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Journal of Child and Family Studies · Família
Quando um filho ou filha revela na adolescência ser trans ou de gênero não binário, como os pais aprendem a dar apoio? A equipe de Shannon L. Dunlap entrevistou separadamente, ao mesmo tempo, 20 adolescentes da Califórnia e um de seus pais. Os relatos mostram uma distância de preparo entre as gerações, um luto parental muitas vezes calado e grupos de pais que funcionam como tábua de salvação sem sempre bastar.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de “Como, em nome de Deus, vamos atravessar isso?”: o apoio parental a adolescentes transgênero, de Shannon L. Dunlap, Jeremy T. Goldbach, Johanna Olson-Kennedy e Jordan Held, publicado na Journal of Child and Family Studies (Springer) (2023), doi: 10.1007/s10826-023-02649-2, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de listas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Faltava aos pais um roteiro familiar e afirmativo na família e na comunidade.
Shannon L. Dunlap, Jeremy T. Goldbach, Johanna Olson-Kennedy e Jordan Held
Resumo
A literatura existente demonstrou claramente que adolescentes transgênero e de gênero não binário (ATNB) enfrentam um estresse extremo ligado a lidar com a identidade e a expressão de gênero em diferentes ambientes sociais. Além disso, os pais são talvez o elemento mais decisivo do apoio a adolescentes ATNB, e a pesquisa tem identificado repetidamente os benefícios do apoio parental para a saúde mental na adolescência. Poucos estudos, porém, destacam como adolescentes ATNB e seus pais, numa mesma família, percebem o apoio parental depois que a pessoa adolescente revela ser trans ou não binária. O presente estudo qualitativo usa entrevistas baseadas num calendário de história de vida (CHV) com 20 díades ATNB-pai ou mãe (40 entrevistas individuais) para explorar as percepções cruzadas do apoio parental e do ajustamento ligados à identidade de gênero e à afirmação de gênero de adolescentes ATNB. Os resultados trouxeram três pontos principais sobre o apoio parental a adolescentes ATNB. Primeiro, o tempo decorrido entre a revelação a um dos pais e a puberdade fez diferença para os processos de apoio e de ajustamento parentais. Segundo, os pais que entraram no percurso de gênero dos filhos durante a adolescência deles lidaram com sentimentos de luto e de perda enquanto tomavam decisões para apoiar a afirmação de gênero dos filhos. Para muitas dessas famílias, os medos ligados ao estigma e o sofrimento da pessoa adolescente afetaram o apoio parental ao percurso de gênero dos filhos. Terceiro, faltava aos pais um roteiro familiar e afirmativo na própria família e na comunidade, e, embora tenham buscado apoio junto a outros pais de crianças e adolescentes trans, para alguns esses recursos de apoio trouxeram dificuldades. Pesquisas futuras poderão aprofundar o estudo dos complexos motores do apoio e do impacto potencial desses processos de apoio sobre o bem-estar de adolescentes e pais.
Pontos-chave
Palavras-chave: transgênero e não binário, apoio parental, ajustamento parental, perda ambígua, saúde mental na adolescência
Adolescentes transgênero e de gênero não binário (ATNB) vivem disparidades em depressão, suicidalidade, autolesão, vitimização e acesso insuficiente a cuidados de saúde em comparação com seus pares cisgênero (Clark et al., 2013; Nuttbrock et al., 2010; J. Olson et al., 2015; Reisner et al., 2015; Shipherd et al., 2019; Thoma et al., 2019; Toomey et al., 2018; Veale et al., 2017). A literatura que usa a teoria do estresse de minoria (Meyer, 2003) estabeleceu claramente uma forte relação entre esses desfechos e estressores de minoria como a discriminação e o assédio em múltiplos contextos sociais, incluindo família, pares, escola e sistema de saúde (Delozier et al., 2020; Goldbach e Gibbs, 2017; Kosciw et al., 2018; Meyer, 2003; Testa et al., 2015). O apoio social é, portanto, essencial enquanto adolescentes ATNB desenvolvem, expressam e vivem sua identidade de gênero em meio a estressores de minoria presentes em múltiplos contextos sociais (Clark et al., 2013; Meadow, 2011; Simons et al., 2013).
Sobretudo, a família representa, para toda pessoa adolescente, um sistema decisivo tanto de estresse quanto de apoio. Diferentemente das relações entre pares, a relação entre pais e filhos não é voluntária: ela se apoia num vínculo afetivo e jurídico, limitado pelas expectativas sociais de harmonia e camaradagem (Becker e Useem, 1942). Um desalinhamento na relação entre pais e filhos pode gerar sofrimento e problemas de saúde mental na adolescência (por exemplo, Collins et al., 1997; Dimler et al., 2016; Steinberg e Morris, 2001), ao passo que a confiança, o respeito e a sintonia entre pais e adolescentes protegem contra problemas de saúde comportamental (Armsden e Greenberg, 1987; Ryan et al., 2010). Para adolescentes ATNB, a rejeição pelos pais ou pelas principais figuras de cuidado (doravante chamadas de “pais”) tem sido associada ao sofrimento psicológico (Bockting et al., 2016), enquanto o apoio parental parece aliviar o sofrimento e fortalecer o autoconceito de toda pessoa adolescente (Meadow, 2011; Ryan et al., 2009, 2010). Expressar não conformidade de gênero ou se assumir trans muitas vezes vem acompanhado de isolamento em relação a sistemas de apoio familiares que não estão preparados para oferecer apoio (Burgess, 2000). Esse apoio é crucial porque um alto apoio parental protege contra o estigma social e o sofrimento psicológico, como a depressão e a ansiedade (Bockting et al., 2016; Grossman et al., 2021; Simons et al., 2013), em especial durante o desenvolvimento precoce da identidade de gênero (trans) da criança (Olson et al., 2016). Apesar do amplo consenso de que o apoio parental é relevante na vida de adolescentes ATNB, a pesquisa sobre o apoio parental tem se concentrado até agora em seus aspectos funcionais, como usar os pronomes corretos, dar acesso a cuidados médicos e a outros apoios ligados à transição (Hale et al., 2021; Johnson et al., 2020), informar-se e informar outras pessoas, oferecer apoio emocional e expressar amor e carinho (Hale et al., 2021).
De fato, todos os pais exercem a parentalidade em meio às expectativas de seus próprios sistemas de apoio social e de referenciais culturais, religiosos e sociais. Mas esses contextos podem trazer desafios específicos para pais de adolescentes ATNB, que tentam também acompanhar a identidade de gênero e a afirmação de gênero dos filhos diante das normas e expectativas sociais cisgênero, sem um roteiro claro a seguir. Muitos pais de adolescentes trans atravessam etapas de luto ao se desprenderem da ideia que tinham de quem o filho ou a filha é e de quem vai se tornar (McGuire et al., 2016; Meadows, 2011), às vezes chegando a se considerar responsáveis (Riley et al., 2011), enquanto se familiarizam com a identidade afirmada dos filhos e se ajustam a ela (McGuire et al., 2016; Meadows, 2011; Olson et al., 2011). Nesse período, os pais podem se sentir isolados, excluídos, discriminados e assediados (Riley et al., 2011). Mesmo quando adolescentes desenvolvem autoeficácia para contestar pressupostos rígidos ligados a seu gênero, os pais vivem sua própria confusão e seu próprio ajustamento (Olson et al., 2011; Simons et al., 2013). Pouco se sabe, porém, sobre como os pais vivem a criação de um filho ou filha transgênero e sobre os fatores que afetam sua capacidade de oferecer apoio, quaisquer que sejam suas melhores intenções. Compreender o apoio e o ajustamento parentais nos diferentes contextos sociais é necessário para desenvolver intervenções que apoiem não só adolescentes ATNB, mas também seus pais, que são, pode-se argumentar, decisivos para o bem-estar de adolescentes ATNB.
A maior parte das pesquisas sobre o apoio parental a adolescentes ATNB se concentrou ou nos pais, ou nas pessoas adolescentes, mas não nos dois pontos de vista dentro de uma mesma família. Os poucos estudos disponíveis exploraram separadamente um conjunto restrito de temas, incluindo (a) a reação inicial dos pais à revelação dos filhos e seu ajustamento (Alegría, 2018; Grossman et al., 2006, 2021; Sansfaçon et al., 2020); (b) a experiência de jovens com as reações dos pais (Meadow, 2011; Simons et al., 2013); ou (c) os comportamentos de apoio, segundo as perspectivas de adolescentes e pais (Hale et al., 2021). Assim, as seguintes lacunas continuam pouco estudadas: (a) as percepções de adolescentes ATNB e de seus pais sobre os comportamentos e processos de apoio parental numa mesma família, (b) o ajustamento dos pais e o que os motiva a apoiar o filho ou a filha ATNB, e (c) a busca de apoio pelos pais depois que o filho ou a filha se assume trans. Com um delineamento de pesquisa narrativo qualitativo e entrevistas baseadas num calendário de história de vida (CHV), o presente estudo buscou explorar o apoio parental a partir das perspectivas de pais e de adolescentes trans de uma mesma família. As seguintes perguntas de pesquisa guiaram este estudo exploratório: (a) Como é o apoio parental à afirmação de gênero de adolescentes ATNB, segundo as perspectivas de adolescentes trans e de seus pais? e (b) Como os pais de adolescentes ATNB percorrem o caminho até apoiar o filho ou a filha trans adolescente? Esta pesquisa pode explicar processos familiares importantes, capazes de orientar tanto pesquisas futuras quanto o desenvolvimento de intervenções centradas na família e fundamentadas teoricamente.
O presente estudo usou uma abordagem narrativa para a coleta e a análise de dados diádicos provenientes de entrevistas qualitativas por CHV, individuais e simultâneas, realizadas com adolescentes trans e seus pais. A pesquisa define duas pessoas como uma díade “quando relações íntimas, face a face, persistiram entre elas por tempo suficiente para que se estabeleça um padrão discernível de personalidades em interação” (Becker e Useem, 1942, p. 13). Coletar dados com díades de pais e filhos minimiza o viés de subjetividade e amplia a compreensão, ao reunir duas perspectivas sobre um fenômeno compartilhado (Thompson e Walker, 1982). As entrevistas diádicas permitiram explorar e compreender em profundidade as perspectivas divergentes e convergentes de adolescentes ATNB e de seus pais sobre o fenômeno do apoio parental. Além disso, o uso de duas pessoas entrevistadoras, para conduzir separada e simultaneamente as entrevistas com o pai ou a mãe e com a pessoa adolescente, reduziu a contaminação de um membro da díade para o outro e melhorou, assim, a confiabilidade dos nossos dados. Dentro de uma abordagem narrativa, usamos as entrevistas por CHV para explorar o contexto e as transições importantes dos processos de apoio parental ao longo do percurso de gênero de adolescentes ATNB.
Antes do estudo, a pesquisadora principal (PP) passou um ano com nossos três locais de recrutamento, encontrando pais de jovens adultos trans, jovens adultos trans e equipes clínicas, para compreender as necessidades de adolescentes ATNB e de seus pais e suas experiências anteriores com pesquisa, e para construir uma relação de confiança. As díades ATNB-pai ou mãe (N = 20 díades) foram recrutadas de forma intencional nestes três locais do sul da Califórnia: (a) uma clínica de saúde para crianças e adolescentes especializada em questões trans, (b) um grupo de apoio para famílias de pessoas transgênero e (c) um centro LGBTQ. Cartazes do estudo foram afixados nos escritórios de gestão de casos desses locais, e as pessoas que facilitavam os grupos de pais os aprovaram e divulgaram on-line nas listas de e-mail de seus grupos de apoio. Durante o recrutamento, a PP fez apresentações no início de várias reuniões de grupos de apoio para adolescentes e famílias e nos horários de atendimento livre de um espaço LGBTQ voltado para jovens, para apresentar o estudo e responder a perguntas. Famílias e adolescentes com interesse ligaram, mandaram mensagem de texto ou e-mail para a PP, que fez uma breve triagem para verificar a elegibilidade. A PP e a díade combinavam então um horário para se encontrar num local confortável escolhido por elas, fosse a casa da família (n = 16), fossem salas privativas da universidade (n = 4), para realizar entrevistas separadas, mas simultâneas. As entrevistas ocorreram entre 2017 e 2019.
