Esta versão foi traduzida do inglês pelo Complexe Systémique com a ajuda da inteligência artificial. Em caso de dúvida, prevalece a versão original.
Qualitative Health Research · Luto
Pais enlutados participam pouco de grupos de apoio e muitas vezes ficam sozinhos com a dor. Na Noruega, catorze pais cujo filho morreu inesperadamente frequentaram um curso on-line de escrita terapêutica. A equipe restitui sua experiência em quatro poemas compostos a partir de notas de campo e confrontados com os próprios escritos deles: resistência, raiva, paternidades paralelas e o vínculo mantido com a criança.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de A experiência de pais na Noruega que frequentaram um curso on-line de escrita terapêutica após a morte de um filho, de Olga V. Lehmann, Trine Giving Kalstad e Robert A. Neimeyer, publicado na Qualitative Health Research (SAGE) (2024), doi: 10.1177/10497323231216099, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de listas, com a Tabela 1 reorganizada por semana; os poemas são traduzidos e apresentados em citações destacadas; uma citação que a fonte fundiu ao texto foi restabelecida em destaque; as declarações de fim de artigo foram reunidas nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Uma perspectiva dialógica não se limita aos posicionamentos internos do self, mas se dirige a um senso de alteridade, destacando a importância do apoio entre pares.
Olga V. Lehmann, Trine Giving Kalstad e Robert A. Neimeyer
Resumo
Após a morte inesperada de um filho ou de uma filha, pais e mães enlutados precisam de acesso rápido a sistemas de apoio úteis. Cursos on-line de escrita terapêutica podem tornar esse apoio acessível. Como poucos estudos incluíram pais enlutados entre os participantes, exploramos as experiências de pais cujos filhos morreram inesperadamente e que participaram de um curso on-line de escrita terapêutica na Noruega. Realizamos dois cursos-piloto (grupo 1, seis semanas, n = 9; grupo 2, cinco semanas, n = 5). Descrevemos nossas considerações metodológicas sobre o uso de representações poéticas na pesquisa qualitativa em saúde e apresentamos quatro representações poéticas baseadas em notas de campo escritas pela pessoa que coordenou a pesquisa. Em seguida, nós as triangulamos e analisamos narrativamente junto com dois poemas coletivos escritos pelos participantes de cada grupo, trechos dos escritos de dois pais, um por grupo, questionários de avaliação (n = 4; n = 3) e registros anônimos de encerramento do segundo grupo (n = 3). A resistência foi um traço marcante do luto de nossos participantes, e a escrita lhes permitiu tanto entrar em contato com seu mundo emocional quanto elaborar emoções difíceis enquanto buscavam sentido apesar da morte de seus filhos. Aqueles que frequentaram mais encontros perceberam o curso como transformador, como parte de uma autoexploração em andamento e como uma possibilidade de continuar e fortalecer o vínculo com seus filhos. Nossos resultados espelham as complexidades das experiências de luto dos pais, evidenciando sua necessidade de encontrar um ritmo para mergulhar em seu mundo emocional, a importância do apoio entre pares e o valor de diversificar as técnicas de intervenção para atender às necessidades e preferências individuais.
Palavras-chave: escrita terapêutica, luto, pais enlutados, resistência, emoções, construção de sentido, representações poéticas, diário, grupos on-line
Há poucos tratamentos com base empírica que reconheçam as diferenças individuais no luto, e muitos dos tratamentos disponíveis não ajudam tanto as famílias enlutadas quanto outras pessoas enlutadas (Pelacho-Rios e Bernabe-Valero, 2022). Genitores enlutados podem correr um risco maior de desenvolver transtornos como luto prolongado, estresse pós-traumático, ansiedade e/ou depressão (Aoun et al., 2015; Bottomley et al., 2022). Ainda assim, cerca de dois terços percebem que não recebem apoio suficiente durante o luto (Aoun et al., 2015). Quando a morte de um filho é inesperada, como no caso da perda perinatal ou da síndrome da morte súbita do lactente (SMSL), faltam sistemas de apoio para acompanhar os pais em um processo de luto muitas vezes traumático e desafiador (Corno et al., 2020). O apoio centrado na pessoa e individualizado tem mostrado efeitos positivos para ajudar genitores enlutados (Dyregrov et al., 2000), e as equipes de saúde estão atentas ao modo como fatores como o gênero, a etapa de desenvolvimento dos pais e as nuances relacionais com o filho falecido podem levar a percursos singulares de integração do luto (Pedraza et al., 2023).
Genitores que se sentem sobrecarregados ou sentem necessidade de evitar qualquer expressão de pesar e de luto tendem a ter mais dificuldade para se adaptar à vida após a morte do filho (Barrera, 2007). Quanto à dinâmica do casal, considera-se que os dois genitores enlutados compartilham espaços de elaboração afetiva, como consolar um ao outro, lembrar e manter os vínculos com a criança ao longo do tempo (Bergstraesser, 2015). Alguns temas importantes para ajudar os pais a elaborar e integrar o luto podem ser o reconhecimento das emoções, a resolução de assuntos pendentes e a construção de uma forma de legado para a criança (Moriconi e Cantero-García, 2022).
A escrita é uma entre muitas ferramentas que podem ajudar pessoas e famílias a cuidar de suas experiências emocionais e a encontrar motivação e sentido enquanto nutrem o vínculo com os filhos e filhas falecidos. A escrita pode ajudar a acolher as tonalidades emocionais das memórias e da imaginação de um modo que restaura e ajuda a moldar uma identidade com senso de dignidade, à medida que se enfrentam os desafios do curso da vida (Lehmann e Synnes, 2023). A escrita terapêutica favorece a elaboração afetiva e a construção de sentido sobre aquilo que nos faz sofrer — o luto, no caso deste artigo — e sobre a possibilidade de florescer na vida apesar desse sofrimento. A estrutura e a intenção das técnicas de escrita terapêutica foram descritas de diferentes maneiras, algumas mais centradas na exposição às experiências traumáticas (Pennebaker, 1997), outras mais centradas nos aspectos criativos e dialógicos que a própria escrita pode evocar (Neimeyer, 1999, 2012). Seja por iniciativa própria das pessoas enlutadas, seja como parte de intervenções de baixo limiar e/ou especializadas, a escrita tem efeitos terapêuticos comprovados. A literatura em psicologia e nas humanidades oferece sólido respaldo aos efeitos terapêuticos que a escrita pode ter quando fortalece a elaboração afetiva e a construção de sentido diante do luto, do trauma, das transições de vida e de muitas outras circunstâncias (Den Elzen et al., 2023; Den Elzen e Lengelle, 2023; Neimeyer, 1999; Pennebaker e Smyth, 2016; Steffen et al., 2022).
