Journal of Family Therapy · Terapia familiar
O que guardam, na vida adulta, membros de uma fratria que cresceram ao lado de uma mãe em sofrimento psíquico? Uma equipe britânica entrevistou juntos quatro pares fraternos, segundo uma abordagem de pesquisa narrativa. Surgem duas tramas: “a história de nós”, feita de papéis de primogenitura, parentificação e saídas de casa, e “somos quem somos por causa do que aconteceu”. A fratria aparece como um recurso protetor, que os papéis atribuídos, porém, podem fragilizar.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Relatos fraternos sobre o sofrimento psíquico parental, de Wendy O'Neill, Pieter W. Nel, Nic Horley e Lizette Nolte, publicado na Journal of Family Therapy (Wiley) (2024), doi: 10.1111/1467-6427.12452, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A Tabela 1 é apresentada em forma de lista. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Passar de uma posição de silêncio para uma construção de sentido compartilhada, adotando uma abordagem familiar, pode promover a resiliência das crianças.
Wendy O'Neill, Pieter W. Nel, Nic Horley e Lizette Nolte
Resumo
Este artigo apresenta os resultados de um estudo que explorou os relatos de fratrias sobre o sofrimento psíquico de um dos pais e os discursos sociais que podem ter contribuído para a forma como essas fratrias, já na vida adulta, dão sentido à experiência. Quatro pares fraternos foram recrutados de forma intencional e entrevistados segundo uma abordagem de pesquisa narrativa. A análise das narrativas das pessoas participantes permitiu construir duas tramas principais: “A história de nós” e “Somos quem somos por causa do que aconteceu”. Os resultados evidenciaram que a construção identitária de cada membro da fratria e as identidades coletivas dos pares fraternos são influenciadas pelo contexto de saúde mental parental. Os achados sugerem também uma mudança na forma de dar sentido à experiência entre a infância e a vida adulta. Esses achados são discutidos junto com suas implicações para a prática e a pesquisa sistêmicas.
Pontos-chave
O sofrimento psicológico vivido por um dos pais afeta toda a família (Lagdon et al., 2021), inclusive as crianças (Dam & Hall, 2016). Este artigo apresenta uma pesquisa narrativa sobre a forma como membros adultos de uma fratria coconstroem a experiência de ter tido um pai ou uma mãe com vivência de sofrimento psíquico (aqui designada SPP, sofrimento psíquico parental). O estudo buscou explorar se a fratria pode atuar como recurso e fator de proteção diante dos riscos associados ao SPP, e examinar o papel e a importância das intervenções familiares para essas famílias. Para os fins deste estudo, o SPP era um rótulo atribuído pelas pessoas participantes, compreendido por meio de rótulos diagnósticos parentais como ansiedade, depressão ou transtorno bipolar, e que havia tido um impacto negativo significativo na vida familiar pelo menos uma vez ao longo da vida da fratria. A importância de adotar uma abordagem voltada para a família como um todo tem sido destacada repetidas vezes (por exemplo, Lagdon et al., 2021; Social Care Institute for Excellence, 2011); no entanto, essa recomendação não é aplicada de forma consistente, e o acesso a intervenções sistêmicas com a família como um todo muitas vezes não está disponível.
As famílias afetadas pelo SPP são consideradas algumas das mais vulneráveis da sociedade e correm maior risco de pobreza, isolamento social, exclusão e conflito conjugal (Reupert & Maybery, 2007). A pesquisa indica que crianças que convivem com o SPP correm maior risco de desenvolver sofrimento psicológico, dificuldades de apego e de relacionamento, problemas de comportamento e baixo desempenho escolar (Foster, 2010; Gajos & Beaver, 2017; Mennen et al., 2015; Reupert & Maybery, 2007), e o impacto do SPP será influenciado pela frequência e pelo período em que ocorre ao longo do desenvolvimento da criança (Office for Health Improvement & Disparities, 2022). Há registros de que dois terços dessas crianças vivenciam sofrimento psicossocial ou psíquico na vida adulta (Foster, 2010; Rutter & Quinton, 1984).
Diante desse risco elevado, é importante compreender o que contribui para as dificuldades e o que protege delas, a fim de atenuar os riscos e apoiar o bem-estar social e emocional de crianças com experiência de SPP. Embora algumas pesquisas tenham se concentrado no impacto causal direto, por exemplo, de fatores genéticos (e de sua interação com fatores ambientais, como destacado acima) (ver, por exemplo, Manning & Gregoire, 2006), hoje é amplamente aceito que não é a natureza do diagnóstico do pai ou da mãe em si que afeta as crianças, nem que esse impacto é linear ou unidirecional, mas sim que o risco é determinado pelos aspectos sociais, relacionais e interacionais complexos frequentemente associados aos problemas de saúde mental (ver, por exemplo, Reupert et al., 2013; Rutter & Quinton, 1984; Van Parys & Rober, 2012). A comunicação familiar e a construção de sentido têm sido particularmente destacadas na literatura, e a forma como as crianças dão sentido ao SPP se mostrou um fator importante que modula o impacto do SPP sobre elas (por exemplo, Focht & Beardslee, 1996; Scherer et al., 1996). Além disso, as relações e os papéis familiares (por exemplo, a “parentificação” e as responsabilidades de cuidado) se mostraram significativos (por exemplo, Rose & Cohen, 2010). Assim, passar de uma posição de silêncio para uma construção de sentido compartilhada, adotando uma abordagem familiar, pode promover a resiliência das crianças e interações positivas dentro da família, e reforça a necessidade de práticas sistêmicas.
