos princípios da TBFS. Depois de dezessete sessões, só conseguimos uma pergunta de escala completa, e nem me passou pela cabeça fazer algo parecido com a pergunta do milagre.
DH: Sempre me interessei pela maneira como uma abordagem focada nas soluções se alinha aos princípios centrais da enfermagem (McAllister, 2007; Smith, 2021; Wand, 2010; Webster et al., 1995). A relação enfermeiro-paciente é construída sobre os fundamentos da confiança e do respeito mútuos, da promoção da autoeficácia e da autonomia dos clientes, do foco nas forças e de uma abordagem pragmática. Michael Durrant me disse uma vez que os enfermeiros são os profissionais mais pragmáticos que ele conhece.
Hildegard Peplau foi a primeira enfermeira a escrever sobre a relação terapêutica, na sua teoria das relações interpessoais (Peplau, 1952), seguida por outras, incluindo Joyce Travelbee (1969). O meu primeiro olhar sobre a relação terapêutica começou em 1993, durante o meu primeiro ano de formação em enfermagem, quando li um manual de Arnold e Boggs (1989). Esse livro não só destaca a importância da relação terapêutica, como descobri mais tarde como ele se alinha a uma abordagem focada nas soluções, incluindo:
Durrant (2024) identifica corretamente que a relação terapêutica é um ingrediente essencial dos desfechos terapêuticos bem-sucedidos, mas que a literatura focada nas soluções não enfatizou a sua importância. Uma exceção notável aqui é Eve Lipchik, uma das poucas que escreveu extensamente sobre a importância da relação terapeuta/cliente (Lipchik, 2002, 2017). Lipchik afirmou que a primeira equipe de Milwaukee não falava explicitamente da relação terapêutica porque, de uma perspectiva interacional/sistêmica, considerava óbvio que a conexão entre cliente e terapeuta era importante. Foi a própria Lipchik quem decidiu escrever explicitamente sobre a relação terapêutica, porque não queria que os terapeutas de foco nas soluções pensassem que ela não era importante (comunicação pessoal a KK, 6 de setembro de 2024).
Recentemente, o Australian Institute of Family Studies, com a ajuda do praticante de TBFS Will Dobud, publicou uma síntese concisa da importância da relação terapêutica (MacDonald & Dobud, 2024). No processo terapêutico aqui descrito, muito tempo e ênfase foram dedicados à relação. Maggie expressou que, por meio dela:
Maggie identificou que essas coisas a ajudaram a desenvolver a sensação de que era capaz de “atravessar” os problemas e de avançar na direção que queria (isto é, competência e capacidade). Mas, independentemente do que eu pense sobre isso, para Maggie uma relação construída sobre confiança e conexão foi uma das coisas mais importantes.
KK: O foco de David na relação terapêutica foi especialmente relevante porque Maggie indicou desde cedo que era importante para ela se sentir ouvida e respeitada. Desde o início, ela expressou que era crucial sentir que David a “entendia”, valorizava a sua perspectiva, a levava a sério e apreciava as suas lutas. Se David tivesse simplesmente feito uma série de perguntas de foco nas soluções sem construir uma relação nem transmitir apreço pela experiência de vida de Maggie, tenho certeza de que os resultados não teriam sido tão positivos.
Maggie tem visto David aproximadamente uma vez por mês, mas claramente pensa nas suas conversas entre as sessões. Ela se comunicou muitas vezes entre as sessões enviando a David e-mails com fotos ou descrições de atividades em que estava envolvida, ou até letras de canções que achou significativas. É claro que Maggie sente uma conexão com David e confiança nele, o que parece indicar uma relação terapêutica forte. Eve Lipchik escreveu que “o fundamento das relações terapeuta-cliente, independentemente da orientação, é a confiança” (2002, p. 25-26). A confiança é especialmente importante para Maggie, sobretudo à luz de algumas das suas experiências anteriores insatisfatórias em terapia. Se os clínicos se perguntam se é possível, e importante, se preocupar com a relação terapêutica e ainda assim ser focado nas soluções, a minha resposta seria um sonoro “sim”.
