Red Sistémica · Violência
A violência filio-parental (VFP) aumentou de forma exponencial nos últimos anos e abriu um espaço próprio no campo complexo da violência intrafamiliar. Ela sempre existiu, mas sempre ligada a outros problemas (psicopatologia grave etc.). A que aparece hoje é um novo modelo de VFP, no qual a violência é o cerne do problema e não mais uma circunstância de uma problemática mais ampla. Este artigo propõe uma compreensão ecossistêmica da VFP, que inclui fatores sociais, educativos, individuais e familiares. Depois de defini-la, os autores enumeram e descrevem as variáveis ligadas à gênese e à manutenção dessa problemática, dando atenção especial às áreas do funcionamento familiar afetadas e às dinâmicas relacionais características dos lares em que tais episódios ocorreram.
Palavras-chave: violência filio-parental, limites, hierarquias e segredos familiares.
“Poucas coisas desmontam mais o nosso ideal de família do que a inversão da sequência natural que representa o fato de um filho bater em um dos pais.”
Roberto Pereira Tercero e Lorena Bertino Menna
Os meios de comunicação refletiram, ao longo dos últimos três anos, um aumento espetacular daquilo que podemos chamar de terceiro tipo de violência intrafamiliar. Historicamente, prestou-se atenção primeiro à violência dos pais contra os filhos, depois à violência conjugal; hoje emerge a violência filio-parental (VFP).
Os relatórios judiciais desses anos registram um aumento notável das denúncias de pais agredidos por seus filhos: elas foram multiplicadas por oito na Catalunha no período 2000-20041, por três no País Basco entre 2002 e 20032, ou por catorze de 2000 a 2004 na Comunidade Valenciana3.
Isso não significa que ela não existisse antes; mas ela emerge diante da opinião pública como se fosse um fenômeno novo, e tanto os profissionais quanto a sociedade em seu conjunto começam a prestar atenção a um problema que se concebia, no passado, como um daqueles que acompanham patologias moderadamente graves.
Na realidade, esse fenômeno não tem nada de processo estranho: o mesmo aconteceu com os outros tipos de violência intrafamiliar. Tanto os maus-tratos infantis quanto a violência conjugal são situações enraizadas há muitos anos no seio da família. Somente sua definição como inadequadas e prejudiciais, assim como o esforço para trazê-las à luz, modificou a visão fragmentada que se tinha delas, favorecendo a emergência social de um problema oculto. Da mesma maneira, a VFP permanecia dissimulada como um dos conflitos apresentados por uma família portadora de outras disfunções.
Mas outro fator foi decisivo nessa aparição súbita da VFP: a emergência de um novo perfil de violência, localizado em famílias aparentemente normalizadas, exercida por filhos que não apresentavam problemas antes, e que são responsáveis por esse aumento espetacular das denúncias judiciais.
Descreveremos mais adiante esses dois tipos de violência mas, antes, definiremos o que entendemos por violência, e por VFP.
A Organização Mundial da Saúde define a violência como “toda ação ou omissão intencional que, dirigida a uma pessoa, tende a causar-lhe um dano físico, psicológico, sexual ou econômico” (OMS, 2002). Encontramo-nos, portanto, diante de diversos tipos de violência (física, psicológica, negligência, abuso sexual, maus-tratos econômicos, vandalismo), que podem, além disso, ser classificados segundo o contexto em que ocorrem: intrafamiliar, político, escolar, profissional etc.
É necessário estabelecer uma distinção entre agressividade e conduta violenta. A primeira, de natureza relacional, faz parte da experiência humana e não produz necessariamente dano no interlocutor. A conduta violenta, ao contrário, não faz parte do modo de ser: ela constitui uma conduta aprendida e, como tal, pode ser mudada. Além disso, ela é natural em seu próprio contexto e só se torna perturbadora quando é descontextualizada (Abeijón, 2006). Assim, por exemplo, jogadores de rúgbi podem se atracar violentamente durante todo o jogo sem que sua conduta seja qualificada de intolerável. Mas se esses mesmos jogadores, terminada a partida, reproduzirem em outro lugar a mesma conduta, é muito provável que a polícia acabe intervindo.
Situamo-nos em um ponto de partida sistêmico, no qual consideramos ao mesmo tempo uma linearidade e uma circularidade da conduta violenta. A violência deve ser abordada legalmente, em um contexto linear, em que se estabelece uma diferenciação entre vítimas e agressores. Mas ela deve também ser compreendida tecnicamente, e é com esse objetivo que introduzimos a circularidade, como uma ferramenta útil para compreender o processo em que interagem os participantes da conduta violenta (Lamas, 2000).
Linearidade
O registro legal: a violência deve ser abordada distinguindo vítimas e agressores.
Circularidade
O registro técnico: compreender o processo em que interagem os participantes da conduta violenta.
Entendemos esse tipo de violência como o conjunto das condutas reiteradas de agressão física (golpes, empurrões, arremesso de objetos), verbal (insultos repetidos, ameaças) ou não verbal (gestos ameaçadores, quebra de objetos de estimação), dirigidas contra os pais ou contra os adultos que ocupam o lugar deles (Pereira, 2006).
Golpes, empurrões, arremesso de objetos.
Insultos repetidos, ameaças.
Gestos ameaçadores, quebra de objetos de estimação.
Estão incluídas, portanto, as ameaças e os insultos, sejam eles por gestos ou por palavras, as agressões físicas de todo tipo, ou a quebra deliberada de objetos aos quais a pessoa agredida dá valor. Além disso, a violência deve ser dirigida contra os pais ou contra as figuras parentais que os substituem: tutores, educadores etc.
Não entra nessa definição, portanto, a violência ocasional, sem antecedentes e que não se repete. Isso exclui, de maneira quase geral, o parricídio, que apresenta características particulares que o distinguem desse tipo de violência e que constitui, com frequência, um episódio único, sem antecedentes registrados.
Também estão excluídas a agressão sexual contra os pais e os ataques premeditados com armas letais, considerados como pertencentes a um perfil diferente, assim como a violência que aparece em um estado de diminuição importante da consciência (autismo ou deficiência intelectual grave) e que não se repete quando esse estado cessa: violência durante intoxicações, transtornos mentais orgânicos, transtornos do curso ou do conteúdo do pensamento etc.
A violência que se apresenta nesses casos excluídos faz parte daquele modelo tradicional a que nos referimos acima: por exemplo, as agressões contra os pais cometidas por um dependente químico em busca de dinheiro ou de droga em plena síndrome de abstinência, os ataques de um esquizofrênico impelido por seus delírios ou alucinações, ou as agressões produzidas em um estado crepuscular são algumas ilustrações disso.
