Discourse Studies · Terapia familiar

Fazer a compreensão mútua em terapias da criança e da família: como três pessoas calibram uma informação nova

Entender-se não é algo dado quando criança, figura parental e terapeuta conversam ao mesmo tempo. Analisando quadro a quadro quatro sessões filmadas, Kristina Edman mostra que a compreensão mútua se constrói em três passos e que a presença de uma terceira pessoa suspende, desdobra ou defasa essas sequências, com o risco de deixar a criança para trás.

Autores Kristina Edman (Departamento de Serviço Social, Universidade de Malmö, Suécia)Primeira publicação Discourse Studies, 5 de janeiro de 2024Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Fazer a compreensão mútua em terapias da criança e da família: como três pessoas calibram uma informação nova, de Kristina Edman, publicado na Discourse Studies (SAGE) (2024), doi: 10.1177/14614456231207519, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de lista e os trechos de transcrição foram traduzidos, com os números de linha e a notação conversacional preservados; os pronomes neutros ze/hir do original foram vertidos por formas neutras. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Se a pessoa terapeuta e a figura parental calibram em um ritmo mais rápido do que a pessoa terapeuta e a criança, a criança pode ficar para trás.

Kristina Edman

Resumo

Este artigo apresenta uma análise de como três pessoas organizam sequencialmente e realizam a compreensão mútua em gravações audiovisuais de sessões de terapia em situação natural. A análise segue a microanálise do diálogo face a face (MFD) e as definições operacionais dos microprocessos em três passos que as pessoas em interação usam quando calibram uma informação nova, isto é, quando concordam que entenderam as palavras e as ações umas das outras bem o bastante para os fins práticos do momento. Ao apontar algumas das complexidades que caracterizam as interações triádicas, a análise contribui com novas descrições de calibrações “suspensas”, “encaixadas”, “ramificadas”, “em ritmos diferentes” e “de interpretações mistas”. A análise também mostra como as pessoas em interação podem calibrar o “tom” de um enunciado antes que seu conteúdo temático seja mutuamente compreendido. Os resultados e suas implicações podem interessar ao conjunto das profissões que trabalham com conversas institucionais, em que a qualidade e o desfecho de avaliações e intervenções, por exemplo, dependem em grande parte de se alcançar a compreensão mútua.

Palavras-chave: calibração de informação nova, microanálise do diálogo face a face, diálogos com várias pessoas, compreensão mútua, organização sequencial, diálogos triádicos

A qualidade e o desfecho das terapias da criança e da família dependem em grande parte de terapeutas e pessoas atendidas alcançarem a compreensão mútua. Nessas terapias, é comum que três ou mais pessoas participem da conversa. No entanto, a pesquisa sobre como as pessoas em interação alcançam a compreensão mútua (tal como descrita por Bavelas et al., 2017) concentrou-se em diálogos entre apenas duas pessoas. Essa lacuna evidencia a necessidade de estudos que explorem como três ou mais pessoas organizam esse processo.

Fazer a compreensão mútua

Terapeutas e pessoas atendidas “fazem” a compreensão mútua em processos interativos progressivos. Trata-se essencialmente de um evento social (Clark, 1996; Garfinkel, 1967; Lindgren et al., 2007; Linell, 2009; Roberts e Bavelas, 1996; Schegloff, 1992; Svennevig, 2009). Dito de outro modo, a compreensão mútua não é apenas algo que se pode ter ou compartilhar: é também uma atividade interativa que se faz em conjunto (Bavelas et al., 2017). Neste estudo, “fazer a compreensão mútua” designa o microprocesso interativo que as pessoas realizam em conjunto ao fazer inferências, responder umas às outras e calibrar o sentido do que dizem (Bavelas et al., 2017). Uma sequência de calibração é composta pelos três passos seguintes:

A. Quem fala abre a sequência apresentando uma informação nova (a iniciação A).

B. A pessoa destinatária responde de um modo que implica ou demonstra compreensão (a resposta B).

C. Quem falou dá seguimento de um modo que implica ou demonstra que a resposta da pessoa destinatária foi suficiente para os fins do momento (o seguimento C).

(p. 96, grifos no original)

Ou seja, segundo Bavelas et al. (2017), as pessoas em interação usam sequências de calibração em três passos para transformar apresentações individuais em contribuições mutuamente compreendidas (cf. Lindgren et al., 2007; Tsui, 1989). Diferentemente do processo de ancoragem em duas fases de Clark (por exemplo, Clark, 1996; Clark e Brennan, 1991), as sequências de calibração são microunidades compostas de três passos observáveis (cf. Bavelas et al., 2017; Linell, 1998), que podem incluir respostas mínimas tanto visíveis quanto audíveis, como um rápido dar de ombros ou um breve “mhm”. Isso se aproxima do raciocínio de Deppermann (2015) e de Enfield e Sidnell (2021) e de suas análises sobre como se alcança a intersubjetividade: para que a compreensão seja mútua, as pessoas em interação precisam tornar pública sua compreensão dos enunciados umas das outras e garantir que essas compreensões sejam “compatíveis o bastante para fins práticos” (Deppermann, 2015, p. 78; cf. Clark e Brennan, 1991; Clark e Schaefer, 1987; Garfinkel, 1967; Linell, 2009; Linell e Lindström, 2016; Schuetz, 1953; Svennevig, 2009). Na terminologia de Arundale, as interpretações são “operativas”, no sentido de que as pessoas podem usá-las para construir seus enunciados seguintes (Arundale, 2022). Ou seja, as calibrações não produzem necessariamente uma intersubjetividade cognitiva, mas sim uma intersubjetividade prática. Assim, fazer a compreensão mútua não exige que as pessoas tenham, ou compartilhem, uma interpretação final ou idêntica de um enunciado (cf. Arundale, 2020). Calibrar é, antes, uma atividade interativa em que as pessoas pressupõem cada vez mais informações, o que permite que o diálogo avance.

O exemplo a seguir, extraído de uma das gravações audiovisuais de terapias triádicas da criança e da família (De Jong e Berg, 2013) às quais volto na seção de resultados, ilustra a natureza e a escala do trabalho de compreensão mútua:

Alex (ch, criança), sua mãe (pt, figura parental) e a terapeuta (th) estão falando de problemas que acontecem em casa. Alex não está contente com a quantidade de tarefas domésticas que lhe cabe, e a terapeuta pergunta o que ele vai fazer a respeito:

1 th: Então (vira as mãos para cima e para baixo) o que você vai fazer?