O presente estudo foi aprovado pelo North General Institutional Review Board (NGIRB) da UCLA. A PP e profissionais de serviço social com formação de mestrado (MSW) conduziram as entrevistas separadas e simultâneas com as díades, com a PP e uma pessoa entrevistadora com formação MSW em cada entrevista diádica. Reconhecendo que quem pesquisa é um instrumento central da pesquisa qualitativa, a PP alternava a pessoa que entrevistava (pai ou mãe, ou adolescente) a cada entrevista diádica, para reforçar a confiabilidade e minimizar um possível viés da pessoa entrevistadora. Em duas famílias, por causa das agendas e da disponibilidade de uma segunda pessoa entrevistadora, a PP entrevistou separadamente os dois membros da díade em dois dias consecutivos. Nessas duas díades, a PP não pôde controlar a contaminação de um membro da díade para o outro; ela fez, no entanto, memorandos de campo detalhados para ter consciência do que já sabia pela entrevista do outro membro da díade e minimizar qualquer pergunta indutora decorrente disso.
Antes de cada entrevista, as duas pessoas entrevistadoras encontravam a díade em conjunto para o processo de consentimento livre e esclarecido verbal com pais e adolescentes. Depois de realizado o consentimento com a díade reunida, a PP e a outra pessoa entrevistadora se separavam em dois espaços individuais para conduzir as entrevistas separadas e simultâneas. Em seguida, obtínhamos individualmente o assentimento verbal de cada participante antes da entrevista, para dar a cada pessoa a oportunidade de fazer perguntas de forma independente e de escolher se queria ou não participar individualmente. Cada membro das díades concordou em participar e em ter a entrevista gravada para o estudo. Logo após o consentimento e o assentimento, as pessoas entrevistadoras ligavam um gravador de áudio e conduziam entrevistas individuais, separadas e simultâneas, com adolescentes (n = 20) e seus pais (n = 20). As entrevistas duraram entre 90 min e 3 h.
As pessoas adolescentes trans participantes (a) tinham entre 12 e 17 anos; (b) se identificavam como transgênero, não binárias ou de um gênero diferente do sexo designado ao nascer; e (c) tinham iniciado bloqueadores de puberdade ou hormônios de afirmação de gênero nos 12 meses anteriores à entrevista. O termo pai ou mãe designa a figura de cuidado principalmente envolvida nos cuidados de saúde trans e de saúde mental da criança ou adolescente. O presente estudo recrutou os pais principalmente envolvidos nos cuidados médicos específicos de transição dos filhos, partindo do pressuposto de que esses pais teriam mais conhecimento dos processos de afirmação de gênero dos filhos. Quando pai e mãe estavam envolvidos nesses cuidados, os pais homens foram incentivados a participar, porque ao longo do recrutamento mais mães do que pais se ofereceram para o estudo. Todas as pessoas participantes falavam inglês e deram consentimento parental e assentimento verbal.
Recorremos ao método do calendário de história de vida (CHV) para organizar o processo das entrevistas (Baltes et al., 1980). Em pesquisa, a orientação do curso de vida para estudar as experiências e o desenvolvimento humanos pode ser aplicada a toda a vida ou a períodos específicos do desenvolvimento, como a adolescência (Baltes et al., 1980). Além disso, essa perspectiva do curso de vida combinava com nossa abordagem narrativa da coleta e da análise de dados qualitativos, porque o CHV, como ferramenta, nos permitiu explorar a afirmação de gênero na adolescência e o apoio parental como uma série de acontecimentos que se cruzam no tempo e ocorrem num amplo leque de domínios (neste estudo, principalmente família, escola, cuidados de saúde e comunidade cultural) (Yoshihama et al., 2005). Cada CHV era adaptado ao tempo de vida da pessoa adolescente (do nascimento à idade atual). Nossas perguntas de entrevista por CHV investigavam temas (por exemplo, revelações, apoio, expressão, afirmação, vínculo com a comunidade) em cada domínio, e esses temas eram também organizados no tempo pela idade da pessoa adolescente e pelo calendário escolar (do outono ao verão) (Yoshihama et al., 2005), já que as famílias situavam com mais naturalidade suas experiências em cada domínio usando esses marcos temporais da vida. O CHV do presente estudo tinha o tamanho de um pôster e era plastificado para permitir escrever durante a entrevista (com caneta apagável). As pessoas participantes eram convidadas a registrar acontecimentos no calendário durante a entrevista, para ajudar a conectar visual e cognitivamente experiências temporais e interseccionais (Freedman et al., 1988).
Cada entrevista por CHV começava com uma pergunta-marco, ou pergunta sobre um acontecimento específico formulada pela pessoa entrevistadora, para iniciar a conversa. A pergunta sobre acontecimento específico é uma estratégia de coleta de dados qualitativos usada para incentivar as pessoas participantes a refletir sobre um momento emocionalmente marcante ou memorável da vida (Fiese e Spagnola, 2005; Yoshihama et al., 2005). As pessoas entrevistadoras iniciavam a entrevista principal por CHV com cada participante usando a mesma pergunta sobre acontecimento específico, ligeiramente adaptada para adolescentes e para pais: “Pensando lá atrás, na primeira infância, qual é uma experiência ou lembrança que ficou mais marcada para você? Algumas pessoas pensam num aniversário, numa mudança ou num momento do ensino fundamental (ou, no caso dos pais, num momento da gravidez ou de quando a criança chegou à vida delas). Isso pode estar ligado ao seu gênero (ou ao gênero do seu filho ou filha), mas não precisa. O que vem à sua mente?”. As pessoas entrevistadoras usavam essa experiência precoce para ancorar o calendário numa lembrança marcante da primeira infância, o que lhes permitia avançar e voltar com fluidez para compreender o desenvolvimento e as mudanças ao longo do tempo a partir desse acontecimento. No presente estudo, usar o CHV para compreender as perspectivas de adolescentes ATNB e de seus pais sobre a identidade de gênero e a afirmação de gênero na adolescência foi importante de duas maneiras. Primeiro, permitiu identificar processos-chave na infância que dão forma às experiências e percepções da adolescência. Segundo, permitiu à pessoa entrevistadora reunir informações importantes a partir de duas perspectivas singulares sobre a adolescência, o que aprofundou nossa compreensão do estresse, do apoio e do bem-estar de adolescentes trans e de seus pais.
A PP transcreveu palavra por palavra cada uma das 40 entrevistas gravadas, com o software de transcrição Express Scribe. Usamos uma abordagem narrativa para compreender as experiências vividas de adolescentes ATNB e de seus pais no contexto da revelação e da afirmação de gênero. Essa abordagem era necessária, pois ajudou a conectar as narrativas tanto no tempo quanto no contexto de fases significativas do percurso de gênero das famílias. Memorandos de primeira impressão, redigidos a partir dos arquivos de áudio transcritos e carregados no ATLAS.ti 8, forneceram informações essenciais sobre as primeiras reflexões a respeito de cada entrevista (Creswell, 2013). Uma codificação indutiva linha a linha, incluindo codificação in vivo, combinada a uma codificação dedutiva a priori derivada dos domínios da entrevista por CHV, guiou a codificação inicial das duas primeiras entrevistas diádicas (quatro entrevistas individuais). Os códigos foram associados a segmentos de texto para compreender como as pessoas viviam um fenômeno (Eisikovits e Koren, 2010). Verificações e discussões entre duas pessoas codificadoras independentes e a PP, sobre as duas primeiras transcrições diádicas, garantiram o rigor e a confiabilidade. Usamos memorandos analíticos, tal como descritos por Miles et al. (2014), para aprofundar a compreensão interpretativa dos códigos e da forma como eles poderiam se agrupar. Após as discussões entre as pessoas codificadoras, elaboramos um livro de códigos com definições e regras de codificação para aplicar às demais transcrições. Além disso, à medida que a codificação avançava, a definição de alguns códigos mudou ligeiramente para dar conta de fenômenos adicionais. Revisitávamos então as transcrições anteriores para determinar se e como os códigos recém-definidos se aplicavam aos dados já codificados, e depois verificávamos sua saliência.
Usamos a codificação axial para determinar a saliência e o significado conceitual dos códigos ligados ao estresse de minoria, ao apoio parental e à afirmação de gênero na adolescência (Boyatzis, 1998; Malterud, 2001); os códigos foram agrupados em domínios mais amplos e mais significativos segundo semelhanças conceituais e de sentido. Nosso livro de códigos inicial tinha 222 códigos e 15 domínios analíticos. Ao fim do processo de análise, o livro de códigos final tinha 42 códigos e 6 domínios. Por meio dos memorandos, esses domínios foram agrupados em temas salientes, que davam conta dos dados do conjunto das transcrições e davam sentido às experiências vividas ao longo do tempo (Creswell, 2013; Miles et al., 2014).
Usamos o livro de códigos individual e os códigos, junto com os memorandos, para montar uma planilha das semelhanças e diferenças descritivas e interpretativas dentro das díades e entre elas (Eisikovits e Koren, 2010). Em seguida, para compreender a díade como unidade de análise, comparamos as perspectivas da pessoa adolescente e do pai ou da mãe sobre cada domínio e redigimos memorandos interpretativos e temáticos. Em cada memorando, exploramos as semelhanças e as diferenças nas percepções do apoio parental nos diferentes domínios da vida (Eisikovits e Koren, 2010). Os temas foram organizados pela cronologia (antes e depois da puberdade; antes e depois da revelação aos pais). Também registramos essas experiências segundo três períodos do desenvolvimento (anos iniciais e finais do ensino fundamental e ensino médio). Examinamos os temas derivados dos dados para determinar a centralidade do apoio parental e da afirmação de gênero na adolescência. A estrutura do calendário oferecia um método organizado para identificar processos de apoio específicos ao longo do tempo e para identificar semelhanças e diferenças dentro das díades. Sobreposições e divergências dentro de uma díade não implicam vínculo ou desconexão entre adolescentes e pais (Eisikovits e Koren, 2010). Por isso, deu-se grande atenção à forma como as pessoas participantes descreviam e interpretavam os fenômenos (Eisikovits e Koren, 2010). A compreensão narrativa dos resultados inclui citações das pessoas participantes, como forma de compor histórias ricas e descritivas das experiências vividas (Miles et al., 2014).
A PP é uma mulher branca, com formação universitária, cisgênero, e também mãe. Trabalhou por mais de 15 anos como assistente social e pesquisadora com jovens em situação de rua, em saúde mental da criança e da família, com jovens LGBTQ, jovens transgênero e jovens mulheres LGBT e gestantes vivendo com HIV. As pessoas entrevistadoras com formação MSW ou LCSW trabalhavam todas no campo da saúde mental (n = 4) e da saúde e saúde mental LGBTQA+ e específica para pessoas transgênero (n = 3). Como nossas experiências vividas e nossas identidades influenciam nosso olhar e nossa representação, pareceu-nos importante registrar que essas pessoas eram brancas (n = 3), cisgênero (n = 2), transgênero ou não binárias (n = 2), negras (n = 1), LGBTQA+ (n = 3) e com filhos (n = 1). Uma das pessoas coautoras entrevistou díades e trabalhou com a PP na análise dos dados deste artigo. Embora nossos olhares e experiências coletivos tenham dado forma às nossas perguntas de pesquisa, foram nossos métodos que orientaram a maneira como compreendemos e analisamos os dados das entrevistas. Também mantivemos uma trilha de auditoria para dar transparência a esses métodos de pesquisa (Creswell, 2013). Para isso, a PP documentou cada etapa do processo de entrevista, manteve notas de campo detalhadas e garantiu o armazenamento seguro das entrevistas transcritas e dos memorandos analíticos. A equipe de pesquisa se reuniu regularmente para garantir o rigor analítico do nosso processo de análise diádica e discutiu como os resultados se relacionavam com o conhecimento teórico e substantivo.