Incluímos também nessa VFP tradicional:
A nova VFP compartilha com os outros modelos a busca de controle e de poder na família, embora se distinga deles pela busca de objetivos. O novo perfil designa as agressões exercidas por crianças, adolescentes e jovens aparentemente normalizados, oriundos de todos os meios sociais, com condutas violentas mais ou menos extensas, que sempre incluem o âmbito familiar e, muito frequentemente, limitam-se a esse contexto. A faixa etária dos agressores é ampla, embora a VFP seja mais frequente na adolescência, e não é raro que se trate de meninos e meninas que, não apenas não são agressivos fora de casa, como até apresentam em outros contextos condutas superadaptadas. O consumo de substâncias é habitual, mas não mais do que na população da sua idade (Romero Blasco et al., 2005).
As pessoas agredidas são os adultos responsáveis por sua educação, de qualquer idade e de qualquer gênero, embora isso seja mais frequente entre os pais mais velhos, nas famílias monoparentais, e ainda mais entre as mães do que entre os pais (Gallagher, 2004; Ibabe, 2007).
É uma violência que geralmente se produz em escalada: costuma começar com insultos e desqualificações, passa às ameaças e à quebra de objetos, e termina em agressões físicas cada vez mais severas. É um processo que pode durar anos, e é preciso ressaltar que ele não comporta um fim predeterminado: a violência cresce progressivamente e não para, mesmo quando se obteve uma submissão absoluta, uma dominação e um controle completos pelo terror.
Não existem estudos confiáveis de prevalência e incidência, mas constata-se, principalmente pelos relatórios judiciais, seu aumento constante nos últimos anos. Dados dos Estados Unidos indicam que 25% das ligações telefônicas para as associações contra os maus-tratos intrafamiliares provêm de pais agredidos por seus filhos. Cyrulnik (2005) aponta uma incidência estimada que varia entre 1% das famílias francesas, 4% das famílias japonesas e 6% das famílias americanas, e acrescenta que “em uma única geração, o fenômeno dos pais espancados adquiriu dimensões mundiais”.
As mudanças sociais ocorridas ao longo das últimas décadas na maior parte do mundo – e muito especialmente na sociedade ocidental – favoreceram extraordinariamente o aparecimento de novas dinâmicas que modificaram os equilíbrios de poder no interior da família, assim como no outro grande sistema educativo: a escola.
A partir da segunda metade do século XX, passou-se de um sistema claramente autoritário a outro, democrático mas mal compreendido, no qual se assimila democracia a ausência de autoridade, e a igualdade na hora de tomar as decisões. Na Espanha, isso ocorreu mais tardiamente e de maneira mais acelerada, paralelamente à transição política.
O modelo hierárquico familiar e social é questionado, mas apenas de maneira formal, já que a responsabilidade educativa continua sendo atribuída, legal e socialmente, aos pais e aos educadores. Não se lhes retira a responsabilidade mas, com frequência, a autoridade, assim como alguns dos meios habitualmente utilizados para mantê-la.
Outras mudanças sociais, que ocorrem em paralelo, aumentam a dificuldade dos pais e dos educadores em manter sua autoridade:
– A diminuição do número de descendentes, com um aumento importante dos filhos únicos, situação que atinge seu paroxismo na China, onde é instituída por lei. Os filhos, cada vez mais raros, tornam-se frequentemente um tesouro que é preciso mimar e cuidar com muita delicadeza, ao qual é preciso dar atenção sempre e em toda parte: os reis da casa.
– As mudanças dos modelos familiares. A família nuclear vê sua presença diminuir progressivamente, a ponto de representar hoje menos de 50% dos modelos familiares na sociedade ocidental. Outras tipologias, como as famílias monoparentais ou reconstituídas, de acolhimento ou adotivas, ocupam um espaço cada vez maior. Em todos esses novos modelos, por razões próprias a cada um embora bastante semelhantes entre si, a manutenção da autoridade do pai, da mãe ou de ambos torna-se mais difícil.
– As mudanças do ciclo de vida familiar, com um recuo progressivo da idade média em que se têm filhos, o que produz pais mais velhos, com menos energia para brigar com os filhos a fim de manter a disciplina e colocar limites.
– As mudanças do mundo do trabalho, com a plena entrada das mulheres no mercado de trabalho e o aumento do número de horas que é preciso passar fora de casa – jornadas intermináveis ou longos deslocamentos –, que dão origem ao que se chama de filhos da chave. O número de horas de contato com os filhos diminui, volta-se cansado para casa e, no pouco tempo passado com eles, tenta-se evitar ao máximo as situações de tensão. Eliminam-se os atos que geram frustração, em busca de uma harmonia familiar que não sobrecarregue ainda mais o pai ou a mãe cansados. Instaura-se então uma educação permissiva, cuja consequência é a dificuldade de colocar limites e de se fazer respeitar.
E quando são outros membros da sociedade que tentam colocar esses limites, não é raro observar que os pais se aliam indistintamente ao filho, enfrentando, às vezes violentamente, os professores que tentam educar sem a colaboração dos pais. Esse enfrentamento entre família e sistema educativo levou à perda frequente de uma colaboração indispensável, assim como à indiferença e ao absenteísmo de muitos professores esgotados pela falta de apoio de todo tipo no cumprimento de seu trabalho.
– A evolução da sociedade rumo a um modelo educativo fundado mais na recompensa do que na sanção, na tolerância mais do que na disciplina, levou a restringir de maneira significativa a capacidade de sanção dos educadores. Há muito tempo retirou-se dos professores e mestres a possibilidade de utilizar a quase totalidade das punições. Agora, retira-se essa capacidade de sanção dos pais, que não podem mais punir fisicamente seus filhos.
Paralelamente, e de maneira incoerente, a sociedade é cada vez mais permissiva com a violência dos filhos. As mensagens violentas se multiplicam na mídia, a televisão e os videogames ensinam às crianças e aos jovens as mil e uma maneiras de resolver seus problemas pela violência, enquanto a idade da responsabilidade penal recua e a responsabilidade legal se relativiza.
– Por fim, não se pode deixar de apontar a deriva social rumo a um hedonismo e um niilismo crescentes, com uma desorientação geral importante quanto ao caminho a seguir e uma perda das referências de valores que guiariam os membros das famílias no difícil trabalho da educação.
Encontramo-nos, portanto, diante de um modelo social que concede uma importância cada vez maior à infância e à juventude, esta última designada como a melhor idade da vida, que se tenta prolongar indefinidamente. A permissividade com as condutas dessas idades aumenta enquanto, simultaneamente, privam-se os responsáveis pela educação dos instrumentos coercitivos necessários para exercê-la. O espaço familiar privado se reduz, e os sistemas sociais, legais – o público – intervêm cada vez mais naquilo que antes era o santuário familiar. Não há dúvida de que essa invasão do privado pelo público apresenta aspectos positivos, como a luta contra os maus-tratos e o abuso sexual, por exemplo; ela comporta, no entanto, também alguns efeitos colaterais: ao retirar dos educadores e dos pais a delegação social para a administração e a utilização de instrumentos coercitivos, estes ficam apenas nas mãos da Administração.
