NIHR Open Research · Serviço social
Reunir uma pessoa adulta em dificuldade, sua família e as pessoas próximas para que essa rede construa ela mesma o plano de apoio: nascida na Nova Zelândia no campo da proteção à infância, a conferência familiar chega à assistência social para adultos e à saúde mental britânicas. Cruzando literatura internacional, levantamento nacional, entrevistas e fórum deliberativo, a equipe de Jerry Tew propõe uma teoria do programa: além do plano, o que opera é o reconhecimento, o compartilhamento do poder e a reparação dos vínculos.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de O que é a conferência familiar e de grupo para adultos? Parte 2: desenvolvendo a teoria do programa, de Jerry Tew, Sharanya Mahesh, Mary Mitchell, Kar-Man Au, Vicky Nicholls, TK Vincent e Miranda Johnson, publicado na NIHR Open Research (NIHR) (2025), doi: 10.3310/nihropenres.13830.2, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tradução segue a versão 2 do artigo (4 de setembro de 2025), que acrescenta a Figura 2, ausente da versão 1; os intertítulos do resumo estruturado foram mantidos; “Family and Group Conferencing” (FGC) foi traduzido por “conferência familiar e de grupo” e depois por “conferência familiar”; as duas tabelas são apresentadas em forma de listas (os títulos das publicações da Tabela 1 permanecem em inglês); as duas figuras são reproduzidas com legendas traduzidas; as declarações do fim do artigo foram reunidas nas notas, sem o endereço eletrônico de correspondência. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
É justamente ao preservar e sustentar esse “fio” contracultural que a conferência familiar pode oferecer um caminho para tornar possíveis conversas que resolvam questões.
Jerry Tew, Sharanya Mahesh, Mary Mitchell, Kar-Man Au, Vicky Nicholls, TK Vincent e Miranda Johnson
Resumo
Contexto. Embora seja mais comumente oferecida nos serviços voltados a crianças e suas famílias, a conferência familiar e de grupo (Family and Group Conferencing, FGC) é uma opção que agora também vem sendo oferecida na assistência social para adultos e nos serviços de saúde mental. Ela oferece um processo estruturado pelo qual adultos com possíveis necessidades de apoio, junto com membros de sua família e/ou de suas redes sociais, podem elaborar o próprio plano de cuidado e apoio. Com base em uma síntese de evidências, este artigo desenvolve uma compreensão da teoria do programa que fundamenta a prática atual da conferência familiar para adultos na Grã-Bretanha, descrevendo o leque de resultados possíveis e os fatores contextuais e mecanismos que podem contribuir para resultados bem-sucedidos.
Métodos. Por meio de uma abordagem realista, as evidências são sintetizadas a partir de uma revisão da literatura internacional, de um levantamento nacional on-line, de entrevistas com partes interessadas selecionadas (incluindo pessoas com experiência vivida) e de um fórum deliberativo que reuniu uma amostra representativa de informantes da área.
Resultados. Foram identificados possíveis resultados relacionais, sistêmicos e de capacidades, para além do objetivo declarado da conferência familiar de criar um plano de cuidado e apoio que se apoie nas preferências, aspirações e capacidades da pessoa central e de sua rede. Vários fatores contextuais foram considerados importantes, relacionados sobretudo à forma como o serviço de conferência familiar é organizado e ao seu “encaixe” em uma cultura de prática mais ampla, baseada em forças. São conceituados os principais processos e mecanismos de mudança, ligados à inclusão, ao reconhecimento, à reconfiguração das relações de poder e aos processos restaurativos.
Conclusões. Essa elucidação da teoria do programa que fundamenta a prática da conferência familiar com adultos tem relevância prática para o desenvolvimento de serviços de conferência familiar existentes e novos, tanto no Reino Unido quanto internacionalmente.
Palavras-chave: conferência familiar (Family Group Conferencing), abordagem baseada em forças, assistência social, planejamento do apoio, coprodução, prática relacional, empoderamento, recuperação em saúde mental
A conferência familiar e de grupo é uma abordagem relativamente nova na assistência social para adultos e nos serviços de saúde mental. Ela oferece um caminho inclusivo em que as pessoas podem planejar seu cuidado e seu apoio, e que pode mobilizar as forças e os recursos que talvez existam em suas famílias e redes sociais. Também pode ser usada quando há preocupações de proteção ou quando as pessoas podem precisar de apoio para tomar decisões. Por isso, ela se ajusta bem a desenvolvimentos mais amplos de políticas e práticas em torno das abordagens baseadas em forças.
Originada na Nova Zelândia, a conferência familiar se consolidou como prática nos serviços para crianças e famílias na Grã-Bretanha. Ela consiste em reunir uma pessoa com sua família e/ou membros de sua rede social para decidir um plano que resolva as dificuldades ou os desafios atuais (por exemplo, organizar apoio, possibilitar a recuperação ou garantir a segurança). É facilitada por uma pessoa coordenadora independente e compreende três etapas:
Esse modelo, tal como é praticado atualmente na Grã-Bretanha na assistência social para adultos e nos serviços de saúde mental, e os valores e princípios que o sustentam são descritos em profundidade em nosso artigo da parte 1 (Mahesh et al., 2025). Neste artigo (parte 2), reuniremos as evidências da literatura internacional, dos dados do levantamento, das entrevistas e de um fórum deliberativo, a partir das quais podemos construir nossa concepção inicial da teoria do programa que fundamenta a conferência familiar para adultos. Especificamente, vamos explorar o leque de resultados que se pode esperar das conferências familiares para adultos, bem como os fatores contextuais, os processos e os mecanismos que podem ser importantes para alcançá-los.
Para maior clareza e simplicidade na discussão a seguir, usaremos a seguinte terminologia:
Pessoas com experiência vivida dos serviços de assistência social e de saúde mental participaram como copesquisadoras ao longo de todo o delineamento e a condução do estudo. Em particular, leram e analisaram uma amostra da literatura revisada, realizaram entrevistas com partes interessadas e cofacilitaram o fórum deliberativo. Participaram da discussão e da síntese dos resultados emergentes e assinam o artigo como coautoras.
Neste artigo, usamos uma abordagem realista (Pawson & Tilley, 2004) para explorar quais podem ser os componentes-chave da teoria do programa que fundamenta a conferência familiar com adultos. Buscamos uma compreensão abrangente por meio de uma abordagem integrativa, recorrendo às mesmas fontes de evidência usadas no artigo da parte 1: análise e síntese dos dados de uma revisão da literatura internacional, de um levantamento on-line, de entrevistas com partes interessadas selecionadas (incluindo pessoas com experiência vivida) e, por fim, de um fórum deliberativo que reuniu uma amostra representativa de informantes da área (para mais detalhes, ver Mahesh et al., 2025). Nossa abordagem e nosso propósito seguem a concepção de revisão e síntese realistas de Pawson e Tilley (2004):
Os resultados da revisão e da síntese combinam pensamento teórico e evidências empíricas e se concentram em explicar como a intervenção estudada funciona, de modo a permitir que quem toma decisões use essa compreensão e a aplique a seus próprios contextos particulares (2004, p. 7).
Revisamos e triangulamos evidências de uma revisão da literatura e de um levantamento das práticas em toda a Grã-Bretanha, seguidos de entrevistas direcionadas com partes interessadas. Quando pertinente, recorremos às diretrizes RAMESES, em especial às relativas à análise e ao relato da literatura segundo uma abordagem realista (Wong et al., 2013) e às orientações específicas para construir e refinar uma ou mais teorias de programa realistas (Wong et al., 2017, p. 23). Ao fim desse processo, restaram algumas questões-chave sobre as quais persistia uma importante falta de clareza ou uma lacuna de compreensão, e essas questões foram então submetidas a uma discussão reflexiva em um fórum deliberativo. O conjunto fornece a base para uma formulação inicial de qual(is) configuração(ões) contexto-mecanismo-resultado (CMR) pode(m) constituir a teoria do programa subjacente à conferência familiar para adultos. Essa formulação inicial servirá para orientar pesquisas avaliativas posteriores, realizadas em locais selecionados para estudos de caso. A Figura 1 apresenta um diagrama esquemático dos métodos empregados nos artigos das partes 1 e 2.

Um relato mais detalhado das metodologias usadas na revisão da literatura, no levantamento nacional, nas entrevistas com partes interessadas e no fórum deliberativo, bem como das considerações éticas, encontra-se no artigo da parte 1 (Mahesh et al., 2025). Para facilitar a consulta, a lista das publicações incluídas na revisão está detalhada na Tabela 1.
Tabela 1 — Resumos das publicações incluídas
A autorização ética para o estudo foi obtida junto ao Comitê de Revisão Ética de Humanidades e Ciências Sociais da Universidade de Birmingham (ERN_22-0818) em 9 de dezembro de 2022. As pessoas entrevistadas entre as partes interessadas receberam antecipadamente uma ficha de informação sobre a participação, e o consentimento por escrito foi obtido antes da entrevista.
Ao apresentar nossos resultados, vamos triangular as evidências da literatura, do levantamento nacional e das entrevistas com partes interessadas, antes de considerar os resultados adicionais do fórum deliberativo. Com isso, buscaremos identificar os componentes-chave para desenvolver nossa compreensão de uma teoria do programa para a prática da conferência familiar com adultos e, em particular, possíveis configurações contexto-mecanismo-resultado (CMR). Embora possa parecer um pouco “de trás para a frente”, talvez seja mais útil começar identificando os resultados possíveis, para dispor de um pano de fundo que permita identificar quais fatores contextuais e mecanismos de mudança podem ser pertinentes e significativos. Em seguida, apresentaremos um esboço esquemático do que foi identificado como os componentes-chave de uma teoria do programa para a prática da conferência familiar com adultos.
Na literatura, pode haver uma tensão entre os tipos de resultado considerados importantes pelas instituições e pelas equipes profissionais e aqueles que talvez parecessem mais importantes para a pessoa central e os membros de sua rede, uma questão já destacada em relação às conferências familiares nos serviços para crianças e famílias (Mitchell, 2020). Uma ilustração particular disso no contexto adulto encontra-se no relato de um estudo de caso de De Jong e Schout. A conferência familiar foi oferecida porque um casal não conseguia manter padrões aceitáveis de limpeza e de higiene básica em casa. O homem trabalhava longas horas e a mulher havia ficado deprimida e “começado a colecionar obsessivamente todo tipo de bugigangas”. O resultado do processo foi considerado um sucesso porque:
“Oito meses depois da conferência familiar, havia uma atenção sustentada à limpeza da casa. Tanto a mulher quanto o marido concordaram que a conferência criou um espaço para discutir circunstâncias das quais antes se envergonhavam. Além disso, o círculo vicioso de condições insalubres, vergonha e isolamento social foi rompido. Outro efeito colateral positivo da conferência é que a mulher agora ousa se afirmar e discutir questões com o marido.” (De Jong & Schout, 2013, p. 1449)
Aqui, a expectativa profissional primária de um bom resultado parece ter sido que as preocupações com as condições de vida insalubres fossem resolvidas. Em contraste, outros resultados, como a superação do isolamento social e o fato de encontrar voz na relação conjugal, que talvez fossem vistos como bem mais fundamentais da perspectiva do casal no centro da situação, aparecem como “além disso” e como “efeito colateral positivo”. Além de mostrar possíveis diferenças quanto aos tipos de resultado considerados importantes, esse estudo de caso também ilustra a possibilidade de que o processo de conferência familiar alcance, em alguns casos, resultados importantes que vão além da simples produção de um plano, embora, em alguns casos, este último possa ser tudo o que se deseja ou de que se precisa.
