Esta versão foi traduzida do inglês pelo Complexe Systémique com a ajuda da inteligência artificial. Em caso de dúvida, prevalece a versão original.
Child Abuse Review · Proteção à infância
Na Inglaterra, mais de 2.400 recém-nascidos por ano são objeto de processos de acolhimento, e muitas de suas mães voltam sozinhas de uma maternidade onde ninguém reconheceu a sua perda. A partir dos relatos de 38 mães, a equipe de Claire Mason descreve a vergonha, o luto não reconhecido e a perda ambígua que se seguem à separação e apresenta as caixas HOPE, criadas com mães que viveram essa experiência para manter o vínculo com o bebê.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Dar esperança e reduzir o trauma: uma intervenção para apoiar mulheres separadas de seus bebês no nascimento por motivos de proteção à criança, de Claire Mason, Harriet Ward e Karen Broadhurst, publicado na Child Abuse Review (Wiley) (2023), doi: 10.1002/car.2809, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela é apresentada em forma de lista; as declarações do fim do artigo foram reunidas nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Sejam quais forem as circunstâncias, a separação no nascimento é sem dúvida uma experiência traumática, com consequências profundas para todas as pessoas envolvidas.
Claire Mason, Harriet Ward e Karen Broadhurst
Resumo
Sejam quais forem as circunstâncias, a separação de bebês de suas mães no nascimento é uma experiência traumática para todas as pessoas envolvidas. O artigo relata um estudo planejado para melhorar a prática nessa área extremamente sensível. A análise de dados coletados em entrevistas semiestruturadas com 38 mães que viveram a retirada do bebê no nascimento identificou quatro temas comuns: isolamento e necessidades de apoio não reconhecidas; vergonha, estigma e a recusa dos outros em reconhecer sua identidade materna; trauma agudo, piora imediata e luto não reconhecido após a retirada do bebê; e estratégias para amenizar a dor e o luto. Estes últimos temas incluíam o uso de objetos, tanto como objetos transicionais que ajudam as mães a aceitar a perda definitiva de um bebê quanto como um meio de manter viva a identidade materna e de se conectar com um bebê que talvez volte para casa um dia. Em resposta a esses resultados, e em colaboração com um grupo de mulheres com experiência vivida, foram criadas as caixas HOPE para aliviar o trauma e o peso psicológico carregados pelas mulheres nessa situação. O conteúdo das caixas foi escolhido para refletir as experiências em transformação ao longo do percurso dessas mulheres, mas também a gama de desfechos possíveis. A intervenção tem um potencial considerável para reduzir o trauma dessa experiência dolorosa.
Pontos-chave para a prática
Sejam quais forem as razões de fundo, a separação de um bebê da mãe de origem no primeiro ano de vida pode ser fonte de um luto duradouro e ter repercussões de longo prazo para todas as partes envolvidas: os pais, a criança e, em muitos casos, as equipes encarregadas de supervisionar a retirada (Geddes, 2021; Mason et al., 2022a; Neil, 2013). Há, porém, cada vez mais evidências de que, em países de baixa, média e alta renda, um grande número de bebês é, por razões sociais e econômicas complexas, entregue, colocado fora de casa voluntariamente ou retirado compulsoriamente da família em resposta a preocupações de proteção à criança (Wulczyn et al., no prelo), e de que essa questão desperta grande preocupação nos Estados Unidos (Wulczyn et al., 2013), no Reino Unido (Mason et al., 2022a), na Escandinávia (Hestbæk et al., 2020), na Austrália (O'Donnell et al., 2019) e em partes da África (Rosenberg, 2020). Também parece provável que essas preocupações sejam ainda mais disseminadas (Backhaus et al., 2019).
Em países com sistemas de proteção à criança extensos, a maioria das separações entre pais e bebês é compulsória, em resposta a preocupações com maus-tratos e negligência (Browne et al., 2005). Na Inglaterra, a equipe deste estudo (2018) constatou que, nos dez anos entre 2007-2008 e 2016-2017, 27% de todas as crianças envolvidas em processos judiciais de acolhimento eram bebês com menos de um ano. Nessa faixa etária, o número de recém-nascidos (bebês com menos de uma semana) envolvidos em processos mais que dobrou, passando de 1.093 para 2.447; a proporção passou de 32% de todos os casos de bebês em 2007-2008 para 42% em 2016-2017, e havia grandes variações regionais.
A retirada de recém-nascidos de seus pais de origem é uma questão extremamente controversa, que levanta perguntas sobre ética, justiça social e a ideologia por trás da política de proteção à infância. Por um lado, as disparidades entre regiões e o alto número de recém-nascidos em processos podem indicar desrespeito aos direitos dos pais e despertam preocupações quanto à equidade e à igualdade. Os pais com maior probabilidade de serem parte em processos relativos a seus filhos são também os mais propensos a ser afetados por desigualdades interseccionais (Bywaters et al., 2018; Doebler et al., 2021; Johnson et al., 2021). Por outro lado, as revisões aprofundadas de casos graves sobre mortes evitáveis e lesões graves de bebês deixam clara a vulnerabilidade das crianças pequenas e sua necessidade de atenção e proteção especiais (Brandon et al., 2020). Embora as questões de fundo sejam sem dúvida complexas, sejam quais forem as circunstâncias, a separação no nascimento é sem dúvida uma experiência traumática, com consequências profundas para todas as pessoas envolvidas (Marsh, 2016; Mason et al., 2019, 2022a).
