Red Sistémica · Intervenção em crise

Intervenção psicológica em crise massiva. O atentado terrorista na comunidade judaica de Buenos Aires (1ª parte)

O objetivo deste artigo é contribuir para o trabalho de todos aqueles que exercem uma tarefa profissional — terapêutica, educativa e comunitária — apresentando princípios norteadores, estratégias de intervenção, modelos e técnicas eficazes no enfrentamento psicológico individual, familiar e, como foi dito, comunitário de uma situação de crise humana tão terrível e revoltante quanto aquela que a comunidade judaica e todo o povo argentino viveram há apenas alguns meses.

Autor Jacinto Inbar, psicólogo clínico e organizacional, especialista em intervenções em situação de crise e de catástrofe massiva, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém (Israel)Primeira publicação Perspectivas Sistémicas, n° 34, novembro-dezembro de 1994Tradução Complexe Systémique, com a autorização da Red Sistémica

“O princípio norteador, fundamental e vital, que orienta todo tipo de intervenção em situação de crise é o da construção, do desenvolvimento e da manutenção da continuidade cognitiva, emocional e comportamental das pessoas envolvidas e atingidas pelo acontecimento.”

Jacinto Inbar

Nota da redação

Dez anos depois do terrível atentado, ainda não esclarecido pelas autoridades nacionais, a título de lembrança dirigida à sociedade, de testemunho para as novas gerações e de homenagem às vítimas e a seus familiares, publicamos este excelente artigo, escrito na época por um colega e amigo argentino-israelense, Jacinto Inbar.

A integração de paradigmas diferentes — o cognitivo-comportamental e o sistêmico —, fundada em experiências de catástrofes massivas como as ocorridas em Israel, na Colômbia e no México, pode ajudar o leitor a descobrir e a adotar os elementos capazes de servir a seu trabalho de assistência psicoterapêutica. Ao mesmo tempo, os profissionais de saúde mental que se reconhecem em outras escolas ou em outras abordagens encontrarão nele contribuições e metodologias de trabalho reconhecidas por sua altíssima eficácia no tratamento do estresse pós-traumático decorrente de crises comunitárias massivas: atos de terrorismo, catástrofes naturais ou provocadas pelo homem.

Um modelo em três eixos

O modelo preventivo, psicoeducativo e de intervenção adotado pelo autor nas emergências, nas crises massivas ou nas catástrofes comunitárias poderia ser ilustrado por um cubo, em cuja base seriam identificadas as diferentes etapas cronológicas:

1

Pré-advertência

Etapa ao longo da qual não se dispõe de nenhuma informação concreta sobre a possibilidade de o acontecimento ocorrer, mas na qual podem ser concebidos programas psicoeducativos, de segurança etc.

2

Advertência

Etapa ao longo da qual se dispõe de uma informação, em geral válida e confiável, sobre a probabilidade de o acontecimento ocorrer. Se se trata de uma catástrofe natural, como um tornado na Flórida, essa etapa é fundamental para a tomada de consciência e para a preparação concreta da população. No caso de atos de terrorismo, apesar dos limites compreensíveis da previsão, os serviços de segurança e de inteligência dos diferentes países mostraram que são capazes de reunir e de trocar informações para fazer fracassar o atentado, ou para reduzir seus danos quando faltaram tempo ou dados para uma ação mais eficaz.

3

Impacto

Etapa ao longo da qual o acontecimento se produz (explosão, terremoto etc.). É o momento de aplicar todos os programas trabalhados durante anos. As forças de segurança, de assistência, de apoio, os atores educativos e comunitários, conforme seu papel — definido, aceito e exercido —, põem em prática seus conhecimentos, suas capacidades, seus planos etc.

4

Pós-impacto

Etapa ao longo da qual as diferentes instituições (comunitárias, educativas, sanitárias, de segurança etc.) põem em prática programas de reabilitação, de restabelecimento, de enfrentamento, de educação e de tratamento. Mas também planos preventivos destinados a evitar a ocorrência possível de um outro acontecimento, pois existe então uma consciência, uma legitimidade, uma sensibilidade, uma motivação e uma predisposição por parte de quem toma as decisões, dos dirigentes comunitários, dos pais etc.

Em certo sentido, este artigo está escrito “ao contrário”: ele não detalhará nem analisará as etapas preliminares (que têm, no entanto, uma importância real e fundamental na prevenção, na educação e no enfrentamento), já que a comunidade — no sentido mais amplo do termo — se encontra a vários meses do atentado perpetrado em julho; concentrar-nos-emos, portanto, na etapa de pós-impacto.

Para prosseguir com a ilustração do modelo, no eixo vertical do cubo descrevemos os diferentes grupos-alvo aos quais se dirigem os diversos programas nas diferentes etapas mencionadas acima. Identificam-se assim indivíduos: por exemplo, as pessoas atingidas diretamente (feridos, sobreviventes, enlutados, membros da equipe de resgate, pessoas que colaboraram na identificação dos corpos) e aquelas que são atingidas indiretamente (aquelas em quem o acontecimento pode fazer reviver experiências passadas, os sobreviventes de uma catástrofe natural anterior e, a distinguir, os que viveram experiências indescritíveis durante o Holocausto).