No presente estudo, focalizamos a escrita entre pais enlutados porque pouquíssimas pesquisas sobre o luto após a morte inesperada de um filho incluem homens entre os participantes (Kersting et al., 2013; Mota et al., 2023). A literatura disponível sobre o tema se concentra sobretudo em genitores cujos filhos morrem em decorrência de doenças crônicas como o câncer (Aho, 2009). Metanálises enfatizam que as experiências de luto diferem entre mulheres e homens, o que os leva a responder de modo diferente às intervenções (Shut et al., 2001). Entre outros fatores, os homens podem ter suas necessidades no luto pouco reconhecidas, receber menos atenção das equipes de saúde e sentir pressão para apoiar suas parceiras (Mota et al., 2023; Obst et al., 2020).
Os resultados de pesquisa sobre as experiências de luto dos homens podem ser contraditórios. Alguns estudos indicam que os pais respondem ao luto de acordo com os papéis de gênero masculinos e as normas sociais, lidando com os sentimentos em privado e evitando ou silenciando o luto, enquanto se mostram racionais, orientados para a ação e emocionalmente distantes (Mota et al., 2023; Williams et al., 2020; Zylla, 2017). Por medo de desmoronar, os homens também podem se manter ocupados como estratégia de enfrentamento, e essa motivação concorre com o desejo ou a necessidade de abrir espaço, no cotidiano, para se relacionar com o filho morto (Proulx et al., 2016).
Genitores enlutados se sentem gratos por receber apoio psicossocial centrado na pessoa, em que seus sentimentos de tristeza ou raiva são acolhidos e validados (Cacciatore et al., 2013). Outros sentimentos, como a vergonha e a culpa, também parecem relevantes e exigem atenção no apoio oferecido (Barr, 2012). Alguns achados sugerem que pais enlutados se beneficiariam mais de intervenções orientadas para as emoções (Schut et al., 1997), isto é, daquilo que se opõe às representações sociais de seu gênero. Outras perspectivas sugerem que as pessoas que enfrentam o luto de formas mais instrumentais — um estilo mais cognitivo e orientado para a ação, muitas vezes associado às experiências dos homens — raramente participam de formas de apoio individuais ou em grupo, sobretudo se essas formas de apoio priorizam a ventilação emocional em detrimento de outras ferramentas (Doka et al., 2010). Em geral, os homens têm menos probabilidade de procurar psicoterapia e, quando procuram, sua taxa de abandono pode chegar a 45% ou mais (Seidler et al., 2021).
No caso dos grupos de apoio ao luto, algumas pesquisas sugerem até que os participantes homens apresentam aumento dos sintomas depressivos e diminuição da energia e da disposição (Maruyama e Atencio, 2008). Ainda está por estudar a forma como as emoções são abordadas nessas intervenções, se essas mudanças de humor são temporárias ou não e se fazem parte da elaboração afetiva de emoções difíceis. Inovar no apoio em saúde mental para homens exige uma compreensão profunda de suas motivações e expectativas, a fim de desenvolver intervenções que lhes sejam úteis. Quaisquer que sejam as razões pelas quais os homens vivem o luto como vivem, a pesquisa e a prática precisam mapear suas necessidades e desejos, integrando perspectivas de gênero, personalidade e cultura. Por isso, os esforços de pesquisa e desenvolvimento voltados à exploração das experiências vividas de pais e mães enlutados são cruciais para mapear suas necessidades e preferências e incluí-las em sistemas de apoio de baixo limiar e/ou especializados. Neste artigo, buscamos retratar narrativas sobre o mundo emocional dos homens em relação ao luto e responder às seguintes perguntas: de que experiências vividas após a morte inesperada de um filho os homens falam em um curso on-line de escrita terapêutica? Como pais cujos filhos morreram inesperadamente vivenciam a participação em um curso desse tipo?
Nove participantes se inscreveram no primeiro curso; cinco frequentaram as seis sessões, e os outros quatro, parte delas. Cinco pais se inscreveram no segundo curso: três frequentaram todas as sessões, um frequentou parte das sessões em grupo e as sessões de orientação individual, e um desistiu do curso, perguntando se poderia receber apenas os primeiros socorros emocionais em psicologia. Todos residiam na Noruega, em seis cidades diferentes do país. A idade média dos participantes era de 35 anos. As principais causas da morte de seus filhos foram a síndrome da morte súbita do lactente (SMSL) ou o natimorto (n = 9), doença, acidente ou causa não informada (n = 5). Com exceção de dois participantes que se inscreveram nos cursos 14 e 18 anos após a morte de seus filhos, o tempo médio de luto dos participantes era de 15 meses. A idade média das crianças que morreram por doença ou acidente era de 2,8 anos; para os demais participantes, as crianças nasceram mortas ou morreram poucos dias após o nascimento.
Para o nosso estudo, integramos técnicas de diversas bases teóricas da psicoterapia e das humanidades, seguindo as premissas da psicoterapia pluralista. A psicoterapia pluralista enfatiza que os seres humanos têm necessidades e desejos diferentes e que oferecer uma diversidade de técnicas e modelos torna mais provável atender a essas diferenças individuais (Cooper e McLeod, 2007). As abordagens pluralistas do luto mostraram efeitos positivos significativos e duradouros entre quem as utiliza (Steffen et al., 2022). Na Tabela 1, apresentamos um plano detalhado do curso, com uma breve descrição da psicoeducação e das práticas de escrita usadas nos dois grupos. A maioria das sessões foi semelhante nos dois grupos. No entanto, como se tratava de um projeto de pesquisa e desenvolvimento (P&D), pequenas modificações foram introduzidas no grupo 2 para atender a alguns retornos dos participantes do grupo 1. Os aspectos gerais da estrutura e dos conteúdos do curso se baseiam em um estudo anterior sobre cursos on-line de escrita com mães na Noruega (Lehmann et al., 2022).
Tabela 1 — Estrutura e conteúdos dos cursos de escrita para pais enlutados
Independentemente das premissas teóricas das diversas técnicas utilizadas, uma de suas intenções era promover diálogos genuínos dos participantes com outras pessoas e com partes de si mesmos. Algumas práticas implicavam um diálogo explícito, na forma de cartas a outros participantes do curso, a si mesmo e à pessoa falecida (Hedtke, 2012; Neff e Germer, 2018; Neimeyer, 2012). Outras atividades traziam formas mais implícitas de diálogo interno, por meio de tarefas criativas e imaginativas, como esboçar o sumário da própria biografia (Neimeyer, 2011) ou escrever sobre o luto usando poemas ou canções como estímulo (Metcalf e Simon, 2002). Para além dessas diferentes práticas, a escrita serviu como plataforma de diálogo entre os participantes e diversos aspectos de sua identidade, a pessoa parceira, as equipes de saúde, outros pares e seus filhos.