De Shazer (1991) descreveu a relação terapêutica como um “empreendimento negociado, consensual e cooperativo” centrado na identificação de exceções, objetivos e soluções. Ele prossegue dizendo que “tudo isso é negociado e produzido enquanto terapeutas e clientes se mal-entendem juntos, dão sentido e significado a acontecimentos, sentimentos e relações de outro modo ambíguos” (1991, p. 74). Embora ele não aborde abertamente a questão da confiança como Lipchik faz, poderia-se argumentar que o que de Shazer descreveu exigiria um nível de confiança da parte do cliente para que a terapia fosse útil. Mais recentemente, Burns (2024) afirma que empatia e confiança são ingredientes críticos de qualquer conversa de ajuda: “Na minha experiência de trabalho com grupos marginalizados e com aqueles que são rejeitados pela sociedade em geral, a empatia e a construção de relações… são ingredientes vitais.… a empatia foi o ingrediente mágico que derrubou barreiras, estabeleceu confiança e abriu conversas profundas e sagradas” (2024, p. 149).
DH: Esta seção foi concluída numa reunião de balanço com Maggie, Kate e Steve, dois meses depois da nossa décima sétima sessão. Não quis presumir e descrever as conquistas a partir da minha perspectiva, assim como não quero prescrever esperanças, direções e instruções.
Maggie descreve como a sua maior conquista a decisão de fazer uma histerectomia eletiva. Foi obviamente uma decisão bem ponderada, na qual ela pesou as suas opções, especialmente o seu sonho de um dia ser mãe. Em segundo lugar, Maggie tem orgulho da sua maior capacidade de lidar com a dor crônica de modo a minimizar o impacto dela na sua vida. Isso incluiu uma nova compreensão dos seus limites, um conhecimento maior das causas da dor e a experimentação de analgésicos para controlar melhor a dor e limitar efeitos colaterais como a sedação.
Maggie resumiu as suas conquistas refletindo sobre as maneiras pelas quais conseguiu “reconstruir a minha vida”. Num sentido prático e visível, notei muitas coisas em relação aos primeiros objetivos de Maggie de passar mais tempo fora do quarto, ser mais ativa e viajar para mais longe de casa. Maggie também adotou novos hobbies e ampliou as suas habilidades culinárias.
Steve descreve as coisas num nível mais profundo, dividindo na verdade as conquistas de Maggie em duas áreas distintas mas interligadas. Embora muitas das mudanças de comportamento sejam evidentes, ele nota mudanças num nível pessoal mais profundo. Maggie tem um desejo maior de compreender um diagnóstico; no entanto, essa compreensão maior traz na verdade menos foco no diagnóstico e mais autodefesa. Ela tem uma capacidade maior de pensar além do problema, e um desejo mais forte de avançar na direção em que quer ir. Steve nota também que Maggie ampliou o seu mundo de maneiras deliberadas, por exemplo, usando habilidades e conhecimentos (como a confeitaria) para ampliar o seu mundo social (conhecer pessoas).
KK: Entre as sessões, Steve e eu notamos várias mudanças em Maggie. Por um lado, ela começava gradualmente a passar mais tempo fora do quarto. Por muito tempo, Maggie reclamava de não gostar dos móveis da nossa sala, porque os achava desconfortáveis para se sentar, dadas as suas dores no corpo e nas articulações. Ela perguntou se consideraríamos comprar uma poltrona especificamente para ela, que ela pudesse escolher. Compramos, e isso definitivamente fez diferença na quantidade de tempo que Maggie passava fora do quarto.
Maggie também pedia com mais frequência para sair, às vezes ao supermercado, à feira de produtores, à biblioteca, ou a um dos vários brechós que ela e eu gostamos de explorar. Voltou a fazer confeitaria e começou a preparar várias receitas à base de vegetais que queria experimentar.
Nos meses de clima agradável, quando estava quente o bastante para ficar ao ar livre, a nossa família passou muitas noites do último ano no nosso pátio jogando jogos de tabuleiro, ouvindo música e conversando. Foi mais um sinal de progresso.
O que foi particularmente bom nesses desenvolvimentos, e em outros, é que eles ofereceram a oportunidade de passar um tempo agradável com Maggie como pessoa, e não como paciente. Conversávamos sobre assuntos além da sua saúde, e simplesmente aproveitávamos estar juntos. Não era que Maggie já não sentisse dor. Ela parecia, antes, estar decidindo não deixar a dor atrapalhar a sua vida. Ela até comentou ocasionalmente que havia decidido “engolir o choro” e fazer o que queria fazer.