As famílias que participaram deste estudo viviam no sul da Califórnia. Os 20 pais e mães da presente análise já tinham dado consentimento para os cuidados de afirmação de gênero dos filhos, incluindo bloqueadores hormonais e/ou hormônios de afirmação de gênero. A maioria dos pais e mães entrevistados para este estudo se identificava como branca (65%, n = 13), e eram sobretudo mães (80%, n = 16). Entre adolescentes ATNB, 60% tinham identidade transmasculina (n = 12), e 15% (n = 3) tinham identidade não binária (ver a Tabela 1). As pessoas participantes destacaram a importância dos cuidados de saúde mental e do sistema educacional como componentes importantes dos sistemas de apoio de adolescentes ATNB e de seus pais. Embora a maioria frequentasse uma escola pública tradicional (n = 11) ou uma escola particular (n = 2), cinco participantes estavam em programas de ensino domiciliar ou de estudo independente, e dois frequentavam escolas terapêuticas fora do estado. Metade das pessoas adolescentes entrevistadas (n = 10) tinha um IEP ou um plano 504, com adaptações para a aprendizagem e para dificuldades comportamentais ou emocionais. Quanto à saúde mental, nove (45%) relataram uma tentativa de suicídio anterior, e 5 dessas pessoas relataram internações psiquiátricas anteriores. Em nossa amostra, 8 das 9 pessoas que relataram tentativa de suicídio anterior tinham se revelado aos pais depois da puberdade, e todas as tentativas de suicídio relatadas ocorreram antes das intervenções de afirmação de gênero (isto é, bloqueadores de puberdade ou hormônios). As necessidades educacionais e de saúde mental de adolescentes trans são cada vez mais complexas, e a atenção à saúde mental na adolescência é essencial, mas foge ao escopo deste artigo. Ainda assim, nunca é demais ressaltar a importância de situar o apoio parental num contexto mais amplo de apoio escolar, saúde mental e clima social.
Tabela 1 — Características demográficas das pessoas participantes
Frequências, n (%).
No contexto deste estudo, a revelação e a puberdade foram dois marcos importantes vividos pelas díades. Em cinco famílias, os pais sabiam que a criança era trans desde o terceiro ano, e as cinco eram meninas trans. As outras 15 famílias incluíam adolescentes que revelaram aos pais ser trans durante a puberdade. O apoio parental aconteceu em meio a normas sociais e em sistemas comunitários e familiares que em geral não ofereciam um caminho para compreender a variância de gênero na adolescência como algo comum. Identificamos dois temas que abrangem a maneira como adolescentes ATNB e seus pais viveram os processos de apoio parental à afirmação de gênero na adolescência (ver a Tabela 2): (1) a distância de conhecimento e de prontidão entre pais e adolescentes; e (2) os pais se ajustam (em silêncio) ao processo de afirmação da identidade de gênero dos filhos enquanto se tornam (super)apoiadores.
Tabela 2 — Temas e subtemas das entrevistas diádicas com adolescentes (n = 20) e pais (n = 20)
A distância de conhecimento e de prontidão se refere à diferença entre pais e adolescentes, em conhecimento sobre questões trans e em prontidão para a afirmação de gênero da pessoa adolescente, depois que ela revelou aos pais ser trans. O tempo decorrido entre a revelação da identidade de gênero e a puberdade fez diferença para essa distância de conhecimento e de prontidão e, em última análise, para os processos de apoio parental. Neste tema, identificamos os seguintes subtemas: (a) “Ninguém te dá o manual para isso”: pais tentando entender e correr atrás; (b) “Eu estava simplesmente cansada de ouvir todo mundo”: os pais recorrem a fontes familiares de conhecimento e de apoio; e (c) “As pessoas estavam percebendo, e estavam fazendo alguma coisa”: as vantagens de ter tempo.
Nas díades em que a pessoa adolescente se revelou durante ou depois da puberdade, pais e adolescentes ATNB costumavam partir de pontos diferentes quanto à afirmação de gênero. Quando a revelação tinha ocorrido na primeira infância, antes da puberdade, as díades tendiam a avançar em uníssono na afirmação de gênero. As pessoas adolescentes que revelaram aos pais ser trans durante a adolescência tinham passado meses, às vezes anos, antes da revelação explorando sua identidade em termos de gênero e sexualidade, adquirindo conhecimento específico sobre questões trans e se conectando on-line a narrativas trans familiares. No momento da revelação, os pais não estavam preparados, sentiam-se confusos e com medo, esperavam rejeição de outros membros da família e da comunidade e sentiam falta de conhecimento sobre um caminho desconhecido para apoiar o filho ou a filha.
A adolescente G, uma jovem mulher trans de 16 anos, se assumiu para a mãe depois que seu corpo começou a mudar na puberdade. A mãe da adolescente G relacionava a disforia da filha ao desenvolvimento do corpo na puberdade masculina e ao estresse de esperar a mudança da Costa Leste para a Costa Oeste, que lhe permitiria dar à filha a oportunidade de fazer a transição. Aqui, a mãe usava pronomes masculinos para se referir à filha, o que talvez refletisse a complexidade de suas percepções e de seu apego ao papel de filho que lhe fora designado e ao papel, agora afirmado, de filha. “Eu disse a ele para ter paciência e que a gente precisava conversar, e eu falei: ‘Sabe, a gente pode ir para outro lugar, se mudar para um estado totalmente novo, e você poderia começar a viver lá como mulher. Você poderia simplesmente começar a sua vida lá como menina.’”
A adolescente G se lembrava da urgência que sentia de avançar na afirmação de gênero e nos cuidados médicos, e do sofrimento ligado à espera.
Mesmo tendo me assumido agora, sinto que foi tarde demais. Porque eu queria fazer isso antes da puberdade. Eu não queria, tipo, ficar com a minha voz e pés grandes, braços grandes, tipo, eu não queria nada disso. Mas aí, conforme fui crescendo, fiquei mais alta, cresci, eu não queria crescer.
O adolescente A, um jovem homem trans de 15 anos, se revelou aos pais depois que seu corpo começou a mudar com a puberdade feminina. Faltava à mãe do adolescente A um roteiro familiar sobre como apoiar a afirmação de gênero do filho.
Ninguém te dá o manual para isso, mas tudo o que eu sei é que eu quero que meu filho seja feliz, que é o que qualquer mãe ou pai quer. Eu só quero um filho vivo e feliz. E, sabe, eu prefiro mil vezes ter um [adolescente A] feliz e vivo do que um [nome de nascimento do adolescente] morto. Isso foi o que mais pesou para mim, esse tem sido o meu lema a cada próximo passo. E não que eu seja contra, mas independentemente do que eu sinta em relação à perda.
Essa mãe se perguntava como apoiar o filho em meio a medos, sentimentos de perda e falta de conhecimento sobre questões trans e, ao mesmo tempo, sentia a urgência de aliviar a disforia do filho e de protegê-lo do risco de suicídio. Antes da revelação, o adolescente A tinha adquirido conhecimento sobre questões trans e se sentia pronto para a transição; a distância de conhecimento e de prontidão era, portanto, marcante.
É, eu já tinha pesquisado sobre isso antes, e quando eu finalmente aceitei, quer dizer, não aceitei com os meus pais, mas nesse ponto eu fiquei surpreso de eles não saberem dessas coisas. Porque eu tinha passado tanto tempo sozinho on-line que achava que todo mundo sabia disso. (Adolescente A)
A mãe do adolescente E (14 anos, agênero) contou como a urgência do filho em ser afirmado aumentou ainda mais a incerteza da mãe e do pai. Eles se isolavam dos sistemas de apoio ao mesmo tempo que tentavam usar novos pronomes e pensavam na decisão de começar os hormônios. O sofrimento inicial dos dois como pais era agravado, em parte, pela falta de conhecimento sobre os cuidados de afirmação de gênero, pela própria experiência de perda e pelo receio de que os hormônios fossem um erro. Como a mãe da adolescente G, a mãe do adolescente E usava o pronome “ela”, o que talvez refletisse seu apego complexo a dois gêneros que, para ela, representavam seu filho:
Ela corrigia a gente o tempo todo. E eu dizia: “Tá bom, a gente está tentando, está tentando, tentando.” E era muito difícil. E claro, você não conta para ninguém. Quer dizer, [nome do marido] e eu passamos por uns três ou quatro meses de depressão total, nós dois, sem falar com ninguém. E todo mundo só repetia que [leva] tempo e que vocês têm apoio. E aí a gente chegou à conclusão de que precisava parar de pensar em nós, que não era sobre nós. Era sobre manter nosso filho seguro e vivo.
Sem um roteiro familiar que os ajudasse a entender e aceitar o percurso de gênero do filho, foi, afinal, o medo pela segurança dele que levou esses pais a dar o primeiro passo rumo à afirmação desse percurso. Ao mesmo tempo, tinham fortes preocupações com a ideia de o filho começar a testosterona. Embora tivessem consentido com os bloqueadores para impedir a puberdade de avançar, no momento da entrevista, quem respondeu pelos pais de E se perguntava se a testosterona era o próximo passo certo na vida do filho.
Sabe, a gente vai apoiá-lo no que for, 100%. Mas, para nós, a gente está um pouco nervoso de se apressar, porque ele diz: “Quando a gente pode ver o Dr. [nome do médico especialista em gênero] de novo?” e “Quando eu posso tomar a T? Quando a gente pode começar? Quando a gente pode começar?” E a gente diz: “Calma aí.” E aí ele começa a ficar deprimido quando a gente não sai acelerando as coisas. Porque, como pais, a gente precisa ter certeza, porque se isso estiver errado, por qualquer motivo, não dá para reverter a testosterona. E aí você fica com a voz grossa e pelo no rosto. É uma decisão grande. E eu sei que ele está deprimido e que a disforia é mesmo horrível, é terrível, e a gente não pode se deixar, tipo, empurrar como pais, a gente tem que ser responsável. É muito difícil.
O adolescente E sentiu primeiro alívio quando sua puberdade feminina parou de avançar e, ao mesmo tempo, relacionava o atraso para começar a testosterona, e portanto a puberdade masculina, a um sofrimento crescente.
Eu esperava que a minha transição fosse bem mais rápida e que eu começasse a T bem mais cedo. Porque recentemente eu comecei a lembrar que, tipo, quando a gente teve as duas primeiras consultas com o Dr. [nome do médico especialista em gênero], sobre bloqueadores, testosterona e tudo isso, a gente tinha planejado no começo iniciar os bloqueadores e uma dose bem pequena de testosterona. Mas aí a gente decidiu não fazer isso. Foi meio que meus pais me convencendo a não começar a testosterona imediatamente e sim daqui a um ano. Mas eu não aguento ficar sem testosterona por muito tempo. Me deixa muito mal não estar passando por nada disso.
Os pais contaram ter buscado apoio em sua comunidade de confiança, família e amizades, para elaborar suas decisões e suas experiências diante da afirmação de gênero social e médica dos filhos. Alguns pais, porém, se sentiram rejeitados, julgados e isolados dentro de uma rede próxima de apoio cujo suposto conhecimento não se traduzia em empatia nem em abertura aos processos de afirmação de gênero social e médica de adolescentes ATNB.
A mãe do adolescente M (um jovem homem trans de 15 anos) criava o filho sozinha e descrevia seu círculo de amizades como informado, mas pouco compreensivo.
Eu ouço isso de amigos de longa data, sabe. Quer dizer, as pessoas de quem eu sou amiga são bem informadas, mas ninguém entende de verdade. Elas dizem: “Você tem certeza?” A mastectomia assusta todo mundo, tipo: “Você está brincando?” Tipo, eu ouço: “É piada?” Sabe, elas não entendem que é uma questão de saúde, não uma questão social, isso fica tão espremido na parte do estigma social que perde o que realmente é. Eu ouço muita coisa negativa: “Você é uma mãe horrível.”
O filho dela, o adolescente M, de 15 anos, que se identificava como um cara trans, entendia o impacto da cirurgia e da afirmação de gênero sobre seu bem-estar. Ele também reconhecia que, embora a cirurgia não fosse curar a disforia, faria uma diferença significativa e positiva para o seu bem-estar.
Acho que eu sempre vou ter disforia com algumas coisas. Tipo a minha altura, e com o tempo eu vou ter cicatrizes, mas não acho que vai ser insuportável, vai ser só uma coisa com que eu convivo. Não acho que vai ser incapacitante como foi no passado. Vai ficar tudo bem, sabe. A pessoa que me atende na terapia diz que ela [a disforia] vai sumir. Eu não acredito nisso. Vai só diminuir.
A mãe do adolescente M teve de defender as intervenções médicas que buscou para garantir a saúde do filho e aliviar seu sofrimento. Da mesma forma, a mãe da adolescente G se perguntava como apoiar a afirmação de gênero da filha sem um roteiro familiar a seguir. A mãe da adolescente G se identificava como lésbica, criou os filhos sozinha e muito jovem, numa família porto-riquenha com fortes laços entre as gerações.
