Journal of Child and Family Studies · Família

Atravessar a parentalidade: a experiência de mães com diagnóstico de personalidade borderline

Como é a parentalidade para mães que carregam um diagnóstico de personalidade borderline e cujo filho pequeno corre o risco de ser acolhido? Em Londres, a equipe do Anna Freud Centre analisou as entrevistas de oito dessas mães. Elas descrevem um passado que assombra, a solidão, medos intrusivos de perda e um vínculo que se tece pela proximidade física e pela brincadeira.

Autores Nikolaos Tzikas, Nick Midgley e Billie Lever Taylor (Anna Freud National Centre for Children and Families, Londres, Reino Unido)Primeira publicação Journal of Child and Family Studies, 12 de junho de 2025Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Atravessar a parentalidade: a experiência de mães com diagnóstico de personalidade borderline, de Nikolaos Tzikas, Nick Midgley e Billie Lever Taylor, publicado na Journal of Child and Family Studies (Springer) (2025), doi: 10.1007/s10826-024-02952-6, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela é apresentada em forma de lista; os destaques (Highlights) do original foram colocados no quadro do resumo; a legenda da figura foi traduzida, e o esquema permanece em inglês. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Os serviços precisam pensar na melhor forma de apoiar essa população de modo informado pelo trauma, sobretudo porque o risco de afastamento da criança pode agravar a ansiedade e o sofrimento dos pais.

Nikolaos Tzikas, Nick Midgley e Billie Lever Taylor

Resumo

O diagnóstico de transtorno de personalidade borderline (TPB) tem sido associado a dificuldades no exercício da parentalidade, e esse diagnóstico talvez esteja sobrerrepresentado entre pais e mães cuja situação chega aos serviços sociais de proteção à criança. Pouco se sabe, porém, sobre o olhar dessas pessoas sobre a própria parentalidade. Por isso, este estudo explorou em profundidade a experiência parental de oito mães que haviam recebido um diagnóstico de TPB e tinham filhos pequenos. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com essas oito mães, analisadas por meio da Análise Fenomenológica Interpretativa (AFI). Todas descreveram experiências de adversidade e trauma precoces, que as deixaram sem modelos parentais positivos e às voltas com o desejo de dar aos filhos um começo de vida melhor do que o delas. Sentiam-se isoladas no papel de mãe e descreviam pensamentos intrusivos negativos, além de uma ansiedade intensa diante da ideia de que algo ruim acontecesse com elas ou com os filhos. Isso contribuía para que se sentissem superprotetoras, buscassem grande proximidade física com as crianças e tivessem dificuldade em estabelecer limites. Várias tinham sentimentos ambivalentes em relação aos filhos, mas muitas vezes encontravam conforto no vínculo que se desenvolvia com a criança e gostavam das brincadeiras compartilhadas. Esta pesquisa evidencia o impacto da adversidade e do trauma precoces na experiência parental das mães. Para a equipe de pesquisa, mães com diagnóstico de TPB acompanhadas pelos serviços sociais de proteção à criança enfrentam muitas dificuldades no papel parental. Os serviços precisam pensar na melhor forma de apoiar essa população de modo informado pelo trauma, sobretudo porque o risco de afastamento da criança pode agravar a ansiedade e o sofrimento dos pais.

Palavras-chave: transtorno de personalidade borderline, saúde mental, primeira infância, serviços sociais, análise fenomenológica interpretativa

Pontos-chave

  • Este estudo é o primeiro a examinar a experiência de mães com transtorno de personalidade borderline que, na época das entrevistas, eram acompanhadas pelos serviços sociais.
  • Experiências de pensamentos intrusivos negativos, ansiedade intensa e sentimentos ambivalentes ligados à parentalidade.
  • A proximidade física e a brincadeira fortaleciam o vínculo afetivo entre essas mães e os filhos.
  • O risco de afastamento da criança agrava a ansiedade e o sofrimento das mães, com impacto negativo na saúde mental delas.
  • Para apoiar da melhor forma essa população, os serviços precisam considerar uma abordagem informada pelo trauma.

O transtorno de personalidade borderline (TPB) tem sido definido como caracterizado por dificuldades de comportamento e de processamento e regulação das emoções (APA, 2013). Entre seus traços estariam relações interpessoais instáveis, instabilidade do humor, comportamentos autodestrutivos que prejudicam o funcionamento social e extremos de idealização e desvalorização dos outros (APA, 2013). O uso do TPB como diagnóstico é contestado, com a preocupação de que esteja associado a atitudes estigmatizantes entre profissionais de saúde, acesso desigual aos serviços e falta de otimismo terapêutico (Sheridan-Rains et al., 2021; Troup et al., 2022). Ainda assim, continua amplamente usado nos serviços de saúde mental para adultos, inclusive naqueles voltados a pais e mães cujos filhos correm o risco de ser afastados de seus cuidados.

Fonagy et al. (2017) destacam o papel das primeiras relações da criança com suas principais figuras de cuidado na etiologia do TPB. Segundo esse modelo, a criança passa a ter dificuldade, mais tarde na vida, para compreender os próprios estados emocionais e os dos outros, porque suas principais figuras de cuidado não conseguiram compreender os estados emocionais dela no início da vida. Outras pesquisas associaram o TPB a experiências adversas na infância, como trauma, abuso e negligência (Bradley et al., 2005; Ball & Links, 2009; Porter et al., 2019). A hipótese é que pais e mães com diagnóstico de TPB têm mais probabilidade de chegar, por sua vez, à parentalidade com uma história complexa de adversidade, sem um modelo parental interno seguro e com as consequentes dificuldades para lidar com a parentalidade (Newman & Stevenson, 2005).

A maior parte das pesquisas se concentrou exclusivamente em mães com esse diagnóstico, e os resultados, sobretudo de estudos quantitativos, associaram o TPB a menor sensibilidade materna, mais intrusividade, superproteção, menor “competência” parental, perturbação do apego mãe-criança e desfechos desenvolvimentais adversos para as crianças (Newman et al., 2007). Constatou-se que mães com diagnóstico de transtorno de personalidade têm maior probabilidade de chegar aos serviços de proteção à criança e de perder a guarda (Neuman, 2012; Howard et al., 2003), embora isso também possa refletir o caráter estigmatizado do diagnóstico.

