Conflict Resolution Quarterly · Mediação familiar

“Esforços para trazer à tona o não dito”: estudo de métodos mistos de uma conversa inicial atenta ao risco na mediação familiar norueguesa

Na Noruega, a mediação é obrigatória para genitores que se separam, e o risco de violência muitas vezes escapa ao acolhimento por telefone. A equipe de Jan Stokkebekk testou em sete centros uma conversa individual de cinco minutos, com duas perguntas sobre desconforto e insegurança, antes da primeira sessão conjunta. A classificação do risco muda em um caso a cada três, e é a distância entre as respostas dos dois genitores que melhor sinaliza um perigo oculto.

Autores Jan Stokkebekk (Unidade de Apoio e Desenvolvimento Profissional, equipe de aconselhamento familiar, Bufetat Região Leste); Trine Eikrem (atuação autônoma em psicologia clínica e consultoria em liderança, Oslo); Kristoffer Whittaker (Centro de Aconselhamento Familiar de Nedre Romerike, Bufetat Região Leste, Akershus), NoruegaPrimeira publicação Conflict Resolution Quarterly, 9 de junho de 2026Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de “Esforços para trazer à tona o não dito”: estudo de métodos mistos de uma conversa inicial atenta ao risco na mediação familiar norueguesa, de Jan Stokkebekk, Trine Eikrem e Kristoffer Whittaker, publicado na Conflict Resolution Quarterly (Wiley) (2026), doi: 10.1002/crq.70043, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de listas; as figuras permanecem em inglês, com legendas traduzidas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

O protocolo funciona não como instrumento de classificação, mas como uma abertura relacional capaz de alcançar riscos que escapam aos procedimentos de acolhimento.

Jan Stokkebekk, Trine Eikrem e Kristoffer Whittaker

Resumo

Na mediação familiar, o desconforto emocional e a sensação de insegurança podem sinalizar riscos relacionais mais profundos, entre eles a violência pós-separação. Na Noruega, os procedimentos habituais de acolhimento da mediação familiar dependem do que os pais e mães relatam a uma pessoa do atendimento administrativo, sem formação clínica, antes que exista qualquer relação terapêutica, e a pesquisa documenta uma subnotificação sistemática nessa etapa. Este estudo avalia um protocolo de conversa inicial breve, conduzida individualmente, desenvolvido no projeto de mediação atenta ao risco (RIM, risk-informed mediation), uma colaboração de pesquisa orientada para a prática entre equipes de mediação e de pesquisa, na qual a pessoa mediadora faz duas perguntas sobre a vivência no início da primeira sessão. Com um desenho de métodos mistos incorporado, combinamos a análise estatística de 322 casos de sete centros noruegueses de aconselhamento familiar com resultados qualitativos de um grupo focal da equipe de mediação de um dos centros. Cada centro forneceu dados de um período de mediação habitual (MAU, mediation-as-usual) e de um período RIM, o que permitiu comparar a categorização do risco nas duas condições. Testes qui-quadrado revelaram deslocamentos estatisticamente significativos em quatro dos sete centros. No período RIM, 9,5% dos casos foram recategorizados para cima e 23,2% para baixo após a conversa inicial. A assimetria diádica, definida como a divergência entre as respostas dos dois genitores, predisse a recategorização para cima, com razão de chances de 3,88, que subia para 7,21 nas díades de baixo risco. A equipe de mediação descreveu a conversa inicial como uma abertura relacional que fez surgir preocupações que os genitores não tinham levantado antes; as avaliações inalteradas não eram inertes, mas confirmavam um ponto de partida seguro. Os resultados dos métodos mistos convergem para uma única conclusão: o protocolo funciona não como instrumento de classificação, mas como uma abertura relacional capaz de alcançar riscos que escapam aos procedimentos de acolhimento. Os efeitos variam entre os centros, e os resultados trazem à tona três dilemas estruturais: até onde a investigação deve chegar; como uma pessoa mediadora que soube que um dos genitores teme a violência pode agir com base nesse conhecimento, num papel que não oferece nenhum mecanismo formal de proteção além dos deveres de notificação; e quanta competência interpretativa o protocolo exige de quem o utiliza.

1 Prólogo

“Às vezes eu me pergunto”, disse uma pessoa mediadora durante um intervalo de seminário, “se o que os pais chamam de desconforto não é, na verdade, medo.” A outra pessoa concordou com a cabeça. “Sim. E quando alguém diz que não se sente em segurança, eu sempre me pergunto: isso é tensão emocional, ou estamos deixando passar sinais de violência?”

2 Introdução

A conversa do prólogo, em que duas pessoas mediadoras se perguntavam se aquilo que os pais descrevem como desconforto não seria, na verdade, medo, ilustra um desafio recorrente da mediação familiar. Termos cotidianos como desconforto e não se sentir em segurança podem se referir a condições muito diferentes. Podem descrever um mal-estar comum, por exemplo o estresse de ir a um órgão público ou de falar de assuntos privados, mas também podem sinalizar um risco relacional grave, como controle coercitivo ou violência pós-separação. Toda intervenção precisa, portanto, ser sensível a essa gama. Deve evitar confundir um leve mal-estar com violência por parceiro íntimo, mas não pode depender de uma revelação explícita para levar o risco a sério. O desafio, então, é criar condições nas quais essas distinções possam ser ouvidas.

Na mediação familiar, o risco mais grave nessa ponta da gama é a violência pós-separação. Dados de pesquisas nacionais da Noruega indicam que cerca de 8% a 10% das mulheres e 2% a 3% dos homens relatam violência física grave por parceiro íntimo (Thoresen e Hjemdal 2014). O risco costuma aumentar em torno da separação, e a violência que persiste ou se agrava depois do fim de uma relação tem consequências bem documentadas para a saúde e a qualidade de vida (Seeberg e Bossy 2024). Na mediação familiar, a violência é registrada como tema em cerca de 13% dos casos entre 2019 e 2023, embora esses números se baseiem na lembrança da pessoa mediadora no encerramento do caso e provavelmente subestimem a prevalência real (Barne-, ungdoms- og familiedirektoratet [Diretoria Norueguesa da Infância, Juventude e Família] 2024).

2.1 O contexto norueguês da mediação

O contexto institucional norueguês molda a forma como essas preocupações são tratadas. A mediação é obrigatória para quaisquer genitores que se separem e têm filhos menores de 16 anos, haja ou não alguma disputa (Lei da Criança, seção 51; Tjersland et al. 2015). Isso difere da maioria dos países, onde a mediação obrigatória só se aplica quando os genitores querem recorrer à Justiça. Na Noruega, os genitores precisam comparecer à mediação tanto no momento da separação quanto antes de iniciar processos judiciais sobre guarda, residência ou convivência. O modelo cumpre, portanto, uma função preventiva no nível da população, buscando limitar o conflito e favorecer uma parentalidade cooperativa.

Por isso, a população da mediação é mais heterogênea do que na maioria dos estudos internacionais: inclui genitores que se separam de forma amigável e outros em conflito aberto, inclusive situações em que o risco relacional ou a violência podem estar presentes, mas menos visíveis. A mediação é oferecida sobretudo nos centros de aconselhamento familiar, que também oferecem terapia de casal, terapia familiar e cursos voltados às dificuldades relacionais. O serviço é previsto em lei e gratuito.

Como a mediação familiar é um serviço universal, ela precisa dar conta de situações que vão de casos cooperativos e de baixo conflito até casos com risco relacional grave. O sistema depende de uma diferenciação precoce, para que tempo, competência e medidas de segurança sejam direcionados para onde são mais necessários. Os casos são classificados com um instrumento de acolhimento de oito itens pontuados, aplicado por uma pessoa do atendimento administrativo sem formação clínica (Dittman et al. 2021). Os casos são classificados como A (baixo conflito), B (conflito moderado), C (alto conflito) ou C! (alto conflito com risco). Os casos C e C! exigem, por regulamento, duas pessoas mediadoras (Molden et al. 2019). Quando o desequilíbrio de poder é tão grave que a mediação conjunta não é viável, os genitores podem obter uma mediação separada, medida de proteção definida em lei e distinta da mediação de vaivém (shuttle mediation): cada genitor comparece em dias totalmente diferentes, e a agenda de cada um fica desconhecida do outro. Isso precisa ser decidido antes do envio da convocação formal para a mediação. Segundo a Lei da Criança (§§ 51-52) e a Lei do Casamento (§ 26), a finalidade da pessoa mediadora é ajudar os genitores a chegar a um acordo sobre responsabilidade parental, residência e convivência que atenda ao melhor interesse da criança; ela facilita esse processo, mas não tem autoridade para determinar seu resultado. O instrumento de acolhimento foi concebido sobretudo como mecanismo de alocação de recursos, e não como ferramenta clínica de rastreamento de riscos ocultos (Eikrem et al. 2023).