E a minha mãe é tão preconceituosa, sabe. “Tá, você é lésbica, tudo bem. E se ele tivesse sido só um gay normal…”, como ela diz: “Por que ele não pode ser um gay normal, sabe, só um gay normal que se veste como homem mas gosta de homens?” E eu digo: “Não é o tipo de gay que você quer que ele seja. Essa não é a vida dele.” [A mãe da mãe dizia:] “Ele é novo demais, não sabe o que quer. Adolescente não sabe o que quer ser. Espera ele ficar mais velho, ele pode tomar essa decisão aos 18, quando for adulto e sair de casa.” Eu estava simplesmente cansada de ouvir todo mundo. Porque, naquele ponto, eu tinha tantos arrependimentos. Eu penso: nossa, se eu tivesse me ouvido, ele poderia ter feito a transição mais cedo e não teria tido que passar por essa fase de odiar o próprio corpo, e talvez ele não tivesse todos esses traços masculinos que ele odeia em si. Sabe, eu me arrependo. Eu me arrependo de não ter pensado por mim mesma.
Ela recorreu a uma fonte de apoio familiar, a própria mãe, que rejeitava a ideia de que a neta fosse trans e tivesse idade suficiente para saber do que precisava. Sem acesso, na família e na comunidade, a conhecimento e apoio afirmativos para pessoas trans, essa mãe não tinha clareza sobre que passos dar para apoiar a filha. Por fim, ela atravessou o país para oferecer à filha um caminho para a transição. A adolescente G sentia que sua afirmação de gênero tinha acontecido tarde demais e, ao mesmo tempo, entendia a pressão que a mãe sofreu no processo de apoio.
Eu acho que não devia ser culpa dela, porque eu não… não era trabalho dela fazer isso, sabe? Mas eu sentia que… ai, meu Deus, eu vou chorar, mas [chora]… eu só não quero fazer ela sentir que a culpa foi dela, eu ter feito isso tão tarde. […] Ela teve filhos muito nova, teve que largar a escola, teve que trabalhar em três empregos. E eu sentia que não era culpa dela.
Enquanto alguns sistemas de apoio criavam obstáculos ao apoio parental, outros, como as próprias pessoas adolescentes ATNB, ofereciam um roteiro para esse apoio. A pessoa adolescente I era não binária, tinha 16 anos e usava os pronomes they/them durante a entrevista, mas os pronomes he/him em público e na família. I cresceu nos Estados Unidos; sua mãe cresceu em outro país, e seu pai, que cresceu nos Estados Unidos, tinha morrido três anos antes desta entrevista. A prontidão da mãe para consentir com a testosterona era condicionada pela falta de informações facilmente acessíveis e culturalmente significativas sobre ser transgênero e sobre os processos de afirmação de gênero.
Então, doutor prepara para a testosterona. Acho que em outubro fomos segunda vez e acho que [nome: médico] disse: “Então, está pronta para começar?” E eu não estava. Doutor explicou que como ele é menor de idade, eu tenho que assinar. “Então é quando você estiver pronta, pode começar, e eu acho que é saudável.” E eu disse: “Não consigo fazer isso agora, desta vez.” Em novembro, eu estava pronta, mas é só que, uma coisa [a testosterona] que ele injeta e, hã, isso só me assusta. Não sei. É um remédio, mas porque muda o corpo dele, não sei. Eu disse para a pessoa que me atende na terapia, tipo: “Estou quase lá, mas falta mais 10%.” Não sei, talvez se meu marido estivesse aqui, dizendo: “Vamos.” Eu conversei com minha família e meus amigos, mas acho que eles não entendem. (Mãe I)
A pessoa adolescente I temia que a hesitação e a confusão da mãe aumentassem se ela soubesse que seu filho era não binário. Foi performando um gênero masculino binário que I guiou a mãe até o consentimento para a testosterona.
É só que, tipo, eu sendo genderqueer, tipo, enquanto ela tentava entender o que era ser trans e, tipo, por que eu me sinto um cara, eu não conto muito essas coisas para ela porque não quero confundir ela ainda mais. Então, antes de começar a T, eu não queria contar para ela que eu me sentia, tipo, entre os dois lados do binário, porque é tipo, ah, e se isso fizer ela se perguntar: “Será que a T é um bom caminho para você?”
Enquanto se perguntava como apoiar melhor o filho, essa mãe lidava com conselhos conflitantes vindos de fontes de confiança díspares: (a) a equipe médica, que tinha conhecimento específico sobre questões trans e achava que o filho estava pronto e que era seguro; (b) amizades e familiares, que representavam sua cultura mas não eram percebidos como fontes informadas sobre questões trans nem como apoio nesse campo; e (c) a pessoa adolescente I, que estava bem informada e cuja suicidalidade e performance de gênero binária levaram a mãe a apoiar sua afirmação de gênero.
O adolescente D, um jovem homem trans de 15 anos, esperava começar imediatamente a testosterona assim que revelasse à mãe que era trans, mas a mãe não estava pronta para essa etapa do percurso de gênero dele.
No começo ela não estava totalmente de acordo com a ideia. Tipo, ela meio que fez: “Ah, espera, o quê? A gente vai pesquisar sobre isso.” Foi frustrante porque eu só queria as coisas imediatas… tipo, eu achava que ia contar para os meus pais e que no dia seguinte ia tomar minha primeira injeção de testosterona.
Embora ele tivesse clareza sobre o próprio gênero, a mãe lutava com a ambiguidade de ter um filho transgênero. Sem um caminho familiar, a mãe do adolescente D se apoiou no processo do filho para se deixar guiar rumo à aceitação.
Uma das coisas que me marcaram quando eu meio que soube que era verdade foi o choro dele, e ele disse: “Se eu pudesse escolher, eu não seria transgênero.” E quando eu ouvi isso e comecei a pensar, eu pensei: ele tem razão, porque no começo eu achava que ele estava fazendo uma escolha. E é isso que eu vi na comunidade e conversando com outras pessoas sobre essas coisas: elas acham que estão fazendo escolhas. Mas não é uma escolha.
As famílias cuja criança era reconhecida como transgênero desde a primeira infância (n = 5) puderam se ajustar aos poucos a criar uma criança trans antes da adolescência. Três das cinco adolescentes (B, N e R) primeiro saíram do bairro ou da comunidade para praticar com segurança a expressão de gênero fora de casa, antes de se revelar fora da família. Antes de a adolescente N se assumir na escola, a mãe se lembrava das férias como um momento para ela praticar seu gênero.
Acho que fomos para [nome de uma cidade dos EUA]. Eu disse: “Se a gente for para [nome de uma cidade dos EUA], você quer ir como menina ou como menino?” Ela disse: “Como menina.” Então, tipo: “Tá, você não tem roupa de menina. Vamos comprar só o suficiente para passar o fim de semana.” E a gente comprou só umas duas roupas, e ela não levou nada de menino para o fim de semana. Ela foi menina o fim de semana inteiro. E depois disso, sempre que ela estava em casa, ela vestia essas roupas.
A adolescente N não mencionou as férias e falou, em vez disso, de sua expressão de gênero precoce pelas histórias contadas pelos pais.
Com certeza foi antes do que eu lembro. Meus pais também me contaram que eu usava she/her [como pronomes] desde os 5 ou 6 [anos], mas eu comecei a agir como menina aos 3. Eu usava vestidos, e minha mãe diz que eu pegava os lenços dela, os lenços bonitos dela, e brincava com eles.
Embora a mãe se lembrasse da época em que ela vivia no gênero masculino designado, a adolescente N não se lembrava conscientemente de sua transição social, porque sempre se viu, e guardava lembranças de si, como menina. Já a adolescente R se lembrava das férias como um momento em que expressava livremente seu gênero e em que os pais treinavam o ajustamento ao desenvolvimento da identidade de gênero da filha.
No verão entre o primeiro e o segundo ano, meus pais, eles me disseram que em [nome da cidade de férias] eu podia ser quem eu quisesse, e que, fosse quem fosse, a gente podia decidir e pensar sobre isso na volta. E minha mãe me deixou usar vestidos. E aí, no segundo ano, foi um recomeço.
O pai da adolescente R contou como viveu a primeira afirmação de gênero da filha e os fatores que contribuíram para seus primeiros processos de apoio como pai.
Ela chegou da escola [no inverno do primeiro ano] chateada e chorando, sentou no sofá e disse: ‘Eu simplesmente não sei ser menino.’ E aquilo foi muito forte. Foi de partir o coração vê-la tão abalada. Ela estava tão transtornada. Naquela época, a gente não sabia o que era ser transgênero. Aí a gente pesquisou na internet e tal e entrou em contato com [nome da pessoa terapeuta especialista em gênero]. E o que [nome da pessoa terapeuta] nos disse foi que, se vocês disserem a ela que ela não pode usar roupas de menina e ser menina, estão dizendo a ela que quem ela é é motivo de vergonha. Então, quando acabou o primeiro ano, a gente ia para [nome de um país], e perguntamos se ela gostaria de experimentar ser menina, e começamos a perguntar se ela se sentia mais menina, e explicamos que existia essa coisa de ser transgênero.
Depois da revelação, a mãe da adolescente B se lembrava de que a pessoa terapeuta da filha sugeriu que a adolescente B praticasse sua expressão de gênero feminina fora de casa, em lugares desconhecidos, como um caminho para, com o tempo, expressar seu gênero em ambientes sociais mais familiares, como a escola.
Aí [a pessoa terapeuta] também sugeriu, sabe: “[Adolescente B], se você quiser, onde você se sentiria à vontade? Eu sei que não no seu bairro, mas onde?” E [a adolescente B] disse: “Bom, talvez se for, tipo, a 2 h daqui.” Então a gente começou, num sábado, a dirigir 2 h.
A adolescente B não falou das longas viagens para praticar ser menina, mas descreveu como expressava ser menina dentro da construção social de como os outros percebiam seu gênero: “Eu lembro que ia ao salão de beleza e começavam a me julgar porque eu era um menino e queria as unhas pintadas de rosa, mas eu sempre fazia os pés porque ninguém ia ver.”
A mãe da adolescente Q sabia que a filha era menina desde os 3 anos. Quando a adolescente Q tinha 6 anos, ela se lembrava de consultas com sua profissional de saúde e com uma pessoa terapeuta para lidar com a ansiedade e com o processo de afirmação de gênero.
Eu ficava ansiosa quando ia para a escola pública. Eu era sempre muito ansiosa. Na verdade, minha mãe queria que eu fizesse terapia primeiro. Mas, hã, se eu quisesse parar agora, não poderia, porque agora [nome: médico especialista em pessoas transgênero], enquanto eu estiver com o bloqueador no braço, exige que eu continue a terapia.
Quando a adolescente Q tinha seis anos, a mãe começou sua própria transição como mãe, o que implicou retirar tudo o que lembrava a filha como menino.
A gente fez a transição dela literalmente da noite para o dia. Tudo que era especificamente de menino a gente guardou em caixas, tudo que era especificamente de menino, a gente tirou todas as fotos dela, isso foi muito difícil para mim, dela com roupa de menino, e guardou tudo em caixas. Eu ainda deixo umas duas escondidas por aí, mas em nenhum lugar onde alguém possa ver. Eu tenho uma “caixa de menino” que eu guardo, com coisas de menino dentro. A outra coisa que foi difícil foram os pronomes. A gente tinha um “pote do gênero” para quando a gente errava, e ela ficava com o dinheiro do pote do gênero.
Essa família iniciou rapidamente uma transição social e buscou uma pessoa terapeuta e uma profissional de saúde anos antes de a adolescente Q começar o bloqueador de puberdade, o que mostra a importância do tempo para evitar o agravamento do sofrimento e apoiar cedo a afirmação de gênero. Nesse período, a mãe montou em segredo uma “caixa de menino” de lembranças para ajudá-la a se ajustar à transição e a se lembrar dos primeiros anos da filha, quando ela era vista como menino.
A adolescente B, que falava abertamente aos pais que era menina desde o segundo ano, e sua mãe destacaram a importância de estar em contato com a profissional de saúde para se preparar para a puberdade. “Eu tinha 11 anos. E eu não mostrava sinal de nada. Eles só não queriam que nada começasse, porque queriam ver se isso funcionaria melhor. E funcionou. Hã, porque não começou absolutamente nada” (adolescente B). Enquanto a adolescente B destacava a importância do acesso precoce aos cuidados para impedir sua puberdade masculina, a mãe se lembrava do sofrimento extremo ligado à expectativa da puberdade masculina e da importância de estar conectada a cuidados de afirmação de gênero para ter apoio enquanto se preparavam para os bloqueadores de puberdade.