Este artigo examina as evidências sobre a experiência de mães de origem que sofreram a retirada de um bebê; ele identifica quatro temas que emergem de suas experiências comuns: isolamento, vergonha, luto não reconhecido e trauma, e estratégias para aliviar a dor. Em seguida, mostra como suas histórias foram usadas para desenvolver uma intervenção (as caixas HOPE) destinada a amenizar seu trauma e seu luto.
O projeto discutido neste artigo faz parte do programa Born into Care, financiado pelo Nuffield Family Justice Observatory. Ele foi precedido por duas revisões de evidências, uma sobre a perspectiva de pais de origem e de profissionais a respeito da avaliação pré-natal e da retirada de bebês no nascimento (Mason et al., 2019) e outra sobre a perda perinatal (McGrath-Lone e Ott, 2022), tema explorado a fundo porque a experiência dos pais que perdem um bebê para a adoção se parece, em muitos aspectos, com a dos pais que vivem um aborto espontâneo ou um natimorto (Geddes, 2021). Este artigo se apoia nos resultados dessas revisões.
Os resultados relatados neste artigo vêm de um estudo qualitativo que buscou compreender as dificuldades atuais quando uma medida de proteção é tomada no nascimento. O estudo resultou em um conjunto de propostas de diretrizes de boas práticas, cuja viabilidade está sendo testada nos locais participantes (Mason et al., 2022b). Um amplo trabalho preparatório antecedeu o estudo, incluindo publicações estatísticas (Alrouh et al., 2019; Broadhurst et al., 2018), duas revisões da literatura publicada pertinente (Mason et al., 2019; McGrath-Lone e Ott, 2022) e uma revisão de protocolos nacionais e locais (Ward et al., 2022).
O processo de coleta e análise de dados seguiu padrões reconhecidos de pesquisa qualitativa rigorosa (Daly, 2007; Davies e Dodd, 2002).
O projeto foi aprovado pelo comitê de ética da Universidade de Lancaster e pelas instâncias de governança das autoridades locais participantes e da Health Research Authority. O projeto contou com o apoio de dois grupos consultivos: um formado por mães com experiência vivida e outro por especialistas em políticas públicas, prática e pesquisa acadêmica.
Oito territórios de autoridades locais e sete Health Trusts correspondentes (entidades do serviço nacional de saúde) na Inglaterra e no País de Gales foram selecionados para participar do estudo, por apresentarem alta incidência de bebês em processos de acolhimento (Alrouh et al., 2019; Broadhurst et al., 2018).
Profissionais de diversas áreas pertinentes receberam convite para participar de grupos focais, e pais com experiência vivida foram convidados a dar entrevistas. O recrutamento seguiu os princípios de voluntariedade definidos pela British Sociological Association (2017). Foram excluídos os pais que haviam precisado, no processo, dos serviços do official solicitor (representante legal designado para pessoas consideradas incapazes de conduzir o próprio processo) ou que a autoridade local não considerava em condições, naquele momento, de participar de entrevistas sem sofrer danos. Após o envio dos documentos informativos e antes da coleta de dados, obteve-se o consentimento por escrito. Foram previstos procedimentos para responder ao sofrimento ou a revelações dos pais após as entrevistas, e uma abordagem semelhante foi adotada para o grupo consultivo de pessoas com experiência vivida.
Por causa das dificuldades impostas pela pandemia de covid-19, os grupos focais foram realizados on-line, mas as entrevistas com os pais foram presenciais, com as medidas de segurança necessárias. Grupos focais e entrevistas foram semiestruturados, gravados em vídeo ou áudio com o consentimento das pessoas participantes e armazenados com segurança.
A amostra final é apresentada na Tabela 1, abaixo:
Tabela 1 — Participantes do estudo
Grupo envolvido: número de grupos focais ou de entrevistas; número total de participantes, somando todos os locais.
A codificação inicial se baseou na leitura da literatura e no envolvimento com o material dos grupos focais e das entrevistas. A consistência da codificação foi comparada com o auxílio de uma ferramenta de registro de dados. A primeira etapa de codificação resultou em um grande número de códigos abertos, e as comparações entre esses códigos permitiram desenvolver temas.
A equipe de pesquisa também prestou atenção às condições de prática específicas da pandemia. De modo geral, as restrições à prática já eram evidentes antes da pandemia, mas haviam se agravado durante ela.
Os resultados completos do projeto estão em um relatório da equipe de pesquisa. Para os fins deste artigo, apresentamos os que se referem especificamente à inovação das caixas HOPE, extraídos de entrevistas com mães que trouxeram contribuições importantes sobre como uma intervenção poderia ajudar a amenizar parte do sofrimento agudo vivido. Embora o estudo mais amplo também tenha coletado dados com pais, que informaram a elaboração das propostas de diretrizes, este artigo se concentra especificamente na experiência das mães, por causa das questões próprias das mulheres que cercam o parto e a separação. Há trabalhos em andamento para considerar a inclusão dos pais e as adaptações das caixas HOPE que isso exigiria.