A mediação familiar norueguesa abrange dois tipos principais de caso. Os casos de separação e divórcio são abertos quando genitores com filhos menores de 16 anos se separam ou se divorciam, já que a lei exige o comparecimento. Os casos de disputa parental são abertos quando genitores já separados voltam ao serviço por desacordos persistentes sobre residência, convivência ou responsabilidade parental. Embora os casos de separação muitas vezes envolvam disputa parental, os dois tipos diferem pela base legal, pela etapa relacional em que surgem e, como mostra este estudo, pela forma como o risco é recategorizado após a conversa inicial.

2.2 Uma lacuna estrutural no acolhimento

O instrumento de acolhimento cumpre a função de alocação para a qual foi criado, mas seu desenho produz uma limitação estrutural: depende inteiramente do que os genitores decidem relatar num telefonema conduzido por uma pessoa do atendimento administrativo sem formação clínica, antes que qualquer relação clínica tenha sido estabelecida. Por causa das normas de proteção de dados, as informações individuais relatadas no telefonema de acolhimento não podem ser repassadas à pessoa mediadora que conduzirá a sessão; só a categoria agregada pode ser compartilhada. A origem da categoria fica inacessível à equipe clínica. A subnotificação está bem documentada: Dittman et al. (2021) constataram que um terço dos genitores minimizava suas dificuldades no acolhimento telefônico em comparação com um questionário eletrônico anônimo e que, entre os genitores que relataram violência ou uso problemático de substâncias no questionário, só 15% tinham mencionado isso no acolhimento.

2.3 Abordagens de identificação do risco

Internacionalmente, os esforços para enfrentar essa condição estrutural produziram uma série de instrumentos, situados num contínuo que vai do rastreamento psicométrico à investigação atenta ao risco (figura 1). Spangaro et al. (2009) distinguem o rastreamento de rotina, definido como a aplicação sistemática de um teste padronizado para identificar pessoas com risco suficiente, da investigação de rotina, que se apoia no julgamento clínico e não na lógica do teste. Na ponta do rastreamento, instrumentos como a RBRS (Beck et al. 2013), o DOVE (Ellis e Stuckless 2006) e o FL-DOORS (Booth et al. 2023) são abrangentes, validados e precisos quanto aos comportamentos. Sua limitação é estrutural: todos são aplicados antes de existir qualquer relação clínica e dependem da disposição de um genitor a se abrir com uma pessoa desconhecida da administração. Mais perto da ponta da investigação, o MASIC (Rossi et al. 2022, 2024) situa a avaliação numa entrevista clínica confidencial conduzida pela pessoa mediadora e identifica a violência por parceiro íntimo em 94% dos casos em que ela foi relatada, contra 38% num rastreamento geral com perguntas amplas (Rossi et al. 2024). Sua limitação é prática: o MASIC se mostrou demorado demais para uso rotineiro em condições normais de carga de trabalho (Rossi et al. 2024). Nenhum dos instrumentos existentes cobre a lacuna entre o acolhimento e a primeira sessão conjunta: o momento em que uma relação clínica acaba de se estabelecer e a revelação é mais possível, mas a conversa conjunta ainda não começou.

Contínuo horizontal que vai do rastreamento psicométrico à investigação não estruturada: teste padronizado (RBRS, DOVE, FL-DOORS), entrevista estruturada (MASIC, MASIC-S), investigação estruturada (RIM, presente estudo), investigação não estruturada (observação clínica).
Figura 1. Abordagens de identificação do risco na mediação familiar: um contínuo conceitual. O contínuo é uma construção analítica baseada na distinção conceitual entre rastreamento de rotina e investigação de rotina, a partir de Spangaro et al. (2009). Os limites entre as zonas são analíticos, não absolutos. DOVE, domestic violence evaluation; FL-DOORS, family law detection of overall risk screen; MASIC/MASIC-S, mediator's assessment of safety issues and concerns (versões completa e curta); RBRS, relationship behavior rating scale-revised; RIM, conversa inicial da mediação atenta ao risco (presente estudo). (Esquema original em inglês.)

2.4 A conversa inicial RIM

A conversa inicial RIM foi desenvolvida numa colaboração de baixo para cima entre equipes de campo e de pesquisa em dois centros de aconselhamento familiar de Oslo, antes de se ampliar para um estudo-piloto formal. Ela ocupa exatamente essa posição no contínuo: o início da primeira sessão de mediação, depois de estabelecida uma relação clínica, mas antes de começar a conversa conjunta. Cada genitor é convidado para uma breve conversa individual enquanto o outro espera do lado de fora. A pessoa mediadora faz duas perguntas, pontuadas de 0 a 10: “Numa escala de 0 a 10, quanto é desconfortável para você estar na mesma sala que a pessoa de quem você se separou?” e “Numa escala de 0 a 10, quanto você se sente em segurança para falar livremente e estar na mesma sala que a pessoa de quem você se separou?” Pontuações acima de 5 em qualquer uma das perguntas levam a uma pergunta de aprofundamento: “O que provoca em você esse desconforto ou essa insegurança?” As perguntas foram escolhidas justamente porque visam as duas dimensões da vivência apresentadas no início deste artigo: ubehag (o desconforto na situação de mediação) e utrygghet (a insegurança sentida em relação ao outro genitor). O formato de 5 minutos reflete as restrições da mediação obrigatória: breve o bastante para virar rotina, aberto o bastante para trazer à tona o que uma sessão conjunta abafaria. Cada genitor faz seu relato de forma independente, antes que qualquer um dos dois tenha ouvido a versão do outro. A responsabilidade da pessoa mediadora é dar seguimento ao que surgir. Spangaro et al. (2011) identificam três condições para a revelação: uma pergunta direta, uma pessoa de confiança que a faça e uma sensação de escolha. Os instrumentos baseados no acolhimento só atendem à primeira; o RIM atende às três. Como a mediação separada precisa ser decidida antes do envio da convocação formal, o risco identificado na conversa inicial não pode desencadear a passagem para a mediação separada, mas pode orientar a forma como a pessoa mediadora conduz a sessão e acionar os deveres legais de notificação. Mudanças legislativas recentes na Noruega tornaram essa lacuna mais premente.

2.5 Contexto legislativo

A nova Lei da Criança (Stortinget [Parlamento norueguês] 2025a, Prop. 117 L, 2024-2025) estabelece como regra padrão a autoridade compartilhada para decisões do dia a dia entre genitores que se separam, independentemente da capacidade de cooperação, o que gerou preocupação em várias organizações, para as quais essa regra pressupõe cooperação mesmo em casos com histórico de violência ou de controle coercitivo (Barneombudet [Ouvidoria norueguesa da criança] 2025; Stine Sofies Foundation et al. 2025; Norsk Psykologforening [Associação Norueguesa de Psicologia] 2024). Um conjunto paralelo de recomendações parlamentares aprovadas junto com a nova Lei da Criança estabelece que crianças expostas à violência cometida por um genitor, ou que a testemunham, não devem, como princípio geral, ter convivência com esse genitor (Stortinget [Parlamento norueguês] 2025b, Recomendação n.º 526 L, 2024-2025).

Essas resoluções reforçam a proteção das crianças, mas não estendem disposições equivalentes às partes adultas quando há histórico de violência ou de controle coercitivo. O conflito pós-separação abrange um amplo contínuo, de desacordos passageiros a uma hostilidade arraigada (Smyth e Moloney 2019), e termos como “alto conflito” podem esconder diferenças importantes entre desacordo mútuo e controle coercitivo. A capacidade de distinguir conflito de coerção é, portanto, central para uma prática segura da mediação.

2.6 O presente estudo

Este artigo apresenta os resultados de um estudo de métodos mistos incorporado sobre o protocolo de mediação atenta ao risco (RIM), realizado em sete centros de aconselhamento familiar entre novembro de 2024 e fevereiro de 2025. O estudo seguiu uma abordagem de pesquisa orientada para a prática (Castonguay e Muran 2015), que integra a coleta sistemática de dados à prática clínica rotineira da mediação.

O estudo teve dois objetivos principais. Primeiro, examinar se o protocolo de conversa inicial breve estava associado a mudanças na categorização do risco feita pelas pessoas mediadoras nos centros participantes. Segundo, explorar como a equipe de mediação vivenciou, interpretou e integrou o protocolo ao trabalho cotidiano. Um foco analítico central dizia respeito ao significado clínico da assimetria diádica, isto é, a divergência entre as respostas dos genitores às perguntas da conversa inicial, como possível preditor da recategorização. Esse foco parte do pressuposto de que relatos assimétricos dentro de uma díade parental podem revelar diferenças clinicamente significativas de exposição à insegurança ou ao risco, difíceis de identificar em contextos de mediação conjunta, com implicações diretas para a forma como o risco é identificado e tratado na prática. Uma terceira questão, a de saber se respostas divergentes entre os genitores predizem a recategorização para cima e o que essa assimetria revela sobre a distribuição do risco dentro de uma díade, foi definida como objetivo secundário após um primeiro exame dos dados.

