Behavioral Sciences · Casal

É seguro o bastante? Um estudo IPA sobre como terapeutas de casal dão sentido à decisão de interromper ou continuar a terapia de casal quando a violência se torna a questão

Quando a violência surge na terapia de casal, é preciso continuar atendendo as duas pessoas juntas? Doze terapeutas do Serviço Norueguês de Aconselhamento Familiar, em grupos focais, descrevem como essa decisão é tomada. Duas perguntas a orientam (é seguro o bastante, há um projeto comum e regenerador) e três fontes a alimentam: as palavras, o corpo e os casos que deixaram marca. A equipe de Jan Frode Snellingen extrai daí uma “construção clínica de sentido” e caminhos tanto para as equipes quanto para as instituições.

Autores Jan Frode Snellingen e Pål Erik Carlin (Centre for Diaconia and Professional Practice, VID Specialized University, Oslo, Noruega); Arlene Vetere (Faculdade de Estudos Sociais, VID Specialized University, Oslo, Noruega)Primeira publicação Behavioral Sciences, 5 de janeiro de 2024Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de É seguro o bastante? Um estudo IPA sobre como terapeutas de casal dão sentido à decisão de interromper ou continuar a terapia de casal quando a violência se torna a questão, de Jan Frode Snellingen, Pål Erik Carlin e Arlene Vetere, publicado na Behavioral Sciences (MDPI) (2024), doi: 10.3390/bs14010037, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de listas; as figuras são reproduzidas com legendas traduzidas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

A pessoa terapeuta não pode carregar essa responsabilidade sozinha.

Jan Frode Snellingen, Pål Erik Carlin e Arlene Vetere

Resumo

Contexto. Mais cedo ou mais tarde, terapeutas de casal vão se deparar com a violência no casal em sua prática. Nesse contexto, uma das principais questões a decidir é se as sessões conjuntas devem continuar. Este estudo explora como terapeutas de casal dão sentido à decisão de continuar ou não com as sessões conjuntas quando a violência se tornou uma questão.

Métodos. Este estudo qualitativo utilizou quatro grupos focais semiestruturados e a análise fenomenológica interpretativa (IPA) para analisar os dados de doze terapeutas de casal com ampla experiência.

Resultados. Nossa análise IPA levou a três grandes temas experienciais de grupo, comuns aos grupos focais: (1) É seguro o bastante? (2) Temos um projeto comum e regenerador? (3) Três fontes-chave de construção de sentido.

Conclusão. A violência entre parceiros desafia o campo da terapia de casal. Este artigo explorou como terapeutas de casal se orientam e lidam com a tomada de decisão quando a violência se torna uma questão. O artigo oferece uma compreensão inédita sobre aquilo para o qual terapeutas se orientam e sobre a maneira como tentam formar uma impressão a respeito da continuidade das sessões conjuntas. Apresentamos implicações clínicas imediatas e propomos medidas para fortalecer a capacidade individual e organizacional de “construção clínica de sentido”. Também são indicadas sugestões para pesquisas futuras.

Palavras-chave: violência entre parceiros, violência no casal, violência doméstica, terapia de casal, sessões conjuntas, construção clínica de sentido, método qualitativo, IPA, experiência de terapeutas

1. Introdução

“Às vezes, tenho a mesma sensação de quando estou sentado num auditório lotado, com 5.000 pessoas. É aquele momento em que você levanta a mão para falar, com aquela sensação inconfundível: é isso que eu sinto às vezes. É um desconforto profundo. Você sente no estômago, quase como uma sensação de ausência de peso, como logo antes de dar um salto. Porque às vezes é isso que se sente no nosso trabalho. Você dá um salto, faz uma escolha. Porque é assim. Às vezes é preciso fazer uma escolha sabendo muito bem que ela pode ter consequências. É a própria natureza do nosso trabalho.”

(Stig, terapeuta participante do grupo focal 4)

A citação acima mostra por que quisemos fazer esta pesquisa, que explora como terapeutas de casal dão sentido à decisão de continuar ou não a terapia quando o comportamento violento se tornou a questão. Mais cedo ou mais tarde, terapeutas de casal e família vão se deparar com agressão e violência familiar em sua prática [1]. Nesse contexto, a violência pode fazer parte do encaminhamento ou se tornar uma das principais preocupações em qualquer etapa da colaboração com o casal.

Levantamentos de prevalência na Noruega e em outros países mostram que 14 a 30% das pessoas entrevistadas em amostras da população geral afirmam ter sofrido violência entre parceiros em algum momento da vida [2,3,4,5]. Nas populações clínicas, a prevalência da violência entre parceiros é ainda maior. Entre os casais que procuram terapia de casal e família em serviços generalistas, estudos mostram que até 70% já viveram agressão física e violência relacional [6,7]. Alguns estudos examinaram diferentes aspectos da violência familiar no Serviço Norueguês de Aconselhamento Familiar (NFCS) e mostram uma prevalência da violência familiar que varia de 0,3 a 34% conforme a unidade de aconselhamento familiar [8,9,10].

Paralelamente à alta prevalência de comportamentos violentos nos casais que buscam terapia, a questão de saber se a terapia de casal é uma forma de tratamento segura, adequada ou mesmo ética para a violência entre parceiros tem sido controversa e repetidamente debatida [11,12]. Estudos mostram, porém, que a terapia de casal pode ser adequada e tão eficaz quanto outras intervenções quando tanto a violência quanto os casais passam por uma triagem cuidadosa e por uma avaliação adequada para a terapia conjunta [1,11,13,14]. Com essas medidas, a terapia de casal pode às vezes ser considerada segura o bastante e ajudar a reduzir a violência e a aumentar a satisfação na relação, porque certos comportamentos violentos podem ser entendidos como resultado de padrões interacionais em escalada, nascidos da frustração, da ansiedade e de necessidades de apego não atendidas [15,16,17,18,19].

Há um reconhecimento crescente de que a violência nas relações íntimas não é um fenômeno uniforme, sendo mais bem conceituada ao longo de um contínuo multifatorial, diferenciado pelo tipo de violência, pela frequência, por aspectos de poder e de controle coercitivo, pela gravidade, pela experiência das pessoas envolvidas, pelo gênero e pelas consequências [20,21,22,23,24]. O quadro conceitual de Johnson [20,25,26,27] é frequentemente citado para classificar os tipos de violência no casal. Ele distingue dois contextos principais: a violência de controle coercitivo e a violência situacional de casal. A violência de controle coercitivo costuma se desenrolar num quadro de controle coercitivo, em que um dos parceiros usa repetidamente múltiplos meios de coerção para controlar e dominar o outro. Já a violência situacional de casal pode ser entendida como resultado de conflitos em escalada, nos quais um dos parceiros ou ambos contribuem para o padrão interacional destrutivo. Houve também vários esforços, na pesquisa e na prática, para diferenciar tanto a conceituação da violência familiar quanto a resposta a ela [28,29,30]. Esses esforços enfatizam a importância da avaliação, porque a motivação, as características e os efeitos da violência no casal variam amplamente segundo múltiplos espectros de características individuais e interacionais. Cabe a terapeutas reunir informações e levar em conta essas variações na prática cotidiana, na escolha da resposta e no eventual tratamento.

Além disso, atender casais em terapia traz desafios éticos específicos, que em geral não aparecem na terapia individual [31]. Quando a violência se torna uma preocupação, quem pratica terapia de casal tende a enfrentar dilemas éticos e jurídicos acentuados ao longo de todo o tratamento, com o objetivo de preservar o bem-estar de cada parceiro [32,33]. Quando os aspectos éticos são levados em conta junto com uma avaliação cuidadosa, a eficácia do tratamento pode aumentar, favorecendo o esforço certo no momento certo diante da violência entre parceiros.

Diretrizes baseadas em critérios clínicos foram elaboradas para avaliar se a terapia de casal é uma modalidade de tratamento adequada [12,14,17,34]. Essas diretrizes enfatizam sobretudo estruturas, sequências e listas de critérios que descrevem o conteúdo material, mas dão menos atenção aos processos relacionais pelos quais as próprias pessoas terapeutas passam para chegar lá. Enfatizar o processo de avaliação da modalidade de tratamento adequada pode ser entendido, de modo mais geral, como parte da formulação em psicoterapia. Vetere [35] (p. 388), por exemplo, descreve a formulação como:

“uma prática crucial em psicoterapia, pela qual as explicações da experiência são articuladas a uma base de evidências para a prática, num quadro ético de conduta. Ela guia e orienta a ação de todas as pessoas participantes num processo iterativo de retroalimentação e ação. A formulação tem intenção emancipatória e garante a prestação de contas da prática.”

Uma formulação se apoia na teoria e na pesquisa, mas também em saberes intuitivos e tácitos, para oferecer um quadro que descreva os problemas, as necessidades e os recursos de quem recebe atendimento. Ela pode ser um ponto de partida para a ação e para uma investigação mais aprofundada, como a formulação progressiva de hipóteses num processo colaborativo com o casal ou a família [36]. Esse processo de formulação vai, portanto, além da simples avaliação da presença ou ausência de violência. Por isso, quando a violência entre parceiros se torna uma questão, terapeutas de casal e família precisam dispor de conhecimentos, habilidades e recursos suficientes para avaliar a situação e lhe dar sentido, a fim de escolher uma resposta adequada à violência de casal em questão [37]. Esse processo de avaliar e dar sentido à situação não se limita às fases iniciais depois que a violência se tornou uma preocupação principal: deve ser reconhecido como uma função contínua e integrada, que se estende por todas as etapas do envolvimento da pessoa terapeuta com o casal [17,18,34,38].

Uma das principais questões que terapeutas precisam decidir, e à qual precisam dar sentido, quando a violência se torna uma questão na terapia de casal, é se devem continuar ou não com as sessões conjuntas. Essa decisão depende de garantir a segurança e o bem-estar de todas as partes envolvidas, ao mesmo tempo que se busca possibilitar resultados terapêuticos benéficos. Hoje há pouca pesquisa sobre como terapeutas de casal constroem “naturalmente” o sentido clínico quando a violência de casal surge como a preocupação principal, em especial quando tentam compreender a situação e determinar se é adequado prosseguir com as sessões conjuntas. Uma compreensão e um conhecimento mais profundos do que entra em jogo nessas decisões podem, portanto, ajudar terapeutas de casal e família a tornar mais segura a prática e a oferta de serviços, e a favorecer o esforço certo no momento certo em matéria de violência de casal. Assim, as perguntas abordadas nesta pesquisa incluem as seguintes: em que se baseiam as decisões de terapeutas? O que influencia sua formulação e sua prática? Como se orientam, e que considerações levam em conta ao decidir se é seguro e pertinente continuar com as sessões conjuntas? A pergunta de pesquisa principal era: como terapeutas de casal dão sentido à decisão de continuar ou não com as sessões conjuntas quando a violência se tornou uma questão?

2. Métodos

2.1. O contexto da pesquisa

A pesquisa foi realizada no Serviço Norueguês de Aconselhamento Familiar (NFCS). O NFCS é um serviço financiado pelo Estado, gratuito e de acesso direto, sem encaminhamento, aberto a casais, a pais que não moram juntos e a famílias com dificuldades familiares ou relacionais. Os serviços são oferecidos em 42 unidades de aconselhamento familiar espalhadas por toda a Noruega, com cerca de 500 terapeutas (serviço social, psicologia e outras especialidades da terapia de casal e família). A missão principal dos serviços é fortalecer as condições relacionais do desenvolvimento infantil, apoiando o funcionamento do casal, da família e da parentalidade. Em 2022, os serviços atenderam cerca de 55.000 casos, incluindo terapia e mediação [39]. Por isso, o NFCS é um dos serviços aos quais se atribuiu um papel mais importante no enfrentamento e na prevenção da violência familiar, já que as famílias que buscam terapia de casal e família constituem uma população em risco de agressão e violência relacionais [40,41,42,43,44,45]. O NFCS, porém, é um serviço generalista de terapia de casal e família, cujas equipes se definem como de orientação sistêmica e relacional, e não um serviço especializado em violência no casal e na família. As pessoas terapeutas do NFCS trabalham sobretudo com sessões conjuntas com casais e famílias, embora as sessões individuais não sejam raras. Quando a violência se torna uma questão, há poucos procedimentos padronizados; ainda assim, sessões individuais são muitas vezes incorporadas de forma estratégica para tratar de questões específicas, como parte da avaliação e para garantir o bem-estar de cada pessoa. O estudo foi realizado durante e após a pandemia de covid-19 e capta a experiência de terapeutas tendo como pano de fundo a crise mundial.