Trinta e oito mães de oito territórios de autoridades locais participaram do estudo. Todas haviam vivido uma intervenção do Estado após o nascimento de pelo menos um dos filhos: ou uma separação logo após o parto, na maternidade, ou um período de avaliação formal em um centro de avaliação residencial ou em um acolhimento familiar para mãe e bebê. As entrevistas revelaram a extensão das perdas, dos traumas e das múltiplas adversidades vividas ao longo da vida, bem como seu isolamento social. Revelaram também muitas experiências comuns nos três períodos em que o estudo se concentrou: antes do nascimento, na maternidade após o nascimento e depois de voltarem para casa sem o bebê, ao receberem alta do hospital. Embora várias questões tenham surgido dos relatos das mães, os seguintes temas dominantes orientaram especialmente a intervenção:
Diante de sua história passada e de sua situação atual, as mães precisavam especialmente de cuidados sensíveis e sintonizados. No entanto, apesar da boa vontade de muitas equipes, havia inúmeros obstáculos para que os recebessem: a sobrecarga das equipes de obstetrícia, escalas de plantão que rompiam a continuidade do cuidado, falta de formação especializada, restrições de recursos, protocolos de alta e pressão por leitos.
Nas enfermarias, as equipes de obstetrícia em geral estavam sobrecarregadas e não tinham tempo para dar apoio suficiente às mães, por mais que desejassem. Isso era sentido de forma aguda pelas mulheres, muitas vezes deixadas sozinhas enquanto esperavam a primeira audiência, sem saber se seriam separadas do bebê:
Ela só me disse: “Como você está se sentindo para amanhã?” Aquilo me desmontou. Chorei por horas. Ela me abraçou por uns cinco, dez minutos e depois, claro, tinha trabalho. (Mãe 403)
Muitas mães disseram ter se sentido invisíveis no momento da retirada e acharam que o impacto sobre elas passou despercebido.
A maioria das mães tinha redes de apoio mínimas e, em alguns casos, as únicas pessoas presentes no momento da separação eram a pessoa do serviço social que tinha ido retirar o bebê e a profissional de obstetrícia de plantão, com quem talvez tivessem tido pouco contato antes. Nos casos mais extremos, as mulheres também se viam diante da polícia ou de seguranças:
Tipo, coloquei ela na cadeirinha, prendi o cinto, coloquei a manta em cima dela, me perguntaram o que eu queria, eu só fiquei olhando para eles. Eu chorava sem parar, não conseguia nem falar direito, para ser sincera. Tinha duas pessoas da polícia ali, caso eu surtasse. Eu tinha acabado de sair do centro cirúrgico, estava com pontos, tinha dado à luz dois dias antes. E no instante seguinte ela foi embora. Tipo, eu não sabia quando ia ser a minha visita, não me falaram nada disso, só: “Ah, a gente entra em contato”, e pronto. Aí, assim que a pequena foi embora, alguém no hospital falou: “Bom, pode ir para casa”. (Mãe 820)
O relato dessa mãe sobre a separação do bebê mostra de forma vívida a falta de reconhecimento das necessidades de apoio das próprias mulheres num momento de sofrimento tão agudo. Nenhum esquema de visitas tinha sido organizado, o que reforçava ainda mais sua percepção de que nem sua identidade como mãe do bebê nem o sofrimento que enfrentava tinham sido reconhecidos.
A revisão de McGrath-Lone e Ott (2022) sobre a perda perinatal constatou que as mães que perdem um bebê por natimorto ou aborto espontâneo muitas vezes se sentem fracassadas tanto em seu papel de mulher quanto no de mãe. Muitas das mulheres do estudo tiveram suas oportunidades de vida limitadas por desvantagens interseccionais. Relatos positivos sobre escola ou trabalho raramente apareciam nas entrevistas, que muitas vezes indicavam trajetórias escolares interrompidas. Um estudo da equipe (2020) apontou que muitas mulheres nessa situação têm um status social frágil e restrito; a retirada de um bebê no nascimento pode ser duplamente devastadora, não só porque elas perdem o bebê, mas também porque perdem seu status de mãe, e a maternidade é um dos poucos papéis em que se sentiam reconhecidas.
Eu disse, eu literalmente só fui ao tribunal e aí falaram que, claro, eu não ia ficar com ela. E eu fiquei tipo: eu estou só começando a me acostumar a ser mãe. Para onde ela vai? Para onde eu vou? Como eu fico agora? (Mãe 302)
Algumas mães queriam desesperadamente amamentar, mas não se sentiam apoiadas o suficiente, e a maioria queria realizar outras tarefas que reforçassem sua identidade materna. Ser reconhecida como mãe do bebê era central para o seu senso de si. Por isso, algumas mães achavam particularmente doloroso sentir que seu papel materno estava sendo deixado de lado. No trecho abaixo, uma mãe descreve seu desespero quando, ao visitar o bebê alguns dias depois do parto, encontra uma cuidadora de acolhimento familiar que ela nunca tinha visto segurando seu bebê. Esse bebê tinha sido transferido para uma unidade de cuidados especiais para observação depois da alta da mãe.
