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Journal of Family Violence · Violência

Para além da “proteção” e do “empoderamento” em Hong Kong: rumo a um modelo relacional de apoio às mulheres que deixaram parceiros abusivos

Em Hong Kong, o apoio às mulheres em situação de violência por parceiro íntimo costuma terminar quando elas deixam o parceiro. Durante seis meses, Sui-Ting Kong conduziu com sete mulheres chinesas uma pesquisa-ação participativa sobre a vida após a separação. Recusando-se a ficar presas tanto ao papel de vítima quanto ao de sobrevivente, elas criaram as próprias palavras, entre elas “chungsangje em devir”, e defendem um apoio pensado como relacional.

Autores Sui-Ting Kong (Departamento de Sociologia, Universidade de Durham, Reino Unido)Primeira publicação Journal of Family Violence, 4 de agosto de 2020Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Para além da “proteção” e do “empoderamento” em Hong Kong: rumo a um modelo relacional de apoio às mulheres que deixaram parceiros abusivos, de Sui-Ting Kong, publicado na Journal of Family Violence (Springer) (2021), doi: 10.1007/s10896-020-00185-x, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela é apresentada em forma de lista; os termos chineses citados no original foram mantidos. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

O trabalho identitário, portanto, não é o projeto de um indivíduo em busca de um self verdadeiro ou autêntico, mas um “projeto relacional” de reconstrução das relações.

Sui-Ting Kong

Resumo

Este projeto explora as necessidades, após a separação, de mulheres chinesas de Hong Kong que deixaram seus parceiros abusivos, e como elas poderiam ser atendidas. O projeto busca oferecer subsídios para melhorar o serviço local de enfrentamento da violência doméstica, cujo foco principal é a intervenção em crise. A Investigação Cooperativa Fundamentada (CGI, Cooperative Grounded Inquiry) foi desenvolvida como uma nova metodologia de pesquisa-ação participativa (PAP) para promover a colaboração entre pessoas que atuam como praticantes-pesquisadoras do serviço social e mulheres usuárias dos serviços. Seu propósito é gerar conhecimento útil e oferecer apoio a mulheres em situação de violência e a seus filhos. O projeto envolveu 7 mulheres chinesas de Hong Kong como participantes-pesquisadoras. O grupo de investigação se reuniu pelo menos uma vez por semana durante 6 meses para explorar as necessidades das mulheres e de seus filhos após a separação, e para implementar e avaliar juntas, de forma participativa, as práticas e serviços desenvolvidos ao longo do projeto. As participantes identificaram os problemas de assumir seja o papel de “vítima”, seja o de “sobrevivente”, que sustentam, respectivamente, o modelo de “proteção” e o de “empoderamento”; e desenvolveram práticas para “fazer ser si mesma” para além da dicotomia vítima-sobrevivente. Este artigo apresenta as narrativas de si em transformação das participantes ao longo do projeto de pesquisa, da condição de vítima à de sobrevivente, e da condição de sobrevivente à de sobrevivente em devir. Essas narrativas mostram a importância de proteger o espaço das mulheres para que realizem uma ação simbólica e de empoderá-las por meio de um vocabulário que as ajude a descrever a si mesmas e suas experiências de modo diferente dos discursos dominantes. As narrativas das mulheres evidenciam a “diferença planetária” existente entre o modelo de proteção, que trata as mulheres como impotentes, vulneráveis e necessitadas de apoio externo, e o modelo de empoderamento, que as trata como poderosas, resilientes e dotadas de recursos e soluções para os problemas. O estudo transcende a dicotomia vítima-sobrevivente e esses modelos de serviço ao propor um modelo relacional alternativo, que enfatiza o compartilhamento de poder para dar sentido às experiências de abuso e encontrar a própria voz em uma comunidade de apoio.

Palavras-chave: violência por parceiro íntimo, mulheres chinesas, abordagem relacional, trabalho identitário, pesquisa-ação participativa