Quatro questões de pesquisa orientaram o estudo:

  1. Em que medida o protocolo de conversa inicial esteve associado a mudanças nas avaliações de risco nos centros participantes?
  2. Como as pessoas mediadoras vivenciaram e compreenderam o protocolo na prática cotidiana?
  3. De que maneira o material qualitativo ajudou a explicar os padrões quantitativos observados?
  4. Respostas divergentes entre os genitores predizem a recategorização e, em caso afirmativo, o que a assimetria diádica revela sobre a forma como o risco pode se distribuir dentro de uma díade parental?

3 Métodos

3.1 Desenho

O estudo utilizou um desenho de métodos mistos incorporado, com vertente quantitativa dominante (Creswell e Clark 2017; ver figura 2). Dados qualitativos de um centro selecionado foram integrados à vertente quantitativa na etapa de interpretação, com os resultados do centro 2 contextualizando os padrões observados no conjunto dos sete centros.

Esquema do desenho de métodos mistos incorporado: uma vertente quantitativa dominante que contém uma vertente qualitativa, reunidas no momento da interpretação.
Figura 2. Desenho de métodos mistos incorporado, com vertente quantitativa dominante. Adaptado de Creswell e Clark (2017). O componente qualitativo está incorporado à vertente quantitativa para oferecer uma explicação contextual e aprofundar a interpretação. (Esquema original em inglês.)

3.2 Participantes

Os dados quantitativos foram coletados em 322 casos de mediação de sete centros noruegueses de aconselhamento familiar entre novembro de 2024 e fevereiro de 2025. Os casos que obtiveram mediação separada já no acolhimento foram excluídos. Os centros representavam diversidade geográfica e demográfica. As pessoas mediadoras vinham sobretudo do serviço social, com formação em terapia familiar, ou atuavam na psicologia, com registro profissional. Um centro (o centro 2) forneceu dados quantitativos (n = 66) e também participou de uma entrevista de grupo focal qualitativa com seis pessoas mediadoras.

Tanto na MAU quanto no RIM, as pessoas mediadoras exercem um julgamento clínico contínuo sobre o risco ao longo de todo o processo de mediação, inclusive nas decisões sobre comediação, estrutura das sessões e realização de conversas individuais ou conjuntas. A variável de desfecho formal difere entre os dois períodos. No período MAU, o desfecho é a avaliação clínica do risco feita pela pessoa mediadora e registrada no encerramento do caso, como parte da prática administrativa rotineira. No período RIM, o desfecho é a categorização clínica do risco feita pela pessoa mediadora e registrada num breve questionário de pesquisa preenchido logo após a conversa inicial, no começo da primeira sessão de mediação. Nos dois períodos, essa categorização clínica é comparada com a categoria de acolhimento derivada do instrumento de oito itens.

3.3 Coleta de dados

3.3.1 Procedimentos de acolhimento e categorização na mediação habitual (MAU)

Antes da implantação do protocolo RIM, todos os casos eram categorizados por meio de um procedimento padrão de acolhimento por telefone, aplicado por uma pessoa do atendimento administrativo sem formação clínica. O instrumento reúne oito perguntas pontuadas sobre a base legal da mediação, desacordos sobre residência e convivência, conflito coparental, duração das dificuldades, confiança no outro genitor como pessoa cuidadora da criança, processos judiciais anteriores e problemas ligados ao uso de substâncias ou à violência (Dittman et al. 2021).1 As respostas são somadas numa pontuação total que classifica os casos como A, B, C ou C!. O instrumento foi desenvolvido a partir da experiência prática, e não de uma validação psicométrica (Dittman et al. 2021).

3.3.2 O protocolo de conversa inicial RIM e sua implementação

Na primeira sessão de mediação do período RIM, cada genitor foi convidado para uma breve conversa inicial individual, com as duas perguntas estruturadas descritas na seção 1. Pontuações acima de 5 levavam a uma pergunta de aprofundamento sobre a origem do desconforto ou da insegurança. As respostas eram anotadas como notas de trabalho e não entravam no prontuário oficial. A conversa durava em geral 5 minutos por genitor. A avaliação revisada do risco pela pessoa mediadora era feita logo após a conversa inicial com os dois genitores, antes do início da sessão conjunta. A categorização de acolhimento é feita por uma pessoa da administração antes de existir qualquer relação clínica; a conversa inicial RIM é conduzida pela pessoa mediadora, que tem formação clínica, na primeira sessão. São processos de avaliação qualitativamente diferentes, realizados por papéis diferentes.

3.4 Estratégia analítica: a recategorização do risco como desfecho

Comparamos as avaliações de risco revisadas pelas pessoas mediadoras após a conversa inicial com a categorização inicial do acolhimento, agrupando as mudanças em risco menor, inalterado ou risco maior. Uma assimetria estrutural importante pesa sobre a interpretação: no período MAU, a variável de desfecho é a avaliação da pessoa mediadora no encerramento do caso, enquanto no período RIM é a avaliação feita logo após a conversa inicial, no começo da primeira sessão. Isso limita a comparação direta e é reconhecido como limitação. Outra restrição interpretativa diz respeito especificamente à categoria B. Quando os dois genitores respondem no acolhimento e suas pontuações diferem, a pontuação mais alta determina a categoria atribuída. Quando só um genitor responde, qualquer pontuação na faixa A é automaticamente elevada para B, por precaução (Dittman et al. 2021). A regra da pontuação mais alta se aplica à categorização de acolhimento tanto na MAU quanto no RIM, pois os procedimentos de acolhimento são idênticos nos dois períodos. A reavaliação clínica posterior da pessoa mediadora (no encerramento do caso na MAU e após a conversa inicial no RIM) é um julgamento clínico não regido por essa regra algorítmica. Os casos da categoria B não podem, portanto, ser tratados como um grupo homogêneo: podem refletir um conflito realmente intermediário, um desacordo diádico ou dados de acolhimento incompletos, vindos de um único genitor. Por isso, foi feita uma análise complementar que limitou a comparação aos casos da categoria B e acima (B+). Os casos da categoria A se parecem mais com uma consulta familiar do que com uma mediação no sentido convencional (Wing 2009), e incluí-los pode diluir efeitos que só são relevantes nos casos em que há conflito ou risco já no acolhimento.

3.5 Análise quantitativa

Os dados quantitativos foram analisados no IBM SPSS (versão 29.0.2.0). Testes qui-quadrado avaliaram a mudança de distribuição após a conversa inicial. Foram construídas matrizes de transição, distribuições de frequência e tabulações cruzadas para identificar padrões de recategorização. Tamanhos de efeito (V de Cramér) foram calculados quando pertinente. Análises diádicas examinaram se respostas assimétricas entre os genitores prediziam a recategorização para cima.

3.6 Análise qualitativa

Os dados qualitativos do centro 2 foram analisados por análise temática reflexiva (Braun e Clarke 2006, 2019, 2024). O grupo focal foi realizado pelo Microsoft Teams, gravado e transcrito. A segunda pessoa autora conduziu a entrevista; a primeira e a terceira participaram como observadoras. Uma sessão posterior de reflexão também foi transcrita e incluída na análise. A integração ocorreu dentro do próprio centro 2, onde os dados quantitativos e qualitativos foram interpretados lado a lado, e no plano interpretativo, em nível regional, onde os resultados do centro 2 contextualizaram padrões mais amplos dos sete centros. Apresentações conjuntas (joint displays) permitiram identificar resultados convergentes e divergentes (Creswell e Clark 2017).

3.7 Considerações éticas

O estudo foi realizado no serviço público norueguês de aconselhamento familiar (Bufetat) e aprovado pela pessoa encarregada da proteção de dados de Bufetat antes da coleta. Pelas normas norueguesas de governança da pesquisa, estudos realizados como parte do desenvolvimento rotineiro de serviços dentro de um órgão público, e que não envolvem coleta direta de dados sensíveis das pessoas atendidas, são avaliados pela função institucional de proteção de dados, e não por um Comitê Regional de Ética (REK). Esse é o mecanismo de supervisão adequado segundo a regulamentação norueguesa aplicável. Os dados quantitativos foram extraídos de registros administrativos gerados no funcionamento normal do serviço; nenhum dado das pessoas atendidas foi coletado como dado primário de pesquisa. As pessoas mediadoras que participaram das entrevistas de grupo focal foram informadas sobre o objetivo do estudo e sobre a possibilidade de suas contribuições, inclusive citações diretas, serem usadas em publicações; a participação foi voluntária do início ao fim. Todos os dados foram anonimizados e os procedimentos de segurança de dados foram seguidos. O protocolo foi concebido para reduzir ao mínimo o sofrimento, e a equipe de mediação recebeu formação para responder de modo adequado a qualquer revelação.