Então, um dia eu e (o pai) entramos no hospital e no quarto, nesse quarto onde eu entro para ver meu bebê, como eu tinha feito todos os dias, tem uma mulher estranha segurando meu bebê. Ela não tem nenhum… Ela não é médica. Não é enfermeira. É só uma mulher estranha. O que ela está fazendo com o meu bebê? Eu não sabia quem ela era. Era para eu ter conhecido essa cuidadora antes, e aquilo me derrubou completamente. Eu e (o pai) entramos numa sala e: “Ah, oi, eu sou a mãe acolhedora. Sou a nova cuidadora de (bebê).” “Espera aí. Você está sentada segurando o meu bebê, você tirou o meu bebê do berço, então basicamente eu não tenho mais nenhuma voz sobre o meu bebê”. (Mãe 703)
A revisão de McGrath-Lone e Ott (2022) também constatou que os pais que perdem um bebê por aborto espontâneo ou natimorto sentem “choque, raiva, arrependimento, vazio, solidão, impotência e culpa” (p. 15). Esses sentimentos são muito parecidos com os relatados pelas mães deste e de estudos anteriores sobre a experiência vivida da retirada de bebês (Broadhurst e Mason, 2017, 2020). No entanto, embora o choque, a raiva e a perda da identidade materna possam ser semelhantes para as mães cujo bebê nasce morto, esses sentimentos se complicam ainda mais com a vergonha aguda e a estigmatização vividas pelas mulheres cujos filhos são retirados pelo Estado (Neil et al., 2010; Morgan et al., 2019; Morriss, 2019; Geddes, 2021).
A pesquisa sobre maternidade em contextos de marginalização, em meio a violência, uso problemático de substâncias, pobreza, pouca idade e dificuldades de saúde mental, relata de forma amplamente concordante que as mulheres constroem ativamente histórias pelas quais se identificam como “boas” mães e se encaixam na narrativa-padrão, socialmente construída, da maternidade ideal (Medina e Magnuson, 2009). Quando um bebê é retirado pelo Estado, essa identidade idealizada é posta em xeque. A mãe sente vergonha porque foi publicamente julgada como alguém que falhou no papel que a sociedade lhe atribuiu. Ela mesma pode se sentir culpada, mas também pode sofrer a rejeição de outras pessoas que a julgam uma “mãe fracassada”. A vergonha e o estigma associados podem corroer seu senso de si e aumentar o peso psicológico após a separação (Abrams, 2015; Morriss, 2019).
Muitas das mães do estudo tinham plena consciência do estigma que provavelmente enfrentariam. Embora nem sempre atendidas, muitas manifestaram preferência por um quarto individual, onde as outras mães não pudessem ver as visitas das equipes do serviço social nem ouvir suas conversas. Elas também valorizavam as tentativas de disfarçar o fato de que o bebê estava sendo retirado de seus cuidados:
Na verdade, eles me deixaram ir no carro do hospital até a casa. Então foi como se eu estivesse levando ele para casa, de certa forma.… Parecia normal, porque a gente tinha acabado de entrar no carro, não estava na cara que ele estava indo para o acolhimento. (Mãe 103)
E, quando voltavam para casa sem o bebê, às vezes se sentiam obrigadas a sustentar a mentira:
Eu dormia. Não comia direito, dormia quase o dia inteiro. Não vi ninguém por mais ou menos uma semana, e foi aí que comecei a sair. Todo mundo perguntava: “Ué, cadê ela?” E eu respondia: “Ah, ela está com o pai. Está com o pai.” Aí no fim tive que contar para os meus amigos que eu não estava com ela, mas que ia pegar ela de volta. Claro, eu tinha certeza absoluta de que ia pegar ela de volta. (Mãe 302)
Algumas mulheres sentiam que precisavam continuar escondendo o que tinha acontecido, ou encontrar formas de disfarçar, por longos períodos. No trecho abaixo, uma mãe descreve como tentou impedir que as pessoas da sua comunidade soubessem a verdade sobre a separação do bebê.
(Eu estava) totalmente perdida, toda vez que eu falava dela, lágrimas, eu fazia cara de forte…, então quando eu saía eu tentava fazer cara de forte, mas se as pessoas me perguntavam como ela estava, eu dizia: “Ah, está bem.” “Cadê ela?” “Está com a minha mãe.” Eu não conseguia contar, só algumas pessoas sabem o que aconteceu com ela, tipo amigos próximos, a família, gente que eu trato como família, essas sabem. Alguém que eu vejo de vez em nunca não sabe de nada. É, tipo, ela está com a minha família, ela está na escola, porque eu não quero todo mundo sabendo da minha vida. (Mãe 401)
Embora o luto dos pais que viveram um natimorto ou um aborto espontâneo ainda não seja suficientemente reconhecido, eles podem contar com algum apoio profissional, ainda que às vezes pouco sensível ou insuficiente (McGrath-Lone e Ott, 2022). Já para as mães cujos bebês foram retirados pelo Estado, fora os cuidados obstétricos pós-parto de rotina, raramente há profissionais com um papel formal de apoio. Não era incomum que as mães deste estudo saíssem do hospital desacompanhadas e voltassem sozinhas para um apartamento cheio do enxoval que tinham comprado na esperança de demonstrar seu compromisso com um bebê que depois lhes fora retirado.
A maioria das mães viveu um luto agudo logo em seguida.
E era como se… eu simplesmente não conseguisse viver naquela casa sem eles. E a minha saúde mental, quando olho para trás agora, eu tive um colapso. Eu estava… eu tive um colapso. Usei as mesmas roupas por meses. Meses. Nem ligava. Nem pedia os benefícios, não tinha um centavo no meu nome. Não conseguia ir pedir os benefícios, não conseguia fazer nada…. (Mãe 105)
Apesar dos níveis evidentes de sofrimento psicológico agudo causados pela separação, os resultados mostram a falta de cuidados consistentes ou especializados oferecidos às mulheres nessa situação. O serviço social se concentra no bebê, agora em outro cuidado, e as equipes de obstetrícia, em sua maioria, não conseguem oferecer nada além do acompanhamento pós-natal padrão. As mães caem, assim, num vazio de apoio que as deixa vulneráveis a uma piora aguda de sua saúde mental.