O progresso máximo foram as três viagens de carro ao Wisconsin no último ano. Temos lá muitos amigos queridos e familiares que são muito importantes para nós, especialmente a nossa filha mais nova. Maggie decidiu que faria o que fosse preciso para conseguir aguentar as doze horas de carro para vê-los. Viajar não é fácil para Maggie, mas ela se conhece bem e planejou meticulosamente o que precisava fazer para tornar as viagens o mais confortáveis possível. E conseguiu!
DH: Na nossa décima quarta sessão, pedi a Maggie que refletisse sobre o seu progresso e considerasse o que havia sido útil nos onze meses anteriores. Maggie disse que foi realmente útil ter alguém que entendesse os seus problemas, especialmente todas as coisas médicas, e que eu era capaz de lhe dizer o que fazer.
Décima quarta sessão
D: “Desculpe decepcionar você, Maggie, mas acho que devo ser honesto. Eu realmente não entendo a maioria das coisas de que você tem falado. Não entendo de câncer, não entendo de dor crônica, também não entendo de problemas ginecológicos. Mas o que eu consigo entender, ou pelo menos tentar entender, é como essas coisas afetam a sua vida.”
M: “Tá, mas eu só me dou conta, quando falo com você, de que já tenho as respostas, ou pedaços da resposta, e você me ajuda a ver isso.”
DH: O progresso de Maggie foi bastante notável, e de muitas maneiras os e-mails seguintes bastam para resumir a jornada:
19 de fevereiro, e-mails entre Kate e David (relativos à redação deste artigo)
Olá, David,
Que bom ter notícias suas, e obrigada pela atualização… Agradeço por dar orientações e sugestões sobre o artigo, então continue mandando, e eu continuarei avançando. Encontrar blocos de tempo tem sido um pouco difícil ultimamente. Maggie está melhor, o que é obviamente ótimo, mas isso significa que ela quer passar mais tempo fora de casa ou fazendo coisas juntas em casa. Por um lado, adoro isso e estou encantada por ela querer sair do quarto. Por outro, significa que tenho menos tempo para me concentrar nos meus projetos. Ainda assim, tenho esperança quanto ao nosso prazo de meio de ano.
Tenha uma boa semana!
Kate
—
Então você é vítima do sucesso de Maggie? Adorei!
David
—
Sim… bastante irônico, não é?!
Kate
Este estudo de caso mostra um exemplo de como a TBFS foi usada em dezessete sessões ao longo de dezesseis meses para ajudar uma pessoa com uma história médica complicada e necessidades para toda a vida. Os autores acreditam que a TBFS deve ser construída sobre um fundamento de confiança e uma relação terapêutica forte. A abordagem também deve ser flexível e adaptada às necessidades e capacidades do indivíduo (cognitivas, de linguagem e físicas). O papel da família não pode ser subestimado, e este caso destaca maneiras pelas quais a família pode ser usada para apoiar o processo terapêutico.
Os autores gostariam de concluir parabenizando Maggie tanto pelo seu esforço quanto pelas suas conquistas nos últimos dezesseis meses, e todos nós estamos ansiosos para ver o que acontecerá a seguir. Agradecemos também a Maggie por concordar em compartilhar a sua história. Maggie, junto com os autores, espera que a sua história possa inspirar outras pessoas com situações semelhantes, complicadas, e problemas médicos de toda a vida, a alcançar os seus objetivos, quaisquer que sejam as provações que lhes sobrevenham.
Conflitos de interesse. Os autores não identificam nenhum conflito de interesses.