A relação fraterna é uma dessas relações cuja importância foi identificada na literatura (Feinberg et al., 2012; Reupert & Maybery, 2007). As relações fraternas variam de intensidade ao longo do desenvolvimento e podem ser, em certos momentos, a relação emocionalmente mais saliente no desenvolvimento de uma criança (Waldinger et al., 2007). Um modelo desenvolvimental da relação fraterna indica que, em diferentes fases do ciclo de vida familiar, membros de uma fratria podem ser mais próximos e se apoiar mais (Goetting, 1986). Por exemplo, adolescentes relatam níveis menores de amizade, intimidade e afeto com a fratria do que crianças e pré-adolescentes (Buhrmester & Furman, 1990), e a frequência de atividades compartilhadas diminui com a idade (Raffaelli & Larson, 1987; Widmer, 1999). Mudanças estruturais na relação também foram observadas durante a meninice intermediária e a adolescência (Buhrmester, 1992; Guan & Fuligni, 2016). Na transição da adolescência para a vida adulta, manter a relação passa a ser uma escolha, e essas relações podem se tornar mais parecidas com amizades (Whiteman et al., 2011). Estudos destacaram fatores como contato, ajuda e apoio, além de sentimentos de proximidade e segurança, como indicadores do apego fraterno na vida adulta, que por sua vez estão relacionados ao bem-estar psicológico e à saúde física na velhice (Cicirelli, 1992, 1995; Stormshak et al., 1996).
Além disso, membros de uma fratria podem oferecer apoio tanto prático quanto emocional uns aos outros em circunstâncias difíceis (Widmer & Weiss, 2000), o que se mostrou um fator de proteção para crianças pequenas. O apoio fraterno pode atenuar os efeitos negativos de eventos de vida estressantes e proteger contra problemas internalizantes (Gass et al., 2007; Jenkins & Smith, 1990). Em um estudo com crianças que conviviam com o SPP, muitas das pessoas participantes assumiam papéis de proteção e/ou de cuidado em relação à fratria, frequentemente assumindo o papel parental (Aldridge & Becker, 2003).
As relações fraternas também podem ter efeitos adversos sobre o bem-estar de uma pessoa; por exemplo, membros de uma fratria podem entrar em conflitos frequentes e, ocasionalmente, violentos (Stormshak et al., 1996; Waldinger et al., 2007). Relações fraternas ruins na infância são um fator de risco para depressão na vida adulta, independentemente da qualidade da parentalidade, e estudos mostraram que conflitos fraternos durante a meninice intermediária podem estar associados a mais ansiedade e depressão na adolescência (Waldinger et al., 2007). Consequentemente, as relações fraternas podem variar em proximidade, tempo passado junto, conexão e apoio; essas relações podem ser um contexto de construção de sentido e de experiências compartilhadas, mas também de desafios e sofrimento (Cicirelli, 1995; Griffiths & Sin, 2013), e podem, portanto, ser vistas como centrais na formação da identidade, na autoestima e no bem-estar (Cicirelli, 1995; McHale et al., 2013). Dada a importância do contexto familiar e do percurso desenvolvimental da relação fraterna, o presente estudo buscou explorar a relação fraterna ao longo do tempo no contexto do SPP.
O objetivo principal da pesquisa foi explorar como membros de uma fratria coconstroem o sentido de suas experiências de SPP, e a pergunta de pesquisa foi formulada de modo deliberadamente aberto, para favorecer a exploração e a curiosidade.
Como, em uma fratria que convive com um pai ou uma mãe em sofrimento psíquico, se constrói o sentido da relação fraterna e da experiência do SPP?
Além disso, o estudo explorou como membros da fratria narram sua vida e suas experiências ao longo do tempo, para compreender as histórias que podem contribuir para uma relação fraterna positiva ou negativa e o que impede ou facilita a conversa sobre o SPP dentro da fratria, no contexto de discursos sociais mais amplos.
Adotou-se uma abordagem qualitativa de pesquisa narrativa para reunir e compreender a experiência contextual e subjetiva das pessoas participantes, incluindo sua possível mudança ao longo do tempo (Wertz, 2014). Em consonância com a metodologia qualitativa, o estudo foi realizado em campo, sem hipóteses claramente definidas, e envolveu o recrutamento de um número pequeno de pessoas participantes (Kidd, 2002). Na abordagem de pesquisa narrativa, investigaram-se as histórias construídas nas relações pessoais e sociais, com foco nos significados diferentes e opostos, silenciados ou privilegiados, que os indivíduos atribuem às experiências, levando em conta os contextos socioculturais locais e mais amplos (Andrews et al., 2008).
Utilizou-se uma amostragem intencional para recrutar um número pequeno de pessoas em todo o Reino Unido, com uma amostra variada em termos de idade, gênero e experiência de sofrimento. A participação foi oferecida quando os dois membros da fratria tinham um pai ou uma mãe que se identificava como tendo vivência de sofrimento psíquico, tinham ambos mais de 18 anos e falavam inglês fluentemente. Foram recrutados quatro pares fraternos: três pares de irmãs e um par de irmão e irmã (Tabela 1). Embora a amostra seja pequena, Wells (2011) sustenta que amostras menores são adequadas para estudos narrativos, pela grande profundidade de informação que a pesquisa narrativa produz, e que o objetivo não é generalizar os achados para todas as fratrias com experiência de SPP.
Tabela 1 — Dados sociodemográficos das pessoas participantes
Todas as mães e pais em questão haviam tido contato com serviços de saúde mental, e três haviam passado um período em uma unidade de internação psiquiátrica. Todas as pessoas participantes eram de origem cultural britânica branca, e toda informação identificadora foi anonimizada.
As pessoas participantes foram plenamente informadas sobre o objetivo do estudo, e o consentimento foi obtido antes do início das entrevistas. Foram oferecidos momentos de verificação e pausas para minimizar qualquer sofrimento, e, ao final das entrevistas, foram fornecidas informações sobre serviços de apoio em saúde mental.