Quando consultadas a esse respeito, todas as pessoas que responderam ao nosso levantamento endossaram a ideia de que um leque mais amplo de resultados poderia ser alcançado ao oferecer uma conferência familiar. Esses resultados refletiam uma visão mais ampla de mudança pessoal e sistêmica ou relacional interligada, e incluíam:
Com base em nossa análise da literatura, nos resultados do levantamento e nas entrevistas posteriores com partes interessadas, trabalhamos para estabelecer um conjunto de possíveis resultados positivos de um processo de conferência familiar. Cada resultado possível é discutido em mais detalhe a seguir.
Grande parte da literatura indicava que o objetivo primário das conferências familiares para adultos era ajudar a pessoa central e sua rede a compreender sua situação particular e seus dilemas e a desenvolver o plano mais adequado para enfrentá-los. Sugeriu-se que compartilhar diferentes perspectivas sobre uma situação problemática poderia levar os membros da rede a entender melhor os desafios enfrentados pela pessoa central e gerar ideias novas e criativas para lidar com a situação (Meijer et al., 2019). O resultado da conferência familiar é, portanto, “um plano mais bem alinhado ao mundo complexo do qual as pessoas atendidas fazem parte” (de Jong et al., 2018). Enquanto “planos conduzidos por profissionais podem até levar ao desengajamento e à passividade das pessoas atendidas”, se “uma pessoa pode assumir a responsabilidade pelo [seu] próprio plano, com o apoio de contatos sociais e com informações fornecidas por profissionais, [ela] pode […] ter um sentimento mais forte de apropriação” (Metze et al., 2015c, p. 169).
Todas as pessoas entrevistadas concordaram que elaborar um plano era, em si, um resultado valioso da conferência familiar, e que esse plano poderia oferecer a oportunidade de uma ajuda e de um apoio mais bem ajustados à pessoa:
“Então, eu acho, é ter o controle de volta, para fazer o plano. Nos meus casos, é planejamento de transição, ou planejamento de pacote de cuidados, então é como a pessoa quer o seu cuidado, e como ela quer que a transição para os serviços para adultos seja. É a pessoa escolhendo o que quer fazer da própria vida, e isso é muito importante.” (entrevista 6, liderança de equipe de FGC)
O processo de engajamento com a pessoa e com os membros da rede podia evidenciar outras questões e/ou o fato de que a oferta atual de serviços não era totalmente pertinente para a pessoa. Além disso, relatou-se que um plano podia despertar um senso mais forte de responsabilidade e/ou de prestação de contas em relação à pessoa central, tanto por parte das equipes profissionais quanto dos membros da rede.
Um resultado-chave relatado pela maioria das pessoas entrevistadas foi o potencial da conferência familiar para melhorar o bem-estar não apenas da pessoa central, mas potencialmente também de quem pode estar investindo grande parte da vida no cuidado. O bem-estar pode ser entendido não apenas como experiência subjetiva de felicidade, mas como florescimento ativo: “um estado dinâmico em que a pessoa é capaz de desenvolver seu potencial, trabalhar de forma produtiva e criativa, construir relações fortes e positivas com os outros e contribuir para sua comunidade” (Foresight Programme, 2008, p. 10). Essa concepção de bem-estar em termos de uma vida engajada e plena está presente na Seção 1 do Care Act de 2014, e as pessoas entrevistadas a formularam em termos semelhantes:
“Com certeza isso dá poder […] à pessoa e à família, [para] permitir que façam o que conseguem fazer e vivam a vida que querem.” (entrevista 3, serviço social)
Embora haja uma ampla literatura teórica sobre o bem-estar, no contexto dos resultados da conferência familiar pode ser útil conceituá-lo em relação ao leque de capacidades, ou oportunidades valorizadas, que podem ou não estar disponíveis a uma pessoa em sua vida cotidiana (Sen, 1993; ver também Hopper, 2007). A noção de capacidade se concentra no que as pessoas podem fazer, ser e realizar, e nas escolhas que lhes estão disponíveis; por isso, pode ser vista como descrevendo “uma espécie de poder”, algo que as concepções de felicidade claramente não fazem (Sen, 2010).
Metze (2016) discute como as conferências familiares podem contribuir para melhorar a experiência subjetiva e objetiva de bem-estar das pessoas, por meio de mais conhecimento, confiança, competência, autoestima, autonomia e liberdade. Um fator particular de melhora do bem-estar pode ser a superação de um sentimento de vergonha e do isolamento social (às vezes autoimposto) que pode tê-lo acompanhado (De Jong & Schout, 2013). Um estudo controlado randomizado mostrou que as conferências familiares aumentaram o bem-estar emocional percebido entre pessoas beneficiárias de longo prazo da assistência social na Noruega (Malmberg-Heimonen, 2011). Johansen (2014) argumenta que participar de uma conferência familiar pode fortalecer o senso de comunidade ou de pertencimento à rede social, e que isso pode melhorar a autoestima de todas as pessoas envolvidas. Essa ênfase nos ganhos de bem-estar para toda a rede, e não apenas para a pessoa, ecoa em Górska et al. (2016), que destacam a importância de resultados em que a responsabilidade pelo cuidado é compartilhada de forma mais eficaz em uma rede mais ampla (e potencialmente mais solidária) e, portanto, deixa de recair tanto sobre uma pessoa cuidadora principal cuja qualidade de vida pode ter sido bastante afetada, resultando às vezes em estresse e em dificuldades emocionais ou de saúde mental.
Em termos gerais, as conferências familiares foram conceituadas como um processo democrático ou emancipatório em que tanto a pessoa central quanto os membros da rede passam a sentir mais controle sobre a própria vida, e temas de agência pessoal e autonomia se destacam na literatura revisada. Pode-se considerar que as conferências familiares têm o potencial de deslocar o poder das equipes profissionais para a pessoa central e suas redes (Górska et al., 2016), e isso foi relatado como resultado-chave tanto pelas pessoas entrevistadas quanto na literatura mais ampla (Metze, 2016; Parkinson et al., 2018). A obtenção do empoderamento como resultado podia depender, em alguns casos, do quanto as pessoas participantes de fato desejavam mais controle e de suas experiências anteriores com os serviços terem sido colaborativas ou não. Adotando uma perspectiva mais psicodinâmica, Ramon (2021) sugere que a conferência familiar pode ter o poder de “desatar fracassos passados”, levando ao menos a uma sensação temporária de que poderia ser seguro e vantajoso assumir maior controle sobre a própria vida. Um estudo de De Jong e Schout (2013) propôs um padrão de mudança para as pessoas centrais: da vergonha à autoconsciência, da expropriação à apropriação e do isolamento social à recuperação e à participação.
A literatura pode ser particularmente útil para ir além das concepções individualistas de empoderamento, em direção a perspectivas mais relacionais. Mitchell (2021) aplica compreensões teóricas do reconhecimento (Fraser, 2000; Honneth, 2004) para elucidar como as pessoas que participaram de conferências familiares nos serviços para crianças e famílias sentiram, talvez pela primeira vez, que tinham sido notadas e reconhecidas pelo que realmente eram em termos de identidade, preferências, aspirações e capacidades. Um reconhecimento desse tipo pode conferir e reforçar o senso de agência das pessoas e o direito de serem quem são. Por meio de um maior “apoio de apreciação”, as pessoas podem passar a se ver, e a ser vistas pelos outros, como dotadas de agência e capazes de contribuir, e não como um problema ou um fardo, ou apenas como quem cuida dos outros (Johansen, 2014; Malmberg-Heimonen & Johansen, 2014). Esse sentimento de reconhecimento pode ser vivido tanto nas relações da pessoa central com sua família ou rede social quanto em suas relações com as equipes e os serviços, e pode contribuir para um senso duradouro de valor próprio que a situa como cidadã de pleno direito, cujas aspirações e preferências importam.
Da “virada relacional” na teoria social vem a ideia de que a agência pessoal raramente é mais bem compreendida como propriedade intrínseca do indivíduo, dependendo antes dos contextos relacionais em que nos situamos (Burkitt, 2016). Essa ideia de agência relacional pode ser vista como particularmente aplicável a pessoas mais vulneráveis, desempoderadas ou com capacidade reduzida: aquelas que, em grau mais extremo, só conseguem exercer agência por meio da compreensão e do apoio de outras pessoas (ver, por exemplo, Klein & Goering, 2023). A agência relacional pode ser vista como estreitamente ligada às experiências de reconhecimento: a agência das pessoas só pode ser viabilizada por suas relações interpessoais se as pessoas significativas forem capazes de reconhecê-las pelo que são e pelo que talvez queiram ser e fazer. Um tema comum entre as equipes entrevistadas foi que, ao participar da conferência familiar, os membros da rede pareciam compreender melhor as necessidades e aspirações da pessoa central.
Metze e sua equipe (2015c) propõem uma terminologia teórica semelhante, usando a expressão “autonomia relacional” para descrever o aspecto interpessoal do empoderamento relacional que pode surgir da participação em um processo de conferência familiar. A equipe argumenta que é com o apoio de outras pessoas que alguém pode se tornar capaz de “encontrar uma forma de viver de acordo com os próprios valores e identidade” (2013, p. 171). Em termos práticos, a agência pode ser viabilizada ao “receber apoio para tomar decisões e agir” e ao “ser capaz de pedir ajuda para pôr as decisões em prática” (ibid.). A equipe alerta, porém, contra qualquer visão idealizada das relações, reconhecendo que elas também podem ser paternalistas, repressivas ou manipuladoras. O que talvez seja um pouco mais controverso na promoção da agência relacional é a sugestão de que um resultado positivo, quando a pessoa central tem capacidade limitada ou motivação variável, poderia ser que familiares ou membros da rede exercessem uma “interferência compassiva”, a fim de ajudar a restabelecer o estilo ou as condições de vida da pessoa central como ela havia indicado anteriormente que gostaria que fossem.
Sugere-se que a conferência familiar pode contribuir para aumentar a resiliência, no sentido de a pessoa central e sua rede disporem de melhores recursos para enfrentar novos desafios ou crises que possam surgir em sua vida (De Jong et al., 2016). Isso tem fortes semelhanças com a compreensão dos aspectos sociais da recuperação, e da manutenção da saúde, no contexto da saúde mental (Ramon, 2021; ver também Tew et al., 2012). Ao conceituar quais recursos sociais e interpessoais podem contribuir para essa resiliência, pode ser útil usar a ideia de capitais de recuperação (Tew, 2013) e, mais especificamente, distinguir entre a) mudanças na rede mais íntima de relações pessoais com familiares ou amizades (capital relacional) e b) uma integração potencialmente maior em uma comunidade mais ampla de associações sociais (capital social).
