Esta versão foi traduzida do inglês pelo Complexe Systémique com a ajuda da inteligência artificial. Em caso de dúvida, prevalece a versão original.
Child & Family Social Work · Serviço social
Na Noruega, onde a mediação familiar é obrigatória para pais que se separam, a residência alternada com divisão igual do tempo passa pela própria forma da equidade. Onze narrativas de adolescentes dizem outra coisa: nelas se mantém a conta do que cada genitor deu ou recusou, e a proximidade e a distância são reguladas de acordo. Uma leitura pela teoria das lealdades invisíveis de Boszormenyi-Nagy.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Como adolescentes negociam lealdade e equidade durante a separação dos pais, de Lovise Grape, Jeanette Skoglund, Gry Mette Dalseng Haugen e Renee Thørnblad, publicado na Child & Family Social Work (Wiley) (2025), doi: 10.1111/cfs.13215, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de listas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
A lealdade não é algo inerente à relação entre pais e adolescentes, mas algo que se conquista por uma legitimidade adquirida.
Lovise Grape, Jeanette Skoglund, Gry Mette Dalseng Haugen e Renee Thørnblad
Resumo
A pesquisa sobre a experiência de crianças com a separação dos pais destaca a igualdade e a equidade entre os pais como uma das explicações para o desejo de crianças de uma divisão simétrica do tempo entre os pais. Neste artigo, analisamos narrativas de adolescentes e perguntamos como adolescentes negociam proximidade e distância com seus pais, com ênfase especial nas questões de lealdade quando o ponto de vista de adolescentes se afasta da simetria e da equidade. Foram analisadas narrativas provenientes de entrevistas qualitativas com 11 adolescentes da Noruega, de 12 a 17 anos. Ideias da teoria das lealdades invisíveis foram aplicadas à análise das entrevistas, o que resultou em dois temas, a saber, “A contabilidade das obrigações cumpridas e não cumpridas pelos pais” e “As negociações de obrigações entre pais e adolescentes”. Segundo adolescentes deste estudo, equidade não significa necessariamente divisão igual do tempo. A equidade está sujeita a negociação, e a lealdade de adolescentes para com os pais se justifica pelas obrigações cumpridas e não cumpridas.
O aspecto dinâmico da vida familiar se torna particularmente visível durante a separação dos pais. A separação parental designa a dissolução da união entre pais que coabitam ou são casados. Durante esse processo, rotinas e práticas familiares relativamente tidas como certas passam a ser objeto de negociação (Morgan 2011). Neste artigo, examinamos como adolescentes dão sentido às suas relações com os pais e as negociam após a separação parental, no contexto norueguês. Embora designemos crianças, de modo geral, como pessoas de 0 a 17 anos, o termo adolescentes especifica as idades entre 12 e 17 anos.
Cerca de 44% da população adulta é casada, enquanto 20% vive em coabitação (Andersen 2023). Com base nas tendências atuais, a taxa de divórcio é de 37,1% (Statistics Norway 2024), e a coabitação é consideravelmente menos estável (Golpen 2015). Cerca de 77% das crianças vivem com ambos os pais na mesma casa, enquanto cerca de 23% estão registradas em um domicílio monoparental1 (Statistics Norway 2023). Cerca de 24 mil crianças vivenciam a separação dos pais a cada ano (Diretoria Norueguesa para Crianças, Jovens e Assuntos Familiares; Bufdir 2024).
A seguir, apresentaremos alguns dos aspectos centrais do contexto norueguês da separação parental: o direito das crianças de serem ouvidas, a mediação familiar obrigatória (doravante, mediação) e a prática da residência alternada. A residência alternada designa um acordo no qual a criança é registrada com residência física junto a ambos os pais. A residência alternada simétrica se refere a uma divisão igual do tempo, enquanto a residência alternada assimétrica se refere ao fato de a criança passar pelo menos de 30% a 49% do tempo em cada uma das casas (Steinbach e Augustijn 2021).
A legislação norueguesa incorporou o artigo 12 da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança (CDC) (Convenção sobre os Direitos da Criança 1989). Segundo a Lei da Criança (1981, seção 31), as crianças, a partir dos sete anos (ou antes, se forem capazes de formar opinião), devem receber informações e ter a oportunidade de expressar seu ponto de vista. A partir dos 12 anos, seu ponto de vista deve receber peso considerável. Os pais são as principais pessoas responsáveis por zelar pelo direito das crianças de serem ouvidas, e são informados dessa obrigação durante a mediação (Regulamento sobre a Mediação Familiar 2007).
Os centros de aconselhamento familiar recebem anualmente cerca de 11 mil novos casos de separação parental, e o serviço é gratuito (Nylund 2021). A mediação é uma das várias formas de métodos alternativos de resolução de conflitos (MARC) (ver Birnbaum 2009; Newell, Graham e Fitzgerald 2009) que podem ser aplicadas antes do início de um processo no âmbito do direito de família (Taylor et al. 2021). Na Noruega, ela é separada da mediação judicial e dos julgamentos, e não envolve advogados nem especialistas em infância nomeados (Nylund 2021). É obrigatória para todos os pais de crianças menores de 16 anos que se separam (qualquer que seja o nível de conflito) e para os pais que desejam iniciar um processo judicial. Seu principal objetivo é promover a colaboração coparental e resolver conflitos entre os pais. Quem faz a mediação familiar deve orientar os pais para garantir o melhor interesse da criança nos acordos parentais relativos à responsabilidade parental, à residência e ao convívio (Regulamento sobre a Mediação Familiar 2007). Um certificado de mediação que comprove a presença dos pais é pré-requisito para pedir o divórcio, receber benefícios para os filhos após a separação parental e iniciar processos judiciais sobre guarda, residência e mudança de domicílio (Lei da Criança 1981; Lei do Casamento 1991). Menos de 20% dos pais separados iniciam processos judiciais, que na maioria dos casos consistem em mediação judicial (Nylund 2021).