2 ch: (olha para baixo) Hã, só tentar continuar, continuar (olha para a terapeuta) falando disso, continuar tocando no assunto.

3 th: (acena com a cabeça e sorri) É (continua acenando), uau.

Quando a terapeuta diz “Então o que você vai fazer” (enunciado 1), ela não pode avaliar se seu cliente, Alex, a entendeu até que ele mostre sua compreensão em uma resposta (enunciado 2). No entanto, Alex não pode saber se entendeu a terapeuta até o terceiro enunciado, quando a terapeuta mostra sua avaliação da resposta dele. Quando a terapeuta responde “(acena com a cabeça e sorri) É (continua acenando), uau”, Alex pode inferir que entendeu o primeiro enunciado da terapeuta bem o bastante para os fins práticos do momento. Segundo Bavelas et al. (2017), esses três passos são a unidade mínima que permite às pessoas em interação inferir que alcançaram a compreensão mútua, neste caso a respeito da pergunta da terapeuta. Fazer a compreensão mútua não exige que os enunciados sejam dedicados a mostrar compreensão (cf. Deppermann, 2015). Se Alex e a terapeuta tivessem de dizer explicitamente como entendem os enunciados anteriores, a conversa se tornaria “interminável” (Heritage e Atkinson, 1984), “antieconômica” (Deppermann, 2015) e “menos nos trilhos” (Enfield e Sidnell, 2021).

Seria possível argumentar que o exemplo é composto de duas sequências de duas partes que se sobrepõem (Jovanovic et al., 2006). No entanto, o “uau” do terceiro enunciado só faz sentido em relação ao primeiro enunciado; ou seja, os enunciados 2 e 3 não formam um par adjacente canônico.

Situar as sequências em três passos na pesquisa anterior

Usando gravações em áudio de telefonemas entre duas pessoas e analisando transcrições minuciosas delas, abordagens pioneiras estabeleceram que as menores unidades da organização conversacional são os pares adjacentes (Schegloff e Sacks, 1973). Esses pares são compostos de duas partes, em que o segundo enunciado depende funcionalmente do primeiro. Entre os exemplos de pares adjacentes estão “cumprimento–cumprimento”, “pergunta–resposta” e “oferta–aceitação/recusa” (Schegloff, 2007; Schegloff e Sacks, 1973). Segundo Bavelas et al. (2017), a possibilidade de um terceiro passo foi tratada sobretudo como uma exceção que expande o padrão de dois turnos (por exemplo, Peräkylä, 2011; Seedhouse, 1996). Ou seja, as sequências em três passos foram tratadas sobretudo como próprias dos contextos analisados, e não como evidência de uma estrutura genérica (Bavelas et al., 2017; Heritage, 2022). Apesar de evidências sólidas, só recentemente a centralidade dos três passos foi admitida (Heritage, 2022).

Outros trabalhos, ao contrário, se apoiam em Mead (1934) e Goffman (1976, 1981) ou estão em consonância com eles. Esses trabalhos argumentam que “a maior parte da conversa não é construída a partir de pares adjacentes” (Levinson, 1981, p. 482–483) e propõem que a compreensão mútua se realiza em unidades de três passos (por exemplo, Arundale, 2010; Bavelas et al., 2012, 2017; De Jong et al., 2013; Heritage, 1984, 2022; Linell e Markovä, 1993; Severinson Eklundh e Linell, 1983; Svennevig, 2009; Tsui, 1989). Severinson Eklundh e Linell (1983) mostraram que são necessários no mínimo três passos para que as pessoas em um diálogo manifestem um acordo compartilhado sobre o que foi dito. Aliás, nas palavras dessa dupla, reter sistematicamente o terceiro passo gera uma sensação de insatisfação. Como no exemplo inicial, sem o terceiro passo, a terapeuta e Alex não teriam conseguido alcançar a compreensão mútua (cf. Deppermann, 2015; Heritage, 2022; Severinson Eklundh e Linell, 1983); a compreensão teria permanecido implícita ou inferida. No exemplo terapeuta–cliente apresentado, só a terapeuta teria podido avaliar, depois de dois passos, se Alex tinha entendido a iniciação. Alex não saberia se sua resposta era suficiente para os fins do momento até que a terapeuta lhe desse seguimento.

Embora as sequências em três passos sejam amplamente tratadas como exceções no discurso cotidiano (Bavelas et al., 2017; por exemplo, Cullen, 2002; Mehan, 1979; Peräkylä, 2019; Schegloff, 2007; Sinclair e Coulthard, 1975), vários trabalhos defenderam ocorrências mais independentes do contexto (por exemplo, Bavelas et al., 2012, 2017; Deppermann, 2015; Goffman, 1981; Heritage, 2022; Severinson Eklundh e Linell, 1983; Tsui, 1989). Além das análises de conversas de primeiro contato (Bavelas et al., 2017), análises detalhadas de consultas médicas (Tsui, 1989), da comunicação durante operações de resgate (Lindgren et al., 2007), de psicoterapias (Bavelas et al., 2012; De Jong et al., 2020), de chamadas de emergência médica (Gerwing e Indseth, 2016), de ligações de clientes (Kevoe-Feldman e Robinson, 2012) e de situações de sala de aula (Mehan, 1979; Sinclair e Coulthard, 1975), assim como textos mais teóricos (por exemplo, Goffman, 1976, 1981; Mead, 1934; Severinson Eklundh e Linell, 1983), indicam que as microssequências em três passos são unidades fundamentais das interações conversacionais (Bavelas et al., 2017; Goffman, 1976, 1981; Mead, 1934; Severinson Eklundh e Linell, 1983; Tsui, 1989). No entanto, como três pessoas fazem isso não tinha sido documentado até agora. De fato, um levantamento recente dos corpora disponíveis de diálogos com várias pessoas e de seus temas (Mahajan e Shaikh, 2021) revelou que nenhum deles explorava a intersubjetividade nesse nível de detalhe.

O presente estudo

Este estudo faz parte de um projeto de pesquisa mais amplo sobre o envolvimento das crianças nas sessões de terapia da criança e da família (por exemplo, Edman et al., 2022; Edman et al., 2023). Ele combina dois temas principais. Primeiro, concentra-se no microprocesso interativo que as pessoas em interação usam quando fazem a compreensão mútua, apoiando-se em um quadro conceitual, uma metodologia e uma terminologia recentes (Bavelas et al., 2017). Segundo, estende esse quadro dos diálogos diádicos aos triádicos.