Tipo, não dá para ter o bloqueador antes do estágio 2 de Tanner [uma escala do desenvolvimento físico]. Então tinha crise o tempo todo, porque aparecia um pelo e a gente corria para [nome da médica especialista em saúde de pessoas transgênero], e ela dizia que ainda não era a hora. Foi a coisa mais difícil. Eu só fico surpresa que ela não tenha sido internada. Quer dizer, ela gritava. Ela quebrava as coisas. Ela berrava: “Me leva para o hospital!” Ela estava num sofrimento extremo.
Quando a adolescente N falou da puberdade, deixou claro que sempre se viu como menina, o que tornava difícil para ela falar de puberdade masculina ou de transição. Durante a entrevista, perguntaram à adolescente N: “No período antes de você receber os bloqueadores, o que você pensava sobre a puberdade? Que pensamentos vinham quando você pensava no seu corpo mudando daquele jeito?” A adolescente N respondeu: “Eu só penso que sou uma menina, e quero que as coisas sejam do jeito que eu quero.” Ao mesmo tempo, a mãe descrevia o valor de ter tido anos para se ajustar emocionalmente e adquirir conhecimento, o que lhes permitiu antecipar a puberdade e planejar uma transição médica.
Se eu olho para aquela outra criança que agora está fazendo isso na puberdade, eu penso: “Meu Deus. Graças a Deus a gente fez isso aos 5. Graças a Deus a gente teve tempo suficiente.” Como teria sido se, aos 14, de repente, eu estivesse preenchendo a papelada, tipo, na hora? Tipo, todos nós tivemos anos e anos de vida como menina e só então a papelada. E depois os bloqueadores de puberdade. Houve muito tempo para todo mundo se acostumar.
A adolescente Q, acompanhada tanto em terapia quanto por uma profissional de saúde especializada em questões trans desde os 6 anos, sentia um sofrimento ligado à expectativa da puberdade masculina e reconhecia a importância de ter planejado com a profissional os bloqueadores de puberdade para interromper a puberdade masculina.
Pensar na puberdade dava medo, mas eu fui à pessoa que cuida da minha saúde, e ela disse que era hora de pôr o bloqueador e impedir que os hormônios masculinos chegassem. Foi muito bom. Eu fiquei feliz porque tudo estava começando a acontecer, e as pessoas estavam percebendo, e estavam fazendo alguma coisa.
Todos os pais e mães do estudo tiveram de lidar com barreiras familiares e institucionais aos processos de afirmação de gênero dos filhos. Identificamos os seguintes subtemas, que representam essas experiências: (a) “Vira uma vez que eu viro de novo”: um apoio parental feroz e nos bastidores; (b) “É um processo de luto para mim mesma”: o apoio parental atravessado pelo luto; (c) “Eu ainda queria alguém que se identificasse comigo”: os grupos de apoio foram decisivos no percurso como pais; e (d) “O essencial” do apoio parental.
Muitos pais tomaram medidas para defender e proteger os filhos num mundo que não foi estruturado para que pessoas trans prosperem. A mãe do adolescente P, um jovem homem trans de 14 anos, falou de como era emocionalmente difícil deixar o filho circular por espaços públicos como banheiros e de como ela oferecia apoio nos bastidores para garantir a segurança dele.
Uma vez ele foi ao banheiro no [nome de um supermercado], e eu fiquei por perto, não que eu estivesse rondando, mas só… estava demorando uma eternidade, tipo, 15 min tinham passado e ele não saía. Eu mando mensagem para [nome do pai]: “Eu entro lá?” Tipo, eu estou prestes a arrombar a porta e vendo todos esses homens entrando e saindo. E eu penso: que diabos? Tão ansiosa. Eu estava literalmente prestes a arrombar a porta e aí ele me manda mensagem: “Desculpa, a fila está grande”, então eu penso: tá, tudo bem, nada de mais [respira fundo, suspira e ri], estou só aqui, sabe.
Alguns pais deram um ultimato a membros da família e instituíram cedo normas e regras familiares para garantir que o filho ou a filha se sentisse apoiado e afirmado. Os pais eram claros sobre esse limite, e alguns “traçaram uma linha na areia” em matéria de apoio e afirmação. A mãe do adolescente H (um jovem homem trans de 13 anos) descreveu a discriminação e o estigma social que o irmão e a cunhada dirigiram a ela por causa do filho e de sua maneira de criá-lo.
Minha cunhada e eu almoçamos juntas em agosto. Foram 2 h dela me pregando sobre como o que eu estou fazendo está prejudicando meu filho, que isso é errado, e o porquê, e que existe um guia para a vida e ele se chama Bíblia. E, sabe, ela disse: “O que isso significa daqui para a frente? Tipo, a gente não pode mais ficar junto?” Eu disse: “Bom, eu não vou colocar meu filho numa sala cheia de gente onde ele não vai se sentir aceito.” […] Então, o resto da minha família só nos apoiou, a nós e a [adolescente H], e eles não convidam meu irmão, minha cunhada e os filhos deles para nenhuma festa nem nada. É como se todo mundo tivesse traçado uma linha na areia.
O trabalho emocional da mãe do adolescente H para esconder a rejeição familiar representava um processo de apoio oculto para proteger o filho. Quando lhe pediram que falasse mais do apoio da mãe, ele disse: “Eu não gosto muito de falar disso [de ser trans]. Eu não preciso muito de apoio.” Para o adolescente H, o apoio da mãe era importante, mas existia no contexto mais amplo, e talvez mais saliente e mais marcante, da rejeição do pai: “Minha mãe é muito compreensiva. E meu pai simplesmente não liga… quando eu tinha, tipo, 12 anos, foi quando eu disse: ‘Ei, pai, acho que eu sou um cara.’ E ele fez: ah, isso é idiota.” Quando lhe perguntaram o que gostaria que fosse diferente, ele disse: “Que meu pai não estivesse na minha vida.”
A mãe da adolescente C (uma jovem mulher trans de 17 anos), que se revelou aos pais aos 16, foi quem apoiou principalmente, emocional e logisticamente, o início da afirmação de gênero da filha. Essa mãe traçou uma linha na areia com o pai, estabelecendo um limite que depois motivou o pai a apoiar a identidade de gênero da filha.
Eu disse a ele que, se ele não embarcasse nisso, eu ia deixá-lo. Hã, então a gente meio que sustentou essa tensão, porque ele não estava pronto para fazer as coisas de outro jeito. E aí o grupo de famílias [trans] seguinte chegou de novo, e eu não lembro por quê, mas eu não podia ir e disse: “Você tem que levá-la. E se você não entrar lá e não aparecer, tipo…” Não sei o que eu disse, mas, tipo, deixei claro que aquele seria um ponto de decisão importante para mim.
A falta de prontidão desse pai para apoiar a filha levou a mãe a ameaçar deixar o marido para que ele comparecesse a um grupo de apoio. Depois de revelar aos pais que “se travestia”, a adolescente C contou que o pai tentou primeiro se aproximar dela como homem: “E, na verdade, [o pai] fez muita coisa comigo para passar por cerimônias de iniciação masculina. Eu fazia parte de, tipo, grupos de meninos e fiz muito, tipo, trabalho para me tornar homem com ele.” Por fim, a adolescente C percebia os dois como apoiadores, o que talvez diga algo sobre os esforços da mãe, nos bastidores, para incentivar o apoio do pai.
Acho que me aceitar, hã, com meu gênero sendo diferente, foi na verdade muito fácil, porque tudo o que eles tinham que fazer era me apoiar a ser mais feliz. Hã, tipo, eles viam que tinha luz no meu rosto. Eles usaram os pronomes. Foi fácil, e eles sabiam do assunto, tinham se informado.
Já o adolescente F, um jovem homem trans de 13 anos, refletiu sobre o impacto de um dos pais que rejeitava.
Ele não é, tipo, uma parte muito grande da minha vida. Quer dizer, era para ser. Quer dizer, ele mora na mesma casa que eu, ele faz tudo por mim, na real, mas eu me sinto egoísta de dizer isso, mas eu não sinto que ele me apoia tanto assim. […] Às vezes eu escuto eles [meus pais] discutindo. É sobre mim. Tipo, especificamente sobre a minha transição. Tipo, meu pai diz: “Eu não acho que [o adolescente F] seja trans.” E minha mãe: “Mas ele disse várias vezes”, e ele: “Eu não acho…” […] ele não me vê como um cara. Então minha mãe e outros adultos dizem que é bem difícil perder uma menininha, que eu deveria entender isso. Mas eu não entendo mais.
A rejeição parental podia frustrar totalmente o processo de afirmação de gênero de adolescentes. A mãe do adolescente F usou seu conhecimento médico sobre puberdade e questões trans para criar um senso de urgência, de modo que o pai consentisse com os cuidados médicos de afirmação de gênero, mesmo que ele não conseguisse ver nem validar o gênero do filho.
Acho que ter um dos pais apoiando ajudou muito. Mas acho que é muito difícil para [o adolescente F]. Ele [o pai] é muito lento para se adaptar a situações novas. Acho que só a ideia, acho que ele tinha dúvidas. E acho que ele pensava que era só uma fase que a gente estava atravessando. Hã, não queria começar os bloqueadores nem a testosterona. Hã, e depois de conversar com [nome: médico especialista em pessoas transgênero] e de participar do grupo, sabe, eu disse: “Olha, a realidade é que [o adolescente F] começou a puberdade muito cedo, aos 9 anos, as placas de crescimento dele vão se fechar em breve, e se a gente não agir agora, isso pode ser prejudicial.” Ele [o pai] concordou, muito a contragosto.
A mãe do adolescente L (um jovem homem trans de 13 anos) previa assédio na escola pública de anos finais do ensino fundamental do filho, e esse medo a levou a consolidar o apoio cedo.
Eu estava prevendo: “Aqui está uma criança que não se encaixa na norma, será que ele vai sofrer bullying?” Aí, começando no sexto ano, que já são os anos finais do fundamental, a gente sabia da educação física e dos vestiários, e eu me reuni antes com a orientação escolar para garantir que ele tivesse outro lugar para trocar de roupa, porque eu sabia que ele não ia se sentir à vontade no vestiário feminino.
Quando lhe perguntaram sobre essa etapa da escola, o adolescente L descreveu a experiência com mais tranquilidade.
Foi tranquilo, foi ótimo. Não tive problema nenhum com isso. E tudo foi relativamente fácil. Os professores, muitos deles são muito legais. Hã, e tipo, a direção é muito legal. Os alunos, a maioria é legal e alguns são meio babacas. Mas eu sabia que os professores iam aceitar e os alunos simplesmente não ligavam, tipo, não era um problema.
Embora os pais possam ter pouco controle sobre um clima social de não aceitação, fizeram o que podiam para garantir adaptações. Outros pais, como a mãe da adolescente N, reconheciam que tanto a persistência dos filhos quanto seu apoio firme como pais tinham aberto o caminho para a afirmação de gênero dos filhos.
É realmente só tentar fazer o mundo ficar bem para [a adolescente N]. E todo mundo sempre dizia: “Mas e se ela destransicionar? E se ela não concordar? Outras crianças decidiram fazer isso.” Chega. Virar o mundo de novo. Vira uma vez que eu viro de novo. Eu vou fazer ficar tudo bem. Foi o melhor que eu pude por ela.
Alguns pais adotavam comportamentos de apoio e, ao mesmo tempo, tinham dificuldade com o próprio ajustamento. Para o adolescente O, de 15 anos e transmasculino, a aceitação ambígua representava a dicotomia entre o grande envolvimento dos pais em grupos de apoio e no ativismo comunitário e a dificuldade persistente deles em se ajustar e aceitar o filho como trans. O adolescente O falou da afinidade dos pais com os grupos de apoio a famílias e do apoio que sentia quando eles avançavam a seu lado rumo a uma transição médica. Ao mesmo tempo, continuava a se sentir invisível, pois percebia a mãe com dificuldade para lidar com “perder uma filha”.
Minha mãe foi meio difícil. Ela dizia: “Eu ainda estou de luto pela morte da minha filha”, e tá, vai ao enterro, volta. Tipo, eu dei tempo para eles e tudo, e minha mãe ainda fica sensível com isso. […] Eles são muito de grupo de apoio. Vão a todos.