A participação de crianças na mediação não é regulada por lei na Noruega, mas temos visto um foco político no aumento desse tipo de participação. Por exemplo, em 2022, a meta era incluir 30% das crianças no processo de mediação dos pais (Bufdir. 2023). Hoje, cerca de 25% das crianças (geralmente de 7 a 15 anos) participam desse processo (Bufdir. 2023). Trata-se de um aumento considerável em relação aos níveis anteriores (por exemplo, 4% em 2010, ver Ådnanes et al. 2011). Pesquisas realizadas na Noruega mostraram que as crianças, em geral, querem ser ouvidas, qualquer que seja o nível de conflito entre os pais (Thørnblad e Strandbu 2018; Sunde, Larsen e Helland 2021). Além disso, crianças que participam da mediação costumam ter opiniões sobre os arranjos de residência (Grape, Thørnblad e Handegård 2021).
Segundo o artigo 9 da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança (CDC) (Convenção sobre os Direitos da Criança 1989) e a legislação norueguesa (Haugli 2013; Lei da Criança 1981, seção 42), pais e filhos têm o direito de manter contato mesmo morando separados. A parentalidade compartilhada e a residência alternada se tornaram cada vez mais comuns em muitos países ocidentais (Steinbach 2019). Uma tendência a práticas paternas mais envolvidas pode ser situada no âmbito das políticas e legislações de bem-estar familiar que enfatizam a igualdade de gênero nos países nórdicos (Andreasson e Johansson 2019; Eydal e Rostgaard 2018; Eydal e Rostgaard 2011; Gíslason e Símonardóttir 2018; Kitterød e Lyngstad 2014; Forsberg 2009). Embora alguns estudos sugiram que a residência alternada tem resultados positivos, como a melhora da relação pai-filho ou do bem-estar da criança (ver Nielsen 2018; Sandberg 2023; Vrolijk e Keizer 2021), outros são mais cautelosos diante dessas conclusões, em razão de limitações metodológicas e da seleção social entre os pais que praticam esses arranjos (ver Johansen et al. 2022; Ottosen et al. 2018; Steinbach 2019; Wiik 2022).
Em 2020, na Noruega, 43% dos pais separados praticavam a residência alternada simétrica, um em cada dez praticava a residência alternada assimétrica e cerca de metade dos pais separados praticava a guarda física exclusiva, na qual a criança vivia a maior parte do tempo com um dos pais, na maioria das vezes a mãe (Wiik 2022).
A pesquisa sobre a experiência de crianças com a residência alternada mostrou que elas costumam se preocupar com igualdade e simetria e podem tratar os pais de forma justa e igual na maneira de dividir seu tempo entre as duas casas (ver Cashmore e Parkinson 2008; Kitterød e Lidén 2021; Neale e Flowerdew 2007). Vários estudos constatam que as crianças desejam ter relações próximas com ambos os pais após a separação parental (Berman e Daneback 2022; Graham, Fitzgerald e Phelps 2009; Haugen 2007; Kitterød e Lidén 2021; Thørnblad e Strandbu 2018). A proximidade com os pais é um dos aspectos da qualidade da relação entre pais e filhos e pode funcionar como fator de proteção durante conflitos entre os pais (van Dijk et al. 2020).
O ideal da “parentalidade intensiva” é comum no contexto euro-americano (Faircloth 2023), incluindo os países escandinavos (Forsberg 2011; Hennum 2014; Aarseth 2018). Ele significa que a parentalidade é centrada na criança e atenta ao seu melhor interesse. As crianças também podem se apoiar no discurso do “melhor interesse da criança” ao apresentar os próprios desejos (Kitterød e Lidén 2021), por exemplo, enfatizando a necessidade de flexibilidade nos arranjos de residência (Birnbaum e Saini 2015). A flexibilidade pode consistir em pequenas alterações no plano parental ou na possibilidade de passar pela casa do outro genitor (Berman 2015; Graham, Fitzgerald e Phelps 2009; Grape, Thørnblad e Handegård 2021; Haugen 2010; Marschall 2014). Adolescentes, em particular, parecem preferir arranjos flexíveis, ajustados ao seu cotidiano (Gollop, Smith e Taylor 2000; Kitterød e Lidén 2021). A capacidade de influir nos arranjos de residência pode depender das oportunidades que crianças e adolescentes têm de expressar seu ponto de vista e de ter voz (Berman 2018; Carson et al. 2018; Gollop, Smith e Taylor 2000; Haugen, Dyrstad e Ådnanes 2015; Sunde, Larsen e Helland 2021).
Quando uma preferência de residência se afasta da residência alternada simétrica, as crianças podem sentir culpa ou conflitos de lealdade, em razão de um desejo simultâneo de manter relações próximas com ambos os pais (Haugen 2007, 2010; Johnsen, Litland e Hallström 2018; Marschall 2014). As relações entre pais e filhos costumam ser objeto de negociação após a separação parental (ver Berman 2015, 2018). Algumas crianças podem resistir ao contato com um dos pais, ou recusá-lo, por causa de violência, abuso ou do comportamento de um genitor que influencia o ponto de vista da criança (Garber 2007; Geffner e Sandoval 2020). Outras iniciam mudanças por questões práticas, por sentimentos de proximidade com um genitor ou com um bairro, ou por outros motivos (ver, por exemplo, Carson et al. 2018). Preferências de residência que se afastam da residência alternada simétrica podem apontar para a necessidade de arranjos de residência flexíveis.
O objetivo deste artigo é oferecer novas perspectivas sobre a experiência de adolescentes com as relações com os pais após a separação parental, no contexto norueguês. Costuma-se pensar a adolescência como uma encruzilhada de novas formas de participação, tanto nas relações familiares quanto nas relações entre pares (Giordano 2003; Rogoff 2003). As interações de adolescentes com os pais às vezes se caracterizam por um movimento em direção a relações mais igualitárias e, periodicamente, por mais conflitos (Branje 2018), e por isso despertam interesse particular. Neste artigo, analisamos o que adolescentes destacam como importante quando as relações e os arranjos de residência são renegociados. Perguntamos como adolescentes negociam proximidade e distância com os pais e como justificam sua lealdade para com eles quando seu ponto de vista se afasta da simetria e da equidade entre os pais.