Complexe Systémique: para lembrar
Um estudo de caso a três vozes, raro na literatura da abordagem porque a cliente fala nele, e a mãe fala duas vezes, como mãe e como ex-integrante do BFTC. O que ele mostra: a TBFS de longo prazo (dezessete sessões, dezesseis meses) quase sem nenhuma das suas técnicas emblemáticas, mas com os seus pressupostos, aqueles que Eve Lipchik formulou em Beyond Technique, e uma relação que a primeira Milwaukee considerava óbvia demais para ser escrita. Dois gestos a lembrar: a dupla pergunta das melhores esperanças para esta sessão e a partir desta sessão, e a tarefa dada aos pais no lugar do primeiro honorário. Ler junto com a entrevista de David Hains sobre a emergência, de onde ele vem, e com as confissões de Michael Durrant, o seu mentor, sobre o que é e o que não é focado nas soluções.
Do e-mail de Kate para David de 25 de fevereiro de 2023, com Maggie em cópia:
25 de fevereiro de 2023, e-mail de Kate para David
Maggie é uma jovem de 28 anos encantadora, gentil, divertida e criativa (esses são apenas alguns dos muitos qualificativos positivos que eu poderia usar para descrevê-la). Ela mora em casa com Steve (meu marido e pai dela) e comigo. Quanto à história de Maggie e a algumas das coisas que ela quer que você saiba… ela nasceu dez semanas prematura, com uma anomalia genética chamada trissomia do X (ou 47,XXX), que descobrimos por uma amniocentese. Maggie teve vários desafios de saúde e de desenvolvimento na infância e foi diagnosticada com TDAH aos 8 anos e com transtorno do espectro autista aos 15. Embora, durante a minha carreira de terapeuta, eu não fosse fã desses diagnósticos, Maggie e a nossa família na verdade os acharam úteis para compreender alguns dos desafios com que ela lidava, e úteis para explicar aos professores e a outros que ela não era preguiçosa, desmotivada, desatenta, sonhadora, nem nenhuma das outras descrições negativas que lhe davam. Pudemos, ao contrário, compreender que Maggie é perfeitamente inteligente e criativa, e que o seu cérebro simplesmente funciona de modo diferente do das pessoas neurotípicas.
Maggie tinha muitas queixas físicas na infância, incluindo dores de estômago, e desde então passamos a supor que ela talvez tivesse enxaquecas abdominais. Isso nos ocorreu quando ela começou a ter enxaquecas significativas e duradouras aos 10 anos. Desde então, ela continuou a ter dores de cabeça crônicas, quase diárias. No fim da adolescência, Maggie começou a ter dores musculares e articulares difusas e significativas, e foi diagnosticada com fibromialgia no início dos 20 anos.
Aos 22 anos, em maio de 2017, Maggie descobriu um nódulo no seio e logo depois foi diagnosticada com uma forma agressiva de câncer de mama triplo-negativo. Por sorte, morávamos numa cidade universitária (Madison, Wisconsin), com um centro médico acadêmico e um centro de câncer bem-conceituados, de modo que Maggie recebeu cuidados maravilhosos. Ainda assim, ela passou por dezoito meses extenuantes de tratamento… dois protocolos de vários ciclos de quimio, seguidos de duas cirurgias, radioterapia e mais quimio. Maggie foi declarada livre do câncer em outubro de 2018. Embora declarada livre do câncer, o fato de ter vivido essa ocorrência rara de câncer de mama tão jovem cobrou um preço emocional e deixou Maggie com o medo constante de uma recidiva. O medo a levou a decidir, há pouco mais de um ano, fazer uma mastectomia dupla eletiva. Maggie diz que se sente bem com essa decisão e não tem arrependimentos. A decisão foi dela, e ela tem forte convicção de que foi a certa.
As enxaquecas de Maggie diminuíram bastante durante o tratamento do câncer, suspeitamos que por causa dos esteroides que ela recebia. No entanto, as enxaquecas acabaram voltando com força total. Nesse ponto, o seu neurologista achou que ela seria candidata a uma ablação do nervo occipital. Maggie fez duas ablações em 2019, cada uma das quais manteve a dor no mínimo por cerca de dois meses, mas as enxaquecas acabaram voltando quando os nervos se regeneraram.
Quando Steve recebeu a oferta de um novo emprego em Fayetteville, Arkansas, a nossa família se mudou do Wisconsin para o Arkansas no fim de 2019. Tínhamos grandes esperanças de um novo começo, mas logo surgiram mais problemas de saúde. O primeiro foi que Maggie contraiu o vírus Epstein-Barr e, um ano depois, desenvolveu uma infecção fúngica significativa nas profundezas dos seios nasais. Ambos levaram muito tempo para ser diagnosticados e envolveram numerosas visitas a médicos e ao pronto-socorro do hospital. A infecção fúngica também envolveu vários exames desagradáveis e uma cirurgia para removê-la.