Conduzimos o primeiro dos nossos cursos de escrita para pais enlutados no outono de 2022, durante 6 semanas, com encontros semanais de 3 horas e uma sessão individual de 30 minutos de retorno sobre um texto escolhido. Diante da resposta positiva às sessões individuais, reorganizamos a estrutura do segundo curso, realizado em 5 semanas na primavera de 2023, com encontros semanais de 2 horas e meia e três sessões individuais de 30 minutos de retorno sobre o texto escolhido. Todos os participantes receberam a oferta de duas sessões gratuitas de “primeiros socorros” emocionais com psicólogos, para elaborar as emoções difíceis que surgissem no curso. Tanto as sessões de primeiros socorros emocionais quanto as de retorno individual foram bem recebidas, inclusive pelos participantes que desistiram ou não frequentaram todas as sessões do curso.
A pessoa que coordenou a pesquisa encontrou os participantes do estudo pelo Zoom. Cada sessão noturna começava com uma prática de transição com atenção plena para a escrita e um registro de abertura com frases incompletas sobre o que sentiam no momento. Era oferecida psicoeducação sobre o tema da semana (respectivamente, esperança, diálogo, compaixão diante da vergonha e da raiva, autocompaixão e bondade amorosa, e sentido da vida) em relação ao luto, às emoções e ao sentido existencial. As práticas de escrita consistiam em tarefas individuais e perguntas reflexivas em pequenos grupos e em plenária, para favorecer a consciência emocional, a elaboração afetiva e a construção de sentido. Os participantes eram incentivados a decidir por conta própria quanto escrever e quanto compartilhar uns com os outros. Para promover um senso de segurança e um ritmo adequado à dinâmica do grupo, também se lembrava aos participantes que eles podiam falar de seus processos internos durante a escrita sem ler as palavras exatas que tinham escrito. Ao final de cada sessão, os participantes faziam registros a partir de estímulos reflexivos de encerramento e recebiam uma prática para fazer em casa.
Compusemos quatro representações poéticas com base nas notas de campo da pessoa que coordenou a pesquisa durante a condução dos dois cursos de escrita. Essas notas continham principalmente resumos do que os participantes diziam nas discussões em plenária, sessão por sessão (11 semanas no total). As representações poéticas são sínteses emocionalmente impactantes, aqui na forma de poemas em verso livre escritos com base nos dados dos participantes do estudo (Faulkner, 2005, 2009). Na pesquisa qualitativa em saúde, as representações poéticas são relevantes porque podem iluminar as experiências corporais do sofrimento dos participantes (Ohlen, 2003), evocando a multiplicidade de vozes das experiências dentro de um participante e/ou entre participantes. Essas sínteses de dados também convidam ao diálogo entre participantes, equipe de pesquisa e o público do artigo (Lehmann e Brinkmann, 2021).
Pode-se pensar nessas representações poéticas como poemas de spoken word (poesia falada), e não como uma forma poética clássica. O processo de composição das representações poéticas envolveu as seguintes etapas: (a) transcrição das notas de campo, separando os parágrafos em linhas; (b) inclusão de uma coluna extra com códigos que resumem o conteúdo de cada parágrafo; (c) inclusão de outra coluna para observações analíticas e temas; (d) refinamento dos códigos e busca de temas abrangentes; (e) esboço de poemas que refletissem os temas-chave; (f) leitura repetida dos poemas, reorganização da redação e lapidação dos temas; (g) envio dos poemas aos demais membros da equipe autora para comentários; (h) envio dos poemas aos participantes do estudo para comentários; (i) incorporação dos comentários e síntese dos poemas para reduzir sua extensão; e (j) refinamento da estética das estrofes, mantendo fidelidade às transcrições das notas de campo.
O produto final correspondeu a quatro representações poéticas com os seguintes temas: (a) luto e tempo, sobre suas experiências de temporalidade no luto, para alguns matizadas pela pandemia; (b) apropriar-se das próprias emoções, sobre a experiência dos participantes com as emoções e sua elaboração; (c) paternidades paralelas, sobre as experiências ambíguas de ser pai de uma criança morta enquanto se abrem a novas gestações; e (d) o luto como processo, que destaca as experiências de luto e de construção de sentido dos participantes em uma perspectiva dialógica.
Para garantir a validade qualitativa de nossas representações poéticas, nós as contrastamos com outras formas de dados e analisamos todo esse material narrativamente. Seguimos as premissas da psicologia narrativa, segundo as quais as histórias são centrais para a experiência e a existência humanas, e a pesquisa deve coletar dados que retratem como é a vida psicológica dos participantes por meio dos processos de construção de sentido que dão conta dela (Josselson e Hammack, 2021). Especificamente, prestamos atenção aos acontecimentos-chave e às histórias que esses acontecimentos formam, ao modo como os personagens são posicionados no roteiro da narrativa e às nuances emocionais das narrativas (Silver, 2018).
As duas primeiras peças eram poemas curtos escritos coletivamente no chat durante a última sessão de cada curso. As outras peças eram dois poemas escritos por um participante de cada um dos dois cursos e uma tabela-resumo dos registros de abertura e de encerramento, semana a semana, compartilhada por um desses pais. Além disso, incluímos os dados de questionários de avaliação anônimos dos dois grupos, registros de encerramento do segundo grupo e um acompanhamento por e-mail com um participante. Sempre que possível, usamos pseudônimos para nos referir aos participantes e a seus filhos. Para os dados preenchidos anonimamente, numeramos os participantes e usamos as abreviações “ES1” ou “ES2” para indicar se o questionário de avaliação era do primeiro ou do segundo grupo e depois numeramos os participantes; usamos “CHO” para os registros de encerramento, especificando a sessão.
A prática de escrever notas de campo quando conduzo grupos on-line me ancora. Prestar atenção a diferentes ritmos emocionais, histórias de vida e perspectivas é uma lição de humildade; pede minha escuta e minha memória. Certa vez, um participante leu um verso de um poema inacabado, reiterando a luta para encontrar palavras fiéis ao seu sofrimento e a urgência de encontrar um caminho de volta para um ritmo de vida. A pulsação de seu desejo de cuidar das palavras continuou a ressoar em mim; ele me lembrou do poder e da responsabilidade das minhas próprias palavras. Na pesquisa, muitas vezes escrevemos sobre as experiências dos participantes de maneiras bastante complicadas; os métodos criativos na investigação qualitativa são ferramentas poderosas para nos aproximarmos dos participantes: permitem-nos falar a partir da nossa condição humana e para ela.
Muito do que acontece nos grupos de escrita transcende a própria escrita. Trata-se do senso de reciprocidade que se nutre nesses encontros (Lehmann e Brinkmann, 2019). O que um participante compartilha pode ecoar a experiência de outro ou lhe oferecer uma perspectiva. Eles podem compartilhar a luta para encontrar palavras para o inefável e, enquanto constroem um senso de união, costurar o tecido do luto com bordas macias e ásperas. O cobertor de suas palavras é um companheiro enquanto cada um atravessa, no próprio ritmo, a tempestade das emoções difíceis e das memórias traumáticas. Escrevi as quatro representações poéticas como uma tentativa de entrelaçar os fios das histórias de vida singulares dos participantes, espelhando as complexidades do luto masculino.