Numa perspectiva sociocultural, adolescentes são agentes com papel ativo, que criam sentido em suas interações com os contextos sociais e culturais em que vivem (Bruner e Haste 1987; Rogoff 2003; Valsiner 1997). Suas decisões de se comportar de forma leal (ou não) devem ser vistas em relação ao seu contexto, tanto o ambiente quanto a matriz de motivações, opções e direitos (subjetivos) (Boszormenyi-Nagy e Krasner 1986). A teoria das lealdades invisíveis (Boszormenyi-Nagy e Spark 1973) vê as relações como dialéticas. Aplicamos esse referencial teórico à compreensão das tensões dinâmicas entre a dependência ontológica de adolescentes em relação às interações com os pais e o desenvolvimento da autonomia. A lealdade é definida como “um apego preferencial a parceiros relacionais que têm direito a uma prioridade de ‘vínculo’ (Boszormenyi-Nagy e Krasner 1986, p. 418)”. Segundo essa teoria, as pessoas se comportam de forma leal por coerção externa, por interesse consciente em pertencer, por sentimentos de obrigação conscientemente reconhecidos e por uma obrigação inconsciente e vinculante de pertencer (Boszormenyi-Nagy e Spark 1973). Cada pessoa registra as obrigações passadas e presentes entre membros da família, que contribuem para um “livro-razão da justiça” (invisível). Esse livro-razão resulta numa equidade percebida do dar e receber que existe na relação (Boszormenyi-Nagy e Krasner 1986; Boszormenyi-Nagy e Spark 1973).
As obrigações familiares podem ser entendidas como negociadas por meio de um processo de atribuição de responsabilidades (Finch e Mason 1993). As negociações entre pais e filhos se tornaram normativas nas culturas ocidentais contemporâneas (ver Sommer 2019). Deixar de cumprir obrigações pode resultar em culpa, que constitui uma força reguladora secundária ao agir sobre a homeostase das obrigações, ou sistema de lealdade (Boszormenyi-Nagy e Spark 1973). Ao considerar que adolescentes negociam com os pais durante a separação destes, vemos essas pessoas jovens como agentes que interagem de maneiras que afetam as relações e as decisões (Mayall 2002). Em outras palavras, são agentes inseridos em relações interdependentes nas quais a lealdade é continuamente negociada (Abebe 2019; Alanen 1998; Spyrou 2018).
Este estudo faz parte do projeto Ouvir as Crianças na Mediação (HBIM), que examina aspectos das práticas que incluem a criança nos centros de aconselhamento familiar na Noruega. O estudo foi aprovado pela Agência Norueguesa de Serviços Compartilhados em Educação e Pesquisa (ref. nº 150314).
As equipes de mediação familiar de cinco centros de aconselhamento familiar, nas quatro regiões do país, em zonas rurais e urbanas, contribuíram para o recrutamento de adolescentes. Usamos uma estratégia de amostragem ilustrativa (Mason 2002) e intencional (Flick 2007). O convite para participar dependia da presença anterior no processo de mediação, qualquer que fosse o tipo de mediação (divórcio, pais que antes coabitavam, mediação pré-judicial e mediação por mudança de domicílio), e da idade entre 12 e 17 anos no momento do recrutamento.
Nosso objetivo era que as narrativas informassem diferentes maneiras de adolescentes participarem dos processos de decisão durante a separação parental. A variação foi considerada suficiente quando as narrativas tinham pontos de partida diferentes (por exemplo, conflitos entre pais e adolescentes ou ausência de conflito) que seguiam caminhos diferentes rumo à continuidade ou à descontinuidade (por exemplo, relações próximas e contato frequente, e relações conflituosas e pouco contato). Onze adolescentes (dois meninos e nove meninas) participaram do estudo. Seus arranjos de residência eram diferentes, com diferentes graus de estabilidade.
As pessoas participantes receberam informações sobre o estudo das equipes de mediação familiar que recrutaram as famílias, por telefone e por e-mail, e no início da entrevista. Adolescentes de 16 anos ou mais deram consentimento pessoal. Participantes com menos idade deram consentimento pessoal, e os pais também consentiram com a participação. A pessoa que conduziu as entrevistas esteve atenta ao consentimento ao longo de toda a entrevista e enfatizou que era possível desistir da participação a qualquer momento. Para proteger a confidencialidade, as entrevistas foram anonimizadas, foram atribuídos pseudônimos e as idades foram apresentadas em intervalos de 3 anos (12-14 ou 15-17).
As entrevistas foram realizadas pela pessoa que assina primeiro, entre setembro e dezembro de 2020. Quatro entrevistas foram realizadas em local escolhido por adolescentes, e sete foram feitas on-line, por videoconferência no Zoom, por causa das restrições da covid-19. As entrevistas duraram entre 45 e 90 min. Todas foram gravadas em áudio e transcritas.
As entrevistas eram semiestruturadas e se inspiraram em Bamberg (2021), ao considerar que as narrativas configuram a dimensão temporal da experiência humana, como passado, presente e futuro, que ocupa lugar privilegiado para explorar estabilidade, continuidade e mudança. Além disso, vemos as narrativas de adolescentes como maneiras de criar sentido e coerência (Gubrium e Holstein 2009) a partir do processo de separação dos pais.
O roteiro de entrevista era composto de cinco partes. (1) Informar e iniciar o processo (obter o consentimento informado, retomar o conteúdo do folheto informativo e apresentar a pessoa entrevistadora). (2) Falar do período entre o momento em que ficaram sabendo da separação parental e a entrevista de pesquisa. Foram feitas perguntas de aprofundamento sobre pensamentos, sentimentos e compreensões dos acontecimentos, além de elementos narrativos como tempo e espaço. Perguntas de aprofundamento sobre os arranjos de residência só eram feitas se o tema tivesse sido levantado na entrevista pela pessoa participante. Se alguém tinha dificuldade para dar exemplos, pedia-se que desenvolvesse um ponto alto, um ponto baixo e uma virada. (3) A participação na mediação. (4) Aspirações, esperanças e planos para o futuro. (5) A pessoa entrevistadora resumia a narrativa para dar a oportunidade de corrigir e complementar. Quem participou teve a opção de receber novo contato para ler o manuscrito antes da submissão a uma revista científica.2
A análise adota uma abordagem abdutiva, em que os dados empíricos e o conhecimento teórico se apoiam mutuamente e fazem a análise avançar (Alvesson e Sköldberg 2017; Tavory e Timmermans 2014). A equipe de pesquisa discutiu o que esperava e o que a surpreendeu nas narrativas. Por exemplo, esperávamos uma consciência do direito das crianças de serem ouvidas, dada a ênfase em práticas parentais centradas na criança na Noruega. Também esperávamos reflexões sobre os arranjos de residência. No entanto, o que nos chamou a atenção foi o empenho das pessoas entrevistadas em explicar como as práticas familiares tinham mudado e como avaliavam a qualidade da parentalidade e das relações entre pais e adolescentes durante essas mudanças. A maior parte das narrativas foi rica e detalhada. Duas entrevistas se caracterizaram por relatos mais breves e por mais falas e perguntas da pessoa entrevistadora. Ainda assim, essas duas entrevistas foram informativas, pois mostravam incoerências entre a forma como adolescentes apresentavam o cumprimento das obrigações por ambos os pais e sua proximidade emocional com cada um deles.