Em um estudo sobre as experiências de pessoas beneficiárias da assistência social que organizaram uma conferência familiar, um resultado importante foi que “o resultado mais importante foi a melhora das relações”, incluindo oferecer um meio de “reconectar-se com contatos perdidos da rede” (Johansen, 2014, p. 153). A partir de suas entrevistas com pessoas centrais e membros de redes, Tew et al. (2017) encontraram evidências de mudanças significativas nos sistemas relacionais. Tanto o tamanho da rede quanto as qualidades e o caráter específicos das relações podem ser importantes, permitindo que a pessoa central (e outros membros da rede) façam, compartilhem e realizem coisas que não seriam possíveis isoladamente; deem e recebam apoio; desfrutem da companhia mútua; e vivam um sentimento de pertencimento e de conexão. As pessoas entrevistadas da prática identificaram que o processo de conferência familiar muitas vezes podia melhorar a conexão relacional entre a pessoa central e os membros da rede e, às vezes, o que é igualmente importante, entre diferentes membros da rede.
Para algumas famílias e redes, o ponto de partida pode ser que seus padrões de interação e de comunicação não sejam particularmente positivos, e, portanto, seu capital relacional pode ser bastante limitado. A pesquisa de Johansen (2014) indicou que se reunir em uma conferência familiar pode abrir formas mais eficazes de interagir e de se comunicar e, assim, melhorar relações insatisfatórias. As equipes da prática identificaram que o processo de desenvolver e acordar em conjunto um plano pode criar uma experiência compartilhada capaz de aproximar as pessoas (talvez com base em conversas honestas, mas difíceis), e que isso muitas vezes teve um impacto positivo e duradouro nas relações. A restauração de relações rompidas ou esmaecidas foi vista como levando a um nível maior de apoio social e de resiliência para as pessoas envolvidas na conferência familiar (Malmberg-Heimonen & Johansen, 2014; Schout et al., 2017), com melhorias observadas tanto na quantidade quanto na qualidade de suas relações (de Jong et al., 2016). Meijer e sua equipe (2019) relatam que um conhecimento maior da situação da pessoa central podia estimular e fortalecer o envolvimento, o apoio e a disposição para agir de sua rede.
A pesquisa sobre recuperação em saúde mental mostrou que uma característica-chave das relações que apoiam a recuperação é a capacidade de passar de forma relativamente fácil e fluida de uma relação mais unilateral de apoio, quando a pessoa está mais doente e debilitada, para uma relação de “fazer com”, de dar e receber, assim que a pessoa começa a se sentir mais capaz (Schon et al., 2009). Uma ênfase semelhante em relações marcadas pelo compartilhamento e pela reciprocidade, e não pelo “fazer para” ou pelo “fazer por”, pode ser vista como componente central do capital relacional, capaz de contribuir para a sustentabilidade de longo prazo do sistema de cuidado (Metze et al., 2015b).
Além dos possíveis desenvolvimentos do capital relacional, vários trabalhos também consideraram que as conferências familiares poderiam ter um papel no desenvolvimento de um capital social mais amplo, que pode ser importante tanto para abrir recursos e oportunidades quanto para reduzir o isolamento social e dar às pessoas um senso mais forte de pertencimento à comunidade (de Jong et al., 2016; Johansen, 2014; Meijer et al., 2019). Um foco voltado para fora, de conexão com a comunidade, mostrou-se uma característica-chave dos planos de recuperação elaborados nas conferências familiares em saúde mental (Tew et al., 2017), mas esse foco no fortalecimento do capital social estava ausente das conferências familiares em saúde mental pública na Holanda (de Jong et al., 2015). Seguindo Bourdieu, o capital social é entendido como “o conjunto dos recursos atuais ou potenciais ligados a uma rede durável de relações mútuas” (Bourdieu, 1986, citado em de Jong et al., 2016, p. 735). Coleman, outro dos primeiros teóricos do capital social (1988), destacou o papel que os contatos da família e da rede podem desempenhar ao ligar as pessoas a essas redes duráveis de associação social formal ou informal. No contexto do trabalho com pessoas com dificuldades de saúde mental mais graves, De Jong e sua equipe (2014) constataram que, quando a pessoa central se sentia mais respeitada, digna de confiança e valorizada (em nossos termos, recebendo reconhecimento), ela passava a se comportar de forma mais responsável em relação à comunidade, o que, por sua vez, levava a uma melhor aceitação pela comunidade (e a uma “inserção social” nela) e, portanto, a um melhor acesso a redes mais amplas de capital social.
Outra peça do quebra-cabeça relacional é a possibilidade de que o processo de conferência familiar como um todo leve a relações mais colaborativas e eficazes entre quem está no “mundo da vida” (pessoa central, rede e comunidade mais ampla) e as diversas equipes e instituições que fazem parte dos sistemas de serviços que podem oferecer apoio ou intervenção (de Jong et al., 2014; Johansen, 2014). A conferência familiar pode ser vista como facilitadora do desenvolvimento de relações mais confiantes e abertas entre as redes e as equipes da prática, com potencial para deslocar o poder das equipes para a pessoa central e suas famílias (Górska et al., 2016). Em alguns casos, as pessoas entrevistadas relataram que a conferência familiar mudou os termos da relação da pessoa central e dos membros da rede com as equipes, e vice-versa. Permitir que a pessoa central tomasse as próprias decisões de uma forma adequada a ela, junto com a clareza sobre os papéis e as responsabilidades das equipes envolvidas, parecia mudar positivamente a visão da pessoa central e dos membros da rede sobre essas equipes, melhorando assim suas relações.
A pesquisa de Meijer e sua equipe constatou que a conferência familiar agregava valor quando o processo oferecia a possibilidade de construir parcerias, no trabalho em saúde mental, entre a pessoa central, suas redes sociais e as equipes. Observou-se que o apoio das equipes ao plano podia levar a um controle compartilhado e a menos recurso a intervenções coercitivas (Meijer et al., 2019). De Jong e sua equipe (2014) constataram que, em suas amostras de pesquisa, as pessoas muitas vezes tinham tido experiências negativas anteriores com as equipes de saúde mental, e aprender a confiar nelas foi um resultado importante da conferência familiar, tanto para a pessoa central quanto para sua rede. Segundo essa equipe, um fator importante para esse resultado era a elaboração de um plano cujo conteúdo tivesse a concordância de todas as pessoas envolvidas, o que criava uma ponte entre o mundo informal da pessoa central e de sua rede e o mundo formal dos sistemas profissionais. É preciso reconhecer, porém, que essa ponte depende de as equipes e os serviços cumprirem de fato o que foi acordado, algo que pode estar fora do controle do serviço de conferência familiar, mas que pode afetar negativamente os resultados.
De forma mais ampla, a conferência familiar pode ser vista como um mecanismo para impulsionar uma mudança de cultura em direção a formas de trabalho mais coprodutivas na assistência social e nos serviços de saúde mental:
“As pessoas que participaram de nosso estudo reconheceram que os serviços atuais estão predispostos a oferecer intervenções baseadas na opinião especializada de profissionais, individualmente ou em grupo, muitas vezes guiadas por suas normas profissionais, pelas exigências das políticas e por sua avaliação de risco. Indicou-se que, às vezes, essa prática pode levar a uma tomada de decisão autoritária, que retira o controle das pessoas usuárias em favor da pessoa profissional envolvida. Reconheceu-se que isso muitas vezes resulta em relações frágeis entre os serviços e as pessoas usuárias e em baixa satisfação com os serviços recebidos… A conferência familiar era […] percebida como uma oportunidade de favorecer uma forma diferente de pensar, por parte das equipes profissionais, sobre seu papel na prestação de serviços.
Acho que é um dos desafios para nós, como profissionais, não chegar lá de cueca de Super-Homem para consertar as coisas, e dar às famílias a oportunidade de consertarem as coisas por conta própria. E isso é um desafio, porque é uma mudança no nosso jeito de trabalhar. É deixar de ser quem resolve os problemas. (Lea*, integrante da equipe profissional)”
(Górska et al., 2016, p. 238-239; ver também Fisher et al., 2018).
Da perspectiva da pessoa central, ver os membros da rede e as equipes trabalhando de forma mais colaborativa pode dar a sensação de uma rede de segurança muito mais forte (Manthorpe & Rapaport, 2020). De Jong e Scout (2013) relataram que essa rede de segurança poderia ajudar a romper as espirais descendentes de marginalização e isolamento das pessoas afetadas por problemas de saúde mental. Quando as redes sociais estão intensamente envolvidas, uma deterioração gradual pode ser evitada, pois familiares e vizinhança podem ficar atentos à necessidade de organizar cedo um apoio formal ou informal adicional, ajudando a prevenir o agravamento dos sintomas psicóticos e a necessidade de medidas coercitivas (de Jong et al., 2014). Dessa forma, o fortalecimento do apoio social pode ser um fator crucial para diminuir os riscos e a vulnerabilidade associados a viver com sofrimento psíquico.
Em alguns contextos de serviço, garantir a segurança de adultos vulneráveis é visto como o resultado principal (ver, por exemplo, Daybreak, 2010; Daybreak, 2013). Várias pessoas entrevistadas destacaram o potencial de uma conferência familiar para responder a preocupações de proteção de uma forma aceitável e adequada à pessoa central como indivíduo. Pode-se considerar que as conferências familiares favorecem uma abordagem personalizada da gestão de riscos, em que a pessoa central, e quem se importa com ela, pensam de forma positiva e produtiva sobre como alcançar a vida que desejam enquanto gerenciam os riscos identificados (Hobbs & Alonzi, 2013). Os membros da rede podem ser capazes de apontar recursos específicos e possíveis fontes de apoio que não estariam necessariamente “no radar” das equipes profissionais envolvidas. Com uma abordagem positiva, e não defensiva, do risco, as conferências familiares podem oferecer um espaço para explorar os níveis de risco que a pessoa central deseja assumir, permitindo-lhe fazer escolhas informadas junto com as pessoas-chave que precisariam oferecer apoio, ou dar o alarme, caso as coisas não saíssem como planejado. Dessas maneiras, a conferência familiar pode ser vista como um mecanismo eficaz para alcançar os objetivos da iniciativa política Making Safeguarding Personal (LGA, 2013), e ela foi usada em dois dos primeiros locais-piloto (Manthorpe et al., 2014).
Em alguns casos, as preocupações com o risco se concentram na rede relacional, seja porque determinadas pessoas agem de forma abusiva, negligente ou financeiramente exploratória, seja porque divisões, conflitos ou problemas de comunicação entre membros da rede afetam a segurança ou o bem-estar emocional da pessoa central, como no exemplo a seguir:
“Temos de ficar abrindo investigações de proteção para essa família toda vez que uma ou outra das partes em guerra faz acusações contra as outras. Isso tem um custo enorme em tempo e dinheiro para nós, para a polícia e para o clínico geral. Uma conferência familiar pode cortar tudo isso e ajudar essas pessoas a se reunirem com alguém neutro e resolverem a situação.” (pessoa gestora de caso responsável pelo encaminhamento, citada em Daybreak, 2010, p. 19).
Nesses casos, embora um plano acordado possa ser importante (sobretudo no curto prazo), é a restauração de relações honestas e abertas entre os membros da rede que tem mais chances de garantir segurança e tranquilidade de longo prazo para a pessoa central, e de tornar desnecessário um envolvimento profissional contínuo.