Introdução

Na tragédia de Tin Shui Wai, em 2004, uma mãe, Kam Shuk Ying, e suas duas filhas gêmeas foram mortas a facadas pelo marido abusivo. A tragédia aconteceu mesmo que Kam Shuk Ying e uma amiga tivessem denunciado regularmente os abusos dele à polícia. A reação do público foi de choque e também de alarme diante de quão fatal a violência doméstica podia ser. O governo foi imediatamente pressionado a lidar com a violência doméstica de forma mais eficaz e, em 2005, o Departamento de Bem-Estar Social de Hong Kong publicou o primeiro estudo de prevalência da violência doméstica (Chan 2005). O estudo mostrou que mais de 1 em cada 7 pessoas casadas havia sido espancada dentro do próprio casamento em algum momento da vida. Mais de 1 em cada 5 domicílios tinha uma pessoa casada que havia sido espancada dentro do casamento. No estudo de Chan, a Escala de Táticas de Conflito 2 (CTS2, Conflict Tactics Scale 2) e a Escala de Táticas de Conflito entre Pais e Filhos (CTSPC, Parent-Child Conflict Tactics Scale) foram usadas para estimar as taxas de prevalência anual e ao longo da vida dos diferentes tipos de violência doméstica. Cerca de 1 em cada 10 pessoas casadas entrevistadas havia cometido ou sofrido agressões físicas na relação íntima, das quais cerca de 4% resultavam em lesões físicas. O mesmo estudo mostra que mais de 50% das pessoas casadas entrevistadas haviam cometido ou sofrido agressões psicológicas na relação conjugal. Cerca de 6% das pessoas casadas entrevistadas haviam cometido ou sofrido coerção sexual. Embora a diferença entre os sexos não seja grande no estudo de Chan, em parte devido à tendência das CTS a produzir resultados neutros em termos de gênero (ver Johnson 2006 sobre os debates em torno da simetria de gênero e da escala de táticas de conflito), ele ainda mostra que as mulheres são mais propensas a ser afetadas pela violência doméstica (por cônjuge: homens – 12%; mulheres – 15,7%; valor de p – 0,000*; por pessoa respondente: homens – 14,9%; mulheres – 15,3%; valor de p – 0,746). A assimetria de gênero na violência por parceiro íntimo se confirma quando se observam os casos notificados aos sistemas governamentais, principalmente a polícia, os serviços sociais e os hospitais. As vítimas mulheres respondem sistematicamente por mais de 80% do total de casos de violência por parceiro íntimo em Hong Kong nos últimos 10 anos (antes chamada de violência conjugal em Hong Kong, a expressão mudou para refletir que a violência também ocorre entre parceiros íntimos que não são casados entre si; Sistema Central de Informação sobre Cônjuges Agredidos e Violência Sexual, Departamento de Bem-Estar Social da RAE de Hong Kong).

À medida que avançava a investigação sobre a tragédia de Tin Shui Wai, as preocupações com a eficácia dos serviços e com a prestação de contas continuaram a atrair a atenção do público de Hong Kong. Os repetidos pedidos de ajuda, registrados e não registrados, dessa mãe migrante de duas crianças revelaram que as equipes dos serviços sociais não haviam seguido as diretrizes (Review Panel on Family Services in Tin Shui Wai, 2004). Pesquisas também revelaram valores patriarcais arraigados na polícia, bem como atitudes discriminatórias das equipes dos serviços sociais em relação às pessoas recém-imigradas da China (Hong Kong Christian Service 2004; Wu 2004). A forte demanda pública por uma intervenção social eficaz no campo da violência doméstica (Review Panel on Family Service in Tin Shui Wai 2004) resultou em uma série de mudanças, como a revisão das diretrizes processuais para o atendimento de casos de violência doméstica e de abuso infantil, a simplificação da coordenação entre departamentos, a criação de um sistema central de informação e um prazo mais curto para o pedido de medidas protetivas.

Embora as mudanças processuais e de sistema sejam fundamentais para proteger as “vítimas” de abuso, elas também pareciam se concentrar sobretudo na “intervenção em crise”, dando pouca atenção ao trabalho de prevenção e de apoio que deveria fazer parte da abordagem em três frentes adotada por Hong Kong para enfrentar a violência doméstica (Legislative Council Secretariat 2013). Uma breve análise dos princípios de funcionamento das Procedural Guidelines for Handling Cases of Intimate Partner Violence (revised 2011) [Diretrizes processuais para o atendimento de casos de violência por parceiro íntimo, revisão de 2011] (figura 2) mostra com clareza essa tendência a se concentrar na intervenção em crise.