De modo geral, apesar do volume considerável de pesquisas sobre a etiologia do TPB e sobre os desfechos adversos associados a esse diagnóstico em crianças e adultos, poucos trabalhos se dedicaram à experiência da parentalidade entre pessoas com diagnóstico de TPB. Alguns estudos quantitativos mostraram que mães com esse diagnóstico relatam menor satisfação e mais estresse no papel parental, dificuldades na relação mãe-criança e pior saúde mental (Petfield et al., 2015; Eyden et al., 2016; Stepp et al., 2016; Boucher et al., 2017; Steele et al., 2020). Embora esses estudos tragam contribuições importantes, questionários e dados de autorrelato não oferecem uma fonte de informação tão rica sobre a experiência parental quanto poderiam oferecer estudos qualitativos.

Apenas um punhado de estudos buscou, até agora, compreender por meio de metodologias qualitativas como pais e mães com diagnóstico de TPB entendem e representam a própria experiência. Bartsch et al. (2016) usaram a análise temática para explorar percepções da parentalidade entre onze mães e um pai com diagnóstico passado ou atual de TPB. A parentalidade era vivida como desafiadora e gratificante ao mesmo tempo. Em alguns casos, o estudo identificou temas semelhantes aos de estudos com pais e mães que têm outros transtornos mentais graves, como o medo da estigmatização e o medo de perder a guarda dos filhos. No entanto, as pessoas com diagnóstico de TPB também descreviam a dificuldade de manter um ambiente estável, a indisponibilidade física e emocional causada pelas próprias dificuldades, a dificuldade de se conectar com os filhos e de se apegar emocionalmente a eles, e de se envolver em brincadeiras ou atividades centradas na criança. Parte do grupo relatava também pensamentos intrusivos e assustadores de machucar os filhos, ligados a estados emocionais voláteis e agressivos. Por outro lado, o grupo relatava ainda experiências gratificantes na relação com os filhos. Algumas pessoas descreviam como essa relação dava sentido e propósito à vida e como o amor incondicional da criança significava tudo. Esse forte sentimento de propósito despertava a sensação de que era preciso ensinar e orientar os filhos. Por fim, Bartsch et al. (2016) identificaram que as ideias culturais sobre o que define “bons” pais e mães pesavam muito sobre a experiência de quem tinha diagnóstico de TPB: a sensação de inadequação e de distância em relação ao que a sociedade esperava muitas vezes levava essas pessoas a se sentirem julgadas pelas equipes profissionais e prejudicava sua identidade parental. Com base em entrevistas com 12 pais e mães com diagnóstico de TPB, Dunn et al. (2020) retomaram muitos dos resultados de Bartsch et al. (2016). O grupo descrevia estresse e ansiedade que afetavam seus estados emocionais, um frequente sentimento de isolamento e a falta de modelos parentais internos positivos em que se apoiar na própria parentalidade.

Geerling et al. (2019) exploraram qualitativamente o impacto do choro do bebê em mães com diagnóstico de TPB, usando entrevistas semiestruturadas e análise fenomenológica interpretativa (AFI). Segundo esse estudo, as mães com esse diagnóstico chegavam à parentalidade em um estado psicológico frágil, e o choro do bebê era vivido de forma “hipersensível”, provocando dor fisiológica e emocional e um “caos” cognitivo. Suas reações muitas vezes sugeriam que estavam em modo de luta ou fuga, incluindo tentativas de suicídio. Algumas mães pareciam ter o que a equipe de pesquisa chamou de “identidade cindida”: conseguiam atender parcialmente ao choro, mas sua parte “desatenta” não dava conta dele.

Esses estudos trazem contribuições notáveis sobre a experiência de pais e mães com diagnóstico ou traços de TPB. Até hoje, porém, nenhum se concentrou especificamente na experiência de quem tem filhos nos primeiros anos de vida, embora se reconheça cada vez mais que esse é um período crítico, em que se lançam as bases do desenvolvimento futuro (Parliament, House of Commons Report, 2019). Também houve poucas pesquisas sobre a experiência de mães com diagnóstico de TPB acompanhadas pelos serviços sociais, embora, como vimos, esse grupo esteja sobrerrepresentado no sistema de proteção à criança (Neuman, 2012). Compreender melhor as necessidades das mães no exercício da parentalidade, nesse contexto de vulnerabilidade, pode trazer contribuições importantes sobre a experiência de um grupo raramente incluído na pesquisa. Pode dar voz a mães em geral estigmatizadas e não ouvidas, ajudando a compreender suas necessidades para melhorar os desfechos.

O objetivo do presente estudo foi, portanto, compreender a experiência de mães com diagnóstico de TPB que cuidam de uma criança de menos de três anos em risco de acolhimento.

Método

Delineamento do estudo

Este estudo usou métodos qualitativos, adequados para compreender e explorar experiências subjetivas a partir da perspectiva da própria pessoa. A metodologia qualitativa permitiu explorar em profundidade a experiência parental de mães com diagnóstico de TPB encaminhadas a um programa especializado de apoio à parentalidade, voltado a reduzir o risco de acolhimento da criança.

Contexto geral e cenário

Este estudo foi realizado como parte de uma avaliação mais ampla de uma intervenção especializada baseada na mentalização, em uma comunidade terapêutica, que funcionou de 2011 a 2020. Daum e Labuschagne (2018) descreveram essa intervenção em mais detalhes, embora os resultados da avaliação ampla ainda não tenham sido publicados. O objetivo geral da intervenção era permitir que famílias encaminhadas pelos serviços sociais por preocupações sérias de proteção à criança cuidassem dos filhos com segurança, se possível, e subsidiar a decisão sobre a permanência ou não da criança sob a guarda parental. Como parte da avaliação ampla, um conjunto de dados qualitativos e quantitativos foi coletado de forma rotineira e sistemática em momentos-chave da intervenção (Fig. 1).

Esquema circular em quatro quadrantes, ligados por setas, que apresenta os quatro temas e seus subtemas: experiências passadas que assombram, experiências emocionais avassaladoras, idealização e depreciação, estados corporais e necessidade de proximidade física
Figura 1. Temas e subtemas principais. Tema 1, experiências passadas que assombram (os começos difíceis das mães; a necessidade de se sentir diferente dos próprios pais e a culpa por se parecer com eles); tema 2, experiências emocionais avassaladoras (sentir-se sozinha; preparar-se para o pior; a raiva quando se perde o controle); tema 3, idealizar e depreciar, a dificuldade de integrar as duas experiências (“Você é tudo para mim”; “Eu não conseguia amá-lo”); tema 4, os estados corporais e a necessidade de proximidade física (“Ele só tem dois anos, ainda não sente”; a necessidade de proximidade física e a dificuldade de se separar; “Beijos, abraços e brincadeiras: é tudo de que eu preciso”). (Esquema original em inglês.)

