Esta versão foi traduzida do inglês pelo Complexe Systémique com a ajuda da inteligência artificial. Em caso de dúvida, prevalece a versão original.
Australian and New Zealand Journal of Family Therapy · Terapia familiar
Filho de pais caribenhos da geração Windrush, criado para representar a perfeita família inglesa, Dwight Turner parte da própria história para questionar o que a psicoterapia e a terapia familiar herdaram do império. O trabalho com Jaspreet, mulher sul-asiática presa numa família do marido fortemente hierarquizada, mostra o que muda um olhar decolonial: não empurrar para o confronto e ouvir a casta, a migração e a Partição na história de uma família.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Do império à emancipação: possíveis caminhos decoloniais na terapia familiar, de Dwight Turner, publicado na Australian and New Zealand Journal of Family Therapy (Wiley) (2026), doi: 10.1002/anzf.70066, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A epígrafe de Aimé Césaire foi traduzida a partir da versão em inglês citada no artigo. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Somos aquilo contra o que lutamos; assim, enquanto derrubamos com uma mão, reconstruímos com a outra.
Dwight Turner
Resumo
A terapia familiar, como qualquer outra teoria das profissões de ajuda, é igualmente moldada pelos sistemas da colonização. Este artigo, que explora como isso aconteceu, recorre a material clínico para explorar como poderíamos reconhecer, questionar e descolonizar as ideias que moldaram nossa profissão. Embora apresentado pela lente do trabalho em psicoterapia individual, o autor reconhece que a terapia familiar está bem posicionada nesse sentido e incentiva quem o lê a usar seus inegáveis talentos para questionar as estruturas que nos limitam quando trabalhamos com pessoas de outras culturas.
Pontos-chave
A colonização trabalha para descivilizar o colonizador, para torná-lo brutal no verdadeiro sentido da palavra, para degradá-lo, para despertar nele instintos soterrados, a cobiça, a violência, o ódio racial e o relativismo moral.
Césaire (2000)
Meus pais chegaram ao Reino Unido nas décadas de 1940 e 1950, por motivos diferentes. Conheceram-se no início dos anos 1960, e eu nasci no fim daquela década; meu irmão veio no início dos anos 1970. Apresento aqui este brevíssimo panorama da minha história familiar porque meus pais fizeram parte do projeto colonial. A vinda deles para o Reino Unido se deveu em parte ao fato de pertencerem à geração Windrush, mas também ao fato de terem crescido dentro de um ideal de império (Williams, 2020). Minha mãe, em especial, tinha uma visão muito estreita do que era ser uma família: nossa aparência, nosso modo de agir, o que comíamos e as escolas que frequentávamos. Em tudo isso, minha criação foi, antes de tudo, uma encenação: era preciso representar um certo tipo de dinâmica familiar, era preciso comportar-se de uma certa maneira.
Se naquela época meus pais tivessem encontrado uma pessoa terapeuta de família, suspeito que, como minha mãe e meu pai sabiam tão bem representar e encarnar essa ideia da perfeita “família inglesa branca”, ninguém teria levantado uma sobrancelha. No entanto, dentro do meu próprio sistema familiar, havia problemas inegáveis. Ficando só em mim, minha própria experiência de depressão deve ter começado por volta dos 14 anos, depois de eu ter sido mandado para uma escola muito chique, de classe média, no centro de Londres, onde não me encaixava porque me marcavam como alguém de fora. Isso fez com que eu acabasse me sentindo incrivelmente só, privado de amizades, de vínculos e de qualquer noção de quem eu era.
Na terapia que fiz depois, iniciada no fim dos meus vinte ou no começo dos trinta anos, praticamente não se fala de como o sistema familiar em que fui criado pode ter tido um papel nas dificuldades que tive ao crescer. Não houve discussão real sobre como a família, e seus modos de ser colonizados, eram igualmente responsáveis por criar as dificuldades que eu, e outros membros da minha família, viríamos a ter mais adiante. Este artigo examina, portanto, parte dessas questões e pede a nós, terapeutas, e a vocês, terapeutas de família, que consideremos o quanto são colonizadas nossas ideias sobre o que é ser terapeuta de família.