3.8 Reflexividade da equipe de pesquisa

As três pessoas da equipe de pesquisa atuam no campo norueguês da mediação, o que as posiciona como pesquisadoras de dentro, com acesso à prática e responsabilidades nela. A reflexividade, tal como usada aqui, refere-se a um processo contínuo em que as equipes de campo e de pesquisa examinam seus próprios pressupostos, valores e reações em relação às pessoas com quem trabalham (Rothman 2014). Dois níveis são relevantes aqui. No nível da prática, trata-se de atentar para a forma como o posicionamento e as reações da pessoa mediadora moldam o encontro clínico (Stokkebekk 2024). No nível da pesquisa, envolve examinar criticamente como a inserção no campo, o compromisso prévio com a intervenção e a posição interna moldam a interpretação e o relato dos resultados. A reflexividade operou nos dois níveis (Braun e Clarke 2019; Whittaker et al. 2023), com base no realismo crítico e num construcionismo social moderado.

4 Resultados

4.1 Resultados quantitativos

4.1.1 Comparação entre MAU e RIM

Para avaliar o efeito do protocolo RIM, comparamos as recategorizações do risco em sete centros durante os períodos MAU e RIM descritos na seção 2.

A tabela 1 apresenta a recategorização por centro. Deslocamentos nítidos aparecem sobretudo nos centros 3, 4 e 7, com movimentos nos dois sentidos, o que sugere que o protocolo revelou riscos tanto subestimados quanto superestimados.

Tabela 1 — Recategorização do risco por centro: MAU e RIM (porcentagens e frequências)

  • Centro 1. Risco menor: MAU 8,5% (13), RIM 15,5% (18); inalterado: MAU 81,0% (124), RIM 77,6% (90); risco maior: MAU 10,5% (16), RIM 6,9% (8).
  • Centro 2. Risco menor: MAU 6,9% (36), RIM 21,2% (14); inalterado: MAU 77,1% (400), RIM 66,7% (44); risco maior: MAU 16,0% (83), RIM 12,1% (8).
  • Centro 3. Risco menor: MAU 5,8% (14), RIM 22,5% (32); inalterado: MAU 80,4% (193), RIM 66,2% (94); risco maior: MAU 13,8% (33), RIM 11,3% (16).
  • Centro 4. Risco menor: MAU 5,3% (8), RIM 15,9% (14); inalterado: MAU 80,8% (122), RIM 79,5% (70); risco maior: MAU 13,9% (21), RIM 4,5% (4).
  • Centro 5. Risco menor: MAU 16,5% (36), RIM 22,5% (18); inalterado: MAU 68,8% (150), RIM 67,5% (54); risco maior: MAU 14,7% (32), RIM 10,0% (8).
  • Centro 6. Risco menor: MAU 8,2% (5), RIM 40,0% (4); inalterado: MAU 83,6% (51), RIM 60,0% (6); risco maior: MAU 8,2% (5), RIM 0,0% (0).
  • Centro 7. Risco menor: MAU 10,7% (19), RIM 33,8% (48); inalterado: MAU 70,1% (124), RIM 53,5% (76); risco maior: MAU 19,2% (34), RIM 12,7% (18).

Nota: as porcentagens podem não somar 100 por causa de arredondamentos. “Risco menor”, “inalterado” e “risco maior” indicam o sentido da mudança entre a categoria de acolhimento e a avaliação clínica posterior da pessoa mediadora, registrada no encerramento do caso na MAU e logo após a conversa inicial no RIM. Abreviaturas: MAU, período de mediação habitual (linha de base); RIM, período de mediação atenta ao risco (intervenção).

A tabela 2 resume os testes estatísticos. Os testes qui-quadrado revelaram diferenças significativas nos centros 2 (χ2 = 15,361, p = 0,001), 3 (χ2 = 23,496, p < 0,001), 4 (χ2 = 11,470, p = 0,003) e 7 (χ2 = 25,462, p < 0,001). O centro 6 apresentou um resultado nominalmente significativo (χ2 = 8,271, p = 0,016), mas foi excluído da contagem por causa do tamanho muito pequeno de sua amostra RIM (N = 10). O protocolo influenciou de modo mensurável a avaliação do risco feita pelas pessoas mediadoras, ainda que com variações entre os centros.

Tabela 2 — Resultados estatísticos por centro

  • Centro 1. χ2 = 3,859; p = 0,145; V de Cramér = 0,120; significativo: —.
  • Centro 2. χ2 = 15,361; p = 0,001; V de Cramér = 0,162; significativo: sim.
  • Centro 3. χ2 = 23,496; p < 0,001; V de Cramér = 0,248; significativo: sim.
  • Centro 4. χ2 = 11,470; p = 0,003; V de Cramér = 0,219; significativo: sim.
  • Centro 5. χ2 = 2,126; p = 0,345; V de Cramér = 0,084; significativo: —.
  • Centro 6. χ2 = 8,271; p = 0,016; V de Cramér = 0,341; significativo: —a.
  • Centro 7. χ2 = 25,462; p < 0,001; V de Cramér = 0,283; significativo: sim.

a Centro 6 excluído da contagem de resultados significativos por causa do pequeno tamanho de sua amostra RIM (N = 10).

Os tamanhos de efeito (V de Cramér) variaram de pequenos (centro 1: V = 0,120; centro 2: V = 0,162) a moderados (centros 3-4: V = 0,248 e 0,219), sendo os mais fortes os dos centros 6 e 7 (V = 0,341 e 0,283), o que sugere que o contexto local de implementação modula o efeito. Tendo estabelecido que o protocolo teve um efeito mensurável em quatro centros, passamos à distribuição das recategorizações no conjunto da amostra.

4.1.2 Padrões de recategorização do risco no período RIM

Em seguida, examinamos a distribuição das recategorizações no período RIM. Dos 322 casos de mediação, 67,3% das avaliações (n = 217) permaneceram inalteradas após a conversa inicial, 23,2% (n = 74) foram recategorizadas para risco menor e 9,5% (n = 31) para risco maior. Um teste qui-quadrado confirmou um deslocamento global estatisticamente significativo (χ2(2) = 9,96, p = 0,0069; V de Cramér = 0,161), com poder estimado de 1,0.

A figura 3 apresenta uma matriz de transição para os 322 casos de mediação, que mostra como os casos se moveram entre a categoria de risco do acolhimento e a categoria após a conversa inicial. As linhas representam a categoria de risco inicial no acolhimento (A, B, C, C!), as colunas a categoria após a conversa inicial; os valores da diagonal (por exemplo, A → A) indicam avaliações inalteradas, e os valores fora da diagonal indicam recategorização, para cima ou para baixo. Seis casos avaliados inicialmente como de alto risco (C!) foram reclassificados como de baixo risco (A), o que sugere superestimação no acolhimento ou subnotificação na conversa inicial. Apenas um caso foi recategorizado de A para C!, o que indica que o protocolo não produziu deslocamentos extremos para cima, de baixo para alto risco.

Matriz de transição entre a categoria de risco no acolhimento (linhas A, B, C, C!) e a categoria após a conversa inicial (colunas), para 322 casos.
Figura 3. Matriz de transição. Esta matriz inclui os 322 casos de mediação. As linhas representam a categoria de risco inicial no acolhimento, e as colunas, a categoria após a conversa inicial. Os valores da diagonal (por exemplo, A → A) indicam os casos cuja categoria permaneceu inalterada. (Esquema original em inglês.)

4.1.3 Recategorização por tipo de mediação: casos B+

Uma análise complementar restrita aos casos da categoria B e acima (B+, n = 202 no período RIM) examinou se os padrões de recategorização diferiam segundo o tipo de mediação. Entre os casos B+ de separação e divórcio, 49,5% foram recategorizados para baixo após a conversa inicial, contra 26,8% entre os casos B+ de disputa parental, uma diferença estatisticamente significativa (χ2 = 11,9, p = 0,003). A recategorização para cima foi comparável entre os tipos (separação e divórcio: 11,0%; disputa parental: 9,3%). Quando os casos B+ de disputa parental foram comparados diretamente com a população de referência B+ do período MAU (n = 967), não se encontrou diferença significativa (χ2 = 0,7, p = 0,695), o que indica que o perfil de recategorização das disputas parentais coincidia de perto com o julgamento clínico exercido sem a conversa inicial estruturada. A mesma comparação para os casos B+ de separação e divórcio mostrou uma diferença altamente significativa (χ2 = 37,8, p < 0,001). Esses padrões sugerem que o efeito agregado do RIM se deve sobretudo aos casos de separação e divórcio. Para além do tipo de mediação, uma segunda questão diz respeito ao que, em cada díade, prediz a recategorização para cima.

4.1.4 A assimetria diádica como preditor da recategorização do risco

Para explorar as dinâmicas relacionais subjacentes à avaliação do risco, examinamos se a assimetria diádica, definida como a divergência entre as respostas dos genitores a qualquer uma das duas perguntas da conversa inicial, predizia a recategorização para cima após o protocolo RIM. Num modelo de regressão logística simples (tabela 3), a assimetria diádica predisse significativamente uma categorização de risco mais alta (B = 0,987, EP = 0,407, z = 2,426, p = 0,015), com razão de chances de 2,68. Um modelo multivariado produziu um efeito mais forte (B = 1,356, EP = 0,387, z = 3,50, p < 0,001; RC = 3,88), indicando que as díades com relatos assimétricos tinham quase quatro vezes mais chances de ser reclassificadas para cima.