A aprovação ética da avaliação ampla foi obtida no comitê de ética da University College London (6821/001). As mães deram consentimento por escrito para a coleta e a análise dos dados para fins de pesquisa. A participação era voluntária, e todas as mães foram informadas do direito de não participar ou de desistir sem nenhuma consequência negativa.

Participantes

Oito mães foram incluídas neste estudo, dentre o conjunto mais amplo de famílias inscritas no programa. Para ter acesso à intervenção, as mães precisavam ter mais de 18 anos e um filho de menos de 5 anos em relação ao qual houvesse preocupações sérias de proteção. Podiam ter diversos diagnósticos de saúde mental ou nenhum, mas muitas pessoas do grupo de intervenção haviam recebido um diagnóstico de transtorno de personalidade (TP). Para garantir o equilíbrio, a equipe fez uma amostragem intencional de mães que tinham uma entrevista PDI completa e transcrita e dados demográficos completos. Essas mães haviam ingressado na intervenção em momentos diferentes, mas foram incluídas porque todas haviam recebido um diagnóstico de TPB, seja como diagnóstico principal de personalidade (n = 6), seja como diagnóstico de personalidade adicional (secundário) (n = 2), e tinham entrevistas transcritas na linha de base (isto é, antes do início da intervenção). O diagnóstico de TPB baseou-se nas avaliações de terapeutas e da equipe clínica, com a Shedler-Westen Assessment Procedure (SWAP, Shedler e Westen, 2007).

Como mostra a Tabela 1, a idade média das mães era 32 anos (de 21 a 47). Duas mães eram de origem negra africana, cinco de origem mista branca e negra caribenha e uma era branca britânica. Cada mãe havia sido encaminhada pelos serviços sociais, e seus filhos (de 0 a 3 anos, 4 meninos e 4 meninas) estavam em risco de acolhimento. Seis mães eram solteiras e 2 viviam em um relacionamento, e todas tinham filhos de menos de 3 anos. Todas as mães receberam pseudônimos para preservar a confidencialidade.

Tabela 1 — Características das mães com diagnóstico de TPB e de seus filhos

Nome (pseudônimo): origem étnica; diagnóstico de TPB principal ou adicional.

  • Alisha. Negra africana; principal.
  • Jasmine. Mista branca/negra caribenha; principal.
  • Kimberley. Mista branca/negra caribenha; principal.
  • Margaret. Mista branca/negra caribenha; principal.
  • Nora. Negra africana; principal.
  • Ruby. Branca britânica; principal.
  • Violet. Mista branca/negra africana; adicional.
  • Anna. Mista negra africana/branca de outra origem; adicional.

Coleta de dados

Entrevistas semiestruturadas foram coletadas no início, no meio e no fim da intervenção. Para os fins deste estudo, porém, o foco recaiu apenas sobre a Parent Development Interview (PDI) de linha de base, coletada antes do início do programa, pois o objetivo era compreender a experiência dos pais e mães, e não o impacto da intervenção.

A Parent Development Interview, versão revisada (PDI-R, Slade et al., 2004), é uma entrevista semiestruturada que avalia a relação mãe/pai-criança a partir da perspectiva parental, com foco no modelo interno de representação e na forma como a criança é vivida. Costuma ser usada para medir quantitativamente o “funcionamento reflexivo” (a capacidade de compreender a si mesmo e aos outros em termos de estados mentais intencionais) de pais e mães. Isso é feito por meio de uma combinação de perguntas de “exigência” e de “permissão”. As perguntas de exigência pedem que a pessoa demonstre sua capacidade de funcionamento reflexivo (por exemplo: “descreva um momento, na última semana, em que você e (seu filho) realmente não estavam ‘em sintonia’”). As perguntas de permissão (por exemplo: “como você acha que sua relação com seu filho está influenciando o desenvolvimento ou a personalidade dele/dela?”) permitem que a pessoa se estenda sobre os temas. Embora a PDI seja frequentemente codificada de forma quantitativa, ela reúne dados ricos, adequados à análise qualitativa. O presente estudo explorou as respostas às perguntas da PDI para compreender em profundidade as experiências de parentalidade. As entrevistas foram conduzidas por integrantes da equipe de pesquisa do projeto de avaliação ampla ou da equipe clínica e duravam cerca de uma hora.

Análise

As entrevistas foram gravadas em áudio, depois transcritas literalmente e preparadas para a análise. Os dados foram desidentificados para proteger a confidencialidade. A Análise Fenomenológica Interpretativa (AFI; Smith et al., 2009) foi utilizada por ser explicitamente idiográfica e examinar de perto detalhes de experiências pessoais carregadas de emoção. Essa abordagem qualitativa ofereceu a oportunidade de explorar em profundidade como pais e mães percebem o fenômeno da parentalidade e do cuidado com filhos de menos de 3 anos e lhe dão sentido, em um contexto em que a criança havia sido identificada como em risco de ser afastada de seus cuidados. A AFI supõe uma leitura atenta de cada transcrição, para mergulhar nos dados (Smith et al., 2009). Primeiro, os dados de cada pessoa são examinados de forma descritiva, mapeando as palavras usadas e as respostas a perguntas específicas. A etapa seguinte consiste em buscar compreender o significado emocional das palavras de quem participou e desenvolver os primeiros temas. Na etapa final, examinam-se as relações entre os temas, primeiro dentro de cada entrevista e depois no conjunto dos dados.

Como esta pesquisa foi realizada no âmbito de um doutorado em Psicoterapia Psicanalítica da Criança e do Adolescente, a pessoa que assina primeiro reconhece que compreende e pensa os dados através de lentes psicanalíticas. Um diário reflexivo e notas de campo foram mantidos durante todo o processo. Além disso, para lidar com possíveis vieses, a equipe implementou um processo de validação: as verificações foram feitas por outra pessoa, doutoranda independente, que também cursava um doutorado em Psicoterapia Psicanalítica da Criança e do Adolescente. Essa pessoa realizou uma análise “cega” de duas transcrições, depois comparada com a análise da pessoa que assina primeiro. Embora tenham surgido algumas pequenas discrepâncias, elas foram cuidadosamente discutidas e depois levadas ao grupo para uma nova revisão. Em consequência, ajustes apropriados foram feitos. Várias ideias e percepções valiosas dessa pessoa foram integradas à análise, e alguns subtemas foram refinados quando necessário. Isso garantiu que os dados fossem representados de forma fiel e significativa, para plena satisfação da equipe.