Desde os seus primórdios, a psicoterapia se esforçou para ser aceita por uma elite. Os esforços de Freud para que suas ideias poderosas e inovadoras fossem aceitas pela instituição médica talvez tenham sido um dos primeiros exemplos de uma psicoterapia que se deixa colonizar (Jacobs, 2003). Com isso quero dizer que a instituição médica, à sua maneira, já era algo que excluía, denegria e marginalizava outros grupos.
Por exemplo, a drapetomania (Willoughby, 2018) foi uma forma de pseudociência incluída no modelo médico. Apresentada como uma doença que afetava apenas pessoas negras, baseava-se na ideia de que as pessoas que se rebelavam durante a escravidão eram doentes mentais porque não aderiam ao que se considerava sua posição natural. Outro exemplo é a frequência do diagnóstico de histeria atribuído às mulheres, um diagnóstico enraizado num sexismo inegável sobre a emotividade de um grupo em contraste com outro. Quando começamos a explorar esses e outros exemplos de como o modelo médico, em seu estado colonizado, marginaliza outras pessoas, começamos a descascar e a revelar os fios de um modelo medicalizado que denigre quem não faz parte desse ambiente patriarcal e supremacista branco.
Os esforços de Freud para ter suas ideias aceitas não significam, para mim, que Freud fosse necessariamente preconceituoso. Significam que, para que a psicanálise nascente se estabelecesse e, assim, alcançasse alguma longevidade, Freud fez, por assim dizer, um pacto com o diabo acadêmico. Ao fazê-lo, também conseguiu marginalizar vários de seus próprios pares, como Carl Jung, que, embora não fosse ele mesmo um homem perfeito, tinha ideias e perspectivas que poderiam ter sido muito úteis para um modelo medicalizado e bem poderiam ter ampliado nossa compreensão da psicanálise e de outras formas de terapia depois que elas se encontraram (Stevens, 1990).
A colonização das ideias não se limita aos modelos medicalizados; ela acontece em muitas outras áreas. Quando pensamos em quem define o que é verdade e conhecimento, na era moderna isso muitas vezes é visto por uma lente muito eurocêntrica. É um fato que muitas culturas ao redor do mundo tinham centros de estudo, bibliotecas e assim por diante, que evidenciavam a riqueza de conhecimento e de experiência dessas sociedades; ideias que se perderam ao longo das gerações foram historicamente apagadas de nossa consciência. Elas foram então substituídas por uma narrativa segundo a qual o conhecimento, na civilização, seria uma construção mais moderna, levada ao resto do mundo pelo Norte global. Isso mostra que houve dificuldade em reconhecer que, para certos países do Norte global, o encontro com o outro cultural, por mais angustiante que fosse, também lhes deixou a sensação de que sua identidade cultural era posta em xeque pela simples presença da diferença. É o que se vê no discurso atual no Reino Unido sobre imigração e sobre os barcos que atravessam o Canal da Mancha, um tema que, à sua maneira, virou um grito de guerra para os partidos populistas de extrema direita na política britânica.
A presença do outro é um desafio à realidade do sujeito. Desafia sua identidade e sua verdade. No entanto, quando pensamos no que é a verdade, temos de reconhecer, de certo modo, que a verdade não tem um único aspecto. A verdade, à sua maneira, é bastante fenomenológica. A colonização da verdade sugere que existe apenas uma verdade total e, no enquadre colonial, que essa verdade vem do Norte global. É assim que outras ideias acabam marginalizadas.
Quando pensamos na psicoterapia e, por exemplo, na experiência dos sonhos, um dos aspectos interessantes do que fez alguém como Carl Jung ao explorar os sonhos e o trabalho com os sonhos, ainda que mais tarde tenha publicado essas ideias como se fossem suas, é que ele pesquisou de fato múltiplas culturas para ver como elas olhavam para os sonhos, os compreendiam, lhes davam sentido, e como simplesmente se sonhava nelas (Stein, 2005).