Ao explorar como terapeutas e pessoas atendidas organizam e alcançam a compreensão mútua em gravações audiovisuais, tanto encenadas quanto em situação natural, de sessões triádicas de terapia da criança e da família, procuro delinear complexidades associadas às terapias com várias pessoas. Esse conhecimento pode melhorar a qualidade das terapias da criança e da família e dos diálogos em campos afins, além de fazer avançar a pesquisa sobre o diálogo em geral.

Os resultados se baseiam em uma análise detalhada orientada pela microanálise do diálogo face a face (Bavelas et al., 2016). Seguindo esse método, concentrei-me na pragmática das gravações audiovisuais: só são analisados os comportamentos reconhecíveis pela observação (incluindo a audição). Os comportamentos observáveis incluem a fala, os gestos coverbais (Bavelas et al., 2014) e os comportamentos não verbais corporificados (cf. Goodwin, 2000), como um rápido dar de ombros, um “oh” exclamativo, sobrancelhas erguidas e assim por diante. Interpretei a função interativa da fala, dos gestos coverbais e dos comportamentos corporificados (Bavelas et al., 2017).

Usei o software ELAN para a análise qualitativa das gravações. O ELAN mantinha os enunciados e as sequências anotados sincronizados com as gravações e me permitia assistir à gravação quadro a quadro (por exemplo, Lausberg e Sloetjes, 2009), o que foi útil, já que a análise exige uma atenção muito concentrada em microunidades breves (Bavelas et al., 2017).

Materiais e métodos

Conjunto de dados

Os dados consistem em quatro gravações audiovisuais de sessões triádicas de terapia da criança e da família (tabela 1). A primeira gravação foi publicada como material complementar do livro Interviewing for Solutions (De Jong e Berg, 2013). As gravações 2 a 4 são gravações preexistentes, isto é, produtos de práticas terapêuticas cotidianas realizadas entre setembro de 2019 e janeiro de 2022. Fazem parte de um conjunto de dados mais amplo e pertencem a um projeto de pesquisa abrangente sobre o envolvimento das crianças (por exemplo, Edman et al., 2022; Edman et al., 2023). No momento da gravação, nenhuma das pessoas presentes sabia desta análise específica sobre o trabalho de compreensão mútua.

Tabela 1 — Conjunto de dados

  • Gravação 1. Sessão de terapia familiar focada em soluções de 48 minutos, com três pessoas: um menino de 15 anos, sua mãe e uma terapeuta (De Jong e Berg, 2013). Esta sessão é em inglês.
  • Gravação 2. Sessão de terapia familiar eclética de 34 minutos com jovem de 13 anos, sua figura parental1 e uma pessoa do serviço social que atua como terapeuta. A sessão é em sueco. Foi gravada em um ambulatório de saúde mental na Suécia.
  • Gravação 3. Os 16 primeiros minutos de uma sessão de terapia cognitivo-comportamental de 75 minutos (a pessoa do serviço social sai do enquadramento depois de 16 minutos, o que torna o restante da gravação inadequado para esta análise), com jovem de 15 anos, sua figura parental e uma pessoa do serviço social que atua como terapeuta. A sessão é em sueco. Foi gravada em um ambulatório de saúde mental na Suécia.
  • Gravação 4. 59,5 minutos de uma sessão de terapia familiar focada em soluções de 63 minutos (em 12 momentos, num total de 3,5 minutos, a pessoa do serviço social sai do enquadramento ou bloqueia a câmera, o que torna a gravação inadequada para esta análise), com jovem de 14 anos, sua figura parental e uma pessoa do serviço social que atua como terapeuta em um departamento de serviço social na Suécia. A gravação é em sueco.

Três razões principais determinaram o conjunto de dados: (1) como a primeira gravação não está protegida por sigilo, partes do estudo podem ser replicadas, e essa transparência pode oferecer uma base sólida para pesquisas futuras; (2) as gravações 2 a 4 são gravações audiovisuais da prática em situação natural, o que reforça a aplicabilidade dos resultados a contextos reais; (3) as pessoas em interação aparecem ao mesmo tempo no enquadramento, o que permite analisar suas interações em detalhe.

Análise

Para identificar as sequências de calibração, o procedimento tem três etapas (ver abaixo), baseadas na microanálise desenvolvida por Gerwing e Healing (2017). Além de árvores de decisão e orientações, o manual inclui definições operacionais de enunciados (tabela 2, com exemplos da primeira gravação), de respostas mínimas, de iniciações A, de respostas B e de seguimentos C (tabela 3, com exemplos da primeira gravação). As diferentes definições operacionais apresentam concordâncias entre analistas que vão de 89% a 98% (Gerwing e Healing, 2017). O manual pode ser solicitado a qualquer uma das pessoas que o elaboraram. Como a primeira gravação não está protegida por sigilo, não anonimizei os exemplos das tabelas.

Tabela 2 — O enunciado

  • Função. “Um enunciado incluía ações audíveis (fala, prosódia) integradas ao que as pessoas transmitiam em atos coverbais simultâneos (isto é, expressões faciais, gestos das mãos, olhar). Um enunciado também podia ser apenas visível (por exemplo, um aceno de cabeça, um sorriso ou sobrancelhas erguidas) e podia ir de um rápido aceno ou uma única palavra a uma ou mais frases. O fim de um enunciado era determinado pelas ações das duas pessoas: o enunciado de quem falava terminava quando essa pessoa fazia uma pausa e olhava para quem a ouvia, criando uma janela de olhar para suscitar uma resposta (Bavelas et al., 2002), ou quando a pessoa destinatária dizia ou fazia algo que pudesse ser interpretado como comunicativo (por exemplo, uma formulação, um ‘M-hm’ ou um aceno de cabeça).” (Bavelas et al., 2017, p. 99)
  • Exemplo. th: (olha para a criança) mas mesmo assim você gostaria que ela mudasse / ch: (olha para a terapeuta e acena com a cabeça) / th: de ideia sobre isso / ch: (acena com a cabeça) / th: É / ch: (olha para a terapeuta e sorri)
  • Raciocínio. Esta definição se baseia em uma abordagem dialógica, o que significa que os enunciados não seguem necessariamente regras gramaticais nem um padrão de alternância (Gerwing e Healing, 2017). O exemplo apresenta seis enunciados, cada um terminando quando a outra pessoa começava a dizer ou fazer algo.