2.2. Delineamento e método

A pesquisa qualitativa tem muito a oferecer à pesquisa em psicoterapia, ao produzir uma nova compreensão da complexidade e da experiência das diferentes pessoas que participam da terapia [46]. A análise fenomenológica interpretativa (IPA) foi escolhida como inspiração para o método analítico dos dados de grupos focais aqui relatados. O foco analítico da IPA pode ser adequado para explorar como um fenômeno é vivido e compreendido por um grupo específico num contexto particular [47,48]. Usamos a palavra “inspiração” na frase anterior porque a IPA oferece diretrizes flexíveis e não deve ser tratada como uma receita, mas usada com flexibilidade e criatividade de acordo com o projeto de pesquisa [48]. Numa revisão narrativa, Anderson, Slark e Gott [49] (p. 98) concluem que “a IPA é uma metodologia idealmente adequada para explorar a tomada de decisão em contextos clínicos reais e complexos. Um pequeno corpus de estudos IPA produziu compreensões valiosas sobre uma série de contextos de decisão clínica”.

2.3. Coleta de dados

Este estudo utilizou quatro grupos focais (GF) para coletar os dados. Aplicar a IPA a dados de grupos focais não é simples, pois os grupos focais “podem parecer menos obviamente adequados a pesquisas em IPA, mas certamente já foram empregados” [48] (p. 125). Diversos trabalhos argumentam que a entrevista em grupo focal dificulta a compreensão da experiência subjetiva de cada pessoa [50,51,52] e que os grupos focais reforçam uma voz coletiva do grupo em detrimento do indivíduo [53]. Ao mesmo tempo, o grupo focal também tem vantagens. Os grupos focais podem ser úteis porque permitem ouvir várias vozes, com uma amostra maior, mas num número reduzido de sessões de coleta [54]. Além disso, podem inspirar e dar suporte às pessoas participantes, ajudando-as a se aprofundar e a iluminar tanto as convergências quanto as divergências entre experiências, o que produz descrições ainda mais densas do fenômeno em questão. As pessoas que assinam em primeiro e em segundo lugar conduziram juntas os quatro grupos focais.

2.4. Participação e recrutamento

O recrutamento foi feito por amostragem intencional, porque as pessoas participantes podiam iluminar e oferecer compreensão sobre o fenômeno de interesse num contexto pertinente [55]. Escolhemos um formato de grupo focal com no máximo quatro pessoas, para obter profundidade ótima e, na medida do possível, um compromisso idiográfico nas entrevistas [48]. No total, o estudo recrutou 12 terapeutas de quatro unidades diferentes do NFCS. Também recorremos a grupos de colegas já existentes, pois isso pode ajudar a oferecer a segurança necessária para uma exploração aprofundada e uma reflexão compartilhada sobre experiências sensíveis [48]. Todas as pessoas terapeutas têm formação em terapia de casal e família e pelo menos uma formação básica para trabalhar com casais em que a violência é uma questão. Todas integram também a “equipe de violência” de sua unidade de aconselhamento familiar. Isso significa que dedicam a maior parte do cargo ao trabalho “comum” com casais e famílias, mas usam parte da função para fortalecer o trabalho da unidade e atuar clinicamente nos casos em que a violência se torna uma questão. Quanto ao resto, o grupo é diverso em gênero, idade e tempo de trabalho no NFCS (ver Tabela 1).

Tabela 1 — Características demográficas da amostra

  • Gênero. Mulheres: 6; homens: 6.
  • Idade. 41–50 anos: 3; 51–60 anos: 8; 61 anos ou mais: 1.
  • Anos no NFCS. 0–5: 2; 6–10: 5; 11–20: 3; mais de 20: 2.

2.5. Análise dos dados dos grupos focais

A essência de um estudo fenomenológico interpretativo está em seu foco analítico. O compromisso da pesquisa é passar de uma postura descritiva a uma postura mais interpretativa em relação à experiência das pessoas participantes e à maneira como dão sentido a um fenômeno de interesse num contexto específico [48]. A literatura existente sobre análise em IPA, porém, não prescreve um “método” único para trabalhar os dados. Ainda assim, alguns processos e estratégias gerais são sugeridos na IPA e podem ser aplicados com flexibilidade para otimizar a tarefa analítica e o estudo em questão [48,55,56]. Vários artigos descrevem e demonstram passo a passo como a IPA pode ser adaptada para grupos focais [53,54,57]. Recorremos a elementos desses trabalhos para construir nosso caminho de análise do material, com as seguintes estratégias e etapas:

  • Etapa 1: identificar a orientação e os possíveis vieses da pesquisa

Antes do primeiro grupo focal, nós, as pessoas que assinam em primeiro e em segundo lugar, fizemos uma entrevista autorreflexiva para iluminar nossos pressupostos, vieses e possíveis influências sobre a pesquisa e o processo analítico [58]. Depois de cada grupo focal, fizemos entrevistas mútuas, registrando o seguinte: (1) O que nos surpreendeu? (2) O que chamou nossa atenção? (3) Há algo que gostaríamos de fazer mais ou menos se tivéssemos a oportunidade de fazer de novo? Além disso, um diário de pesquisa reflexivo foi mantido ao longo de todo o estudo, com anotações sobre desafios, dilemas, decisões, percepções e experiências positivas. Essas reflexões foram incorporadas às etapas seguintes e aos ciclos iterativos do processo de pesquisa, influenciando-os.

  • Etapa 2: imersão nos dados e anotações exploratórias

Começamos pelo primeiro grupo focal. A transcrição foi lida integralmente, sem anotações. Depois, relemos a entrevista ouvindo a gravação. Durante as releituras e a escuta, foram feitas anotações exploratórias: pensamentos espontâneos, ideias, sentimentos etc. Essas anotações facilitaram um pouco o retorno ao texto e o foco no material, sem “distrações” demais.

  • Etapa 3: leituras múltiplas com ênfases diferentes

O texto passou por várias leituras, cada uma com uma ênfase diferente. Primeiro, adotou-se uma abordagem descritiva, destacando a experiência das pessoas participantes e tentando “ficar perto” dela. A segunda leitura se concentrou em aspectos linguísticos: pronomes, palavras-chave, palavras de emoção, pausas, risos, fluência e frequência dos conceitos. Enquanto as duas primeiras leituras buscavam proximidade com a experiência das pessoas participantes, a terceira adotou a perspectiva da pesquisa por meio de compreensões conceituais, fundindo de modo mais explícito as descrições das pessoas entrevistadas com as interpretações da pesquisa.

  • Etapa 4: identificar, destacar e agrupar citações

Para manter os enunciados experienciais (etapa 5) ancorados no material e evitar uma abstração prematura, introduzimos uma etapa de exploração aprofundada de citações da transcrição. Em cada grupo focal, foram selecionadas e destacadas de 184 a 256 citações. Na análise, todas as citações foram marcadas com o pseudônimo da pessoa participante, o que permitia acompanhar cada pessoa e dar conta dela de forma idiográfica. Em seguida, fizemos um agrupamento de nível 1 das citações dentro de cada grupo focal, examinando questões como ligações teóricas e práticas, características experienciais-chave, a experiência das pessoas participantes e seus processos de construção de sentido.

  • Etapa 5: construir enunciados experienciais

Depois, os agrupamentos de citações foram revistos e refinados, receberam nomes descritivos e foram transformados num conjunto de enunciados experienciais [48] (pp. 86–87).

  • Etapa 6: buscar conexões entre os enunciados experienciais dentro de cada grupo focal

A etapa seguinte foi uma análise de nível 2 dos enunciados experienciais de cada grupo focal, por meio de um novo agrupamento dos agrupamentos de nível 1. Concluído esse trabalho, os novos agrupamentos de nível 2 receberam nomes descritivos.

  • Etapa 7: buscar conexões entre os enunciados experienciais de grupo de um grupo focal a outro

Uma das últimas etapas consistiu em explorar as interconexões entre os grupos focais no âmbito dos enunciados experienciais de grupo de nível 2. Esse processo resultou, no total, em 21 enunciados experienciais de grupo, ou temas, de nível 3. A seleção final e a conceituação, guiadas pela pergunta de pesquisa do estudo, ficaram a cargo da pessoa que assina em primeiro lugar.

  • Etapa 8: conferir cada transcrição para garantir que nada ficou de fora

Depois do agrupamento e da conceituação finais, a pessoa que assina em primeiro lugar revisou todas as transcrições para garantir que as ideias e citações essenciais estivessem incluídas na redação final.

Essa análise construiu três achados principais, que serão apresentados nos resultados: (1) É seguro o bastante? (2) Temos um projeto comum e regenerador? e (3) Três fontes-chave de construção de sentido.

3. Resultados

Nossa análise IPA levou a três grandes temas experienciais de grupo, comuns aos quatro grupos focais. Esses temas parecem captar e iluminar o processo pelo qual terapeutas de casal decidem se continuam ou não com as sessões conjuntas quando a violência se tornou uma questão. Em conjunto, esses três grandes temas experienciais de grupo constituem o que chamamos de “construção clínica de sentido”. Os dois primeiros surgiram como perguntas e tematizam o “quê”, aquilo para o qual terapeutas se orientam para determinar se devem continuar com as sessões conjuntas quando a violência se tornou uma questão; o terceiro tema experiencial de grupo destaca o “como”, a maneira pela qual terapeutas tentam dar sentido à situação e compreendê-la: (1) É seguro o bastante? (2) Temos um projeto comum e regenerador? (3) Três fontes-chave de construção de sentido.

Os três temas experienciais de grupo serão apresentados separadamente, num esforço analítico para destacar aspectos importantes do “quê” e do “como” no processo de “construção clínica de sentido” de terapeutas de casal que decidem se continuam com as sessões conjuntas quando a violência se tornou uma questão. Recorremos a descrições narrativas e a figuras para enfatizar os aspectos-chave. Tabelas indicam a presença dos subtemas em cada grupo focal. Citações selecionadas das entrevistas ajudam a leitura a sustentar a análise e as interpretações da equipe de pesquisa e, ao mesmo tempo, captam a essência da construção de sentido e da experiência das pessoas participantes em cada tema. É essencial notar, porém, que na prática clínica esses temas estão entrelaçados e são simultâneos, e não fenômenos isolados. A seção de discussão e implicações clínicas vai aprofundar sua interconexão e sua relevância para a prática.

3.1. Tema experiencial de grupo 1: é seguro o bastante?

Ao longo das entrevistas, as pessoas terapeutas se posicionaram e formularam um pressuposto central: a terapia de casal conjunta é um formato potente para tratar problemas relacionais subjacentes, mesmo na presença de violência, desde que seja segura o bastante. Também relataram como os casais muitas vezes expressavam o desejo de enfrentar e resolver os problemas juntos, resistindo à ideia de terapia individual. Em todos os grupos focais, porém, as pessoas participantes enfatizaram que a segurança era a preocupação primordial quando a violência se tornava uma questão, e o primeiro sinal para saber se era adequado continuar com as sessões conjuntas. Em especial, terapeutas se orientavam para o que percebiam como “sinais de alerta” ligados ao risco de escalada ou de nova violência. Ao mesmo tempo, lidavam com um sentimento de incerteza quanto a continuar a colaboração no contexto de uma terapia de casal conjunta. Como formulou Nora (GF1):

“Acho que é uma incerteza que eu sinto, e às vezes posso ficar ansiosa com a ideia de manter o mesmo padrão que já existe… Dá medo fazer parte de algo que talvez torne as coisas ainda mais difíceis para o casal.”

Muitas pessoas terapeutas reconheceram que a incerteza continuava sendo inerente ao processo de colaboração, apesar dos esforços para avaliar e manejar o risco e estabelecer a segurança. Essa incerteza persistente não anula a importância desses esforços. Pelo contrário, ela sublinha a necessidade de um processo iterativo contínuo de avaliação e manejo do risco, e de manter o foco na segurança durante todo o acompanhamento, com monitoramento regular, como formulou Herman (GF2):

“Isso é seguro o bastante? Talvez, bom, sim, é seguro o bastante, e temos um objetivo comum. Mas aí, (pausa) acho que talvez não seja, afinal. Mais adiante, de certo modo, isso pode mudar. Hum, ou a violência pode, de certa forma, continuar escondida… É meio que algo que você tem que, ou que tem que continuar sendo um pensamento, é preciso manter isso em mente.”