Tabela 3 — Regressão logística: a assimetria como preditor da recategorização para cima

  • Modelo simples. B = 0,987; EP = 0,407; z = 2,426; p = 0,015; RC = 2,68; IC 95% [1,21-5,93].
  • Modelo multivariado. B = 1,356; EP = 0,387; z = 3,50; p < 0,001; RC = 3,88; IC 95% [1,82-8,30].

Nota: regressão logística com a recategorização do risco para cima como desfecho (0 = não, 1 = sim).

As tabelas 3 e 4 apresentam dois componentes da mesma análise diádica e estão numeradas de acordo. Uma análise estratificada (tabela 4) agrupou as díades em categorias de risco baixo (0-1), médio (2-3) e alto (4 ou mais), com base num índice composto de 10 indicadores de risco. A assimetria só teve efeito significativo nas díades de baixo risco (RC = 7,21, p < 0,001), o que destaca o papel da conversa inicial em revelar preocupações ocultas quando o risco inicial parece baixo. Quando os indicadores de risco individuais (por exemplo, medo da outra parte da antiga relação, insegurança no contexto da mediação, insegurança não ligada à violência) foram testados separadamente em modelos multivariados, nenhum atingiu significância estatística. É a discrepância entre os genitores, e não um fator de risco isolado, que acende o alerta.

Tabela 4 — Regressão logística estratificada pelo nível de risco na conversa inicial RIM

  • Risco baixo (0-1). n (díades) = 142; RC = 7,21; IC 95% [2,89-18,0]; p < 0,001.
  • Risco médio (2-3). n (díades) = 104; RC = 1,43; IC 95% [0,57-3,59]; p = 0,446.
  • Risco alto (4 ou mais). n (díades) = 76; RC = 1,12; IC 95% [0,38-3,28]; p = 0,836.

Nota: regressão logística estratificada por um nível de risco composto, baseado em 10 indicadores de risco da conversa inicial RIM. Abreviatura: RC, razão de chances.

4.1.5 Padrões de gênero no relato do risco

Para explorar como o desconforto e a insegurança eram relatados dentro das díades, analisamos os indicadores de risco no nível diádico. Entre as 93 díades em que pelo menos um genitor relatou risco, foram identificadas três configurações: os dois genitores relataram pelo menos um fator de risco; só a mãe relatou risco; só o pai relatou risco.

A figura 4 ilustra a distribuição dos relatos simétricos e assimétricos para cada indicador de risco, distinguindo os casos em que os dois genitores, nenhum deles ou só um relatou aquele indicador. Os indicadores de desconforto eram relatados com mais frequência de forma simétrica, o que sugere um mal-estar emocional compartilhado. Os indicadores de insegurança, entre eles violência por parceiro íntimo, ameaças e uso de substâncias, eram relatados predominantemente de forma assimétrica, o que aponta para experiências divergentes dentro da mesma díade. Entre os casos assimétricos, as mães relatavam com mais frequência violência anterior por parceiro íntimo e desconfiança ligada aos cuidados com a criança; os pais expressavam com mais frequência uma insegurança não ligada à violência e preocupações com a saúde mental da outra parte.

Gráfico de barras do número de díades: os dois genitores relataram risco (concordante, n = 68, 42%), só um genitor (assimétrico, n = 74, 46%), nenhum, mas caso reclassificado (latente, n = 19, 12%).
Figura 4. Configurações diádicas do risco entre os casos com pelo menos um relato de risco. Os casos assimétricos (só um genitor) mostraram a associação mais forte com a recategorização para cima, sobretudo nas díades com pontuações de risco iniciais baixas. (Esquema original em inglês.)

A proporção global de genitores que relataram pelo menos um indicador de risco foi semelhante entre os gêneros (19,8% das mães e 21,8% dos pais), o que sugere que ambos relatam risco em taxas comparáveis, mas com conteúdo qualitativamente diferente. A vertente quantitativa estabelece o que a conversa inicial muda; a vertente qualitativa, do centro 2, mostra como as pessoas mediadoras vivenciaram essas mudanças e lhes deram sentido.

4.2 Resultados qualitativos

Três temas foram desenvolvidos a partir das entrevistas de grupo focal do centro 2, explorando como a conversa inicial moldou o papel da pessoa mediadora. O primeiro, “Uma porta aberta para o não dito”, descreve como a equipe de mediação vivenciou a conversa inicial como a criação de um momento em que os genitores podiam nomear preocupações que os procedimentos de acolhimento não tinham alcançado, um momento marcado por profundidade emocional e por uma sensação de reconhecimento individual. O segundo, “Sustentar o espaço sem tomar conta”, capta a tensão entre essa profundidade emocional e o enquadre não terapêutico da mediação. O terceiro, “Equilibrar estrutura e sensibilidade”, reflete as negociações práticas da equipe de mediação entre procedimento padronizado e discernimento profissional, incluindo dificuldades com a terminologia e com intérpretes. Um artigo futuro apresentará o material qualitativo das três entrevistas de grupo focal.

Os três temas espelham os três padrões quantitativos. Os 9,5% de casos recategorizados para cima correspondem ao que a equipe de mediação descreveu no tema 1, “Uma porta aberta para o não dito”: algo se revelou que o procedimento de acolhimento não tinha alcançado. Os 67,3% de avaliações inalteradas remetem ao tema 2, “Sustentar o espaço sem tomar conta”: a conversa inicial confirmou um ponto de partida seguro, em vez de revelar uma nova preocupação. Os 23,2% de casos recategorizados para baixo remetem ao que a equipe descreveu como “Equilibrar estrutura e sensibilidade”: a conversa inicial às vezes confirmava que uma categoria de acolhimento refletia uma pontuação de precaução em condições de incerteza, e não um risco confirmado, e a conversa direta com uma pessoa da clínica reduzia a preocupação, em vez de ampliá-la. Juntas, as vertentes quantitativa e qualitativa sugerem que o alcance do protocolo não está apenas nos casos que ele reclassifica, mas nas condições relacionais que cria: um momento estruturado em que o relato de cada genitor se forma de maneira independente, antes que qualquer um dos dois tenha ouvido a versão do outro.

5 Discussão

O resultado central deste estudo é que uma breve conversa inicial sobre o risco, conduzida individualmente, pode revelar preocupações que os procedimentos habituais de acolhimento não alcançam, não principalmente por reclassificar casos, mas por criar um momento relacional em que os genitores podem dizer o que não podiam, ou não queriam, dizer numa entrevista por telefone ou numa sessão conjunta. Na experiência da equipe de mediação, a conversa inicial foi uma intervenção relacional enxertada num procedimento administrativo.

5.1 Recalibragem ou ocultação? Interpretar a recategorização para baixo

A predominância de movimentos para baixo, da categoria de acolhimento para a avaliação da pessoa mediadora após a conversa inicial, no período RIM, exige interpretação. O movimento para baixo pode refletir quatro processos: superestimação no acolhimento, quando a regra de pontuação infla as estimativas diante de respostas incertas (Dittman et al. 2021); esclarecimento de uma ambiguidade real; supressão no encontro face a face; ou um efeito continente do contato com o serviço, em que a entrada num encontro clínico pode, por si só, reduzir a insegurança vivida. Spangaro et al. (2009) defendem que o próprio rastreamento constitui uma intervenção: receber a pergunta diretamente pode mudar a forma como um genitor entende a própria situação, o que apoia a interpretação de que as categorias inalteradas não são resultados passivos.

Duas características estruturais do instrumento de acolhimento ajudam a explicar a predominância dos movimentos para baixo. A regra de pontuação trata uma resposta incerta à pergunta sobre violência e uso de substâncias como equivalente a um risco confirmado. Um mecanismo paralelo eleva automaticamente para B as pontuações da faixa A quando só um genitor respondeu (Dittman et al. 2021). As duas regras pecam pelo excesso de cautela, mas produzem linhas de base infladas. O padrão de movimento para baixo é coerente com um protocolo que confirma níveis de risco realmente baixos que a pontuação de precaução do acolhimento tinha encoberto, sobretudo nos casos de separação e divórcio, em que as elevações por resposta única são mais comuns.

Ao mesmo tempo, a subnotificação no acolhimento telefônico está bem documentada (Dittman et al. 2021), e uma conversa inicial estruturada com uma pessoa da clínica, de confiança, pode revelar o que a entrevista por telefone não revelou. Os dados atuais não permitem separar a correção de pontuações de acolhimento infladas da revelação real de um risco silenciado, mas os dois processos produziriam o padrão observado de recategorização predominantemente para baixo. A primeira interpretação (superestimação no acolhimento pelas regras de pontuação de precaução) e a segunda (esclarecimento de uma ambiguidade real) sugerem que o protocolo funciona como previsto, corrigindo linhas de base infladas. A quarta, o efeito continente do contato com o serviço, também é coerente com o funcionamento esperado. A terceira, a supressão no encontro face a face, não pode ser resolvida com os dados atuais, pois a supressão produziria o mesmo padrão observável que a correção. Se a conversa inicial revela ou oculta depende em parte do que ela pergunta, e esse é o primeiro dos três dilemas estruturais que os resultados trazem à vista.