Outros grupos-alvo são a família (atingida direta ou indiretamente, ou entendida como população-alvo quando se trata de programas psicoeducativos), a comunidade (aquela que é atingida diretamente, mas também, no plano preventivo e educativo, todas as comunidades onde acontecimentos semelhantes podem ocorrer) e as organizações (instituições comunitárias, escolas, clubes, serviços de emergência, de segurança, de saúde etc.).

O outro eixo do cubo remete ao amplo leque das intervenções possíveis. Pode-se assim imaginar dezenas de pequenos cubos descrevendo intervenções específicas, destinadas a grupos-alvo claramente identificados, em uma etapa determinada. Por exemplo, na etapa de pré-advertência, trabalhando com organizações — digamos uma escola —, pode-se conceber e pôr em prática programas psicoeducativos que visem a desenvolver as capacidades e as competências de enfrentamento dos alunos, da equipe docente e do pessoal administrativo. Um próximo artigo proporá, descreverá, desenvolverá e analisará as diferentes intervenções possíveis, em sua maioria muito eficazes, que foram implementadas e aplicadas em diferentes países, entre eles Israel.

As intervenções na etapa de pós-impacto

Esta parte do artigo trata das diferentes intervenções (não apenas psicoterapêuticas) que podem ou devem ser aplicadas imediatamente após o acontecimento — aqui, a explosão — e daquelas que são concebidas e implementadas junto às pessoas atingidas de maneira direta ou indireta (sobreviventes, feridos, enlutados, equipes de resgate, como foi mencionado acima), bem como junto às instituições comunitárias, educativas, de socorro e de saúde.

Os princípios norteadores da intervenção de pós-impacto

Vários princípios norteadores da intervenção em situação de crise são admitidos e explicados por aqueles que acumularam experiência no tratamento das reações de estresse agudo em diferentes campos: o campo militar (Salomón y otros, 1986; Oren e Inbar, 1991) e o das catástrofes naturais (Inbar, 1992).

1

Proximidade

O mais perto possível, do ponto de vista físico, do local do acontecimento.

2

Imediatismo

O mais cedo possível após o aparecimento dos sintomas; e, para certos tipos de reação, antes mesmo que ele se produza.

3

Expectativa

A expectativa de um retorno tão rápido quanto possível ao papel ou à função que eram os da pessoa antes do acontecimento.

O fundamento desses princípios apoia-se empiricamente em pesquisas de rigor científico reconhecido. Sua aplicação diminui a probabilidade de que se desenvolvam um sentimento de culpa, uma autodefinição como incompetente ou necessitado, uma estigmatização, e aumenta a probabilidade de um restabelecimento rápido e eficaz.

Proximidade

Segundo o princípio de proximidade, a maior parte das intervenções deve ser aplicada em um lugar fisicamente próximo da zona onde o acontecimento se produziu, aqui o local onde o ato de terrorismo foi perpetrado. Como veremos adiante, seria desejável que certas intervenções cognitivas e comportamentais fossem realizadas, apesar de sua “aparente crueldade”, nas ruínas do edifício da comunidade judaica de Buenos Aires (AMIA); no momento adequado, é claro, com os grupos-alvo apropriados e com objetivos de intervenção terapêutica claramente definidos. Devemos sublinhar que os princípios e as propostas evocados valem para todas as pessoas atingidas ou implicadas pelo acontecimento, quaisquer que sejam seu pertencimento e sua origem comunitários e sociais.

Imediatismo

A aplicação do princípio de imediatismo nos leva a intervir o mais cedo possível. Com as pessoas diretamente atingidas, feridos e sobreviventes, e com aquelas que participaram ativamente a partir do impacto (membros da equipe de resgate, pessoas encarregadas de identificar os corpos, adolescentes que participaram da remoção dos escombros, médicos, policiais, bombeiros, rabinos e outros), podem-se aplicar diferentes modelos ou diferentes formas de investigação psicológica — “psychological debriefing” (1).

Os objetivos dessa intervenção em crise, cujas etapas e fases serão desenvolvidas oportunamente, são os seguintes: permitir a expressão das vivências e das emoções experimentadas durante o acontecimento; diminuir o estresse advindo das ameaças psicológicas, das expectativas, das exigências, das previsões, das distorções cognitivas; ampliar a organização cognitiva reunindo explicações alternativas do acontecimento; ativar os recursos internos (capacidade de enfrentamento) e externos ao indivíduo ou ao grupo (busca e mobilização de apoio, de solidariedade e de coesão); diminuir o sentimento de anomalia ou de marginalidade (aumentando a normatividade e a legitimidade dos sintomas experimentados); enfim, preparar para certas experiências, como o aparecimento de sintomas e de reações possíveis, e identificar as possibilidades de assistência psicológica, caso ela se mostre necessária (Dyregrov, 1989; Hodgkinson y Stewart, 1988, 1991).