Diante desse pano de fundo, em que se concentra a atenção de terapeutas para ganhar mais clareza e confiança sobre continuar ou não com as sessões conjuntas? Ao longo da análise, construímos esse primeiro tema experiencial de grupo a partir de seis focos de atenção por meio dos quais terapeutas se orientavam (ver Figura 1 e Tabela 2).

Diagrama em estrela: no centro, a pergunta “É seguro o bastante?”, ligada a seis elipses: reconhecimento da violência, situação dos filhos, grau de gravidade, medo e violência latente, poder e controle coercitivo, abuso de substâncias e trauma, formas e frequência da violência
Figura 1. Tema experiencial de grupo 1: é seguro o bastante? (esquema original em inglês)

Tabela 2 — Presença dos subtemas do tema experiencial de grupo 1, por grupo focal

  • Formas e frequência da violência. GF1, GF2, GF3, GF4.
  • Poder e controle coercitivo. GF1, GF2, GF3, GF4.
  • Grau de gravidade, medo e violência latente. GF1, GF2, GF3, GF4.
  • A situação dos filhos. GF1, GF2, GF3, GF4.
  • Abuso de substâncias e trauma. GF1, GF2, GF3, GF4.
  • Reconhecimento da violência. GF1, GF2, GF3, GF4.

3.1.1. Formas e frequência da violência

Quando a violência se tornava uma questão, o primeiro ponto de investigação de terapeutas girava em torno de obter uma compreensão abrangente da natureza e da ocorrência da violência naquele contexto. Um fio condutor apareceu nos quatro grupos focais, em que as pessoas participantes exploravam coletivamente dois aspectos essenciais: as diferentes formas de violência e a frequência dos incidentes. A violência pode se manifestar de diversas maneiras, em formas físicas, psicológicas, sexuais, materiais, digitais e financeiras. Terapeutas tentavam, portanto, identificar quais formas de violência estavam presentes ou não, bem como a frequência da violência, para assim distinguir incidentes isolados de comportamentos recorrentes. Entre os grupos focais surgiu um consenso, destacado em especial por Tone (GF3):

“Se há uma violência grave e agravada, repetida ao longo do tempo, então nós seríamos muito mais…, então provavelmente não começaríamos uma terapia de casal.”

Stig (GF1) descreveu e desenvolveu como se preocupava com a situação atual do casal, com a evolução da violência ao longo do tempo e com os pensamentos e expectativas do casal sobre como isso evoluiria no futuro:

“Como foi no passado, e o que cada um pensa sobre o futuro? Isso pode abrir diferentes perspectivas: há quanto tempo isso vem acontecendo? Como tem sido a evolução? Piorou? Ficou estável? Melhorou? Como você acha que vai estar daqui a cinco anos? Acho que essas perguntas muitas vezes ajudam tanto a mim quanto a eles a dizer algo sobre: o que vamos fazer agora?”

Em todos os grupos focais, as pessoas participantes reconheceram e ressaltaram que o comportamento ou a frequência, isoladamente, podem não oferecer compreensão suficiente se não se considerar também o contexto relacional em que a violência se desenrolou. Construir uma formulação que incluísse esses aspectos era, portanto, crucial para elas.

3.1.2. Padrões de poder e de controle coercitivo

Nos grupos focais, terapeutas faziam com frequência uma distinção clara entre dois tipos de violência entre parceiros íntimos: a violência de controle coercitivo e a violência situacional de casal. O termo “violência de controle coercitivo” era usado para caracterizar situações de violência que se desenrolam num quadro e num “regime” de controle coercitivo, em que um dos parceiros emprega deliberadamente a violência e seu poder de maneira nociva contra o outro. Já a “violência situacional de casal” era reconhecida como consequência de conflitos em escalada, em que um dos parceiros ou ambos recorrem à violência não por intenção de controlar, mas por raiva e frustração diante de uma situação específica. Como destacou Ingvild (GF3), que acabara de atender um casal em que avaliava que a violência ocorria no contexto da “violência de controle coercitivo”:

“Se você submete outra pessoa a um regime, isso fica muito, muito, se as pessoas começam a fazer coisas que não querem fazer, ou deixam de fazer coisas que querem fazer. E isso, além do mais, é sistematizado ao longo do tempo com certa intensidade. Acho que há bastante disso.”

Jacob (GF1) também abordou esse ponto:

“Se há tanto medo, ou está inseguro demais, e o desequilíbrio é tão grande, na maioria das vezes eu separei o casal e conversei individualmente com cada um; aí você, como terapeuta, começa a pensar em outros caminhos que não a terapia de casal conjunta.”

Em consequência dessa consciência, terapeutas mantinham a atenção voltada para a possibilidade de a violência estar inserida num “regime coercitivo”, o que restringia a possibilidade de sessões conjuntas.

3.1.3. Grau de gravidade, medo e violência latente

A citação anterior tratava de algo que terapeutas muitas vezes associavam estreitamente ao controle coercitivo: o grau de gravidade, o medo e a violência latente. Na visão dessas pessoas terapeutas, não há necessariamente uma correlação direta entre os atos de violência em si e as consequências para o casal e a família, porque fatores de risco e de proteção individuais, relacionais e contextuais podem mediar a experiência da violência. Ainda assim, enfatizaram uma distinção crucial para a tomada de decisão: saber se a violência havia levado um dos membros do casal, ou ambos, a adotar comportamentos desadaptativos no dia a dia, como explicou Thomas (GF2):

“Tenho agora um casal em que houve um incidente violento há 13 anos, um incidente de violência muito grave. E, e é um exemplo muito ilustrativo, então, de, de quão grave a violência pode ser. Porque ela ainda controla a vida deles, na verdade… Hum, e ela ocupou um lugar enorme na vida familiar durante todos esses anos, até agora.”

Nora (GF1) tinha acabado de começar a trabalhar com um casal em que a violência logo se tornou uma questão, e disse:

“Tenho um caso novo assim, em que se trata muito de violência latente. Ele diz que não há muitos incidentes faz um bom tempo. E ela concorda com isso, mas é a violência latente que pesa para ela, a maneira como ela se desvia para evitar novos episódios, e o fato de ter medo disso. Ela carrega esse medo dentro de si, mesmo que não haja muitos episódios novos e concretos.”

Terapeutas veem a presença do medo e da violência latente como indicadores da gravidade da violência e de seu impacto retrospectivo. Assim, na perspectiva de continuar a colaboração num contexto conjunto, várias pessoas terapeutas observavam como as pessoas atendidas adaptam suas interações relacionais, e esse comportamento era visto como um possível indício para orientar as intervenções e avaliar a capacidade do casal de se engajar no trabalho terapêutico. Terapeutas também se preocupavam em saber se essas interações e comportamentos relacionais se manifestavam na sala de terapia. Se fosse o caso, fazia pouco sentido, para essas pessoas terapeutas, usar o formato da terapia de casal conjunta, por causa do medo e da falta de segurança que caracterizavam a relação e afetavam as partes a ponto de não poderem falar com liberdade suficiente e, portanto, de não conseguirem tematizar nem trabalhar os padrões destrutivos para aumentar a segurança. Como disse Emma (GF3):

“De certa forma, é um pré-requisito criar uma sensação de segurança para que possam falar de algo tão difícil.”

3.1.4. A situação dos filhos

Apesar do contexto da terapia de casal, todos os grupos focais abordaram e enfatizaram a importância de considerar a situação dos filhos e a capacidade de cuidado dos pais quando a violência surge como questão. Essa consideração tem uma dupla função informativa: saber se são necessárias medidas para garantir a segurança e o desenvolvimento dos filhos, e se a terapia de casal conjunta é a intervenção adequada naquele momento. As pessoas participantes acreditavam que crianças expostas à violência no casal, e que a testemunham, correm maior risco de desenvolver problemas de saúde mental, de desenvolvimento e de comportamento. Reconheciam também que a violência na relação adulta afeta a capacidade de cuidado dos pais, desviando sua atenção das necessidades das crianças e das próprias necessidades. Em alguns casos, portanto, consideravam a situação da família e dos filhos frágil ou incerta demais para continuar com as sessões conjuntas. Ingvild (GF3), por exemplo, tinha trabalhado recentemente com um casal em que avaliou que a situação dos filhos era crítica e que as sessões conjuntas e a terapia de casal eram inadequadas. Ela recomendou que o Serviço de Proteção à Criança (CPS) investigasse mais a fundo, em razão das circunstâncias preocupantes.

“A gente tem esses casos em que pensa: aqui há relações de poder muito desequilibradas na relação, aqui há um alto grau de violência psicológica, aqui há crianças bastante prejudicadas por isso, e aí a gente pensa: ‘mas eu não posso fazer nada aqui’. Aqui está frágil demais, aqui está esgotado demais, aqui eles estão exaustos demais. Então a gente envia uma notificação de preocupação (CPS), e recebe de volta aquela recusa, e aí pensa: o que fazemos agora? Então há pessoas que não recebem ajuda, e há crianças que estão sofrendo. E eu avaliei que não posso fazer nada aqui porque está esgotado demais, grave demais, e impossível para o Serviço de Aconselhamento Familiar fazer um trabalho bom o suficiente neste caso. Acho que alguém, antes de tudo, precisa ir lá e verificar como diabos essas crianças estão! E aí o caso é arquivado!”

Assim, terapeutas enfrentavam com frequência dilemas, desconforto e desgaste emocional em relação ao bem-estar das crianças, houvesse ou não contato direto com elas. A perspectiva da criança estava, por isso, presente em todos os grupos focais. Ainda assim, havia uma variabilidade notável na maneira como terapeutas descreviam a extensão de seu contato direto e de seu envolvimento com as crianças.

3.1.5. Abuso de substâncias e trauma

Todas as pessoas terapeutas destacaram que os casais em “casos de violência” muitas vezes enfrentam outros fatores de estresse e desafios adicionais, que podem afetar significativamente o funcionamento, o risco de violência recorrente e a possibilidade de se engajar na terapia de casal. Entre essas dificuldades e complexidades, o abuso de substâncias e o trauma se destacavam em particular. Várias pessoas terapeutas ressaltaram como reações traumáticas ligadas ao parceiro atual ou a relações anteriores podiam criar um sentimento difuso de insegurança e de falta de segurança, levando à ideia de que as sessões conjuntas poderiam não ser adequadas. Duas pessoas terapeutas trabalhavam juntas com um casal em que a parceira era a agressora na relação atual, mas tinha um histórico de reações traumáticas graves ligadas a uma relação anterior. Sigrid (GF3) disse:

“Muito abuso, e por aí vai. Então, então a questão é se ela algum dia vai conseguir parar de mergulhar o tempo todo em sentimentos antigos.”

As duas pessoas terapeutas achavam que ela estava sobrecarregada e fisiologicamente inundada, de modo que as interações escalavam durante as sessões com o novo parceiro, o que tornava difícil regular e conduzir as conversas. Por isso, decidiram que as sessões individuais ofereceriam um formato mais seguro. No grupo focal 1, também havia preocupação com o modo como o abuso de substâncias torna as sessões e o projeto terapêutico mais difíceis de manejar e mais imprevisíveis, e gera incerteza, como disse Sunniva (GF1):

“Em alguns desses casos, também há abuso de substâncias, e isso também é um fator complexo, que tem a ver com segurança e insegurança. Às vezes é a pessoa exposta, e às vezes é a pessoa que comete a violência que tem um problema de abuso de substâncias.”

Terapeutas consideravam o abuso de substâncias um risco aumentado de nova violência e julgavam essencial ter “controle sobre” ele antes que as sessões conjuntas e a terapia de casal pudessem parecer seguras o bastante.

3.1.6. Reconhecimento da violência

Um dos desafios encontrados por terapeutas ao abordar comportamentos violentos era que isso podia desencadear reações defensivas, como minimizar, banalizar ou racionalizar a violência e suas consequências. As pessoas também podem se fixar num padrão de culpar os outros ou justificar seus atos. Ainda assim, todas as pessoas participantes dos grupos focais defendiam que um reconhecimento “suficiente” da violência por ambas as partes era um pré-requisito para sequer considerar as sessões conjuntas adequadas e seguras o bastante. Tone (GF4) refletiu sobre um caso que atendia com uma pessoa colega do mesmo grupo focal, em que haviam decidido não continuar, por enquanto, com as conversas conjuntas. A experiência e a reflexão das duas pessoas terapeutas foram as seguintes:

“Não há nenhum reconhecimento da violência, como com o sujeito com quem a gente trabalhou, e aí a gente não entra nisso, vira uma espécie de critério. A gente precisa ver esse reconhecimento.”