5.2 Dilema 1: o alcance, nem estreito demais nem amplo demais

O protocolo de conversa inicial enfrenta um dilema de alcance que não tem solução limpa. Se fizer apenas duas perguntas amplas sobre a vivência, identifica que algo está presente sem identificar o quê, deixando a pessoa mediadora com um sinal, mas sem conteúdo. Se se estender a perguntas específicas sobre comportamentos (violência, ameaças, situação da criança), corre o risco de ultrapassar as condições relacionais que tornam a revelação possível em primeiro lugar e de empurrar a pessoa mediadora para um papel de avaliação clínica que o mandato da mediação não sustenta. A conversa inicial RIM faz duas perguntas e aprofunda quando as pontuações passam de cinco. Não pergunta sobre violência, uso problemático de substâncias nem sobre a criança. O que ela faz é abrir um espaço em que os genitores podem trazer qualquer um desses temas, e os resultados qualitativos mostram que é o que acontece: as revelações trataram do medo do comportamento do outro genitor, da preocupação com a situação da criança e da capacidade parental, sendo as mães mais propensas a mencionar violência anterior e os pais, uma insegurança não ligada à violência. O FL-DOORS parte de uma premissa semelhante: perguntas amplas e não diretivas podem gerar revelações que perguntas direcionadas abafam (Booth et al. 2023). O custo dessa abordagem é a imprecisão diagnóstica. O protocolo sinaliza que algo está presente sem identificar o que é nem quem é responsável. Jaffe et al. (2008) defendem que o rastreamento precisa ir além e diferenciar a potência, o padrão e o principal autor da violência. O RIM não faz essa diferenciação. Ele cria a abertura; uma avaliação clínica mais aprofundada precisa vir depois. Esse alcance reflete a finalidade da mediação. Katz (2007) estabelece o contraste com a terapia: os sentimentos são reconhecidos, mas não elaborados, e o objetivo é o acordo, e não a mudança psicológica. Quando a violência está em jogo, a terapia envolve um planejamento de segurança e uma avaliação contínua sobre se é responsável continuar (Snellingen et al. 2024). Na mediação, a identificação do risco não se orienta para esse tipo de intervenção: seu objetivo é estabelecer se uma participação segura e igualitária é possível (Wing 2009). O que o RIM não trata é a informação que entra na primeira sessão antes de começar a conversa inicial: a categoria de acolhimento, cuja origem a pessoa mediadora não pode conhecer.

5.3 Dilema 2: neutralidade, assimetria e melhor interesse da criança

O dilema da neutralidade começa antes da primeira sessão. Quando os genitores chegam, a pessoa mediadora já tem uma categoria de risco derivada de uma entrevista por telefone conduzida por alguém da equipe administrativa. Um caso classificado como C! sinaliza que algo grave foi relatado, mas não indica quem relatou nem se o outro genitor sabe disso. A lei de proteção de dados impede o repasse dos relatos individuais: a categoria agregada pode ser compartilhada com a pessoa mediadora; a origem dela, não. Essa assimetria é uma consequência estrutural não intencional da aplicação das regras de proteção de dados a um procedimento administrativo de acolhimento que não foi pensado para esse fluxo de informação: o relato individual é classificado como dado pessoal sensível e não pode sair da função administrativa que o recebeu, nem mesmo para a pessoa da clínica que depois trabalhará com a família. A pessoa mediadora entra, portanto, na sessão conjunta sabendo que há risco, sem conhecer sua forma, sua direção, nem saber se os dois genitores têm conhecimento de que ele foi nomeado.

A conversa inicial entra nessa lacuna. Não resolve o problema de informação, mas lhe dá forma. Ao falar individualmente com cada genitor, a pessoa mediadora passa a saber não apenas que há risco, mas também algo sobre a experiência de quem ele reflete. Os resultados mostram que isso importa clinicamente: nenhum indicador de risco individual predisse sozinho a recategorização para cima, mas a assimetria diádica, sim, com razão de chances de 3,88, que subia para 7,21 nas díades de baixo risco. Esse resultado amplia a literatura sobre rastreamento, que tem modelado o risco sobretudo como uma propriedade individual (Beck et al. 2013; Booth et al. 2023; Jaffe et al. 2008). Se Jaffe et al. (2001) defendiam que o risco permanece invisível a menos que alguém pergunte, o presente resultado sugere que ele também permanece invisível a menos que os dois genitores sejam ouvidos separadamente e suas respostas comparadas. A conversa inicial também abre um espaço de ação limitado. Quando uma preocupação é revelada, a pessoa mediadora pode ajustar a forma de introduzir a sessão conjunta, considerar outras conversas individuais mais adiante no processo ou acionar os deveres legais de notificação, se o limiar for atingido. O protocolo não prescreve essas respostas, mas cria as condições em que elas se tornam possíveis.

Mas agir com base no que foi revelado não é simples. A mediação se apoia num pressuposto de igualdade processual, mas Wing (2009) argumenta que a confiança na neutralidade e na autodeterminação mascara a forma como a mediação pode reproduzir a desigualdade estrutural entre as partes. Quando um genitor tem medo da reação do outro, a condição prévia para um diálogo genuíno não está dada, por mais equilibrada que seja a distribuição do tempo de fala pela pessoa mediadora. A conversa inicial individual garante que o relato de cada genitor se forme de maneira independente, antes que qualquer um dos dois tenha ouvido a versão do outro.

A pessoa mediadora que conduziu a conversa inicial passa a deter uma informação assimétrica: um genitor pode ter revelado medo ou violência anterior, e o outro não. Ela precisa conduzir uma sessão conjunta a partir de uma posição formalmente definida como neutra, sabendo que os dois genitores não entram na sala em pé de igualdade; usar a informação sem quebrar a confidencialidade; moldar a sessão sem expor o genitor que se abriu; e sustentar uma obrigação ética com a criança que nenhuma das duas perguntas aborda diretamente. A conversa inicial pergunta sobre o desconforto e a insegurança de cada genitor, mas não sobre o que a criança vive na casa de onde vem o medo (Eikrem e Andenæs 2025). As pessoas mediadoras têm, pela Lei do Aconselhamento Familiar (seção 10), o dever legal de agir quando há motivo para crer que uma criança está em risco; no entanto, o protocolo que revela esse risco não oferece nenhum caminho estruturado para agir já na primeira sessão. A assimetria revelada pela conversa inicial vai além da díade: é também uma assimetria entre o que se sabe e o que se pode fazer. Os princípios de neutralidade, de reequilíbrio de poder e de melhor interesse da criança estão simultaneamente em jogo em toda mediação, e a conversa inicial põe os três em tensão ao mesmo tempo.

A conversa inicial cria, assim, ao mesmo tempo um dilema e um recurso: dá à pessoa mediadora algo com que trabalhar, o que o procedimento de acolhimento não dava, e a coloca numa posição que o mandato da mediação não consegue sustentar plenamente. A capacidade de sustentar essa posição depende tanto das condições em que o protocolo é praticado quanto do nível de habilidade, segurança e experiência de cada pessoa mediadora com as perguntas utilizadas, e esse é o terceiro dilema.

5.4 Dilema 3: a intensidade, nem exigente demais nem mínima demais

Um protocolo exigente demais ultrapassa as condições da prática cotidiana e acaba abandonado; um protocolo mínimo demais não produz recalibragem e nada acrescenta ao que a equipe de mediação já faz. A variação entre centros observada neste estudo corresponde diretamente a essa tensão. Quatro dos sete centros mostraram deslocamentos significativos na categorização do risco, e três não. O centro 7, que participou da fase pré-piloto, mostrou o efeito mais forte e tinha o maior número de casos RIM em relação ao seu tamanho, o que sugere que a prática acumulada com o protocolo amplia seu efeito. A ausência de efeito significativo em alguns centros pode refletir outra dinâmica: centros em que as pessoas mediadoras já identificam o risco de forma consistente no acolhimento podem mostrar pouco movimento com o RIM justamente porque o protocolo acrescenta menos ao que a boa prática já capta. Outra fonte de variação é a composição, por tipo, dos casos de cada centro. Como o efeito de recategorização se concentra nos casos B+ de separação e divórcio, os centros com maior proporção de casos de disputa parental tenderiam a mostrar efeitos agregados menores, independentemente da qualidade da implementação. Esse fator estrutural não foi controlado na análise por centro e deveria ser levado em conta em trabalhos comparativos futuros. Os instrumentos de rastreamento costumam ser abandonados quando ultrapassam as condições da prática cotidiana (Clemants e Gross 2007; Rossi et al. 2024; Sixsmith e Blakey 2025). O RIM responde a isso com brevidade, mas a brevidade não elimina a exigência interpretativa. O pré-piloto do centro 7 documentou uma dificuldade recorrente: as pessoas mediadoras tinham dificuldade em distinguir ubehag (desconforto) de utrygghet (insegurança), as duas noções que ancoram o protocolo. O desconforto com a situação de mediação e o medo do outro genitor podem se apresentar de modo parecido, e ouvir essa diferença, e responder a ela de forma clínica, e não procedimental, exige prática com as perguntas utilizadas (Eikrem et al. 2023). Isso pode explicar por que o efeito mais forte foi observado no centro que passou um ano inteiro desenvolvendo o protocolo de forma iterativa: não simplesmente porque a equipe usava a conversa inicial, mas porque tinha aprendido a usá-la. Isso é coerente com o balanço retrospectivo de 10 anos de Lee et al. (2021) sobre o rastreamento universal do risco numa organização australiana de mediação e aconselhamento, que também constatou que a familiaridade das equipes com o processo de rastreamento se acumulava com o tempo e influenciava a qualidade da identificação do risco.