Tabela 3 — A iniciação A

Para cada tipo: função; exemplo; raciocínio.

  • Solicitar um conteúdo temático novo, que introduz ao mesmo tempo um tema e a curiosidade de quem solicita sobre ele (Gerwing e Healing, 2017). Enunciado que serve para convidar um conteúdo temático novo, que ainda não apareceu na conversa (Gerwing e Healing, 2017, p. 18). Exemplo: th: “Ele é um bom aluno?” A terapeuta pergunta à mãe se ela acha que o filho é um bom aluno; a pergunta introduz um tema e a curiosidade de quem pergunta sobre esse tema.
  • Propor algo que gerencia a conversa em um metanível, acima do conteúdo temático (Gerwing e Healing, 2017). Enunciado que serve para gerenciar a conversa em um metanível, acima do conteúdo temático (Gerwing e Healing, 2017, p. 21). Exemplo: th: “Está pronta?” A terapeuta propõe continuar a conversa, com uma pergunta que gerencia a conversa em vez de introduzir um conteúdo temático novo.
  • Alertar que é necessário um reparo (Gerwing e Healing, 2017). Enunciado que serve para sinalizar algum problema de audição ou de compreensão. Alertar indica que quem alerta não ouviu ou não entendeu o que foi dito. Também pode indicar que a outra pessoa não ouviu ou não entendeu o que quem alerta tinha dito antes (Gerwing e Healing, 2017, p. 25). Exemplo: th: “então quando você está assim, como é que a mãe fica?” / ch: “Assim como?” A resposta da criança à pergunta da terapeuta alerta que ele não entendeu a pergunta e precisa de esclarecimento.
  • Formular o que a pessoa ouvinte entendeu (Gerwing e Healing, 2017). Enunciado que serve para mostrar o que a pessoa ouvinte entendeu, fornecendo a essência da(s) contribuição(ões) anterior(es) (Gerwing e Healing, 2017, p. 20). Exemplo: th: (olha para a mãe) “Quantos outros?” / pt: “Hum, cinco no total, então quatro (olha para a terapeuta) outros.” / th: “Você tem cinco filhos no total.” Você tem cinco filhos no total formula hum, cinco no total, então quatro outros.
  • Extrapolar2 o que a pessoa ouvinte entendeu por inferência lógica (Gerwing e Healing, 2017). Enunciado que serve para mostrar o que a pessoa ouvinte entendeu, tirando uma inferência lógica da(s) contribuição(ões) anterior(es). Serve para convidar a outra pessoa a confirmar ou não que a inferência está correta (Gerwing e Healing, 2017, p. 26). Exemplo: th: (olha para a figura parental) “Quantos outros?” / pt: “Hum, cinco no total, então quatro (olha para a terapeuta) outros.” / th: “Você tem cinco filhos no total.” / pt: (acena com a cabeça) “Isso.” / th: “Nossa, você é uma mãe ocupada!” Nossa, você é uma mãe ocupada! é uma inferência lógica de hum, cinco no total, então quatro outros. Oferece à mãe a oportunidade de confirmar ou não que a inferência está correta.

Etapa 1. Identifiquei, classifiquei e selecionei os enunciados pelos quais a criança, a figura parental ou a pessoa terapeuta apresentava uma informação nova (iniciação A, tabela 3). Esses enunciados eram os passos iniciais de possíveis sequências em três passos.

Etapa 2. Para cada possível iniciação A, avaliei se o enunciado seguinte preenchia os critérios de uma resposta B (tabela 4).

Tabela 4 — Resposta B e seguimento C

  • Resposta B. Critério 1: durante ou depois do enunciado que traz a informação nova (a possível iniciação A), a outra pessoa precisa fazer ou dizer algo (Gerwing e Healing, 2017, p. 29). Critério 2: a resposta da outra pessoa precisa implicar ou demonstrar sua compreensão atual da função da possível iniciação A (Gerwing e Healing, 2017, p. 11, 29). Exemplo: th: “Está pronta?” / pt: “Estou pronta.” Raciocínio: Estou pronta demonstra a compreensão, pela pessoa destinatária, de Está pronta?
  • Seguimento C. Critério 1: durante ou depois da resposta B, a pessoa que trouxe originalmente a informação nova em A precisa fazer algo (Gerwing e Healing, 2017, p. 30). Critério 2: o seguimento precisa ao menos implicar que a resposta B foi avaliada (Gerwing e Healing, 2017, p. 30). Exemplo: th: “Está pronta?” / pt: “Estou pronta.” / th: “Ok” (sorri). Raciocínio: ao sorrir e dizer ok, a terapeuta implica que Estou pronta foi suficiente para os fins do momento.

Etapa 3. Para cada resposta B identificada, avaliei se o enunciado seguinte de quem tinha falado primeiro preenchia os critérios de um seguimento C (tabela 4).

Transpor para um novo contexto um quadro e uma metodologia desenvolvidos em outro (conversas de primeiro contato entre estudantes de graduação) não é isento de dificuldades. Nas terapias da criança e da família, por exemplo, quando terapeutas solicitam um conteúdo temático novo, isso pode fazer parte de um modelo de tratamento e não necessariamente introduz uma curiosidade pessoal pelo tema. Além disso, nos diálogos triádicos, o enunciado de uma pessoa nem sempre se apoia no enunciado imediatamente anterior. Durante ou depois de uma resposta B, por exemplo, uma terceira pessoa pode inserir um enunciado antes que a pessoa que produziu a iniciação A forneça um seguimento C. O sentido de “depois” (cf. tabela 4) é interpretado de acordo com os trabalhos de Severinson Eklundh e Linell (1983), que argumentaram que são necessários no mínimo três passos para que as pessoas em um diálogo manifestem um acordo compartilhado sobre o que foi dito. As definições gerais serviram de guia quando um detalhe de uma definição operacional não correspondia explicitamente aos enunciados das gravações. Para garantir a coerência com a microanálise do diálogo face a face, uma pessoa analista independente e eu aplicamos o manual a amostras aleatórias estratificadas de 10% do primeiro conjunto de dados. Como essa gravação não está protegida por sigilo, foi possível compartilhá-la com alguém de fora. Determinamos a concordância entre analistas dividindo nosso número de concordâncias pelo total de concordâncias e discordâncias: iniciações A 84%, respostas B 100% e seguimentos C 90%. Também apresentei uma seleção de sequências em três passos em sessões coletivas de análise de dados e revisei meus resultados várias vezes. Depois dessa etapa final de identificação das sequências em três passos, examinei como a criança, a figura parental e a pessoa terapeuta de cada gravação organizavam e alcançavam a compreensão mútua.