Com cada par fraterno foram realizadas entrevistas em profundidade em dupla, nas quais duas pessoas são entrevistadas juntas para coletar informações sobre como percebem um mesmo acontecimento (Arksey, 1996). As perguntas da entrevista semiestruturada foram elaboradas atentando para os três “lugares-comuns” narrativos da socialidade, da temporalidade e do lugar (Clandinin et al., 2007). Deu-se ênfase especial à temporalidade, pois a equipe de pesquisa se interessava por qualquer mudança nas histórias ao longo do tempo. O roteiro foi refinado por meio de consulta a pessoas com expertise por experiência e se concentrou na construção das primeiras experiências da fratria e em como essas experiências e o sentido dado a elas mudaram com o tempo. As entrevistas duraram entre 1 h 25 min e 2 h 10 min, e adotou-se uma abordagem conversacional guiada para otimizar a coconstrução das narrativas.
Todas as entrevistas foram gravadas e analisadas segundo uma abordagem analítica narrativa multidimensional (Coffey & Atkinson, 1996). O processo de análise (Figura 1) se inspirou nas abordagens narrativas de Clandinin (2006), Riessman (2008) e Bamberg (2011).

Registraram-se as impressões iniciais das entrevistas e as figuras de linguagem importantes. Os relatos narrativos foram analisados primeiro por meio de uma suspensão analítica (bracketing) e, em seguida, pela análise dos temas, da estrutura e dos aspectos performativos das transcrições (Riessman, 2008). Também se prestou atenção à forma como a construção de sentido mudou ao longo do tempo (Clandinin et al., 2007) e aos discursos sociais mais amplos (Wells, 2011). Para aprimorar a qualidade e a credibilidade da pesquisa, foram feitas várias verificações de credibilidade, entre elas a revisão independente dos dados e sua comparação dentro da equipe de pesquisa e em supervisão entre pares. Por fim, a análise dos dados foi revisada e comparada.
Foram elaborados retratos sintéticos de cada narrativa e identificados os “fios narrativos” mais salientes, em especial os que diziam respeito às identidades relacionais da fratria e aos acontecimentos privilegiados no relato de suas experiências. Depois que as quatro transcrições foram analisadas individualmente, elas foram consideradas em conjunto, identificando-se semelhanças ou diferenças entre as narrativas ou de uma narrativa para outra. Para garantir a qualidade da análise, os dados foram revisados e comparados dentro da equipe de pesquisa.
Da análise das narrativas das pessoas participantes emergiram duas tramas principais (Figura 2): (1) “A história de nós” e (2) “Somos quem somos por causa do que aconteceu”. Deu-se ênfase ao surgimento de fios narrativos centrais relativos às relações e identidades fraternas no contexto do SPP e à experiência emocional desses fios narrativos. Além disso, todas as interpretações dos fios narrativos e da construção identitária foram consideradas dentro do contexto local e mais amplo em que as histórias foram coconstruídas.

A primeira trama refletia a história coconstruída da fratria ao crescer no contexto do SPP e dos discursos sociais mais amplos sobre o sofrimento psíquico, na época da infância e mais tarde na vida adulta. Apesar das experiências fraternas compartilhadas, as pessoas participantes também queriam falar das diferenças entre suas histórias individuais, o que refletia certa individualidade nos temas, e contar à irmã ou ao irmão a sua versão da história. Foram identificadas quatro subtramas dentro dessa trama.
As histórias de formação da identidade em relação ao outro membro da fratria foram claramente expressas. A coconstrução das identidades parecia ocorrer em resposta ao SPP, em relação à irmã ou ao irmão, e também se formar fora dessa experiência. O reconhecimento da identidade de cada pessoa se enquadrava em discursos sociais familiares. Por exemplo, Anna se posicionava claramente como a mais velha, aquela que assume o papel de “irmã mais velha”, com a concordância de Karen, e há um acordo tácito de que certas características acompanham o fato de ser uma “irmã mais velha”. Esse papel havia se mantido ao longo de toda a relação.
Anna: É, eu ainda sou a irmã mais velha, né? E ainda sou eu que organizo as coisas, porque sei que você não quer fazer e tal.
Karen: Acho que você mantém um papel, um papel materno, ainda um pouco, não de tomar conta, mas eu te empurro muito para o papel de líder, de assumir o controle, tomar decisões.
Hannah reconheceu como tinha sido importante ter um “irmão mais velho” que as ajudou a enfrentar algumas experiências difíceis e perturbadoras.
Hannah: Você não… você provavelmente não percebia o que você… sei lá, você foi simplesmente muito, muito presente, dando apoio.
Aaron: Hum.
Hannah: Um irmão mais velho muito, muito, muito bom, um exemplo.
Para Anna e Aaron, era importante serem vistos como a irmã e o irmão mais velhos, o que validava os sacrifícios feitos e as responsabilidades assumidas, e serem retratados de forma positiva, em contraste com a realidade de sua infância. Esses papéis foram encenados durante as entrevistas, e suas relações se distinguiam pela forma como as responsabilidades haviam sido distribuídas na infância. Essa distribuição, por sua vez, parecia ter se mantido ao longo do tempo nas relações fraternas.
Na contranarrativa dessa identidade de primogenitura, ficava evidente que o outro membro da fratria assumia um papel diferente e dava outro sentido à sua história. Karen, Hannah e Jane pareciam menos seguras de sua compreensão do sofrimento da mãe.
Jane: [pausa] e eu não conseguia – eu não entendia e estava absolutamente apavorada, aquilo… aquilo me enchia de medo [pausa].
Embora Jane fosse, cronologicamente, a irmã mais velha, Denise e Jane concordavam que era Denise quem havia assumido o papel de mais velha no contexto de sua relação e de seu sistema familiar.
Denise: Hã, e às vezes, embora eu seja a irmã mais nova, houve situações em que eu tive que, hã, ser a responsável, hã… [ser a].
Jane: [Com certeza]
Denise: Eu tive que, hã, assumir o controle das [situações]
Isso pode ter decorrido da idade delas na época e da falta de compreensão do que acontecia em casa quando eram mais novas, ou da proteção exercida pela irmã mais velha. Talvez uma ou outra tenha adotado um papel mais distante para reduzir a competição e preservar as relações, e, por isso, sua compreensão fosse menos clara. A necessidade da fratria de criar uma hierarquia e uma estrutura familiar baseadas em discursos socioculturais sobre papéis familiares contrastava com as narrativas de caos que a fratria contava sobre o SPP.