Resultados

Foram identificados nos dados quatro temas principais, que não são totalmente separados nem distintos: experiências passadas que assombram; experiências emocionais avassaladoras; idealizar e depreciar, a dificuldade de integrar as duas experiências; e estados corporais e necessidade de proximidade física. Além disso, foram identificados vários subtemas.

Experiências passadas que assombram

Um tema dominante, presente no relato de todas as mães, foi a experiência de adversidade na infância, que, segundo elas, as deixou sem modelos parentais positivos. Jasmine, que também havia sido adotada, lembrava as experiências difíceis em sua família:

Acho que a vida em geral era difícil com a minha mãe adotiva, porque ela era alcoólatra e gritava a maior parte do tempo. (Jasmine)

Várias mães falaram de abuso emocional, físico, verbal e sexual na infância, vivendo em ambientes familiares instáveis e imprevisíveis em que se sentiam inseguras e confusas. Alisha descreveu uma infância inteira de abuso e imprevisibilidade:

… sabe, meu pai me mandava voltar para a minha mãe, me botava para fora, me arrastava pelos cabelos e me colocava no ônibus para voltar para a minha mãe… Eu vou para o meu pai, ele me põe para fora também, eu volto para a minha mãe, então eu me sinto rejeitada. (Alisha)

Esses ambientes inconsistentes e abusivos deixavam as mães com sentimentos de rejeição e desqualificação. Ruby descreveu sentimentos de insegurança e sensibilidade como mãe, ligados à experiência de nunca ter se sentido segura ou protegida na própria família:

Inconsistência. Num minuto ela [a mãe dela] era muito gentil, no outro era muito negligente ou fria, ou então o humor dela mudava muito rápido. – [Eu sou] insegura, com certeza, emotiva, emotiva demais, sensível. Eu sou muito insegura com a minha família, hã, não me sinto segura perto deles, isso é… eu nunca me senti segura de verdade, tem alguma coisa errada. (Ruby)

Ruby falava do desejo de ser uma presença constante, segura e confiável para o próprio filho, mas sentia que suas primeiras experiências afetavam sua capacidade de criar vínculo com ele:

Tive muita dificuldade de criar vínculo com ele, muitas e muitas vezes, hã… Então a dificuldade de criar vínculo com ele devia ser por causa da minha experiência de criança com a minha mãe, e até certo ponto com o meu pai, e dos meus problemas de abandono, e do fato de que muitas vezes me deixavam chorando sozinha no berço. (Ruby)

Sentir-se não amadas, rejeitadas e abusadas despertava nas mães um forte desejo de não ser como os próprios pais: queriam ser diferentes com os filhos e ter outras qualidades parentais. No entanto, muitas, como Ruby, viam as experiências passadas com os próprios pais voltarem para assombrá-las na maternidade, e tinham dificuldade de superá-las.

Margaret expressava um forte desejo de não ser como a mãe, mas reconhecia em que se parecia com ela:

(Meus pais) eram muito rígidos. Sou como ela (minha mãe) no sentido de que eu grito muito. Eu grito demais. E eu não quero. … (Eu me sinto tão culpada) quando tenho que dizer não e depois dou para ele o que ele quer, e me sinto muito culpada. (Margaret)

Aqui, Margaret descreve as tensões que várias mães relataram ao tentar criar para os filhos um ambiente diferente daquele que elas mesmas viveram. Diziam sentir culpa por se perceberem parecidas com os próprios pais, o que, por sua vez, podia levar a uma supercompensação e a dificuldades de estabelecer limites para os filhos, por medo de parecerem punitivas.

Todas as mães descreveram essas experiências que assombram, que as deixavam perseguidas por sentimentos de inadequação em suas habilidades parentais ou, como disse uma delas, Violet, pelo medo de ser “a melhor mãe”. Essas experiências podiam desencadear uma espiral de experiências emocionais avassaladoras.

Experiências emocionais avassaladoras

Várias mães descreveram sentimentos intensos e difíceis vividos como mães.

Sentir-se sozinha

Todas as mães descreveram sentir-se isoladas e sozinhas. Esses sentimentos eram especialmente agudos quando estavam para baixo ou em momentos difíceis com os filhos. Como vimos, a maioria das mães criava os filhos sozinha e muitas vezes desejava que alguém estivesse ali para ajudar. Quando lhe pediram que descrevesse uma experiência difícil como mãe, Nora disse:

Lidar com as coisas sozinha, porque só tem eu, não tenho ninguém para me ajudar. (Nora)

Da mesma forma, Ruby também descreveu sentir-se sozinha e precisar de apoio emocional:

Eu queria não ter que fazer tanta coisa sozinha e que tivesse mais gente por perto. Tem gente por perto, só que eles não… eles estão longe, então não… nem sempre conseguem vir ajudar ou só me fazer companhia, hã, mas faria muita diferença se viessem. (Ruby)

Violet e Anna eram as duas únicas mães em um relacionamento, mas também descreviam sentimentos de solidão e a impossibilidade de dividir o que sentiam com alguém. Violet, por exemplo, explicou:

Eu fico meio assim, me sinto meio sozinha, sabe, e tal, e não sei como falar com ele [o parceiro] sobre isso. E coisas assim, e estou muito preocupada. Eu queria falar com alguém. Eu me senti tão sozinha. Tenho me sentido sozinha. (Violet)

Preparar-se para o pior

As mães às vezes ligavam o sentimento de estar sozinhas a pensamentos intrusivos negativos de que algo ruim aconteceria com elas ou com os filhos. Margaret, por exemplo, descreveu o que vivia quando os filhos dormiam e ela ficava sozinha:

É nesses momentos, quando não estou ocupada e estou sozinha, que me vêm pensamentos ruins, intrusivos, de que algo ruim vai acontecer. (Margaret)

Violet falou, de modo semelhante, de como os pensamentos intrusivos de que algo ruim aconteceria com ela ou com a filha podiam deixá-la muito para baixo:

Eu só… às vezes eu bebo alguma coisa. Hã, às vezes eu fico tão deprimida e tão presa nos meus pensamentos e sentimentos e tal…

… Tenho medo de perdê-la. Eu… eu tenho medo, tipo, hã, eu penso em todas essas coisas. (Violet)