Não é de se estranhar, portanto, que encontremos, cada vez com mais frequência, educadores e pais que renunciam à sua função e a delegam ao Estado. Torna-se corrente que os serviços sociais ou judiciais se vejam diante de pais que renunciam explicitamente à autoridade parental e entregam seus filhos à administração para que ela se encarregue deles. Sobrecarregados por uma situação complexa, com poucos recursos para enfrentá-la e responsabilizados por uma sociedade que os culpa pela má conduta de seus filhos, eles acabam por capitular e por passar a batata quente para quem reservou para si a exclusividade da capacidade disciplinar e coercitiva.
Para lembrar
Para os autores, a sociedade contemporânea produz uma dupla incoerência: ela continua atribuindo aos pais e aos educadores a responsabilidade pela educação ao mesmo tempo que os priva da autoridade e dos meios de exercê-la, e se mostra cada vez mais permissiva com a violência dos jovens. Com os instrumentos coercitivos ficando apenas nas mãos da Administração, cada vez mais pais sobrecarregados acabam delegando a ela sua função.
Paralelamente a essas mudanças sociais, diversos autores tentaram correlacionar os estilos educativos com a VFP.
Peek e Fisher (1985), em um amplo estudo com uma amostra de alunos dos últimos anos do ensino médio americano, interrogaram os alunos sobre situações de VFP ocorridas ao longo de três anos e sobre os estilos de exercício da autoridade e do controle (power style) em suas famílias, e encontraram uma relação nítida entre os dois fatores. Em seguida, correlacionaram suas observações de VFP com quatro estilos educativos: a) estilo punitivo e não rigoroso; b) estilo rigoroso mas não punitivo; c) estilo nem punitivo nem rigoroso; d) estilo violento. Seus resultados mostraram uma relação nítida entre os estilos violento (uma violência generalizada na família, exercida de maneira habitual) e punitivo mas não rigoroso (isto é, mais arbitrário e sem normas claras) e a VFP.
Gallagher (2004) propõe um modelo semelhante ao correlacionar a VFP com dois estilos educativos: o permissivo-liberal e o autoritário-violento.
Na linha dessas propostas, encontramos, em nossa casuística, uma correlação nítida entre esses estilos educativos e a VFP, embora possamos estabelecer diferenças entre a nova e a tradicional VFP quanto aos estilos educativos.
A nova VFP estaria mais ligada ao estilo permissivo-liberal (ou punitivo não rigoroso), no qual não se estabelecem normas claras e não há exercício coerente da autoridade. Quando se tenta aplicar normas ou punições, elas se revelam arbitrárias e geram uma frustração maior. Os filhos são frequentemente superprotegidos, dá-se a eles tudo o que pedem quase sem exigências, de modo que acabam se tornando tiranos, com baixa autoestima e um baixo nível de tolerância à frustração e de empatia.
Essa arbitrariedade na imposição das normas e da autoridade, assim como a satisfação imediata dos desejos dos filhos, podem decorrer tanto da existência de uma interação fusional com o pai ou a mãe, na qual a relação prevalece sobre a educação, quanto de uma incapacidade de estabelecer normas coerentes em razão de desacordos entre os pais ou de conflitos entre eles.
O estilo educativo autoritário e violento gera com frequência famílias multiviolentas, nas quais as agressões servem para resolver os conflitos. Toda rebeldia é sancionada com mais punições, ameaças, humilhações ou violência. A autoridade não se negocia e é exercida de maneira rígida e inflexível. A VFP aparece aqui como defensiva, protetora, de retaliação, ou ligada a uma psicopatologia grave.
Um terceiro estilo educativo, apontado por Ibabe et al. (2007) ao citar Laurent e Derry (1999), seria o estilo negligente-ausente, no qual os pais abdicam de seu papel, declaram abertamente que não cabe a eles colocar as normas e que os filhos (independentemente de sua idade e de suas capacidades cognitivas) já são grandes o bastante para saber o que devem fazer. Eles geram no menor uma pseudoindependência, quando não uma parentalização. Os filhos usam a violência para tentar se impor ou, ao contrário, para rejeitar o papel em que são colocados. Encontram-se aqui os dois tipos de VFP, a tradicional e a nova.
Nova VFP
Estilos educativos permissivos e negligentes; fusão emocional entre o jovem violento e o pai ou a mãe agredidos; a violência como tentativa primitiva de afastamento em uma relação em que a educação é sacrificada à manutenção do vínculo.
VFP tradicional
Estilos educativos autoritários e negligentes; violência intrafamiliar prévia ou psicopatologia grave; a violência como conduta defensiva, modo aprendido de resolução dos conflitos ou expressão patológica.
Em resumo, a nova VFP está ligada a estilos educativos permissivos e negligentes; ela se relaciona principalmente à fusão emocional entre o jovem violento e o pai ou a mãe agredidos, e se conceitualiza como uma tentativa primitiva de afastamento em uma relação em que a educação (entendida como o ato de colocar limites e normas e, portanto, de gerar frustração) é sacrificada à manutenção da relação (extremamente próxima, fusional, criada e mantida por ambos).
A VFP tradicional estaria associada a estilos educativos autoritários e negligentes, com uma violência intrafamiliar prévia ou uma psicopatologia grave em um ou vários membros da família. A violência aparece como uma conduta defensiva, como a maneira aprendida de resolver os conflitos e de baixar a tensão, ou como uma expressão psicopatológica ou de uma diminuição transitória da consciência.
Além dos fatores sociais e familiares – que abordaremos em seguida –, existe uma série de variáveis individuais associadas aos agressores na VFP.
Foi apontada uma série de características de personalidade que aparecem com mais frequência nos agressores: baixa autoestima, egocentrismo, impulsividade e ausência ou diminuição da capacidade empática. As duas últimas, frequentes mas nem sempre presentes, costumam estar associadas a certos transtornos que veremos mais adiante.
A baixa autoestima e o egocentrismo são duas das características percebidas com mais frequência, embora não exclusivamente, nos jovens violentos, e estão ligadas, segundo H. Omer (2007), às mudanças do modelo educativo. Segundo esse autor, as avaliações realizadas – nos anos 1980 e 1990 – sobre a evolução da educação rumo a um modelo mais permissivo, centrado nos estímulos positivos mais do que na superação das dificuldades, mostraram que a autoestima dos jovens havia diminuído. Parece que esta está mais ligada à percepção de ser capaz de enfrentar obstáculos e superá-los por si mesmo do que à conotação positiva dos êxitos. Em outras palavras, a título de exemplo, passar automaticamente de ano sem ter sido aprovado nas provas não gera uma alta autoestima, mas justamente o contrário; e quanto mais se facilitam as coisas para as crianças e os adolescentes, quanto menos esforço eles precisam fazer para enfrentar os problemas, menos autoestima eles sentem.