Sem esse reconhecimento, continuar com as sessões conjuntas não fazia sentido para terapeutas.

3.2. Tema experiencial de grupo 2: temos um projeto comum e regenerador?

O primeiro tema experiencial de grupo era “específico da violência” e se orientava para o que terapeutas percebiam como sinais ligados à gravidade, ao risco iminente de escalada ou de nova violência, e para a pergunta “Isso pode ser seguro o bastante?”. Já o segundo tema experiencial de grupo tratava da terapia e da cooperação de modo mais geral. Esse tema reunia quatro focos, que extraem aquilo para o qual terapeutas se orientam para saber se um projeto comum e regenerador lhes parece possível (ver Figura 2 e Tabela 3).

Diagrama: no centro, a pergunta “Temos um projeto comum e regenerador?”, ligada a quatro subtemas: o desejo de ficar junto é compartilhado pelos dois parceiros, mesmo foco, capacidade e disposição para fazer terapia, é suficiente
Figura 2. Tema experiencial de grupo 2: temos um projeto comum e regenerador? (esquema original em inglês)

Tabela 3 — Presença dos subtemas do tema experiencial de grupo 2, por grupo focal

  • Ficar junto: um desejo compartilhado pelos dois parceiros? GF1, GF3, GF4.
  • Mesmo foco? GF1, GF2, GF3, GF4.
  • Capacidade e disposição para fazer terapia. GF1, GF2, GF4.
  • É suficiente? GF1, GF2, GF3, GF4.

Enquanto parte das pessoas terapeutas enfatizava e se orientava sobretudo para os diferentes aspectos do tema experiencial de grupo 1, outra parte dava atenção quase igual à experiência de ter um projeto comum e regenerador ao decidir se as sessões de casal conjuntas eram ou podiam ser construtivas. A longa citação a seguir, de Ingvild (GF3), resume vários subtemas do segundo tema experiencial de grupo, que serão desmembrados e desenvolvidos adiante:

“Na minha experiência, não é, de certa forma, a gravidade da violência que decide. Já tive bastantes casos, e tenho agora, com estrangulamento, violência física que deixa lesões e idas ao pronto-socorro. Então não é necessariamente isso que me impede de pensar que podemos fazer algo juntos. É a medida em que as duas partes estão dispostas a assumir a responsabilidade, olhar para a própria contribuição e estão, de certa forma, dispostas a trabalhar a sério e a priorizar isso de sessão em sessão. Então é assim, sim, é a motivação das pessoas, a capacidade e a disposição de olhar para o que estão fazendo, que importam em primeiro lugar. Mas aí há a questão de quando percebemos que a coisa não progride como esperávamos. Quanto a pôr fim aos episódios assustadores, hum, o que fazemos então?”

3.2.1. Ficar junto: um desejo compartilhado pelos dois parceiros?

Muitas pessoas terapeutas consideravam essencial fazer perguntas sobre a premissa que, na maioria das vezes, está na base do contato do casal com o NFCS, isto é, o desejo de fortalecer e manter a relação. O desejo de ficar junto é, então, compartilhado pelos dois parceiros? Nora relata abaixo uma experiência recente:

“Na primeira sessão, ele faz muita questão de que seja uma terapia de casal, de que se reencontrem ou de reparar e fortalecer a relação, enquanto ela pende mais para fora da relação.”

Muitas pessoas terapeutas tiveram experiências semelhantes, fosse já na fase inicial, fosse de forma mais evidente à medida que o processo e a colaboração avançavam. Várias delas, porém, achavam que seria inadequado trabalhar com o casal em sessões conjuntas se ficasse claro que uma das duas pessoas queria sair da relação. A maioria das pessoas participantes reconhecia, no entanto, que essas situações raramente são totalmente definidas e que o casal muitas vezes vive uma grande ambivalência sobre querer investir na relação e tentar “salvá-la”. Várias pessoas terapeutas viviam e viam isso como um momento oportuno para que os casais explorassem e discernissem com segurança o caminho a seguir, de preferência com o acompanhamento da pessoa terapeuta, em vez de atravessar esse processo sem apoio. Stig, do primeiro grupo focal, refletiu sobre isso:

“Acho que há um número impressionante de casos nessa zona de esclarecimento. Então é bom, acho, que essas pessoas tenham a oportunidade de refletir consigo mesmas e com o parceiro ou a parceira sobre o que vão fazer agora. Antes de seguirmos adiante, para que não se precipitem nem para fortalecer nem para romper a relação.”

Petter (GF2) teve experiências comparáveis; ele também enfatizou, porém, que em vários casais que atendeu parecia que uma das duas pessoas havia iniciado a terapia conjunta porque precisava de um ambiente seguro para discutir e começar o processo de encerrar a relação:

“Sim, e muitas das pessoas que nos procuram numa fase de esclarecimento, muitas vezes uma delas já decidiu de antemão que não vai continuar com isso, mas precisa de um processo seguro para isso.”

Um ponto crucial de esclarecimento é, portanto, saber se o casal deseja continuar junto. Como mostram as citações acima, porém, pode haver ambivalência ou uma probabilidade significativa de separação. Ainda assim, a pessoa terapeuta pode achar que faz sentido continuar com as sessões conjuntas. A intenção não é necessariamente “unir o casal”, mas ajudá-lo, pelas sessões conjuntas, a encontrar um caminho mais seguro para seguir adiante.

3.2.2. Mesmo foco?

Terapeutas também desempenham um papel crucial no “sistema terapêutico”; esse aspecto foi um tema reconhecido em todos os grupos focais. As pessoas terapeutas enfatizaram a importância do alinhamento e de um foco compartilhado, ressaltando que tanto a pessoa terapeuta quanto o casal precisam se comprometer com o projeto terapêutico, quaisquer que sejam os objetivos específicos. Nora (GF1) resumiu essa ideia ao observar:

“É um desafio, porque às vezes eu penso: meu Deus, vocês precisam se separar, muito antes de as pessoas em questão pensarem isso, e aí não é certo que eu seja uma terapeuta muito boa, se tenho na cabeça uma solução diferente da delas. Então é difícil, esse ponto de virada: como vou conseguir acompanhar de perto o bastante o processo da pessoa?”

A noção de “ponto de virada” foi um tema recorrente em todos os grupos focais e se referia ao momento em que a pessoa terapeuta tinha dificuldade de continuar com o projeto terapêutico de um dos membros do casal ou de ambos. Nesse contexto, ficou claro que parte das pessoas terapeutas demonstrava mais segurança para “dar um passo à frente” e tomar essas decisões. Outra parte, ao contrário, lutava com um conflito interno diante da ideia de se afastar de suas práticas e princípios terapêuticos estabelecidos. Uma discussão importante se desenrolou no grupo focal 2, iniciada por Thomas, que relatou um caso em que havia dito ao casal:

Thomas: “Não acho que vocês deveriam ficar juntos, certo? Ser tão claro assim, acho isso difícil. Porque vai tão contra aquilo em que fomos treinados ao longo dos anos, de certa forma.”

Herman: “Sim.”

Thomas: “Então assumir uma, hum, uma posição assim, acho isso difícil.”

Herman e Petter: “Hum, sim” (concordam).

Thomas: “E isso, e aí eu sinto a tensão em mim, quando fiz isso. E é meio intrigante, porque não são, não são exatamente aquelas pessoas, é, é a cultura, de certa forma, em que estou inserido e da qual estou saindo, de certo modo, a de que não deveríamos fazer isso.”

Apesar dos diferentes graus de segurança, todas as pessoas terapeutas reconheciam a necessidade de adotar uma abordagem distinta ao lidar com questões de violência, em comparação com casos sem essas dinâmicas, desafios e possíveis preocupações com a segurança.

3.2.3. Capacidade e disposição para fazer terapia?

Um aspecto vital para a viabilidade de um projeto comum e regenerador girava em torno da avaliação, pela pessoa terapeuta, da capacidade e da disposição do casal de participar ativamente dos processos necessários para a mudança de comportamento e de situação. Ingvild (GF3) desenvolveu essa ideia ao afirmar:

“Ainda bem que somos capazes de mudar de comportamento, nós, seres humanos, mas isso exige uma presença e uma capacidade enormes, é bem puxado.”

Essa noção de capacidade e disposição abrangia várias dimensões. De um lado, implicava considerar as condições socioeconômicas e situacionais que afetam o casal. De outro, envolvia a percepção da pessoa terapeuta sobre as disposições e atitudes atuais de cada pessoa atendida quanto a se engajar ativamente nos processos para reduzir o risco de nova violência e aumentar a segurança de todos os membros da família. Ingvild e Sigrid (GF3) desenvolveram e esclareceram essa dupla perspectiva:

Ingvild: “Então estou tentando captar tanto a capacidade quanto a motivação. E, ao mesmo tempo, a disposição e até a aptidão… e a gente realmente não deveria superestimar a nossa importância. Pensar que pessoas que estão tão ‘genuinamente lutando na vida’; tem a covid, e são de outros países, não têm contato com a família de origem há uns dois anos, tiveram um filho nesse meio-tempo, certo. Não é a língua delas, não entendem necessariamente muita coisa do sistema de seguridade social, o que não quer dizer que eu entenda alguma coisa também. E é, bom, estão tão esgotadas e lutando tanto, não é…”

Sigrid: Hum (concorda).

Ingvild: “… estão tão exaustas, encontrá-las e achar que, com uma hora aqui a cada duas semanas, vamos fazer uma grande diferença, é um pouco ingênuo.”

Em alguns casos, portanto, as decisões de continuar ou interromper as sessões conjuntas se baseavam no reconhecimento da incapacidade do casal, decorrente de fatores contextuais, numa perspectiva sistêmica. Em outros momentos, era a percepção da pessoa terapeuta sobre o compromisso do casal e sua motivação para mudar a situação atual que influenciava a decisão. Jacob, participante do grupo focal 1, contou:

“Se você se sente bem na sua ‘vida atual’, ou tem controle demais da situação. De um jeito ou de outro, é difícil, conversando, levá-los a pensar: ah, agora eu realmente tenho que me recompor, porque isso não é bom para nós. Não é fácil.”

Ao mesmo tempo, terapeutas ressaltavam que as noções de capacidade e disposição não devem ser vistas como atributos binários, totalmente presentes ou ausentes. Defendiam, em vez disso, uma perspectiva mais matizada, que as considera variáveis situadas num espectro, de robustas a restritas. Observavam que essas capacidades podiam oscilar ao longo do tempo e também podiam se tornar um foco central de atenção e intervenção, voltado a fortalecer a aptidão e a motivação do casal para reduzir o risco de violência e aumentar a segurança. Ainda assim, terapeutas enfatizavam que, já na etapa inicial, um nível mínimo de capacidade e disposição precisa estar evidente para que as sessões conjuntas sejam uma opção viável.

3.2.4. É suficiente?

A capacidade e a disposição do casal para criar um ambiente de vida mais seguro para todas as pessoas envolvidas são, sem dúvida, cruciais. Ainda assim, terapeutas também ressaltavam sua responsabilidade de avaliar se a colaboração, e aquilo com que cada terapeuta e o NFCS podiam contribuir, era suficiente e/ou se havia outros serviços mais adequados para atender às necessidades daquela família. Isso era essencial logo depois que a violência se tornava a preocupação principal, mas também exigia monitoramento contínuo. Sigrid, do grupo focal 2, disse:

“E aí sempre há aquela consideração sobre se existem serviços melhores em outro lugar.”

Sua colega Ingvild relatou uma conversa em que havia discutido com o casal que os serviços do NFCS, sozinhos, não seriam suficientes, segundo sua avaliação, e que era essencial ser transparente e discutir isso com o casal:

“E eu disse isso ao casal. Que acho que isso não é justo com vocês. Não, porque é uma ajuda insuficiente demais neste momento, então como podemos pensar sobre a situação?”

As pessoas terapeutas do grupo focal 2 já tinham sentido, vezes demais, o desconforto de ver os recursos e o enquadre de sua unidade de aconselhamento familiar degradarem os serviços que podiam oferecer de início e que, na sua avaliação, o casal precisava para criar processos regeneradores. A principal preocupação girava em torno da dificuldade de agendar sessões regulares e frequentes e, se necessário, de incluir coterapia no processo. Sigrid e Ingvild (GF3) descreveram sua experiência: quando a violência entrava em cena, o primeiro impulso era marcar rapidamente consultas de acompanhamento, mas isso era complicado e raramente possível, e por isso gerava inquietação:

Sigrid: “Às vezes pode ser difícil trabalhar com esses casos, e eu penso que não consigo. Tenho um próximo horário livre daqui a 6 semanas!”