Outro desafio recente envolveu um extenso tratamento dentário, incluindo numerosos canais e coroas. Ela já havia feito uma cirurgia dentária extensa quando ainda estávamos em Madison, com os mesmos procedimentos. O especialista dentário supõe que a prematuridade de Maggie fez com que ela tivesse esmalte fraco, e que a radioterapia provavelmente causou problemas adicionais.
O último desafio que mencionarei vem ocorrendo desde abril do ano passado: Maggie começou a ter dores ósseas intensas, profundas, difusas e constantes. Dada a sua história de câncer, nós e os seus médicos inicialmente nos preocupamos com uma recidiva, mas isso foi descartado. Maggie consultou numerosos especialistas, todos os quais reconheceram que a dor é real, mas nenhum conseguiu descobrir a causa. A sua velocidade de hemossedimentação e os seus níveis de PCR estavam bastante altos, mas não conseguiram determinar por quê. A única explicação que alguém consegue imaginar é que a dor começou logo depois que ela tomou uma das doses de reforço contra a Covid. Maggie fez recentemente um exame de sangue especial que mostrou que ela tem predisposição genética a condições inflamatórias, então a hipótese é que talvez o reforço tenha estimulado uma resposta inflamatória. Independentemente da causa, a dor tem sido dura para Maggie, e nenhum dos medicamentos que lhe prescreveram ajudou. No entanto, Maggie recentemente se qualificou para a maconha medicinal, que começou a usar em dezembro, e isso foi o que mais a ajudou.
Como você pode ver, Maggie teve mais do que a sua cota de desafios na vida. Apesar disso, ela está determinada a seguir em frente e a encontrar momentos de felicidade. É uma jovem forte, corajosa, determinada e feroz, sem dúvida. Ainda assim, às vezes a dor e a preocupação a abatem. Estamos procurando um terapeuta para ajudar Maggie a descobrir a melhor forma de lidar com a dor e as outras dificuldades que enfrenta. Dada a minha experiência anterior com o trabalho focado nas soluções, tenho esperança de que essa abordagem seja a mais útil.
KK: Outros problemas que deixei de mencionar no e-mail para David incluem uma apendicite complicada com ruptura, que Maggie teve aos 8 anos e que exigiu cirurgia e uma semana de internação, e o diabetes tipo 2 que surgiu durante o tratamento do câncer de Maggie, provavelmente em consequência dos esteroides que ela recebeu como parte da quimioterapia.
27 de fevereiro, e-mail de Kate para David
Olá, David,
Espero não estar passando dos limites ao escrever separadamente de Maggie. Só queria dizer o quanto apreciei a maneira como você estruturou a conversa hoje e o quanto sou grata pela sua disposição em trabalhar com Maggie. Adorei a sua abordagem e fiquei realmente encantada e tocada com as respostas de Maggie. A sua validação da experiência dela e o foco em pequenos passos eram exatamente o que ela precisava.
Obrigada!
27 de fevereiro, resposta de David para Kate
Olá, [Kate],
Não acho que isso seja passar dos limites. Agradeço o retorno, obrigado. Espero que Maggie ache tudo isso útil.
Fiquei realmente impressionado com o que ela disse, e com como consegue permanecer tão positiva. Espero poder, de alguma forma, ajudar isso a continuar e crescer.
Quanto ao pagamento, vou pensar a respeito e retorno depois da nossa conversa na semana que vem.
KK: David respondeu de novo alguns dias depois, e a sua mensagem me deixou sem palavras.
1.º de março, e-mail de David para Kate
… o que eu gostaria que você fizesse é ir até Steve e pedir o dinheiro (do pagamento). Depois quero que você pegue o dinheiro e vá a uma loja, um lugar, um café ou um restaurante e compre algo para você e Steve. Pode ser uma refeição, uma pizza, uma caixa de chocolates, um pote de sorvete, uma garrafa de vinho, ou o que vocês dois gostarem. Depois quero que você tire uma foto do que for e me envie a foto. Pode ser uma foto de vocês consumindo a coisa, ou só da coisa em si.