Outro fator que influi na emergência e na manutenção da VFP é o consumo de substâncias. Embora não constitua uma variável central – como já assinalamos –, ele favorece o aparecimento de condutas violentas em qualquer idade e em qualquer contexto.
A VFP também se associa, com certa frequência, à presença de uma psicopatologia diversa:
Está atualmente na moda e é objeto de uma forte pressão para que seu diagnóstico se estenda aos adultos. Apresenta uma série de características frequentemente associadas à VFP: impulsividade, baixa tolerância à frustração, consumo frequente de substâncias etc.
Na hora de diagnosticar esse transtorno na VFP, é preciso distinguir cuidadosamente se sua presença se manifesta exclusivamente nas relações familiares ou em qualquer contexto: profissional, escolar, na sala de terapia etc. No primeiro caso, teríamos aí indícios de que a conduta responde apenas a interações específicas do núcleo familiar.
São frequentemente diagnosticados nesse tipo de fenômeno, embora seja preciso ressaltar que não estão necessariamente ligados a ele: em alguns casos de transtornos de personalidade, a VFP aparecerá, e apenas alguns sujeitos que exercem uma VFP poderão receber tal diagnóstico.
A VFP se compreende no contexto de uma necessidade patológica de atenção, sendo válido qualquer recurso para obtê-la. Pouco frequente.
Grandiosidade, ausência de empatia; os outros são vividos como pessoas insignificantes que não têm nenhum direito de obstruir os objetivos perseguidos. Qualquer meio é válido para obter o que se quer, inclusive a violência.
Conduta instável, imprevisível, alteração da identidade e da relação, que pode levar ao aparecimento de uma VFP.
Ausência de empatia, frieza afetiva, recurso a qualquer método para atingir seus objetivos, controle e manipulação relacional: o exercício de uma VFP não é raro nesses jovens.
Diante desses casos de personalidade antissocial, devemos prestar atenção especial à existência de um padrão de violência geral ou de conduta delituosa, ou ao fato de que ela ocorre exclusivamente no interior da família. Se for esse o caso, e embora todas as intervenções exijam uma abordagem familiar, ficaria evidente que a intervenção deve incidir sobre o circuito relacional violento mais do que sobre o indivíduo agressor.
Em nossa experiência – que coincide com a de alguns autores como Mouren et al. (1985) –, a nova VFP se associa com mais frequência a transtornos do registro ansioso, em particular fóbicos e obsessivos: crianças e jovens exigentes e tirânicos em casa, mas dóceis e temerosos fora dela – sobretudo na escola. Não é raro, nesses casos, ver aparecerem compulsões ou sintomas fóbicos como a agorafobia ou a fobia escolar.
Em nossa opinião, nas famílias que apresentam o novo perfil de VFP, observa-se uma série de dinâmicas relacionais características, que nos propomos a descrever a seguir.
Para compreendê-las, é necessário assinalar que o modelo sistêmico concebe a violência familiar como o resultado de uma interação determinada entre os diferentes membros da família, ao longo da qual os papéis de vítima e de agressor podem se intercambiar, como descreveram os autores sistêmicos de referência sobre a violência familiar. Como explicamos, para poder intervir com mais chances de sucesso em um contexto psicoterapêutico, devemos tentar compreender o processo pelo qual se chega à conduta violenta. Consegue-se isso introduzindo o conceito de circularidade, isto é, a interação contínua entre os participantes da relação, em um intercâmbio comunicacional que não tem começo nem fim e que se condiciona mutuamente. Se conseguirmos conhecer as interações familiares em torno da conduta violenta, poderemos decifrá-la e encontrar um sentido para ela, o que nos permitirá falar dela e buscar alternativas.
Foi descrita uma série de fatores familiares que favorecem o aparecimento da VFP:
– Uma experiência familiar prévia de utilização da violência para resolver os conflitos. Se o que os filhos aprendem na família é que os desacordos – de qualquer tipo que sejam – levam a um impasse, a uma situação sem saída, e que a violência é um recurso resolutivo que descarrega a tensão criada, é provável que, ao crescer, quando se encontrarem em situações semelhantes, repitam os mecanismos aprendidos na infância para resolvê-las. Em outras palavras, as famílias em que os filhos foram espectadores de maus-tratos frequentes geram mais facilmente filhos maltratantes – com seus pais, ou com seus parceiros e seus filhos no futuro. Nesses casos, a violência pode aparecer de três maneiras diferentes: a) generalizada, em famílias em que a violência é de todos contra todos; b) dirigida contra o agressor, quando a identificação se dá com a vítima dos maus-tratos anteriores; c) dirigida contra a vítima, quando a identificação se dá com o agressor. Este último caso é mais frequente que o anterior: os filhos acabam reproduzindo em espelho a conduta observada, e se juntam aos maus-tratos contra a vítima designada pelo sistema familiar.
Seja como for, é importante ressaltar que, embora a repetição do exercício da violência seja frequente quando se a vivenciou, não se pode afirmar que essa experiência determine um agir agressivo futuro.
– Pais excessivamente permissivos, não normativos, que se propuseram explicitamente a educar seus filhos democraticamente – e muitas vezes o anunciaram assim publicamente – (Cyrulnik, 2005); que mantêm uma relação pais-filhos simétrica desde a mais tenra idade, na qual as normas, mesmo as de primeiro grau – ligadas à sobrevivência imediata dos filhos –, não se impõem mas se negociam, e em que a opinião de cada um tem o mesmo valor.
– Pais superprotetores que, por razões diversas – filho muito desejado, tardio, frágil, acolhido, adotado etc. –, estão dispostos a satisfazer todos os desejos de seus filhos. Anunciam publicamente que amarão seus filhos acima de tudo, façam o que fizerem. Em outras palavras, renunciam não apenas à conduta coercitiva, mas também ao outro instrumento importante para colocar limites: se você não se comportar bem, não poderei te amar.
– Pais insatisfeitos com seus papéis, que expressam frequentemente que sua vida é vazia, desprovida de sentido, e que não sabem por que continuam vivendo. Pais que tiveram seus filhos acidentalmente ou contra a vontade, e que manifestam seu desagrado a esse respeito.
– Pais que mantêm uma relação muito conflituosa e têm o hábito de se desqualificar mutuamente diante dos filhos. O conflito pode levar a uma triangulação, na qual se usa o menor para atacar o cônjuge, buscando sua aliança. Para isso, não se hesita em desqualificar o outro genitor, sobretudo se ele colocou um limite: suspendem-se as punições, desvaloriza-se o que o cônjuge faz, ridiculariza-se e desacredita-se ele. Essa situação leva à incoerência e ao desacordo sobre a maneira de educar os filhos, ou à inadequação dos meios utilizados: as mesmas condutas acarretam punições desproporcionais em alguns casos e passam despercebidas em outros. A arbitrariedade se torna a norma e desacredita toda tentativa de colocar limites coerentes.