Parece provável que os medos de perda dessas mães tenham sido agravados não só pelo passado e pelas circunstâncias atuais difíceis, mas também pelo contexto do acompanhamento pelos serviços sociais de proteção à criança. Alisha, por exemplo, descreveu medos avassaladores de que alguém levasse o filho embora e de não conseguir protegê-lo:

Eu só penso que alguém vai entrar na minha casa e levá-lo, ou que alguém vai fazer alguma coisa comigo, ou que eu vou morrer, ou que vai acontecer alguma coisa comigo, e aí ele vai ficar no apartamento gritando sozinho, e eu tenho todos os dias sentimentos avassaladores de que essas coisas vão acontecer. (Alisha)

Esses medos poderosos e pensamentos intrusivos aumentavam nas mães o sentimento de não serem mães suficientemente boas, deixando-as culpadas. Muitas vezes, lidavam com esses sentimentos tornando-se ainda mais protetoras com os filhos. Margaret, por exemplo, disse que se sentia “muito protetora. [Sou] muito, muito protetora como mãe”.

A raiva quando se perde o controle

Nesse contexto, algumas mães descreviam grande dificuldade quando os filhos não escutavam ou as ignoravam. Ao refletir sobre esses momentos, sentiam raiva e achavam que os filhos as faziam se sentir pior de propósito. Perguntada sobre o que a deixava com raiva, Violet disse:

É só, tipo, brincar, não me escutar. Bagunçar a casa quando eu… quando eu arrumo. Derrubar as coisas, sacudir a mamadeira para todo lado. … Eu sei que ela tem dois anos, mas ela também sabe me manipular. (Violet)

Quando os filhos não as escutavam, as mães sentiam que perdiam o controle e achavam isso muito difícil de administrar.

Eles percebem quando eu estou com raiva e tal. E se aproveitam disso. Eles me provocam. Acho que eles acham graça. (Margaret)

Idealizar e depreciar: a dificuldade de integrar as duas experiências

Ao longo das entrevistas, ficou evidente que cada mãe alternava entre descrições idealizadas da relação com os filhos e a expressão de uma falta de conexão emocional em momentos de negatividade e sofrimento. Nesses últimos, retratavam a relação com os filhos como longe de perfeita. Esse retrato duplo, em que cada mãe oscilava entre idealização e depreciação, evidenciava a ambivalência de seus sentimentos em relação aos filhos. Ainda assim, é importante considerar que esses sentimentos ambivalentes podiam ser compreendidos no contexto da situação difícil que enfrentavam: estavam entrando em uma intervenção em que suas habilidades parentais eram avaliadas, circunstância que provavelmente contribuiu para essas emoções mistas.

“Você é tudo para mim”

Às vezes, as mães descreviam os filhos como a própria perfeição e viam neles quase uma salvação, algo que dava sentido à vida delas.

Ai, meu Deus, sim, se não fosse (nome da criança) eu não estaria aqui hoje, ele está me dando vida de novo. [Kimberley]

Nora descrevia a filha pequena como tudo para ela, preenchendo todo tipo de papéis e necessidades não atendidos por outras pessoas em sua vida.

Ela é tudo para mim, tipo, ela é minha filha, meu amor, ela é minha melhor amiga, ela é, ela é tudo para mim, ela é meu pai, ela é meu irmão, ela é tudo. (Nora)

Margaret também descreveu como ter um filho a fizera crescer e amadurecer.

Me fez crescer muito. Me fez entender muita coisa em… tipo, dentro de mim e tal. Isso, hã, com certeza me acalma muito. Me fez crescer e amadurecer. (Margaret)

As duas mães falavam do quanto os filhos as faziam evoluir e crescer e de como eram eles que as mantinham vivas. Para algumas mães, os filhos pareciam representar e suprir outras relações que faltavam.

“Eu não conseguia amá-lo”

Em outros momentos, as mães descreviam dificuldades de criar vínculo com os filhos. Kimberley descreveu como seus pensamentos intrusivos negativos e sua culpa a impediam de se sentir conectada ao filho.

Muito para baixo, muito emotiva, não totalmente apegada, sabe o que eu quero dizer, como eu deveria estar. Eu cuidava dele, mas não o amava tanto quanto deveria, não ficava sentada com ele, sabe, nem o segurava no colo como faço quando estou bem. … Sabe, minha cabeça não parava, eu só pensava em coisas negativas, ruins, e me sentia culpada porque… culpada olhando para (a criança). E depois me sentia culpada, por um tempinho, de desejar não ter que levá-lo comigo quando saía. (Kimberley)

Por outro lado, Violet e Anna, as duas únicas mães que viviam com parceiros, apresentavam uma visão mais integrada, descrevendo tanto as experiências difíceis quanto as gratificantes na relação com os filhos:

Mas, hã, é, para ser sincera, é, é frustrante, é gratificante. É um monte de coisas, sabe, hã, ser mãe, mas eu não mudaria nada. Eu não mudaria [a criança] e tal. Hã, o que eu faço, eu acho? É muito, muito gratificante. (Violet)

Estados corporais e necessidade de proximidade física

Às vezes, as mães pareciam ter dificuldade de integrar a ideia de que os filhos tinham necessidades tanto emocionais quanto corporais. A maioria descrevia os filhos como tendo apenas necessidades corporais, deixando de lado ou negando suas necessidades emocionais.

“Ele só tem dois anos, ainda não sente”

Perguntadas sobre o impacto dos próprios estados emocionais sobre os filhos, a maioria das mães disse que as crianças não entendiam emoções por causa da pouca idade. Concentravam-se mais nas demandas físicas das crianças pequenas, como a higiene e a alimentação. Kimberley disse:

Ele fica contente quando está alimentado e limpo (risos). É, é assim que eu o descreveria, ele é muito fácil de agradar. E são essas três coisas, desde que ele esteja alimentado… e com o bumbum limpo, ele fica feliz. (Kimberley)

Da mesma forma, Nora disse:

… dar comida para ela, trocar a fralda, hã, as coisas físicas. Chateada? Mas ela ainda é um bebê, não tem como ela ficar chateada, mas se ela precisar de alguma coisa, ela me avisa. (Nora)

Embora a maioria das mães tivesse dificuldade de pensar os filhos como seres emocionais, Ruby fez uma descrição comovente do filho como uma criatura com necessidades físicas e emocionais. Isso pode ter vindo em parte da postura de quem conduzia a entrevista, pois ficou claro, nesse caso, que essa pessoa frequentemente devolvia e validava as experiências de Ruby.