O pai, por sua vez, falou do sofrimento que ele e a mãe do adolescente O viveram em relação ao fato de o filho ser trans. Os dois frequentavam regularmente grupos de apoio e, ao mesmo tempo, lutavam com a própria transnegatividade internalizada, o que criava barreiras à aceitação. No momento da revelação, o pai contou ter esperado um acúmulo de experiências estigmatizantes para eles e para o filho.
Acho que, para [a mãe do adolescente], foi um pouco mais profundo. Ela foi criada numa família católica bem devota, e acho que, no fundo, ela sabia que os pais dela não iam aceitar. Então havia vergonha envolvida. Havia esconder envolvido. Havia constrangimento envolvido. Havia a sensação de falta de aceitação. Quer dizer, eu poderia encher o quadro inteiro de adjetivos. Então, isso meio que te enche de medo, de que o nosso mundo inteiro vai virar de cabeça para baixo. E, se fosse assim, como, em nome de Deus, a gente ia atravessar isso?
O adolescente O via como os pais se beneficiavam pessoalmente do envolvimento nos grupos de apoio e, ao mesmo tempo, continuava a sentir a falta de conexão deles com ele como filho. Os pais do adolescente O muitas vezes escondiam do filho o estresse e as dificuldades para protegê-lo e apoiá-lo e, ao mesmo tempo, tornavam-se superativistas no grupo de apoio.
Para alguns pais, experiências de perda que se cruzavam ampliavam a vivência da perda. A mãe do adolescente D, que já tinha descrito o luto por ter perdido o filho, descreveu também seu vínculo frágil com a comunidade de fé e com os pares ao longo do percurso de afirmação de gênero do filho.
A gente ia regularmente à igreja, eles fizeram, hã, a catequese. Depois que ele se assumiu, ele me mostrou uma coisa sobre o papa Francisco, o que ele dizia diante de uma multidão, e ele disse: “Dá para acreditar que tem pais que deixam o filho escolher o gênero?” E ele me mostrou esse discurso e naquela hora eu pensei: ah. Então, a gente não vai muito à igreja. Eu ainda tenho minha fé, eu acredito que Deus é justo e bondoso. É só difícil quando você ouve isso. Eu quero estar do lado da criança. É isolador (chorando) porque ninguém sabe muito bem como é (chorando), e a igreja, e é tipo, tá, também não podem apoiar isso.
Muitas pessoas adolescentes deste estudo entendiam que o ajustamento parental era um fator do apoio e da aceitação que recebiam. A adolescente G falou da reação emocional da mãe ao olhar fotos da época em que ela era vista como menino: “Ela guarda isso para si. Sinto que ela guarda mais as emoções para si. Tipo, ela não expressa tanto para mim. Porque ela não quer me decepcionar.” A mãe descreveu seu ajustamento emocional ao processo de afirmação de gênero da filha:
“Eu só queria conversar com uma mãe que está passando por isso. E, claro, durante todo esse tempo, tem dias em que eu simplesmente chorava, porque, quer dizer, sim, eu aceito e sou aberta, mas ao mesmo tempo eu perdi meu filho [chorando], sabe.”
Da mesma forma, o adolescente A entendia que a mãe provavelmente continuava apegada à ideia de uma filha.
Sinto que minha família tem muito mais conexão com ela do que eu. Quer dizer, eu tenho algumas lembranças boas e tal. Meus pais se lembram de tudo isso [da infância dele], mas por causa da atitude e do papel de apoiadores, eles nunca tocariam nesse assunto.
A mãe do adolescente A apoiava as etapas do processo de afirmação de gênero do filho e, ao mesmo tempo, sentia um luto ligado à perda ambígua do sexo designado ao nascer. Além disso, embora os grupos de apoio oferecessem um espaço para se conectar com quem vivia situações parecidas e desenvolver um senso de comunidade e de orgulho, nem sempre eram um espaço em que os pais se sentiam seguros para falar do luto e de suas dúvidas.
Então, quando eu vou ao grupo de apoio, eu fico: “É, viva!” Mas, na intimidade [chora], eu guardo muita coisa, porque não quero que [o adolescente A] veja [chora] a luta que eu tenho. Não é por quem ele é, mas a perda de quem eu achava que ele era quando ele era [nome de nascimento da criança; chora]. Enfim, recentemente eu entendi, para mim mesma, que é luto. É um processo de luto para mim mesma. Mas é uma coisa que eu nunca vou contar para [o adolescente A], o quanto eu estou sofrendo com isso [chora].
Em geral, os pais não tinham acesso, em seu ambiente social, a outros pais com filhos trans; assim, a maioria das famílias sentia que ninguém se identificava com o que viviam. Embora alguns pais não vissem o grupo de apoio como lugar para questionar os processos de afirmação de gênero ou para viver o luto, muitos encontraram conforto nos grupos de pais de crianças e adolescentes trans. Ter acesso a um grupo de apoio com outros pais de filhos trans foi, para muitos, uma tábua de salvação. A mãe da adolescente B contou que a irmã aceitava a situação, mas que seu apoio parecia desconectado do que ela precisava.
Minha irmã tem cinco filhos, e quatro são meninos. [Ela dizia:] “Ai, meu Deus, ela vai ter quatro meninos para escolher, porque, sabe, eu vou obrigar todos eles a levá-la ao baile de formatura ou sei lá o quê, e vai ser ótimo. A gente vai tirar fotos, não se preocupa.” Parece uma pessoa cheia de empatia, mas para mim era a pior coisa que alguém podia dizer. Mas eu não podia dizer isso a ela, tipo: “Meu Deus, cala a boca. O seu consolo são os seus filhos, tipo, os primos dela?” Então eu não fui por aí, mas aonde eu podia ir era aos grupos de apoio. Eu fui ao [nome de um grupo de apoio a famílias]. Fui ao PFLAG. E só ouvir… talvez eu nem compartilhasse. Mas ouvir outros pais e saber que estavam passando pela mesma coisa. Porque ninguém que eu conhecia, sabe; ela é a única na escola, nenhuma família… ninguém sabe o que eu passo todo santo dia.
A mãe do adolescente P começou a procurar on-line assim que percebeu que o filho estava assumindo uma expressão de gênero masculina.
Quando eu vi a expressão exterior, tipo, totalmente masculina, foi aí que acendeu uma luz para mim. Entrei na internet e pesquisei no Google feito louca, e achei o genderspectrum.org, graças a Deus, e achei o [nome de um grupo de apoio a famílias de pessoas transgênero], e tipo, tá, existe um mundo inteiro aqui para nós.
Da mesma forma, o pai do adolescente O refletiu sobre a importância da informação no percurso deles como pais e descreveu, ao mesmo tempo, o ajustamento emocional ainda em curso dele e da esposa, e talvez uma vergonha persistente, apesar do que aprenderam sobre questões trans no grupo de apoio.
Medo. [Nome da mãe] usou a palavra “vergonha”. Muito. Eu não tenho vergonha disso. Não é algo que eu escolhi. Não acho que eu tenha que ter vergonha disso. Não tenho vergonha de meu filho ter nascido no corpo errado. Ninguém fez nada de errado, é só um incidente infeliz. Do qual a gente está só tentando ser produtivo e tirar o melhor proveito. Eu quero apoiar e, então, a gente começou a ir às reuniões do [nome de um grupo de apoio]. E eu nunca vou esquecer, a gente saiu dessa reunião e eu via que minha esposa estava muito emocionada. Paramos num sinal vermelho. E ela olhou para mim e disse: “Por favor, Deus, diga que esse não é o nosso caminho. Eu aceito qualquer coisa menos isso.” Então a gente simplesmente decidiu se envolver muito na comunidade transgênero […] e se informou bem rápido. Parece muito simples e não é, porque é muito enrolado, complicado e emocional. Mas, se você pensar no sentido mais amplo, é bem simples. Você só tem que apoiar seu filho quando está na presença dele.
Para o pai do adolescente O e a mãe do adolescente A, participar de um grupo de apoio ajudou a adquirir conhecimento e a aprender a apoiar a afirmação de gênero dos filhos; ainda assim, continuavam com dificuldade de se ajustar emocionalmente, de atravessar a perda ambígua e de lidar com a vergonha. A mãe do adolescente H criava o filho sozinha e encontrou em fontes formais de apoio, profissionais de saúde e outros pais de filhos trans, uma parte decisiva de seu percurso e de seu apoio como mãe.
Basta um pai ou uma mãe. Você só precisa encontrar uma pessoa que esteja nessa situação, e ela vai te dar todas as informações e todos os recursos de que você precisa. Hã, procurar on-line ajudou um pouco também. Hã, o grupo de apoio foi decisivo para todos nós. Hã, ter acesso a médicos. [Nome da médica especialista em pessoas transgênero] é fenomenal. Ela passou uma hora no telefone comigo na semana em que eu descobri tudo isso. E é uma pessoa muito ocupada. Ela passou uma hora no telefone me explicando tudo, foi incrível.
Para a maioria dos pais, o grupo de apoio trouxe validação e um caminho para apoiar o processo de afirmação de gênero dos filhos. Apesar do conhecimento adquirido nos grupos, alguns pais enfrentaram barreiras estruturais para acessá-los e se conectar dentro deles.
O olhar cultural da mãe do adolescente J é marcado pela criação que teve e por seu sistema de apoio, situado em outro país, fora dos EUA. Ela falou da dissonância entre as percepções e a pressão de sua própria comunidade cultural, que queria que ela esperasse o filho completar 18 anos, e as do grupo de apoio, que questionava por que ela esperaria até os 18 para começar os cuidados de afirmação de gênero.
Foi estressante. É, por um tempo. E, hã, pelo menos a minha família [reunião do grupo]. Porque a tia de [nome do adolescente] diz: “Por que você não espera até os 18, quando ele decide?” A gente já sabe que ele vai fazer 18, então, sabe, ir à reunião, e por que eu espero até os 18?
A mãe da adolescente G, que criava os filhos sozinha, não tinha inicialmente acesso a recursos de informação nem a outros pais de crianças transgênero em sua comunidade da Costa Leste, antes de se mudar para a Costa Oeste.
Quando ele começou a me contar as coisas, eu comecei a procurar grupos de apoio, tipo, para mim ou para ele, e programas, e não tinha nenhum. Isso foi no oitavo ano, quando ele começou a virar mais uma menina para mim. Era simplesmente esmagador, porque, mesmo que [nome da pessoa parceira] me apoiasse tanto, eu ainda queria alguém que se identificasse comigo. Acho que devia haver mais ajuda para os pais que passam por isso. Porque muitos pais estão sofrendo. Eu sofri muito porque estava sozinha.
Embora o pai da pessoa adolescente K achasse que os grupos de apoio tinham salvado sua vida, ele reconhecia as dificuldades das famílias que não tinham acesso a esse apoio.
E acho que, se você está numa cidade pequena ou longe do acesso a esse tipo de grupo, não consigo imaginar como é difícil não ter grupos assim. Dá para ler coisas on-line ou livros, mas ainda não é a mesma coisa que ter outras pessoas de verdade, porque o melhor é fazer uma pergunta e ter 30 pessoas ali que podem te responder.
Embora alguns pais continuassem em luto ou inseguros, ao fim das entrevistas todos disseram querer que os filhos fossem felizes, se sentissem seguros, desenvolvessem relações íntimas e construíssem uma vida para si. Os pais também admiravam os filhos e sentiam que a experiência de criar um filho ou filha transgênero os havia transformado. As mães de G e de P expressaram gratidão pelo próprio processo como mães e reafirmaram a importância de seu apoio aos filhos: “Eu com certeza sou mais compassiva. Foi ela que fez isso por mim. Sinceramente, eu levo a vida de um jeito tão diferente agora” (mãe G). “Eu só sou grata por termos vivido o que vivemos e por ele estar indo tão bem. Isso significa muito. É a coisa mais afirmadora para nós como pais, ver ele feliz, e então, esse é o essencial” (mãe P). As pessoas adolescentes refletiram sobre sua afirmação de gênero no contexto do apoio recebido dos pais. O adolescente L refletiu sobre o significado do apoio dos pais: “Acho que é bem importante saber que eu tive muito mais sorte do que a maioria das pessoas e que a minha transição foi bem mais tranquila porque meus pais aceitam, e eles conseguiram pressionar e conseguir tudo rápido, e acho que é a única coisa.”