Dado o quanto é trágico receber um filho e tê-lo retirado tão depressa, quis dar voz, por esses pais enlutados, ao que senti ser verdadeiro nas 11 semanas em que estive à escuta de seus anseios. Tinha consciência do aspecto interpretativo da minha releitura das notas de campo: sabia que meus poemas não seriam suficientes se seu conteúdo não fosse contrastado com as narrativas reais dos próprios participantes, porque meu primeiro público são eles: eu queria que esses poemas retratassem o que é o luto da perspectiva deles, não da minha. É por isso que cada uma das quatro representações poéticas vem acompanhada de dados dos questionários ou de escritos que os participantes compartilharam conosco, junto com reflexões nutridas pela literatura acadêmica.
Recebemos o número de aprovação 885234 da Agência Norueguesa de Serviços Compartilhados em Educação e Pesquisa (SIKT) para realizar este projeto, já que nosso protocolo de pesquisa atendia aos seus critérios de proteção de dados. Nosso projeto foi dispensado de aprovação pelo Comitê Regional de Ética em Pesquisa Médica e em Saúde (REK), que considerou que nosso protocolo de pesquisa não envolvia riscos importantes para os participantes. Os participantes também autorizaram o uso de trechos de seus próprios escritos neste artigo de pesquisa.
Três, onze meses,
cinco anos, catorze?
O tempo não está claro.
Voltar correndo ao trabalho,
novas gestações,
o sofrimento de quem divide a parentalidade comigo,
uma pandemia fechando tudo.
Sem viagem, sem futebol, sem bar,
que injusto, “fazer” o luto
desse jeito antinatural.
Mesmo para quem teve a chance
de se distrair — viagens, bebidas ou esportes —
não havia tanto espaço
para falar do luto dos homens, como norma.
Melancolia: sinto como se me faltassem
partes do corpo. O luto é físico para nós.
Isolado, por isso e por aquilo —
em parte porque eu resisto.
Não tenho palavras, ou tenho poucas.
Deixo o luto congelar,
tento seguir com a vida. Funciona.
Mesmo assim, há lembretes,
quase diários, de que algo não está
como deveria.
Eu me debato quando os tempos são bons:
será que não estou indo fundo no luto?
O balão vai estourar?
Não sei se estou incluindo meu filho
o bastante na minha vida atual.
Quando, e como, viver o luto?
Agora, escrever: um jeito de viver o luto.
Dá medo. Talvez não para mim?
Ecos do futuro, reminiscências.
Ecos do passado, minha própria infância
espelhando a paternidade de hoje.
Surpreso por viajar no tempo,
pela emoção. Encontro lições,
coisas que eu achava ter elaborado.
Trabalho nelas, mais uma vez,
agora tenho outros recursos.
Sobre o luto e o tempo é um poema que convida a reconsiderar a temporalidade à luz do sofrimento e do amor. Há aspectos fenomenológicos do luto que não seguem uma ordem cronológica; são antes formas de ruptura (Shardlow, 2022). Permitir que pais enlutados considerem abordagens não lineares da temporalidade parece lhes permitir reconstruir com mais liberdade as narrativas de sua identidade (Barak, 2014). Durante o curso, mencionamos brevemente que tanto o amor quanto o luto deveriam ser medidos pela intensidade dos nossos sentimentos, e não pelo tempo cronológico. O que não esperávamos era que esse tema fosse tão recorrente nas descrições e falas dos participantes, mesmo antes de o assunto ser introduzido explicitamente.
Alguns perceberam que o confinamento durante a pandemia de covid-19 afetou sua percepção do tempo, deixando-os com várias restrições para participar de atividades convencionais e/ou com tempo demais para o luto. Pode ser esmagador para genitores lidar com os aspectos do luto orientados para a perda, e durante a pandemia de covid-19 a ruptura de papéis, rotinas e relações impôs desafios adicionais às pessoas enlutadas para encontrar um momento que parecesse apropriado para viver o luto (Hooghe et al., 2021). Ainda assim, o tema da pandemia não foi tão recorrente quanto as tonalidades emocionais gerais ligadas ao luto. Um senso de ambiguidade quanto à duração do luto, independentemente do número de meses ou anos desde a morte dos filhos, foi uma experiência comum a todos os participantes. A intensidade emocional e as dificuldades para nomear e/ou elaborar emoções difíceis pareciam governar essa ambiguidade do tempo, como exploramos na seção seguinte.
Pavimentada de resistência,
minha prontidão para o luto,
para a escrita.
As partes difíceis:
tirar as máscaras
usadas ao contar uma história de luto.
Uma vontade de evitar.
Encontrar palavras para os sentimentos,
deixar os sentimentos serem.
Este luto feito de instantes.
O luto me pede para dizer o que quero dizer,
de verdade. Não as manchetes,
o que está por trás.
Uma floresta inexplorada de emoções.
Tensão, vontade de estar no controle.
Incredulidade diante de algumas memórias.
Depois, vem o arrependimento.
Uma autópsia que não leva a lugar nenhum:
não foi culpa de ninguém.
Por que continuo querendo encontrar uma causa?
E se eu pudesse ter nos salvado dessa tragédia?
A injustiça, é nisso que mais penso.
O desespero de querer
trazê-los de volta à vida me entorpece.
Não posso mudar isso. Raiva, tanta raiva.
Tenho medo da raiva que sinto.
A raiva é um lugar solitário, para começar.
Depois, noto o que ficou inacabado:
conversas que não aconteceram,
ou não foram como deveriam,
com os serviços de saúde, a família ou os amigos.
Diálogos inacabados comigo mesmo,
com quem divide a parentalidade comigo, com meu filho.
Ir aos sentimentos, com generosidade.
Agora consigo ver
o quanto essas emoções
ficaram travadas.
Há também o cotidiano,
honrar outros estados de espírito,
os dias em que quero ficar “mais ocupado”,
os dias em que preciso ser mais prático.
Os períodos difíceis levam à ambivalência.
Como se apropriar das emoções é uma representação poética que evoca, entre nossos participantes, a prática de estar em contato com as próprias emoções e a prática da recordação. Enquanto vivem o luto, esses homens se sintonizam com o próprio ritmo emocional, algo que pode ser desafiador e muitas vezes é vivido em diversas formas de resistência. Essa resistência não é apenas negativa: ela pertence ao luto e pode dar conta de aspectos instrumentais do luto que potencialmente levam a padrões construtivos de integração do luto (Doka et al., 2010; Huang et al., 2023; Schut et al., 1997; Zylla, 2017). Resistir ao luto também pode refletir a pressão que normas sociais implícitas ou explícitas de gênero impõem aos homens (Mota et al., 2023; Zylla, 2017). Além disso, como vamos exemplificar nos próximos parágrafos, nossos participantes também precisavam desenvolver letramento emocional sobre emoções difíceis como a raiva, a culpa e a vergonha (Barr, 2012; Moriconi e Cantero-García, 2022).