– Pais que, por diferentes razões, mantêm uma relação excessivamente próxima, fusional, com um dos filhos. Trata-se geralmente de famílias monoparentais, ou de famílias em que um dos genitores é ausente, frio ou distante. Essa característica é central no aparecimento da nova VFP e se encontra, segundo nossa experiência, na maioria dos casos; pelo menos – ou sobretudo – no início da conduta violenta.
A disfunção familiar se observa fundamentalmente em três das principais áreas do funcionamento familiar (Harbin e Madden, 1979):
A ausência de hierarquia é a principal característica do funcionamento dessas famílias.
Negação, minimização, mito da paz e da harmonia familiar, construção de um segredo.
Fusão emocional entre o agressor e o genitor agredido, prévia ao aparecimento da violência.
A ausência de hierarquia constitui a principal característica do funcionamento dessas famílias, e ela é constante, quer se trate de uma família multiviolenta, monoparental ou com os dois genitores presentes. A dificuldade de estabelecer normas e limites é o que mais chama a atenção quando elas consultam, assim como a confissão do fracasso nesse campo e o pedido de que alguém de fora se encarregue disso.
Nessas famílias, constatamos que um dos genitores – às vezes os dois – abdicou de seu papel, que sua rivalidade os impede de desenvolver procedimentos de estabelecimento das normas, ou então priva estas de toda eficácia. Isso não os impede de atribuir, quase unanimemente, a abdicação do papel educativo à personalidade e à conduta violenta do filho. “Não há nada a fazer” é o leitmotiv que não apenas mascara a incapacidade dos pais de assumir um papel hierárquico, mas gera frequentemente uma falta de colaboração na hora de abordar o problema: se outros o resolvem, é porque não era impossível e, por conseguinte, tenho uma parcela de responsabilidade nisso.
Com frequência, os pais se recusam explicitamente a ser aqueles que impõem as normas – e, portanto, a se tornar responsáveis por seu cumprimento –, declarando que essa não é sua tarefa, ou que ela cabe à escola ou à sociedade. Essa atitude favorece a parentalização de um dos filhos, a quem se delega a pouca autoridade que resta; este, sobrecarregado pela situação, desenvolve condutas violentas como tentativa de controle, que se aplica primeiro aos irmãos mais novos – se houver – e depois se estende ao(s) genitor(es).
O fracasso ou a renúncia a estabelecer uma hierarquia que permita instaurar e manter normas está ligado a vários dos fatores que assinalamos anteriormente: triangulações nas quais se busca a aliança do filho, relação fusional entre o filho violento e um dos genitores, conflitos e rivalidade entre os pais que não permitem a nenhum deles deter a hierarquia familiar etc.
Na VFP, a imagem familiar – tanto a dos pais quanto a dos filhos violentos – está deteriorada. O sentimento de fracasso dos pais na educação, a vergonha de ser agredido por um filho, a proteção da imagem familiar fazem com que quase todas as famílias envolvidas neguem a gravidade da agressão e minimizem seus efeitos, mesmo quando são públicos e evidentes. Isso constitui um sério obstáculo à prevenção e ao atendimento adequados desses casos, que só consultam quando as agressões se tornam públicas por uma razão ou outra.
A deterioração da situação familiar acarreta uma reação que visa justamente a apresentar uma imagem oposta: cria-se assim o mito da paz e da harmonia familiar, visível na maioria dessas famílias até que não se possa mais dissimular a evidência. Para esconder o que se passa, um segredo se constrói progressivamente em torno do funcionamento familiar.
Embora a criação e a manutenção desse segredo sejam típicas de todo tipo de violência intrafamiliar, na VFP a negação é praticamente a regra e atinge extremos graves: toleram-se níveis elevados de agressividade durante um período prolongado antes de se tomarem medidas (Harbin e Madden, 1979).
Vinheta
Na noite de Natal, durante uma das muitas brigas com a filha, esta fere a mãe com uma faca. Como outro de seus filhos deve chegar a qualquer momento, a mãe troca as roupas manchadas de sangue e o recebe sem lhe dizer nada do que aconteceu. Só quando o sangue reaparece em seu vestido, tornando a situação evidente, é que a mãe fala a respeito.4
A manutenção do segredo se caracteriza pela recusa do confronto ou da discussão aberta sobre a conduta violenta, pela minimização desta e de seus efeitos, pela recusa de tomar medidas coerentes (“já que não está acontecendo nada”, não seria coerente fazê-lo) e pela recusa da ajuda externa.
Vinheta
Depois de uma série de perguntas, os pais relatam na sessão o momento em que o filho tentou estrangular o pai com o cabo do videogame porque este o havia desligado da tomada. Nesse instante, a mãe cai em prantos e explica: “essa situação é terrível”. Quando o terapeuta lhe pede para precisar esse comentário, ela responde: “ele teve de passar pela cela da delegacia e, além disso, os amigos dele o viram quando a polícia o levou algemado; ele nunca vai nos perdoar”.
Como se torna cada vez mais difícil manter em segredo o que se passa, o contato com o exterior diminui progressivamente, o que leva a um isolamento que favorece, por sua vez, o aumento da conduta violenta. Esse isolamento pode também resultar de uma exigência do filho agressor, que vê nele uma maior facilidade para atingir seus objetivos. O isolamento favorece então a manutenção do segredo, criando um círculo vicioso que, ao mesmo tempo, agrava o problema.
Entre as razões que permitem compreender essa conduta, podemos citar o mito da harmonia e da paz familiar mencionado acima, a preservação da imagem que os sujeitos têm de si mesmos, o sentimento de fracasso na tarefa parental e, sobretudo, a vergonha de que tudo isso se torne público e de que o fracasso do projeto familiar fique evidente: poucas coisas desmontam mais o nosso ideal de família do que a inversão da sequência natural que representa o fato de um filho bater em um dos pais.
O esforço para manter o segredo e a pretensa harmonia familiar pode levar a tipos de comunicação e de relação típicos das famílias psicóticas: o desvio comunicacional (Wynne e Singer, 1977) e a pseudomutualidade (Wynne et al., 1971).
Cyrulnik (2005), em sua descrição dos jovens agressores, assinala que “todos os adolescentes maltratantes que encontramos haviam sido privados da oportunidade de experimentar o efeito da separação”. Ele observa também que, com muita frequência, eles haviam sido crianças conformistas e ansiosas antes de se tornarem tiranos.
Em quase todas as famílias atendidas no Euskarri aparece a fusão emocional entre o agressor e o genitor agredido, como etapa prévia ao aparecimento da conduta violenta. Essa relação intensa pode parecer estranha, sobretudo se tomamos conhecimento do caso em um estágio já muito avançado, com uma relação pais-filho muito deteriorada; mas, ao explorá-la atentamente, ela aparece na grande maioria dos casos.