O fato de termos uma compreensão tão rica da paisagem onírica, uma compreensão que nunca vai de fato terminar porque, para ser franco, é infinita, mostra que não há uma verdade única e simples. Isso é muito diferente de outras áreas do aconselhamento e da psicoterapia. Quando consideramos como entendemos os padrões de apego, muito do que nos ensinam passa por uma lente muito ocidental e eurocêntrica. A ideia de que existe uma única forma de apego seguro, e de que o apego se constrói em torno da experiência de uma mãe e possivelmente de um pai, marginaliza então as ideias que ficam fora desse ideal cultural ocidentalizado.
Como essas ideias nascem da experiência de uma família ocidentalizada que tem, digamos, de duas a quatro crianças e forma uma unidade em si mesma, tudo o que diz respeito, por exemplo, à ideia afrocentrada da família como uma unidade mais ampla, um espaço de experiência mais vasto em que avós, tias, tios e até as pessoas mais próximas da família têm um papel na criação da criança, nos faz ver de modo bastante simples que os apegos são muito multifacetados e se formam de maneiras diferentes, de modo que, se há menos apego de um lado, provavelmente há mais de outro.
O outro aspecto a examinar nesse tipo de padrão de apego, por exemplo, é que, quando consideramos o apego por uma lente ocidentalizada, sobretudo de classe média e alta, qualquer pessoa que fique fora dessa lente, por exemplo as famílias da classe trabalhadora ou talvez as famílias celtas que tinham um pouco mais de crianças do que a norma, acaba marcada como inferior à outra.
Vemos o apego, vemos esses padrões, por uma lente binária simplista, defenderei aqui, e sempre houve o risco de termos visto boa parte do trabalho que fazemos como terapeutas, e esta eu passo a vocês, terapeutas de família, do mesmo modo. Kakar (2012) fala disso em certa medida, reconhecendo que, num contexto sul-asiático, as diferentes castas dentro de seu sistema cultural têm maneiras diferentes de criar as crianças, padrões de apego diferentes e construções familiares diferentes.
Quando passamos à terapia familiar e à forma como ela mesma pode ter sido colonizada, é preciso levar em conta a ideia de que muitos de seus conceitos foram construídos a partir de uma perspectiva eurocêntrica. Reconhecer isso não é, de modo algum, envergonhar a terapia familiar; é reconhecer e explorar que a terapia familiar, à sua maneira, como qualquer construção social, traz dentro de si sistemas de opressão.
Para os fins deste artigo, e tenho consciência de fazê-lo à distância, do outro lado do mundo, vale explorar aqui as histórias das Gerações Roubadas (Moses e Atkinson, 2006), um período sombrio da história australiana em que crianças aborígenes e das ilhas do Estreito de Torres foram retiradas de suas famílias e colocadas em famílias brancas australianas como forma de “civilizá-las” e de supostamente lhes dar uma “vida melhor”. O fato de muitas das pessoas retiradas de seus lares terem sofrido depois de problemas de saúde mental diz muito sobre o quanto foi prejudicial à saúde, mental e física, dessas crianças uma ideia colonizadora tão míope do que as famílias deveriam ser. Esses episódios não se limitam à Austrália e à Nova Zelândia: histórias semelhantes abundam na Irlanda (Nolan, 2017) e no Canadá (Sinclair, 2021).
Este artigo pretende, portanto, explorar como uma abordagem mais interseccional da terapia familiar, e da terapia em geral, pode ajudar terapeutas e as famílias que atendem. Ir além do binário, reconhecer a importância de acolher, se não a pessoa inteira, ao menos tanto dela quanto for interseccionalmente possível, permite-nos ver mais de quem ela é e, com mais clareza, seu lugar na família.