A investigação psicológica, como intervenção psicoterapêutica, é utilizada em nossa experiência em diferentes momentos. Em primeiro lugar, imediatamente após o acontecimento, como acaba de ser exposto; uma segunda vez, ao fim de dois ou três meses, para tentar identificar certos pensamentos, atitudes ou reações disfuncionais que não haviam aparecido na primeira intervenção; enfim, ao fim de um ano, como seguimento ou avaliação dos tratamentos aplicados, a fim de investigar a persistência de uma sintomatologia, em particular de transtornos de estresse pós-traumático (Inbar, 1992).

Expectativa

O princípio de expectativa remete à importância de desenvolver e de induzir a expectativa de um retorno tão rápido quanto possível ao papel ou à função anteriores ao acontecimento. Esse princípio é expresso pelo terapeuta verbalmente e por sua conduta. As pessoas atingidas são encorajadas a voltar a suas atividades anteriores, à rotina cotidiana, e a favorecer o desenvolvimento de um construto psicológico que nós, especialistas em catástrofes massivas, chamamos de “expectativa esperançosa” (hopefulness).

Continuidade

O que acaba de ser dito nos conduz a um novo princípio norteador, fundamental e vital, que orienta todo tipo de intervenção em situação de crise, de emergência e de catástrofe massiva. Trata-se do princípio da construção, do desenvolvimento e da manutenção da continuidade cognitiva, emocional e comportamental das pessoas envolvidas e atingidas pelo acontecimento.

Concretamente, o conselheiro, o terapeuta ou o agente de saúde mental estimula a criação, o reforço e a conservação dos pensamentos, crenças, atitudes, previsões, atribuições e explicações (domínio cognitivo), dos afetos e dos sentimentos (domínio emocional) e dos comportamentos, papéis e tarefas (domínio comportamental) que foram funcionais ou adaptativos antes do acontecimento.

A saber: o retorno imediato à instituição visada pelo terrorismo, o envolvimento ativo nas tarefas de salvamento (por exemplo, removendo escombros), a participação em atividades determinadas (recuperação dos livros da biblioteca destruída, apoio oferecido a outras pessoas atingidas), ou todo tipo de atividade que permita desenvolver ou manter o sentimento de autossuficiência percebida, a imagem de si e o sentimento de controle comportamental e cognitivo que se pode supor terem sido significativamente atingidos.

Para lembrar

Proximidade, imediatismo e expectativa não são receitas técnicas: elas visam a evitar que a pessoa atingida se defina a si mesma como incompetente ou necessitada, e que seja estigmatizada. O fio que as liga é o da continuidade: manter o que, antes do acontecimento, era funcional nos pensamentos, nos afetos e nas condutas da pessoa, em vez de organizar uma ruptura de sua vida em torno do trauma. É o que se reencontra, em um contexto totalmente distinto, entre os clínicos que trabalharam junto às vítimas da violência de perseguição.

O desenvolvimento da força psicológica (hardiness) (2) nas pessoas atingidas pelo atentado

O presente artigo terá continuidade no próximo número. Nele serão também desenvolvidos modelos de abordagem e de extensão (“reaching out”), e serão incluídas abordagens terapêuticas individuais, grupais e familiares dos transtornos de estresse pós-traumático decorrentes de atos de terrorismo e de catástrofes massivas. Nele serão analisadas estratégias de intervenção em crise na rede escolar, bem como um modelo cognitivo para o aconselhamento e a terapia junto aos enlutados (“grief counselling and therapy”).

Notas do original

(1) O termo utilizado em inglês é “psychological debriefing”; a tradução para o castelhano, talvez provisória, é do autor.

(2) Outras traduções possíveis: “firmeza”, “têmpera” ou “temperança”, “força de ânimo” etc.

(*) Este artigo foi publicado no n° 34 de Perspectivas Sistémicas, novembro-dezembro de 1994. Outros trabalhos do autor saíram em Perspectivas Sistémicas n° 2 e n° 28.

Quem é Jacinto Inbar

O Dr. Jacinto Inbar é psicólogo clínico e organizacional. É especialista em intervenções em situação de crise e de catástrofe massiva. Ensina na Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel. Pode-se lê-lo também no site: Integrar a hipnoterapia cognitiva ao tratamento de casal.

Este artigo é a tradução para o português de “Estrategias de intervención psicológica en situaciones de crisis masivas. El atentado terrorista en la Comunidad Judía de Buenos Aires (1° parte)”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Perspectivas Sistémicas, n° 34, novembre-décembre 1994). Traduzido e republicado com a autorização da revista.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

Inbar, J. (2022). Intervenção psicológica em crise massiva. O atentado terrorista na comunidade judaica de Buenos Aires (1ª parte) (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/intervencao-psicologica-em-crise-massiva-o-atentado-terrorista-na-comunidade-judaica-de-buenos-aires-1a-parte (Obra original publicada em 1994 em Perspectivas Sistémicas, n° 34, novembre-décembre 1994; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/06/24/estrategias-de-intervencion-psicologica-en-situaciones-de-crisis-masivas-el-atentado-terrorista-en-la-comunidad-judia-de-buenos-aires-1-parte/)

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