No processo inicial de análise, escolhemos Anne como caso índice (Timmermans e Tavory 2022) para ancorar nossa análise e a usamos como “o ponto em torno do qual a variação será estruturada (p. 93)”. A narrativa de Anne parecia captar traços centrais da maneira como adolescentes deste estudo exerciam sua agência nas negociações. Embora a narrativa de Anne tenha chamado nossa atenção e despertado nossa curiosidade no início, todas as 11 narrativas foram objeto de análise sistemática. Por exemplo, ela era uma das oito pessoas adolescentes que desejavam menos contato com um dos pais. Três adolescentes concordaram com os pais em passar a mesma quantidade de tempo com ambos, mas essa preferência não era incondicional.
Depois de escolher Anne como caso índice, examinamos todo o material em busca de trechos que descrevessem aspectos das relações entre adolescente e genitor. As abordagens narrativas de análise tendem a se concentrar nos relatos de cada pessoa entrevistada, e não em concepções gerais de saturação (Saunders et al. 2018). Quando a ênfase recai sobre experiências, amostras menores podem ser aceitáveis (ver, por exemplo, Sandelowski 1995).
Uma vez familiarizada com as descrições relacionais de uma entrevista a outra, a equipe aplicou as ideias de Magnusson e Marecek (2015) sobre como analisar trechos individuais em busca de significados culturais implícitos. A pessoa que assina primeiro identificou, em cada transcrição, os sujeitos textuais e as ações, como ferramenta de organização. Segundo Magnusson e Marecek (2015), as pessoas (os sujeitos textuais) são os atores de uma narrativa que dizem e fazem coisas (ações) e, assim, canalizam a maneira como significados culturais implícitos (como normas antigas e novas) podem influenciar ou informar o que é dito numa conversa. A equipe de pesquisa discutiu contradições entre esses sujeitos textuais e ações dentro de cada caso, o que ajudou a identificar tensões dialéticas. As concordâncias entre sujeitos textuais e ações ajudaram a identificar compreensões tidas como certas e levaram a novas discussões sobre significados culturais implícitos dentro de cada entrevista e entre as entrevistas. Ver a Tabela 1 para uma ilustração desse processo.
Tabela 1 — Ilustração da análise de dados que aplica as ideias de Magnusson e Maracek (2015)
Na Tabela 2, apresentamos como agrupamos os significados culturais implícitos em dois temas gerais: “A contabilidade das obrigações cumpridas e não cumpridas pelos pais” e “As negociações de obrigações entre pais e adolescentes”.
Tabela 2 — Síntese dos significados culturais implícitos agrupados em temas
Para cada tema: significado cultural implícito e, em seguida, exemplo empírico (citação).
Reconhecemos que as narrativas podem ser interpretadas de outra forma. Em vez de lealdade a um dos pais, pode-se ver comportamento manipulador de um genitor, abuso e negligência ou violência como razões para uma possível “triangulação”. No entanto, não fizemos nenhuma suposição e procuramos permanecer próximos do conteúdo das narrativas de adolescentes.
A sobreposição entre o processo de separação parental e o avanço da pandemia de covid-19 variava de uma pessoa participante para outra. Reconhecemos que, de modo geral, alguns pais podem ter vivido mais estresse durante o confinamento (Helland et al. 2021) e que algumas crianças tiveram menor bem-estar e níveis mais altos de ansiedade e depressão nas fases iniciais da pandemia (Nøkleby et al. 2023). No entanto, esse não foi um tema enfatizado nas narrativas, e nossa compreensão é que as negociações, segundo esses relatos, se estenderam por todo o processo de separação, independentemente da pandemia.
A lealdade de adolescentes para com os pais parecia depender das expectativas cumpridas ou frustradas pelos pais quanto a cuidar do filho ou da filha emocionalmente e no tempo e no espaço. O primeiro aspecto dizia respeito a sentimentos relacionais de proximidade. O segundo está relacionado ao sentimento de estar em casa ou de distância em relação à casa de um genitor.
Anne (15-17) morava de forma permanente com o pai e visitava a mãe. Segundo Anne, os pais eram hostis um com o outro, e interpretamos sua narrativa como a descrição de dois genitores às voltas com um conflito intenso. Ela enfatizava sobretudo a maneira como a mãe frustrava suas expectativas. Por exemplo, quando Anne era mais nova, via a mãe como uma “mamãe ursa” que brigava com as autoridades para proteger seu melhor interesse. No entanto, essa ação protetora da mãe no passado (os méritos do passado) pesava menos do que os deméritos atuais. Esses deméritos eram a falta de reconhecimento dos sentimentos, das prioridades, dos desejos ou da maturidade de Anne, já que a mãe lhe dissera que “quando você crescer, vai entender”. Anne parecia pensar que não conseguia se fazer ouvir pela mãe e que era incapaz de iniciar uma negociação sobre como entender a situação. Ter a oportunidade de expressar o próprio ponto de vista e vê-lo reconhecido está entre as expectativas essenciais expressas por adolescentes no conjunto das narrativas. Além disso, adolescentes pareciam esperar que os pais fossem abertos e dessem as informações necessárias e adequadas sobre o processo de separação. Adolescentes podiam desaprovar os pais que mentiam ou tentavam enganar adolescentes ou o outro genitor por meio de segundas intenções, como querer reatar com o outro genitor por questões financeiras ou falar de novos parceiros para deixar o outro genitor com ciúme. A comunicação dos pais e o desejo de adolescentes de ter voz estão em consonância com estudos segundo os quais, à medida que crescem, as crianças tendem a valorizar mais a abertura e a codeterminação nas relações com os pais do que opiniões específicas sobre os arranjos de residência (Sunde, Larsen e Helland 2021).