Depois de escrever e editar as quatro representações poéticas, nós as enviamos aos participantes dos cursos, pedindo um retorno sobre se eles se sentiam vistos e se as palavras transmitiam as experiências do grupo. Um deles respondeu o seguinte:
“Estou em um período logo antes do aniversário da morte da minha filha, então tenho dificuldade de ter capacidade cognitiva suficiente para ler esses poemas. De modo geral, posso dizer que gostei deles e me senti visto em muito do que você escreveu. A dificuldade de nos expressarmos e de encontrar palavras para os sentimentos foi a parte que melhor respondeu à sua pergunta sobre o processo no curso, junto com as emoções à flor da pele que tornam difícil compartilhar alguma coisa.” (Steinar, pai de Lia)
As palavras de Steinar sugerem o que outros pais disseram nos questionários de avaliação: trabalhar com emoções e sentido durante o curso on-line importava para nossos participantes, mesmo quando se mostrava difícil. Isso pode indicar, em consonância com outros achados de pesquisa, que abordar as emoções é relevante nas intervenções de luto para pais enlutados (Schut et al., 1997). Mesmo que o contexto da nossa intervenção seja diferente, pesquisas sobre programas de apoio à parentalidade sugerem que trabalhar as emoções como genitor é doloroso e confrontador, mas significativo (Ansar et al., 2021). Por exemplo, um participante destacou que trabalhar com as emoções envolve resistência e tensão:
“Preciso de um pouco de tempo para me conectar com meus sentimentos. Preciso tampá-los e mantê-los a distância para funcionar no trabalho durante o dia, e isso exige muita energia, e eu preciso ‘me aquecer um pouco’ ou deixar as coisas entrarem aos poucos para não ficar sobrecarregado.” (Participante 2, CHO, dia 2)
Outro participante destacou no questionário de avaliação a importância de estar em contato com seus sentimentos mais profundos, e que apreciou “poder escrever tendo os sentimentos como ponto de partida direto, sem racionalizá-los” (Participante 1, ES1). No entanto, também pode ser que, para alguns, a resistência a esse trabalho resulte em sentir-se sobrecarregado e desmotivado, o que também espelha outras perspectivas da literatura (Doka et al., 2010).
Há pelo menos dois aspectos importantes a considerar nessas possíveis explicações: as nuances culturais do letramento emocional e a compreensão da paternidade. Estudos sobre letramento emocional indicam que homens que expressam conformidade com normas e expectativas masculinas podem ter, em geral, mais sintomas de depressão do que outros homens (Milner et al., 2019). Isso não significa necessariamente que os homens sintam com menor intensidade, mas que, quando vivem de acordo com visões clássicas de masculinidade, podem se esforçar para lidar com emoções difíceis de forma encoberta, algo que pode tanto lhes dar uma sensação de domínio e isolá-los quanto ajudá-los a evitar a elaboração emocional (Cook, 1988). Embora haja poucos estudos sobre como a cultura afeta o letramento, a regulação e a expressão emocionais na Noruega, achados preliminares sugeriram que o corpo estudantil norueguês tende menos que o estadunidense a se perceber consciente da expressão emocional, sensível a ela e capaz de controlá-la (Hystad et al., 2010). Ao mesmo tempo, a Noruega, como outros países nórdicos, promoveu uma mudança nas representações sociais da paternidade, em busca da igualdade de gênero. Isso significa que, hoje, espera-se que os pais noruegueses se envolvam ativamente no cuidado da criança sem que isso ameace seu senso de masculinidade (Magnunsson et al., 2008). Isso se soma ao panorama complexo das possíveis experiências de nossos participantes, mostrando por que uma atenção à cultura em estudos futuros seria crucial para compreender melhor as necessidades e os desejos de pais e mães enlutados.
Tudo o que devíamos ter vivido,
juntos.
Os sonhos de uma infância brincalhona,
interrompidos
por doenças, acidentes, o desconhecido.
Uma gravidez, um nascimento, um enterro.
Dualidade: estar numa maternidade,
famílias acolhendo um novo membro,
e nós, dizendo adeus.
Ser pai mais uma vez.
Ninguém entende… eles dizem:
“você precisa ser mais forte.”
Mais forte?
É difícil pra caramba continuar animado
quando chegam novas gestações.
Como se preparar para um nascimento que vem aí?
Meu papel de pai de outros filhos,
lembrar o aniversário de uma morte
poucos dias antes de nascer um novo filho.
A vida em suas nuances cruas.
Alguns encontram seu caminho
para novas gestações, novos filhos,
outros não.
Uma pergunta se insinua:
vamos sobreviver a isso como casal?
Embora orgulhoso de ter me tornado pai,
alguns dias são mais fáceis que outros.
Paternidades paralelas é uma representação poética que busca transmitir a ambiguidade de afirmar o senso de nossos participantes de continuarem sendo pais de uma criança que morreu cedo demais, enquanto, para alguns deles, essa paternidade se fundia com a experiência de voltar a ter filhos. Ao escrever e refletir sobre o luto, esses pais também se tornavam autores de sua identidade. A renovação da identidade é uma parte importante do processo de integração do luto à vida cotidiana (Den Elzen, 2021; Gillies et al., 2013; Lengelle, 2021). Esse tema pareceu tão relevante para os pais quanto foi para as mulheres que frequentaram cursos on-line de escrita (Lehmann et al., 2022). Como parte desse processo, os genitores muitas vezes imaginam as vidas possíveis que seus filhos poderiam ter vivido e se veem confrontados com a dificuldade de manter um vínculo tendo-os perdido tão cedo (Milman e Rheingold, 2023). As trajetórias de vida das pessoas que passam por transições como a morte de um ente querido são singulares e expressam caminhos diversos para encontrar sentido existencial (Lehmann e Brinkmann, 2021).
No questionário de avaliação, alguns participantes relataram que a solidão, os desafios de ser pai, a morte e a doença de longa duração foram os temas mais difíceis sobre os quais escrever. Ao mesmo tempo, havia também gratidão por estar no curso e escrever, mesmo sendo difícil. Um participante disse: “Foi bom ver que havia muitos outros no mesmo território desconhecido que eu” (ES1), e outro acrescentou que aprendeu “que consigo suportar meu luto — o que ele tem de doloroso e o que tem de bom” (ES2). Ao reconhecer isso, alguns de nossos participantes afirmaram que, se a escrita se torna uma oportunidade tanto de construção de sentido quanto de elaboração afetiva, é provável que tenha efeitos terapêuticos (Den Elzen et al., 2023; Lehmann et al., 2022; Neimeyer, 1999; Pennebaker e Smyth, 2016). Os dois casos a seguir trazem o tema da identidade e da paternidade, junto com a dificuldade que pode haver em integrar uma paternidade paralela.