Vê-se que as Guidelines destinadas a facilitar a colaboração multidisciplinar se organizam principalmente em torno da intervenção em crise, visando à redução de riscos e à prevenção da revitimização. A participação das vítimas na avaliação e no planejamento das ações se restringe à “comunicação direta”. Uma vez que as mulheres em situação de violência são realocadas, em moradia de aluguel privada ou em habitação pública, os casos tendem a ser encerrados sob a justificativa de que “os elementos de agressão conjugal cessaram”. As mulheres que deixaram o lar conjugal e entraram com pedido de divórcio se tornaram as mais desassistidas pelos serviços de violência por parceiro íntimo de Hong Kong. A Harmony House, primeiro abrigo de Hong Kong, tinha consciência da falta de apoio às mulheres separadas dos agressores. O abrigo criou “serviços pós-abrigo” para cuidar das necessidades emocionais e de adaptação das mulheres que haviam deixado o abrigo, incluindo as que voltavam ao lar conjugal e as que o haviam deixado de vez. Essas boas intenções, porém, não se traduziram efetivamente em prática, devido às medidas de austeridade do governo (Harmony House 2007). Embora se identifiquem algumas iniciativas pontuais, na forma de projetos, para reconstruir a autoestima e a autoconfiança (Hong Kong Family Welfare Society 2017), serviços de longo prazo financiados pelo governo para mulheres em situação de violência e seus filhos após a separação continuam praticamente inexistentes em Hong Kong. A ausência de serviços pós-separação para mulheres em situação de violência em Hong Kong reflete o pressuposto de que a vida das mulheres após a separação seria livre de problemas; de que elas seriam fortes o bastante para lidar com “seus problemas”; e de que, tendo deixado os parceiros abusivos, seriam sobreviventes, e não vítimas.

Este estudo trata das necessidades de mulheres em situação de violência após a separação. Ele teve como objetivos (1) compreender as necessidades de mulheres que deixaram a relação abusiva; (2) codesenhar uma prática ou serviço de serviço social capaz de atender à(s) necessidade(s) identificada(s); e (3) pôr em funcionamento e avaliar, com todas as participantes da pesquisa, a prática ou serviço desenvolvido. O processo ajudou a desdobrar as experiências das mulheres de viver com e sem os autores do abuso, um processo que tem sido compreendido em associação com as concepções das mulheres sobre escolha, ganho e perda de agência pessoal, bem como com a disponibilidade de apoio social e financeiro (Ben-Ari et al. 2003; Dobash e Dobash 1979; Kirkwood 1993). As narrativas e imagens coproduzidas com as participantes problematizam a dicotomia “ou vítima ou sobrevivente” evidente no desenho do serviço de violência por parceiro íntimo de Hong Kong, assim como em outras partes do mundo (ver Dunn 2004; Thapar-Björkert et al. 2016). Com base nesses dados, este artigo entra no debate sobre a adequação da “condição de vítima” ou da “condição de sobrevivente” para representar a experiência vivida das mulheres em situação de violência. A primeira costuma sustentar o trabalho de “proteção”, e a segunda é usada para promover práticas de “empoderamento”. Este artigo busca uma alternativa para dar sentido à agência e às vulnerabilidades das mulheres em situação de violência. Ao observar como as mulheres lidam com os desafios pós-separação e buscam maneiras de “fazer” de outro modo a filha, a mãe, a irmã, a ativista e a cidadã (Gueta et al. 2016; Katz 2015; Zufferey et al. 2016), constatamos que as mulheres realizam um trabalho identitário que “perturba” a “dicotomia ou vítima ou sobrevivente”. O “fazer ser” é central na análise do trabalho identitário realizado pelas participantes, pois liga as identidades a comportamentos sociais e a práticas sociais realizadas pelas pessoas, vendo-as como produtos e constituintes das ordens sociais (Sacks 1985). O trabalho identitário das mulheres captado neste estudo mostra a necessidade de uma autonomia e de uma agência apoiadas e de um modelo relacional (Smart 2007) para trabalhar com mulheres que viveram violência por parceiro íntimo.

O discurso do “ou vítima ou sobrevivente” e seus limites

A condição de vítima foi amplamente mobilizada pelas feministas nos Estados Unidos para levar a sociedade civil a pôr a violência doméstica na agenda pública (Dunn 2004). O “movimento das mulheres espancadas” nos Estados Unidos partiu da tolerância e do silêncio do público diante do problema, e as mulheres que ele ajudava eram “mulheres espancadas, estejam em casa ou em fuga, [que] precisam de muito e podem dar pouco” (Tierney 1982, p. 212). As experiências das mulheres em situação de violência nos primeiros anos do movimento sustentaram a construção de uma condição de vítima pura, na qual as mulheres tinham pouca agência pessoal para resistir à violência contra elas e precisavam de apoio externo para remediar o problema. Essa forma particular de identidade de vítima “sem culpa” e “inocente” serviu como uma “identidade coletiva politizada” para mobilizar recursos públicos e angariar a simpatia do público, a fim de dar visibilidade a esse problema social emergente do “espancamento de esposas” (Dunn 2004; Nissim-Sabbat 2009; Thapar-Björkert et al. 2016; Tierney 1982).