Quando as conferências familiares são oferecidas em um estágio inicial, a pessoa central pode ainda não estar recebendo nenhum serviço social ou de saúde, e o resultado da conferência pode ser um plano que utilize apenas recursos informais e recursos comunitários de uso geral, podendo assim prevenir ou adiar a necessidade de apoio formal. Uma avaliação recente dos serviços de conferência familiar para adultos em Camden constatou que 31% delas haviam resultado em um plano que não exigia nenhuma intervenção de serviços de cuidado (Spencer & Fisher, 2020).
Quando esses serviços já estão envolvidos no apoio à pessoa central, avaliações locais indicam que as conferências familiares podem gerar economias ao reduzir a necessidade de intervenções contínuas ou de serviços de cuidado (mais intensivos). Um estudo em Hampshire estimou economias de £77.360 associadas a 49 encaminhamentos para a conferência familiar, uma média de cerca de £1.500 por conferência. As economias resultaram de internações evitadas em instituições de longa permanência, da menor necessidade de cuidado domiciliar e da redução do tempo de serviço social e de gestão do cuidado (Daybreak, 2013). Uma avaliação anterior de um serviço de conferência familiar para adultos em Kent havia estimado economias orçamentárias de cerca de £7.000 por conferência (Marsh with Kent Adult FGC Service, 2007). Em Camden, constatou-se que 8% das conferências familiares com adultos haviam resultado em aumento dos orçamentos de serviços, 15% não haviam gerado mudança e 45% haviam evitado uma escalada prevista dos custos de cuidado (Spencer & Fisher, 2020).
Outros estudos também identificaram algumas reduções possíveis no uso de serviços formais em diferentes contextos. Por exemplo, De Jong e sua equipe (2014) constataram que a internação involuntária em uma unidade psiquiátrica às vezes pode ser evitada quando o apoio informal é suficientemente mobilizado por meio de uma conferência familiar (ver também De Jong & Schout, 2011; Ramon, 2021). Blundell et al. (2021) constataram que as conferências familiares podem ser usadas como ferramenta de intervenção para interromper o risco de escalada ou de continuidade do abuso.
Quando se levam em conta os custos de oferecer um serviço de conferência familiar, pode ser mais realista ver as conferências familiares como tendendo, no geral, a ser neutras em termos de gastos; e, se elas devem ser promovidas junto à população como uma opção positiva, é importante não tratar economias financeiras ou reduções de serviços como resultado pretendido do processo. O resultado esperado deveria ser, antes, que elas permitam empregar os recursos de forma mais eficaz (e criativa) como parte de um plano de apoio conduzido pela rede. Bredewold e Tonkens (2021) destacam a importância de não depender demais da família e da rede social para executar todas as ações de um plano. Um sistema de apoio sustentável muitas vezes pode exigir uma combinação de apoio formal e informal, e as expectativas em torno dessa abordagem colaborativa precisam ser incorporadas desde o início.
As pessoas entrevistadas destacaram que facilitar conversas entre membros da rede podia mudar o tipo e a forma do cuidado oferecido, com membros da rede se dispondo a apoiar a pessoa central de formas mais aceitáveis e adequadas. Em vez de serem vistas como um mecanismo para retirar serviços, as conferências familiares podem dar à pessoa central e à sua rede a oportunidade de identificar lacunas na oferta atual de cuidado e discutir com as equipes profissionais convidadas o que poderia ajudar a preenchê-las. Um estudo constatou que as conferências familiares podiam abrir oportunidades para que a pessoa com demência se beneficiasse de serviços proativos, centrados na promoção da independência e da participação, e não na gestão reativa dos sintomas da demência (Górska et al., 2016). Até agora, no Reino Unido, há poucas evidências do uso de conferências familiares quando as pessoas podem ter a oportunidade de gerir diretamente o próprio apoio por meio de orçamentos pessoais ou pagamentos diretos, mas essa pode ser uma área de desenvolvimento futuro.
Os fatores contextuais pertinentes podem ser vistos como aqueles que apoiam a mudança e melhoram os resultados, ou, ao contrário, aqueles que podem tornar menos provável que determinados resultados positivos sejam alcançados. Resultados positivos (ou negativos) de uma conferência familiar podem ser influenciados por uma série de fatores ligados aos serviços e de fatores individuais, da rede ou da comunidade.
Pode-se considerar que resultados bem-sucedidos e duradouros de um processo de conferência familiar têm mais chances de ser alcançados se o serviço de conferência familiar estiver inserido em uma cultura de prática mais ampla, que atravesse os serviços e favoreça formas de trabalho baseadas em forças e coprodutivas. Inversamente, pode ser muito mais difícil para as pessoas manter o controle sobre seus arranjos de apoio se sua experiência dominante dos serviços continuar sendo a do “fazer para” ou do “fazer por”. Nos serviços para crianças, a implantação das conferências familiares foi particularmente bem-sucedida quando ocorreu junto com a adoção de um quadro de prática mais amplo, o da Prática Restaurativa (Mason et al., 2017). Meijer, Schout e Abma (2019) argumentam que a conferência familiar exige uma mudança de atitude das equipes dos sistemas de serviços mais amplos, para reconhecer as capacidades da pessoa central e de sua rede e seu papel de especialistas na própria vida. Nos serviços de saúde mental, isso refletiria a passagem de “tratar” a pessoa como paciente para trabalhar com ela como cidadã (Ramon, 2021). Para sustentar esse contexto, é preciso que as equipes profissionais estejam dispostas a entrar em conversas desafiadoras, porém respeitosas, em que contribuem para um processo de planejamento compartilhado conduzido pela pessoa e por sua rede.
Um fator-chave que pode possibilitar relações de confiança e abertura é que as pessoas coordenadoras sejam, e sejam vistas como, independentes de qualquer instituição ou de outras agendas externas (Górska et al., 2016). Em termos práticos, isso significa que elas não devem exercer também outras funções, como as de serviço social ou de cuidado, nem estar envolvidas em processos ligados à determinação da elegibilidade a serviços ou recursos, ou à avaliação dos níveis de risco.
Por sua vez, o grau em que a independência das pessoas coordenadoras pode (ou não) ser protegida pode depender, no nível do serviço, de a localização organizacional e a gestão do serviço de conferência familiar darem às equipes espaço e autonomia para atuar de acordo com os valores e princípios centrais da conferência familiar (ver Mahesh et al., 2025), uma possível preocupação já identificada em relação à conferência familiar nos serviços para crianças:
“A ambição de encaixar a conferência familiar nos procedimentos, nos prazos e nos pressupostos das burocracias a relegou a uma forma secundária de planejamento ou a um carimbo para as ideias profissionais. O efeito final é que os princípios e a filosofia da conferência familiar são diluídos para se adequar à prática ortodoxa dominante” (Merkel-Holguin, 2004, p. 160).
Embora as pessoas que entrevistamos em serviços para adultos ou de saúde mental não tenham relatado que a independência de seus serviços estivesse sendo comprometida dessa forma (e tenham apresentado um quadro bem oposto), esse continua sendo um fator ao qual talvez seja preciso estar atento se a conferência familiar se tornar mais integrada à prática das autoridades locais e do NHS no Reino Unido.
Além da independência, para que as pessoas coordenadoras despertem a confiança de pessoas potencialmente ansiosas e temerosas, é importante que, dentro de sua carga de trabalho, lhes seja permitido (e incentivado) dedicar todo o tempo necessário para se conectar plenamente tanto com a pessoa quanto com cada membro da rede durante a fase preparatória (O’Shaughnessy et al., 2010). Elas também precisam ser capazes de demonstrar segurança e competência, o que pode depender da adequação e da suficiência da formação e da supervisão que lhes são oferecidas (Parkinson et al., 2018), e que podem precisar incluir um foco específico na competência cultural (Barn & Das, 2016). No entanto, como discutido no artigo da parte 1 (Mahesh et al., 2025), pode haver controvérsia sobre o grau em que o papel deve ser “profissionalizado” e, portanto, sobre que tipo de formação deve ser considerado necessário e adequado (ver também Blundell et al., 2021; Schout & De Jong, 2017).
Em nosso artigo da parte 1 (Mahesh et al., 2025), discutimos como certos arranjos e aspectos práticos podem ser cruciais para estabelecer o espírito da conferência familiar como algo claramente distinto do mundo da assistência social e da saúde, intrinsecamente dominado pelo poder profissional e muitas vezes organizado de forma hierárquica. No contexto dos serviços para crianças, Bernheim et al. (2024) argumentam que a escolha do local de uma conferência familiar deve ser vista como componente central do processo, pois pode reforçar ou perturbar os desequilíbrios de poder entre pessoas centrais, equipes e redes. Em nossas entrevistas, soubemos que diversos equipamentos comunitários podiam ser usados como locais “neutros”, mas que, em alguns serviços, considerações de custo podiam limitar essa escolha a certos equipamentos públicos, como bibliotecas ou centros comunitários. Por razões logísticas e outras, soubemos que um número crescente de pessoas pedia que a Conferência ocorresse em sua casa, e as percepções das pessoas entrevistadas se dividiam quanto a isso ser sempre adequado para criar um espaço verdadeiramente neutro.
Igualmente importante, para muitas das pessoas que consultamos, era oferecer e compartilhar comida, geralmente no início da Conferência. Essa prática, que remonta às origens maoris da conferência familiar, era vista por muitas delas como crucial para estabelecer um tom acolhedor, informal e inclusivo (ao contrário da maioria das reuniões de decisão que envolvem profissionais). Ela permitia que as diferentes pessoas presentes se encontrassem e se conhecessem como pessoas (e não com base em sua posição), em igualdade e no registro do “fazer com”. No entanto, no contexto organizacional mais amplo em que os serviços de conferência familiar podiam estar situados, o valor prático e simbólico disso nem sempre era reconhecido, e o orçamento para comida e bebidas podia ser tratado como um luxo injustificável, sobretudo em tempos de austeridade.
Outro fator contextual importante é o grau em que as pessoas que poderiam participar compreendem com clareza, de antemão, o que o processo de conferência familiar envolve, como ele é organizado e o que esperar dele. Isso, por sua vez, pode depender do grau em que os serviços locais e as instâncias que podem encaminhar pessoas compreendem o modo de trabalho da conferência familiar, os tipos de resultado que podem ser alcançados e as diversas expectativas que ela impõe à pessoa central e à sua rede, bem como às equipes. Quando há boa compreensão, os encaminhamentos tendem a ser adequados e as pessoas estarão bem preparadas de antemão para se engajar no processo. No entanto, apesar de seus melhores esforços para informar as instâncias de encaminhamento, as pessoas entrevistadas mencionaram exemplos em que pessoas não se engajaram, ou Conferências não deram certo, por mal-entendidos ou informações equivocadas, por exemplo quando pessoas aceitaram a conferência familiar porque tinham sido levadas a crer que se trataria de algum tipo de terapia familiar, mediação ou aconselhamento.
