Trends in Psychology · Migração
Como manter o vínculo com os pais depois de deixar Portugal rumo a Paris, Londres ou Zurique? Carlos Barros entrevistou 22 pessoas jovens que emigraram dentro da Europa, à luz do modelo da solidariedade intergeracional. Videochamadas diárias, Natal na terra, uma avó que aprendeu a usar o Facebook: o digital aproxima, mas também reacende conflitos de valores e ambivalências.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de A conexão nas famílias transnacionais: espaços presenciais e digitais na emigração portuguesa, de Carlos Barros, publicado na Trends in Psychology (Springer) (2025), doi: 10.1007/s43076-023-00309-4, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela é apresentada em forma de lista; as declarações do fim do artigo foram reunidas nas notas. As citações das entrevistas, colhidas em português, foram traduzidas aqui a partir da versão em inglês do artigo. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
As pessoas participantes parecem ressignificar a percepção do espaço, criando interações híbridas que aumentam sua pertença ao grupo.
Carlos Barros
Resumo
O uso das novas tecnologias de comunicação favorece, nas famílias transnacionais, dinâmicas de presença que passam tanto pelo face a face quanto pelo digital. Quem migrou percebe essas relações como enriquecedoras, mas também como lugares de contradição e paradoxo. Este estudo busca explorar, por meio das dimensões do modelo da solidariedade intergeracional (SI), como as pessoas emigrantes percebem a interação com suas figuras parentais no país de origem e como o espaço digital afeta as dinâmicas familiares. Numa abordagem qualitativa, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com pessoas jovens adultas de nacionalidade portuguesa que emigraram para o espaço europeu (N = 22), e a análise temática foi conduzida numa perspectiva construtivista, com o apoio do software N-Vivo. Os resultados sugerem a necessidade de compreender a coesão familiar num continuum solidariedade-conflito-ambivalência e, sobretudo, de entender como as dinâmicas familiares são alteradas pelos desafios das dinâmicas transnacionais. É importante considerar a vivência dos rituais familiares presencialmente e pelo digital. A comunicação digital atenua as diferenças e o isolamento, já que favorece mais contato e, portanto, menos choque cultural, o que pode promover mais conexão.
Palavras-chave: solidariedade intergeracional, famílias transnacionais, comunicação digital, migrações
As migrações constituem um fenômeno que põe à prova o bem-estar e a adaptação de quem migra e de seu núcleo familiar, mesmo que este resida no país de origem. O surgimento do contato digital como forma de promover apoio e de estabelecer dinâmicas nas famílias transnacionais permite não só intensificar, manter ou rejeitar padrões familiares presentes nas relações intergeracionais, para que as pessoas emigrantes se adaptem ao país para onde migraram, mas também criar novas perspectivas sobre o bem-estar (Bacigalupe e Parker, 2016; Baykara-Krumme e Fokkema, 2019).
O modelo do desenvolvimento de Bronfenbrenner (1979) concebe o ambiente ecológico como uma série de estruturas concêntricas que contêm, em seu interior, o sujeito em desenvolvimento, constantemente influenciado, direta e indiretamente, pelos diferentes níveis do ambiente que o cerca, numa relação simbiótica e bidirecional entre o ser humano e as propriedades mutáveis dos ambientes em que ele ou ela se move, bem como os contextos mais amplos em que esses ambientes se inserem. Por incluir múltiplos níveis que remetem aos contextos e ao ambiente, essa conceituação é um referencial pertinente para a presente pesquisa, já que contempla as relações familiares intergeracionais. Sobretudo quando o modelo se torna bioecológico (Bronfenbrenner, 2005) e envolve formas particulares de interação entre corpo e contexto, que promovem o desenvolvimento humano, mas variam de pessoa para pessoa.
No modelo bioecológico, os processos proximais ocorrem segundo quatro sistemas: microssistema, mesossistema, exossistema e macrossistema (Bronfenbrenner, 1986; Bronfenbrenner e Ceci, 1994; Bronfenbrenner et al., 2006). O microssistema é o mais influente e consiste nas interações diretas com outras pessoas (Bronfenbrenner e Ceci, 1994; Bronfenbrenner et al., 2006). Bronfenbrenner e colegas (2006) sugeriram que as características de uma pessoa são moldadas por “pais, familiares, amigos próximos, professores, mentores e tutores, pares, parceiros ou outras pessoas que participam da vida da pessoa em desenvolvimento de maneira relativamente constante ao longo de um longo período” (p. 796). No mesossistema, diferentes microssistemas interagem entre si (Bronfenbrenner, 1979). No exossistema, os processos proximais incluem políticas públicas, programas sociais, mídia e instituições (Bronfenbrenner, 1977). O macrossistema é o sistema menos formalizado e consiste em normas e valores culturais (Bronfenbrenner, 1977). O exossistema, o mesossistema e o microssistema são as “manifestações concretas” do macrossistema (Bronfenbrenner, 1977). Por fim, a dimensão do tempo constitui uma unidade de contexto essencial para a análise de percepções devidamente situadas e foi acrescentada mais recentemente para dar maior precisão ao modelo (Bronfenbrenner, 2005).
Por isso, é importante que a pesquisa se volte para a família e para a relativização social, política, econômica e cultural que esse grupo implica (Barros, 2022; Esteves et al., 2005). Considera-se que esse grupo tem um impacto direto e um comportamento adaptável, dotado de um conjunto “de estratégias flexíveis e dinâmicas que se transformam diante de diferentes necessidades e contextos econômicos” (Massey, 1990, p. 9). Por outro lado, as decisões tomadas num contexto familiar não resultam necessariamente em benefício para todos os seus membros.
A distância geográfica, em especial, gera uma ausência de presença: a negociação do que são as diferenças de cada membro, os diferentes interesses, motivações e atividades podem entrar em conflito (Boyd e Grieco, 2003). A análise das relações intergeracionais nas famílias transnacionais deve ser feita sem negligenciar a separação dos membros entre país de origem e país de destino, e levando em conta variáveis ligadas à integração e à adaptação a novos contextos sociais, profissionais, políticos e culturais (Leme et al., 2016; Villas-Boas et al., 2017; Walsh, 2016).