… muito sensível ao barulho e muito sensível ao meu humor e ao humor do pai dele. Isso… se eu fico ansiosa, ele percebe na hora, hã, e quando eu… quando eu estava passando por uma fase de chorar muito, chegou a um ponto em que ele ficava me olhando de verdade, mesmo que eu só fingisse, de brincadeira, fazer um barulho de choro, “uáááhaha”, ele me olhava como quem diz: mamãe, cala a boca agora, já chega. Então ele é muito atento e muito sensível. Talvez atento seja a palavra certa. (Ruby)

A necessidade de proximidade física e a dificuldade de se separar

Talvez em parte por se concentrarem nas necessidades físicas dos filhos, as mães muitas vezes demonstravam necessidade de estar fisicamente perto das crianças. Esses sentimentos talvez também estivessem ligados ao acompanhamento pelos serviços sociais de proteção à criança: a ansiedade diante da possibilidade de afastamento dos filhos parecia acentuar a sensação de que era preciso manter uma proximidade física estreita para protegê-los. Margaret descreveu uma sensação de perda quando o filho não estava com ela, revelando também a dificuldade que sentia de se separar dele.

Tipo, quando ele vai para a creche, eu fico assim: cadê o meu parceirinho? Tipo, para onde ele foi? Eu me sinto perdida sem ele. Eu o amo tanto, e com certeza ele sente a mesma coisa por mim. (Margaret)

Da mesma forma, Nora descreveu:

E aí, mas é claro que eu não resisto a ela, acabo pegando no colo depois de um tempo, mas não fico segurando o tempo todo como antes, tipo quando ela está comendo, eu seguro, ela dorme nos meus braços. (Nora)

Nora e Margaret descreveram uma sensação de falta e a necessidade de estar muito perto da criança, com dificuldade de se separar. O relato de Kimberley sugere que isso podia vir do medo de se sentir deixada de lado e de não ser mais necessária como mãe: ela descreveu com muita intensidade o medo de não ser mais importante à medida que o filho ganhava independência e o medo de que algo ruim acontecesse com ele se não estivesse fisicamente perto dela:

Não quero que ele fique independente demais, porque quero que ele precise de mim, entende o que eu quero dizer? Quero que ele me queira na vida dele. Mas eu gosto, sim; tenho orgulho dele. (Kimberley)

As duas mães que tinham algum apoio em casa e viviam em um relacionamento pareciam mais capazes de refletir sobre os aspectos positivos da separação à medida que os filhos cresciam. Perguntada sobre o que lhe trazia mais alegria em ser mãe, Violet deu uma resposta qualitativamente diferente da de Kimberley:

Só ver minha filha crescendo. Ver como ela está se desenvolvendo. Ver, sabe. Hã, ter as lembranças e tal, sabe. (Violet)

As mães demonstravam uma real necessidade de estar fisicamente perto dos filhos, o que gerava ansiedade de separação, mas também lhes proporcionava uma experiência positiva e as ajudava a se sentirem mais apegadas e vinculadas aos filhos.

Beijos, abraços e brincadeiras: “é tudo de que eu preciso”

Embora a maioria das mães tivesse dificuldade de se separar, essa proximidade física lhes proporcionava interações lúdicas muito necessárias. Kimberley descreveu como estar perto do filho criava um momento de alegria entre os dois.

Foi simplesmente uma delícia, entende o que eu quero dizer? Não sei, não consigo explicar, ele só ri e volta para mim, volta para mim, depois pula em mim, me abraça e, sabe. (Kimberley)

Da mesma forma, Jasmine descreveu um momento de brincadeira afetuosa: as duas brincaram, e ela viu nisso um momento importante de sua experiência positiva de vínculo com a filha:

Ela estava no banho e espalhou espuma por todo lado, e no meu rosto… ela ria muito, e eu também ria. (Jasmine)

Todas as descrições acima mostram a importância da dimensão física da brincadeira, adequada, aliás, a essa faixa etária. Violet descreveu experiências desse tipo:

E eu faço carinho, faço cócegas nela, tudo, e é, a gente brinca muito junto, eu canto para ela e tal. É por isso que é… que é divertido. (Violet)

Essa sensação de proximidade e de estar junto dos filhos parecia dar a essas mães um sentimento de pertencimento e um sentido na vida, algo que talvez tenha faltado no início da vida delas.

Discussão

Este estudo qualitativo explorou a experiência de mães com diagnóstico de TPB e filhos de menos de 3 anos em risco de acolhimento. A metodologia da AFI permitiu uma exploração aprofundada das experiências de parentalidade, e as narrativas das mães trouxeram detalhes de suas vivências emocionais e comportamentais. Foram descritas experiências difíceis e gratificantes e, embora tenham sido identificadas diferenças, também houve muitas experiências compartilhadas. Foram identificados quatro temas principais, que se sobrepõem e interagem: “Experiências passadas que assombram”, “Experiências emocionais avassaladoras”, “Idealizar e depreciar: dificuldade de integrar as experiências” e “Estados corporais e necessidade de proximidade física”.

O primeiro tema, “Experiências passadas que assombram”, estava presente nas descrições de todas as mães sobre ser mãe e sobre ter sido criada. Todas falaram de experiências adversas precoces que as deixaram confusas, inseguras, desqualificadas e rejeitadas, de modo que chegaram à maternidade já fragilizadas. Estudos anteriores constataram que a maior parte das pessoas com diagnóstico de TPB viveu adversidades precoces, com impacto no apego e no desenvolvimento emocional e cognitivo (Gunderson & Lyons-Ruth, 2008; Petfield et al., 2015; Geerling et al., 2019). Newman e Stevenson (2005) argumentam que traumas precoces que não foram “resolvidos” podem continuar operando nas relações adultas, seja como reencenações, seja como tentativas reparadoras de mudar dinâmicas relacionais perturbadoras. Neste estudo, as tentativas reparadoras das mães apareciam no forte desejo de não ser como os próprios pais. Mas elas também se sentiam culpadas quando reconheciam características semelhantes entre a própria parentalidade e a dos pais, o que às vezes resultava em dificuldades de estabelecer limites adequados para os filhos, por medo de parecerem punitivas. Isso contribuía para as dificuldades que tinham, às vezes, de se sentir próximas e vinculadas aos filhos.