Os conflitos entre pais e adolescentes podem ser adaptativos para o desenvolvimento relacional, porque podem aumentar a competência para negociar mudanças relacionais, sobretudo quando pais e adolescentes conseguem passar com flexibilidade por uma gama de emoções positivas e negativas (Branje 2018). Adolescentes do nosso estudo valorizavam pais emocionalmente disponíveis, que evitavam ficar com raiva ou reagir com outras emoções negativas e que lhes davam segurança na relação. No entanto, como exemplifica a narrativa de Anne, a relação pode sofrer quando os pais (e possivelmente o filho ou a filha) não conseguem se ajustar às expectativas uns dos outros. Anne descrevia a sensação de que ninguém “lutava” por ela, por exemplo, por causa da relutância da mãe em comparecer a sessões adicionais de mediação. Como parte do processo de separação dos pais, Anne e seu irmão ou irmã compareceram a várias reuniões de acompanhamento com a mediadora familiar, assim como o pai. Do ponto de vista de Anne, o pai tornou-se então um genitor falível, ou seja, disposto a admitir erros e a fazer algo a respeito. A mãe, por outro lado, tornou-se a mãe infalível.
Não consigo ter uma boa comunicação com a mamãe agora. Eu e (irmão ou irmã de Anne) pedimos a ela que fosse ao Centro de Aconselhamento Familiar para conversar. Porque a gente fala coisas para ela e tenta fazer ela escutar a gente, sem que ela escute. Então era tipo “Se você for lá, ela [a mediadora] pode conversar com você. Talvez aí você se dê ao trabalho de escutar”, mas ela se recusou a ir. E isso foi frustrante. Por isso a gente ficou feliz de o papai ter ido, também por ele mesmo, de ele ter alguém com quem conversar para não ter que conversar comigo ou com (seu irmão ou irmã), ou principalmente comigo, que eu tivesse que ouvir coisas que meus ouvidos não deveriam ouvir. (…) Mas também para ele ter mais conselhos sobre como lidar com tudo. Conselhos que a minha mãe também poderia ter aproveitado.
Anne via as atitudes da mãe como egoístas, porque achava que a mãe evitava ser confrontada com o que ela chamava de “bode expiatório”, ou com uma mãe que tinha “ferrado” as relações entre mãe e filhos. A oscilação na qualidade e no equilíbrio da relação entre Anne e a mãe transparece no fato de que as duas ainda não chegaram a uma compreensão comum da necessidade de cuidado e reconhecimento de Anne, nem da reciprocidade do cuidado entre elas.
Em sua narrativa, Nora (12-14) descrevia conflitos recorrentes entre os pais durante todo o processo de separação parental. Ela se preocupava mais, porém, com a incapacidade do pai de criar um sentimento de lar que atendesse às suas necessidades cotidianas, como uma sensação geral de estabilidade, ajuda com a lição de casa e transporte para a escola. A mãe, em contrapartida, fazia Nora sentir que tinha a oportunidade de participar das decisões sobre seus arranjos de residência e sobre assuntos da vida familiar. Ela era incluída nas questões financeiras, contribuía para os trabalhos de manutenção da casa, dava opinião sobre a nova cozinha e assim adquiria “um sentimento de estar em casa”. Nora falou sobre o que tinha sido mais importante para ela poder decidir:
Que eu pude participar e, de certa forma, começar um novo lar, porque foi como se eu tivesse perdido um lar, quando a gente se mudou da casa do papai. Assim que todas as coisas foram tiradas de lá, assim que o lar desapareceu, aí foi como, você perdia o sentimento de lar, o da casa do papai.
As pessoas entrevistadas parecem valorizar a participação no processo de criar novos lares por meio de aspectos materiais, como mobiliar o próprio quarto e as novas casas ou apartamentos. Um dos aspectos é que têm a sensação de ter influência, mas também de fazer parte de um novo “nós”. Os sentimentos de pertencimento, também chamados de coesão familiar, conexão familiar, ambiente familiar positivo (ver King, Boyd e Thorsen 2015) ou talvez “nós familiar” (Dreier 2011, p. 46; Marschall 2014), predizem vários aspectos positivos do bem-estar na adolescência (King, Boyd e Pragg 2018; Rejaän, van der Valk e Branje 2022). O sentimento de pertencimento pode ter importância particular na adolescência (Allen e Kern 2017), fase em que se busca equilibrar independência e autonomia com a conexão com pessoas significativas do próprio contexto (Rogoff 2003).
Benjamin (12-14), que ficou com a mãe após a separação dos pais, disse que o pai não era presente nem envolvido na vida deles. Antes da separação parental, o pai já parecia periférico nas práticas cotidianas. O pai saiu de casa várias vezes ao longo do processo de separação sem avisar Benjamin e seu irmão ou irmã, e ninguém lhes contou que o pai tinha decidido formar uma nova família. Benjamin descrevia a si mesmo e ao irmão ou irmã como “visitas” quando iam à casa do pai e dizia que isso era “um pouco estranho de dizer [risinho]”, mas também “um pouco bom, na verdade”. Como se ele apontasse a distância na relação com o pai e o responsabilizasse por “pensar nas coisas sozinho”. Tornar-se “visita” em uma das casas pode ser explicado por uma mudança na distância emocional e física.