De modo transdisciplinar, a solidariedade pode ser definida como uma união de interesses, objetivos ou afinidades entre os membros de um grupo. Essa sinergia contribui para a integração da sociedade e previne a anomia que resulta da luta pela individualização e pela autonomia (Coimbra e Mendonça, 2013).
Nos modelos mais clássicos, de tendência macroestrutural, a solidariedade se divide em quatro subtipos: mecânica, orgânica, tradicional e moderna. Este artigo trata apenas da solidariedade moderna, já que é o ramo do construto que predomina nas sociedades contemporâneas (Coimbra e Mendonça, 2013). Ou seja, os membros tomam consciência de seu caráter único e suas ações são regidas pela consciência do livre-arbítrio; as decisões são autônomas, mas a ação se inscreve numa concepção de bem comum. É importante, porém, considerar o impacto das políticas sociais sobre a pessoa, já que elas intervêm na percepção do risco e funcionam claramente como amortecedor do bem-estar individual, familiar e profissional (Coimbra et al., 2013).
A questão da pertinência de estudar a solidariedade, e o interesse crescente pelo conceito, não deixa de ter relação com o envelhecimento: as pessoas vivem mais e, por isso, surgem novas demandas de apoio. A consciência crescente de que, nas sociedades ocidentais, mais pessoas vivem até idades avançadas, mas pode haver menos pessoas disponíveis para os cuidados necessários, tornou necessário considerar atitudes e comportamentos relativos ao idadismo e à cooperação com a rede mais imediata: a família (Albert e Ferring, 2013, 2018). Essas preocupações também se refletem na criação de diversas redes de apoio intergeracional que acompanham todo o ciclo de vida, sobretudo nas etapas em que podem surgir desafios de adaptação, como a transição para a vida adulta, a emigração ou a aposentadoria, momentos de adaptação psicossocial particular (Mendonça e Fontaine, 2013; Villas-Boas et al., 2017).
A solidariedade, de início mais macrossistêmica, ganha contornos e aplicações microssistêmicas nas relações familiares (Roberts et al., 1991). O modelo adequado para analisar as relações de solidariedade entre pais e filhos adultos é o da solidariedade intergeracional (SI), concebido como multidimensional e integrando seis dimensões distintas (Bengston e Oyama, 2007): (a) afetiva: satisfação com os laços afetivos; (b) associativa: tempo e frequência de contato entre as gerações; (c) consensual: proximidade de opiniões, valores e orientações entre as gerações; (d) funcional: receber e dar apoio; (e) normativa: expectativas quanto às obrigações filiais e parentais, bem como normas sobre a importância da família; e (f) estrutural: como a proximidade geográfica entre familiares pode sustentar a interação intergeracional. Cada uma dessas dimensões foi testada empiricamente e mostrou-se distinta (Bengston e Oyama, 2007).
Posteriormente, acrescentou-se também a dimensão do conflito, pois se considerou impossível compreender relações dinâmicas sem esse aspecto, que pode levar a crises familiares e a situações de ambivalência (Albert e Ferring, 2018; Barthassat, 2014; Lowenstein, 2007). Também é importante entender, como indica a equipe de Bengston (2000), que as duas dimensões da solidariedade e do conflito não formam um continuum único que vai de alta solidariedade a alto conflito. A solidariedade intergeracional pode apresentar ao mesmo tempo alta solidariedade e alto conflito, ou baixa solidariedade e baixo conflito, em combinações variadas, segundo as dinâmicas e as circunstâncias familiares (Bengston et al., 2000). Essa visão se apoia no pressuposto básico de que o conflito é natural e inevitável na vida de todos os seres humanos. A interação social, como a vivida no interior das famílias, sempre envolve harmonia e conflito; os grupos não existem em total harmonia, ou seriam completamente estáticos e inertes (Klein e White, 1996).
Assim, a equipe de Bengston (2002) sugeriu que o conceito de solidariedade se torna mais sensível quando se incorpora a ambivalência como função da “disjunção ou desconexão entre quaisquer das seis dimensões da solidariedade”. Ela concebe a ambivalência como um complemento ao referencial solidariedade-conflito, conceitualmente adequado para explorar sentimentos mistos, a saber: “da interseção entre solidariedade e conflito nasce a ambivalência, psicológica e estrutural” (Bengston et al., 2002, p. 575).
O uso desse modelo no estudo das famílias transnacionais é um aspecto importante deste artigo, na medida em que a mudança nas dimensões estrutural e associativa da SI (tempo, forma de contato e intenção de compartilhar espaço), vividas entre o digital e o face a face, pode alterar não só as demais dimensões, mas também atuar como catalisador da percepção de conflitos específicos de cada dimensão (Albert e Ferring, 2018; Barros, 2021). Os estudos mais recentes indicaram não só a importância de combinar as dimensões em tipologias, mas também, e sobretudo, o estudo numa perspectiva qualitativa, que dê visibilidade a diversas dinâmicas dessas famílias, com maior diversidade de realidades (Baykara-Krumme e Fokkema, 2019; Barros, 2021).
A emigração é uma constante histórica e social em Portugal, e o país tem hoje uma das taxas de emigração mais altas da Europa (Pires et al., 2022). Ainda assim, o perfil de quem migra mudou substancialmente ao longo das décadas. As pessoas que emigram hoje de Portugal são, em comparação com as que emigravam até o fim do século XX, pessoas com mais capital humano, mais qualificadas, que constroem projetos migratórios baseados no reconhecimento e no investimento profissional, por oposição ao que o país de origem tem a lhes oferecer para seu desenvolvimento (Gomes et al., 2015; Neto, 2003).
Embora essas novas motivações dos movimentos migratórios possam reenquadrar o processo migratório em variáveis eminentemente individuais e ligadas às oportunidades no país de destino, é limitador situar esse processo apenas em contextos individuais e em questões intrínsecas ao país de destino. O impacto psicossocial desse processo é da maior importância e envolve especialmente o núcleo familiar de origem em Portugal, pois a família tende a ser a primeira fonte de apoio social na migração (Coimbra et al., 2013), e deve ser considerado num contexto multissistêmico (Gomes et al., 2015; Rodrigues, 2013).