Depois quero que você pense em tudo o que vocês passaram durante 28 anos (mas sem se demorar muito nisso) e se parabenizem por todo o bom trabalho, e por terem atravessado tantos momentos difíceis.
Eu também vou celebrar com vocês – vocês terão a bênção de ter a “coisa” boa para aproveitar, e eu terei a bênção de dá-la a vocês.
Só depois que você me enviar a foto, e depois da nossa próxima sessão, eu enviarei os detalhes para o pagamento das sessões seguintes (que serão mais baratas e provavelmente menos calóricas para vocês dois).
Aguardo ansioso a foto.
Cuide-se,
David
2 de março, resposta de Kate para David
Olá, David,
Bem, posso dizer honestamente que nunca antes fui levada às lágrimas de gratidão e reconhecimento ao tratar de honorários.
Steve e eu estamos realmente tocados e comovidos com o seu presente tão generoso. Obrigada. Vamos aceitá-lo com gratidão, com a ressalva de que pagaremos os seus honorários habituais nas sessões futuras. Valorizamos o tempo, a expertise e a experiência que você traz e queremos remunerá-lo de forma justa.
Steve e eu estamos ansiosos para cumprir a tarefa que você nos deu. Aguarde as fotos!
Cuide-se bem, e obrigada!
Kate
6 de março, e-mail de Kate para David
Olá, David,
Steve e eu decidimos fazer a tarefa que você nos deu em duas partes. A primeira foi um almoço muito agradável ontem, num restaurante cubano que queríamos experimentar, chamado Havana Tropical Grill. Foi ótimo! Como você sugeriu, conversamos sobre as lutas que atravessamos ao longo dos anos, com apreço por como trabalhamos bem juntos para ajudar a guiar Maggie a se tornar a pessoa calorosa, amorosa, forte, criativa e perspicaz que ela é. Também como você sugeriu, não nos demoramos muito nos desafios, embora seja útil reconhecer que foram muitos, e em vez disso nos concentramos no nosso presente e no nosso futuro.
Para a segunda parte, pegamos duas garrafas de vinhos da Austrália Meridional (com um aceno caloroso e amigável a você) e alguns chocolates Cadbury. Cadbury era o meu chocolate preferido na época em que morei em Sydney, então pareceu apropriado voltar a comê-lo agora. Steve e eu vamos saborear o vinho e o chocolate todas as noites da próxima semana. As fotos estão anexadas.
Obrigada por este presente maravilhoso. Ao dizer isso, não me refiro apenas ao presente do almoço, do vinho e do chocolate, embora realmente os apreciemos. Também somos gratos pelo reconhecimento. A sua validação da nossa experiência é tremendamente significativa e impactante, e muito apreciada.
Com sincera gratidão,
Kate e Steve
Nota sobre o autor
David Hains é enfermeiro registrado, estabelecido em Adelaide, na Austrália Meridional, e ex-presidente da Australasian Solution Focused Association (2018-22). david@leftturnsolutions.com.au
Referências
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Submetido em 1.º de julho de 2024. Aceito em 3 de outubro de 2024. Publicado em 14 de outubro de 2024.
Tradução não oficial para o português de Beyond Technique: Maggie’s Story of Determination, Resilience and Growth Through SFBT and a Focus on the Therapeutic Relationship, de David Hains, Kate Kowalski e Maggie Krogull, publicado no Journal of Solution Focused Practices, vol. 8, n.º 2 (2024), doi: 10.59874/001c.124265, sob licença CC BY 4.0. Tradução e formatação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Beyond Technique: Maggie’s Story of Determination, Resilience and Growth Through SFBT and a Focus on the Therapeutic Relationship”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Hains, D., Kowalski, K., & Krogull, M. (2024). Além da técnica: a história de Maggie, determinação, resiliência e crescimento pela TBFS e uma atenção à relação terapêutica (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/alem-da-tecnica-a-historia-de-maggie (Obra original publicada em 2024 em Journal of Solution Focused Practices, vol. 8, n° 2 (2024); republicada em 2024 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/124265)
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