Embora, para algumas pessoas que poderiam participar, a ideia de se abrir com amizades ou com a família sobre problemas e desafios possa parecer natural, para outras isso pode ser uma grande preocupação, sobretudo em certos grupos sociais e culturais em que essa abertura pode não parecer, de imediato, compatível com as normas estabelecidas, por questões de vergonha ou orgulho e de exposição da vulnerabilidade aos outros (Nygard & Saus, 2019). Por isso, pode ser considerado importante que as pessoas coordenadoras tenham espaço para lidar com essas preocupações e talvez “flexibilizar” um pouco o processo, a fim de negociar um encaixe melhor sem comprometer os valores e princípios centrais.
A motivação e a disposição da pessoa central e dos membros de sua rede em relação ao uso de uma conferência familiar podem influenciar a probabilidade de um resultado bem-sucedido do processo (Meijer et al., 2019; Metze et al., 2015a). Pode ser útil destrinchar como fatores situacionais e históricos podem afetar a motivação. Há casos em que a urgência da situação funciona como fator de motivação, e é possível que questões relacionais aumentem a motivação para “resolver as coisas”, em vez de necessariamente funcionarem como obstáculo ao engajamento no processo. Por outro lado, na amostra de casos examinada, De Jong e Schout (2013) encontraram um tema recorrente: os sentimentos de vergonha, e o medo de expor a um público mais amplo circunstâncias ou atos vergonhosos, podiam ser um importante fator inibidor, que minava a motivação e dificultava o caminho até uma Conferência.
Em alguns casos, a experiência anterior de “fazer para” ou “fazer por” nas interações com a assistência social e os serviços de saúde pode ter minado a confiança das pessoas em exercer sua agência e, assim, inibido sua motivação. No entanto, em situações em que a motivação talvez não fosse forte no momento do encaminhamento, as pessoas entrevistadas descreveram o que às vezes podia ser um longo processo, em que a esperança e a confiança se construíam gradualmente durante a fase de preparação. Em muitos casos, isso podia levar a pessoa central e/ou os membros da rede a perceber (às vezes de forma bastante súbita) sua capacidade real de assumir o controle do processo de decisão e, com isso, de mudar as coisas em sua vida.
Outro fator contextual pertinente pode ser o estado e o funcionamento das redes das pessoas antes do encaminhamento. Resultados positivos podem ser mais fáceis de alcançar quando já existe uma rede de pessoas apoiadoras que funciona bem. Relações interpessoais na rede que já oferecem reconhecimento podem facilitar a mudança no processo de conferência familiar (Johansen, 2014). A isso pode se ligar a capacidade já existente da pessoa central de expressar seus desejos dentro de sua rede de relações e, portanto, de chegar a decisões que reflitam esses desejos (Schout et al., 2017). No entanto, embora esses fatores possam oferecer um ponto de partida vantajoso, eles não devem ser vistos como pré-condições para resultados bem-sucedidos. Nas entrevistas, destacou-se que grande parte da habilidade da pessoa coordenadora pode estar no trabalho preparatório com a pessoa central e com os membros da rede, para chegar ao ponto em que o engajamento em um processo de elaboração conjunta de planos se torna possível. Bredewold e Tonkens (2021) advertem, contudo, que as conferências familiares podem não ser adequadas ou eficazes quando há problemas relacionais antigos e arraigados ou padrões de comportamento interpessoal abusivos, depreciativos ou culpabilizantes, ou quando há o risco de alguns membros da família dominarem em detrimento de outros com menos poder. Os trabalhos de De Jong e sua equipe (2013, 2015) destacam que a natureza frágil das redes de algumas pessoas participantes podia, às vezes, gerar problemas no processo de conferência familiar.
Embora exijam muito mais trabalho preparatório (possivelmente incluindo mediação), sugere-se que as conferências familiares podem cumprir uma função restaurativa, ao reunir pessoas que se afastaram ou cujas relações foram danificadas. Isso aparece na literatura sobre crianças e sobre violência doméstica (ver, por exemplo, Sen et al., 2018) e é retomado em uma análise detalhada de estudos de caso de adultos, em que de Jong e Schout concluem que “uma rede limitada ou danificada não é uma contraindicação, mas uma razão para organizar conferências familiares” (2013, p. 1452). As conferências familiares podem oferecer um contexto em que problemas relacionais possam ser expostos e resolvidos, ou em que redes possam ser reunidas de novo (ou criadas) quando uma pessoa ficou socialmente isolada. Embora seja mais desafiador, oferecer conferências familiares nesses contextos poderia trazer benefícios muito significativos à pessoa, ao (re)conectá-la a uma rede de pessoas funcional e apoiadora ao seu redor, o que melhora sua qualidade de vida e alivia sua possível dependência dos serviços de assistência social como única base de contato humano e de apoio.
Da mesma forma, a natureza das relações preexistentes com as equipes e os serviços pode influenciar a facilidade com que ambas as partes se engajam com êxito em um processo de planejamento compartilhado, e pode ser útil que já existam relações respeitosas e de confiança entre elas (Ramon, 2021). Como apontam Meijer e sua equipe (2019), o processo de conferência familiar é complexo e se apoia na contribuição de diferentes partes: a pessoa central, os membros da rede, as equipes profissionais e a pessoa coordenadora. Uma condição-chave para o êxito da conferência familiar é que todas essas partes contribuam e se comprometam com o sucesso do processo.
No contexto da saúde mental, Tew et al. (2017) constataram que os resultados positivos tendiam a estar associados à realização de reuniões familiares mais cedo, quando as redes das pessoas ainda estavam relativamente intactas (e as motivações potencialmente mais fortes), em vez de deixá-las como uma espécie de “complemento” perto do fim de um processo de tratamento, talvez como recurso quando outras intervenções não haviam dado muito certo. A pesquisa mostrou com que rapidez as redes relacionais das pessoas podem encolher após um episódio de sofrimento mental (MacDonald et al., 2005). Pode-se considerar que um padrão semelhante se aplica a muitas outras situações, e as pessoas entrevistadas destacaram de forma consistente que oferecer a conferência familiar como resposta precoce aumentava a probabilidade de êxito, dando à pessoa e à sua rede a oportunidade de receber, desde o início, ajuda e apoio oportunos e pertinentes para sua situação.
“Acho que o melhor é cedo, porque dá para entrar, dá para começar a entender o que está acontecendo em toda a rede, e aí eles podem decidir se isso é algo que querem melhorar” (entrevista 5, gestão de equipe de FGC)
Ao “entrar cedo”, quando as questões estão começando a surgir, em vez de deixar essa opção para mais adiante, quando o apoio da rede poderia ser mais difícil de mobilizar, talvez seja possível prevenir ou reduzir a dependência posterior dos serviços de assistência social.
Ao examinar a questão de “como funciona”, discutiremos o que foi identificado como alguns dos processos e mecanismos de mudança centrais. Para contextualizá-los, pode ser útil começar com um relato em primeira pessoa:
“Durante a conferência, compartilhei com os outros meus pensamentos e sentimentos mais íntimos. Eu nunca tinha feito isso antes. Contei tudo: o que eu pensava da nossa situação atual, que eu queria sair daquela bagunça e de que apoio eu e meu marido precisávamos. Senti [que] ninguém estava me controlando, então me senti totalmente à vontade. Minha mãe também revelou: ‘F. nunca nos diria que não está se sentindo bem e que as condições de vida dela são graves.’ E, de verdade, isso me chocou, porque desde que moro sozinha me tornei especialista em fingir que está tudo bem, quando na verdade as coisas pioravam. Eu não esperava que minha família e meus amigos fossem afetados, porque eu não mostrava meus verdadeiros sentimentos. Uma pessoa amiga me disse durante a conferência que eu não precisava ter medo de compartilhar meus sentimentos com os outros e que podia simplesmente ser franca com eles” (citado em De Jong & Schout, 2013, p. 1448).
Embora os mecanismos de mudança centrais possam variar de pessoa para pessoa e de conferência para conferência, esse relato dá uma ideia de alguns aspectos importantes do processo nesse caso: a inclusão e a reunião tanto da família quanto das amizades, o sentimento de ter controle e voz, e a importância de compartilhar sentimentos como parte da restauração de relações que tinham se tornado distantes ou disfuncionais.
Uma literatura substancial destaca a importância das relações-chave com a família ou com amizades nas histórias de muitas pessoas que se recuperaram de dificuldades de saúde mental (Topor et al., 2006), e o apoio de um círculo mais amplo de pessoas significativas pode ser crucial para lidar com outros desafios e situações de vulnerabilidade. Embora às vezes exija uma negociação persistente e delicada por parte da pessoa coordenadora, a literatura e as entrevistas concordavam que um resultado bem-sucedido teria mais chances de ser alcançado se a pessoa central estivesse disposta a convidar todas as pessoas que poderiam ajudar a desenvolver um plano. Potencialmente, isso poderia envolver mobilizar uma rede mais ampla, não limitada necessariamente aos familiares (de Jong et al., 2017). Um ponto-chave podia ser superar relutâncias ligadas à vergonha ou ao constrangimento de admitir as dificuldades a determinados familiares, amizades ou outras pessoas significativas (de Jong & Schout, 2013). Em alguns casos, “as conferências ajudaram a estabelecer contatos com novas pessoas, que depois puderam propor soluções criativas a serem incorporadas ao plano” (de Jong et al., 2016, p. 742). No entanto, também podia acontecer de pessoas relatarem ter se sentido pressionadas a incluir quem não conheciam suficientemente bem (Bredewold & Tonkens, 2021), o que podia inibir a abertura e o compartilhamento, muitas vezes cruciais para um bom resultado. Em algumas situações, as pessoas coordenadoras adotaram a visão oposta: era importante não perder o impulso gastando tempo adicional para incluir pessoas relutantes em entrar no processo, e avançar com uma rede menor, mas motivada, era visto como a chave para resultados positivos (de Jong & Schout, 2013).
Permitir que as diferentes pessoas presentes se conectassem no início de uma conferência era visto pelas pessoas entrevistadas como essencial para um processo bem-sucedido. Muitas delas destacaram o valor de poder fazer isso de modo informal, quebrando barreiras, geralmente reunindo-se em torno de uma refeição compartilhada:
A “percepção que a pessoa adulta tem dessa pessoa profissional pode mudar ao vê-la em um ambiente menos formal, com um pouco de comida” (entrevista 7, liderança de equipe de FGC)
Em alguns serviços, havia uma forte ênfase, no processo de preparação e de definição da pauta, em um foco voltado para fora e para a comunidade, vendo o plano como um trampolim para uma participação comunitária mais ampla, tanto da pessoa central quanto das pessoas que assumem papéis de cuidado e podem ter ficado socialmente isoladas (ver, por exemplo, Tew et al., 2017).
Havia um forte consenso, tanto na literatura quanto em nossas entrevistas, de que a etapa de preparação é crucial para o sucesso das conferências familiares, e de que ela envolve as pessoas coordenadoras oferecerem tempo, sensibilidade e criatividade para construir confiança e desenvolver e ajustar um processo que atenda às necessidades, preferências e expectativas culturais da pessoa central e de sua rede.