Em algumas narrativas, declarações explícitas sobre como se adquiriu o sentimento de estar em casa se referem à maneira como os pais ajustaram e facilitaram esse sentimento. A lealdade talvez possa ser explicada por aspectos positivos de uma das casas, ou pela falta deles, como a relação com o genitor que mora ali e o sentimento de pertencimento àquela casa, algo que também aparece no estudo de Lidén e Kitterød (2020). Portanto, os pais podem conquistar mérito ao se dedicar à criação de um (novo) lar. Pesquisas anteriores mostraram que as dimensões do “lar”, além da moradia física, incluem um lugar de recolhimento, um espaço de bem-estar psicológico e emocional e relações, rotinas e rituais significativos (Campo et al. 2020; Lidén e Kitterød 2020; Natalier e Fehlberg 2015). As crianças que participaram do estudo de Campo et al. (2020) destacavam a disposição e a capacidade dos pais de se concentrar nos filhos e criar com eles um novo espaço. Isso contribuía para a proximidade no tempo e no espaço. Supomos que essa disposição e essa capacidade contribuem para a lealdade para com os pais.
Quando ambos os pais cumpriam expectativas que tornavam a qualidade da relação suficientemente boa, a lealdade para com os dois parecia se manter, tanto em termos de proximidade emocional quanto de sentimento de estar juntos no tempo passado em comum. A narrativa de Sara (15-17) contrasta com a de Anne ao exemplificar como os pais cuidavam dela:
Pelo menos eu espero que a gente possa fazer alguma coisa juntos, nós quatro. Porque eles [os pais de Sara] são bons amigos e tal, então disseram que não haveria nenhum problema para eles, de certa forma. E disseram: “a gente só quer que vocês [os filhos] fiquem bem, e vamos fazer de tudo para garantir que vocês fiquem bem.”
Sara valorizava que os pais cuidassem dela sendo cordiais um com o outro e garantindo que ela estivesse bem. Como vários estudos mostraram com exemplos semelhantes (ver Kitterød e Lidén 2021; Marschall 2014; Haugen 2007; Grape, Thørnblad e Handegård 2021), Sara se preocupava mais em garantir que os pais soubessem que ela amava os dois igualmente e, por isso, queria passar o mesmo tempo com cada um: “É tipo, não quero passar mais tempo com um deles do que com o outro (…), porque aí eu sinto que um pode pensar que ‘Uau! Ela ama o outro genitor mais do que eu.’” À luz da teoria das lealdades invisíveis (Boszormenyi-Nagy e Spark 1973), Sara expressava um interesse conscientemente sentido em pertencer a ambos os pais. No entanto, ela também se referia à possibilidade de que o tempo que passava influenciasse o sentimento dos pais de serem amados por ela. Estudos apontaram o tempo como dotado de significado emocional (Haugen 2010; Merson, Tuffin e Pond 2023), valorizado como símbolo de amor, cuidado e lealdade (Haugen 2010), ou como algo que as crianças deveriam dar igualmente aos pais (Kitterød e Lidén 2021). O significado emocional do tempo pode, portanto, funcionar como um indício indireto de amor e, assim, contribuir para uma obrigação inconsciente e vinculante de pertencer, como parte de ser leal a ambos. Essas obrigações inconscientes são inferidas do fato de conhecer bem os pais e de saber quem está ligado a quem pela lealdade, por meio da contabilidade de méritos que cada pessoa mantém (Boszormenyi-Nagy e Spark 1973). Contudo, a divisão do tempo também pode funcionar como uma obrigação inconsciente resultante de valores culturais de igualdade entre os pais. Adolescentes que, como Sara, sentiam o cuidado dos pais diziam que, se não dividissem o tempo igualmente, corriam o risco de “afastar” um dos pais. Assim, talvez percebessem a divisão assimétrica do tempo como injustificada, o que deixava a residência alternada simétrica como a única escolha razoável.
O desejo de proximidade emocional com ambos os pais também pode ser expressão de cuidado recíproco. Uma perspectiva é que as crianças exercem agência ao cuidar dos pais, por exemplo, mantendo-se próximas de ambos e tendo contato regular (Marschall 2014), ou prestando atenção ao tempo e às consequências econômicas (Haugen 2005). Essa perspectiva reconhece melhor as relações recíprocas entre crianças e adultos, nas quais ambas as partes “investem” nas contas invisíveis de obrigações (Boszormenyi-Nagy e Spark 1973). Sara talvez viva esse cuidado recíproco como algo que a fortalece, já que descrevia potenciais fatores de proteção, como apoio emocional, papéis adequados à idade, apoio e validação parental e sua avaliação positiva do amor e do cuidado que dedica aos pais (Masiran et al. 2023). Em contraste, Anne não assumia cuidados com nenhum dos pais. Ela apoiava o irmão ou a irmã ao longo do processo de separação parental e enfatizava que o pai e a mãe tinham a responsabilidade de ser sensíveis às necessidades dela e do irmão ou irmã. Assim, os pais não tinham direito à sua lealdade.
Nas narrativas, adolescentes descreveram diferentes estratégias que adolescentes e pais aplicavam para regular proximidade e distância, tanto emocionalmente (o vínculo entre pais e adolescentes) quanto fisicamente (afetando o tempo passado juntos). Os pais geralmente tentam aumentar a proximidade, enquanto adolescentes tentam regulá-la nos dois sentidos. As negociações pareciam visar tornar mudanças possíveis no futuro.
Segundo Anne, ela não se sentia capaz de expressar seu verdadeiro estado de espírito, por receio de que a mãe ficasse “passivo-agressiva” ou “emburrada” e a fizesse se sentir culpada. Sua narrativa exemplifica como as tentativas dos pais de negociar a proximidade podem ser vividas por adolescentes. Em algumas descrições, os pais se comunicam com expressões emocionais que fazem a culpa entrar em jogo como força reguladora. Segundo Boszormenyi-Nagy e Spark (1973), a culpa tem a função de regular o desequilíbrio na maneira como as pessoas de uma relação cumpriram suas obrigações. O termo “emburrado” foi usado com frequência nas entrevistas, ilustrando as expressões emocionais negativas dos pais. Parece que um estado de espírito “emburrado” é percebido por adolescentes como uma tentativa estratégica dos pais de mudar o equilíbrio das obrigações nas relações, já que pais “emburrados” podem provocar culpa. Essas reações podem ser exemplos do que Boszormenyi-Nagy e Spark (1973) descreveram como coerção externa, um dos mecanismos subjacentes à lealdade. Anne, porém, resistiu a esse tipo de coerção e se sentiu apoiada pela mediadora nesse aspecto: “Uma das coisas mais importantes, além de receber conselhos e desafios (terapêuticos), é a sensação de ter razão.” Ela se sentia no direito de excluir a mãe de atividades como a festa de fim de ano letivo. Uma reação semelhante apareceu na narrativa de Nora. Ficou difícil para Nora lidar com as expressões “emburradas” recorrentes do pai e com seus esforços persistentes para fazê-la se sentir culpada (ou com alguma responsabilidade) pelo que aconteceu. Ela se esforçou para “repelir” o pai, para criar distância em relação a ele. Conseguiu comunicar esse desejo de distância com o apoio de quem fazia a mediação, mas não sentiu que realmente conseguiu influenciar o contato com o pai até ter “idade suficiente”. Culpas injustificadas ou responsabilidades descabidas vindas dos pais pareciam afetar a contabilidade de méritos feita por adolescentes. Isso pesava no senso de equidade e ameaçava enfraquecer o sentimento de lealdade para com o genitor “emburrado”.