Para dizer brevemente algo sobre a teoria interseccional, trata-se de um termo cunhado por nomes como hooks, Crenshaw e Hill Collins, para quem sofremos muitas formas diferentes de marginalização com base nas diversas identidades que se cruzam em nós (Collins, 2019; Crenshaw, 1989; Hooks, 2016). Mas é Lorde (1984), em particular, quem observa que não levamos vidas de uma questão só, porque em nenhum momento somos uma identidade única.
O mesmo poderia ser dito, então, da complexidade das identidades que convivem numa unidade familiar, e de como elas interagem e disputam posição e destaque. Porém, uma das belezas de terapeutas de família e de suas habilidades, posso argumentar, é que já dispõem, pela própria formação, da capacidade de sustentar a complexidade da identidade e do sentido. Além disso, cabe à terapia familiar examinar como as ideias, as estruturas e os sistemas em que está inserida podem ter levado, ou levaram, à marginalização de outros grupos e de outras famílias que terapeutas encontram.
Jaspreet era uma mulher sul-asiática. Tinha entre quarenta e cinco e cinquenta anos e tinha vindo até mim não porque estivéssemos fazendo terapia familiar, mas porque queria compreender seu papel na dinâmica da própria família durante um trabalho individual comigo. Como afirmei neste artigo, o fato de eu não ser terapeuta de família me deixou um pouco perdido quanto a como trabalhar com uma pessoa assim.
Explorei isso com Jaspreet, e ela não via problema algum no fato de eu não ser propriamente terapeuta de família, por várias razões, entre elas o fato de que buscar terapia ia contra as dinâmicas e as regras da família e, sobretudo, da cultura.
Um pouco mais sobre a história de Jaspreet. Ela tinha duas crianças, nascidas de um casamento arranjado com um homem cerca de cinco anos mais velho. Estavam casados havia uns vinte anos e, quando se casaram, ela saiu do Sul da Ásia para o Reino Unido e foi morar imediatamente com a família do marido. Os problemas que teve aqui no Reino Unido começaram assim que chegou: precisou servir sobretudo aos sogros, o que significava que muitas vezes era a primeira a se levantar de manhã, preparava comida o dia inteiro e cuidava não só do marido e depois das crianças, mas também dos sogros.
Jaspreet, porém, não só suportava as mensagens odiosas da sogra, que muitas vezes a desqualificava e humilhava diante do marido e do resto da família, como também precisava presenciar a sogra maltratando o sogro. Para dizer um pouco mais sobre os sogros, havia uma diferença de idade marcante entre a sogra e o sogro, sendo o sogro bem mais velho. Havia também uma diferença de casta entre os dois, sendo o sogro de uma casta inferior à da sogra. Muitas das experiências que ela presenciava entre os dois envolviam a sogra rebaixando o sogro por não ser homem o bastante e por não ter o status financeiro e cultural a que ela estaria acostumada.
Jaspreet tinha suportado isso, como eu disse, por mais de vinte anos e tinha vindo à terapia por iniciativa própria. O ponto crucial era que ela tinha conseguido recentemente um pequeno emprego de meio período num escritório, onde trabalhava dez horas por semana. Era algo pelo qual ela tinha lutado muito e por muito tempo diante do marido e dos sogros, que finalmente cederam, dando-lhe a chance de sair de casa e passar um tempo longe da família.
O problema que ela encontrou no trabalho foi que tinha uma chefe que, a seu ver, a tratava injustamente, tanto por sua diferença racial quanto pelo fato de essa chefe, também mulher, mas britânica e branca, ser muitas vezes difícil de lidar e de trabalhar junto. Isso fazia com que Jaspreet às vezes se visse em casa, trancada, com raiva e fúria borbulhando dentro de si.
Em nosso trabalho terapêutico, consideramos o quanto do que ela suportava em casa tinha sido reprimido dentro dela, a ponto de, quando ela saiu para trabalhar, isso ter sido projetado na chefe.
Maneiras “culturalmente normais” de trabalhar com esse material provavelmente teriam envolvido eu, como terapeuta ocidentalizado, perguntar à cliente o que ela gostaria de dizer à chefe, e/ou à sogra, e incentivá-la a encontrar sua voz e se posicionar. Isso, porém, teria ido contra uma narrativa cultural profundamente arraigada nela, segundo a qual não havia de fato espaço para uma conversa assim, dadas as dinâmicas de poder e a hierarquia construídas dentro da unidade familiar.