Pouco depois de seu surgimento, entre meados dos anos 1970 e os anos 1980, a identidade de vítima pura foi criticada por ser redutora demais e por não captar a complexidade das experiências das mulheres em situação de violência. Dunn (2004) analisou as histórias de vitimização contadas por mulheres espancadas e pela mídia, e descobriu quatro tipos de vítimas: “vítimas precipitadoras”, “vítimas ideais”, “vítimas estigmatizadas” e “vítimas heroicas”. Leisenring (2006) também discutiu as diferentes reivindicações do estatuto de vítima feitas pelas próprias mulheres, que incluem as reivindicações de “vítima pura”, o quadro do empoderamento da vítima, as reivindicações de responsabilidade e as reivindicações de vítima-sobrevivente. Esses estudos contestaram o monopólio da identidade tradicional, frágil e sem culpa, de “vítima ideal/vítima pura” na compreensão da experiência vivida das mulheres em situação de violência. Alguns estudos realizados no Reino Unido e nos Estados Unidos também constataram que a identidade de vítima pode prejudicar a recuperação e a autoeficácia das mulheres após a separação, pois colidia com a autopercepção das pessoas agredidas pela parceria (Donovan e Hester 2010) e contribuía para uma mentalidade de vítima (Leisenring 2006). Dunn (2004) argumentou ainda que a “condição de vítima”, para ser legitimada em uma cultura ocidental que enfatiza a autonomia e a agência, inevitavelmente implicava um diferencial de poder entre quem se compadece e quem é objeto de compaixão (p. 239). Na cultura chinesa, reivindicar o estatuto de vítima pode ser estigmatizante, porque as virtudes familiares chinesas exigem que as mulheres morais “não espalhem a vergonha da família” (家醜不出外傳), inclusive a violência contra elas. As mulheres podem ser culpadas por romper e envergonhar a própria família e a do marido. Apesar das diferenças culturais, é concebível que mulheres de Hong Kong, do Reino Unido e dos Estados Unidos relutem em se identificar como vítimas de abuso, ou em nomear suas experiências como abuso, por causa do dano que a identidade de vítima pode causar à própria autoimagem (Muehlenhard e Kimes 1999; Leisenring 2006; Donovan e Hester 2010; Brosi e Rolling 2010).

Para enfrentar a dimensão estigmatizante da identidade de “vítima”, criou-se um discurso da condição de sobrevivente, que enfatiza a resistência das mulheres, sua capacidade de enfrentamento e as escolhas que fizeram para sobreviver ao abuso (Hydén 1999; Herbert et al. 1991; Davis, 2002; Johnson 1992). O foco dos estudos sobre violência por parceiro íntimo também passou de “ficar, sair e voltar” para “resistir, enfrentar e sobreviver” (Leisenring 2006; Humphreys 2000). O reconhecimento das forças e da resistência também é um sinal de afastamento da condição de vítima (Glumbíková e Gojová 2020) e o início da recuperação após o abuso (Brosi e Rolling 2010). As forças e capacidades das mulheres são reconhecidas e explicitadas pela construção da condição de sobrevivente. Seu saber situado também passou a ser mais valorizado e reconhecido na formulação de políticas e serviços (Mullender e Hague 2005; Beresford e Croft 2000).

Quando a ascensão da condição de sobrevivente marginaliza a condição de vítima, porém, ela também pode se tornar estigmatizante (Sweet 2019). Embora a condição de vítima possa impedir as mulheres de expressar suas experiências e sua pessoa de modo diferente da fraqueza e da impotência sem culpa, ela pode lhes permitir explicitar suas necessidades e angariar simpatia e assistência (Leisenring 2006). Essa propriedade ao mesmo tempo habilitadora e restritiva da condição de vítima cria um paradoxo, no qual a condição de sobrevivente e as práticas baseadas na sobrevivência são desenvolvidas como contranarrativa ou contraprática em oposição à condição de vítima. As mulheres que expressam suas necessidades, sofrimentos e desafios de vida são consideradas inferiores às “sobreviventes” fortes e destemidas. São vistas como “presas” à relação com o agressor e pessoalmente pouco dispostas a pôr fim à vitimização. Assim, a monopolização da condição de sobrevivente é tão problemática quanto a monopolização da condição de vítima, o que revela os limites da dicotomia “ou vítima ou sobrevivente”.