A prosa poética de Artur, De luto por Nora, tem 74 linhas e é um questionamento filosófico que o ajudou a honrar o absurdo. Algumas de suas indagações existenciais aparecem uma só vez no texto, como “Sofrimento? Inquietação? Insônia? Saudade de proximidade?” (linha 1) ou “Somos nossa própria fonte? Com voz, pensamentos, significados e sentimentos?” (linhas 8-9). Outras perguntas se repetem, evocando a vontade pungente de afirmar a presença efêmera da filha: “Como você está?” (linhas 14, 21 e 30), “quem você poderia ter se tornado” (linhas 14 e 16) ou “você existiu?” (linhas 14, 31 e 44). Esta é a história de um pai que faz uma promessa: “Nunca vou te esquecer… mesmo que nosso tempo juntos tenha sido tão curto” (linhas 62-64); e a história de um pai que pede uma promessa: “Nunca pare de me visitar” (linha 70), seguida do grande final: “Eu te amo / Papai de Nora, e ‘Noravind’ [o vento de Nora] nós seguimos” (linhas 73 e 74).
Além disso, Artur compartilhou (ver Tabela 2) um resumo de seus registros de abertura e de encerramento, semana a semana, que dá conta de um processo evolutivo de construção de sentido. Por exemplo, nas primeiras semanas havia mais autocrítica e cautela, enquanto nas três últimas havia consciência e elaboração das emoções, além de um foco na continuidade do vínculo com a filha.
Tabela 2 — Os registros de abertura e de encerramento de Artur
O poema de Fred, Minha história de luto, tem 924 versos e é rico em imagens e memórias que convidam a viajar no tempo e tocar diferentes partes do lado bom que há no sofrimento, no amor e na sabedoria. Ao escrever sobre a morte da filha, Sol, ele percebeu tudo o que o luto amplifica: a consciência de abortos espontâneos anteriores e de suas atitudes em relação a eles, o anseio de que a segunda gravidez desse certo e o enfrentamento da tragédia de uma morte perinatal. O percurso de autodescoberta de Fred não revela apenas o que é a paternidade, mas também o que a condição humana pode representar através da masculinidade e para além dela. Ele escreve sobre um aborto espontâneo que precedeu em anos a morte de Sol:
Ela estava grávida de pouco menos de 12 semanas.
Digo “ela estava grávida” (…) porque obviamente o bebê cresce no corpo da mulher.
Não é como se o pai pudesse dizer “estou grávido”, ou mesmo “estamos grávidos”.
“Vamos ter um bebê” ou “minha esposa está esperando” são mais aceitáveis.
Sinto que a linguagem às vezes é inadequada.
A gravidez não pertence também ao pai? De algum modo?
Parece indefinido.
Abstrato.
Uma parte da minha alma estava investida. (Poema de Fred, versos 99-109)
Essa estrofe dá conta da relação pai-filho que surge durante a gravidez, junto com o desejo de muitos pais de se conectar emocionalmente com o filho durante a gestação (Bonnette e Broom, 2012). Fred também refletiu sobre a importância de continuar o vínculo com quem morreu como parte da integração do luto (Klass, 2006), pois parece que a filha, Sol, catalisou um processo de vários anos de reavaliação e transformação de seu propósito de vida, que envolveu, entre outras coisas, engajar-se em atividades voluntárias de apoio a pais e mães enlutados e mudar de carreira.
Mas é justo dizer que nem todos os nossos participantes escreveram e compartilharam como Artur, Fred ou outros fizeram. É difícil definir o que é desistência em nosso estudo, porque alguns dos que deixaram o curso frequentaram as sessões de orientação individual e/ou as sessões de primeiros socorros emocionais com a equipe de terapeutas com quem colaboramos. O que podemos dizer é que, em cursos de escrita semelhantes para mães, o recrutamento e a permanência das participantes foram maiores (Lehmann et al., 2022). Um pai escreveu no questionário de avaliação:
“Pessoalmente, acho que foi bom frequentar o curso, mas que não recebi tanta ajuda assim para avançar no meu processo de luto ou para ficar mais consciente e mais seguro com meus próprios sentimentos.” (Participante 4, ES1)
O retorno dele é importante e, embora seu filho tivesse morrido de uma doença de longa duração e ele não tivesse podido frequentar todas as sessões por causa do trabalho, pode ser que a escrita terapêutica não funcione para todos os homens e/ou que deva fazer parte de outras intervenções.
No entanto, os três participantes que responderam ao questionário de avaliação no segundo grupo afirmaram que gostariam de ter tido sessões extras. Perguntamos explicitamente a esse grupo o que, na opinião deles, motivaria mais homens a se inscrever nesse tipo de curso. Alguns disseram que “as responsabilidades em casa” (Participante 3, ES2) podiam ser um obstáculo e que “os homens (de modo geral) levam tempo para se sentir seguros o suficiente para compartilhar na frente dos outros” (Participante 1, ES2), ao que outro acrescentou o seguinte:
“Eu estava esperando que um curso como este fosse oferecido (...). Eu me senti melhor nas sessões com três participantes, mas pode ser o introvertido em mim falando. Gostei muito de como o formato foi pensado para que pudéssemos compartilhar muito ou pouco do que escrevemos, e de qualquer forma pudéssemos falar sobre o que tínhamos escrito.” (Participante 2, ES2)
Isso evidencia que havia preferências individuais sobre o que torna úteis as intervenções de baixo limiar.
Como formular meu luto? Resistência.
Confusão: o que é luto, o que sou eu?
Difícil escrever uma reflexão,
estar em contato com os sentimentos.
Sai um pouco clichê, um pouco padrão.
Escrever outro rascunho,
querer que fique bom.
Ler em voz alta o que está no papel?
Ouvir a voz do crítico dentro de mim,
o perfeccionista, o vulnerável dentro de mim.
Difícil começar e encontrar palavras,
e difícil parar de escrever depois.
Como o luto é singular!
Neste grupo de escrita construímos respeito
pelo que aconteceu com todos nós.
É tocante escutar uns aos outros,
apesar da sobrecarga.
Há tantos homens que estão de luto em mim:
o irritável, o impaciente,
o entusiasmado, o egoísta,
o envergonhado, aquele que se debate
com a incerteza.
Há também um homem dentro de mim que dá um passo atrás:
o que encontra energia, o que ganha perspectiva,
o que mantém uma visão de conjunto da vida,
o que segue em frente, resolvendo,
o que ama…
O que eles podem me ensinar?
Olhar o lado bom,
uma afirmação provocadora.
Escolher como encarar as coisas
empurra nossos limites.
Encontrar um senso de valor interior,
aprender a se defender,
porque é difícil viver o luto.
Parece fácil dizer. Não é.
Escutar os outros é uma lição de humildade,
somos espelho uns dos outros, da forma
inesperada que nossa família ganhou.
Encontrar-se em fases diversas da vida,
isso dá perspectiva.
A compaixão pelos outros pode ser mais forte
que a compaixão por si mesmo.
Interessante perceber isso.
Gratidão.
Encontrar sentido é uma prática,
apoiar os outros ajuda.
É um jeito de ter paz.
É bom dar forma ao luto com a linguagem
e aceitar o que não pode ser dito.
O livro do luto
já tem um esboço de capa.