Examinamos também como Jaspreet tinha tentado certa vez abordar alguns desses temas num trabalho de casal, quando incentivou o marido a acompanhá-la a uma pessoa terapeuta de casal. No entanto, só fizeram uma sessão. O motivo foi que a pessoa terapeuta de casal tentou lhes explicar que muitas vezes os casais projetam boa parte de suas questões não resolvidas no outro membro do casal; mas, quando Jaspreet explorou isso mais a fundo na terapia, percebeu que, como tinha tido um casamento arranjado, as ideias de escolha, seleção e depois projeção não se aplicavam nem de longe da mesma maneira e, quando a pessoa terapeuta de casal tentou argumentar que isso ainda poderia ser possível, só que de forma inconsciente, Jaspreet achou aquilo extremamente irritante e sentiu que não era vista pela lente cultural em que estava inserida.
Meu trabalho com Jaspreet consistiu em especial em lhe dar espaço para explorar e expressar parte da raiva e das frustrações que sentia, não só na vida doméstica, mas também na vida profissional, para que a vida profissional não fosse destruída pelas questões não resolvidas que a afetavam em casa. Pareceu-me importante, portanto, como terapeuta, não incentivar Jaspreet a levar tudo isso de volta para casa, desvelar, expressar e talvez romper o sistema familiar em que estava encerrada, mas lhe dar espaço para usar a terapia como válvula de escape. Esse alívio envolveria Jaspreet explorar o que tinha sido para ela ser criada num sistema patriarcal e cultural que, embora centenário, às vezes levava a dificuldades e a experiências de opressão para algumas das pessoas que viviam nele, como Jaspreet.
Fizemos um trabalho de compreensão das questões de apego por uma lente cultural. O trabalho de Kakar (Blamberger e Kakar, 2018; Kakar, 2012; Narayanan, 2014), em particular, trouxe ao pensamento psicanalítico uma lente cultural que Jaspreet e eu achamos bastante útil. Ao explorá-lo juntos, e com isso quero dizer que eu também tive de trabalhar esse material, assim como Jaspreet, conseguimos construir uma compreensão dos padrões semelhantes ao apego que giravam em torno dela, adaptando ao mesmo tempo a terapia para desenvolver caminhos e meios pelos quais Jaspreet pudesse existir, se desenvolver e crescer, se assim desejasse.
A segunda parte é que, ao trabalhar com uma cliente de origem sul-asiática, eu poderia ter presumido que meu conhecimento era a verdade e que eu sabia tudo sobre o Sul da Ásia; mas era importante explorar, tanto com a cliente quanto longe dela, seja na supervisão, seja simplesmente por meio das minhas próprias pesquisas e leituras, o que poderia ser, para uma cliente como Jaspreet, existir em seu próprio espaço cultural singular.
Diferenças de poder, por exemplo, estavam presentes. O fato de ela ser a cliente e eu o terapeuta é apenas um aspecto do diferencial de poder nesse caso. Havia também o fato de que ela era uma mulher criada num ambiente patriarcal, deixada em grande medida sem voz, e que trabalhava com um homem.
Houve também a exploração dos desequilíbrios de poder entre populações sul-asiáticas e afro-caribenhas. Com isso quero dizer que precisamos levar em conta que, no enquadre colonial, as populações sul-asiáticas tinham mais poder do que as pessoas do Caribe ou da África, o que muitas vezes levou a grandes rupturas entre as comunidades após o fim do colonialismo, por exemplo em Uganda e no Zimbábue.
Meu trabalho com Jaspreet foi, portanto, incrivelmente rico e nutritivo, e não só para Jaspreet. Saí com uma compreensão mais profunda e mais matizada de mim mesmo e do meu próprio legado cultural, graças ao trabalho com uma cliente tão rica e exploradora.