Os membros da fratria falaram do fluxo e refluxo de suas relações, refletindo sobre períodos de proximidade e de distância, de semelhança e de diferença, e mostrando curiosidade sobre a própria relação em comparação com outras relações fraternas. Denise e Jane refletiram sobre isso.
Denise: [Algumas], algumas pessoas não fazem… não são tão envolvidas com as irmãs e os irmãos, então tem relações em que são extremamente próximos e sempre foi assim, ou você pode ter irmãos e irmãs que se veem talvez duas vezes por ano ou algo assim, ou, ou que não são tão envolvidos em tudo… tudo
Jane: [A gente é muito]
Denise: [É um pouco] diferente, não sei se é diferente das outras pessoas por causa do jeito como a gente foi criada, não sei
Jane: Hum
Denise: Esse tipo de, qual é a palavra, eu quero… não quero dizer emaranhado, qual é aquela palavra?
Jane: Não, é isso mesmo, para mim é querer estar, é querer estar envolvida na [vida] da Denise…
A subtrama também reconhecia a forma mutável como os membros da fratria se relacionavam com o passar dos anos ou à medida que ocorriam diferentes acontecimentos de vida. Três dos pares fraternos contaram como eram próximos na infância. Aaron e Hannah falaram de sua relação próxima e da sensação de pertencer a um clube fraterno, com linguagem e código secretos, para conversar sobre o fato de a mãe estar adoecendo.
Hannah: A gente só trocava um olhar, tipo, tá, ela pode explodir daqui a pouco.
Relembraram essa experiência compartilhada confirmando um ao outro e construindo frases juntos, falando um por cima do outro e revivendo a empolgação do segredo, talvez sentida na infância, além de certo orgulho por terem conseguido fazer isso.
Aaron: Acho que a gente ficou bem esperto em mandar mensagens um para o outro.
Lana e Shelby também descreveram a sensação de serem mais próximas e mais parecidas do que outras gêmeas e outras fratrias, por causa da experiência de viver com a mãe e da sensação de terem sido fundidas quando eram crianças.
Lana: … e aí precisa ter essa pequena equipe unida cuidando da mamãe. Isso só quer dizer que você tem que ser prática, foi assim que a gente se virou.
Quanto às mudanças nas relações fraternas, Jane e Denise falaram da natureza mutável de sua relação da infância à vida adulta. Jane falou do nascimento de Denise e disse que Denise era “o meu mundo”. Havia certa incerteza sobre se a relação delas era como outras relações fraternas, dadas as experiências de SPP e a forma como se relacionavam na infância e agora na vida adulta. As pessoas participantes falaram do que favoreceu relações próximas: boa capacidade de comunicação, confiança, perdão, respeito, poder contar uma com a outra e ajudar-se mutuamente a enfrentar os momentos difíceis com os pais haviam contribuído para a proximidade. A ideia de que a fratria compartilhava as experiências a ajudou a formar alianças, que pareciam funcionar como fator de proteção.
Hannah: Não, porque se acontecesse qualquer coisa, a gente estaria lá num piscar de olhos para ajudar e apoiar. Então, de certa forma, acho que isso… isso deixou a gente mais atento um com o outro. Muito protetores.
A história da diferença estava presente em todos os relatos. Três dos quatro pares fraternos disseram que suas experiências de SPP haviam sido diferentes uma da outra. Embora as situações possam ter afetado ambas as pessoas do par, a forma de reagir e o papel de cada uma em relação à outra e aos pais influenciavam o sentido dado à experiência.
Denise: Tipo, a gente viu a mesma coisa, ouviu a mesma coisa, mas o jeito como a gente lidou com isso é muito diferente e, são histórias diferentes, porque eu não consigo lembrar, eu me desliguei de certas coisas e não consigo lembrar de algumas coisas, e talvez eu não queira lembrar de algumas coisas.
As razões apresentadas eram o papel adotado pelo membro da fratria, por vontade própria ou por necessidade, ou sua ausência em um acontecimento específico. Por exemplo, Aaron e Hannah descreveram uma experiência fraterna diferente por causa do papel de Aaron, moldado pelo sofrimento psíquico da mãe. Hannah observou que, por causa da idade de Aaron e da posição dele na família quando a mãe teve seu primeiro “episódio”, ela pôde ser mais criança e mais livre, ao passo que Aaron teve de ser mais responsável.
Anna e Karen reconheceram que também tinham relatos diferentes da experiência, observando que ainda hoje não enxergam de fato o ponto de vista uma da outra, embora mostrassem ter conseguido superar essa diferença e formar um vínculo próximo, ao mesmo tempo fraterno e de amizade. Karen e Aaron também achavam que as diferenças estavam ligadas a estilos de personalidade distintos, e Aaron sugeriu ainda que a estrutura e a dinâmica da família tornaram as coisas diferentes para cada criança.
Aaron: Acho que é só a dinâmica familiar em geral, tipo irmão mais velho, irmã do meio, irmã mais nova. Hã, acho que eu era… eu tinha uma relação mais próxima que uma relação de adulto com o papai.
Os membros da fratria disseram não ter tido uma vida familiar ou uma infância “normal”. O uso da palavra “normal” nos quatro relatos evidenciava o sentimento de diferença em relação às outras pessoas e os efeitos de isolamento de suas experiências, alimentados por discursos sociais normativos.
Jane: Mas é só quando a gente cresce e vira adolescente, ou convive mais com outras pessoas, que a gente percebe…
Em particular, os membros da fratria falaram de não ter tido infância e de ter precisado crescer mais cedo do que talvez desejassem. Havia narrativas contraditórias: a de ter tido que ser uma pessoa jovem responsável, assumindo um papel parental, e o reconhecimento de que não podiam ser crianças em casa. Além disso, cada par fraterno falou do apoio prático ou emocional prestado à irmã ou ao irmão e aos pais, das conversas com as equipes de saúde mental e do papel de defesa e de aconselhamento junto aos pais. Para Anna e Karen, o papel parentificado adotado por Anna gerou conflitos na relação quando eram mais novas, já que Anna se posicionava como mãe de Karen.