Essa relação é mais evidente em uma família monoparental ou que atravessa uma fase de monoparentalidade, mas ela também ocorre em famílias em que os dois genitores estão presentes, por causa de um afastamento ou de um conflito entre eles.
Ela é mais fácil de observar nas famílias monoparentais, em que o filho frequentemente ocupa o lugar do parceiro do genitor, produzindo às vezes uma relação pseudoincestuosa: trocam-se confidências, mesmo as mais íntimas, busca-se apoio mútuo, sai-se junto, compartilha-se o quarto ou a cama.
Vinheta
Quando Inés veio consultar, encontramos uma mãe separada, jovem, atraente e muito sedutora, que morava na casa dos pais com seu filho único de 18 anos, com quem compartilhava o quarto havia anos e que, desde a entrada na adolescência, se comportava violentamente com ela. Ela não mantinha nenhuma relação com o pai e, embora tivesse um “amigo” havia muito tempo, não cogitava deixar a casa da família. Só soubemos depois de várias sessões, e de numerosas tentativas de tirar o filho do quarto – todas bloqueadas pela mãe –, que a casa tinha três quartos, mas que dois deles eram ocupados pelos avós, que dormiam separados havia anos.
Essa relação tão estreita, que conveio por um tempo a ambos, entra em crise quando o crescimento, as circunstâncias ou a eclosão hormonal da adolescência a tornam muito perigosa. Nesse vínculo tão próximo, fusional, o início da violência pode ser compreendido como uma tentativa primitiva de distanciamento, de fuga de uma relação agora vivida como opressora, limitadora ou perigosa. Aparecem em seguida os ganhos secundários da conduta violenta – controle, poder – que contribuem para sua manutenção.
Essa proximidade excessiva entre genitor e filho acarreta, além disso, a impossibilidade de criar uma relação hierárquica. Se meu filho é meu amigo, meu confidente, meu apoio, não posso me situar com ele em um papel de autoridade; isso o leva a assumir um papel independente antes da hora. O mesmo acontece nas famílias em que os dois genitores estão presentes, mas em que o exercício da autoridade é bloqueado pelo conflito parental ou pela abdicação do papel paterno. Mas, como explicam Harbin e Madden (1979), essa autonomia não é real, já que os jovens continuam dependendo econômica e, sobretudo, emocionalmente de seus pais. Trata-se, portanto, de uma pseudoindependência, que torna a separação ainda mais difícil. Nessa situação, pode-se também compreender o uso da violência como uma maneira fracassada de buscar esse afastamento.
Para lembrar
Três áreas do funcionamento familiar são atingidas na nova VFP: a hierarquia (os pais abdicam ou se neutralizam, “não há nada a fazer”), a imagem familiar (negação, segredo, isolamento, mito da harmonia) e a separação (uma fusão emocional genitor-filho que a violência vem romper desajeitadamente). É essa fusão, presente em quase todos os casos atendidos no Euskarri, que os autores colocam no centro de sua compreensão.
Como assinalamos na parte anterior, podemos distinguir processos de desencadeamento e de manutenção da violência. Estes diferem segundo o modelo familiar – famílias multiviolentas, monoparentais, famílias com os dois genitores presentes –, conservando, no entanto, alguns aspectos comuns.
– Nas famílias multiviolentas, a violência aparece como uma consequência quase natural da relação familiar: é necessário exercê-la para sobreviver, ou então é o que se aprendeu que se pode fazer para descarregar a tensão criada pelos conflitos e desacordos. Uma vez estabelecido esse mecanismo, não se utilizará outro enquanto não se tiver aprendido a fazê-lo e não se lhe tiverem encontrado vantagens em relação ao recurso à violência.
– Nas famílias em que os dois genitores estão presentes aparece também a fusão emocional entre o filho violento e o genitor agredido, como etapa prévia ao aparecimento da violência.
Em uma fase anterior ocorre habitualmente um conflito não resolvido entre os pais, geralmente de grande intensidade e de longa duração, que leva à triangulação, isto é, à incorporação do filho nas dificuldades conjugais.
Essa triangulação se assemelha à que descrevem Selvini et al. em seu livro Os jogos psicóticos na família (1990). Depois do conflito e do imbróglio conjugal que leva a uma situação de impasse, ocorre a intrusão do filho no jogo, que se alia a um dos cônjuges. Mas, nesse caso, não ocorre a traição do filho que leva à psicose: a relação de aliança se mantém, produzindo um afastamento real – separação – ou emocional do outro cônjuge. Com o tempo, é o filho que tenta se afastar, e o genitor que bloqueia essa tentativa, o que provoca a eclosão da conduta violenta.
– Nas famílias monoparentais, podemos compreender esse processo como uma fase do que é descrito no parágrafo anterior, mesmo que a triangulação e o conflito possam parecer distantes no tempo e já esquecidos. Aqui, a fusão emocional é mais evidente porque, na ausência do outro genitor, o vínculo pode se estreitar mais facilmente.
– Nos dois últimos casos, é a dificuldade de separação e de autonomia que, à medida que o tempo passa, leva ao conflito e produz a explosão da violência. Se se tratasse de famílias de transação psicótica, é provável que a individuação e o crescimento da identidade pessoal fossem sacrificados em prol da manutenção da relação e da harmonia familiar, até a pseudomutualidade. Felizmente, na maioria dos casos, o desejo de autonomia e de independência, assim como a aspiração a construir uma identidade própria, prevalecem sobre o de manter a relação e satisfazer as necessidades parentais, de modo que se iniciam movimentos rumo à separação. No entanto, longe de serem favorecidos, estes são bloqueados, e a violência aparece como essa tentativa desesperada de obter a separação.
Eis, em detalhe, uma sequência típica de eclosão da conduta violenta:
Um desacordo se inicia entre o genitor e o filho, geralmente em torno do estabelecimento de uma norma ou do exercício da autoridade, coisa mal tolerada desde o início pelo filho.
Começa uma discussão, com os participantes se situando em pé de igualdade, o que leva facilmente a uma escalada simétrica.
Um deles, geralmente o filho – mas pode ser também o genitor –, adota um comportamento de evitação e, sem resolver o conflito, tenta se retirar.
O outro, geralmente o genitor – mas às vezes também o filho –, o persegue e o acossa, tentando impedir sua retirada.
A perseguição bloqueia a saída do conflito e faz subir consideravelmente a tensão.
Surge a reação violenta da pessoa acossada, genitor ou filho, para pôr fim à tensão. Muitas vezes, depois dessa eclosão vem a distensão, e a relação pode se reconstruir.