Considerações éticas

O projeto de pesquisa foi aprovado pela Autoridade Sueca de Revisão Ética em agosto de 2019. Além disso, comitês de ética locais aprovaram a coleta de dados nos ambulatórios de saúde mental e no departamento de serviço social. No estudo, a pessoa de 15 anos deu seu próprio consentimento. Segundo as diretrizes éticas suecas, crianças com menos de 15 anos são protegidas do peso das questões de consentimento. Por isso, as pessoas responsáveis legais pelas crianças de 13 e 14 anos aprovaram sua participação, à qual elas não se opuseram. O sigilo dos departamentos de serviço social e dos ambulatórios de saúde mental foi transferido ao projeto de pesquisa. As crianças e as figuras parentais foram informadas sobre o estudo depois das sessões, para não afetar o engajamento das crianças no tratamento. O procedimento também garantiu que o estudo não fosse imposto às crianças que, na avaliação das pessoas do serviço social, poderiam ser sobrecarregadas por ele (cf. Westlake, 2016; Winter et al., 2017). Para proteger o anonimato das pessoas participantes, pseudonimizei os trechos das gravações protegidas (gravações 2 a 4). Uso os pronomes neutros ingleses ze/hir para proteger o anonimato dessas pessoas.

Resultados

A maior parte das calibrações identificadas tinha a mesma estrutura do exemplo inicial. Ou seja, as respostas B e os seguimentos C vinham imediatamente depois das iniciações A. No entanto, embora crianças, figuras parentais e terapeutas tenham calibrado 95,3% das 669 iniciações A identificadas em no mínimo três passos, observei complexidades ligadas ao contexto de três pessoas em 14,4% das calibrações. Identifiquei seis padrões de interação que apontam para complexidades nos diálogos a três nas terapias da criança e da família. Dei aos padrões os seguintes nomes: (1) calibrações suspensas, (2) calibrações encaixadas, (3) calibrações ramificadas, (4) calibrações em ritmos diferentes, (5) calibrações de interpretações diferentes e (6) calibrações do tom. O sexto padrão, porém, não é necessariamente específico das terapias triádicas ou com várias pessoas, nem dos diálogos triádicos ou com várias pessoas em geral.

Note-se que as sequências de calibração são inevitavelmente mais visíveis nas gravações, que analisei diretamente, do que nos trechos transcritos a seguir (cf. Bucholtz, 2007; Hammersley, 2010; Ochs, 1979). Além disso, embora os trechos contenham vários exemplos de sequências de calibração e de outras atividades conversacionais, eles estão fora do escopo da análise. Concentro-me nos padrões que evidenciam complexidades na forma como três pessoas alcançam a compreensão mútua, e desenvolvo esses padrões e suas possíveis implicações para a prática e para a pesquisa na discussão final.

Calibrações suspensas e encaixadas

As calibrações suspensas e encaixadas ocorrem quando uma iniciação A concorrente põe em espera sequências de calibração em andamento. Elas adiam iniciações que, de outro modo, poderiam ter sido calibradas em processos simples de três passos.

Este primeiro trecho (da gravação de acesso público) começa com a terapeuta (th) perguntando a Alex (ch, criança) como é sua mãe (pt, figura parental) quando ele está “assim” (primeira iniciação A, nas linhas 814–815 e 817), ao que Alex alerta que não está acompanhando (segunda iniciação A, na linha 818).

Trecho 1, primeira gravação, 00:32:34–00:32:50

814 th: (olha para alex) então quando [movimento circular da mão- você

815 está as¿sim (.)

816 pt: (olha para alex)

817 th: com¿o é a mãe.

818 ch: ◦assim como◦

819 th: quando você está só [movimento circular da mão]

820 pt: [(olha para a terapeuta)]

821 th: jovial bem-humorado

822 pt: [maníaco](olha para alex)

823 th: [criati]vo (sorri) *maníaco (ri) não sei

824 [se maníaco mas* (ri e olha para a mãe)]

825 pt: [(sorri e acena com a cabeça) ◦menino] maníaco◦

826 th: (ri e depois olha para alex)

827 ch: (sorri) (.) ◦ela é legal ela (.) entra na brincadeira◦

828 th: oːh ela entraː

Nas linhas 819 e 821, a terapeuta dá uma resposta B à iniciação A de Alex (linha 818), à qual Alex dá seguimento muito mais tarde, na linha 827. Entre a resposta B da terapeuta e o seguimento C de Alex há uma calibração encaixada, iniciada pela mãe: iniciação A na linha 822 (“maníaco” formula o “jovial bem-humorado” da terapeuta e remete a uma conversa anterior na sessão), resposta B na linha 823 e seguimento C na linha 825. Essa sequência de calibração encaixada faz com que a primeira e a segunda iniciação A fiquem suspensas por oito e sete enunciados, respectivamente.

O trecho e o parágrafo introdutório ilustram algumas das complexidades que caracterizam as calibrações nas terapias triádicas da criança e da família. Quando a mãe insere uma brincadeira (iniciada na linha 822), ela põe em espera as duas calibrações em andamento enquanto a brincadeira inserida é calibrada. Ou seja, o que poderia ter sido calibrado em duas sequências simples ficou suspenso ao longo de vários enunciados (cf. Severinson Eklundh e Linell, 1983).

Calibrações ramificadas e em ritmos diferentes

As calibrações ramificadas ocorrem quando iniciações A se ramificam em duas sequências de calibração que envolvem pessoas destinatárias diferentes. Quando as calibrações se ramificam, as pessoas em interação inevitavelmente alcançam a compreensão mútua de uma mesma iniciação A em momentos diferentes do diálogo. Ou seja, seus processos temporais serão diferentes.

No trecho seguinte, a iniciação A da pessoa terapeuta (nas linhas 440–441) gera duas sequências de calibração diferentes, indicadas por duas respostas B identificáveis: uma da criança (na linha 442) e outra da figura parental (na linha 443). O trecho começa com a pessoa terapeuta formulando por que a criança está decepcionada com o plano de sua figura parental de ficar em casa.

Trecho 2, quarta gravação, 00:08:26–00:08:30

440 th: então você (olha para a criança) tinha um plaːno com

441 os amigo[ːs]

442 ch: [(acena com a cabeça e olha para a pessoa terapeuta)]

443 pt: [>que a gente nem sabia.