Essa é a beleza de descolonizar não só a terapia, mas a terapia familiar. Uma abordagem decolonial do nosso trabalho, seja com indivíduos, com casais ou com famílias, significa que nos engajamos com a identidade interseccional inteira das pessoas que atendemos ou, se isso for impossível, com tanto dela quanto pudermos encontrar e/ou acolher (Turner, 2021).
A outra parte é que, ao trabalhar com essa amplitude maior das pessoas atendidas por uma lente de certo modo decolonial, também exploramos e trazemos à superfície mais da nossa própria identidade interseccional como terapeutas, seja em terapia individual, em terapia familiar ou em outras formas. O trabalho que fazemos dentro desse enquadre decolonial nos leva a explorar com mais profundidade e riqueza os mundos de si e do outro. Vamos, assim, além dessa noção binária de si e do outro e encontramos muitos outros outros ao explorarmos nossos próprios outros múltiplos (Collins e Bilge, 2016).
O outro aspecto interessante do tipo de trabalho que terapeutas de família fazem é que, por sua capacidade de sustentar a natureza complexa e matizada da estrutura familiar e de todas as interações que acontecem nesse espaço familiar, desde que esse trabalho se faça num enquadre decolonial, eu chego a supor que terapeutas de família se tornam a ponte entre um modo colonizado de ver a identidade dentro de uma estrutura familiar e um modo mais decolonial de compreender as construções sociais da identidade.
Terapeutas de família, por sua própria natureza, têm o hábito de sustentar a complexidade. Uma prática decolonial também é desafiada a fazer o mesmo. Temos, portanto, a chance de percorrer o mesmo caminho, se formos capazes. Isso não quer dizer que toda a terapia familiar seja decolonial; não posso sustentar isso, e talvez nem caiba a mim fazê-lo, mas o que posso dizer é que, nesse tipo de exploração, por exemplo no exemplo clínico que acabo de apresentar, se a minha disposição encontrasse eco em terapeutas de família com base suficiente nas construções sociais da identidade e em outros aspectos que já explorei neste artigo, estaríamos em melhor posição para acolher a riqueza e as formas mais matizadas pelas quais interagimos dentro de nossas estruturas.
A história de Jaspreet tinha muitas camadas diferentes. A camada individual do que era ser uma mulher sul-asiática; a camada cultural do que era ser uma mulher sul-asiática de determinada casta, incentivada a encontrar um marido; depois, o que era ser uma mulher sul-asiática que se casa com alguém de casta superior e se muda para o Reino Unido; e, por fim, uma mulher sul-asiática que se casa com alguém de casta superior, se muda para o Reino Unido e precisa compreender sua identidade de mulher colonizada.
Há, só nessa última frase, tanto, tanto para explorarmos e desatarmos; e, no entanto, muitas vezes, quando encontramos a alteridade, temos medo de explorar esse tipo de área porque a achamos complexa demais. O pensamento colonial é reducionista em sua simplicidade, em sua forma de fazer do outro um outro, e provavelmente eu mesmo sou culpado disso na minha exploração do outro neste artigo. Corremos o risco de perder tanto da riqueza da outra pessoa porque queremos vê-la de algum modo simplista que acreditamos poder sustentar.
Em seus artigos, Stephen Frosh (2002) e Poland (2011) falam de algumas das impossibilidades de não fazer do outro um outro; e, embora eu concorde que muitas vezes usamos a alterização como forma de atravessar a vida e o mundo, não se trata de nos proibirmos para sempre de alterizar o outro; trata-se, antes, de compreender que é isso que estamos fazendo e, ao fazê-lo, mudar um comportamento e voltar à riqueza do encontro clínico, à curiosidade que acompanha o encontro com alguém diferente de nós pela primeira, segunda, terceira vez e além.