Ingvild: “É crise total.”

Sigrid: “E, se eu for incluir coterapia, então passam pelo menos oito semanas até eu poder encontrar o casal de novo… E é isso, é com isso que a gente pode ficar muito, muito esgotada.”

Em outras ocasiões, ao contrário, terapeutas sentiam e acreditavam dispor dos recursos necessários e de um enquadre favorável, que lhes permitiam instaurar processos regeneradores e ter um sentimento de domínio no trabalho. Ainda assim, a pergunta “é suficiente?” continuava pertinente. Uma parte essencial dessa pergunta envolvia monitorar a ocorrência de incidentes violentos entre as sessões. Sunniva (GF3), por exemplo, mencionou:

“Já faz duas semanas desde o nosso último encontro, certo? Houve algum episódio particularmente assustador ou particularmente amedrontador desde a última vez? Como vocês viveram isso? Então, então assim…, tento chegar à pior coisa que aconteceu desde a última vez, e aí a gente destrincha isso do ponto de vista do comportamento.”

Ao mesmo tempo, havia preocupação com o modo como a interação no casal ou na família evoluía ao longo do tempo. Ingvild continuou:

“Então é tanto sobre: parece que eles estão começando a pensar diferente sobre si mesmos e sobre a situação? Parece que essa mudança de percepção passa para as ações que eles de fato fazem? Isso de um lado, mas também: em que medida há, de certa forma, alguma mudança na compreensão do que está acontecendo com eles, e daquilo com que eles mesmos contribuem, estão ajudando ou mantendo a situação?”

Nesse contexto, portanto, terapeutas ressaltavam a importância de uma avaliação contínua para determinar se a colaboração avançava na direção certa e se as medidas eram suficientes ou se outras ações eram necessárias.

3.3. Tema experiencial de grupo 3: três fontes-chave de construção de sentido

O terceiro tema experiencial de grupo descreve três fontes-chave que mostram como terapeutas “leem” a situação e como embasam suas decisões. Terapeutas recorriam a três fontes principais para dar sentido às duas perguntas que constituíam os dois temas experienciais de grupo anteriores: “É seguro o bastante?” e “Temos um projeto comum e regenerador?”. As três fontes eram: a construção de sentido pela linguagem; a construção de sentido pelas emoções, sensações e corpos em interação; e a construção de sentido pelas experiências anteriores e pelos casos paradigmáticos. Sem dúvida há sobreposição entre essas três fontes de construção de sentido e, na análise, elas se iluminam mutuamente. Não se trata, portanto, de terapeutas embasarem suas escolhas numa ou noutra fonte; é mais uma questão de foco e de prioridade, de qual modalidade a pessoa terapeuta consegue acessar e, se for o caso, escolhe priorizar num dado momento (ver Figura 3 e Tabela 4).

Diagrama das três fontes de construção de sentido: pela linguagem; pelas emoções, sensações e corpos em interação; pelas experiências anteriores e pelos casos paradigmáticos
Figura 3. Tema experiencial de grupo 3: três fontes-chave de construção de sentido (esquema original em inglês)

Tabela 4 — Presença dos subtemas do tema experiencial de grupo 3, por grupo focal

  • Construção de sentido pela linguagem. GF1, GF2, GF3, GF4.
  • Construção de sentido pelas emoções, sensações e corpos em interação. GF1, GF2, GF3, GF4.
  • Construção de sentido pelas experiências anteriores e pelos casos paradigmáticos. GF1, GF2, GF3, GF4.

3.3.1. A construção de sentido pela linguagem

Quando se trata de decidir se as sessões conjuntas continuam, terapeutas parecem se apoiar fortemente na construção de sentido pela linguagem. Neste estudo, a linguagem não é apenas o meio pelo qual terapeutas refletem sobre suas decisões e expressam seus pensamentos e reflexões a respeito delas: a linguagem, de modo geral, é também a fonte primeira que guia o processo de decisão em que estão inseridas.

Além disso, e mais especificamente, terapeutas empregavam diversos termos e conceitos, teóricos ou oriundos da prática, para compreender, iniciar investigações e avaliar diferentes aspectos que consideravam relevantes e significativos para a decisão. Os temas subordinados dos temas experienciais de grupo 1 e 2 dão exemplos desses termos e conceitos incorporados ativamente por terapeutas. Esses termos e conceitos eram “ferramentas” e fontes potentes, que faziam surgir certos aspectos e lhes permitiam aparecer “à luz”.

Um exemplo concreto e ilustrativo é o conceito de “poder e controle coercitivo”. Apesar de pequenas variações de terminologia e de formulação, as 12 pessoas terapeutas se referiram de modo constante a esse conceito ao longo das entrevistas em grupo focal. Embora seja possível fornecer definições operacionais precisas, as pessoas terapeutas não consideravam essas definições o aspecto primário ou fundamental de sua tomada de decisão. Usavam o conceito de modo mais solto, como uma “lente perceptiva”, que guiava a investigação e a exploração sem fornecer um roteiro rígido do que procurar. O conceito parecia servir para chamar a atenção para características essenciais que, a seu ver, ofereceriam um ponto de partida pertinente para investigar e construir uma base suficiente para a construção de sentido e a tomada de decisão. No grupo focal 2, por exemplo, Thomas usava com frequência o conceito de “poder e controle coercitivo” como porta de entrada e como quadro para examinar várias facetas do cotidiano do casal.

“Eu tematizo a igualdade, o poder e o controle coercitivo na relação. Como isso é sentido, hum, e é uma maneira de eu checar, então, a minha preocupação. Se eu fico, fico mais preocupado depois de explorar esse tema, hum, em relação a quem toma as decisões, em relação a, pode ser sobre as finanças. Pode ser sobre, sobre, isso, um em relação ao outro: hum, e é uma maneira de checar se a minha intuição estava certa.”

Sunniva (GF3) também usava poder e controle coercitivo como termo e conceito quando a violência se tornava uma questão, e como “lente perceptiva” para avaliar se era adequado continuar com as sessões conjuntas:

“Ir mais a fundo no que mais existe nessa relação em termos de diferentes aspectos de poder, isto é, que tipo de impotência quem vive, em que situações, e que posições de poder existem, o que isso faz com a dinâmica da relação e com a comunicação?”

Esses conceitos claramente contribuíam para descrever e iluminar diferentes aspectos que, de outro modo, poderiam passar despercebidos ou se perder em meio a um excesso de informações e impressões.

3.3.2. A construção de sentido pelas emoções, sensações e corpos em interação

Várias pessoas terapeutas usavam expressões como “o clima na sala”, “a vibe”, “tive um pressentimento”, “eu senti” ou “sentimentos e atmosfera intensos” para descrever suas percepções intuitivas das dinâmicas em curso no contexto terapêutico.

Assim, a segunda fonte principal de informação de terapeutas para “ler a sala” eram suas percepções intuitivas das dinâmicas em curso no contexto terapêutico, mais especificamente seus sentimentos e sensações corporais baseados na experiência e sua impressão dos corpos e da interação do casal na sala. Consideravam essa fonte de informação indispensável para dar sentido às complexidades das sessões conjuntas, orientar as intervenções, acompanhar o processo terapêutico e embasar a avaliação e o manejo do risco. Embora os quatro grupos focais tenham abordado esse aspecto em alguma medida, as discussões dos grupos focais 1 e 4 se aprofundaram mais na sensibilidade de terapeutas a essas dinâmicas não verbais e em sua interpretação ativa, como ilustra Stig, do grupo focal 1:

“Essa dinâmica, vindo da sala de espera, quando entram no consultório, como se sentam, como falam, não falam um com o outro, e também como eles, como reagem quando digo que quero ter conversas individuais com eles, isto é, todas essas respostas. Tanto como se movimentam um em relação ao outro quanto em relação a mim, isso diz muito.”

Viver essas interações deixa impressões corporais, e a construção de sentido da interação na sala ajuda terapeutas a considerar quais medidas e alternativas de ação podem ser vistas como viáveis. Tone desenvolveu (GF4):

“Se é muito, se há um sentimento ou uma atmosfera tão intensa que parece quase palpável na sala, muito tensa, trêmula, um dos dois não faz contato visual, e o outro é muito, como posso dizer, um está muito ansioso para falar e expõe a situação. Então consigo sentir o desconforto e a aflição de que há algo ali, hum, e isso meio que corta a possibilidade de ir tão longe na paisagem quanto eu talvez fosse.”

Quando sentiam esse desconforto corporal e ficavam sem saber como seria mais adequado prosseguir, várias pessoas participantes descreviam isso como um diálogo interior e diziam tomar decisões intuitivas que, a seu ver, protegiam melhor a segurança. Esse processo de decisão interno e intuitivo representava um dilema para parte do grupo, pois contradizia a aspiração à abertura e à transparência nas sessões conjuntas com o casal. Thomas, que participou do grupo focal 2, ofereceu reflexões sobre esse delicado exercício de equilíbrio:

“Não fico com essa sensação sem fazer nada, então, então eu sou meio que, estou sempre fazendo alguma coisa quando tenho um pressentimento assim, ou, se falamos disso, é raro, então tento ser transparente, então, então provavelmente sou transparente quando trabalho com casais… Mas isso tem que passar pela minha avaliação do que posso dizer, ou de quão preocupado estou com a possibilidade de algo dar errado. Sim, se estou com medo o suficiente, entro em contato com alguém da equipe ou com a minha chefia. Hum, ou, ou se estou suficientemente, então, de certa forma, espero para falar dessas coisas e verifico mais em conversas individuais.”

Algumas pessoas descreviam essa sensibilidade e essa capacidade de registrar e interpretar o próprio corpo e o dos outros, as emoções e as interações como indispensáveis para decidir se as sessões conjuntas eram adequadas. Ao mesmo tempo, várias pessoas terapeutas descreviam esse processo de interpretação como difícil de pôr em palavras: ele “opera” mais como uma sensação que influencia a impressão e a ação.

3.3.3. A construção de sentido pelas experiências anteriores e pelos casos paradigmáticos

As pessoas participantes do estudo eram quase exclusivamente terapeutas com muita experiência, longa atuação no NFCS e experiência acima da média em casos em que a violência era uma das principais preocupações. Seria pouco plausível afirmar que suas ideias prévias e experiências anteriores não influenciavam sua construção de sentido e suas decisões. Essas pessoas terapeutas carregavam o peso de experiências passadas, em especial de alguns casos paradigmáticos que haviam deixado uma marca duradoura em sua consciência e em seu corpo. Relatavam de forma vívida como essas experiências vinham ao primeiro plano e influenciavam sua “construção clínica de sentido” em situações novas e semelhantes, trazendo sugestões mais ou menos pertinentes para a decisão e a ação. Stig, do grupo focal 1, falou de como suas experiências em vários casos se acumularam e contribuíram para torná-lo mais alerta, levando a mais curiosidade e investigação do que antes:

“Provavelmente eu mesmo fiquei assustado, quando descobri depois quão feio tinha sido e quão perto da morte uma das partes tinha chegado, então isso provavelmente me deixou ainda mais, talvez sensível, mas muito alerta para perguntar: de que tipo de violência estamos falando? Até onde vai? Com que força você bate? O que você usou? Certo? Quão grave é isso em termos de sobrevivência? Porque eu fiquei, talvez eu tenha ficado traumatizado de forma secundária (risos), mas algumas vezes fiquei um pouco intimidado ao ver como esteve perto de dar terrivelmente errado.”

Em outros momentos, não eram experiências múltiplas e recorrentes que moldavam a prática da pessoa terapeuta e seus “mapas mentais cognitivos” ligados à tomada de decisão, mas um evento singular ou um caso paradigmático de influência duradoura. Perto do fim da quarta entrevista, quando as pessoas participantes foram convidadas a compartilhar outras reflexões, Emma, uma terapeuta experiente do grupo, relatou um caso de seu passado que remontava a quase um quarto de século. Esse caso havia deixado nela uma marca profunda e duradoura, como ela disse:

“Eu tinha um casal em que senti com muita força que havia algo errado. Ele era bem grande, e ela era pequena, e ela estava muito tensa. Tive algumas conversas com eles e depois os perdi. E pensei que provavelmente havia violência ali, pensei depois. E isso me volta, muitas vezes desde então. Tenho essa imagem comigo. Eles escaparam por entre os meus dedos. Naquela época, eu não tinha formação suficiente e tinha pouca experiência, mas essa imagem eu tenho, daquela tensão e daquela ansiedade. Então consigo reconhecê-la. Certo, eu vejo, muito. Ficou gravado como uma lembrança muito forte. Quando vejo, de certa forma, reconheço essa tensão (em casos novos)… Isso me afeta, agora preciso estar mais afiada.”