Os efeitos da emigração sobre a estrutura familiar interna (Dumon, 1989) podem ser examinados como um efeito processual em que a presença pode ser vital. Parece essencial abordar o uso das tecnologias de informação e comunicação, pois ele dá um novo espaço às formas de contato e de presença nas relações interculturais, o que leva a esbater, nas sociedades atuais, a diferença entre o global e o local e cria maior circulação entre valores e normas dos grupos; a família e os processos migratórios não são exceção, pela experiência da diversidade (Mateia, 2018).
Assim, hoje, nas sociedades ocidentais, é muito difícil viver sem usar as novas tecnologias, e é difícil estudar populações e/ou relações sem considerar o uso da comunicação digital (Ganito, 2018; Mateia, 2018). Com a rapidez dos processos de globalização, estudar o desenvolvimento cultural e a mudança tecnológica deixou de ser uma opção e passou a ser uma necessidade, já que o espaço é mediado e gerido entre o face a face e o digital (Matusitz e Musambira, 2013).
O uso das novas tecnologias de informação e comunicação teve uma rápida expansão nas sociedades ocidentais graças à proliferação de pacotes de internet de banda larga, que facilitaram o contato praticamente ilimitado com o mundo virtual. Fatores como a redução do tempo de conexão com grupos, a proximidade entre pessoas, serviços e espaços, a redução dos gastos para manter contato com os próprios interesses e, ainda, a informação disponível em vários pontos do mundo fazem de seu uso um trunfo (Ferreira, 2009; Mateia, 2018).
Ainda assim, é importante notar que o uso dessas tecnologias passou por uma grande transformação quando a internet começou a ser associada aos telefones celulares, os smartphones (Kraemer e Katz, 2009), o que pode afetar a relação entre facilidade de acesso e percepção de conexão com o mundo. Também não se pode esquecer a importância do ecossistema digital: a variedade de aparelhos, serviços e formas de acesso ao mundo digital pode limitar a igualdade entre pessoas, grupos e gerações. O acesso a diversas ferramentas, aplicativos e mecanismos pode ampliar a percepção da pessoa no espaço digital (Ganito, 2018). Esses fatos são importantes quando se reflete sobre o contexto português, marcado pela emigração e pela necessidade de as famílias transnacionais acompanharem a vida e a trajetória de seus membros. Essas famílias precisam reinventar o contato (e a comunicação) para atender às necessidades diversas de seus membros, bem como à sua pertença intercultural, que não escapa à necessidade de aprendizagem ao longo da vida (Mateia, 2018; Ramos, 2013).
Há pouco mais de uma década, Ferreira (2009) caracterizou a percepção da identidade cultural na população portuguesa imigrada nos Estados Unidos e fez a seguinte consideração sobre a importância da World Wide Web: “a internet é vista pela maioria das pessoas entrevistadas como uma ferramenta que permite um contato mais fácil com a cultura de origem, podendo assim proporcionar uma remediação de sua identidade cultural” (Ferreira, 2009, p. 150). Ou seja, pode-se ver a internet como uma espécie de ferramenta incompleta, que permite o contato com a cultura portuguesa, mas não permite fazer parte dela. Essa reflexão é importante, porém, porque se pode definir a identidade cultural como uma percepção de pertença entre o eu e a cultura, influenciada por normas e valores em todos os níveis da interação social, e que pode abranger o modo como as pessoas se sentem integradas em culturas (inter)nacionais (Correia e Watkins, 2023; Gamsakhurdia, 2019; Tseung-Wong et al., 2022). O contexto digital reforça a transculturalidade, tornando mais fluidos os processos do projeto migratório (Barros, 2021; Mateia, 2018).
Em Portugal, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística [INE], o uso das tecnologias de comunicação aumentou na última década: entre 2011 e 2021, o número de acessos fixos passou de 2.184.985 para 3.921.763 (Pordata, 2022).
Com o aumento exponencial do uso pessoal da internet, bem como no contexto pós-pandemia, é essencial analisar como as novas tecnologias interferem na percepção de presença e na criação de dinâmicas nas famílias transnacionais, alterando seus rituais familiares (Barros, 2021). Isso pode ser uma via de empoderamento, integração e comunicação intergeracional, numa população residente mais envelhecida que usa as redes sociais como conexão para combater o isolamento (Roberto et al., 2014).
Este artigo busca explorar como a presença do espaço digital pode contribuir para a comunicação, o contato e a presença nas famílias transnacionais, já que compreender as dimensões do modelo da SI pode ser uma forma de observar e analisar as dinâmicas de conexão digital e presencial entre gerações.
Por meio de um estudo realizado especificamente com pessoas jovens de nacionalidade portuguesa que emigraram e têm figuras parentais em Portugal, busca-se compreender:
Neste estudo, recorreu-se à coleta de dados por análise qualitativa, já que se busca acessar o conhecimento da interação social que, devidamente ancorado na revisão da literatura e consciente da multiplicidade das interações humanas, explora significados para o processo de interpretação da interação social, ao qual se acrescentará conhecimento (Charmaz, 2009; Ratner, 2002).
Para avaliar as interações analisadas e exploradas neste trabalho de integração das dinâmicas individuais e sociais, é necessário enquadrar o trabalho num paradigma de compreensão de interações e padrões (Holloway e Todres, 2003; Silverman, 2005), como prismas de uma verdade coletiva com diversas percepções da interação individual (Birks e Mills, 2011).
Para estudar a percepção de experiências, significados e expectativas numa perspectiva construtivista, optou-se por um paradigma pós-positivista (Birks e Mills, 2011; Charmaz, 2006), com análise temática baseada em categorias prévias e posteriores (Charmaz, 2009; Guerra, 2006).