Não, não me deram nada. Depois que levam os seus filhos, eles te largam. É isso que eu quero dizer… É aí que eles acabam com as pessoas. Tiram os filhos delas, causam tanto estrago, tipo emocional, isso destrói a gente. (Mãe 404)
Não surpreende que muitas mães tenham recorrido a estratégias de enfrentamento problemáticas, como o uso abusivo de álcool ou drogas.
Peguei o ônibus para casa e, naquela noite, simplesmente decidi, voltei aos velhos hábitos, a bebida. Achei que era o único jeito de aguentar aquilo. (Mãe 201)
Entrelaçados ao sofrimento agudo provocado pela separação, os dados das entrevistas também mostram como a falta de reconhecimento do luto das mães funcionava como um fator complicador adicional. Como constataram vários trabalhos (Abbott et al., 2021; Broadhurst e Mason, 2020; Brodzinsky e Smith, 2014; Geddes, 2021; Memarnia et al., 2015), a literatura sobre o luto não reconhecido (Corr, 1999; Doka, 1999) oferece uma lente valiosa para compreender melhor a experiência das mães cujos bebês foram retirados.
O luto não reconhecido pode ser definido como o luto vivido por pessoas que sofrem uma perda que não é, ou não pode ser, abertamente reconhecida, publicamente pranteada ou socialmente apoiada. No isolamento do luto, pode ser muito mais difícil elaborá-lo.
As mães deste estudo tinham, para todos os efeitos, perdido um bebê, mas em circunstâncias consideradas vergonhosas pelo público em geral e por parte de profissionais (Mason et al., 2022a; Morriss, 2019). Seu luto não tinha legitimidade social. Seu pesar não era reconhecido publicamente. Elas tinham pouco ou nenhum apoio social, e não havia nenhum dos rituais de luto que normalmente ajudam a elaborar a perda (Doka, 1999). Além disso, a delas era uma perda ambígua (Boss, 1999), já que os bebês continuavam vivos. Embora muitos desses bebês acabassem sendo adotados, enquanto o processo estava em curso o desfecho permanecia incerto. Mesmo depois de uma separação definitiva, como mostram outros estudos, os bebês continuariam fisicamente ausentes, mas psicologicamente presentes para as mães (Fravel et al., 2000), que seguiam alimentando a esperança de um reencontro (Broadhurst e Mason, 2020; Geddes, 2021; Neil et al., 2010). Morriss (2019) descreve esse estado como uma “maternidade assombrada”, à espera de um futuro imaginado com o filho. Esse tipo de perda ambígua, que oferece pouco desfecho, é mais difícil de superar do que a perda definitiva da morte (Boss, 1999). Com poucas oportunidades de elaborar o luto, não surpreende que, como constataram outros estudos (Broadhurst e Mason, 2020; Cox et al., 2020; Neil et al., 2010; Wall-Wieler et al., 2018), as mães nessa situação vivam um sofrimento psíquico agudo que pode levar à autolesão e, em alguns casos, a tentativas de suicídio:
Fui para casa e tomei uma overdose, porque não queria estar viva sem os meus filhos. (Mãe 103)
Em certa medida, o trauma das mães podia ser amenizado por ações que legitimavam sua perda. Pequenos gestos de profissionais que demonstravam empatia e compreensão eram muito valorizados:
Ela (a obstetriz) me apoiou muito. Ela se abaixou até a minha altura e só segurou a minha mão. Lembro dela segurando a minha mão. Nunca vou esquecer. Ela foi um amor. … Ela literalmente se ajoelhou e segurou a minha mão. (Mãe 102)
Participar de atividades do dia a dia que reconheciam seu papel parental ajudava a validar sua identidade de mãe e a fortalecer sua autoestima.
… você está mostrando para o seu filho que é só uma coisa normal: “Estou te dando banho.” Um banho pode não ser nada para eles, mas para a mãe é: “Estou de fato cuidando do meu filho, estou tentando te mostrar que eu consigo”. (Mãe 301)
Ser consultados sobre suas preferências em detalhes dos cuidados de rotina, a escolha da fórmula infantil e a roupa que o bebê usaria ao ser entregue à família acolhedora, ou nas visitas, adquiria um significado simbólico para os pais.