O percurso de gênero de uma família é complexo, e diversos fatores interpessoais e estruturais concomitantes contribuem para o apoio parental. Entrevistamos as famílias nos primeiros 12 meses após o início dos bloqueadores e/ou hormônios. A maioria das díades, independentemente de quando os pais souberam que o filho ou a filha era trans, enfrentou um estresse proximal, ligado a expectativas negativas e ao estigma internalizado, e um estresse distal, ligado à discriminação, à rejeição (Goldbach e Gibbs, 2017; Meyer, 2003) e à não afirmação (Testa et al., 2015) na comunidade e nos sistemas de apoio social. Entrevistamos as famílias num momento singular, em que os direitos da comunidade transgênero e as políticas sociais estavam sendo explicitamente confrontados e revertidos, o que representava um clima comunitário poderoso, ruidoso e hostil, voltado contra pessoas transgênero (Jones, 2018). O trabalho de Jones, que examina os avanços transnacionais diante da reversão dos direitos civis de pessoas transgênero na era Trump e de grupos poderosos que demonizam os “outros” transgênero, constatou que essas narrativas contribuíram para um clima hostil à comunidade trans nos Estados Unidos (Jones, 2018), clima que hoje se concretiza em políticas legislativas que bloqueiam o acesso legal a cuidados de afirmação de gênero clinicamente necessários para crianças e adolescentes em todo o país. É importante notar que nossas entrevistas ocorreram num estado em que os direitos das pessoas trans são protegidos e, ainda assim, as famílias viveram estigma social, isolamento e barreiras ao apoio, à aceitação e aos cuidados. Adotar a lente do estresse de minoria ajudou a compreender a complexidade do apoio parental a adolescentes trans nesse cenário social. Nossos resultados estão, portanto, inseridos nesse contexto e trouxeram três pontos principais sobre a experiência singular do apoio parental a adolescentes ATNB. Primeiro, o tempo entre a revelação a um dos pais e a puberdade fez diferença para os processos de apoio e de ajustamento parentais. Segundo, para os pais que entraram no percurso de gênero dos filhos durante a adolescência, a perda ambígua afetou de modo particular o ajustamento e o apoio. Terceiro, faltava aos pais um roteiro familiar e afirmativo na família e na comunidade e, por isso, conectar-se a outros pais de filhos trans foi uma tábua de salvação. Esses pontos são desenvolvidos a seguir.
As famílias cujos filhos ATNB se revelaram na primeira infância percorreram durante anos seu percurso de gênero antes de qualquer intervenção médica, ao passo que outras famílias souberam que o filho ou a filha era trans e logo em seguida tiveram de tomar decisões sobre os processos de afirmação de gênero. O apoio parental refletia motores complexos e entrelaçados, que afetavam a distância de conhecimento e de prontidão dentro da díade. Os pais, independentemente de quando souberam que o filho ou a filha era trans, tiveram de dar sentido a dois roteiros ao decidir como e quando apoiar a criança ou adolescente ATNB: (1) um mapa afirmativo trans, vindo do filho ou da filha e da equipe de saúde ou da rede social trans, que colocava a afirmação de gênero no centro, e (2) um roteiro cisgênero dominante, o da família e da comunidade, em que o percurso de gênero [trans] era invisível. Para as pessoas adolescentes que se assumiram na infância, antes da puberdade, o processo de afirmação de gênero dentro da díade em geral ocorria em uníssono, com os pais trabalhando ao lado dos filhos para apoiar sua afirmação de gênero. Uma pesquisa anterior, baseada em entrevistas com cinco mães de meninas transgênero de 8 a 11 anos, constatou que as meninas tiveram tempo de afirmar intencionalmente seu gênero em múltiplos contextos sociais antes da puberdade (Kuvalanka et al., 2014). Isso incluía praticar o gênero em casa, fazer viagens para praticar a expressão de gênero em público, deixar o cabelo crescer para parecer mais feminina segundo os estereótipos, mudar de nome e usar roupas femininas (Kuvalanka et al., 2014). Segundo a pesquisa de Kuvalanka et al., os pais tiveram tempo, durante a primeira infância dos filhos, de adquirir conhecimento e de se ajustar a serem pais de uma criança trans pequena.
Embora todas as pessoas adolescentes ATNB do presente estudo tenham enfrentado a puberdade associada ao gênero designado, aquelas reconhecidas como transgênero na infância entraram na puberdade vivendo havia anos no gênero afirmado. Essa afirmação de gênero precoce, antes da puberdade, deu aos pais a oportunidade de desenvolver consciência e conhecimento sobre questões trans, reunir recursos, construir sua identidade de pais de uma criança trans e se conectar com outros pais e com recursos de saúde e de saúde mental, para preparar intencionalmente as intervenções médicas ligadas ao gênero quando o filho ou a filha estivesse pronto. Para além da puberdade, esses pais viam e compreendiam os filhos como trans desde a primeira infância e, por isso, não se perguntavam se o gênero dos filhos era real quando tomavam decisões para apoiar os passos seguintes do percurso. Muitos pais que compreenderam e aceitaram na primeira infância que o filho ou a filha era trans contrapunham claramente esse processo de afirmação de gênero mais longo, e o vínculo precoce com cuidados e apoio, à situação de outras famílias cujos filhos se assumiram durante ou depois da puberdade.
As díades em que a pessoa adolescente revelou ser transgênero durante a adolescência e a puberdade viveram uma distância de conhecimento e de prontidão, que refletia duas pontas de um espectro de prontidão para a afirmação de gênero na adolescência. Antes de se revelar aos pais, as pessoas adolescentes passavam tempo on-line adquirindo conhecimento sobre questões trans, conectando-se a referências trans e desenvolvendo um senso de si mais sólido. Quando as pessoas adolescentes ATNB do nosso estudo revelaram sua identidade aos pais, ser afirmadas em seu gênero já era inegociável e uma necessidade emocional, social e médica. Os pais, por outro lado, só começaram seu percurso de gênero como pais depois da revelação dos filhos. Os pais que viviam a revelação e a afirmação de gênero pela primeira vez durante a adolescência estavam, ao mesmo tempo, desenvolvendo letramento e consciência sobre questões trans, construindo identidades e papéis parentais em mudança, conectando-se aos cuidados, lidando com as ideias familiares e culturais sobre gênero e afirmação de gênero, enfrentando o poder do estigma ligado às pessoas trans, administrando barreiras do plano de saúde e se preparando emocionalmente para a afirmação de gênero médica e social, enquanto se perguntavam [em silêncio] se aquele era o caminho certo.
A perda ambígua é uma perda incerta ou percebida, estudada originalmente em relação (a) a famílias de militares em que um dos pais ou parceiros está psicologicamente presente, mas fisicamente ausente; ou (b) a um membro da família com demência, fisicamente presente, mas psicologicamente ausente (Adams et al., 2008; Boss, 2004; Huebner et al., 2007). Recentemente, a pesquisa passou a usar a perda ambígua para compreender perdas percebidas ligadas à afirmação de gênero de um membro da família (McGuire et al., 2017; McGuire et al., 2016). Um achado importante de um estudo recente sobre perda ambígua indicou que famílias transgênero viviam perdas tanto físicas quanto emocionais, ligadas ao desenvolvimento da identidade de gênero e à expressão de gênero de um membro da família, e sentiam também uma sensação de ganho, apoio e aceitação (McGuire et al., 2016). Os pais do nosso estudo que sabiam desde a primeira infância que os filhos eram trans tinham falado com emoção das dificuldades com o estigma, mas não estavam vivendo ativamente o luto pela perda percebida do filho ou da filha no momento das entrevistas. Os pais do nosso estudo que viveram e enfrentaram a perda ambígua mais cedo, antes da adolescência, não estavam lidando ao mesmo tempo com a perda ambígua, o estigma, as lacunas de conhecimento e as decisões sobre a afirmação de gênero social e médica. Para esses pais, o peso emocional da perda ambígua não era um fator preponderante nas decisões relativas à afirmação de gênero dos filhos durante a adolescência.
Como em trabalhos anteriores sobre a perda ambígua em famílias transgênero (McGuire et al., 2016), a perda ambígua das díades do presente estudo estava ligada à perda emocional percebida pelos pais e a uma reimaginação do gênero e da identidade cultural do filho ou da filha, da própria identidade parental e cultural e da relação futura que imaginavam ter com ele ou ela. No nosso estudo, os pais que viveram a perda ambígua em geral tinham dois processos de sofrimento ligados a ela: um que começava logo após a revelação e outro depois que a pessoa adolescente iniciava as intervenções médicas de afirmação de gênero. Os pais de quem se revelou na infância não falaram de perda ou de luto, provavelmente porque, no momento da entrevista, viam predominantemente os filhos no gênero afirmado desde a primeira infância e se viam como pais de uma criança trans desde muito cedo na parentalidade. Para esses pais, a afirmação de gênero médica foi um alívio. Experiências de perda ambígua ligadas à afirmação de gênero eram mais comuns entre os pais que compreenderam que o filho ou a filha era transgênero a partir da adolescência. Muitos desses pais descreviam esse processo como o luto de uma perda profunda, muitas vezes ligado a um apego ao gênero designado ao nascer e à ideia do que ele representava para eles. Por outro lado, e como na pesquisa sobre perda ambígua (McGuire et al., 2016, 2017), todos os pais e mães entrevistados abraçaram uma nova visão e uma nova esperança para o futuro dos filhos, centradas na identidade afirmada deles e na construção de novas lembranças de experiências compartilhadas.
A pesquisa tem mostrado que a afirmação de gênero diminui o ruído da disforia de gênero na vida de adolescentes e lhes permite se concentrar em outras tarefas sociais, escolares e voltadas para o futuro (Kreukels e Cohen-Kettenis, 2011; Rafferty e Committee on Psychosocial Aspects of Child and Family Health, 2018). Para alguns pais, porém, nossa pesquisa sugere que a afirmação de gênero torna inicialmente mais presente o ruído da perda ambígua. Nesse processo de afirmação, os pais muitas vezes viviam uma perda ambígua ligada a ideias persistentes sobre o filho ou a filha e sobre a própria identidade de pais antes da revelação de que o filho ou a filha era trans. No presente estudo, os pais que estavam em pleno ajustamento emocional e vivendo um processo de luto e de perda deram os primeiros passos para apoiar a afirmação de gênero dos filhos não porque estivessem prontos, mas porque queriam manter os filhos vivos. Nove adolescentes tinham uma tentativa de suicídio anterior, e todas as díades relataram ter vivido estigma e/ou dissonância entre o gênero e crenças cisgênero dominantes. As famílias estavam, assim, presas num movimento de empurra e puxa em torno da afirmação de gênero dos filhos: de um lado, o estigma aberto e internalizado e a dissonância aumentavam a hesitação, a confusão e os adiamentos dos pais; de outro, o medo pela vida e pela segurança emocional dos filhos motivava o apoio. Esses pais questionavam aspectos do gênero e da afirmação de gênero dos filhos, não estavam emocionalmente preparados para essa mudança e não tinham, na comunidade ou na família, um caminho afirmativo trans nem referências sobre como e quando oferecer apoio; ainda assim, apoiaram os passos seguintes.
Para os pais do nosso estudo, a perda ambígua começava depois da revelação e representava (a) a perda percebida da relação com um filho ou filha e/ou com membros da própria família ou comunidade, ou sua transformação, (b) uma perda percebida ligada à identidade parental (inclusive cultural) e (c) a perda percebida dos planos para o futuro do filho ou da filha e das ideias sobre a relação com ele ou ela. Pesquisas anteriores também constataram que pessoas transgênero vivem a perda ambígua, não necessariamente ligada à sua identidade, mas ligada ao medo da rejeição parental, ou à rejeição de fato, e a uma relação com os pais em transformação (McGuire et al., 2016). As pessoas adolescentes do nosso estudo cujos pais questionavam em silêncio, estavam em ajustamento emocional e/ou viviam uma perda ambígua continuavam a perceber a aceitação dos pais como incerta, apesar de receberem deles ajuda nas etapas de sua afirmação de gênero social e médica. O apoio parental também era percebido como ambíguo quando movido pelo sofrimento dos pais e pela urgência de manter os filhos vivos, ou quando o [super]apoio e o ativismo parentais eram percebidos pelas pessoas adolescentes como interesseiros ou desalinhados do ajustamento ainda em curso dos pais. Assim, para muitas díades, a relação entre apoio parental e aceitação era frágil no período inicial dos processos de afirmação de gênero na adolescência.