Participaram do estudo pessoas jovens adultas de nacionalidade portuguesa que emigraram (N = 22). Segundo sua autoidentificação, a maioria eram mulheres (n = 17) e as demais pessoas, homens (n = 5).
As idades iam de 23 a 33 anos (M = 28,90; DP = 2,44), e o tempo de vida fora de Portugal ia de 2 a 14 anos (M = 4,81; DP = 2,83).
Todas as pessoas participantes eram de Portugal continental e emigraram para países europeus e do espaço Schengen, com pelo menos um dos pais residindo em Portugal. Os dados foram coletados entre 2018 e 2019.
A distribuição das pessoas participantes por país pode ser vista na Tabela 1.
Tabela 1 — Distribuição das pessoas participantes por país
* O Reino Unido foi incluído porque o Brexit ainda não havia começado.
Elaborou-se um roteiro de entrevista semiestruturada para entrevistas individuais, cuja percepção e cujo conteúdo foram testados previamente em dois grupos: pessoas pesquisadoras (n = 4) e pessoas com perfil semelhante ao estudado (n = 4).
O roteiro era composto de cinco blocos temáticos, precedidos de um bloco inicial de apresentação. Os blocos temáticos eram (i) caracterização da família (por exemplo, Quem são as pessoas que você identifica como familiares próximos/do núcleo familiar?); (ii) experiência migratória, bem-estar e motivações (por exemplo, O que foi mais benéfico para você nesse processo de migração?); (iii) manutenção das relações afetivas (por exemplo, Que meios você usa para se comunicar?); (iv) rede de apoio entre gerações (por exemplo, Você dá algum apoio às suas figuras parentais/de cuidado?); e (v) transmissão de valores entre gerações (por exemplo, Pode me dar exemplos concretos do que você compartilha com seus familiares?).
Antes da aplicação do roteiro de entrevista, foram coletados o consentimento livre e esclarecido e um questionário sociodemográfico.
De acordo com os princípios éticos da pesquisa, com aprovação do projeto pela Comissão de Ética da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa e em conformidade com o código da American Psychological Association (2018), todas as entrevistas foram gravadas em áudio, transcritas e depois destruídas, e os nomes e dados sensíveis das pessoas participantes foram alterados para garantir a confidencialidade.
Consideraram-se os seguintes critérios de inclusão: (i) ter nacionalidade portuguesa e entre 18 e 35 anos; (ii) viver, após emigrar, num país europeu; (iii) ter pelo menos uma das figuras parentais vivendo em Portugal; (iv) ter emigrado havia pelo menos um ano.
Com o apoio das comunidades portuguesas no exterior, de juntas de freguesia/municípios em Portugal, da mídia, de associações de emigrantes e de entidades ligadas ao instituto diplomático, bem como da criação de um site e de redes sociais para o projeto de pesquisa, o estudo foi divulgado para o recrutamento das pessoas participantes.
Vale notar que, além das métricas metodológicas, o N superou o esperado, considerando que foi determinado pela saturação teórica dos dados e que se trata de uma amostra de conveniência, construída de forma concomitante a uma análise dos dados que permite inter-relacionar os dados até a percepção de que a coleta estava completa (Charmaz, 2008).
As entrevistas foram realizadas presencialmente ou por meios digitais, resguardando a identidade e a confidencialidade dos dispositivos. Cada participação durou de 50 a 70 minutos.
Considerando a simultaneidade entre a análise da coleta de dados e as relações sociais dinâmicas (Braun e Clarke, 2006), a primeira aproximação às entrevistas se fez pela familiarização com os dados (ler, reler, tornar os dados íntimos), para depois proceder à análise em três unidades de sentido. Primeiro, a codificação aberta, que permite criar e verificar categorias e conceitos centrais; em seguida, a codificação axial, em que se analisaram as relações entre categorias; por fim, a codificação seletiva, que permite saturar teoricamente as categorias centrais (sobre relações e solidariedade intergeracional), a fim de reagrupar e relacionar a codificação para a organização e o surgimento de novos dados sociais.
Numa perspectiva construtivista (Charmaz, 2009), com categorias de análise a priori e a posteriori, para incluir a interação de quem pesquisa com os dados, buscaram-se temas entre as categorias (Charmaz, 2006, 2008).
Para evitar vieses na análise (Charmaz, 2006), a análise dos dados foi realizada e as perspectivas foram debatidas no interior da equipe de pesquisa, que atuou como consultoria, dando reflexividade à perspectiva construtivista. Atenta à riqueza linguística, a equipe também refletiu sobre a tradução das citações das entrevistas de sua língua original para o inglês. Nesse processo, foi importante que a equipe de pesquisa e de supervisão fosse bilíngue.
Usou-se o software N-Vivo.
Para poder debater de forma abrangente os dados e a literatura, optou-se por combinar os resultados com uma breve discussão.
As dimensões da solidariedade intergeracional devem ser compreendidas como dinâmicas que acompanham os diferentes grupos familiares estudados. Ou seja, as dimensões estrutural e associativa (espaço, distância ou proximidade e frequência de contato) (Bengston e Oyama, 2007) parecem ser ressignificadas quando o grupo se articula entre o digital e o face a face. Essa mudança, por sua vez, é transformadora e transforma a dimensão afetiva, na medida em que o contato, sua frequência e sua intensidade permitem vínculos emocionais a serviço do bem-estar e da compreensão do espaço de cada membro (Mateia, 2018; Rojas Rodríguez et al., 2021).
A análise da presença, de sua forma e da utilidade desse contato para desenvolver uma conexão no grupo abrangeu a amostra inteira.
Todas as pessoas participantes, exceto uma, relataram que sua presença e participação na família têm frequência e intensidade elevadas. Os rituais familiares, sejam cotidianos, festivos ou ocasionais, são vividos de forma presencial e digital, o que muda a visão clássica de que a proximidade geográfica reflete a capacidade e a disposição para interagir, em linha com abordagens mais recentes das famílias transnacionais, que apontam a importância da conexão híbrida (Baldassar e Merla, 2014).