Segurando o livro junto ao coração,
sigo em frente…
O luto como processo é uma representação poética que traduz as experiências dos participantes com um senso de humanidade que pertence ao luto como condição existencial; ela liga o luto a atitudes importantes a serem integradas à vida por meio da atenção, da compaixão e da flexibilidade. Os pais enlutados que participaram de nossos cursos acharam útil explorar a mente como uma cena dialógica (Hermans, 2001), à medida que identificavam e elaboravam diferentes posicionamentos do self ativos durante o luto e no esforço de reconstruir a vida após a perda. Dar espaço a diferentes partes do self ao escrever sobre as experiências de luto tem se mostrado útil para encontrar sentido e integrar o luto a um senso renovado de identidade (Den Elzen, 2021; Lengelle, 2021). Trazer à consciência os diversos posicionamentos do self também reflete, de modo semelhante ao processo dual do luto, o quanto a vida e o luto são processos entrelaçados que precisam ser equilibrados (Stroebe e Schut, 2010). O poema ilustra, assim, as nuances das experiências de resistência dos homens, junto com a importância, para eles, de se concentrar em outros aspectos além do luto no dia a dia (Huang et al., 2023; Mota et al., 2023; Proulx et al., 2016; Zylla, 2017). Achados de pesquisa recentes chegaram a sugerir que uma recuperação adaptativa no luto também pode ser alcançada pelo foco em aspectos mais instrumentais, como viver voltado para o futuro, reduzindo o foco nos aspectos do luto orientados para a perda (Huang et al., 2023). Além disso, o poema também exemplifica que uma perspectiva dialógica não se limita aos posicionamentos internos do self, mas se dirige a um senso de alteridade (Hermans, 2001; Lehmann e Brinkmann, 2019), destacando a importância do apoio entre pares, o forte efeito da compreensão e a compaixão vinda de outras pessoas enlutadas.
Na última sessão de cada grupo, os participantes escreveram um poema coletivo a partir do mote “Uma porta se abre”. Cada participante foi convidado a escrever pelo menos um verso. Depois que todos compartilharam suas sugestões no chat, nós as relemos juntos e reorganizamos os versos até concordarmos que a criação estava pronta.
Grupo 1, outono de 2022
Uma porta se abre
escuridão, do lado de dentro.
Um futuro que nunca chegou a existir.
O luto está aqui.
Eu esperava ansioso para te conhecer
Você estará sempre em nossas memórias,
você estará, sempre, ali.
Grupo 2, inverno de 2023
Uma porta se abre
O que vai me encontrar quando eu entrar hoje?
Medo, Vergonha, Culpa, Amor?
Te vejo lá, você me vê.
Eu estou aqui,
você está aqui.
Esses dois poemas seguem numa direção semelhante à da representação poética sobre o luto como processo, sugerindo que a integração do luto é uma prática contínua e que o curso on-line de escrita terapêutica oferece ferramentas para ajudá-los a trabalhar com as emoções e a fortalecer o vínculo com os filhos. Alguns estudos sugerem que, quanto menos os genitores conseguem aceitar a morte do filho, maior a probabilidade de relatarem sintomas de luto de intensidade grave (Keesee et al., 2008). Ao mesmo tempo, dar sentido à morte de um filho é um dos aspectos mais desafiadores da elaboração emocional e da integração do luto, dada a falta de sentido dessa própria tragédia (Lehmann et al., 2022).
Os cursos on-line de escrita terapêutica são apenas um dos múltiplos recursos a que as famílias enlutadas podem ter acesso, e, mesmo que a escrita se mostre útil, o luto e a consciência emocional são um processo contínuo; assim, o propósito da escrita não se cumpre necessariamente ao fim do curso, mas pode ser incorporado como hábito daí em diante. Como acrescentou um participante: “Este curso deu início a um processo, de modo que agora sinto que posso continuar fazendo isso sozinho em casa, tirando tempo para escrever, para mim e para ela [a filha]” (Participante 3, ES1).
Na Noruega, às vezes é difícil encontrar apoio ao luto, de modo que as intervenções de baixo limiar e o contato com organizações de apoio entre pares são essenciais. A variedade de técnicas e abordagens dos cursos também foi vivida de forma positiva, pois muitos participantes disseram que “ganhei compreensão sobre novas técnicas e sobre aspectos de modalidades de escrita que já conhecia, que vou levar comigo daqui em diante” (Participante 2, ES2) ou que “gostei de poder me desafiar e, como havia muitas práticas diferentes, encontrei algumas que me interessavam mais, algumas que atendiam às minhas necessidades” (Participante 3, ES1). Trechos como esses confirmam a importância de manter uma atitude pluralista (Steffen et al., 2022) no desenvolvimento de cursos de escrita terapêutica.
Nosso estudo exploratório das experiências de pais que frequentaram um curso on-line de escrita terapêutica após a morte inesperada de um filho, aqui situado no contexto da Noruega, lança luz sobre as tonalidades emocionais do luto dos homens. O uso da representação poética como forma de investigação qualitativa facilitou a compreensão dessas tonalidades; essas sínteses evocativas puseram em palavras camadas das experiências de nossos participantes que eles tinham dificuldade de verbalizar. Por exemplo, o luto matizou a percepção da temporalidade para a maioria dos participantes, dando conta da singularidade dos ritmos emocionais necessários para elaborar emoções e memórias difíceis. Apenas para alguns deles a percepção da temporalidade foi explicitamente afetada pela pandemia de covid-19. Além disso, a resistência pareceu ser um traço marcante nas experiências de nossos participantes. Uma vantagem dessa resistência pode ser um foco mais explícito na reconstrução da vida após a morte dos filhos; a desvantagem seria a evitação e/ou um letramento emocional limitado. A consciência emocional, as habilidades de escrita e as habilidades de comunicação se aprofundam e se desenvolvem no contexto de cursos como o nosso, mas, para pais cuja evitação emocional ou falta de letramento emocional é forte, por muitas razões, a escrita terapêutica pode ser difícil.
Para muitos de nossos participantes, a escrita tornou-se uma ferramenta útil de construção de sentido, elaboração afetiva e apoio entre pares, além de uma plataforma dialógica para continuar o vínculo com os filhos. Como cada pai vive o luto de forma singular e a morte do filho acontece em períodos específicos do curso de vida, é importante diversificar as ofertas disponíveis para pais e mães enlutados. Grupos de escrita terapêutica on-line ou presenciais podem não funcionar para todos os homens e, dentro de um grupo de escrita terapêutica, é crucial dispor de um conjunto pluralista de técnicas e ferramentas capaz de atender às necessidades e aos desejos individuais.