Alguns exemplos extraídos de diferentes casos ilustram esse processo:
Vinhetas
Gorka nos contava como, nas situações em que brigava com a mãe, tentava ir para o quarto ouvir música para se acalmar; mas, na maioria das vezes, ela o seguia, censurando sua má conduta, desligava a música e o impedia de fechar a porta. A tensão subia cada vez mais, até que Gorka não conseguia mais se conter e começava a insultá-la, a gritar com ela e a empurrá-la, a ponto de jogá-la no chão, para depois se arrepender. Seu irmão mais novo confirmava.
Jorge e o pai haviam começado mais uma briga. Dessa vez, o motivo da desavença era um desacordo a respeito de uma pequena quantia em dinheiro que Jorge não havia devolvido depois de comprar material escolar. Como em outras ocasiões, o tom subiu até que o pai decidiu se retirar e mudar de cômodo, mas o filho o seguiu, levantando a voz e começando a insultá-lo. O pai, buscando evitar o confronto, foi para outro cômodo, onde Jorge o alcançou pouco depois. Pela terceira vez, o pai se afastou, refugiando-se em seu próprio quarto. Jorge o seguiu até lá, até que acabaram se agredindo mutuamente, como das vezes anteriores.
Depois de uma briga violenta, Ángel saiu de casa. A mãe tentou impedi-lo, mas ele a empurrou violentamente – o que a fez cair na escada – e saiu correndo. Depois de se levantar, ela o seguiu mancando até um parque, onde encontrou o filho já mais calmo. Descarregada a tensão, a mãe lhe ofereceu um cigarro, enquanto conversavam sentados em um banco do parque.
Haim Omer (2004) estudou em detalhe a reação dos pais diante da conduta violenta dos filhos e propõe classificar as respostas em dois tipos, que ele chama de dura e branda:
– Reação dura ou escalada simétrica: aquela em que se responde à hostilidade com hostilidade, e à violência anterior com uma violência maior. O genitor tenta vencer as agressões do filho com as mesmas armas, suscitando nele uma nova resposta violenta; produz-se assim uma escalada simétrica, com um aumento progressivo da hostilidade. Utilizam-se todos os tipos de recursos violentos: ameaças, gritos, humilhações, agressões físicas, punições etc. Cada uma das duas partes acredita agir em legítima defesa: o outro é o agressor. Quanto mais se sentem presos nessa conduta, mais elevados são os níveis de agressividade.
Vinheta
No sábado à tarde, Fernando começava uma briga com o pai a respeito da hora de voltar para casa. Eles não chegavam a um acordo – nenhum dos dois tirava nem acrescentava um minuto à sua proposta – e o tom subia cada vez mais. Logo começavam os insultos, depois os empurrões e, às vezes, os golpes, de parte a parte, até que Fernando, agora mais forte que o pai, conseguia afastá-lo da porta e sair para a rua.
– Reação branda ou escalada complementar: aquela em que se tenta usar a persuasão verbal para convencer o filho de que sua conduta é má e de que ela deve mudar. Recorre-se a argumentações lógicas, a súplicas, a manifestações de afeto, tentando estabelecer uma conexão empática para que ele renuncie à sua atitude. No entanto, só se obtém um aumento das exigências do filho, que se encoraja diante da atitude submissa do genitor. O aumento da violência gera mais submissão, produzindo o que Omer chama de escalada complementar, na qual a submissão aumenta as demandas.
Vinheta
Desde que Juana havia começado a insultá-la, a mãe sempre respondera censurando-a em tom brando, pedindo que ela refletisse. Os insultos aumentavam cada vez mais, e a mãe demonstrava grande paciência e grande compreensão, sem deixar de recompensá-la em outros momentos com as refeições ou as guloseimas de que sabia que ela gostava, tentando conquistá-la pelo afeto. Isso durou até o dia em que Juana lhe deu a primeira bofetada. A mãe deixou de se mostrar afetuosa, mas desde então Juana ditava as regras em casa.
A escalada complementar é assimétrica e se caracteriza por uma dinâmica de chantagem. A mensagem transmitida é uma mensagem de fraqueza, o que reforça a utilização da violência para atingir os objetivos.
Segundo o mesmo autor, ocorre às vezes uma mistura de reações, de maneira pendular, oscilando entre duras e brandas, pois as duas escaladas se alimentam mutuamente.
Reação dura – escalada simétrica
Hostilidade contra hostilidade, cada um se acredita em legítima defesa; a agressividade sobe dos dois lados.
Reação branda – escalada complementar
Persuasão, súplicas, afeto; a submissão aumenta as exigências do filho. Dinâmica de chantagem.
A violência do filho provoca, por exemplo, uma conduta de submissão, que gera um aumento de suas exigências. Mas essa atitude que consiste em responder com exigências cada vez maiores às tentativas de empatia e de persuasão suscita no genitor uma frustração e uma hostilidade progressivas, que acabam explodindo em um acesso de agressividade e de violência. Essa reação, em vez de conseguir acalmar o filho, gera nele um aumento de sua agressividade; entra-se então em uma escalada simétrica que pode atingir níveis tais que o genitor se assusta com as possíveis consequências, ou tem vergonha de sua perda de controle, e volta a uma conduta de temporização e de submissão diante das exigências do filho. É uma interação circular, que leva inevitavelmente ao agravamento do problema.
A manutenção da conduta violenta repousa sobre os ganhos secundários que se obtêm com sua utilização. Todo comportamento agressivo no seio da família busca aumentar o poder e a dominação. No caso da VFP, essa busca não diz respeito apenas ao controle, mas também à obtenção de objetivos: voltar para casa na hora que se quer, obter mais mesada, poder decidir o que se come e quando; em suma, uma total liberdade de ação. Tenta-se, além disso, reduzir ao mínimo a concorrência – se existir –, restringir os movimentos e as comunicações dos pais para evitar interferências externas que poriam em risco o poder adquirido, e assustar os pais até a impotência.
Vinheta
Beatriz decidiu um dia que não se sentaria mais à mesa com os pais se o pai continuasse comendo com elas. Comeu sozinha por um tempo, até que a mãe cedeu e passou a comer com ela. Durante dois anos, o pai comeu sozinho, enquanto as exigências de Beatriz iam crescendo. A violência começou quando a jovem exigiu da mãe que se separasse do pai.
Com o tempo, o filho violento se orienta progressivamente para o poder; as relações pais-filho são cada vez mais raras e de pior qualidade, e as estabelecidas com os irmãos – se houver – se deterioram da mesma maneira. Os pais aprendem a ignorar as condutas negativas do filho para evitar o confronto, de modo que ele precisa sustentar seu poder com comportamentos cada vez mais extremos (Omer, 2004).
Os objetivos do filho agressor acabam sendo os mesmos da violência social e política: a dominação pelo medo que ela produz, utilizando de maneira repetitiva ações violentas com um aumento progressivo do nível de ameaça, o que, segundo o esquema da violência social e política de Sluzki (2002), acaba produzindo em suas vítimas uma reação de entorpecimento e de submissão.