Todas as pessoas participantes destacaram que é sistemático reunir-se com a família em Portugal nos momentos de festa (o Natal em todos os casos; e outras celebrações, embora com menos expressão, como aniversários, Páscoa ou Dia de Todos os Santos). Elas percebem esses momentos como importantes e indispensáveis para a manutenção da família com as gerações ascendentes e descendentes, como afirma Marta (F4):
“O Natal, para mim, tem que ser passado em família. Então, todo Natal eu vou a Portugal. […] pelo menos enquanto meus pais e minha família estiverem vivos, pretendo passar essa festa com eles. Para mim, é uma festa de família. Para mim, é impensável passar o Natal aqui com meu marido e minha filha, impensável.”
Mais da metade das pessoas participantes menciona que, mesmo que o objetivo da viagem a Portugal não seja visitar a família, ela é sempre o tema transversal no planejamento da viagem ao país de origem.
Nos casos, poucos, em que surgiu uma relação de casal significativa durante a experiência migratória, as pessoas relatam que o contato presencial, sobretudo nas celebrações e nos rituais cotidianos, se dá em mediação com os valores culturais da pessoa parceira e do país da pessoa entrevistada. Como diz Patrícia (F9), falando de seu parceiro:
“É um grande desafio, e aí ele me ajuda muito, porque ele é bem mais desapegado, eu sou muito apegada, então qualquer coisa era chorar ou […] e ele é muito… não é que ele não se importe, mas o desapego às vezes faz bem, e ele me ensinou muito sobre isso.”
Vale notar que, com uma frequência que vai no máximo da diária à semanal, todas as pessoas participantes reinventaram o contato e suas dinâmicas com a família por meio das tecnologias de comunicação, e essas tecnologias mudaram o paradigma do contato e das dinâmicas; no caso da geração ascendente mais velha, foi preciso ensinar a usar os canais digitais, que se tornaram uma das rotinas de contato passadas do presencial para o digital, como exemplifica Lucas (F14):
“há três anos, então, ela [a mãe], com setenta e cinco anos, abriu uma conta no Facebook e agora sabe usar mais ou menos […] talvez seja o maior apoio que eu dei, portanto, mas também um pouco uma consequência da minha mudança.”
Todas as pessoas participantes mencionam que há contato muito frequente pelas novas tecnologias de comunicação para acompanhar e apoiar os rituais familiares e as tarefas cotidianas. Também as usam para planejar o contato presencial em momentos específicos ou em celebrações familiares.
As videochamadas e as caixas de mensagem, sobretudo pelos aplicativos WhatsApp e Messenger, constituíam uma forma de contato mais privada; e os feeds, sobretudo nos aplicativos Facebook e Instagram, além de grupos em qualquer desses aplicativos, uma forma de compartilhar conteúdos entre familiares em diferentes pontos geográficos, embora menos dirigida à narrativa e à troca de apoio entre familiares.
Servem antes como reforço da presença e da troca de experiências num grupo maior do que a família nuclear. Guilherme (F20) refere o uso intenso do contato digital:
“[…] as chamadas são todos os dias depois do jantar, entre o jantar e a hora de dormir, depois depende se eles [os pais] têm algum programa aqui em Portugal […] durante o dia, por exemplo, meus primos vão estar mexendo comigo no Facebook ou falando no Messenger ou algo assim, sempre.”
A grande maioria mencionou usar as videochamadas como um momento cotidiano de partilha e de presença com a família, mesmo quando se trata apenas de estar ali, sem nenhuma tarefa associada. Ainda assim, algumas pessoas mencionaram que as videochamadas também servem para acompanhar necessidades específicas, como a recuperação de uma doença das figuras parentais ou delas próprias. Além disso, também são usadas pelos avós em Portugal para acompanhar as tarefas domésticas e fazer companhia aos netos ou cuidar deles (quando a idade dos netos permite autonomia, com a supervisão dos avós por videochamada).
Algumas pessoas relatam que, diante da dificuldade de adaptação digital das pessoas idosas, as chamadas são feitas por telefone analógico: não são as figuras parentais e/ou as pessoas idosas em Portugal que se adaptam, mas quem emigrou, para manter a forma de comunicação da geração ascendente. Isso concorda com a literatura segundo a qual o acesso aos ecossistemas é mais difícil com a idade (Ganito, 2018).
Algumas pessoas relatam que esse contato é percebido como uma forma, nos dois sentidos, de reduzir a ansiedade ou a solidão por viver longe do núcleo familiar. Além disso, considerando o aumento das tecnologias em sua vida e em suas dinâmicas (Mateia, 2018), os rituais familiares também parecem ter se adaptado, o que, por sua vez, transformará o modo como essas famílias podem ganhar flexibilidade para a resiliência individual e coletiva (Denov et al., 2019; Walsh, 2020).
O contato, presencial ou por formas digitais, permite uma presença mais frequente entre os diversos membros das famílias transnacionais, abrindo espaço para dinâmicas diversas; será importante considerar a simbiose do continuum solidariedade-conflito-ambivalência (Bengston e Oyama, 2007; Lowenstein, 2007; Lüscher, 2011) e como estar em contato aumenta a percepção de presença, resultando num sentimento de pertença mais forte (Neto, 2019).
Por isso, é impossível refletir sobre o sentimento de pertença nessas famílias sem considerar a força central da dimensão afetiva da solidariedade, pois é nela, dentro da SI, que se encontram as percepções sobre sentimentos e satisfação com os laços afetivos, possivelmente na base das dinâmicas que permitem a resiliência na presença (Bengston e Oyama, 2007; Fingerman et al., 2020).
Analisando essa dimensão afetiva, vemos que mais da metade das pessoas participantes relatou apoio familiar ao projeto migratório. Algumas chegam a dizer que a família e a família nuclear foram essenciais no reforço afetivo durante o plano migratório, mesmo quando se tratava de um processo vivido como desconfortável pelos familiares em Portugal, como ilustra Alice (F22), ao contar sua experiência com a figura que cuidou dela (a avó): “[ela] chorou de alegria, chorou de tristeza… mas me apoiou… me apoiou na minha decisão, sempre me disse que havia sempre a possibilidade de voltar, mas que queria o melhor para mim”. Beatriz (F19) disse que “foi principalmente no sentido: vai, nós te ajudamos, e quando não houver alternativas, volta, nós somos um plano B para te apoiar… o que é algo que nem todo mundo sempre tem”, destacando o apoio afetivo como matriz da comunicação intergeracional, cujas relações são uma forma de mediar situações de conflito (Lüscher, 2004).