Algumas pessoas terapeutas descreveram como suas experiências anteriores e seus casos paradigmáticos moldaram sua sensibilidade a aspectos específicos e sua compreensão de base. Assim, em alguns casos, o peso das experiências passadas era vivido como um recurso e, em outros, como uma limitação. Ainda assim, ele oferece um quadro para avaliar as informações e as complexidades ao examinar as novas situações dos casos atendidos.

4. Discussão

A violência entre parceiros representa um desafio significativo no campo da terapia de casal. Este artigo explorou a “construção clínica de sentido” de terapeutas de casal que lidam com a decisão de continuar ou não as sessões conjuntas na presença de violência e tentam se orientar diante dela. O artigo oferece uma compreensão inédita sobre o “quê”, aquilo para o qual terapeutas se orientam, e o “como”, a maneira pela qual tentam formar uma impressão sobre a continuidade das sessões conjuntas. As descrições de terapeutas sobre a “construção clínica de sentido” revelam que esse processo não se limita a identificar a mera presença ou ausência de violência; ele mergulha no contexto singular de cada caso, marcado pela intuição, por uma consideração global e por uma complexidade e uma incerteza inerentes. Também põe em evidência os processos e dilemas de terapeutas ao se comprometerem com a segurança e buscarem processos regeneradores. Ao mesmo tempo, reconhecem os limites das sessões conjuntas e o fato de que nem todo casal pode se beneficiar delas (ver Figura 4).

Diagrama: no centro, a pergunta “Continuar com as sessões conjuntas?”, entre as perguntas “1. É seguro o bastante?” e “2. Projeto comum e regenerador?”; ao redor, ligadas por setas, as três fontes de construção de sentido: linguagem; emoções, sensações e corpos em interação; experiências anteriores e casos paradigmáticos
Figura 4. Visualização da interconexão dos temas experienciais de grupo 1, 2 e 3 com a pergunta de pesquisa principal (esquema original em inglês)

Depois que a violência se torna uma questão na terapia de casal, a primeira etapa da construção clínica de sentido é formar uma primeira impressão da situação para os próximos passos do processo. Embora essa seja muitas vezes a fase em que a pessoa terapeuta tem menos informações, os “dados brutos” ainda podem ser abundantes e avassaladores. Schön descreve que os problemas que enfrentamos na prática profissional não são necessariamente claros e simples. Muitas vezes estamos em situações marcadas pela incerteza, pela instabilidade e por conflitos de valores. Ele escreve: “Os problemas da prática do mundo real não se apresentam aos profissionais como estruturas bem formadas. Na verdade, tendem a não se apresentar de modo algum como problemas, mas como situações confusas e indeterminadas” [59] (p. 4). Quando o mundo parece caótico e rebelde, cabe a cada pessoa criar sentido por meio de suas construções e definições. Esse processo de produzir distinções é um ato interpretativo e de construção de sentido [60]. Quando construímos um problema e lhe damos sentido, fazemos isso por meio de um “…processo complementar de nomear e enquadrar. Coisas são selecionadas para a atenção e nomeadas de modo a se ajustar ao quadro construído para a situação” [61] (p. 146). Assim, diante dessa situação complexa ou ambígua em que a violência se tornou a preocupação principal, terapeutas buscam instintivamente reduzir a incerteza e tornar o mundo mais previsível. A análise deste estudo mostra que terapeutas tentam dar sentido fazendo distinções, isto é, “nomeando” e “enquadrando” por meio dos “quês” (temas experienciais de grupo 1 e 2: é seguro o bastante? e temos um projeto comum e regenerador?). Esse processo molda a interpretação de terapeutas e cria uma “lente” que influencia a situação e dá uma impressão dela.

Essa lente pela qual terapeutas interpretam o mundo ao redor depende dos conhecimentos, crenças, valores e experiências passadas de cada pessoa. Na perspectiva de Gadamer, o preconceito não é um obstáculo, mas uma condição positiva para compreender o que quer que seja [62]. Sem nossos preconceitos historicamente determinados e nossos horizontes de compreensão, não há nada em que se apoiar para dar sentido à situação. Tentar compreender uma situação e lhe dar sentido sempre implica, portanto, situar o fenômeno da compreensão no contexto de nossa pré-compreensão e de nossos preconceitos, que estão sempre ligados a um contexto histórico e social particular.

Por meio do tema experiencial de grupo 3, apresentamos o “como”: a maneira pela qual terapeutas tentam dar sentido à situação e formar uma impressão dela recorrendo a três fontes de informação distintas, a “linguagem”, as “emoções, sensações e corpos em interação” e as “experiências anteriores e casos paradigmáticos”. Usamos o termo “impressão” em vários pontos do texto. Sara Ahmed [63] sugeriu que o termo “impressão” pode borrar de modo construtivo as fronteiras entre sensações corporais, emoções, processos cognitivos e avaliação. Isso pode permitir transcender distinções analíticas rígidas entre esses componentes da experiência humana e, ao mesmo tempo, reconhecer a interconexão desses domínios. Assim, o uso do termo “impressão”, neste artigo, a respeito da maneira como terapeutas constroem sentido, remete à interação entre percepção, cognição, sensação e emoções, e ao modo como esses domínios afetam nossas impressões. Uma vez formada uma impressão compreensível de uma situação quanto à segurança, e avaliada a viabilidade de um projeto comum e regenerador, essa impressão serve de trampolim e de fundamento para as considerações, decisões e ações clínicas a esse respeito.

Ao longo de todo o processo de dar sentido à situação e decidir se as sessões conjuntas continuam, há um constante exercício de equilíbrio. Um de seus aspectos principais é a ponderação de considerações éticas. Elas estão implícitas e explícitas em todos os grupos focais: um compromisso de ir além da simples identificação da violência e de uma tomada de posição moral contra ela, para contribuir também com mais segurança e relações saudáveis [64]. Ao mesmo tempo, as pessoas terapeutas elucidam o delicado equilíbrio que precisam encontrar entre a dedicação a favorecer processos generativos e a obrigação ética e profissional de preservar o bem-estar de cada membro do casal e dos filhos.

Terapeutas atuam dentro de um quadro organizacional e jurídico mais amplo; chama a atenção, porém, que neste estudo essas estruturas formais raramente sejam mencionadas de forma explícita quando descrevem e discutem como se orientam, dão sentido à situação e decidem se continuam com as sessões conjuntas. Isso pode sugerir que terapeutas, individualmente ou com colegas, carregam a maior parte da responsabilidade e tomam essas decisões de forma autônoma, com apoio limitado desses quadros estabelecidos. Essa pode ser uma das peças do quebra-cabeça que explica por que terapeutas relatam com frequência um profundo sentimento de peso e de responsabilidade pessoal nesses casos. Por outro lado, todas as pessoas participantes dos grupos focais enfatizam a necessidade de manter um foco profissional contínuo e dedicado ao enfrentamento da violência, tanto na organização quanto em cada unidade de aconselhamento familiar. Esse compromisso é vital, pois contribui de modo significativo para fortalecer a capacidade de cada terapeuta de exercer bem sua função e oferecer serviços seguros e sob medida, otimizando assim a possibilidade de uma contribuição significativa nesses casos.

4.1. Implicações para a prática terapêutica

Fortalecer a capacidade individual: ao lidar com casos de violência entre parceiros, terapeutas de casal e família precisam se munir dos conhecimentos, habilidades e recursos necessários. Isso envolve a capacidade de abordar uma possível violência, mesmo que ela não faça parte do encaminhamento inicial, e de avaliar e manejar a segurança quando a violência no casal surge. Desenvolver uma “construção clínica de sentido” matizada das complexidades da violência entre parceiros amplia a capacidade de terapeutas de se orientar, compreender e tomar decisões fundamentadas. Isso exige uma prática terapêutica reflexiva, apoiada pela supervisão e impregnada de reflexividade, consciência ampliada e uso crítico do conhecimento [59,65]. Esse pensamento crítico explora a “profundidade” e a “amplitude” dos saberes explícitos e implícitos que terapeutas utilizam em cada caso [66]. Passando os resultados deste estudo pelo filtro do pensamento crítico, queremos pôr em primeiro plano e formular três perguntas-chave para terapeutas refletirem na prática cotidiana diante da violência entre parceiros, ampliando assim sua capacidade de “construção clínica de sentido” nesses casos. São elas: (1) Para o que eu, como terapeuta, me oriento para formar uma impressão suficiente que me permita fazer escolhas profissionais e éticas tanto sobre a segurança quanto sobre a existência de um projeto comum e regenerador? e (2) Como eu me oriento, e em que fontes minhas impressões são construídas? Para responder a essa pergunta de forma construtiva, a pessoa terapeuta precisa ter ao menos “conhecimentos e habilidades específicos sobre violência” fundamentais, além do repertório terapêutico “comum” de trabalhar com mais de uma pessoa na sala. Para reforçar a perspectiva crítica dessas reflexões, a introdução de uma terceira pergunta torna-se importante tanto para a prática quanto para a supervisão: (3) Que aspectos estou negligenciando ou para os quais não me oriento, e há fontes alternativas que poderiam contribuir para formar uma impressão mais completa para fazer escolhas profissionais e éticas? A capacidade de prática reflexiva e de “construção clínica de sentido” mobilizada por terapeutas está, porém, intimamente ligada aos recursos da organização e a seu quadro de apoio. A pessoa terapeuta não pode carregar essa responsabilidade sozinha.

Fortalecer a capacidade organizacional: é fundamental reconhecer que a organização precisa garantir e facilitar a oferta de recursos adequados e de um quadro de apoio. Isso implica o compromisso de promover um ambiente que dê autonomia a terapeutas, permitindo e sustentando: (1) Autorreflexão: incentivar terapeutas a praticar a autorreflexão contínua, explorando crenças, valores e vieses pessoais em relação à violência entre parceiros, em geral e nos casos que atendem. (2) Supervisão: oferecer a terapeutas sessões regulares de supervisão para discutir seus casos, incluindo as três perguntas acima e suas reações emocionais ao trabalhar com essas questões. (3) Formação e educação: oferecer formação em violência no casal e na família e em cuidado informado pelo trauma, incluindo a compreensão das dinâmicas de poder e das questões de controle, e de como esse conhecimento mais genérico pode ser utilizado num contexto de terapia de casal e família. (4) Estabelecer rotinas e acordos para a colaboração de cada terapeuta com outros serviços e organizações locais, e viabilizá-la. Essa abordagem interdisciplinar e intersetorial pode enriquecer o trabalho e oferecer às famílias os melhores serviços possíveis.

4.2. Reflexões sobre as limitações e os pontos fortes do estudo e pesquisas futuras

Recrutamos e utilizamos grupos de prática profissional já existentes porque achamos que isso ajudaria a oferecer segurança, permitindo uma exploração mais aprofundada de um tema e de experiências compartilhados e potencialmente sensíveis [48]. No início e no fim de cada grupo focal, também perguntamos se algum aspecto impedia ou dificultava que as pessoas participantes compartilhassem e discutissem abertamente, já que as duas pessoas que conduziam as entrevistas faziam parte da mesma organização. Em todos os grupos focais, as pessoas participantes descartaram essa hipótese e acrescentaram que viviam o contrário. O fato de a equipe de pesquisa ser da mesma organização facilitava trazer exemplos concretos e ir “direto ao ponto”. Também criava um “espaço de reflexão” mais amplo e mais seguro, que facilitava abordar temas complexos, difíceis e sensíveis. Embora a exatidão dessas afirmações não possa ser verificada, houve poucos indícios de autocensura ou de que essas descrições não fossem válidas.