Vinheta
Antonia nos contava que havia decidido colocar um ferrolho na porta do quarto, por causa do medo que sentia à noite ao dormir, com a ideia de que o filho voltaria agressivo da rua. “…Toda vez que passava alguma coisa sobre maus-tratos na televisão, ele me dizia: ‘Você vai acabar assim.’ Eu já via sombras à noite, achando que ia ficar louca. Parecia que ele montava guarda… Eu estava muito mal, em pânico… Muitas vezes, por medo, não abri a boca.”
Os efeitos dessa conduta no âmbito familiar podem ser resumidos assim:
Uma vez definido o fenômeno da VFP e estabelecida uma diferenciação entre os diversos tipos existentes, assinalamos, a partir de uma compreensão ecológica, os fatores que influem tanto na emergência quanto na manutenção dessa problemática: a) sociais – ressaltando particularmente sua relação com os estilos educativos –, b) individuais – relacionando características de personalidade a uma possível presença de psicopatologia – e c) familiares, que constituem o interesse central do presente trabalho.
Neste último campo, embora os modelos familiares em que se apresenta esse tipo de comportamento sejam explicitados, a análise se centra na dinâmica familiar – antecedentes de violência, estilo parental, relação entre os cônjuges, áreas disfuncionais etc. – que favorece tanto a emergência quanto a manutenção da conduta violenta.
Assinalamos também o funcionamento que tende a se repetir com frequência na nova VFP:
Por todas essas razões, acreditamos ser indispensável incluir a abordagem relacional nesse tipo de problemática, considerando além disso, entre seus objetivos principais, a modificação da dinâmica familiar; pois se o tratamento se limitar ao desaparecimento da conduta violenta – objetivo, evidentemente, primordial –, sua continuação e seu agravamento posterior são mais prováveis.
Isso implicará um trabalho simultâneo sobre as três áreas descritas como disfuncionais – organização hierárquica e estabelecimento das normas, proteção da imagem familiar, separação e fusão – sem perder de vista a reconstrução do vínculo entre pais e filhos que, nesses casos, é severamente afetado pelas condutas violentas, as quais tendem a favorecer uma percepção reduzida e enviesada em cada um dos membros.
Notas do original
1. Relatório do Ministério Público da Catalunha, 2005.
2. Relatório do Ministério Público da Comunidade Autônoma Basca, 2005.
3. Relatório do Ministério Público da Comunidade Valenciana, 2005.
4. Jornal ADN, 26 de dezembro de 2007.
Quem são os autores
Roberto Pereira Tercero: psiquiatra. Diretor do Euskarri, Centro de Intervenção em Violência Filio-parental.
Lorena Bertino Menna: psicóloga, psicoterapeuta. Coordenadora do Euskarri, Centro de Intervenção em Violência Filio-parental. https://www.avntf-evntf.com/presentacion/
Referências
Abeijón, J. A. (2006). Comunicación personal. EVNTF, Bilbao.
Cyrulnik, B. (2005). El amor que nos cura. Gedisa, Barcelona.
Gallagher, E. (2004). “Parents victimised by their children”. Australian & New Zealand Journal of Family Therapy, vol. 25, n° 1, 1-12.
Gallagher, E. (2004). “Youth who victimise their parents”. Australian & New Zealand Journal of Family Therapy, vol. 25, n° 2, 94-105.
Harbin, H. y Madden, D. (1979). “Battered parents: a new syndrome”. American Journal of Psychiatry, 136, 10: 1288-1291.
Ibabe, I.; Jaureguizar, J. y Díaz, O. (2007). Violencia filio-parental. Conductas violentas de jóvenes hacia sus padres. Servicio Central de Publicaciones del Gobierno Vasco, Vitoria-Gasteiz.
Lamas, C. (2000). Seminario sobre Violencia y Familia. EVNTF, Pamplona.
Laurent, A. y Derry, A. (1999). “Violence of French adolescents toward their parents”. Journal of Adolescent Health, 25, 1: 21-26.
Linares, J. L. (2002). Del abuso y otros desmanes. Paidós, Barcelona.
Mouren, M. C., Halfon, O. y Dugas, M. (1985). “Une nouvelle forme d’agressivité intrafamiliale : les parents battus par leur enfant”. Annales Médico-Psychologiques, 143, 3: 292-296.
Omer, H. (2004). Non Violent Resistance: A New Approach to Violent and Self-Destructive Children. Cambridge University Press.
Omer, H. (2007). “The loving fight: Coaching the parents of violent and self-destructive children in non-violent resistance”. VI Congress of EFTA, Glasgow.
Organización Mundial de la Salud (2002). Informe mundial sobre la violencia y la salud. Documento multimedia: http://www.paho.org/Spanish/AM/PUB/Contenido.pdf
Peek, W.; Fisher, J. y Kidwell, J. (1985). “Teenage violence toward parents: A neglected dimension of family violence”. Journal of Marriage and the Family, vol. 47, n° 4.
Pereira, R. (2006). “Violencia filio-parental, un fenómeno emergente”. Revista Mosaico, 36, pp. 7-8.
Romero, F.; Melero, A.; Cánovas, C. y Antolín, M. (2005). La violencia de los jóvenes en la familia: Una aproximación a los menores denunciados por sus padres. Documentos de Trabajo, Centro de Estudios Jurídicos del Departamento de Justicia de la Generalitat de Cataluña.
Selvini, M. y otros (1990). Los juegos psicóticos en la familia. Paidós, Barcelona.
Sluzki, C. (2002). “Violencia familiar y violencia política. Implicaciones terapéuticas de un modelo familiar”. En D. Friedman (comp.), Nuevos paradigmas, cultura y subjetividad, cap. 3, pp. 351-371. Paidós, Buenos Aires.
Wynne, L.; Ryckoff, I.; Day, J. y Hirsch, S. (1971). “Pseudomutualidad en las relaciones familiares de los esquizofrénicos”. En C. Sluzki (comp.), Interacción familiar, pp. 111-153. Tiempo Contemporáneo, Buenos Aires.
Wynne, L. C., Singer, M. T., Bartko, J. y Toohey, M. L. (1977). “Schizophrenics and their families: Research on parental communications”. En J. Tanner (ed.), Developments in Psychiatric Research. Hodder & Stoughton, Londres.
Este artigo é a tradução para o português de “Una comprensión ecológica de la violencia filio-parental”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Red Sistémica). Traduzido e republicado com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Pereira Tercero, R., & Bertino Menna, L. (2023). Uma compreensão ecológica da violência filio-parental (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/uma-compreensao-ecologica-da-violencia-filio-parental (Obra original publicada em 2023 em Red Sistémica; republicada em 2023 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2023/02/08/una-comprension-ecologica-de-la-violencia-filio-parental/)
Para ir mais longe
Comentários 0
Entre para participar da discussão. Entrar