Por fim, é possível considerar o efeito dos laços afetivos na mediação dessas dinâmicas, já que cerca de um terço mencionou que as dinâmicas parentais e familiares, mesmo com uma gestão das diferenças nem sempre fácil, melhoraram desde que passaram a viver a uma distância geográfica, com contato diário e acompanhamento pelo digital, o que permite reduzir a solidão da geração ascendente no país de origem (Mateia, 2018).
As diferentes formas de presença e as modificações nas dimensões da solidariedade levam a refletir sobre o que isso implica para as normas, à luz do que cada membro espera da família, bem como para os valores sociais. Ambos podem ser compreendidos a partir das dimensões normativa e consensual da solidariedade (Bengston e Oyama, 2007).
A família é percebida por quase todas as pessoas participantes como uma estrutura de união, de peso e de contexto que dita normas entre gerações (solidariedade normativa), com a qual a maioria diz se identificar (Bengston e Oyama, 2007), o que reforça a pertença familiar (Neto, 2019).
Elas indicam valores, normas e orientações macrossociais compartilhados com os familiares (solidariedade consensual). Os valores compartilhados frequentemente citados são a autonomia, a ligação familiar, o apoio social e a solidariedade, o respeito pela individualidade, o direito ao espaço individual, a liberdade e o direito à opinião. Por outro lado, as entrevistas mostram que o conflito ultrapassa a esfera de ação familiar e se torna macrossistêmico. Ou seja, a maioria das pessoas participantes afirmou que suas figuras parentais têm valores e atitudes mais conservadores, o que impede a partilha intergeracional.
Essas pessoas relatam que a falta de experiência intercultural e uma vivência menos global dos pais criam diferenças de opiniões e valores, e os percebem como menos sensíveis às diferenças, como mostra o breve exemplo dado por Joana (F17):
“conviver com pessoas de nacionalidades diferentes… ter que aprender a conviver com pessoas muito diferentes acabou me abrindo muito mais a cabeça em relação a: emigração, migração, guerra, política internacional (…) sobre migrantes, sobre refugiados… talvez aí a gente divergisse… a gente começa a divergir muito, principalmente porque minha mãe e eu temos experiências muito diferentes… meu pai também foi imigrante, minha mãe nunca foi imigrante… ela nasceu, cresceu e sempre viveu na mesma casa, sempre no mesmo lugar, e a gente acaba tendo valores um pouco diferentes, vendo as coisas de um jeito um pouco diferente. Não que eles tenham menos respeito pelo valor da vida humana ou o que seja, mas talvez a gente aceite as coisas e veja as coisas de forma um pouco diferente um do outro.”
Diante desses dados, é importante considerar a perspectiva ecossistêmica de Bronfenbrenner (2005) e seu foco em compreender atitudes, valores, normas e os respectivos preconceitos não só como comportamentos resultantes da influência dos micro aos macrossistemas, mas também dentro de um contexto cronológico em que pais e filhos adultos têm percepções diferentes da globalização e da circulação de normas e valores. Torna-se cada vez mais importante compreender os contextos interseccionais e multissistêmicos (Villas-Boas et al., 2017).
Cerca de metade das pessoas participantes mencionou que as opiniões e os valores das figuras parentais já geraram conflitos que levaram a uma ruptura da comunicação e à necessidade de evitar os temas em questão. Elas se referem a aspectos da identidade cultural portuguesa que consideram inadequados, como as touradas ou a vivência de rituais festivos típicos (roupas, cerimônias, condicionamento de comportamentos para seguir as tradições). Uma grande maioria mencionou que o modo como as figuras parentais veem com preconceito o acolhimento de pessoas estrangeiras, a aceitação dos movimentos e políticas LGBTQI+, as minorias étnicas, e também a aversão ao risco no plano profissional, gera cansaço e incompreensão. Esses aspectos ressaltam a necessidade de uma compreensão interseccional das normas e dos valores que são obstáculos à construção de uma sociedade mais inclusiva (Ilic, 2020).
Em um caso, foram mencionadas limitações baseadas em papéis de gênero. Embora não se tenha optado por explorar a solidariedade pela lente das teorias de gênero, é preciso ressaltar a importância dessas dinâmicas para compreender as dinâmicas intergeracionais, bem como as expectativas e os papéis no quadro familiar (Min et al., 2012). A literatura indica uma direcionalidade das expectativas de apoio, sobretudo de cuidado, em casos de doença da geração ascendente (solidariedade funcional) (Coimbra et al., 2013; Wilson et al., 2003). Essa percepção, contudo, implica um conjunto de projeções de papéis familiares (solidariedade normativa) e, consequentemente, sua projeção nos valores baseados no que se espera das figuras femininas (por exemplo, mães, filhas, avós: solidariedade consensual). Essas dinâmicas de preconceito e de normas fazem com que as mulheres migrantes, nas famílias transnacionais, sintam mais ambivalência e conflito (Fingerman, 2004; Wilson et al., 2003).
Em todos esses casos, as pessoas participantes relatam ambivalência entre querer informar e atualizar as figuras parentais sobre questões que atribuem à falta de experiência de contextos de diversidade em Portugal e, no sentido oposto, querer evitar os temas em questão, pois percebem que não podem mudar nenhuma realidade, como exemplifica Cátia (F11): “Sei que ela não vai mudar de ideia, mas às vezes a gente releva, mas sem se zangar comigo ou com meu pai, nem a gente se zangar com ela ou algo assim”. Isso remete ao conflito-ambivalência associado à solidariedade consensual (Bengston e Oyama, 2007; Lowenstein, 2007): o quanto a comunicação com as figuras parentais pode ser importante, mas estressante. Destaca-se, no entanto, um impacto positivo dessa comunicação na construção da transculturalidade e de valores de aceitação da diversidade na parte da família que ficou no país de origem, nas famílias transnacionais (Albert e Ferring, 2018; Barros, 2021).