Anna: Basicamente quem mandava era eu, o Matt (irmão mais velho) tinha ido para os Estados Unidos, eu estava, tive que ser mãe de você – o papai trabalhava o tempo todo. Então, basicamente, eu era a sua mãe.
Embora Aaron se posicionasse claramente como o “líder” e o “responsável” da fratria, que aconselhava o pai e era confidente da mãe, isso não parecia gerar nenhum conflito com Hannah, que elogiava de bom grado o papel que Aaron assumiu no apoio à família. Hannah observou que ela também assumiu um papel parentificado quando Aaron saiu de casa. Mesmo assim, buscava a orientação de Aaron quando isso acontecia.
Então, quando você foi para a universidade, acho que foi aí que eu tive que assumir, e ainda assim eu me sentia… mas eu ainda me pegava no telefone tipo: Aaron, o que eu faço?
Aaron recebia isso bem, pois se sentia culpado por não poder estar presente para a família depois de sair de casa. Lana e Shelby falaram dos cuidados que prestavam à mãe e do senso de competência que desenvolveram.
Shelby: … crescer com a mamãe também, tipo, então a gente sempre foi, tipo, muito próxima e acho que a gente com certeza, eu com certeza sinto que assumi isso, tipo, tudo bem, eu consigo cuidar dela, ela reforçava muito a gente, tipo, vocês duas são tão boas.
Essa dependência da mãe e a posição de protetoras depositavam nelas muita responsabilidade. Para algumas pessoas, essa responsabilidade era sentida como um fardo e impedia que as crianças se tornassem independentes e vivessem experiências da adolescência, pela preocupação em não causar nenhum sofrimento à mãe ou ao pai.
Shelby: Teria sido muito dramático, muito horrível, então tem esse peso, tipo, das consequências, tipo, os sentimentos da sua mãe, que com certeza deixou a gente na linha, eu acho, mas é uma coisa bem frustrante.
Embora essa fosse uma consequência da parentificação, adotar a posição parental teve outras implicações. Por exemplo, Shelby relatou que se sentia emocionalmente madura quando criança; no entanto, nenhuma das duas irmãs sentia ter a maturidade social necessária para lidar com o mundo externo à medida que cresciam, por causa da falta de liberdade na infância. Da mesma forma, para Anna e Karen, o fato de Anna agir como mãe de Karen causou tensão e confusão em Karen, e ressentimento em Anna por ter esse papel.
Apesar de terem adotado, às vezes, um papel adulto, Anna, Karen, Jane e Denise também falaram de não ter tido nenhum controle, quando crianças, sobre o que lhes acontecia. Jane ia com frequência ao pub, quando era mais nova, para comprar bebida alcoólica para a mãe; isso contrasta fortemente com a sensação de não ter nenhum controle sobre a situação, que ela descreve dizendo ter ficado “traumatizada”, “assustada” e “com medo”.
Essa identidade parental, encenada no contexto da entrevista, era importante para demonstrar orgulho da própria resiliência, competência e capacidade de adotar um papel maduro desde cedo. No entanto, isso vinha acompanhado da sensação de não ter controle sobre a situação por causa da pouca idade, o que capta a tensão entre a responsabilidade sentida e a capacidade de agir em crianças que convivem com o SPP, bem como a luta e a perda vividas pelas pessoas mais velhas da fratria, ao lado do orgulho.
As relações fraternas mudam com o tempo, à medida que ocorrem acontecimentos de vida. Isso ficou evidente em todos os relatos, à medida que os membros da fratria negociavam a transição de viver juntos para viver separados. A natureza mutável da relação fraterna durante essa separação foi identificada como uma subtrama. Quando a pessoa mais velha da fratria saía primeiro de casa, para ir à universidade ou para se afastar da experiência do SPP, a mudança de contexto e a separação pareciam criar algumas rupturas e sentimentos de culpa.
Denise: Você sente que me abandonou.
A história de Anna e Karen era entremeada de momentos juntas e de momentos separadas, que criavam ora conflitos, ora proximidade, à medida que negociavam novos papéis e novas condições de vida. Karen sentia que o tempo que passaram juntas quando ela visitava Anna na universidade foi a primeira vez em que puderam se sentar, conversar e descobrir coisas uma sobre a outra.
Karen: Você tinha que passar tempo comigo, e acho que a gente nunca tinha tido isso, então, na verdade, quando a gente sentou, pensou: nossa, na verdade a gente tem muita coisa em comum.
Anna: Acho que existe uma liberdade que você ganha estando fora da casa da família… que você pôde me ver com todos os meus amigos, vivendo de forma independente e sendo quem eu era.
Nesse sentido, Anna observou que sair do contexto de casa e criar uma nova forma de se relacionar, depois de conquistada certa independência, fez a relação passar de uma relação fraterna para uma amizade. As histórias de estar juntas e de se separar e, depois, o fato de contar juntas a própria história no contexto da entrevista transmitiam a importância da relação fraterna.
Lana e Shelby também falaram de quando saíram de casa pela primeira vez e passaram a viver de forma independente uma da outra, descrevendo esse período como muito difícil para elas e para a relação. Shelby falou do desafio de voltar a morar juntas depois e da percepção de que tinham mudado.
Shelby: … tipo, então é meio que, a gente está muito feliz de voltar a ficar juntas e continua muito, mas é simplesmente diferente e a gente tem que se reacostumar.
Aaron e Hannah falaram da saída de Aaron de casa e do desafio que isso representou, com a adoção de novos papéis, ele fora e ela dentro da família. Aaron contou, por exemplo, que teve dificuldade para se estabelecer em uma nova vida, dizendo ter sentido ansiedade e culpa por não estar em casa para ajudar as irmãs e a família. Aaron parecia ter dificuldade em lidar com a mudança de seu papel de “homem da casa” para o de estudante.