Até onde sabemos, este é o primeiro estudo do gênero na Noruega, e vários aspectos podem ser considerados em estudos futuros. Primeiro, para os homens para quem o curso funcionou, ele pareceu transformador, como documentado neste artigo. A consciência emocional e a disposição para trabalhar com as emoções, bem como ter tempo para escrever e motivação e/ou experiência para isso, não devem ser subestimadas. Segundo, o papel da personalidade, da cultura e das trajetórias de desenvolvimento deve ser mais bem abordado na coleta de dados de estudos semelhantes. Pesquisas futuras poderiam focalizar essas características de forma mais explícita para mapear as necessidades e os desejos de pais enlutados, tanto quanto os de mães enlutadas. Embora seja importante simplificar a coleta de dados para os participantes, também seria ideal ter mais dados longitudinais de homens. Ter acesso a mais trechos dos diários dos participantes ou gravar as sessões do curso poderia servir a esse objetivo. Terceiro, o número de participantes nos cursos para pais foi menor do que em cursos semelhantes oferecidos a mães (Lehmann et al., 2022). Sejam as representações sociais de gênero ou outro fator, é importante romper o estigma em torno do luto dos homens, tanto para motivá-los a buscar e aceitar apoio quanto para tornar o apoio mais disponível e eficaz para eles. Desenvolver campanhas voltadas a esses temas poderia motivar mais homens a participar de estudos, reduzindo assim as barreiras de acesso ao apoio.
Quarto, novas considerações sobre o conteúdo, o cronograma e o estilo pedagógico do curso poderiam ser feitas. Por exemplo, examinar os efeitos desses cursos on-line e presenciais poderia trazer percepções sobre os contextos que favorecem ou perturbam o trabalho com as emoções. Para a maioria de nossos participantes, fazer o curso on-line foi conveniente por razões práticas. Não examinamos nem avaliamos se a participação em um curso on-line pode ou não ter favorecido a consciência e/ou a expressão das emoções. Ampliar a participação das pessoas usuárias e os pilotos desses cursos poderia proporcionar aprendizados mais amplos para aprimorar a estrutura e os conteúdos do curso. Quinto, dada a popularidade das sessões individuais de escrita entre os participantes do estudo, estudos futuros poderiam comparar o uso de técnicas de escrita terapêutica em diferentes contextos, on-line ou presenciais, em formato individual ou em grupo. Sexto, há muitos outros escritos dos participantes do estudo que não incluímos, por limites de extensão do presente artigo ou para preservar a privacidade de nossos participantes. Pedir autorização para utilizá-los em futuros estudos qualitativos poderia enriquecer nossa compreensão dos processos terapêuticos desencadeados por esses exercícios de escrita.
Complexe Systémique: a reter
O artigo interessa a quem trabalha com luto por duas razões. Primeiro, leva a sério a resistência dos pais sem reduzi-la a um déficit: manter-se ocupado, adiar, escrever pouco também podem servir para reconstruir a vida, desde que a porta para as emoções não se feche. Depois, mostra que um grupo de escrita se torna um espaço dialógico em que cada um se descobre feito de várias vozes, o irritável, o envergonhado, o que ama, e em que o vínculo com o filho morto pode continuar em vez de se romper. As “paternidades paralelas”, ser pai de um filho morto e de um filho por nascer, lembram o quanto o luto perinatal atravessa o casal e os futuros irmãos. Vale reter também a flexibilidade do dispositivo: compartilhar pouco ou muito, falar do próprio texto sem lê-lo. O alcance é limitado: catorze pais, desistências, poemas compostos pela pessoa que coordena a pesquisa a partir de suas notas. Para ler junto com o artigo sobre uma abordagem narrativa do trabalho em grupo com famílias enlutadas e com o estudo de caso sobre a escrita polifônica colaborativa.
Notas do original
Contribuições. O.L. ficou responsável pela triagem dos participantes, pelo planejamento e condução dos cursos, pelas sessões individuais de orientação de escrita e pela composição das representações poéticas, além de ter o papel principal na análise dos dados e na redação do artigo. T.G.K. apoiou o recrutamento dos participantes por meio da organização em que trabalha e a coleta dos questionários de avaliação. Ela fez comentários gerais sobre versões anteriores do artigo e acrescentou referências bibliográficas para sustentar os argumentos. R.A.N. supervisionou O.L. no planejamento e na condução dos cursos. Ele também fez comentários gerais sobre versões anteriores do artigo, fornecendo referências bibliográficas e sugestões sobre a estrutura do artigo.
Conflito de interesses. A equipe autora declara não haver potenciais conflitos de interesses em relação à pesquisa, à autoria e/ou à publicação deste artigo.
Financiamento. A equipe autora declara ter recebido o seguinte apoio financeiro para a pesquisa, a autoria e/ou a publicação deste artigo: o projeto é financiado pela EkstraStiftelsen Helse og Rehabilitering (Fundação Dam) (número do financiamento: 2022ST-0000000064).
Agradecimentos. A equipe agradece a cada um dos participantes do estudo pela coragem de se inscrever neste curso e entrar em contato com suas emoções na busca de sentido para a vida após a morte inesperada dos filhos. Agradece também por seus filhos, cujas vidas curtas foram cheias de significado para os participantes. Agradecimentos a Reinekke Lengelle pela supervisão de O.L. no planejamento e na condução dos cursos. Agradecimentos à Associação Norueguesa de Morte Súbita do Lactente e Natimortalidade (LUB) por todo o apoio e incentivo na realização deste projeto. A equipe agradece ainda aos psicólogos do Instituto de Aconselhamento Psicológico da Noruega (IPR), que ofereceram as sessões de primeiros socorros emocionais aos participantes. Por fim, agradecimentos à Fundação DAM pelo financiamento do projeto.
Ética. O projeto recebeu o número de aprovação 885234 da Agência Norueguesa de Serviços Compartilhados em Educação e Pesquisa (SIKT), já que o protocolo de pesquisa atendia a todos os seus critérios de proteção de dados. Foi dispensado de aprovação pelo Comitê Regional de Ética em Pesquisa Médica e em Saúde (REK), que considerou que o protocolo não envolvia riscos importantes para os participantes. Todos os participantes receberam e assinaram livremente um termo de consentimento conforme as diretrizes da SIKT e do REK.
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Tradução não oficial em português de A experiência de pais na Noruega que frequentaram um curso on-line de escrita terapêutica após a morte de um filho, de Olga V. Lehmann, Trine Giving Kalstad e Robert A. Neimeyer, Qualitative Health Research, vol. 34, no 5 (2024), doi: 10.1177/10497323231216099, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em forma de listas, poemas traduzidos). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Experiences of Fathers in Norway Attending an Online Course on Therapeutic Writing After the Death of a Child”, publicado em Qualitative Health Research (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Lehmann, O. V., Kalstad, T. G., et Neimeyer, R. A. (2024). A experiência de pais na Noruega que frequentaram um curso on-line de escrita terapêutica após a morte de um filho (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/a-experiencia-de-pais-na-noruega-que-frequentaram-um-curso-on-line-de-escrita-terapeutica (Obra original publicada em 2023 em Qualitative Health Research, 34(5), 458-472 (2024); republicada em 2024 por Qualitative Health Research, https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/10497323231216099)
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