Por fim, quero oferecer outra forma de ver como a terapia familiar poderia levar a terapia adiante. Uma terapia familiar decolonial precisa ver a estrutura familiar como moldada não só pela família e pela cultura, mas também pelas estruturas colonizadoras que estão do lado de fora. Uma das histórias mais tocantes que Jaspreet me contou foi a do que o sogro viveu durante a Partição (Chaturvedi, 2002). Para quem não sabe o que aconteceu na Partição: no fim do colonialismo britânico na Índia, toda aquela região foi dividida de muitas maneiras, o que levou ao deslocamento repentino de dezenas de milhões de pessoas, no caso da Índia para o Paquistão e vice-versa.
Compreender como nós crescemos e nos formamos, sem exceção, dentro de uma estrutura colonizada nos dá, portanto, a chance de compreender plenamente nossa identidade e, depois, a escolha de como poderíamos querer sair dela, nos individuar em relação a ela ou encontrar maneiras de continuar existindo dentro dela. Com isso quero dizer que muita gente pode defender o desmonte do capitalismo, e é impressionante o número de histórias que ouvi de pessoas que querem “pôr fogo em tudo”. Embora essas histórias façam sentido num certo nível, também há nelas uma dose de absurdo, na medida em que, em tese, a gente fica sem sistema. Aonde eu também iria com essa teoria é a ideia de que o sistema não é, na verdade, externo a nós: ele também está dentro de nós.
Para Jaspreet, uma das coisas de que ela muitas vezes dizia mais se orgulhar era de ter incentivado as próprias crianças a sair de algumas das normas culturais em que tinham crescido e a encontrar seus próprios caminhos no mundo ocidental. Ela reconhecia, porém, que, embora o desejo de fazer isso fosse enorme, havia também um problema: é muito difícil, e concordo com isso, existir para criar algo novo enquanto ainda se está dentro. Percebi que ela estava tentando me dizer algo que eu mesmo aprendi em minhas pesquisas: nós somos o sistema. Somos aquilo contra o que lutamos; assim, enquanto derrubamos com uma mão, reconstruímos com a outra, e trata-se menos de perturbar e mudar o sistema do que de fazer isso reconhecendo que, ao mesmo tempo, reconstruímos aspectos dele.
Isso não significa que o sistema não esteja maduro para a mudança, que não precise se desenvolver e se transformar de algum modo, porque, em última instância, essas coisas precisam mudar, avançar, se desenvolver. Significa que, para que essas coisas mudem, trabalhamos de geração em geração, como admiro Jaspreet por fazer, buscando perturbar, mudar e criar outros sistemas e outros modos de ser, mais adequados a uma sociedade mais moderna e multicultural.
Comecei este artigo com uma confissão e uma coincidência. Gostaria, portanto, de terminá-lo da mesma forma, com uma confissão e uma coincidência. A coincidência é que escrever este artigo também me levou a pensar na minha própria família, no enraizamento da minha própria unidade familiar em estruturas culturais e sistêmicas. Como disse, meus pais são do Caribe. Meu pai serviu na Segunda Guerra Mundial e minha mãe fez parte da geração Windrush, que como cultura passamos muito tempo valorizando por ter dado aquele passo enorme de vir para o Reino Unido no fim dos anos 1950. Mas o que os dois eram, na verdade, eram pessoas colonizadas, nascidas e criadas na época do Império Britânico. A identidade deles, a seus próprios olhos, era britânica ou, mais importante ainda, inglesa. Meu pai, em especial, passou muito tempo e se esforçou imensamente para falar como o rei falava naquela época, e meus pais queriam que eu e meu irmão frequentássemos escolas de prestígio em Londres.
Esse era o sistema que eu absorvi enquanto crescia: essa ideia de que se era menos caribenho do que, na verdade, inglês. É também algo de que tomei aguda consciência sempre que voltava à terra natal da minha mãe, Trinidad, onde, embora eu fosse negro, não era visto como trinitário, mas muitas vezes era apelidado de “o inglês”, porque eu falava de um jeito diferente de muitos dos meus primos e primas nas visitas que eu fazia.