444 th: [(olha para a criança) e tal]

445 ch: (olha para baixo)

446 th: (vira-se para a figura parental e estende a mão direita

447 em sua direção) que você não sabia

448 ◦tá◦ (.)

448 pt: (acena com a cabeça)

449 th: ◦tá◦

Nesse trecho, vemos que a calibração se ramifica: a criança e a pessoa terapeuta, de um lado, e a figura parental e a pessoa terapeuta, de outro, alcançam a compreensão mútua em momentos diferentes. Para que a iniciação A da pessoa terapeuta nas linhas 440–441 seja totalmente calibrada, as respostas B separadas exigem cada uma seu próprio seguimento C por parte da pessoa terapeuta, dirigido à pessoa destinatária correspondente (nas linhas 444 e 446–448). A pessoa terapeuta e a criança alcançam a compreensão mútua na linha 444, quando a pessoa terapeuta olha para a criança enquanto diz “e tal”. No entanto, a compreensão mútua entre a figura parental e a pessoa terapeuta permanece implícita até as linhas 446–448, quando a pessoa terapeuta, ao dirigir o gesto e a fala à figura parental, dá seguimento de um modo que demonstra que a resposta da figura parental também foi suficiente para os fins do momento (seguimento C, Bavelas et al., 2017).

Alcançar a compreensão mútua com diferentes pessoas atendidas que respondem ao mesmo tempo exige que terapeutas se envolvam simultaneamente em calibrações divergentes. O trecho seguinte traz mais um exemplo desse padrão. Quando o trecho começa, a criança está olhando para baixo, e a pessoa terapeuta e a figura parental trocaram um olhar. A pessoa terapeuta extrapola o que entendeu até ali (que tanto a figura parental quanto a criança ficaram satisfeitas com uma conversa que tiveram mais cedo naquela manhã) e convida as duas a confirmar ou não sua inferência. “Isso”, na linha 782, remete a essa conversa.

Trecho 3, quarta gravação, 00:19:50–00:19:59

782 th: queː vocês parecem (olha para a figura parental, para

783 a criança e depois de novo para a figura parental) contentes com

784 [com]

785 pt: [sim]

786 th: se ficarmos só [n]isso

787 ch: [mm] (continua olhando para baixo)

788 pt: (acena com a cabeça) mm

789 th: hã (.) o que tinha ali (.) hã o diálogo que que

790 fez dele uma coisa boa (.)

Como se vê, a figura parental e a pessoa terapeuta alcançam a compreensão mútua da iniciação A da pessoa terapeuta antes da criança e da pessoa terapeuta: a pessoa terapeuta faz uma iniciação A nas linhas 782–784, à qual a figura parental responde na linha 785 (resposta B) e à qual a pessoa terapeuta dá seguimento na linha 786 (seguimento C). A criança, que está olhando para baixo, não consegue ver que a pessoa terapeuta está concluindo seu enunciado ao olhar para a figura parental, para a criança e depois de novo para a figura parental (nas linhas 772–773, cf. a operacionalização do enunciado, tabela 2). Em consequência, a criança só dá sua resposta B mais tarde (na linha 787). A pessoa terapeuta dá seguimento à resposta B da criança nas linhas 789–890 (seguimento C). Esse seguimento C da pessoa terapeuta também dá seguimento à segunda resposta B da figura parental (na linha 788). Dito de outro modo, a pessoa terapeuta e a figura parental alcançam a compreensão mútua em um ritmo mais rápido do que a pessoa terapeuta e a criança. A primeira dupla consegue concluir duas calibrações no mesmo tempo em que a segunda conclui uma.

Calibrações de interpretações diferentes

As calibrações de interpretações diferentes ocorrem quando pessoas destinatárias dão respostas B diferentes, que implicam compreensões diferentes de uma mesma iniciação A, e quem falou primeiro as aceita em seu(s) seguimento(s) C. Calibrar interpretações diferentes é possível na interação a três e exemplifica uma das muitas complexidades das terapias com várias pessoas.

O trecho abaixo mostra as três pessoas envolvidas em calibrações sobrepostas de interpretações diferentes de uma mesma iniciação A. O trecho começa com a criança propondo que “você” também pode trazer questões (iniciação A nas linhas 157–158), o que é calibrado duas vezes: uma entre a criança e a pessoa terapeuta (resposta B na linha 161 e seguimento C na linha 162) e outra entre a criança e a figura parental (resposta B na linha 159 e seguimento C na linha 160).

Trecho 4, segunda gravação, 00:03:13–00:03:19

156 th: (olha para baixo, para o bloco de notas compartilhado)

157 ch: (olha para a mãe) você pode (olha para baixo) trazer

158 [o que você]

159 pt: [(olha para a criança)]

160 ch: acha importante também

161 th: claro (continua olhando para baixo, para o bloco de notas)

162 ch: o que (.) também (olha para a figura parental) é necessário tipo

Como se vê, as duplas criança/terapeuta e criança/figura parental calibram compreensões diferentes da iniciação A: enquanto a dupla criança/terapeuta calibra que a criança convida a pessoa terapeuta a trazer o que considera importante, a dupla criança/figura parental calibra que o convite (“você”) se dirige à figura parental. Como a pessoa terapeuta está olhando para o bloco de notas enquanto a criança fala, não consegue ver que a criança está voltada para a figura parental ao dizer “você” (na linha 157). Como continua olhando para baixo, também não consegue registrar a resposta B da figura parental (na linha 159) nem o seguimento C da criança a essa resposta (na linha 160). Em vez disso, a pessoa terapeuta dá uma resposta B (na linha 161) a uma iniciação A mais longa (nas linhas 157–158 e 160), à qual a criança dá seguimento (supostamente sem intenção, já que sua atenção continua voltada para a figura parental) na linha 162. Como as duas calibrações avançam em ritmos diferentes, o trecho também ilustra as calibrações em ritmos diferentes.

Calibrações do tom

A seguir, as pessoas em interação calibram o “tom”, ou a “qualidade”, de uma iniciação A antes que o “conteúdo temático” do enunciado seja estabelecido como mutuamente compreendido. O trecho começa com a terapeuta perguntando à mãe como é o filho quando ele está de bom humor e depois sorrindo largamente (iniciação A que começa na linha 787). Nesse momento, Alex e a mãe estão ambos olhando para a terapeuta.