O recrutamento foi feito por amostragem intencional. Por isso, o estudo foi realizado com um grupo pequeno e selecionado dentro do total de terapeutas do Serviço Norueguês de Aconselhamento Familiar. As pessoas terapeutas da amostra provavelmente têm mais conhecimento e experiência, e um interesse mais amplo e dedicado pelo trabalho com casos de casal e família em que a violência é uma preocupação. Os achados devem, portanto, ser vistos nesse contexto. No entanto, o fato de a violência se tornar uma questão em sessões conjuntas é um fenômeno relativamente comum em diferentes serviços; por isso, os resultados podem ser transferíveis, em certa medida, depois de passar pelo filtro do serviço, do contexto social, cultural e jurídico de cada lugar.

Uma parte essencial da pesquisa qualitativa e de uma abordagem IPA é que a equipe de pesquisa mantenha uma posição reflexiva e transparente ao longo do processo [48,58,67]. Por isso, como mencionado acima, nosso “horizonte” de compreensão, nossas experiências, nossa linguagem, nossos valores e o contexto em que estamos inseridos serão ao mesmo tempo os limites e os pré-requisitos dos achados e deste artigo como um todo.

Quanto a nossos posicionamentos pessoais, eles afetam inevitavelmente, de diferentes maneiras, o projeto de pesquisa, da fase inicial à redação. Como equipe de pesquisa e terapeutas de casal e família, acreditamos, e sempre vamos nos esforçar para isso, que a segurança e o bem-estar das pessoas envolvidas devem ser prioridade e o marcador de contexto mais alto do nosso trabalho. Ao mesmo tempo, acreditamos que a perspectiva sistêmica é um quadro valioso para compreender os casos de violência entre parceiros e intervir neles, porque favorece uma compreensão matizada, contextual e interconectada do problema. Isso não significa que consideremos as sessões conjuntas ou a terapia de casal sempre adequadas. Sustentamos que a violência nas relações íntimas não é um fenômeno uniforme, sendo mais bem conceituada ao longo de um contínuo multifatorial diferenciado por diversos aspectos, e que essas variações devem se refletir tanto na pesquisa quanto na prática clínica [21,22,23]. Em pesquisas futuras, conhecer mais a fundo as experiências tanto das pessoas atendidas quanto de terapeutas que atuam em casos específicos pode oferecer uma compreensão mais completa do tema. Além disso, uma exploração mais aprofundada de vários aspectos destacados neste artigo, e uma ligação mais estreita com a prática clínica, poderiam ampliar a contribuição tanto para a prática quanto para a pesquisa.

5. Conclusões

Ao longo deste artigo, a “construção clínica de sentido” aparece como um processo iterativo e contínuo, crucial para terapeutas que lidam com situações complexas, como a violência entre parceiros na terapia de casal. O artigo oferece uma compreensão inédita sobre o “quê”, aquilo para o qual terapeutas se orientam, e o “como”, a maneira pela qual tentam formar uma impressão sobre a continuidade das sessões conjuntas. Esse processo dinâmico envolve reunir, enquadrar e nomear constantemente circunstâncias e informações para construir impressões coerentes de uma dada situação. Essas impressões, por sua vez, servem de fundamento para as considerações profissionais e éticas seguintes, orientando terapeutas na tomada de decisões fundamentadas e na escolha de ações adequadas. Com base nos achados deste artigo, a “construção clínica de sentido” pode ser condensada e definida como “um processo iterativo e contínuo de reunir, enquadrar e nomear circunstâncias e informações em impressões compreensíveis de uma situação, que servem de fundamento para considerações, decisões e ações profissionais e éticas”. Esse processo de “construção clínica de sentido” nos casos de violência no casal, no entanto, está longe de ser simples. Ele é marcado pela complexidade, pela intuição e por um compromisso inabalável com a segurança e com os processos regeneradores. Terapeutas reconhecem os limites das sessões conjuntas e a necessidade de uma abordagem matizada e específica ao contexto. Ao se orientar nesse terreno intrincado, terapeutas mobilizam sua combinação de conhecimento formal e percepções intuitivas, buscando oferecer o melhor serviço possível a quem atendem e, ao mesmo tempo, abrir um caminho transformador rumo à segurança e à cura. A “construção clínica de sentido” não é, portanto, um mero exercício acadêmico, mas um imperativo profissional que pode moldar o curso da intervenção terapêutica e a vida das pessoas.

Complexe Systémique: a reter

A força deste estudo está em descrever o que os protocolos deixam na sombra: o momento em que é preciso decidir, na sessão, se o atendimento conjunto de um casal em que a violência acaba de surgir deve continuar. Os critérios conhecidos estão lá (formas e frequência, controle coercitivo, medo, filhos, substâncias, reconhecimento dos fatos), mas terapeutas acrescentam uma segunda pergunta, muito sistêmica: ainda existe um projeto comum, compartilhado pelas duas pessoas do casal e pela pessoa terapeuta? E o julgamento passa tanto pelo corpo e pela memória dos casos marcantes quanto pelos conceitos. Para a clínica, três perguntas de supervisão são preciosas: para o que me oriento, em que fontes me apoio e o que não estou vendo. Os limites estão num grupo pequeno e muito experiente, entrevistado por colegas da mesma instituição, e na ausência da voz dos casais. A constatação mais incômoda é institucional: quando a próxima consulta fica para daqui a seis semanas, a segurança passa a depender só da pessoa terapeuta. Para ler junto com o estudo sobre o longo percurso rumo a uma terapia de casal focada na violência e com o artigo sobre o lugar da criança após a violência familiar.

Notas do original

Aviso do editor. As declarações, opiniões e dados contidos em todas as publicações são de responsabilidade exclusiva das pessoas que as assinam ou delas participam, e não da MDPI nem dos editores científicos. A MDPI e os editores científicos se isentam de responsabilidade por qualquer dano a pessoas ou bens resultante de ideias, métodos, instruções ou produtos mencionados no conteúdo.

Agradecimentos. A equipe expressa sua mais calorosa gratidão a todas as pessoas que participaram deste estudo e a Ulf Axberg (VID) e Ottar Ness (NTNU) pelo apoio e pelos comentários construtivos. Agradece também ao Serviço Norueguês de Aconselhamento Familiar, às pessoas colegas da equipe de recursos e desenvolvimento sobre violência e conflitos graves e a Lena Holm Berndtsson, diretora do Escritório Regional Leste para Assuntos da Criança, da Juventude e da Família, pelo apoio indispensável, sem o qual este estudo não teria sido possível.

Contribuições. Conceituação, J.F.S., P.E.C. e A.V.; metodologia, J.F.S., P.E.C. e A.V.; validação, P.E.C. e A.V.; análise formal, J.F.S. e P.E.C.; investigação, J.F.S. e P.E.C.; redação do rascunho original, J.F.S.; revisão e edição, P.E.C. e A.V.; visualização, J.F.S.; supervisão, A.V.; administração do projeto, J.F.S. e P.E.C.; obtenção de financiamento, J.F.S. Toda a equipe leu e aprovou a versão publicada do manuscrito.

Aprovação ética. O estudo foi realizado de acordo com a Declaração de Helsinque. O Comitê Regional de Ética em Pesquisa Médica e em Saúde (Seção A, Sudeste da Noruega) examinou o projeto à luz da Lei Norueguesa de Ética em Pesquisa (2006) e da Lei de Pesquisa Médica e em Saúde (2008) e considerou que o projeto não se enquadrava nesta última lei, podendo portanto ser realizado sem sua aprovação (referência 192736). Além disso, o projeto foi aprovado e conduzido de acordo com as diretrizes do Centro Norueguês de Dados de Pesquisa (referência 999687).

Consentimento informado. O estudo se baseou em consentimento voluntário: as pessoas participantes receberam informações sobre o estudo, as condições de anonimato e a possibilidade de desistir, e deram seu consentimento informado antes de participar.

Disponibilidade dos dados. Mais informações sobre os dados apresentados neste estudo estão disponíveis mediante solicitação à pessoa responsável pela correspondência. Os dados não são públicos por razões de privacidade e de ética.

Conflitos de interesse. As duas primeiras pessoas que assinam o artigo querem deixar claro que trabalham na organização em que a pesquisa foi realizada. Medidas reflexivas, de supervisão e administrativas foram tomadas ao longo do processo para mitigar esses possíveis conflitos. Nem a organização nem o financiador tiveram qualquer papel no delineamento do estudo, na coleta, análise e interpretação dos dados, na redação do manuscrito ou na decisão de publicar os resultados. Elas não declaram nenhum outro conflito de interesse, e a terceira pessoa signatária não declara nenhum.

Financiamento. Esta pesquisa foi financiada pelo Escritório Regional Leste para Assuntos da Criança, da Juventude e da Família (Bufetat Region Øst) e pelo Conselho Norueguês de Pesquisa (NFR), projetos nos 300704 (J.F.S.) e 300705 (P.E.C.).

Referências

Visser M., Van Lawick J., Stith S.M., Spencer C. Systemic Research in Individual, Couple, and Family Therapy and Counseling. Springer; Cham, Switzerland: 2020. Violence in families: Systemic practice and research; pp. 299–315.

Andersson T., Heimer G., Lucas S. Violence and Health in Sweden: A National Prevalence Study on Exposure to Violence among Women and Men and Its Association to Health. National Centre for Knowledge on Men’s Violence Against Women (NCK); Uppsala, Sweden: 2015.

Haaland T., Clausen S.-E., Schei B. Vold i Parforhold-Ulike Perspektiver: Resultater fra den Første Landsdekkende Undersøkelsen i Norge. Norsk Institutt for By- og regionforskning; Oslo, Norway: 2005.

Smith S.G., Basile K.C., Gilbert L.K., Merrick M.T., Patel N., Walling M., Jain A. National Intimate Partner and Sexual Violence Survey (NISVS): 2010–2012 State Report. Centers for Disease Control and Prevention; Atlanta, GA, USA: 2017.

Thoresen S., Hjemdal O.K. Vold og Voldtekt i Norge. En Nasjonal Forekomststudie Av Vold I Et Livsløpsperspektiv Rapport. Nasjonalt kunnskapssenter om vold og traumatisk stress A/S; Oslo, Norway: 2014. [(accessed on 28 November 2023)]. pp. 1–179. Available online: https://nkvts.no/content/uploads/2015/11/vold_og_voldtekt_i_norge.pdf.

Jose A., O’Leary K.D. Psychological and Physical Aggression in Couples: Causes and Interventions. American Psychological Association; Washington, DC, USA: 2009. Prevalence of partner aggression in representative and clinic samples.

Simpson L.E., Doss B.D., Wheeler J., Christensen A. Relationship violence among couples seeking therapy: Common couple violence or battering? J. Marital Fam. Ther. 2007;33:270–283. doi: 10.1111/j.1752-0606.2007.00021.x.

Dahl S., Følling L., Gulbrandsen O. Registrering av fysisk vold i familier: En undersøkelse foretatt ved familierådgivningskontorene i Oslo. Fokus På Fam. 1983;11:219–226.

Flåm A.M., Handegård B.H. Where is the child in family therapy service after family violence? A study from the Norwegian family protection service. Contemp. Fam. Ther. 2015;37:72–87. doi: 10.1007/s10591-014-9323-5.

Vatnar S.K.B. Familievold og familievern. Presentasjon og drøfting av en kartleggingsundersøkelse ved Familievernkontorene i Norge. Fokus På Fam. 2000;28:169–182.

Stith S.M., Rosen K.H., McCollum E.E. Effectiveness of couples treatment for spouse abuse. J. Marital Fam. Ther. 2003;29:407–426. doi: 10.1111/j.1752-0606.2003.tb01215.x.

Stith S.M., McCollum E.E., Amanor-Boadu Y., Smith D. Systemic perspectives on intimate partner violence treatment. J. Marital Fam. Ther. 2012;38:220–240. doi: 10.1111/j.1752-0606.2011.00245.x.

Karakurt G., Whiting K., van Esch C., Bolen S.D., Calabrese J.R. Couples Therapy for Intimate Partner Violence: A Systematic Review and Meta-Analysis. J. Marital Fam. Ther. 2016;42:567–583. doi: 10.1111/jmft.12178.

Vetere A., Cooper J. Working systemically with family violence: Risk, responsibility and collaboration. J. Fam. Ther. 2001;23:378–396. doi: 10.1111/1467-6427.00191.

Cooper J., Vetere A. Domestic Violence and Family Safety: A Systemic Approach to Working with Violence in Families. John Wiley & Sons; Hoboken, NJ, USA: 2008.

Henderson A.J., Bartholomew K., Trinke S.J., Kwong M.J. When loving means hurting: An exploration of attachment and intimate abuse in a community sample. J. Fam. Violence. 2005;20:219–230. doi: 10.1007/s10896-005-5985-y.