A importância dos objetos transicionais e simbólicos na forma como os pais lidam com o luto, evidente nos resultados, dialoga com a literatura mais ampla sobre perda perinatal (McGrath-Lone e Ott, 2022) e com os resultados recentes de Geddes (2021) sobre pais cujos filhos foram adotados. Gibson (2004) discute como, assim como as crianças usam objetos transicionais, como ursinhos de pelúcia e cobertores, para ajudá-las a atravessar o processo de separação da mãe, as pessoas enlutadas podem usar objetos para atravessar o processo de se separar de quem morreu. As roupas podem ter um significado simbólico especial porque:
ao evocar o cheiro além da imagem, [elas] podem ser mais eficazes para transpor momentaneamente (embora nunca por inteiro) o intervalo de espaço e tempo que separa os vivos dos mortos. (Gibson, 2004, p. 290)
Algumas mães encontravam conforto semelhante em roupas que as ligavam aos bebês que lhes tinham sido retirados:
Dormi com o primeiro macacãozinho que ela usou durante as quatro semanas inteiras. Dormi com a mantinha que ela tinha antes de ir embora. (Mãe 302)
Outros “objetos melancólicos” podiam funcionar como lembranças do bebê psicologicamente presente, mas fisicamente ausente:
Ainda tenho as coisas deles, os primeiros sapatinhos, chupetas, prendedores de chupeta e tal, só o que eles realmente usaram e tal. É. Posso olhar tudo isso com ela. Posso falar disso e contar, para que, quando ela tiver idade, saiba que tem irmãos. … (é) só um conforto… Só saber que você ainda tem alguma coisa deles. (Mãe 102)
Assim, em sintonia com a pesquisa sobre perda perinatal e adoção, esses objetos eram descritos como capazes de amenizar o luto avassalador, trazer conforto e afirmar a identidade materna (Geddes, 2021). No caso de mulheres recém-separadas do bebê no nascimento, porém, nossos resultados sugerem também outro papel, específico, para esses objetos: manter um vínculo com o bebê.
Até que a decisão judicial final seja proferida, a separação é uma medida provisória. Leva pelo menos seis meses para que o processo de acolhimento se conclua e, ao final, cerca de 15% dos bebês separados voltarão para os pais de origem sob medida de supervisão (Broadhurst et al., 2018). Outros, mesmo sujeitos a uma ordem de acolhimento, poderão continuar com os pais ou ser devolvidos a eles. Por isso, é muito importante garantir que as mães tenham todas as oportunidades de criar vínculo com o bebê e de manter sua identidade parental nessa fase provisória. No entanto, como argumentamos em outro trabalho (Broadhurst et al., 2022), longe de criar condições que favoreçam o vínculo e uma eventual reunificação, uma separação provisória pode ser vivida como um fait accompli, um fato consumado, pois pode desencadear uma sequência de acontecimentos que cria as condições para uma retirada definitiva, quando os pais recorrem a padrões de comportamento autodestrutivos para tentar aliviar a dor. O processo de acolhimento e seus efeitos sobre os pais, como atesta Morriss (2019), têm o poder de fabricar futuros.
Ainda assim, os resultados deste e de outros estudos (Broadhurst e Mason, 2017; Ward et al., 2012, 2019) mostram como a retirada temporária ou definitiva de uma criança pode funcionar como um importante motor de mudança e levar alguns pais a superar dificuldades e a se tornar capazes de oferecer um lar seguro e acolhedor a bebês que antes estavam em risco de dano grave, ou a filhos que nasceram depois da retirada dos anteriores:
A adoção me abalou de verdade. Foi isso que me fez pensar: “Bora, vamos lá. Preciso pôr a minha vida em ordem agora, por todos os meus filhos. Aí, no futuro, vou poder explicar para (criança 4) que foi por causa dela que eu pus a minha vida em ordem”. (Mãe 202)
Por isso, é de importância crucial que as mães nessa situação mantenham um vínculo contínuo com o bebê após a retirada. Alguma forma de vínculo é necessária para a saúde psicológica da maioria das mães que vivem a retirada de um bebê, sobretudo quando existe a possibilidade de uma eventual reunificação. Por fim, como esse trecho mostra claramente, um vínculo psicológico contínuo com uma criança que foi retirada, e a ideia de provar que “foi por causa dela que eu pus a minha vida em ordem”, podem ser um poderoso motor de mudança. De fato, depois de trabalhar intensamente com o serviço social da infância e com os serviços de álcool e drogas para resolver as dificuldades que tinham levado às retiradas anteriores, essa mãe teve outro filho, que permaneceu sob os seus cuidados.
Nossa análise dos dados identificou quatro temas dominantes na experiência das mulheres separadas de seus bebês no nascimento. Na segunda parte do artigo, passamos a descrever a intervenção fundamentada nesses resultados. As caixas HOPE foram coproduzidas com um grupo de mulheres com experiência vivida de separação no nascimento, que formaram um conselho consultivo do estudo. Reunindo-se aproximadamente a cada seis semanas, o grupo teve um papel importante na orientação do estudo ao longo de todo o projeto. Partindo de práticas consolidadas da obstetrícia e recorrendo às próprias experiências e aos resultados da pesquisa, as mulheres desse grupo foram centrais na elaboração dessa intervenção.
A intervenção é composta por duas caixas: uma para a mãe e outra para o bebê. Elas se baseiam nos aprendizados da literatura e de organizações dedicadas à perda perinatal, bem como na prática de algumas profissionais de obstetrícia que adaptaram as “caixas de memórias de luto” para oferecê-las a mulheres separadas de seus bebês. O conteúdo de cada caixa HOPE foi escolhido especificamente para responder aos resultados deste projeto e refletir os desafios psicológicos associados aos diferentes momentos do percurso da mãe e do bebê. As caixas foram pensadas para um uso flexível, de modo a refletir tanto a diversidade das experiências quanto a gama de desfechos possíveis a longo prazo para a mãe e o bebê. Nesta seção, descrevemos seu conteúdo e ilustramos sua importância.