“A gente tem uma conversa com a pessoa encaminhada e com a pessoa coordenadora de FGC, e essa é uma chance de ter uma conversa realmente aberta sobre os motivos do encaminhamento, sobre qualquer coisa a esclarecer sobre como a FGC funciona, e sobre a situação atual.” (entrevista 8, liderança de equipe de FGC)
Embora algumas conferências familiares possam ser processos de planejamento e decisão relativamente pouco controversos, a resolução de questões mais desafiadoras pode exigir “conversas corajosas” que de outro modo não aconteceriam, seja dentro da rede da pessoa, seja entre membros da rede e integrantes do sistema profissional ou de serviços mais amplo. Nelas, as pessoas presentes podem precisar ser abertas e honestas sobre seus sentimentos e sobre como cada uma vê a situação, compartilhando possivelmente o que talvez nunca tenha sido dito antes (Meijer et al., 2019). Isso pode incluir compartilhar assuntos muito sensíveis, como o impacto de experiências de abuso sexual na infância (Tew et al., 2017).
Como disse uma pessoa central, para que essas conversas aconteçam e sejam levadas adiante, pode ser preciso haver um “andaime” que ofereça estrutura e segurança suficientes (Tew et al., 2017). Para isso, as pessoas coordenadoras precisariam de tempo para conhecer e conquistar a confiança de cada participante:
“As pessoas coordenadoras simplesmente passam tempo com a pessoa, constroem esse vínculo, descobrem exatamente qual é a situação dela, quais são seus objetivos e quem ela quer envolver, e depois passam esse tempo com essas outras pessoas individualmente para saber a perspectiva delas e o que elas podem oferecer e o que não podem” (entrevista 1, liderança de equipe de FGC)
Uma vez construída essa confiança, as pessoas coordenadoras podem facilitar um espaço “corajoso”, em que haja desafio e apoio suficientes para uma troca honesta sobre questões difíceis (Bredewold & Tonkens, 2021; Schout et al., 2017), o que pode envolver negociar regras básicas adequadas para permitir um compartilhamento seguro e respeitoso de visões e opiniões entre membros da rede, e estabelecer uma pauta orientada para o futuro e para soluções (Manthorpe & Rapaport, 2020). Tanto a preparação com cada participante quanto o processo formalizado e em etapas da conferência familiar podem fornecer elementos importantes de andaime, ajudando a gerar e manter um estilo respeitoso de escuta e de resposta e, assim, a abrir formas mais eficazes de interagir e de se comunicar. Segundo o estudo de Johansen:
“Um resultado importante foi o estilo de comunicação solidário e respeitoso que caracterizou a deliberação privada… Outro resultado marcante das observações foi a conscienciosidade com que os membros da rede assumiram seus papéis de presidência da sessão e de registro, e o rigor com que a pauta das pessoas atendidas foi seguida. Esse comportamento contribuiu para a experiência das pessoas entrevistadas de serem recebidas com respeito na conferência familiar. A presença e a disponibilidade da pessoa coordenadora na conferência e os papéis dos membros da rede na presidência e no registro foram considerados por muitas pessoas como a pré-condição para que essa comunicação respeitosa e solidária ocorresse” (2014, p. 153).
Em alguns casos, uma única conferência pode não oferecer “andaime” suficiente para que uma rede consiga lidar com questões pessoais e relacionais mais arraigadas, talvez ligadas a danos ou traumas passados (Tew et al., 2017; Tew, 2019). Nesses casos, uma possibilidade pode ser o encaminhamento a um serviço de terapia familiar. No entanto, também pode ser importante considerar se adaptar o modelo para oferecer mais de uma reunião ao longo de um período definido poderia fornecer andaime suficiente para que um processo restaurativo bem-sucedido aconteça.
Enquanto em algumas conferências familiares da proteção à infância (mas de modo algum em todas) as equipes profissionais podem comparecer à primeira parte da Conferência para apresentar um conjunto de preocupações e de pontos “inegociáveis”, nas conferências familiares com adultos há a aspiração de que a primeira parte da Conferência funcione como uma “plataforma de aprendizagem compartilhada” (de Jong & Schout, 2013), em que a rede e as equipes profissionais presentes possam ir além dos pontos de vista e das ideias preconcebidas iniciais e descobrir juntas formas novas e melhores de entender o que pode estar acontecendo (e por quê). Compartilhar histórias e diferentes perspectivas sobre uma situação problemática pode levar a mais compreensão e gerar ideias para lidar com a situação, criando uma nova “realidade coconstruída”, em que pessoas centrais, membros da rede e equipes podem avaliar informações e explorar opções em conjunto (Meijer et al., 2019). Essa experiência pode não só levar a uma melhor compreensão da situação da pessoa central, mas também facilitar uma apropriação compartilhada das questões problemáticas e incentivar a formação de uma parceria entre diferentes membros da rede e entre os membros da rede e os serviços (Johansen, 2014; Ramon, 2021). É preciso reconhecer, porém, que nem todas as equipes se sentem prontas para “ceder poder” e podem precisar de apoio e formação adicionais para entrar em conversas mais igualitárias e colaborativas (de Jong et al., 2018).
As pessoas entrevistadas falaram do papel das pessoas coordenadoras em incentivar as equipes profissionais a abandonar certas maneiras de conduzir o trabalho, convidando-as a entrar em um diálogo em vez de chegar com “uma lista de coisas que precisam checar e [usando] linguagem profissional para se comunicar” (entrevista 7, liderança de equipe de FGC). Em sua pesquisa, Górska et al. constataram que a primeira parte da Conferência, “que envolve o contato inicial com representantes dos serviços em sua fase de compartilhamento de informações, era percebida como uma oportunidade para as famílias e as equipes profissionais se reunirem, se ouvirem e se conhecerem em pé de igualdade” (2016, p. 238). Outro fator considerado importante pelas pessoas entrevistadas para facilitar que as pessoas presentes estivessem “no mesmo nível” era providenciar que as informações pertinentes fossem compartilhadas com todas elas de antemão, para que cada pessoa pudesse se sentir bem preparada e novas informações ou preocupações não pudessem ser “despejadas” no próprio dia.
Em sua análise dos mecanismos de mudança nas conferências familiares para crianças e famílias, Mitchell (2021) identifica como mecanismo-chave, capaz de levar a resultados positivos, os processos pelos quais os membros da rede se sentem respeitados e compreendidos, tanto pelas demais pessoas da rede quanto pelas equipes. Esse processo de reconhecimento precisa começar na construção de uma relação entre a pessoa coordenadora e a pessoa central, um processo de “se conhecer” em um nível mais pessoal:
“Então, muitas das perguntas podem ser sobre o que vem à mente quando você pensa na sua infância, algumas coisas podem ser negativas, outras positivas. Quais são seus pontos fortes? Quais são seus pontos fracos? Quais são seus hobbies? Quais são seus bens mais importantes?” (entrevista 3, coordenação de FGC)
Esse reconhecimento e esse “apoio de apreciação” podem ser vistos como pré-condição de um processo dialógico eficaz, ao mesmo tempo mecanismo de mudança e resultado valorizado. Sua importância foi destacada nas entrevistas com partes interessadas e nos resultados do levantamento nacional, e também aparece na literatura mais ampla:
“Ser recebido com respeito e atenção pela família e pelas amizades foi destacado por muitas pessoas como uma experiência relacional fundamental ligada à conferência familiar… A importância de ser recebido com respeito estava estreitamente relacionada à revelação, pelas pessoas entrevistadas, de informações pessoais na conferência. Que a família e as amizades demonstrassem respeito e interesse por seus problemas e pelo que elas revelavam de si mesmas era percebido como particularmente importante pelas pessoas entrevistadas” (Johansen, 2014, p. 152; ver também Malmberg-Heimonen & Johansen, 2014; Ramon, 2021).
Além de proporcionar essa experiência de afirmação, o reconhecimento pode ser visto como algo que empodera as pessoas dentro do processo de conferência familiar. Ele “abre predisposições em relação às possibilidades futuras e é importante na forma como as pessoas vislumbram seu futuro… Isso poderia, por fim, contribuir para um sentimento crescente de esperança, à medida que as pessoas experimentam mais poder para influenciar suas possibilidades futuras” (Meijer et al., 2019, p. 148). O reconhecimento pode não ser importante apenas para a pessoa central, mas pode ser visto como um processo mútuo e recíproco em que a rede se fortalece à medida que cada pessoa, ao mesmo tempo, recebe reconhecimento e o oferece às demais.
No centro do funcionamento das conferências familiares está a transferência do poder e do senso de apropriação do processo dos sistemas profissionais para a pessoa central e sua rede, permitindo que experimentem controle e agência (Johansen, 2014). Esse deslocamento de poder pode ser inicialmente ensaiado por meio (e, em certa medida, simbolizado pelo fato) de oferecer às pessoas participantes o controle sobre aspectos práticos, como a possibilidade de decidir sobre a comida, o local e quem deve ser convidado (Mutter et al., 2002). Para que isso aconteça, também pode ser necessária uma mudança de atitude das equipes envolvidas na conferência familiar. Schout e sua equipe (2018) descrevem a postura exigida na conferência familiar como um “cuidado sem ego”, em que as equipes podem contribuir com sugestões aos planos elaborados pela pessoa e pela rede social, mas resistem a assumir a agenda de mudança. Metze et al. propõem que isso pode ser entendido teoricamente da seguinte forma:
“Tew (2006) faz uma divisão entre poder protetor e poder cooperativo. Ambos são vistos como formas positivas de poder, pois são usados para ajudar, e não para oprimir as pessoas. No entanto, o poder protetor, exercido sobretudo por profissionais da área social, pode ser visto como mais paternalista e diretivo, enquanto o poder cooperativo dá mais espaço aos desejos e aos planos das pessoas atendidas” (2013, p. 169).
Além de criar oportunidades de poder cooperativo entre as equipes profissionais e a pessoa central e sua rede, também pode ser necessário lidar com possíveis desequilíbrios de poder dentro das dinâmicas familiares (De Jong & Schout, 2013), talvez com determinados membros da rede tendendo a exercer um poder protetor (ou às vezes opressivo) sobre a pessoa central. Pode ser importante, portanto, ao estabelecer as regras básicas e estruturar o processo da Conferência, incluir oportunidades de compartilhamento e de escuta e, com isso, de surgimento de relações de poder mais cooperativas.