No contexto de suas experiências e, em muitos casos, de um apoio social limitado, as mães muitas vezes descreviam a parentalidade como uma experiência solitária e isolante, acompanhada de pensamentos intrusivos negativos, repetitivos e diários, de que algo ruim aconteceria com elas ou com os filhos. Isso está de acordo com outros estudos que descrevem a turbulência emocional e cognitiva de mães com diagnóstico de TPB (Cook et al., 2003; Geerling et al., 2019). Algumas mães expressaram ambivalência em relação aos filhos ou tiveram pensamentos de não querê-los, o que resultava em culpa intensa. Para lidar com essas emoções e compensá-las, as mães descreviam tornar-se superprotetoras e hipervigilantes e preparar-se para o pior, como mencionado em estudos anteriores (Beebe & Lachman, 1988; Bartsch et al., 2016). Neste estudo, porém, os medos de perda e de que algo ruim acontecesse eram provavelmente particularmente agudos, à luz do acompanhamento pelos serviços sociais de proteção à criança e dos riscos muito reais que essas mães enfrentavam de perder a guarda dos filhos. Esses medos podiam tornar a parentalidade mais difícil, com as mães descrevendo forte temor de qualquer separação dos filhos. Como também mostraram pesquisas anteriores, isso podia, por sua vez, agravar a saúde mental e o sofrimento delas em um círculo vicioso (Kenny, 2017).

Um tema novo deste estudo é o dos “Estados corporais e necessidade de proximidade física”. Todas as mães com TPB como diagnóstico principal mostraram alguma dificuldade de aceitar ou compreender os filhos como seres emocionais. Resultados semelhantes também apareceram no estudo de Geerling et al. (2019), que explorou o impacto avassalador do choro do bebê em mães com diagnóstico de TPB. O mecanismo de enfrentamento dessas mães era “cindir o self”, atendendo apenas às necessidades físicas do bebê de modo prático e evitando experiências emocionais nos momentos de maior intensidade emocional. Da mesma forma, neste estudo, as mães às vezes pareciam preocupadas com as funções corporais dos filhos, afirmando que as crianças não tinham idade para sentir emoções, ou oscilando entre retratos idealizados dos filhos e sentimentos negativos intensos. A teoria do apego aplicada à relação mãe-criança sugere que, quando a mãe está disponível emocional e fisicamente, a criança consegue construir e manter a convicção de que a mãe está disponível quando necessário, e forma-se um apego seguro (Bowlby, 1973; Ainsworth, 1990; Kobak & Madsen, 2008). É possível que as experiências de adversidade passadas e atuais dessas mães, a falta de modelos parentais internos positivos e a ansiedade quanto às próprias competências parentais tenham comprometido sua capacidade de aceitar ou expressar uma imagem interna mais global dos filhos. Também chamou a atenção que as duas mães que viviam em um relacionamento, e que talvez por isso contassem com algum apoio e menos estresse nos cuidados diários, pareciam expressar uma visão mais integrada dos filhos.

Apesar dessas dificuldades, também ficou patente que as mães encontravam conforto e segurança na proximidade física com os filhos. Mães com diagnóstico de TPB têm sido fortemente criticadas por suas dificuldades de se relacionar com os filhos e pela falta de capacidade de mentalização e de compreensão emocional (Fonagy & Luyten, 2009; Dunn et al., 2020). Embora o desejo de proximidade física com os filhos possa ser entendido em parte como uma forma de lidar com medos compreensíveis de perda entre mães cujos filhos estão em risco de acolhimento, a brincadeira e a proximidade física que essas mães descreviam também pareciam ter um papel vital na formação do vínculo e no sentimento de propósito como mães. Esse tema singular precisa ser mais explorado para compreender melhor a experiência e o impacto da proximidade física nessa população.

Pontos fortes e limitações

Há uma escassez de estudos que tenham explorado qualitativamente a experiência de mães com diagnóstico de TPB e filhos de menos de 3 anos em risco de acolhimento. A metodologia da AFI permitiu uma exploração aprofundada dessas experiências.

Ainda assim, o estudo tem várias limitações que precisam ser consideradas antes de generalizar os resultados para uma população mais ampla. É importante reconhecer que ele faz parte de um estudo maior com famílias encaminhadas pelos serviços sociais a uma intervenção especializada baseada na mentalização. Por isso, é essencial compreender os resultados nesse contexto, reconhecendo, por exemplo, que as falas das mães participantes podem não refletir diretamente sua experiência e podem ter sido influenciadas pelo viés de desejabilidade social: em especial, as mães podem ter se sentido examinadas em suas habilidades parentais ou temido influenciar negativamente as decisões da equipe clínica sobre os filhos, o que pode ter afetado suas respostas de várias maneiras.

Esse modelo de análise produz temas ricos, derivados do exame aprofundado do relato de cada participante. Por isso, a amostra deste estudo é pequena, o que não é incomum em estudos de AFI (Smith et al., 2009). A amostra era muito específica, composta por mães que entraram em um programa de intervenção comunitária com filhos de menos de 3 anos em risco de acolhimento. Não se sabe se os resultados podem ser generalizados para mães em outros contextos. A composição sociocultural do grupo também chamava a atenção. A maioria das mães era de origem mista caribenha ou mista/negra africana, e apenas uma era branca britânica. Bywaters et al. (2017) constataram que mães negras podem estar sobrerrepresentadas em processos do serviço social, enquanto outras pesquisas questionaram se mães negras, de grupos minorizados ou de contextos desfavorecidos também seriam mais propensas a receber um diagnóstico de TPB e a sofrer discriminação nos serviços (Bacon et al., 2023; Dubriwny, 2010; Sweeney & Lever Taylor, 2019). São necessárias mais pesquisas para compreender melhor a influência do status sociocultural nesse contexto. Um recorte mais amplo de participantes, que também deveria incluir pais, aumentaria a generalização, já que a maior parte das pesquisas até hoje se concentrou nas mães (Newman et al., 2007). Outra limitação foi o fato de as entrevistas terem sido feitas por diferentes pessoas da equipe de pesquisa e da equipe clínica, o que pode ter suscitado respostas diferentes se, por exemplo, quem entrevistava validava mais ou menos as experiências e emoções da mãe, o que poderia levar as pessoas entrevistadas a se abrir ou a se fechar. Além disso, as mães podiam estar em etapas diferentes da vida, e algumas podem ter recebido mais apoio do que outras antes de ingressar nessa intervenção comunitária. Assim, parte das diferenças de capacidade reflexiva entre elas pode se dever à participação anterior em outras intervenções.