Essa variação também está ligada à forma como o RIM foi desenvolvido. O protocolo nasceu de uma colaboração de baixo para cima entre equipes de mediação e de pesquisa, e não de testes psicométricos de itens. Um instrumento validado de modo mais formal talvez oferecesse maior precisão diagnóstica, mas a abordagem orientada para a prática oferece outra coisa: ferramentas que as equipes reconhecem como suas. O custo é uma precisão menor; o ganho é o uso efetivo, e é essa tensão entre precisão e viabilidade que os três dilemas, tomados em conjunto, nomeiam.

O que une os três dilemas é uma característica estrutural da conversa inicial que nenhum deles resolve: falar com cada genitor individualmente torna visível o que as sessões conjuntas abafam. Mães e pais revelaram risco em taxas comparáveis, mas com conteúdo qualitativamente diferente, e a distância entre seus relatos, a assimetria diádica, foi o único preditor consistente da recategorização para cima. A conversa inicial não elimina essa desigualdade; ela a nomeia. O centro 2 permite ler diretamente em conjunto as duas vertentes de evidência, e a apresentação conjunta abaixo mostra concretamente como isso se dá na prática.

5.4.1 Integração dos métodos mistos

A tabela 5 traz uma apresentação conjunta que integra os resultados quantitativos e qualitativos do centro 2, onde as duas vertentes foram coletadas. Todos os números quantitativos se referem aos casos do centro 2 (n = 66).

Tabela 5 — Apresentação conjunta dos resultados quantitativos e qualitativos do centro 2

  • 12% dos casos recategorizados para risco maior. Tema qualitativo: uma porta aberta para o não dito. Interpretação: a equipe de mediação descreveu a conversa inicial como a criação de um momento em que os genitores podiam nomear preocupações até então não levantadas, sobretudo o medo do outro genitor e a situação da criança.
  • 21% dos casos recategorizados para risco menor. Tema qualitativo: equilibrar estrutura e sensibilidade. Interpretação: a equipe de mediação observou que a conversa inicial às vezes revelava que uma categoria de acolhimento se baseava na incerteza, e não num risco confirmado, e que a conversa direta reduzia a preocupação, em vez de ampliá-la.
  • 67% dos casos permaneceram inalterados. Tema qualitativo: sustentar o espaço sem tomar conta. Interpretação: segundo a equipe de mediação, as categorias inalteradas não eram inertes: a conversa inicial confirmava um ponto de partida seguro e orientava a forma de introduzir a sessão conjunta.

Nota: todos os números quantitativos são do centro 2 (n = 66). Os temas qualitativos vêm dos dados do grupo focal do mesmo centro.

Tomadas em conjunto, as duas vertentes sustentam uma conclusão que nenhuma delas alcançaria sozinha: a conversa inicial funciona não como instrumento de classificação, mas como abertura relacional. Os 67% de casos inalterados não foram passivos: a equipe de mediação descreveu a confirmação de um ponto de partida seguro como algo clinicamente significativo em si.

6 Limitações

O desenho é naturalístico, sem controle de fatores de confusão nem avaliação sistemática da fidelidade de implementação. O instrumento de acolhimento com o qual o RIM é comparado não foi validado psicometricamente, e a recategorização observada reflete o efeito combinado do RIM e das propriedades desse instrumento, que não podem ser separados. O banco de dados não registra se um ou os dois genitores responderam no acolhimento, o que limita especificamente a interpretação dos padrões da categoria B. Os períodos MAU e RIM refletem lógicas de avaliação e momentos diferentes, o que limita a comparação direta. A possibilidade de generalização é limitada pelo contexto norueguês de mediação obrigatória e universal, estruturalmente diferente do de jurisdições em que a mediação só é buscada em casos litigiosos. A ordem das entrevistas não foi padronizada, a iniciativa da separação não foi registrada e a variação entre pessoas mediadoras não foi controlada. A conversa inicial RIM é aplicada uma única vez, no início da primeira sessão; o número de sessões por família varia conforme a categoria, e um único ponto de avaliação não consegue captar como a disposição a se abrir e o risco percebido podem mudar ao longo de uma trajetória de mediação mais longa.

7 Conclusão e implicações

Este estudo avaliou uma breve conversa inicial atenta ao risco na mediação familiar norueguesa. Os efeitos variam entre os centros, e o alcance do protocolo é restringido pela regulamentação existente. Este artigo relata a primeira fase de um programa de pesquisa orientada para a prática em três partes. O protocolo já está sendo ampliado para outros centros, e os presentes resultados alimentam diretamente esse trabalho de desenvolvimento. Essas implicações se apoiam no padrão central: a conversa inicial abriu um espaço para a revelação em vez de classificar o risco, a assimetria diádica foi o único preditor consistente da recategorização para cima, e a equipe de mediação a descreveu como uma porta aberta cujos resultados inalterados confirmavam um ponto de partida seguro.

Os resultados indicam que o RIM possibilita sobretudo a investigação. Ele abre um espaço para a revelação, em vez de classificar diretamente o risco. Posiciona-se como complemento dos procedimentos de acolhimento existentes, e não como substituto, e os dois são complementares, e não um compensando o outro. A investigação atenta ao risco reflete uma orientação clínica que mantém a atenção ao risco relacional junto com as responsabilidades mais amplas da pessoa mediadora, navegando entre o melhor interesse da criança, a neutralidade e o equilíbrio de poder (Stokkebekk 2024). O rastreamento e a investigação atenta ao risco podem atender a motivações para a revelação que se sobrepõem, mas são distintas. Há genitores que se abrem mais facilmente à distância, quando o anonimato baixa o limiar; outros só se abrem depois de estabelecidas uma relação clínica e uma sensação de confiança. São explicações concorrentes sobre o que favorece a revelação, e o presente estudo não as testa diretamente.

No RIM, as duas perguntas sobre a vivência funcionam como um ponto de partida, e não como uma avaliação completa. Elas baixam o limiar da revelação, estabelecem a legitimidade do tema e criam as condições relacionais em que os genitores podem formular suas preocupações na conversa inicial. Uma extensão estruturada, resumida na tabela 6, seguiria outra lógica. Se as perguntas sobre a vivência indagam como o genitor se sente, perguntas específicas sobre comportamentos indagam o que aconteceu. Rossi et al. (2022, 2024) mostram que essa distinção importa clinicamente: perguntas sobre sofrimento geral e perguntas sobre comportamentos específicos acessam dimensões diferentes do risco e se complementam, em vez de se substituírem. Um protocolo ampliado manteria, portanto, Q1 e Q2 como porta de entrada relacional e acrescentaria perguntas específicas sobre comportamentos de forma condicional, apenas quando pontuações acima de 5 sinalizarem que algo está presente. Os três domínios em que a subnotificação é mais comum nos dados noruegueses de acolhimento são o medo da reação do outro genitor, as ameaças e a violência, e a preocupação com a situação da criança. Saber se essas perguntas podem ser feitas em 5 minutos sem prejudicar a qualidade relacional é uma questão empírica que o projeto de desenvolvimento está em condições de investigar. Ampliar o protocolo levanta questões práticas de acompanhamento e de preparo do sistema: onde a violência for identificada, a rede de serviços precisa estar equipada para responder.