No presente estudo, as pessoas adolescentes se conectaram on-line a referências transgênero e, na comunidade, a pares aliados, tanto antes quanto depois da revelação aos pais. Os pais, por outro lado, só se conectaram a grupos de apoio a pais de pessoas transgênero depois que o filho ou a filha revelou ser transgênero, num momento em que a pessoa adolescente não só estava pronta, mas ansiava por avançar na transição. Diferentemente das pessoas adolescentes, e como em pesquisas anteriores, os grupos de apoio eram para os pais o principal, ou o único, espaço para se conectar com quem vivia algo parecido (Hidalgo e Chen, 2019; Riley et al., 2011) e aprender a apoiar o filho ou a filha trans.
Os grupos de apoio eram um processo pessoal e não serviam para todo mundo. Os grupos de apoio a pais ajudaram as famílias a construir conhecimento, obter recursos, sentir-se validadas e se conectar a experiências compartilhadas. Muitos pais se apoiaram na comunidade de pais de pessoas trans e de saúde trans ao tomar decisões complexas para apoiar os filhos em meio aos estigmas. Alguns pais ganharam força para “traçar uma linha na areia” com redes sociais pouco apoiadoras, inclusive a família, dando ultimatos para garantir segurança emocional e afirmação. Outros aprenderam a defender os filhos na escola e junto às equipes de saúde para garantir que fossem afirmados. Esses esforços eram emocionalmente desgastantes e muitas vezes ocultos. Ao mesmo tempo, alguns não se sentiam seguros para questionar os cuidados de afirmação de gênero no grupo de apoio e se sentiam isolados diante de narrativas majoritárias que não representavam interseções significativas entre valores culturais, identidade e estigma. Assim, alguns pais mantinham em silêncio seu processo de ajustamento e seu luto, e lutavam de forma [in]visível com o medo, a vergonha e a perda, enquanto se tornavam defensores declarados e apoiavam os passos seguintes dos filhos. Para algumas pessoas adolescentes, as lutas [in]visíveis dos pais eram perceptíveis e contradiziam seu ativismo; para elas, o apoio parental parecia incerto e frágil. Outros pais não tinham acesso a grupos de apoio a pais em sua comunidade. Para G e I, o grupo de apoio ou o serviço médico mais próximo ficava a horas de distância de seu bairro. A falta de acesso a profissionais de saúde e de saúde mental e a recursos de apoio que estejam próximos (Oswald e Culton, 2003), que conheçam as barreiras complexas ao apoio e à aceitação e saibam enfrentá-las com competência, e que tenham sido formados e equipados para apoiar e tratar adolescentes trans representa um estigma estrutural para a comunidade trans (Cruz, 2014), incluindo os pais. Essas barreiras estruturais contribuem para o ajustamento dos pais e para seu processo subsequente de apoiar e aceitar o filho ou a filha, afetando assim o momento e os tipos de apoio que os pais oferecem à criança ou adolescente ATNB, mesmo em tempos de crise.
De modo geral, ao ouvir as histórias de outros membros do grupo, os pais começaram a se conectar com os filhos, a desenvolver letramento sobre questões trans, a ter acesso a recursos e a aprender a apoiar o percurso de gênero dos filhos nos diferentes domínios sociais. Para muitos pais, frequentar esses grupos de apoio começou a reduzir a distância de conhecimento e de prontidão entre adolescentes e pais quanto à afirmação de gênero. O estudo de Riley e colegas (2013) com pessoas adultas transgênero indicou que a falta de conhecimento e de consciência dos pais sobre a diversidade de gênero não só contribuía para os estressores de minoria entre adolescentes, como também dificultava a aceitação e o apoio parentais. Como sugeriu a pesquisa de Meadow (2011) com pais de crianças com variância de gênero e de crianças transgênero, o conhecimento institucionalizado tem orientado a forma como a identidade e o desenvolvimento de gênero são regulados e, ao mesmo tempo, esses campos, incluindo a sociologia, também informaram o conhecimento dos pais sobre a complexidade do gênero. Embora as díades não tenham falado explicitamente do impacto histórico da produção institucionalizada de conhecimento sobre gênero, elas contaram como os grupos de apoio e as equipes médicas especializadas em questões trans ajudaram a desestabilizar um conhecimento sobre gênero dominado pela norma cisgênero. As narrativas diádicas estão em linha com o que Meadow (2011) sugeriu: diversas formas de conhecimento e de discurso ajudaram os pais a construir outras ideias sobre a expressão de gênero dos filhos e a cocriar com eles uma nova realidade compartilhada sobre o gênero deles. Na mesma linha, pesquisas anteriores sugerem que a perda ambígua oferece a oportunidade de redefinir e cocriar narrativas alternativas compartilhadas e um novo caminho de conexão (McGuire et al., 2017). Por meio dos grupos de apoio, os pais relataram que suas experiências foram normalizadas e que, pela primeira vez, tiveram acesso a um roteiro sobre como oferecer apoio e se ajustar à sua identidade emergente de pais de um filho ou filha transgênero.
Os resultados do presente estudo devem ser interpretados à luz de limitações ligadas ao delineamento do estudo e à amostragem. A abordagem qualitativa retrospectiva exigiu que adolescentes e pais refletissem sobre a primeira infância e recuperassem lembranças dela. As experiências passadas são enquadradas a partir do presente, o que provavelmente distorce a forma como os acontecimentos são lembrados ou compreendidos. Além disso, as pessoas entrevistadoras pediram às díades que refletissem sobre experiências sensíveis ligadas à identidade e à afirmação da pessoa adolescente e ao apoio e à aceitação dos pais. O método de entrevista pode ter aumentado o risco de viés de desejabilidade social, caso as pessoas participantes acreditassem que suas respostas seriam vistas de forma negativa. Consequentemente, as díades podem ter omitido ou mascarado essas experiências para se proteger de um julgamento percebido da parte de quem entrevistava.
Além disso, recrutamos as famílias em grupos de apoio a famílias de pessoas transgênero, num centro LGBTQ do sul da Califórnia e numa clínica de saúde especializada em adolescentes transgênero. A amostra se limitou a adolescentes de 12 a 17 anos que estavam nos primeiros 12 meses de uso de bloqueadores de puberdade ou de hormônios de afirmação de gênero; assim, os pais já tinham dado passos importantes para apoiar a afirmação de gênero dos filhos. Esses resultados representam as experiências de famílias que tinham conhecimento da afirmação social e da afirmação de gênero médica, ou transição, e estavam prontas e tinham condições logísticas e financeiras de apoiá-las. Entrevistamos famílias na Califórnia, uma região considerada mais rica em recursos afirmativos para pessoas trans e que cria um clima social e político mais acolhedor para famílias trans do que muitas regiões dos Estados Unidos. Por isso, são necessárias pesquisas que explorem mais a fundo o apoio parental diante de barreiras legais e punitivas aos cuidados afirmativos para pessoas trans, para mostrar como o estigma estrutural e os fatores facilitadores afetam as famílias de adolescentes ATNB. Embora esses resultados devam ser considerados no contexto dessa amostra restrita de famílias que tinham acesso a cuidados de saúde de afirmação de gênero e cujas barreiras não impediram esse acesso, muitas famílias enfrentaram dificuldades diante de barreiras interpessoais e estruturais aos cuidados, à aceitação e ao apoio.
A maioria das famílias em que a pessoa adolescente ATNB se revelou aos pais durante a adolescência viveu uma distância de conhecimento e de prontidão, e esses pais muitas vezes não tinham um roteiro para apoiar o filho ou a filha trans. Profissionais de ajuda que atuam em escolas, na saúde mental e em serviços de saúde muitas vezes carecem de oportunidades de formação voltadas para o apoio a crianças e adolescentes com diversidade de gênero e transgênero (Collazo et al., 2013). Jovens trans e famílias com múltiplas identidades minorizadas vivem, sem dúvida, formas complexas de estigma, opressão e resiliência. Profissionais de ajuda, incluindo os grupos de apoio, podem se beneficiar de psicoeducação sobre questões trans e de um apoio informado pelo trauma que incorpore de forma significativa as percepções de adolescentes e pais sobre normas, tradições e valores culturais no contexto dos processos de afirmação de gênero na adolescência. Além disso, usando o referencial da perda ambígua como fonte de empoderamento (McGuire et al., 2017), profissionais de ajuda podem trabalhar com as famílias para reconhecer a incerteza e a ambiguidade nas relações e nos vínculos em tempos de mudança. Com base no presente estudo e na literatura existente sobre perda ambígua (McGuire et al., 2016), crescimento e ajustamento de famílias trans (Meadows, 2011) e estresse de minoria (Hidalgo e Chen, 2019; Meyer, 2003), profissionais de ajuda podem apoiar as famílias a se redefinir e a criar novos sentidos para as relações e a identidade, demonstrando ainda mais a capacidade de adolescentes e pais de enfrentar as transições que virão e de crescer com elas.
Barreiras estruturais ligadas ao acesso a espaços físicos e a uma representação diversa contribuem para a não afirmação e para a invisibilidade trans, perpetuando assim o isolamento em relação ao apoio. O isolamento social e a falta de humildade cultural contribuem para as distâncias de conhecimento e de prontidão entre pais e adolescentes e entre famílias trans e serviços. Profissionais de ajuda e quem facilita grupos de apoio a pais têm a oportunidade de aplicar abordagens de cuidado informadas pelo trauma, que validem e respondam de forma significativa às necessidades e experiências interseccionais de famílias trans expostas a múltiplos eixos simultâneos e entrecruzados de estigma e opressão. Nossos resultados indicaram que as disparidades tanto no acesso aos grupos de apoio quanto na representação cultural dentro deles tiveram um impacto significativo nos processos de apoio e de ajustamento dos pais. Os pais do nosso estudo ofereciam um apoio movido pela urgência de proteger os filhos do estigma, prevenir o suicídio e garantir sua aceitação. Assim, um apoio parental movido pelo sofrimento, e não pela aceitação, talvez ressalte a importância de estudar continuamente os motores complexos do apoio e o impacto potencial desses processos de apoio complexos sobre o bem-estar de adolescentes e pais.
Complexe Systémique: a reter
O interesse deste estudo está em ouvir, numa mesma família, o filho ou a filha e um dos pais, separadamente e ao mesmo tempo. O que emerge é uma assimetria de tempo: quando a revelação acontece na puberdade, a pessoa adolescente muitas vezes já percorreu meses de caminho sozinha, on-line, enquanto os pais partem sem mapa e precisam decidir rápido, às vezes sob a ameaça do suicídio. O apoio pode então vir antes da aceitação: os pais avançam por medo pela vida dos filhos, carregando em silêncio uma perda ambígua que as pessoas adolescentes percebem e leem como aceitação incerta. Numa leitura sistêmica, duas lições. Primeiro, acompanhar o subsistema parental como um sistema em transição por si só, com um lugar onde o luto possa ser dito sem ser vivido como traição. Depois, olhar para os terceiros, avó, cunhada, igreja ou grupo de pais, que podem traçar uma fronteira protetora em torno da pessoa adolescente ou isolar ainda mais a família. Os limites estão numa amostra californiana pequena, já inserida nos cuidados, e no caráter retrospectivo dos relatos. Para ler junto com o artigo sobre tratamentos de base familiar para jovens LGBTQ+ com ideação suicida e com o artigo sobre perda ambígua e rituais.
Referências
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Tradução não oficial em português de “Como, em nome de Deus, vamos atravessar isso?”: o apoio parental a adolescentes transgênero, de Shannon L. Dunlap, Jeremy T. Goldbach, Johanna Olson-Kennedy e Jordan Held, Journal of Child and Family Studies, vol. 32, no 12 (2023), doi: 10.1007/s10826-023-02649-2, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de ““How in God’s Name Are We Going to Navigate This?”: Parent Support for Transgender Adolescents”, publicado em Journal of Child and Family Studies (2023) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Dunlap, S. L., Goldbach, J. T., Olson-Kennedy, J., et Held, J. (2023). “Como, em nome de Deus, vamos atravessar isso?”: o apoio parental a adolescentes transgênero (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/como-em-nome-de-deus-vamos-atravessar-isso-o-apoio-parental-a-adolescentes-transgenero (Obra original publicada em 2023 em Journal of Child and Family Studies, 32(12), 3926-3946 (2023); republicada em 2023 por Journal of Child and Family Studies, https://link.springer.com/article/10.1007/s10826-023-02649-2)
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