As experiências de saída das mulheres como crítica da dicotomia

As experiências das mulheres de “sair” da relação com parceiros abusivos evidenciam ainda mais o caráter problemático da dicotomia “ou vítima ou sobrevivente”. Sair não é um processo de separação nítido, marcado por uma mudança de casa ou por um divórcio, mas um vaivém que envolve ciclos de ficar-sair-voltar (Kirkwood 1993). Nos casos de “saída bem-sucedida”, cada ciclo de ficar-sair-voltar se apoia nas forças adquiridas nos ciclos anteriores. Sair é, portanto, um processo contínuo em que se entrelaçam escolhas e aprisionamento, resistência, enfrentamento e submissão. Mesmo as mulheres que deixam “com sucesso” os parceiros abusivos sofrem muito no processo de busca de ajuda, por exemplo diante da burocracia dos sistemas de assistência social e de respostas policiais insensíveis (Lutenbacher et al. 2003; Wolf et al. 2003). O desinteresse de quem deveria ajudar e a dificuldade de atender às necessidades financeiras, habitacionais e emocionais das mulheres também são fatores que contribuem para o sentimento de revitimização, para a decisão de parar de fugir e para o retorno à relação (Wuest e Merritt-Gray 1999, p. 112). Embora levar socos e tapas, ser aterrorizada com armas, perseguida e humilhada em público possa não ser fisicamente fatal, a história desses “traumas” continua a influenciar a vida e o bem-estar das mulheres após a separação. É o que mostram os estudos psicológicos sobre crescimento pós-traumático, que identificam o sofrimento contínuo das mulheres em razão do abuso passado como estresse pós-traumático (Joseph e Linley 2008).

Com uma compreensão melhor das experiências das mulheres de ficar, sair e voltar para parceiros abusivos, “vítima-sobrevivente” ou “vítima/sobrevivente” aparecem hoje com mais frequência na literatura, como resposta linguística à dicotomia problemática “ou vítima ou sobrevivente” e como reconhecimento da complexidade das experiências de abuso das mulheres. Embora o espaço do hífen usado na literatura existente ajude a reconhecer a incerteza ou a hibridez das experiências das mulheres em situação de violência, ainda sabemos pouco sobre como as mulheres negociam suas identidades em torno dos discursos dominantes da condição de vítima e da condição de sobrevivente. Para as mulheres que deixaram os autores da violência e passaram a ser rotuladas como “sobreviventes” em Hong Kong, como elas negociam suas identidades para expressar suas necessidades e sofrimentos, e para redescobrir e se reapropriar de suas forças? Como as identidades negociadas ajudam as mulheres que viveram violência por parceiro íntimo a enfrentar os desafios pós-separação? Este artigo apresenta as narrativas e os dados textuais e pictóricos cocriados com mulheres que deixaram seus parceiros abusivos e desdobra o trabalho identitário das mulheres tal como foi negociado no contexto de um projeto de pesquisa-ação participativa (PAP).

Metodologia

A Investigação Cooperativa Fundamentada (CGI) (Kong 2016), uma nova metodologia que pertence ao campo mais amplo da pesquisa-ação participativa (PAP) (Heron e Reason 1997), foi desenvolvida especificamente neste projeto para promover a colaboração entre pessoas praticantes-pesquisadoras do serviço social e pessoas usuárias dos serviços, a fim de construir conhecimentos e serviços úteis, fundamentados nos saberes situados de cada parte. O projeto envolveu mulheres que haviam deixado seus parceiros abusivos e também seus filhos adolescentes. As participantes buscavam dar sentido aos desafios pós-separação e encontrar maneiras de enfrentá-los. Essas experiências sugeriam que as mulheres sofrem com a aplicação categórica das identidades de “vítima” ou de “sobrevivente” impostas a elas pelos sistemas de assistência social e por seu círculo de amizades e de trabalho. A falta de espaço para negociar essas identidades levava a um forte sentimento de impotência e a rupturas de relações (profissionais e pessoais). Este projeto identificou identidades rompidas ou perturbadas de mulheres em situação de violência na fase pós-separação e ofereceu espaço para que novas identidades emergissem e servissem de voz crítica para ampliar a dicotomia restritiva “ou vítima ou sobrevivente” (Gueta et al. 2016).