Tabela 6 — Proposta de protocolo ampliado de conversa inicial RIM: estrutura em cinco perguntas

  • Q1. Desconforto na situação de mediação (ubehag). Formato: escala de 0 a 10; acima de 5, pergunta aberta de aprofundamento. Justificativa: porta de entrada ampla sobre a vivência; normaliza a conversa; pontuação acima de 5 desencadeia o aprofundamento e indica se Q3 a Q5 serão aplicadas.
  • Q2. Insegurança para falar livremente e estar na mesma sala que o outro genitor (utrygghet). Formato: escala de 0 a 10; acima de 5, pergunta aberta de aprofundamento. Justificativa: passa do desconforto geral com a situação para a insegurança sentida em relação ao outro genitor; pontuação acima de 5 desencadeia o aprofundamento; junto com Q1, determina se Q3 a Q5 serão aplicadas.
  • Q3. Medo da reação do outro genitor depois da sessão de hoje. Formato: escala de 0 a 10 ou sim/não, com pergunta aberta de aprofundamento. Justificativa: faz a ponte entre a vivência na sessão e o risco pós-separação; acessa o controle coercitivo e o medo de consequências fora da sala de mediação (Rossi et al. 2024).
  • Q4. Experiência de violência ou ameaças por parte do outro genitor. Formato: sim/não, com pergunta aberta de aprofundamento. Justificativa: pergunta específica sobre comportamentos; amplia a identificação de violência por parceiro íntimo que as perguntas sobre a vivência podem não detectar (Dittman et al. 2021; Rossi et al. 2022).
  • Q5. Preocupação séria com a segurança da criança ou com os cuidados que ela recebe junto ao outro genitor. Formato: sim/não, com pergunta aberta de aprofundamento. Justificativa: visa diretamente a situação da criança; aciona o dever legal de notificação (Lei do Aconselhamento Familiar, seção 10).

Nota: as perguntas 1 e 2 constituem o atual protocolo RIM. As perguntas 3 a 5 representam uma ampliação proposta. Q1 e Q2 são perguntas sobre a vivência que baixam o limiar da revelação; pontuações acima de 5 em qualquer uma delas desencadeiam o aprofundamento aberto e determinam se Q3 a Q5 serão aplicadas. As perguntas específicas sobre comportamentos dependem dessa primeira camada, voltada à vivência; não são aplicadas rotineiramente a cada genitor.

Vários aspectos dos presentes resultados vão além do que o projeto pode tratar diretamente. O RIM não é um instrumento de rastreamento e não pode ser avaliado como tal; é uma ferramenta de investigação que abre uma conversa clínica. Como apontam as limitações, o instrumento norueguês de acolhimento não foi validado psicometricamente, e os presentes resultados devem ser lidos nesse contexto. Voltando ao contínuo rastreamento-investigação da figura 1, os resultados sugerem que as funções de acolhimento e de investigação talvez precisem ser pensadas em conjunto. O RIM acrescenta a função de investigação que faltava ao sistema. Não trata da função de rastreamento. Um segundo e um terceiro artigo abordarão a síntese qualitativa transversal dos casos e a integração completa dos métodos mistos.

Os dilemas de alcance, neutralidade e intensidade expostos na discussão não são falhas do protocolo. São características estruturais do papel da pessoa mediadora que a conversa inicial torna visíveis justamente porque funciona.

8 Epílogo

O desconforto e a insegurança não são simples estados emocionais. São sinais com implicações relacionais, jurídicas e éticas. O protocolo RIM oferece às equipes de campo uma forma estruturada de ouvir esses sinais, mas agir sobre eles exige condições institucionais que as ferramentas, sozinhas, não podem oferecer. Uma prática de mediação melhor começa pela disposição de fazer a pergunta difícil e de levar a resposta a sério.

Complexe Systémique: a reter

O interesse deste estudo norueguês está em deslocar a questão do rastreamento: em vez de mais um questionário, um gesto relacional simples, ver cada genitor a sós por cinco minutos antes da sessão conjunta e perguntar quanto é desconfortável ou inseguro estar na mesma sala que o outro. O resultado mais eloquente para uma leitura sistêmica é que o risco se lê na relação, e não no indivíduo: nenhum indicador isolado prediz a reavaliação, mas a distância entre os dois relatos, sim, sobretudo quando tudo parecia calmo. As mães falam mais de violência passada; os pais, de uma insegurança de outra ordem. O artigo também tem o mérito de nomear o que a ferramenta expõe: uma pessoa mediadora que passa a saber algo que não pode nem compartilhar nem tratar, entre neutralidade, equilíbrio de poder e o interesse de uma criança cuja voz ninguém recolhe diretamente. Os limites são reais: desenho naturalístico, instrumento de acolhimento não validado, efeitos muito variáveis de um centro para outro. Para ler junto com o estudo sobre o lugar da criança no serviço norueguês de proteção da família e com o estudo sobre a decisão de terapeutas de casal diante da violência.

Notas do original

1 As oito perguntas, com opções de resposta e pontuações, são as seguintes. (1) Base legal da mediação: Lei do Casamento (0 ponto); coabitação no momento da separação (0 ponto); Lei da Criança (100 pontos); Lei da Criança, retorno após processo judicial (0 ponto). (2) Desacordos sobre residência, convivência e responsabilidade parental: sim (50 pontos); às vezes (25 pontos); não (0 ponto). (3) Conflito coparental atual: sim (50 pontos); às vezes (25 pontos); não (0 ponto). (4) Duração das dificuldades: menos de 6 meses (0 ponto); mais de 6 meses (50 pontos). (5) Confiança no outro genitor como pessoa cuidadora: sim (0 ponto); em parte (25 pontos); não (50 pontos). (6) Processo judicial anterior sobre os arranjos de vida da criança: sim (100 pontos); não (0 ponto). (7) Problemas ligados ao uso de substâncias ou à violência: sim (1.000 pontos); incerto (500 pontos); não (0 ponto). (8) Se sim, o problema é reconhecido e levado em conta no planejamento da residência e da convivência?: reconhecido e tratado (−500 pontos); reconhecido, mas não tratado (0 ponto); não reconhecido (0 ponto). Limiares das categorias: ≥ 500 pontos = C! (caso de risco); ≥ 200 pontos = C; ≥ 75 pontos = B; < 75 pontos = A. O peso desproporcional do item 7 é uma escolha deliberada de desenho, e não um erro de escala: como os itens 1 a 6 somam no máximo 400 pontos, o valor de 1.000 pontos garante que qualquer revelação confirmada de violência ou de uso de substâncias ultrapasse automaticamente o limiar C!, independentemente das demais respostas. Uma resposta “incerto” (500 pontos) atinge sozinha o limiar C!, o que reflete o desenho intencionalmente hipersensível do instrumento, concebido para alocar recursos e captar um risco possível, e não para confirmá-lo (Dittman et al. 2021).

Agradecimentos. A equipe de pesquisa agradece a Gøril Westborg Smiseth, responsável pelo Centro de Aconselhamento de Homansbyen, e a Kirsti Dybvik, responsável pelo Centro de Aconselhamento Familiar de Christiania, pela colaboração por meio da qual o protocolo e a prática da conversa inicial RIM foram desenvolvidos durante a fase pré-piloto. Agradece também às equipes de mediação e às chefias dos sete centros que participaram do estudo-piloto aqui relatado. Agradece em especial a Lena Holm Berndtsson, chefe de departamento em Bufetat Região Leste, por seu compromisso incansável com o Serviço Norueguês de Aconselhamento Familiar e por seu apoio a este trabalho. A ex-diretora Mari Trommald merece um reconhecimento especial por sua convicção de que a pesquisa e o desenvolvimento profissional feitos por e para quem trabalha no serviço são, ao mesmo tempo, condição de uma boa prática e marca de uma boa governança.

Financiamento. A equipe de pesquisa não tem nada a declarar.

Declaração ética. O estudo foi aprovado pela pessoa encarregada da proteção de dados de Bufetat, como parte do desenvolvimento profissional e do desenvolvimento rotineiro do serviço. Pelas normas norueguesas de governança da pesquisa, estudos realizados em serviços públicos sem coleta direta de dados sensíveis das pessoas atendidas são avaliados pela função institucional de proteção de dados; esse é o mecanismo de supervisão adequado segundo a regulamentação norueguesa aplicável. As pessoas mediadoras que participaram do grupo focal foram informadas sobre o objetivo do estudo e sobre a possibilidade de suas contribuições, inclusive citações diretas, serem usadas em publicações; a participação foi voluntária do início ao fim.

Consentimento. A equipe de pesquisa não tem nada a declarar.

Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver conflitos de interesse.

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Tradução não oficial em português de “Esforços para trazer à tona o não dito”: estudo de métodos mistos de uma conversa inicial atenta ao risco na mediação familiar norueguesa, de Jan Stokkebekk, Trine Eikrem e Kristoffer Whittaker, Conflict Resolution Quarterly, publicação on-line antecipada (2026), doi: 10.1002/crq.70043, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas, legendas das figuras traduzidas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de ““Efforts to Surface the Unspoken”: A Mixed Methods Study of a Risk-Informed Check-In in Norwegian Family Mediation”, publicado em Conflict Resolution Quarterly (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Stokkebekk, J., Eikrem, T., et Whittaker, K. (2026). “Esforços para trazer à tona o não dito”: estudo de métodos mistos de uma conversa inicial atenta ao risco na mediação familiar norueguesa (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/esforcos-para-trazer-a-tona-o-nao-dito-estudo-de-metodos-mistos-de-uma-conversa-inicial (Obra original publicada em 2026 em Conflict Resolution Quarterly (2026), publication en ligne anticipée; republicada em 2026 por Conflict Resolution Quarterly, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/crq.70043)

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