Havia amplo acordo nas entrevistas de que fundamental, em todos os serviços de conferência familiar, era dar à pessoa central apropriação e controle sobre o processo de conferência familiar, junto com os membros de sua rede:
“Eles se sentem bem empoderados… Eles dizem: ‘Ah, a gente vai, a gente vai fazer essas reuniões todo mês’, motivados a ajudar a pessoa… Eles se sentem muito empoderados por ter esse tipo de conversa entre si e por assumir o controle do processo” (entrevista 4, coordenação de FGC)
As pessoas coordenadoras eram vistas como tendo um papel-chave para contrariar o pressuposto de que o mundo profissional continuaria no controle e de que a pessoa coordenadora teria o poder de decisão final. Esse pode ser um processo gradual, em que a confiança e a agência se estabelecem pelo foco em “pequenas coisas” que podem fazer uma diferença real para firmar a apropriação, pelas pessoas, do próprio processo:
“A gente começa o trabalho individual com a pessoa, e são as pequenas coisas que são as grandes coisas. Então, durante a … preparação … olhar de verdade o que a pessoa quer, porque muitas vezes as pessoas se subestimam demais, e subestimam as pequenas coisas que significariam muito para elas” (entrevista 8, liderança de equipe de FGC)
Foram dados exemplos das diversas decisões que a pessoa central era convidada a tomar durante a fase de preparação, incluindo decisões sobre convidar possíveis membros da rede e as equipes profissionais pertinentes, sobre qual poderia ser um espaço confortável e neutro para realizar a Conferência, sobre que tipo de comida (ou outra atividade) seria melhor para dar o tom da reunião, sobre o que deveria compor a pauta do dia e, inclusive, sobre se deveria ou não haver uma Conferência:
“Então, desde o começo… eu também lembro a eles ao longo do processo que eles têm controle total sobre continuar ou não” (entrevista 4, coordenação de FGC)
Essa experiência de agência pode ajudar a construir a confiança das pessoas de que também podem ter controle sobre o que deve entrar em seu plano. Argumenta-se que o senso de controle das pessoas durante o processo de conferência familiar é importante para alcançar o resultado de longo prazo do empoderamento relacional (Metze et al., 2015c).
Quando a pessoa central tinha pouca experiência de exercer agência em relação à sua situação, uma pessoa informante de um serviço de conferência familiar em saúde mental descreveu um processo estruturado em que a pessoa central era ajudada a mapear o que poderia desejar para o futuro, usando um documento-padrão chamado plano de recuperação personalizado. Ele trazia perguntas baseadas em forças, que ajudavam a explorar suas aspirações e capacidades, junto com os desafios que ela pudesse estar enfrentando. Esse plano pertence à pessoa central e é confidencial, mas partes dele podem então ser compartilhadas para definir a pauta da conferência familiar, colocando assim a pessoa central “no banco do motorista”.
Em situações em que as relações dentro da rede se tornaram distantes ou conflituosas, uma ênfase específica em promover processos restaurativos pode ser importante. Para pessoas centrais com redes limitadas ou que perderam contato com seus familiares, os resultados de pesquisa mostram que a conferência familiar pode oferecer uma oportunidade de mobilizar, reconectar, reparar e revitalizar redes que podem ter ficado cansadas ou paralisadas (de Jong & Schout, 2011; de Jong & Schout, 2013). Dessa forma, a conferência familiar pode ser descrita como uma experiência “construtiva”, “reintegradora” e “restaurativa”, em que a família e as redes se reúnem e resolvem problemas (Fisher et al., 2018).
Central para isso pode ser abordar questões de vergonha, mágoa ou dano que podem estar impedindo as pessoas de pedir ajuda ou os membros da rede de oferecer um apoio eficaz ou articulado. De Jong e Schout (2013) destacam a necessidade de criar um espaço seguro e estruturado em que as pessoas presentes possam compartilhar seus sentimentos íntimos como parte das “conversas corajosas” que podem ser necessárias. Para que isso seja possível, as pessoas coordenadoras podem ter um papel crucial na fase de preparação ao oferecer aceitação, começando assim a desfazer barreiras pessoais de vergonha que podem fazer as pessoas se sentirem indignas do apoio dos outros e incapazes de imaginar com esperança um futuro em que estejam mais próximas de quem importa para elas. Também crucial, como parte da preparação, pode ser o estabelecimento de uma cultura restaurativa “sem culpados” (Fisher et al., 2018), em que sentimentos relacionados a danos ou traumas passados possam ser reconhecidos em um processo que depois se volta para como as pessoas querem estar umas com as outras no futuro.
Por outro lado, também pode haver situações em que as pessoas se sintam constrangidas ao pedir ajuda, ou relutem em se abrir demais por medo de perder o controle. A partir de sua pesquisa, Metze et al. concluíram que, para que uma abordagem de conferência familiar fosse atraente para muitas pessoas idosas, era preciso respeitar o princípio de que “não se mostra a fraqueza a todo mundo”. Assim, em vez de oferecer um espaço para o compartilhamento de sentimentos íntimos, um processo eficaz de conferência familiar pode ter de ser mais pragmático e centrado na tarefa, com ênfase na “reciprocidade, no apoio entre pares e em soluções, em vez de problemas” (2015a, p. 1).
De modo geral, os mesmos mecanismos vistos como promotores de resultados bem-sucedidos são também mecanismos que podem influenciar a sustentabilidade dos resultados positivos alcançados. O envolvimento das redes sociais das pessoas é visto como intrinsecamente propenso a promover planos e arranjos mais sustentáveis:
“Quando um profissional e uma pessoa atendida têm um contato individual para criar um plano, a pessoa muitas vezes terá de executá-lo … sem apoio social. Em contraste, quando um plano é feito em colaboração com a rede social da pessoa, o apoio da rede social é organizado desde o início” (Metze et al., 2015c, p. 169).
Grande parte da literatura parte do pressuposto de que, enquanto planos conduzidos por profissionais podem levar ao desengajamento por falta de apropriação do plano, a família e as redes sociais podem manifestar um compromisso de apoio a uma pessoa mais duradouro do que os serviços públicos podem oferecer (Johansen, 2014). Para a pessoa central, a confiança e o controle que vêm de ser quem conduz o plano podem levar a uma sustentabilidade de longo prazo (Tew et al., 2017), já que não apenas suas necessidades são reconhecidas, mas ela tem influência direta sobre o que é planejado para apoiá-la.
Sugere-se que as conferências familiares podem promover uma mudança contínua e autossustentada no sistema relacional, com as redes sociais se fortalecendo em torno da pessoa central e reduzindo, assim, sua vulnerabilidade (de Jong et al., 2014). As pessoas entrevistadas destacaram que um deslocamento de poder dos sistemas profissionais para a rede pode não apenas ser um mecanismo-chave para empoderar a pessoa e sua rede, mas também se manter, muitas vezes durando além do processo de conferência familiar, embora tenha sido em grande parte iniciado por ele.
“Acho que sim, mas com certeza o potencial está lá naquele momento, com certeza dá poder à família, à pessoa e à família ali, para meio que permitir que façam o que conseguem fazer” (entrevista 3, serviço social)
Um aumento do tamanho e da conectividade da rede pode levar a um arranjo mais sustentável, com a responsabilidade (e a possível sobrecarga) do cuidado sendo dividida por vários ombros (Meijer et al., 2019). Sobretudo, argumenta-se que a sustentabilidade de longo prazo do sistema de cuidado pode depender da maximização das oportunidades de poder cooperativo, de “fazer com” e de reciprocidade nas relações entre a pessoa central e os membros da rede, e também entre os diferentes membros da rede (Metze et al., 2015c). Em uma base contínua, essas relações podem ser vistas como promotoras de reconhecimento mútuo e de agência relacional. Também podem estar atentas aos sinais de que uma situação de crise pode estar surgindo (Meijer et al., 2019), e a confiança e a comunicação contínuas entre a pessoa central, a rede e o sistema profissional podem favorecer uma resposta precoce e coordenada, capaz de evitar uma internação ou outras respostas mais intensivas (Johansen, 2014; Manthorpe & Rapaport, 2020).
A partir de uma revisão da literatura de pesquisa existente, Ramon (2021) observa que o entusiasmo com as mudanças positivas iniciais decorrentes do processo nem sempre se refletia em resultados sustentados nos seguimentos posteriores. Metze e sua equipe (2015c) apontam uma dificuldade da conferência familiar (com pessoas idosas) quando a família e a rede social “não cumprem suas promessas”, o que gera uma expectativa negativa por parte do serviço social quanto à confiabilidade da rede social para cumprir suas obrigações relativas às ações acordadas no plano. Da mesma forma, pode ser o sistema profissional que não oferece contato e apoio suficientes durante a fase de implementação. Ramon argumenta que o apoio durante o processo de implementação e de revisão nem sempre recebe dos serviços prestadores o investimento que exige, e talvez especialmente a necessidade de trabalhar de modo a manter a inclusão da família e da rede no planejamento contínuo do apoio. Embora tanto a pessoa coordenadora quanto o sistema profissional mais amplo possam ter um papel a desempenhar no apoio à implementação e à sustentabilidade do plano, as entrevistas revelaram uma possível falta de consistência sobre a melhor forma de fazer isso na prática, deixando aberta a possibilidade de que a responsabilidade por isso caia entre a pessoa coordenadora e as equipes profissionais, deixando o sucesso ou o fracasso de longo prazo muito nas mãos da pessoa central e de sua rede.
Depois de sintetizar os resultados preliminares de nossa revisão da literatura, do levantamento nacional e das entrevistas (conforme resumido acima), também identificamos áreas específicas, relativas a contextos, mecanismos e resultados, em que nossa compreensão da conferência familiar era limitada e/ou em que permaneciam questões-chave sem resposta ou pontos de divergência. Para compreender melhor, convocamos um fórum deliberativo, tanto para verificar o que achávamos já entender quanto para explorar mais essas áreas específicas. Como base para a deliberação, divulgamos antecipadamente um resumo de nossos resultados preliminares, junto com algumas perguntas específicas apresentadas na Tabela 2 abaixo. As respostas surgidas das discussões apoiaram amplamente nossa síntese dos contextos, mecanismos e resultados-chave, e as respostas específicas às perguntas que fizemos estão detalhadas na Tabela 2.
Tabela 2 — Síntese das contribuições do fórum deliberativo
Talvez o resultado mais marcante do fórum tenha sido a complexidade potencial da tarefa realizada pelas pessoas coordenadoras durante a fase de preparação, e daí a necessidade de dedicarem tempo suficiente à pessoa central e a cada membro da rede para construir confiança e desenvolver uma compreensão mais completa das questões e das dinâmicas específicas a serem levadas em conta no planejamento de uma Conferência segura e bem-sucedida. No centro disso estavam as habilidades e capacidades da pessoa coordenadora para reunir todo mundo e estabelecer um tom positivo e construtivo para a Conferência (incluindo a negociação de regras básicas, quando pertinente). Isso podia envolver não apenas habilidades de escuta ativa, mas também pensamento criativo em situações difíceis e a segurança para ser flexível e “seguir o fluxo”, como parte de uma abordagem fundamentalmente centrada na pessoa, em vez de se ater rigidamente demais a um formato ou fórmula predeterminados.
Considerou-se essencial que as pessoas coordenadoras se sentissem à vontade para permanecer com o conflito, validando o direito das pessoas de ver as coisas de modo diferente e de ter as próprias opiniões, em vez de buscar prematuramente um acordo. Lidar com isso de forma eficaz podia exigir atenção aos desequilíbrios de poder e a qualquer possível necessidade de defesa de direitos. Às vezes, também podia envolver administrar o campo profissional, para que a pessoa central e sua rede tivessem espaço para dar sentido à sua situação e elaborar o próprio plano, em vez de sofrer pressão de outras pessoas para ver as coisas de determinada maneira.