Aaron: Então eu ligava para saber das novidades talvez duas, três vezes por semana, ou você me ligava, assim a gente garantia que eu estivesse bem a par daqui.
Falaram de sua relação atual e da relação com a irmã, Clare, e sentiam ter uma relação incomum, pela frequência do contato e pelo prazer de passar tempo juntos. Jane e Denise também falaram do tempo que passaram longe uma da outra. Jane contou que, aos 14 anos, passava noites fora de casa como forma de enfrentar a situação. Já Denise ficou em casa até o fim dos vinte anos. Denise disse compreender a decisão de Jane de se distanciar da família; Jane, porém, sentia culpa por ter deixado Denise em casa, o que expressou na entrevista, dizendo a reprovação que teria sentido se Denise tivesse feito isso com ela.
Essa trama descrevia o que os membros da fratria haviam se tornado na vida adulta, a boa compreensão alcançada sobre a própria relação e a forma como ela foi moldada pelo contexto da infância. As pessoas que narravam também falaram de não querer se tornar como o pai ou a mãe e das medidas e recursos mobilizados para que o sofrimento psíquico não tivesse um lugar significativo em sua vida. Foram identificadas duas subtramas.
Cada membro da fratria havia desenvolvido na vida adulta uma identidade, tanto pessoal quanto profissional, nascida de suas experiências.
Jane: … bom, eu…, porque eu só funciono com disciplina, eu preciso de disciplina; se eu não tenho disciplina, eu, eu, eu preciso dessa disciplina na minha vida, e obviamente precisava quando criança,
Cinco das oito pessoas participantes haviam ingressado ou estavam ingressando em profissões centradas em ajudar o público. As experiências vividas na infância, cuidando dos pais e apoiando-os, haviam moldado quem eram. O impacto de viver com o SPP havia se transposto da identidade pessoal para a profissional, e a linguagem usada refletia essa dualidade. As histórias de competência e de conquista contrariavam a narrativa sociocultural que apresenta as crianças que convivem com o SPP como estando entre as mais vulneráveis e em risco.
Os membros da fratria também expressaram convicções sobre sua individualidade na vida adulta, enfatizando a identidade presente e introduzindo em suas histórias outros personagens, como namorados, maridos e grupos de pares, para retratar a transformação de suas histórias de vida, o que reforçava a resiliência da fratria diante de experiências de vida adversas. A introdução desses “novos” personagens e acontecimentos, como viajar de férias e casar, mostrava um alinhamento com as visões sociais mais amplas de um desenvolvimento “normal”, e revelava a influência dessas normas sociais sobre a fratria. Ainda assim, na vida adulta, os membros da fratria privilegiavam a relação entre si.
Shelby: Acho que isso deixou a gente mais próxima… do que outras gêmeas, provavelmente do que a maioria dos outros irmãos.
Aaron e Hannah também falaram de como a comunicação e o fato de terem uma experiência compartilhada permitiram a relação próxima de que desfrutam hoje como adultos.
Aaron: Sinto que a gente tinha esse tipo de compreensão e de respeito um pelo outro que ajudou a construir uma relação muito mais próxima, e a gente conseguia se comunicar melhor, se entender um pouco melhor, e eu provavelmente conseguia te provocar um pouco mais fácil. [É] a gente, a gente tem uma relação bem única e bem saudável mesmo…
Anna e Karen retomaram a ideia de que a experiência compartilhada do que lhes aconteceu, e o fato de terem sido criadas por uma mãe com vivência de sofrimento psíquico, havia alimentado na relação uma proximidade que não existiria sem essa experiência. Parte dos membros das fratrias sentia, mesmo na vida adulta, vontade de proteger a irmã ou o irmão e a necessidade de cuidar dela ou dele. O humor era um componente importante, e a capacidade de fazer piada e rir dos momentos difíceis ficou evidente na relação durante as entrevistas, em momentos de humor e de riso.
As pessoas que narravam tinham consciência da ideia de que o sofrimento psíquico “passa de geração em geração” nas famílias, com a possibilidade de que elas mesmas viessem a vivê-lo. Havia uma determinação em não repetir, quanto à própria saúde psíquica, as experiências vividas.
Anna: Eu sempre achei que era tão inevitável que a gente fosse ter problemas de saúde mental, sempre achei que isso estava escrito na… na nossa genética, e eu não ia deixar isso acontecer de jeito nenhum.
Os membros da fratria contaram que não queriam viver o sofrimento vivido pela mãe, e isso havia aumentado sua vigilância em relação ao próprio bem-estar ao entrar na vida adulta.
Shelby: … a gente sabe como seria se uma de nós começasse a ficar daquele jeito. Isso era essencial, que eu consigo… e tinha uma sensação de, tipo, eu vou conseguir ver isso em mim se eu começar a adoecer, de tão cercadas disso que a gente estava.
Os membros da fratria pareciam querer deixar claro uns aos outros que o apoio seria mútuo e que era permitido a cada pessoa ter suas próprias dificuldades.
Anna: Sinto que a gente consegue se apoiar desse jeito, porque a gente enxerga as pequenas nuances no nosso comportamento, nossos próprios tipos de dificuldade de saúde mental.
Grande parte da linguagem usada pelas pessoas participantes para falar da prevenção do sofrimento psicológico refletia os discursos sociais atuais sobre saúde mental e medicação, que as haviam ajudado a cuidar de si e a priorizar o próprio bem-estar. Nesse sentido, parte dos membros das fratrias disse conversar mais abertamente com o círculo de amizades sobre o próprio bem-estar psíquico e recorrer aos recursos disponíveis, como os serviços de aconselhamento em instituições de ensino. Os membros da fratria pareciam se posicionar como defensores de atitudes menos negativas em relação ao sofrimento psíquico em seus contextos pessoais, e a ressignificação dessa posição também parecia contribuir para o seu bem-estar.