Implicações e recomendações

Se replicados, estes resultados têm várias implicações para a prática clínica e a pesquisa. Em primeiro lugar, é fundamental compreender o papel do trauma na experiência parental de mães com diagnóstico de TPB. As equipes clínicas que trabalham com essas mães também precisam estar atentas a como o acompanhamento pelos serviços sociais pode aumentar a pressão sobre elas, afetando sua parentalidade e seus comportamentos com os filhos (Mason et al., 2020). Cabe a essas equipes oferecer um ambiente validante e seguro, no qual essas mães consigam falar mais facilmente de suas dificuldades. A psicoeducação sobre o desenvolvimento emocional e físico de bebês e crianças pequenas pode ser útil, em paralelo a uma intervenção como a desenvolvida por Sprengeler et al. (2021), que propõe uma psicoterapia psicodinâmica breve pais-bebê ou pais-criança pequena. Além disso, a educação parental sobre o desenvolvimento infantil e a saúde mental do bebê e da primeira infância (IECMH) pode ajudar pais e mães a compreender o desenvolvimento socioemocional nessas primeiras etapas. Essas intervenções poderiam incluir, por exemplo, o Círculo de Segurança (Powell et al., 2009), ajudando pais e mães a atender tanto às experiências corporais quanto às emocionais dos filhos e a fortalecer o apego entre eles. Por fim, como as mães se sentem isoladas e sozinhas, parece importante fortalecer suas redes de apoio.

É importante reconhecer, porém, que algumas experiências descritas neste estudo, como a solidão, a ansiedade de separação e a necessidade de proximidade física, são emoções e experiências talvez universalmente compartilhadas por muitos pais e mães. Assim, intervenções pensadas para essas experiências comuns também poderiam se aplicar a quem convive com o TPB e trazer benefícios.

Conclusão

Em conclusão, este estudo traz contribuições sobre a experiência parental de mães com diagnóstico de TPB e filhos de menos de 3 anos em risco de acolhimento. A adversidade precoce parecia ter um impacto significativo sobre essas mães, que chegaram à parentalidade já assombradas por experiências passadas. Todas se sentiam isoladas no papel de mãe e descreviam pensamentos intrusivos negativos, além de ansiedade intensa diante da ideia de que algo ruim acontecesse com elas ou com os filhos. Isso desencadeia uma interação dinâmica entre culpa avassaladora, dificuldade de integrar experiências idealizadoras ou depreciativas dos filhos, superproteção e necessidade de se sentir fisicamente perto dos filhos caso algo ruim lhes acontecesse. Além disso, tinham dificuldade de estabelecer limites e às vezes viam os filhos como compensação por outras relações que lhes faltavam ou que tinham dificuldade de construir e manter. A maioria das mães se concentrava fortemente nas necessidades físicas dos filhos, em vez de vê-los como seres humanos com emoções. No entanto, as mães também encontravam muito conforto na proximidade física com os filhos, o que podia ajudar no desenvolvimento do vínculo entre mãe e criança. A ansiedade das mães, o medo de perder o controle e os mecanismos de superproteção também devem ser considerados no contexto do risco de acolhimento, em que a perda da guarda dos filhos é vivida como uma consequência catastrófica. O estudo mostra que o acompanhamento pelos serviços sociais de proteção à criança agravava a ansiedade e o sofrimento de pais e mães e, também por isso, os serviços precisam pensar na melhor forma de apoiar essa população de modo informado pelo trauma.

Complexe Systémique: a reter

Este estudo dá voz a mães que costumam ser descritas de fora, por um diagnóstico e por um processo de proteção à criança. O relato delas se presta a uma leitura sistêmica: uma transmissão entre gerações em que o desejo de fazer diferente convive com a culpa de repetir, uma solidão que pesa sobre a relação com a criança e um contexto de avaliação que nada tem de neutro. O medo do afastamento da criança alimenta a superproteção e a necessidade de proximidade física; a equipe vê aí uma dificuldade de reconhecer a criança como ser emocional, mas também um recurso, já que a brincadeira e o colo criam vínculo. As duas mães que viviam em um relacionamento tinham uma visão mais integrada da criança, o que convida a olhar a rede de apoio tanto quanto a própria mãe. Para a clínica, a lição é levar em conta o efeito do controle institucional sobre o que se observa e apoiar, em vez de apenas avaliar. A amostra é muito pequena, a leitura psicanalítica é assumida e o próprio diagnóstico de TPB é discutido. Para ler junto com o artigo sobre o genograma no estudo de famílias afetadas pelo transtorno borderline e com o artigo sobre a entrevista de apego adulto para romper o ciclo do trauma intergeracional.

Notas do original

Agradecimentos. Este estudo foi aprovado pelo comitê de ética competente, como detalhado no artigo. A equipe expressa sua gratidão às mães que participaram deste programa e deste estudo, por compartilharem seu tempo, sua confiança e seu percurso pessoal, às equipes de pesquisa e às equipes clínicas pela coleta dos dados e aos colegas pela ajuda e pelas orientações neste projeto.

Aprovação ética. A aprovação ética da avaliação ampla do projeto foi obtida no comitê de ética da University College London (6821/001). As pessoas participantes deram consentimento por escrito para a coleta e a análise dos dados para fins de pesquisa. Esta pesquisa não recebeu financiamento específico de nenhuma agência pública, comercial ou sem fins lucrativos.

Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver conflitos de interesse.

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Tradução não oficial em português de Atravessar a parentalidade: a experiência de mães com diagnóstico de personalidade borderline, de Nikolaos Tzikas, Nick Midgley e Billie Lever Taylor, Journal of Child and Family Studies, vol. 34, no 7 (2025), doi: 10.1007/s10826-024-02952-6, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista, legenda da figura traduzida). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Navigating parenthood: A qualitative exploration of the experience of mothers with a Borderline Personality diagnosis”, publicado em Journal of Child and Family Studies (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Tzikas, N., Midgley, N., et Lever Taylor, B. (2025). Atravessar a parentalidade: a experiência de mães com diagnóstico de personalidade borderline (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/atravessar-a-parentalidade-a-experiencia-de-maes-com-diagnostico-de-personalidade (Obra original publicada em 2025 em Journal of Child and Family Studies, 34(7), 1808-1819 (2025); republicada em 2025 por Journal of Child and Family Studies, https://link.springer.com/article/10.1007/s10826-024-02952-6)

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