Um elemento crucial podia ser negociar com as equipes profissionais (e talvez também com alguns membros da rede mais vocais) um passo atrás e uma tolerância à incerteza à medida que o processo se desenrola, em vez de uma pressa em chegar a formulações particulares do “problema” ou de impor “soluções” particulares a ele. Para que isso fosse possível, era preciso um reconhecimento mais amplo, dentro dos serviços, de que permanecer na incerteza é pré-requisito essencial de qualquer processo genuinamente coprodutivo e, portanto, de que os processos de avaliação conduzidos pelas equipes profissionais podem precisar ser suspensos. Isso podia, contudo, ser mais difícil quando havia preocupações de proteção, em que procedimentos e expectativas legais podiam ter precedência e reuniões entre equipes profissionais podiam precisar ocorrer antes de uma conferência familiar. Nesses casos, seria preciso clareza sobre o que é “inegociável” e sobre qual poderia ser a margem para a pessoa central e a rede tomarem as próprias decisões.
Os resultados esperados relatados no fórum foram semelhantes aos compartilhados por quem respondeu ao levantamento e pelas pessoas entrevistadas. O bem-estar foi visto como algo que possibilita uma vida rica e plena para a pessoa, incluindo as pessoas e as coisas que importam para ela. Ligada a isso estava a possibilidade de que o reconhecimento recebido durante o processo de conferência familiar afirmasse e validasse as identidades pessoais e sociais e, assim, fortalecesse o senso de si. O processo de reunir as pessoas, mesmo que elas optassem por não seguir até uma Conferência completa, foi visto, em si mesmo, como um resultado importante para a pessoa central.
Talvez a área mais inconsistente da prática atual tenha sido o processo de acompanhamento e de revisão, e foram feitas sugestões concretas de como torná-lo mais robusto (por exemplo, tendo uma cópia on-line do plano que pudesse ser atualizada quando necessário). Embora isso tenha sido visto de forma positiva, na medida em que o acompanhamento podia ser ajustado às necessidades de cada pessoa e de sua rede e as revisões podiam servir a propósitos diferentes, também se reconheceu que um processo de acompanhamento mais rigoroso poderia ser benéfico, sobretudo para garantir vínculos contínuos com os serviços quando estes enfrentam pressões financeiras e cortes.
A teoria do programa oferece um mapeamento conceitual de como um determinado modelo de prática pode ser visto funcionando, das circunstâncias em que tende a ser mais eficaz e dos tipos de resultado que podem ser alcançados. Ela propõe um conjunto de vínculos e interconexões causais (configurações contexto-mecanismo-resultado) que precisam estar presentes para que resultados bem-sucedidos sejam alcançados. A partir da síntese anterior dos resultados de nossas diversas fontes de evidência, podemos identificar componentes-chave de uma teoria preliminar do programa da conferência familiar para adultos e levantar hipóteses sobre os possíveis vínculos entre fatores contextuais, mecanismos de mudança e a probabilidade de alcançar o que foi identificado como resultados potenciais importantes do processo de conferência familiar como um todo.
Em alguns casos, pode ser útil desagregar uma teoria de programa global em um conjunto de enunciados de teoria de programa distintos, isto é, conexões hipotéticas entre um subconjunto de contextos e mecanismos que podem ser específicos para alcançar um determinado resultado. No entanto, para cada um dos resultados identificados na discussão anterior, o conjunto completo de fatores contextuais e de mecanismos parece pertinente: a conferência familiar e de grupo pareceria, portanto, funcionar como um todo integrado, em que todas as peças do “quebra-cabeça” estão interligadas e se reforçam mutuamente. Um esboço da teoria global do programa da conferência familiar para adultos e em saúde mental é apresentado na Figura 2.

Nossos resultados mostraram que a conferência familiar e de grupo tem o potencial de ser uma prática radical e democrática, capaz de oferecer uma alternativa real aos processos mais convencionais de planejamento e de tomada de decisão conduzidos por profissionais no contexto da assistência social para adultos e da saúde mental. O que talvez seja mais animador é que ela não só pode funcionar como um processo de planejamento inclusivo, eficaz e centrado na pessoa, mas também tem o potencial de produzir mudanças sistêmicas nos mundos relacionais das pessoas e em sua experiência de empoderamento, bem-estar e segurança. Essas mudanças podem beneficiar não só a pessoa central, mas também quem assume papéis de cuidado, sobretudo se grande parte da responsabilidade tendia a recair sobre uma única pessoa cuidadora. Essas mudanças podem ser definidas teoricamente com os conceitos de capacidade (Sen, 1993), capital social e relacional (Tew, 2013), reconhecimento (Mitchell, 2021) e agência relacional (Burkitt, 2016).
A partir de nossa síntese das evidências disponíveis, destacamos vários fatores contextuais inter-relacionados que, combinados, podem ser vistos como pré-condições necessárias para que a conferência familiar funcione de forma eficaz, e que precisam ser levados em conta à medida que novos serviços de conferência familiar são criados e os existentes evoluem. Em muitas circunstâncias, a conferência familiar pode ser percebida como um tanto contracultural, pois questiona culturas de serviço baseadas em práticas de “fazer para” ou “fazer por”, em que sempre se pressupõe que o saber profissional prevalece. Ela também pode parecer um tanto contracultural para o público, que pode ficar um pouco inseguro em assumir o controle do processo e/ou diante da ideia de compartilhar (parte de) suas vulnerabilidades com uma rede mais ampla de familiares e amizades. Mas é justamente ao preservar e sustentar esse “fio” contracultural que a conferência familiar pode oferecer um caminho para tornar possíveis conversas que resolvam questões e produzam resultados que, de outro modo, não seriam alcançáveis em serviços mais convencionais, de base individual.
Nossa teoria do programa oferece uma compreensão emergente dos processos e mecanismos-chave que estão no centro do funcionamento da conferência familiar. Subjacentes a todos eles estão os temas de (re)conectar e reunir, assumir a apropriação, o reconhecimento (mútuo) e a reestruturação das relações de poder, de modo a abrir possibilidades de relações de poder cooperativo e de “fazer com”. Esses mecanismos são viabilizados pela atenção à preparação, à estrutura e aos aspectos práticos (como a escolha do local e o compartilhamento da comida), que juntos podem oferecer o contexto para que as pessoas se engajem umas com as outras em bases iguais e abertas, e estabelecer um “andaime” capaz de sustentar conversas respeitosas, com propósito e (se necessário) corajosas. Algumas conferências familiares (mas não todas) podem envolver processos restaurativos, que podem ser iniciados durante a fase de preparação e depois ganhar efeito na escuta e no compartilhamento que podem ocorrer na própria Conferência. Pode-se considerar que todos esses mecanismos podem ser potencialmente importantes para alcançar qualquer um dos resultados identificados, seja o resultado prático de elaborar um plano que de fato se apoie nas preferências, aspirações e capacidades da pessoa central e de sua rede, seja também alcançar resultados de empoderamento e relacionais, como maior reconhecimento, capital relacional e agência relacional.
Uma melhor compreensão da teoria do programa que fundamenta a prática da conferência familiar com adultos tem implicações valiosas para a formação e a supervisão das pessoas coordenadoras, para a contratação de serviços de conferência familiar existentes e novos, para informar outras equipes e as instâncias de encaminhamento sobre o que a conferência familiar pode (e não pode) oferecer e para subsidiar debates políticos mais amplos sobre a implementação de práticas baseadas em forças. Embora centrada no modelo de prática desenvolvido na Grã-Bretanha, essa teoria do programa também pode ser vista como tendo valor internacional para outras atividades de conferência familiar na assistência social para adultos e na saúde mental.
Complexe Systémique: a reter
Para a clínica sistêmica, a conferência familiar é uma intervenção de rede de pleno direito: convoca-se o sistema em torno da pessoa, devolve-se a ele a decisão, e a parte mais decisiva do dispositivo, o “tempo privado”, acontece sem nenhum profissional na sala. A teoria do programa aqui proposta tem o mérito de nomear o que atua para além do plano: ampliar o círculo, reconhecer a pessoa pelo que ela é, deslocar o poder, reparar vínculos danificados e preparar longamente cada membro da rede. Ela cruza noções conhecidas, das reuniões de rede do Diálogo Aberto ao “fazer com” da recuperação, e lembra que uma conferência não é uma terapia familiar: quando as feridas são antigas, o encaminhamento para terapia continua sendo uma opção. A prudência, porém, se impõe: a teoria é preliminar, a literatura é sobretudo holandesa, a voz das pessoas centrais continua rara, e as economias esperadas pelos serviços podem transferir o peso para as famílias. Para ler junto com o artigo de Mary Mitchell sobre o que a conferência de grupo familiar ensina à proteção à infância e com o artigo sobre as práticas de coordenação das conferências de grupo familiar.
Notas do original
Ética e consentimento. A autorização ética para o estudo foi obtida junto ao Comitê de Revisão Ética de Humanidades e Ciências Sociais da Universidade de Birmingham (ERN_22-0818) em 9 de dezembro de 2022. As pessoas entrevistadas entre as partes interessadas receberam antecipadamente uma ficha de informação sobre a participação, e o consentimento por escrito foi obtido antes da entrevista.
Conflitos de interesse. Nenhum conflito de interesse foi declarado.
Financiamento. National Institute for Health and Care Research (NIHR), financiamento NIHR135127. Os financiadores não tiveram nenhum papel no delineamento do estudo, na coleta e análise dos dados, na decisão de publicar ou na preparação do manuscrito.
Disponibilidade dos dados. Os dados qualitativos do levantamento e das entrevistas não podem ser desidentificados de forma aceitável, devido (1) às informações pessoais coletadas no levantamento e (2) ao número muito pequeno de serviços que oferecem conferência familiar para adultos no Reino Unido, o que traria risco de identificação dos serviços ou das pessoas participantes. No entanto, quem desejar acesso aos dados restritos pode entrar em contato com a pessoa responsável pela correspondência, Jerry Tew, que fornecerá dados expurgados de qualquer elemento claramente identificador; será solicitada a assinatura de uma cláusula de confidencialidade. Dados complementares: Zenodo, Family and Group Conferencing (FGC) in adult social care and mental health, doi: 10.5281/zenodo.14676833 (Mahesh, 2025), incluindo as perguntas do fórum deliberativo, o roteiro temático do levantamento e os roteiros de entrevista (pessoas e famílias; gestão de serviços e pessoas coordenadoras), sob licença Creative Commons Attribution 4.0 International.
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Tradução não oficial em português de O que é a conferência familiar e de grupo para adultos? Parte 2: desenvolvendo a teoria do programa, de Jerry Tew, Sharanya Mahesh, Mary Mitchell, Kar-Man Au, Vicky Nicholls, TK Vincent e Miranda Johnson, NIHR Open Research, vol. 5, article 34 (2025), doi: 10.3310/nihropenres.13830.2, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas, legendas das figuras traduzidas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “What is family and group conferencing for adults? part 2: Developing programme theory”, publicado em NIHR Open Research (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Tew, J., Mahesh, S., Mitchell, M., Au, K.-M., Nicholls, V., Vincent, T., et Johnson, M. (2025). O que é a conferência familiar e de grupo para adultos? Parte 2: desenvolvendo a teoria do programa (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/o-que-e-a-conferencia-familiar-e-de-grupo-para-adultos-parte-2 (Obra original publicada em 2025 em NIHR Open Research, 5, 34 (2025), version 2; republicada em 2025 por NIHR Open Research, https://openresearch.nihr.ac.uk/articles/5-34/v2)
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