As pessoas participantes deste estudo coconstruíram suas relações fraternas como “muito próximas”, e suas identidades fraternas, umas em relação às outras, assim como suas identidades individuais, como profundamente moldadas pela condição de filhas e filhos de um pai ou mãe com SPP. A proximidade descrita parecia contribuir para o bem-estar e a resiliência, afirmando uma identidade fraterna compartilhada e uma proximidade que se prolongavam na vida adulta. Havia uma narrativa marcante de ter sobrevivido e prosperado apesar de situações de vida desafiadoras e estressantes relacionadas ao SPP. Essa história parece particularmente importante de ser contada, pois contradiz o discurso dominante que apresenta as crianças que convivem com o SPP como especialmente vulneráveis e em risco (por exemplo, Goodman et al., 2011; HM Government, 2018), e reforça a perspectiva de que são outros determinantes, e não o sofrimento psíquico em si, que agravam o risco e a vulnerabilidade dessas crianças (Rutter & Quinton, 1984). Ela aponta também para o potencial protetor de relações fraternas próximas em famílias que convivem com o SPP. Os pares fraternos deste estudo pareciam ter enfrentado de forma relativamente sólida os estressores associados ao SPP. Não só conseguiram recorrer a seus próprios recursos, como também puderam apoiar a irmã ou o irmão e/ou receber apoio dela ou dele.
Os membros da fratria relataram como as relações fraternas foram afetadas pelo SPP em vários níveis, cada pessoa contando as posições, os papéis e as responsabilidades assumidos na família conforme o SPP exigia. Nessas fratrias, a estrutura tradicional dos subsistemas familiares havia sido rompida, com parte de seus membros adotando uma posição parentificada (Byng-Hall, 2008; Minuchin, 1974). Essas pessoas também tendiam a encenar esse papel durante a entrevista, mostrando uma “competência precoce” (Aldridge & Becker, 1999, p. 9) ao relatar as responsabilidades adicionais assumidas na infância. Parecia que, quando um membro da fratria assumia uma posição de ação afirmativa, o outro assumia uma posição que a equilibrava, mantendo uma forma de homeostase e talvez espelhando o sistema parental (Crittenden & Dallos, 2009). Alguns membros das fratrias reconheceram que a relação fraterna tinha sido, por vezes, menos coesa, e a descreveram como tumultuada, por causa das posições assumidas em relação às experiências da família e ao SPP. Assim, quando um membro da fratria adotava um papel parentificado, esse papel podia gerar conflito para o par fraterno. Apesar dessas rupturas em torno de papéis e transições, para as pessoas participantes deste estudo a relação fraterna pareceu sobreviver, prosperar e ser protetora ao longo do tempo. Isso evidencia com força o impacto duradouro que o SPP pode ter nas relações familiares. Assim, é importante considerar como as responsabilidades e a parentificação que, para parte das famílias, acompanham a convivência com o SPP podem interferir no apoio que membros de uma fratria poderiam oferecer uns aos outros ou perturbá-lo.
No presente estudo, a parentificação recaía com mais frequência sobre a pessoa mais velha da fratria. Há registros de que as crianças mais velhas de uma fratria podem se sentir na obrigação de assumir um papel parental ou de reprimir sentimentos negativos quando há crises na família (Van Parys & Rober, 2012), o que também apareceu em algumas das histórias deste estudo. Além disso, o papel parecia ter perdurado na vida adulta e se tornado uma parte importante da identidade dessas pessoas. Apesar disso, membros das fratrias relataram o medo, a incerteza e o trauma sentidos em alguns momentos da infância. Algumas das pessoas que narravam falaram de uma relação “emaranhada” com o pai ou a mãe em sofrimento e com a irmã ou o irmão, o que gerava conflito interno e na relação com a fratria e com o pai ou a mãe.
Os períodos de transição pareceram particularmente significativos na relação fraterna, especialmente quando a pessoa mais velha da fratria estava pronta para sair de casa. Este estudo mostrou como papéis podem ser assumidos por outros membros da fratria ao longo do tempo, por exemplo, quando uma criança mais nova assume um papel de cuidado no momento em que a outra sai de casa (Byng-Hall, 2008). A mudança na estrutura hierárquica de poder dentro da família pode ter tido implicações negativas para as relações fraternas. Os membros da fratria relataram o desafio de se separar ou de permanecer em casa, adotando novas identidades conforme o contexto, com consequências variadas para a relação fraterna naquele momento.
Quanto à forma de dar sentido ao SPP, a maioria dos membros das fratrias compartilhava a compreensão de que, embora cada pessoa tivesse vivido acontecimentos semelhantes, suas experiências individuais e, portanto, o sentido atribuído a elas, haviam sido diferentes. Isso se refletia no posicionamento de cada pessoa e no papel que adotou no sistema familiar, e parecia ser influenciado por eles. A pesquisa identificou que a ausência de conversas sobre o estresse vivido em casa resultava em falta de compreensão do que estava acontecendo, o que parecia intensificar os sentimentos de preocupação e confusão na fratria. As crianças mais novas, em particular, descreveram uma compreensão menos clara do SPP. A pesquisa tem mostrado de forma consistente que a falta de comunicação nas famílias sobre o SPP (Gammage & Nolte, 2020), e o consequente risco de confusão, preocupação e autoculpabilização nas crianças (Mordoch, 2010), podem ter um impacto negativo significativo sobre o bem-estar infantil. A literatura existente aponta para o efeito protetor de uma compreensão clara e coerente do SPP (Beardslee et al., 2003). Esse achado é, portanto, significativo, por chamar a atenção para a forma como a posição e o papel de uma criança na família podem influenciar a construção dessa compreensão.