Slootmaeckers J., Migerode L. Fighting for connection: Patterns of intimate partner violence. J. Couple Relatsh. Ther. 2018;17:294–312. doi: 10.1080/15332691.2018.1433568.

Slootmaeckers J., Migerode L. EFT and Intimate Partner Violence: A Roadmap to De-escalating Violent Patterns. Fam. Process. 2020;59:328–345. doi: 10.1111/famp.12468.

Vetere A. Attachment Narrative Therapy: Applications and Developments. Springer; Berlin/Heidelberg, Germany: 2023. Working Systemically with Family Violence and Attachment Dilemmas; pp. 121–138.

Abbott J., Johnson R., Koziol-McLain J., Lowenstein S.R. Domestic violence against women. Incidence and prevalence in an emergency department population. JAMA. 1995;273:1763–1767. doi: 10.1001/jama.1995.03520460045033.

Carlson R.G., Dayle Jones K. Continuum of conflict and control: A conceptualization of intimate partner violence typologies. Fam. J. 2010;18:248–254. doi: 10.1177/1066480710371795.

Dokkedahl S.B., Elklit A. Undersøgelse af Indbyrdes Vold. Videnscenter for Psykotraumatologi, Syddansk Universitet; Odense, Denmark: 2018. [(accessed on 28 November 2023)]. pp. 1–101. Available online: https://bm.dk/media/17153/undersgelse_af_indbyrdes_vold_16-01-2018_endelig.pdf.

Johnson M.P., Leone J.M., Xu Y. Intimate terrorism and situational couple violence in general surveys: Ex-spouses required. Violence Against Women. 2014;20:186–207. doi: 10.1177/1077801214521324.

Stith S.M., Spencer C. Commentary: 25 Years After Johnson’s Typology of Intimate Partner Violence the Impact of Johnson’s Typology on Clinical Work. J. Fam. Violence. 2023:1–6. doi: 10.1007/s10896-023-00654-z.

Kelly J.B., Johnson M.P. Differentiation among types of intimate partner violence: Research update and implications for interventions. Fam. Court Rev. 2008;46:476–499. doi: 10.1111/j.1744-1617.2008.00215.x.

Johnson M.P. A Typology of Domestic Violence: Intimate Terrorism, Violent Resistance, and Situational Couple Violence. Northeastern University Press; Boston, MA, USA: 2008.

Johnson M.P. A personal social history of a typology of intimate partner violence. J. Fam. Theory Rev. 2017;9:150–164. doi: 10.1111/jftr.12187.

George R. Typologies of intimate violence and assessment: Making the distinction. Fam. Ther. Mag. 2007;6:10–15.

Holtzworth-Munroe A., Stuart G.L. Typologies of male batterers: Three subtypes and the differences among them. Psychol. Bull. 1994;116:476. doi: 10.1037/0033-2909.116.3.476.

Johnson M.P. Patriarchal Terrorism and Common Couple Violence: Two Forms of Violence against Women. J. Marriage Fam. 1995;57:283–294. doi: 10.2307/353683.

Gottlieb M.C., Lasser J., Simpson G.L. Legal and ethical issues in couple therapy. In: Gurman A.S., editor. Clinical Handbook of Couple Therapy. 4th ed. Guilford Press; Guilford, UK: 2008. pp. 698–717.

Aldarondo E., Straus M.A. Screening for physical violence in couple therapy: Methodological, practical, and ethical considerations. Fam. Process. 1994;33:425–439. doi: 10.1111/j.1545-5300.1994.00425.x.

McLaughlin K.D. Ethical considerations for clinicians treating victims and perpetrators of intimate partner violence. Ethics Behav. 2017;27:43–52. doi: 10.1080/10508422.2016.1185012.

Greene K., Bogo M. The different faces of intimate violence: Implications for assessment and treatment. J. Marital Fam. Ther. 2002;28:455–466. doi: 10.1111/j.1752-0606.2002.tb00370.x.

Vetere A. Commentary-The role of formulation in psychotherapy practice. J. Fam. Ther. 2006;28:388–391. doi: 10.1111/j.1467-6427.2006.00359.x.

Johnstone L., Dallos R. Formulation in Psychology and Psychotherapy: Making Sense of People’s Problems. Routledge; London, UK: 2013.

Schacht R.L., Dimidjian S., George W.H., Berns S.B. Domestic violence assessment procedures among couple therapists. J. Marital Fam. Ther. 2009;35:47–59. doi: 10.1111/j.1752-0606.2008.00095.x.

Nicholls T.L., Pritchard M.M., Reeves K.A., Hilterman E. Risk assessment in intimate partner violence: A systematic review of contemporary approaches. Partn. Abus. 2013;4:76–168. doi: 10.1891/1946-6560.4.1.76.

Statistics Norway. Family Counselling Service. [(accessed on 28 November 2023)]. Available online: https://www.ssb.no/en/sosiale-forhold-og-kriminalitet/barne-og-familievern/statistikk/familievern.

Barne- likestillings- og inkluderingsdepartementet. Tildelingsbrev til Barne-, Ungdoms- og Familiedirektoratet 2013. Barne- likestillings- og inkluderingsdepartementet; Oslo, Norway: 2013. [(accessed on 28 November 2023)]. pp. 1–49. Available online: https://www.regjeringen.no/contentassets/e3c03f39789d433a9ade95467740b6ab/tildelingsbrev_til_barne-_ungdoms-_og_familiedirektoratet_2013.pdf.

Barne- og likestillingsdepartementet. Prop. 12 S (2016–2017). Opptrappingsplan mot Vold og Overgrep (2017–2021) Barne- og likestillingsdepartementet; Oslo, Norway: 2016. [(accessed on 28 November 2023)]. pp. 1–101. Available online: https://www.regjeringen.no/contentassets/f53d8d6717d84613b9f0fc87deab516f/no/pdfs/prp201620170012000dddpdfs.pdf.

Barne- ungdoms- og familiedirektoratet. Dimensjonering og Organisering av Familieverntjenestene—En Evaluering. Barne- ungdoms- og familiedirektoratet; Oslo, Norway: 2014. [(accessed on 28 November 2023)]. pp. 1–57. Available online: https://bibliotek.bufdir.no/BUF/101/Dimensjonering_av_familievernet_evaluering.pdf.

Justis- og beredskapsdepartementet. Meld. St. 15 (2012–2013) Forebygging og Bekjempelse av Vold i Nære Relasjoner. Justis- og beredskapsdepartementet; Oslo, Norway: 2013. [(accessed on 28 November 2023)]. pp. 1–137. Available online: https://www.regjeringen.no/contentassets/1cea841363e2436b8eb91aa6b3b2d48e/no/pdfs/stm201220130015000dddpdfs.pdf.

Justis- og beredskapsdepartementet. Et Liv uten Vold. Handlingsplan mot Vold i Nære Relasjoner 2014–2017. Justis- og beredskapsdepartementet; Oslo, Norway: 2014. [(accessed on 28 November 2023)]. pp. 1–30. Available online: https://www.regjeringen.no/contentassets/97cdeb59ffd44a9f820d5992d0fab9d5/hplan-2014-2017_et-liv-uten-vold.pdf.

Royal Norwegian Ministry of Justice and Public Security. Action Plan against Domestic Violence 2012. Royal Norwegian Ministry of Justice and Public Security; Oslo, Norway: 2012. [(accessed on 28 November 2023)]. pp. 1–16. Available online: https://www.regjeringen.no/contentassets/a48f0a1fb807453cb4469373342374c5/actionplan_domesticviolence.pdf.

McLeod J. Qualitative Research in Counselling and Psychotherapy. SAGE Publications; Thousand Oaks, CA, USA: 2011.

Smith J.A., Flowers P., Larkin M. Interpretative Phenomenological Analysis: Theory, Method and Research. SAGE Publications; Thousand Oaks, CA, USA: 2009.

Smith J.A., Flowers P., Larkin M. Interpretative Phenomenological Analysis: Theory, Method and Research. 2nd ed. SAGE Publications; Thousand Oaks, CA, USA: 2022.

Anderson N.E., Slark J., Gott M. Unlocking intuition and expertise: Using interpretative phenomenological analysis to explore clinical decision making. J. Res. Nurs. 2019;24:88–101. doi: 10.1177/1744987118809528.

Blake S., Ruel B., Seamark C., Seamark D. Experiences of patients requiring strong opioid drugs for chronic non-cancer pain: A patient-initiated study. Br. J. Gen. Pr. 2007;57:101–108.

Dunne E.A., Quayle E. The Impact of Iatrogenically Acquired Hepatitis C Infection on the Well-being and Relationships of a Group of Irish Women. J. Health Psychol. 2001;6:679–692. doi: 10.1177/135910530100600606.

Flowers P., Knussen C., Duncan B. Re-appraising HIV testing among Scottish gay men: The impact of new HIV treatments. J. Health Psychol. 2001;6:665–678. doi: 10.1177/135910530100600605.

Tomkins L., Eatough V. Reflecting on the use of IPA with focus groups: Pitfalls and potentials. Qual. Res. Psychol. 2010;7:244–262. doi: 10.1080/14780880903121491.

Palmer M., Larkin M., De Visser R., Fadden G. Developing an interpretative phenomenological approach to focus group data. Qual. Res. Psychol. 2010;7:99–121. doi: 10.1080/14780880802513194.

Smith J.A., Nizza I.E. Essentials of Interpretative Phenomenological Analysis. American Psychological Association; Worcester, MA, USA: 2021.

Reid K., Flowers P., Larkin M. Exploring lived experience. Psychologist. 2005;18:20–23.

Love B., Vetere A., Davis P. Should Interpretative Phenomenological Analysis (IPA) be Used With Focus Groups? Navigating the Bumpy Road of “Iterative Loops,” Idiographic Journeys, and “Phenomenological Bridges”. Int. J. Qual. Methods. 2020;19:1–17. doi: 10.1177/1609406920921600.

Dallos R., Vetere A. Researching Psychotherapy and Counselling. Open University Press; Berkshire, UK: 2005.

Schon D.A. The Reflective Practitioner: How Professionals Think in Action. Ashgate; Farnham, UK: 1991.

Bateson G. Steps to an Ecology of Mind: Collected Essays in Anthropology, Psychiatry, Evolution, and Epistemology. University of Chicago Press; Chicago, IL, USA: 2000.

Schön D.A. Generative metaphor: A perspective on problem-setting in social policy. Metaphor Thought. 1993;2:137–163.

Gadamer H.G. EPZ Truth and Method. Bloomsbury Academic; London, UK: 2004.

Ahmed S. The Cultural Politics of Emotion. Edinburgh University Press; Edinburgh, UK: 2014.

Butler J. The Compass of Mourning. [(accessed on 28 November 2023)]. Available online: https://www.lrb.co.uk/the-paper/v45/n20/judith-butler/the-compass-of-mourning.

Vetere A., Sheehan J. Supervision of Family Therapy and Systemic Practice. Springer; Berlin/Heidelberg, Germany: 2017.

Thompson S., Thompson N. The Critically Reflective Practitioner. Macmillan Education UK; London, UK: 2018.

Tuval-Mashiach R. Raising the curtain: The importance of transparency in qualitative research. Qual. Psychol. 2017;4:126. doi: 10.1037/qup0000062.

Tradução não oficial em português de É seguro o bastante? Um estudo IPA sobre como terapeutas de casal dão sentido à decisão de interromper ou continuar a terapia de casal quando a violência se torna a questão, de Jan Frode Snellingen, Pål Erik Carlin e Arlene Vetere, Behavioral Sciences, vol. 14, no 1 (2024), doi: 10.3390/bs14010037, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Is It Safe Enough? An IPA Study of How Couple Therapists Make Sense of Their Decision to Either Stop or Continue with Couple Therapy When Violence Becomes the Issue”, publicado em Behavioral Sciences (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

Snellingen, J. F., Carlin, P. E., et Vetere, A. (2024). É seguro o bastante? Um estudo IPA sobre como terapeutas de casal dão sentido à decisão de interromper ou continuar a terapia de casal quando a violência se torna a questão (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/e-seguro-o-bastante-um-estudo-ipa-sobre-como-terapeutas-de-casal-dao-sentido-a-decisao (Obra original publicada em 2024 em Behavioral Sciences, 14(1), 37 (2024); republicada em 2024 por Behavioral Sciences, https://www.mdpi.com/2076-328X/14/1/37)

Carrinho

Seu carrinho está vazio.