Trecho 5, primeira gravação, 00:31:28–00:31:40

787 th: (olha para a mãe) como (estende a mão esquerda

788 em direção à criança e olha para ele) ele é co¿mo (olha

789 para a mãe) quando ele está hã de bom humor

790 (sorri largamente e olha para alex)

791 pt: [(sorri e olha para o filho)]

792 ch: [(sorri)]

793 th: [(sorri e olha para alex e depois para a

794 mãe)]

795 pt: (pigarreia) bom ele tem extremos (olha para

796 a terapeuta) tipo o alex de base

797 th: (riso baixo enquanto olha para a mãe e depois

798 para alex)

799 pt: ele é meio engraçado

A mãe e Alex dão respostas B separadas, na linha 791 e na linha 792, às quais a terapeuta dá seguimento nas linhas 793–794. Ao olhar e sorrir para Alex e para a mãe, a terapeuta indica que as duas respostas são aceitáveis. No entanto, só na linha 795 a mãe dá uma resposta B referente ao conteúdo temático da iniciação A da terapeuta, à qual a terapeuta dá seguimento nas linhas 797–798 (seguimento C).

Discussão final

A análise identifica como terapeutas, crianças e figuras parentais organizam e alcançam a compreensão mútua nas terapias triádicas da criança e da família. Ela contribui com novas descrições de como três pessoas fazem a compreensão mútua em calibrações “suspensas” (trecho 1), “encaixadas” (trecho 1), “ramificadas” (trechos 2–3), “em ritmos diferentes” (trechos 2–4) e “de interpretações mistas” (trecho 4). A análise também mostra como as pessoas em interação podem calibrar o “tom” de uma iniciação A (por exemplo, que o que é proposto é dito com humor) antes que o conteúdo temático dessa mesma iniciação A seja mutuamente compreendido (trecho 5).

Implicações para a prática

As calibrações coexistem com elementos próprios de seu contexto. Suas implicações dependem, portanto, de parâmetros específicos do contexto. Por exemplo, quando as pessoas presentes em uma sessão de terapia familiar calibram interpretações diferentes de uma mesma iniciação A (trecho 4), às vezes em momentos e ritmos diferentes (trechos 2–4), isso pode contribuir para gerar ou acentuar um desequilíbrio entre elas. Se a pessoa terapeuta e a figura parental, por exemplo, calibram em um ritmo mais rápido do que a pessoa terapeuta e a criança, a criança pode ficar para trás (ou ainda mais para trás), o que pode fazer a relação terapeuta–figura parental–criança evoluir de forma desigual (cf. “aliança de trabalho”, McLeod et al., 2014). Em consequência, a criança pode ficar menos disposta a compartilhar suas preocupações com a pessoa terapeuta e, assim, menos inclinada a exercer seu direito de expressar sua opinião sobre as questões que lhe dizem respeito (Nações Unidas, 1989). Esses desequilíbrios também podem dizer respeito a outros diálogos triádicos e com várias pessoas.

Implicações semelhantes podem surgir quando duas ou mais pessoas atendidas dão respostas B separadas a fragmentos diferentes de uma mesma iniciação A. Se uma delas está olhando em outra direção, pode responder a um enunciado mais longo do que a pessoa que está olhando para a pessoa terapeuta e usa respostas mínimas (cf. trecho 4). Além disso, quando terapeutas fazem várias perguntas em um único enunciado, as respostas B das pessoas atendidas podem implicar ou demonstrar a compreensão de partes diferentes desse enunciado. Outra implicação possível surge quando a pessoa terapeuta e uma das pessoas atendidas calibram o tom de um enunciado de modo diferente da pessoa terapeuta e de outra pessoa atendida, ou nem chegam a calibrá-lo. Quando o tom de um enunciado é calibrado de modo diferente entre as pessoas em interação, o enunciado pode passar a cumprir funções diferentes, o que pode conduzir a sessão em direções conflitantes. Além disso, há provavelmente uma grande frequência de calibrações encaixadas e suspensas nas terapias triádicas da criança e da família, que terapeutas supostamente precisam tanto antecipar quanto tratar para não perder o fio.

Esse conhecimento sobre as complexidades da forma como três pessoas organizam sequencialmente e alcançam a compreensão mútua nas terapias da criança e da família pode ajudar a prevenir mal-entendidos e a corrigir desequilíbrios, incluindo alianças de trabalho desiguais. Por exemplo, se a pessoa terapeuta do trecho 3 tivesse assumido o controle do ritmo da calibração, ela e a criança poderiam ter calibrado sua compreensão mais depressa do que ela e a figura parental. Ao calibrar tanto o tom quanto o conteúdo temático com cada uma das pessoas em interação, a pessoa terapeuta também poderia prevenir possíveis mal-entendidos.

Os resultados podem ser úteis a profissionais que lidam com diferentes tipos de conversas institucionais e ser valiosos, por exemplo, para terapeutas que trabalham com famílias ou para equipes de saúde que conversam com pacientes e familiares. Também pode haver implicações para conversas institucionais que envolvem avaliações, incluindo pessoas usuárias que dependem de avaliações precisas do serviço social ou pessoas que pedem asilo diante dos serviços de cidadania e imigração.

Corroborar resultados existentes sobre o trabalho de compreensão mútua

As pessoas em interação calibraram 95,3% das 669 iniciações A identificadas em no mínimo três passos. Isso sugere que o microprocesso interativo que duas pessoas usam quando fazem a compreensão mútua (tal como definido por Bavelas et al., 2017) provavelmente se aplica aos diálogos triádicos. Isso estaria de acordo com o que tanto Mead (1934) quanto Goffman (1976, 1981) sugeriram e com o que pesquisas posteriores propuseram: as sequências em três passos são uma unidade fundamental da organização conversacional (por exemplo, Bavelas et al., 2012, 2017; Deppermann, 2015; Gerwing e Indseth, 2016; Heritage, 2022; Linell e Markovä, 1993; Severinson Eklundh e Linell, 1983; Svennevig, 2009; Tsui, 1989). Como mencionado na introdução, a onipresença dessas sequências em três passos foi identificada em situações de sala de aula (Mehan, 1979; Sinclair e Coulthard, 1975), em consultas médicas (Tsui, 1989), em operações de resgate (Lindgren et al., 2007), em ligações de clientes (Kevoe-Feldman e Robinson, 2012), em psicoterapias (Bavelas et al., 2012; De Jong et al., 2020), em chamadas de emergência com barreira linguística (Gerwing e Indseth, 2016) e em conversas de primeiro contato (Bavelas et al., 2017). O presente artigo acrescenta à lista de tipos de atividade em que as sequências em três passos são comuns a terapia da criança e da família e as gravações audiovisuais de interações entre três pessoas. O fato de serem comuns em contextos tão diversos sugere que, quando se trata de organizar e alcançar a compreensão mútua de uma informação nova, os pares adjacentes provavelmente são insuficientes. Nas palavras de Heritage, “embora muito se tenha escrito sobre a importância dos pares adjacentes, talvez não convenha exagerar sua frequência empírica. As conversas estão longe de ser construídas exclusivamente a partir deles” (Heritage, 2022, p. 318). Demonstrar a compreensão do enunciado imediatamente anterior é especialmente difícil de aplicar às interações com várias pessoas, em que a progressão parece menos linear. Em vez de antecipar o que vem a seguir com base no enunciado imediatamente anterior, cada pessoa em interação precisa “subpreender” (Enfield e Sidnell, 2021) o inesperado.