Por fim, em relação às estratégias de enfrentamento, os pares fraternos pareciam ter lidado com o SPP de maneiras bem diferentes. Todos os membros das fratrias sentiam não ter tido controle sobre a situação ao crescer com o SPP. As estratégias adotadas iam desde assumir um papel parental, oferecendo cuidado e proteção ao outro membro da fratria, até criar certa distância (por exemplo, ficar longe da casa da família) para lidar com o estresse. Mais tarde, na adolescência e na vida adulta, havia o reconhecimento de que desenvolver uma amizade com a irmã ou o irmão ajudou a manter a proximidade da relação e apoiou o enfrentamento. Contar com estratégias de enfrentamento e com uma relação positiva com a irmã ou o irmão na vida adulta parecia ter ajudado os membros da fratria a dar sentido às suas experiências.
Há implicações claras para o trabalho com crianças de famílias que convivem com o SPP. Este estudo reforça a consciência sobre o impacto potencial do SPP para todos na família, inclusive as crianças. O SPP continua não sendo investigado de forma consistente pelas profissões de ajuda (Polkki et al., 2004), e este estudo destaca mais uma vez a necessidade de explorar o bem-estar parental e de recorrer a práticas sistêmicas familiares nos encontros com as famílias. Incluir essa informação na avaliação reconhece que o SPP pode contribuir para as dificuldades emocionais de uma criança e oferece à família um modelo de transparência ao falar do SPP. Além disso, destaca mais uma vez que é crucial que as equipes clínicas dos serviços de adultos se tornem mais abertas e curiosas sobre o impacto do sofrimento psíquico na parentalidade e reconheçam seus efeitos sobre as crianças (Cleaver et al., 2011).
Além disso, o foco na fratria evidencia a necessidade de serviços centrados na família e que a incluam. Em particular, destaca áreas importantes para o trabalho familiar no contexto do SPP. Em primeiro lugar, parece importante reconhecer e, quando apropriado, facilitar o apoio que membros de uma fratria podem oferecer uns aos outros (Abbey & Dallos, 2004; Rosenberg, 1980). No entanto, esse potencial pode ser perturbado pelos papéis e responsabilidades atribuídos à fratria dentro da família. Por isso, abrir conversas sobre esses papéis e suas implicações para os indivíduos e para as relações na família pode ser particularmente útil (Byng-Hall, 2008), e considerar reservar um tempo para atender a fratria sem o restante da família poderia mobilizar forças e apoiar ainda mais essa relação fraterna (Bank & Kahn, 1975; Lewis, 1986). Além disso, embora se saiba que a forma como as crianças dão sentido ao SPP é significativa para o enfrentamento e o bem-estar (Mordoch, 2010), o presente estudo evidencia como o papel e a responsabilidade de uma criança na família podem afetar a construção dessa compreensão. Isso indica à clínica que alguns membros de uma fratria podem precisar de mais apoio do que outros para chegar a uma compreensão coerente do SPP.
Este estudo mostrou mais uma vez o impacto do SPP sobre a família ampliada e o fato de que, para as crianças, esses impactos se estendem até a vida adulta. A pesquisa destacou a importância potencial das relações fraternas em famílias que convivem com o SPP. Tratou-se de um estudo com uma amostra pequena de pessoas de origem cultural britânica branca, e é plausível que um subconjunto específico de fratrias tenha se apresentado para participar. Os quatro pares fraternos que participaram do estudo relataram experiências positivas e de apoio, e as narrativas de fratrias com relações mais conturbadas, de pares de irmãos homens e de fratrias de origens étnicas diversas não estão presentes neste estudo. Embora essas limitações sejam reconhecidas e não haja intenção de generalizar os achados, o estudo destaca algumas implicações importantes para a prática sistêmica. Os papéis e responsabilidades fraternos, como a parentificação, e os momentos de transição, como a saída de casa, foram identificados como tendo implicações potencialmente importantes para os indivíduos e para as relações fraternas. A conversa familiar (ou sua ausência) e a construção de sentido individual e coletiva se mostraram significativas para o enfrentamento e o bem-estar. Esses aspectos têm implicações potencialmente importantes e merecem mais atenção clínica e de pesquisa, incluindo pesquisas que examinem como a cultura influencia os papéis, as relações e a construção de sentido na fratria, bem como o modo como as experiências e os papéis fraternos no contexto do SPP afetam a própria parentalidade dessas pessoas na vida adulta.
Complexe Systémique: a reter
Estudo pequeno, grande ponto cego: nos serviços de adultos, trata-se um pai ou uma mãe sem necessariamente ver a fratria que se organiza ao redor. Esses relatos mostram uma fratria que funciona como um subsistema de pleno direito, com sua hierarquia, seus códigos secretos e sua homeostase: quando uma pessoa ocupa o lugar do pai ou da mãe, a outra se retrai, e o equilíbrio se reencena até na entrevista. Três referências para a clínica. Primeiro, a parentificação não é só um fardo: é também fonte de orgulho e de identidade, que vale mais reconhecer do que denunciar. Segundo, as transições (ida para a universidade, saída de casa) redistribuem os papéis e despertam a culpa de quem parte. Terceiro, o silêncio familiar sobre a doença pesa sobretudo sobre as crianças mais novas: atender a fratria sozinha, sem os pais, pode abrir espaço para coconstruir uma narrativa coerente. Limite a ter em mente: quatro pares voluntários, brancos, britânicos e bastante unidos. Para ler junto com o artigo sobre a parentificação e com o artigo sobre o vínculo fraterno.
Notas do original
Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver conflitos de interesse.
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Tradução não oficial em português de Relatos fraternos sobre o sofrimento psíquico parental, de Wendy O'Neill, Pieter W. Nel, Nic Horley e Lizette Nolte, Journal of Family Therapy, vol. 46, no 2 (2024), doi: 10.1111/1467-6427.12452, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Sibling stories of parental mental distress”, publicado em Journal of Family Therapy (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
O'Neill, W., Nel, P. W., Horley, N., et Nolte, L. (2024). Relatos fraternos sobre o sofrimento psíquico parental (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/relatos-fraternos-sobre-o-sofrimento-psiquico-parental (Obra original publicada em 2024 em Journal of Family Therapy, 46(2), 121-139 (2024); republicada em 2024 por Journal of Family Therapy, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/1467-6427.12452)
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