Verificou-se também que um terço das pessoas entrevistadas escolheu a evitação como forma de gerir o conflito familiar. A maioria mencionou que aborda as questões que afetam negativamente suas dinâmicas relacionais com as figuras parentais, mas acaba evitando discutir abertamente o motivo do conflito, por não considerar que a família tenha capacidade de escutar e dar sentido a experiências que interferem no seu bem-estar migratório. Acabam usando a comunicação digital para mediar conteúdos que não são compartilhados com as figuras parentais.
Embora a maioria das pessoas participantes relate que o contato por plataformas digitais melhorou as relações familiares ou permitiu desenvolver relações de melhor qualidade, a maioria indica que a distância geográfica dificulta a interação familiar, o que se manifesta em divergências geracionais de perspectiva sobre o que se espera quanto aos momentos e à frequência das visitas ao país de acolhimento de quem participou (van Gaalen et al., 2010).
A maioria percebe que as diferentes perspectivas dos familiares sobre o número de contatos (digitais ou presenciais) aumentam o conflito interno e a tensão psicológica, levando a conflitos entre familiares, o que corrobora a literatura sobre conflito e ambivalência como algo habitual nas dinâmicas (Albert e Ferring, 2018; Lowenstein, 2007). Isso se regula com a vivência gradual das novas formas de contato e com o apoio da família construída com a pessoa parceira no país para onde se emigrou, como relata Rosa (F22):
“Meu filho agora tem três anos, […] não sei se vou conseguir levar isso adiante, mas com meu marido, no geral, a gente tenta que, realmente, as coisas sejam como são, as famílias não são perfeitas, nem as coisas sempre correm bem, e o importante é dizer as coisas como são e enfrentá-las.”
A presença do conflito, resolvido na cooperação intergeracional, também se destaca no que é percebido como adequado nos rituais familiares, sejam cotidianos, festivos ou ocasionais. Ou seja, a grande maioria mencionou que o modo como as gerações ascendentes percebem sua presença é um fator de desgaste, com a percepção de uma carga emocional por uma presença excessiva na família em Portugal, em contraste com a noção de casa no país de destino, como ilustra Catarina (F10):
“Normalmente, uns dois ou três dias antes de ir é que eu começo a ficar… não é ansiedade, não é, mas começo a contar os dias, digamos, porque meus pais começam a perguntar o que eu quero comer, aonde quero ir, quem quero ver, e aí começa… a memória começa a reviver e […] estou em Portugal, na maior parte do tempo… os primeiros três, quatro dias, ainda consigo me dedicar… muito, digamos, à minha família; depois disso, começa a ficar complicado, porque sinto que tenho duas vidas.”
Mencionou-se que a manutenção do contato na família, desenvolvido durante a estadia no exterior, é uma causa de tensão em negociação. A presença digital aproxima as realidades e facilita o contato, mas também parece anular a privacidade e a autonomia diante dos familiares, já que todo mundo está sempre conectado, como no exemplo de Ana (F7):
“Tento dizer a ela: mãe! você sabe que não precisa… não precisa mandar mensagem todo dia, ou, olha! há certas coisas que agora, não é, eu sou adulta e tenho minha vida, e a gente pode conversar, mas não todo dia… e tentar, talvez… acho que também percebo fases, minha mãe também, se ela está um pouco mais carente emocionalmente, há momentos em que me manda mais mensagens, então também tento entender o que está acontecendo do lado dela.”
Esse depoimento leva a repensar as expectativas de gênero entre gerações e como elas podem ser fonte de estresse e ambivalência (Fingerman, 2004; Wilson et al., 2003).
A grande maioria das pessoas participantes sente um conflito interno por não estar mais presente na vida das gerações mais velhas da família, para quem a adaptação à comunicação pelas novas tecnologias não foi tão fácil, e considera não conseguir acompanhar o contato diário, o que cria ambivalência entre aproveitar a experiência migratória e sentir desconforto por não acompanhar o envelhecimento e a saúde dos familiares, sinal de preocupação com as pessoas idosas, como se vê no exemplo de Lucas (F14):
“A probabilidade de eles acabarem morrendo e eu não estar lá também me deixa com alguma angústia… nem tanto culpa, porque as coisas são assim e isso vai acontecer, então, não… não há dúvida, ninguém fica aqui para sempre, mas a probabilidade de eu estar longe quando chegar a hora é bem alta, então isso também me deixa com alguma angústia de não poder… não poder acompanhar os próximos anos perto deles.”
Esses resultados remetem à importância de refletir sobre os ecossistemas digitais, em especial sobre como a idade pode ser uma vulnerabilidade no acesso digital, e de reinventar os rituais familiares entre o digital e o face a face (Denov et al., 2019; Ganito, 2018).
As diferenças geracionais apresentam-se como um fator desafiador para a cooperação entre pais e filhos adultos, já que as gerações têm perspectivas diferentes sobre a vida, contextos socioculturais possivelmente diferentes, e o espaço-tempo em que a pessoa vive muda sua maneira de ver o mundo. Como ilustração, pode-se recorrer ao modelo bioecológico de Bronfenbrenner (2005), que alerta para a importância de considerar os sistemas em que a pessoa está inserida, dos mais próximos aos mais distantes, sem nunca esquecer a dimensão cronológica. Ao estudar as dinâmicas das famílias transnacionais, é ainda mais importante compreender não só as dinâmicas sociais, mas também a interseccionalidade dos desafios que enfrentam as famílias compostas de pessoas que emigraram e de pessoas que ficaram no país de origem (Villas-Boas et al., 2017; Ilic, 2020).