Uma preferência por uma residência assimétrica, ou preferências que se afastavam do desejo de um genitor, exigiam de algumas pessoas adolescentes um esforço para serem expressas. Esse desconforto também foi encontrado em outros estudos (Cashmore e Parkinson 2008; Goldson 2006; Haugen 2010; Kitterød e Lidén 2021; Neale e Flowerdew 2007; Thørnblad e Strandbu 2018). Haugen (2010), por exemplo, constatou que as crianças parecem fiéis à ideia da residência alternada simétrica, mesmo quando essa solução contraria sua preferência pessoal. Ainda que isso possa ter sido desconfortável, por exemplo, em razão das estratégias dos pais, adolescentes do nosso estudo muitas vezes pareciam firmes nas suas justificativas de equidade. Uma das estratégias era buscar apoio em um irmão ou irmã, no outro genitor ou em quem fazia a mediação familiar ao compartilhar suas preferências. Em outros casos, era preciso criar distância na relação. Nosso estudo oferece exemplos de como adolescentes negociam com os pais e pesam as próprias necessidades diante das necessidades dos pais, muitas vezes de forma pessoalmente favorável.
Em nosso estudo, adolescentes podiam deixar a porta entreaberta para mudanças futuras. Ambos os pais podiam ser apresentados com qualidades favoráveis, apesar de haver preferência por um dos pais e por sua casa, ou de a pessoa entrevistada enfatizar na entrevista que “não quero favorecer ninguém, mas é assim que está no momento” (Ida, 12-14). Essas estratégias podem ser entendidas como expressões de sentimentos de obrigação conscientemente reconhecidos, tanto no sentimento de ligação com um genitor quanto na maneira como os pais são apresentados a outras pessoas, fora da família. Por exemplo, embora Anne tenha escolhido morar com o pai, queria que a mãe comprasse uma casa nova com espaço suficiente para ela e o irmão ou irmã, para que ambos pudessem se sentir bem-vindos. É importante notar, porém, que ela atribui a responsabilidade à mãe:
A gente [Anne e seu irmão ou irmã] pelo menos pôde dizer que queria que tivesse espaço suficiente lá, caso a gente mudasse de ideia. (…) Ou se a gente quisesse ir dormir lá e tal. Porque… A gente não queria excluir ela. E se ela tivesse comprado uma casa pequena demais para nós, ela praticamente teria excluído a gente.
Esses exemplos podem refletir o aspecto dialético do sentimento de conexão e de autonomia nas relações entre pais e adolescentes. Nora descrevia dificuldades na relação com o pai, justificando assim sua distância física e emocional em relação a ele. Mesmo assim, quando lhe perguntaram como o futuro poderia ser para ela e o pai, expressou a esperança de que a relação melhorasse: “[hesitante] […] ter uma relação com ele para que eu possa ficar com ele um fim de semana sim, outro não, mas sem precisar ser muito próxima dele. […] Reconstruir aos poucos.” Mesmo que palavras fortes como “repelir” sejam usadas nas narrativas, a reconciliação ainda pode ser possível.
O objetivo deste artigo foi examinar questões de lealdade relacionadas à maneira como adolescentes negociam proximidade e distância nas relações com os pais e como justificam seus pontos de vista.
Nossa análise mostra como algumas pessoas adolescentes fazem uma contabilidade dos méritos e deméritos dos pais, na qual se baseiam suas justificativas. Espera-se que os pais levem em conta as necessidades de adolescentes, reconheçam sua autonomia e maturidade crescente e promovam um sentimento de pertencimento. Deixar de fazê-lo pode justificar a distância. Adolescentes descrevem estratégias próprias e dos pais que refletem a negociação contínua da proximidade mútua. Com base nesta análise, a lealdade não é algo inerente à relação entre pais e adolescentes, mas algo que se conquista por uma legitimidade adquirida. Sustentamos que essa legitimidade pode se expressar no desejo de proximidade ou no sentimento de pertencimento. A deslealdade, por outro lado, pode se refletir em distância emocional ou física, ou num sentimento de exclusão do envolvimento e do cuidado de um genitor.
Além disso, os resultados deste artigo podem contribuir para matizar três temas em particular. Primeiro, a pesquisa que enfatiza o desejo das crianças de flexibilidade nos arranjos de residência, talvez sobretudo na residência alternada simétrica, costuma explicar a flexibilidade como pequenos ajustes nos arranjos de residência (ver, por exemplo, Carson et al. 2018; Graham, Fitzgerald e Phelps 2009; Grape, Thørnblad e Handegård 2021; Haugen 2010; Kitterød e Lidén 2021; Marschall 2014). Esse tipo de flexibilidade costuma ser negociado dentro de esquemas estabelecidos de divisão igual do tempo. A flexibilidade também pode significar negociar as formalidades dos arranjos de residência, por exemplo, passar de uma residência alternada simétrica para apenas fins de semana na casa de um dos pais.