Questões metodológicas e direções para pesquisas futuras

Além de replicar estudos anteriores com resultados semelhantes (por exemplo, Bavelas et al., 2012, 2017; De Jong et al., 2020; Tsui, 1989), os resultados deste estudo se apoiam em uma análise que usou um manual com definições operacionais, em numerosas apresentações e discussões de microssequências em três passos em sessões coletivas de análise de dados e em uma alta concordância entre analistas em amostras aleatórias estratificadas de microssequências em três passos, assim como nas iniciações A, respostas B e seguimentos C considerados separadamente. No entanto, aplicar a sessões triádicas de terapia da criança e da família um quadro e uma metodologia desenvolvidos a partir de conversas de primeiro contato entre duas pessoas não foi um processo simples. Isso poderia explicar por que obtive, por exemplo, uma concordância entre analistas mais baixa nas iniciações A do que a equipe do estudo original (84% contra 94%).

O número de sequências calibradas pode estar subestimado: elas possivelmente eram mais numerosas, e seu ritmo ainda mais rápido, do que relato aqui. Como várias das pessoas em interação nas gravações apareciam sobretudo de perfil, alguns enunciados podem ter ficado indisponíveis para a análise. Um sorriso de canto de boca ou uma piscadela da pessoa destinatária (enunciados que podem ter ficado indisponíveis para a análise) poderiam, por exemplo, ter dividido em dois o enunciado de quem falou primeiro (tabela 2), o que poderia ter resultado em calibrações adicionais e em ritmos mais rápidos do que os observáveis. Para lidar com essa limitação e afastar ainda mais a pesquisa sobre o diálogo face a face do viés da palavra escrita, ou “falada” (cf. Linell, 1982, 2005), pesquisas futuras poderiam analisar gravações em que os rostos (e, de preferência, os corpos) das pessoas em interação estejam totalmente visíveis.

A maneira como crianças, figuras parentais e terapeutas organizam e alcançam a compreensão mútua nas terapias triádicas da criança e da família pode orientar pesquisas futuras sobre interações com mais de duas pessoas. Outras microanálises sobre a organização e a realização da compreensão mútua em interações triádicas e com várias pessoas poderiam, por exemplo, fazer avançar o conhecimento sobre como corrigir desequilíbrios e prevenir e reparar mal-entendidos.

Complexe Systémique: a reter

O que a terapia familiar dá como certo, entender-se, é observado aqui com lupa. O esquema em três passos (propor, responder, validar a resposta) lembra que uma pergunta só é compreendida quando quem a fez sinaliza que a resposta basta. A três, esse fechamento se complica: a brincadeira de uma figura parental suspende a sequência, uma mesma frase recebe duas respostas, e a figura parental que olha para a pessoa terapeuta fecha o ciclo mais depressa do que a criança que olha para baixo. Para a clínica sistêmica, o interesse é concreto: observar a quem se devolve o sinal de que se entendeu, sintonizar o tom tanto quanto o conteúdo, desacelerar para que a criança não fique fora da aliança. Os limites são os de uma microanálise de quatro sessões, uma delas uma sessão de demonstração em inglês, com pessoas muitas vezes filmadas de perfil: o texto descreve mecanismos, sem medir seus efeitos sobre o desfecho da terapia. Para ler junto com o artigo sobre a microanálise das conversas focadas nas soluções e com o artigo sobre a participação das crianças na terapia familiar.

Notas do original

1 Uso os pronomes neutros ingleses ze/hir para proteger o anonimato das pessoas participantes nas gravações preexistentes. A tradução os verte por formas neutras.

2 A extrapolação é uma função interativa adicional que não constava do artigo original de Bavelas et al. (2017), mas de uma versão atualizada do manual de codificação (J. Gerwing, 23 de março de 2020, comunicação pessoal).

Agradecimentos. Agradeço a Jennifer Gerwing e Sara Healing por terem compartilhado generosamente seu manual de identificação de sequências em três passos, com as definições operacionais de enunciados, iniciações A, respostas B e seguimentos C. Agradeço a Harry Korman por ter aplicado o manual de forma independente a amostras aleatórias estratificadas, a partir das quais determinei a concordância entre analistas. Agradeço também a Carin Cuadra, Anna W Gustafsson e Per Linell pela leitura e pelos comentários sobre diferentes versões das análises e do manuscrito. E agradeço às pessoas que fizeram a revisão anônima.

Conflitos de interesse. Nenhum potencial conflito de interesse foi declarado em relação à pesquisa, à autoria e/ou à publicação deste artigo.

Financiamento. Este trabalho contou com o apoio do Departamento de Serviço Social da Universidade de Malmö.

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Tradução não oficial em português de Fazer a compreensão mútua em terapias da criança e da família: como três pessoas calibram uma informação nova, de Kristina Edman, Discourse Studies, vol. 26, no 2 (2024), doi: 10.1177/14614456231207519, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas em listas, trechos de transcrição traduzidos). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Doing mutual understanding in child and family therapy sessions: How three interlocutors calibrate new information”, publicado em Discourse Studies (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Edman, K. (2024). Fazer a compreensão mútua em terapias da criança e da família: como três pessoas calibram uma informação nova (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/fazer-a-compreensao-mutua-em-terapias-da-crianca-e-da-familia (Obra original publicada em 2024 em Discourse Studies, 26(2), 199-217 (2024); republicada em 2024 por Discourse Studies, https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/14614456231207519)

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