Considerando a essência do apoio nessas famílias, o modelo que permitiu analisar essas dinâmicas relacionais foi o da solidariedade intergeracional (Bengston e Oyama, 2007; Coimbra et al., 2013), que hoje integra a simbiose do continuum solidariedade-conflito-ambivalência (Bengston e Oyama, 2007; Lowenstein, 2007; Lüscher, 2011). Essa opção permitiu uma análise adequada do que mudou na experiência dessas pessoas com a presença híbrida da família, mediada entre o digital e o face a face.
Este estudo permite aprofundar o modo como o espaço digital contribui para a comunicação e a presença da pessoa emigrante junto à família no país de origem e, respectivamente, como isso se reflete na manutenção das relações e nas percepções sobre elas. Mostra, antes, como esse comportamento atenua o impacto das dificuldades e dos desafios da distância geográfica, permitindo adaptar os rituais familiares, sejam em suas formas cotidianas, festivas ou tradicionais, que são vividos de forma presencial e digital (solidariedade associativa-estrutural). As pessoas participantes parecem ressignificar a percepção do espaço, criando interações híbridas que aumentam sua pertença ao grupo (Neto, 2019). Ao mesmo tempo, o estudo chama a atenção para as diferenças crescentes que dão origem a conflitos e ambivalências, no contexto do grupo familiar: quais são suas expectativas de cuidado e presença (solidariedade funcional-normativa) e qual partilha de valores e normas sociais pode aproximar as gerações (solidariedade consensual), com vistas a moldar juntas sua trajetória (Albert e Ferring, 2018). Ainda assim, a solidariedade afetiva atua como elo para que todas as outras dimensões funcionem e se mantenham dinâmicas nessas relações, com os aspectos naturais da solidariedade-conflito-ambivalência, o que corrobora a literatura que aponta a importância de abordar esse continuum (Albert e Ferring, 2018; Baykara-Krumme e Fokkema, 2019; Barros, 2021).
Os dados mostraram que as formas digitais de comunicação podem funcionar como meio de promover pertença e interculturalidade, já que as pessoas emigrantes podem trazer novas perspectivas sobre o mundo e outras formas de viver, sendo uma via de crescimento social e, ao mesmo tempo, uma forma de levar valores transculturais e maior abertura ao outro às figuras parentais em Portugal. Isso é muito importante, pois é necessário não só para a intervenção, mas também para reduzir o estigma e o preconceito nas relações, já que é importante aumentar a empatia e as competências interculturais (Gamsakhurdia, 2019; Ramos, 2013).
Acredita-se que a pandemia de covid-19 acelerou o contato digital, e o uso de diversas formas de comunicação on-line está hoje ainda mais difundido (Rojas Rodríguez et al., 2021) do que quando os dados foram coletados. Ainda assim, o que permanece comum para estudos futuros é a importância de uma perspectiva mais interseccional, que considere as questões de gênero e a conciliação entre trabalho e vida pessoal/familiar, acentuada pelo trabalho remoto e pelas formas digitais na pandemia, a serviço da resiliência (Walsh, 2020).
Em estudos futuros, também é necessário abordar aspectos ligados à parentalidade e à conjugalidade ao longo da vida (Min et al., 2012). Isso é importante porque é preciso abordar a ideia de envelhecimento que preocupa essas pessoas jovens que emigraram, tanto em relação aos pais quanto à própria vida na experiência transnacional, o que pode resultar em menor bem-estar (Denov et al., 2019; Fingerman, 2004; Neto, 2019).
Complexe Systémique: a reter
Este estudo qualitativo português interessa à clínica sistêmica por vários motivos. Mostra, primeiro, que a distância não anula a presença: as famílias transnacionais reinventam seus rituais entre o Natal na terra e as videochamadas diárias, a ponto de algumas relações melhorarem com o afastamento. Lembra, depois, com o modelo de Bengtson, que solidariedade e conflito não se opõem num mesmo eixo: é possível manter muita proximidade e discordar profundamente, e a ambivalência nasce desse encontro. As diferenças de valores (acolhimento de pessoas estrangeiras, direitos LGBTQI+, papéis de gênero) tornam-se temas evitados, e o digital às vezes serve para contornar o que não se diz. A hiperconexão também desgasta: as mensagens diárias de uma mãe, a sensação de ter “duas vidas”. Para o trabalho com famílias em migração, esses dados convidam a explorar a geografia do vínculo, seus rituais e suas zonas de silêncio. Limites: uma pequena amostra de conveniência, majoritariamente feminina e qualificada, coletada antes da pandemia, e apenas a voz de quem partiu, sem a da geração que ficou em Portugal. Para ler junto com o artigo sobre a família transnacional e com o modelo de resiliência das famílias transnacionais de trabalhadoras domésticas filipinas.
Notas do original
Agradecimentos. Carlos Barros agradece às pessoas participantes do estudo e à equipe de pesquisa da Universidade de Lisboa que ajudou a refletir sobre os dados.
Financiamento. Financiamento do acesso aberto pela FCT|FCCN (b-on). Coleta de dados realizada durante uma bolsa de doutorado da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (referência PD/BD/128345/2017). Elaboração do artigo durante uma bolsa de pós-doutorado da Universidade Católica Portuguesa, com o apoio da PORTICUS.
Consentimento para participar. Foi obtido o consentimento livre e esclarecido de cada pessoa participante.
Conflitos de interesse. Não há conflitos de interesse declarados.
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Tradução não oficial em português de A conexão nas famílias transnacionais: espaços presenciais e digitais na emigração portuguesa, de Carlos Barros, Trends in Psychology, vol. 33, no 4, p. 1314-1333 (2025), doi: 10.1007/s43076-023-00309-4, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Connection in Transnational Families. Face-to-Face and Digital Spaces in Portuguese Emigrants”, publicado em Trends in Psychology (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Barros, C. (2025). A conexão nas famílias transnacionais: espaços presenciais e digitais na emigração portuguesa (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/a-conexao-nas-familias-transnacionais-espacos-presenciais-e-digitais-na-emigracao (Obra original publicada em 2023 em Trends in Psychology, 33(4), 1314-1333 (2025); republicada em 2025 por Trends in Psychology, https://link.springer.com/article/10.1007/s43076-023-00309-4)
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