Adolescentes negociam autonomia e interdependência no contexto em que vivem e com as pessoas com quem interagem (Rogoff 2003). As responsabilidades e o poder se reorganizam na relação entre pais e adolescentes e se tornam mais recíprocos (Branje 2018; Boszormenyi-Nagy e Spark 1973). Neste estudo, as relações passam a estar sujeitas a mudança e negociação, e é a agenda de adolescentes que vem para o primeiro plano. Ainda assim, a contabilidade dos méritos dos pais é um processo contínuo. A flexibilidade também pode significar que os esquemas não estão definidos, ou ao menos estão abertos à negociação, o que, se o tempo tem significado emocional, implica que a proximidade emocional e a lealdade podem mudar no futuro. Pais, serviço social e mediação podem estar atentos à lealdade como conceito dinâmico ao ouvir o ponto de vista de adolescentes e dar peso a ele.
Segundo, nossa análise pode contribuir para matizar pesquisas anteriores sobre a experiência de crianças com a residência alternada simétrica como símbolo de igualdade e equidade entre os pais. As narrativas deste estudo exemplificam como as negociações de adolescentes com os pais se baseiam, em grande medida, nas próprias necessidades, de forma pessoalmente favorável. A equidade nem sempre é percebida como divisão igual do tempo entre os pais. Adolescentes têm, antes, a própria agenda ao justificar o equilíbrio do dar e receber na relação com os pais. Aspectos como as relações com padrastos, madrastas, meios-irmãos e meias-irmãs (Afifi 2003; Kitterød e Lidén 2021), as atividades de lazer, as amizades e a ligação com o bairro poderiam contextualizar ainda mais a experiência de adolescentes. Além disso, os pais que praticam a residência alternada simétrica têm, em geral, menos conflito e pontuações mais altas em medidas socioeconômicas (Steinbach 2019; Wiik 2022). Esses aspectos podem ser essenciais para a capacidade dos pais de atender ao ponto de vista e às necessidades das crianças (Berman 2018; Rejaän 2022). À medida que mais pais desejam praticar a residência alternada simétrica, as diferenças associadas à seleção social da residência alternada simétrica (por exemplo, conflito entre os pais e medidas socioeconômicas) podem se apagar. Assim, vários pais podem encontrar obstáculos a uma gestão flexível dos arranjos de residência e a uma postura reflexiva diante das mudanças nas relações com os filhos. Sugerimos atenção à maneira como qualquer prática rígida da residência alternada pode impedir adolescentes de exercer sua agência. Isso é importante porque o apoio à autonomia parece pesar na contabilidade de méritos feita na adolescência. Essa preocupação também pode valer para outros contextos internacionais.
Terceiro, como este estudo ilustra dinâmicas conflituosas entre pais e adolescentes, há quem aponte a possibilidade de que os pais tenham manipulado os filhos. A pesquisa que parte desses pressupostos tende a ver as crianças como pouco confiáveis (Warming et al. 2019). Um rótulo precoce de falta de confiabilidade pode ter consequências graves para a agência das crianças. Pode ser mais proveitoso, para melhorar as relações entre pais e adolescentes, que os pais e as equipes profissionais explorem a maneira como adolescentes dão sentido à equidade e à lealdade.
De modo geral, destacamos a importância do sistema de mediação. A mediação pode, sobretudo se for possível voltar ao serviço depois de algum tempo, oferecer apoio precoce e de fácil acesso a adolescentes e pais. Assim, podem surgir novas compreensões e novas maneiras de negociar lealdade e equidade antes que problemas relacionais se enraízem ou que disputas cheguem aos tribunais.
Complexe Systémique: a reter
O interesse deste estudo está em devolver à teoria contextual sua dimensão dinâmica: a lealdade não aparece como um dado do vínculo filial, mas como um crédito que cada genitor ganha ou perde ao longo da separação. Adolescentes mantêm contas: a escuta, uma informação honesta e a participação na construção do novo lar creditam um genitor; a culpabilização, a mentira ou o humor “emburrado” o debitam. Para a clínica e a mediação, duas pistas se destacam: desconfiar de uma residência alternada engessada que cala adolescentes e não ler depressa demais uma recusa de contato como produto de manipulação parental, leitura que desqualifica de saída a palavra da criança. Os limites são claros: onze narrativas, nove delas de meninas, um país onde a mediação é gratuita e obrigatória, um caso índice, o de Anne, que pesa muito no conjunto, e uma análise que opta por não explorar a hipótese da triangulação. Para ler junto com o artigo sobre a conta oculta das nossas relações e com o artigo sobre os conflitos parentais de alta intensidade vistos pelos serviços noruegueses.
Notas do original
1 Com base no Registro Nacional da População, no qual só é possível ter uma residência registrada. Assim, esses números incluem crianças em residência alternada e crianças que moram com um só genitor por outros motivos, por exemplo, o falecimento de um dos pais.
2 Nove adolescentes aceitaram ler o manuscrito antes da submissão a uma revista científica. Mais de 2 anos depois das entrevistas de pesquisa, quando a pessoa que assina primeiro retomou o contato, duas pessoas responderam. Uma queria ler as publicações finais. A outra participou de uma reunião com a mãe e com a pessoa que assina primeiro e leu o manuscrito inteiro.
Agradecimentos. A equipe agradece aos pais e adolescentes que consentiram com a participação de adolescentes no projeto de pesquisa. A vaga de doutorado é financiada pelo RKBU Norte e pela Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Tromsø.
Declaração ética. O projeto foi aceito pelo Serviço Norueguês de Dados em Ciências Sociais (ref. nº 150314).
Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver conflitos de interesse.
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Tradução não oficial em português de Como adolescentes negociam lealdade e equidade durante a separação dos pais, de Lovise Grape, Jeanette Skoglund, Gry Mette Dalseng Haugen e Renee Thørnblad, Child & Family Social Work, vol. 30, no 4 (2025), doi: 10.1111/cfs.13215, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Adolescents' Negotiations of Loyalty and Fairness in Relation to Parents' Separation Process”, publicado em Child & Family Social Work (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Grape, L., Skoglund, J., Haugen, G. M. D., et Thørnblad, R. (2025). Como adolescentes negociam lealdade e equidade durante a separação dos pais (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/como-adolescentes-negociam-lealdade-e-equidade-durante-a-separacao-dos-pais (Obra original publicada em 2024 em Child & Family Social Work, 30(4), 727-738 (2025); republicada em 2025 por Child & Family Social Work, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/cfs.13215)
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