O nome HOPE, acrônimo de Hold on Pain Eases (“Aguenta firme, a dor passa”), foi escolhido pelo grupo para expressar empatia com a situação da mulher e sua necessidade de apoio, mas também para despertar a esperança de que as coisas podem melhorar. A imagem em cada caixa, criada por uma mulher do grupo, mostra duas mãos de adulto e dois pés de bebê; ela busca ser inclusiva em termos de etnia e é deliberadamente ambígua em seu simbolismo, para refletir a diversidade das situações dos pais.
A apresentação da ideia das caixas HOPE à mulher ficará a cargo de profissional de obstetrícia com formação especializada (ou de outra pessoa profissional designada), por meio de uma carta do grupo de experiência vivida. A carta antecede as caixas e explica sua finalidade, além de apresentar seu conteúdo. Incentivar profissionais a conversar com as mulheres sobre as caixas HOPE busca transmitir cuidado e reconhecer que a mãe merece receber atenção e apoio especializados. A carta oferece uma oportunidade imediata de reconhecer a dor da mãe e de conectá-la a outras mães que viveram perdas semelhantes, amenizando assim os sentimentos agudos de isolamento, estigma e vergonha expressos por muitas mulheres neste e em outros estudos.
Com base no que se aprendeu nas entrevistas com os pais e em trabalhos anteriores (Geddes, 2021), muitos itens da caixa da mãe foram incluídos para ajudar a afirmar a identidade materna da mulher e registrar as primeiras lembranças enquanto ela ainda está com o bebê. Mas eles também oferecem uma possibilidade de vínculo psicológico quando o bebê está fisicamente ausente e já não está sob os seus cuidados. As caixas incluem, por exemplo, um livro do bebê, um para cada caixa, que permite à mãe registrar e também compartilhar com a família acolhedora ou com a pessoa da família extensa que acolhe a criança os primeiros dias de vida do bebê passados com ela. Isso dá à mãe a oportunidade de transmitir o que sabe sobre o bebê e sua competência em relação a ele, além de garantir que esse conhecimento seja compartilhado com quem assume os cuidados, criando uma oportunidade de construir uma relação. A família acolhedora, ou a pessoa da família extensa que acolhe a criança, é depois incentivada a atualizar o livro e a compartilhá-lo com a mãe nos momentos de convivência familiar, para que ela continue participando do desenvolvimento do bebê.
As caixas também incluem itens que apoiam as conversas das equipes de obstetrícia sobre atividades de criação de memórias nos primeiros dias do bebê, enquanto ele ainda está na maternidade. As duas caixas trazem kits para fazer as marcas das mãos e dos pés do bebê e da mãe, um porta-retratos para incentivar a guardar uma fotografia de lembrança e uma caixinha para guardar uma mecha de cabelo do bebê. Também estão incluídas cópias das plaquinhas do berço e das pulseiras de identificação do tornozelo e do pulso. Todos esses itens costumam ser guardados por quaisquer pais de primeira viagem, pois permitem registrar os preciosos primeiros momentos da vida do bebê; no entanto, as oportunidades de criar memórias dessa forma são com frequência ofuscadas pelas exigências de um processo judicial complexo do qual esse grupo de mulheres precisa participar. Embora, nessa fase, criar memórias possa ser importante porque representa “atividades parentais normais”, esses itens podem ganhar um novo significado se mãe e bebê forem separados. Como descreve Lavelle (2020), os objetos que estiveram fisicamente próximos do bebê falam de intimidade e “permitem que um momento do passado se manifeste no presente” (p. 7). Para mulheres em risco de separação definitiva, essas manifestações do bebê enquanto estão fisicamente separadas dele podem se mostrar importantes para manter a motivação de continuar engajadas tanto no processo judicial quanto nos serviços de apoio.
Na ausência física do bebê e num momento de sofrimento psicológico agudo, esses itens se tornam representações do bebê e testemunhos importantes da identidade materna da mãe (Geddes, 2021; Marsh e Leamon, 2019). Nas entrevistas, muitas mães refletiram sobre a importância desses itens e se sentiram injustiçadas por terem sido privadas da oportunidade de guardá-los. Esses itens também podem servir para preservar o vínculo psicológico entre mãe e bebê entre as visitas presenciais. Itens iguais nas duas caixas, como um bichinho de pelúcia (um elefante, escolhido porque “elefantes nunca esquecem”) e uma mantinha de bebê, oferecem uma conexão sensorial. Escolhidos pela textura e pela capacidade de reter o cheiro do outro, os itens podem ser trocados nas visitas e ajudar a acalmar o bebê no novo lar, além de confortar a mãe. Essa estimulação sensorial pode ser particularmente importante para mulheres que desejam continuar amamentando. A caixa do bebê também contém um pequeno livro infantil, com a possibilidade de a mãe gravar sua voz lendo a história em um cartão de memória. A gravação pode ser tocada para oferecer ao bebê o conforto adicional da voz da mãe.
Esses itens escolhidos com cuidado transmitem empatia e preservam um vínculo entre mãe e bebê, mas também podem se tornar objetos importantes se, ao fim do processo, houver uma separação definitiva. As caixas podem se tornar repositórios de memórias e de outras lembranças para a mãe e para a criança. As caixas e seu conteúdo podem apoiar a elaboração da perda e do luto e ajudar, no futuro, no trabalho de história de vida e de identidade narrativa com crianças e adultos (Geddes, 2021; Watson et al., 2020).