Meu próprio trabalho ao longo dos anos inevitavelmente me levou a me reconectar com um sentido mais autêntico do que é ser afro-caribenho, africano, negro, ou qualquer termo que você escolha usar, qualquer termo com o qual eu escolha me identificar. Essa exploração contínua encontrou, e se chocou com, o trabalho que consegui fazer com uma cliente como Jaspreet, um trabalho que reacendeu em mim a paixão de seguir em frente. De continuar me encontrando, de continuar olhando para como muitas vezes preciso me adaptar a um ambiente eurocêntrico e, ao fazê-lo, acabo me perdendo e, por isso, desejando um sentido mais autêntico da minha própria identidade negra. Minhas identidades são hoje, portanto, menos cindidas do que talvez fossem quando eu estava crescendo ou quando fiz minha formação, aos trinta e poucos anos, e mais alinhadas com minhas convicções pessoais sobre quem sou e o caminho que quero seguir, e também a direção que incentivo minha filha a seguir. Essa é a coincidência.
A confissão final é esta: às vezes, ao escrever artigos como este, me sinto atraído pelo tema sem saber bem o que dizer. Esta foi uma dessas ocasiões em que, ao me sentar, pesquisar e escrever sobre para onde quero ir e como quero ser, gostei muito de todo o processo de montá-lo. Há uma leveza, uma centelha, uma intuição que acompanham o convite a explorar um tema tão rico quanto este, qualquer que seja a lente pela qual passe, inclusive a de trabalhar com terapeutas de família e ao seu lado; e o prazer que sinto ao compor este artigo, independentemente de como ele será recebido, é feito de materiais que me sugerem que este artigo, esta exploração, precisava acontecer.
Meu desejo para quem ler este artigo é que, seja o que for que se leve dele, isso faça aderir menos ao que digo como uma forma de verdade e, em vez disso, incentive a pensar em onde se está em relação às próprias identidades (no plural) nessas explorações. Não importa a sua identidade: celta, europeia, branca, negra, gay, lésbica, neurodivergente, mais velha ou mais jovem, ou qualquer outra forma de identidade; todas terão se formado em algum tipo de ambiente neurotípico, patriarcal, supremacista branco, heteronormativo, etarista e assim por diante. Compreenda-as, encontre-as e trabalhe nelas. Assim você descobrirá também quem você é.
Complexe Systémique: a reter
Este texto não é um estudo, mas um ensaio, escrito em primeira pessoa por um psicoterapeuta que não atua em terapia familiar, e é isso que o torna interessante. Ele convida a perguntar de onde vêm nossas evidências: uma teoria do apego pensada para a família nuclear ocidental, uma leitura da projeção que pressupõe um cônjuge escolhido, um ideal de afirmação de si que pode quebrar uma pessoa presa numa hierarquia familiar. A escolha clínica é instrutiva: oferecer a Jaspreet um espaço de alívio em vez de incentivá-la a implodir seu sistema. A fórmula “nós somos o sistema” ecoa, aliás, a cibernética de segunda ordem: quem observa faz parte daquilo que gostaria de mudar. Os limites são os do gênero: uma única vinheta, poucos instrumentos concretos para as famílias e generalizações amplas sobre o Norte global ou sobre a Austrália, abordada de longe, como o próprio texto reconhece. Para ler junto com o artigo sobre um paradigma afrocentrado na terapia familiar e com o artigo sobre a interseccionalidade na terapia familiar.
Referências
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Tradução não oficial em português de Do império à emancipação: possíveis caminhos decoloniais na terapia familiar, de Dwight Turner, Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, vol. 47, no 1 (2026), doi: 10.1002/anzf.70066, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Empire to Emancipation: Potential Decolonial Pathways in Family Therapy”, publicado em Australian and New Zealand Journal of Family Therapy (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Turner, D. (2026). Do império à emancipação: possíveis caminhos decoloniais na terapia familiar (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/do-imperio-a-emancipacao-possiveis-caminhos-decoloniais-na-terapia-familiar (Obra original publicada em 2026 em Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, 47(1), e70066 (2026); republicada em 2026 por Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/anzf.70066)
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