As caixas também incluem itens que buscam apoiar a mãe na dor da separação: uma vela perfumada para ajudar a trazer calma e um poema escrito pelo grupo de experiência vivida, que reconhece a dor, dá esperança de que ela vai passar e incentiva a mãe a buscar apoio em outras pessoas. Também está incluída uma lista de organizações nacionais e locais, com seus contatos, para ajudar a encaminhar a mãe para ajuda profissional.
Os resultados deste estudo mostram a importância de uma prática sensível e sintonizada quando bebê e mãe são separados no nascimento por motivos de proteção à criança. Em consonância com a literatura existente sobre pais que viveram a retirada de um filho determinada pelo Estado, os relatos das mulheres deste estudo mostram a complexidade da tarefa psicológica que enfrentam ao tentar atravessar a separação do bebê e o estigma e a vergonha associados. O conceito de luto não reconhecido é um referencial útil para nos ajudar a compreender a complexidade da perda e as dificuldades de manter uma identidade materna “comprometida”. Os resultados também apontam o papel importante que o registro das primeiras experiências e memórias por meio de objetos pode ter para apoiar as mulheres nesse percurso, tanto para manter o vínculo com o bebê e o engajamento no período imediatamente posterior à separação quanto, a longo prazo, para apoiar o trabalho de perda e luto caso o tribunal determine uma separação definitiva. As caixas HOPE, ligadas a um conjunto mais amplo de diretrizes de boas práticas resultantes da pesquisa, estão passando por testes de viabilidade em um pequeno número de locais na Inglaterra e no País de Gales. Elas oferecem uma oportunidade importante de reduzir o custo humano e econômico causado pelo trauma da separação no nascimento. Profissionais que trabalham com mães diante de uma separação no nascimento terão um papel decisivo na incorporação e no uso das caixas HOPE e precisam de apoio e formação para que a intervenção traga o máximo benefício. Está em andamento a busca de financiamento para desenvolver e consolidar a formação e a avaliação dessa intervenção.
Complexe Systémique: a reter
O artigo tem o mérito de olhar para o que os dispositivos de proteção costumam deixar fora de quadro: a mãe, no momento em que o bebê vai embora. O referencial do luto não reconhecido (Doka) e da perda ambígua (Boss) ilumina uma situação em que a criança está viva, o desfecho é incerto e o luto é socialmente ilegítimo. Para a prática sistêmica, as caixas HOPE interessam porque trabalham o vínculo, e não o indivíduo: objetos em dobro trocados nas visitas, um livro dos primeiros dias mantido a quatro mãos pela mãe e pela família acolhedora, uma voz gravada. Elas criam continuidade onde o processo fragmenta e preparam também o trabalho posterior de história de vida. Vale notar os limites: o artigo descreve uma intervenção sem avaliá-la, concentra-se nas mães (os pais ficam para depois) e deixa de lado o lugar das equipes de serviço social na relação. Para ler junto com o artigo sobre a terapia familiar com pais após a retirada forçada dos filhos e com o estudo sobre a identidade adotiva reconstruída por meio dos objetos.
Notas do original
Agradecimentos. A equipe agradece às mulheres do grupo consultivo de experiência vivida, que coproduziram esta intervenção e se doaram generosamente para melhorar o sistema para outras pessoas. Agradece também a Kate Chivers, da Birth Companions, e a Julie Brooks, da Greenwich Pause, pelo apoio prestado ao grupo. A equipe agradece ainda à Nuffield Foundation e ao Nuffield Family Justice Observatory pelo financiamento e pelo apoio a este trabalho. Registra sua gratidão às pessoas responsáveis pelo projeto em cada um dos locais participantes, às equipes de prática que ajudaram a recrutar participantes e ao grupo consultivo de políticas e prática por sua contribuição contínua.
Ética e integridade. O projeto foi financiado pela Nuffield Foundation (JUS/43967) e é um projeto de interesse especial do Nuffield Family Justice Observatory. A pesquisa foi aprovada pelos comitês de ética da Universidade de Lancaster (ref. FL19038) e pelas instâncias de governança das autoridades locais participantes e da Health Research Authority (ID 278448). O projeto contou com o apoio de dois grupos consultivos: um formado por mães com experiência vivida e outro por especialistas em políticas públicas, prática e pesquisa acadêmica. Todas as pessoas participantes deram consentimento informado antes de participar. A equipe de pesquisa não declara conflitos de interesses relacionados a esta pesquisa.
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Tradução não oficial em português de Dar esperança e reduzir o trauma: uma intervenção para apoiar mulheres separadas de seus bebês no nascimento por motivos de proteção à criança, de Claire Mason, Harriet Ward e Karen Broadhurst, Child Abuse Review, vol. 32, no 1, e2809 (2023), doi: 10.1002/car.2809, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Giving HOPE and minimising trauma: An intervention to support women who are separated from their babies at birth due to safeguarding concerns”, publicado em Child Abuse Review (2023) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Mason, C., Ward, H., et Broadhurst, K. (2023). Dar esperança e reduzir o trauma: uma intervenção para apoiar mulheres separadas de seus bebês no nascimento por motivos de proteção à criança (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/dar-esperanca-e-reduzir-o-trauma-uma-intervencao-para-apoiar-mulheres-separadas (Obra original publicada em 2023 em Child Abuse Review, 32(1), e2809 (2023); republicada em 2023 por Child Abuse Review, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/car.2809)
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