Coleta de dados, análise e ação

Esta CGI envolveu uma praticante-pesquisadora do serviço social (a autora), mulheres que haviam deixado seus parceiros abusivos e seus filhos adolescentes, em reuniões semanais (de cerca de 6 h cada). Elas duraram 6 meses e envolveram o desenho, a oferta e o aprimoramento de serviços pós-separação. Aplicamos os ciclos modificados de reflexão-ação-reflexão (figura 2), como parte da abordagem CGI, para dar sentido aos desafios pós-separação (saber proposicional) e para formular e oferecer serviços e práticas adequados para enfrentá-los (saber prático). As diferentes formas de dados, incluindo conversas, dados de observação e dados interativos gerados nos processos de resolução de problemas (saber experiencial), foram registradas por fotos, desenhos, diários reflexivos, notas de campo e gravações de vídeo e áudio (saber apresentacional), produzidos individual e coletivamente. Esses dados eram devolvidos ao grupo de investigação para reflexão e análise coletiva (saber proposicional). A análise dos dados se apoiou na análise comparativa constante (Glaser 1978), técnica emprestada da metodologia da teoria fundamentada, que ajuda as pessoas coinvestigadoras a comparar e contrastar experiências, emoções, comportamentos, interações e atitudes umas das outras. Ela nos permitiu desenvolver uma compreensão das diversas experiências das mulheres no enfrentamento dos desafios pós-separação. Este artigo apresenta apenas os resultados sobre como o trabalho identitário das participantes se realizou neste projeto; os detalhes da metodologia e os demais resultados foram apresentados em outro lugar (Kong 2016; Kong 2018).

A CGI exige cultivar a reflexividade de cada integrante do grupo de investigação, para que se possa identificar como a construção de si afeta a construção da compreensão do “mundo exterior” e nossas interações com os “outros”. Essa variante da reflexividade é chamada de “reflexividade relacional” (D’Cruz et al. 2007). Para isso, reservava-se um momento de reflexão em cada reunião. Ao escrever notas reflexivas e analisar continuamente o próprio modo de agir em diferentes ocasiões sociais, as pessoas do grupo ganharam uma consciência mais profunda de si em relação aos outros. Como pesquisadora que iniciou o projeto, também mantive notas de campo e notas reflexivas ao longo de toda a investigação. Essas notas evidenciaram minha dupla identidade, ao mesmo tempo de dentro e de fora, de “irmã historicamente desiludida”, que moldou tanto minhas próprias revelações quanto as das outras (Author 2015).

As participantes

A praticante-pesquisadora recrutou as participantes em um grupo local de sobreviventes. Sete participantes (a praticante-pesquisadora, HL, NF, PF, YY, KW e YT) participaram oficialmente desta investigação (tabela 1). Por razões de segurança, recrutamos mulheres que estavam separadas do parceiro abusivo havia pelo menos um ano e meio e que não tinham registro de violência física havia pelo menos seis meses no momento em que ingressaram no grupo. Neste projeto, a “separação” não se refere ao estado civil, mas à distância física que as participantes mantinham em relação ao agressor, por morarem separadas dele e terem sido realocadas com segurança em conjuntos habitacionais privados ou públicos. Essa estratégia de recrutamento ajudou a responder às lacunas do serviço de violência doméstica de Hong Kong (a falta de serviços pós-separação).

Tabela 1 — Dados demográficos das participantes

Código, sexo, idade, local de nascimento.

  • Ah Ting. F; 29 anos; Hong Kong.
  • HL. F; 38 anos; China continental.
  • NF. F; 65 anos; Hong Kong.
  • PF. F; 44 anos; China continental.
  • YY. F; 43 anos; China continental.
  • KW. F; 43 anos; China continental.
  • YT. F; 39 anos; China continental.

Todas as participantes haviam sofrido abuso físico e psicológico por pelo menos 5 anos, e a maioria delas, exceto NF e a pesquisadora-participante, tinha filhos de 12 a 17 anos quando a investigação começou. Entre as participantes, uma estava em processo de divórcio e duas ainda disputavam a guarda dos filhos durante a investigação. A inclusão, nesta amostra, de mulheres tanto locais (n = 2) quanto da China continental (n = 5) também nos permitiu delinear o impacto da migração na busca das mulheres por reconhecimento social e em seu percurso de recuperação do trauma do abuso (ver Reconstruir a identidade de sobrevivente). A diferença de idade entre as participantes, do fim dos vinte ao meio dos sessenta anos, criou uma dinâmica de grupo singular, que lembrava a piedade filial chinesa e o respeito pelas pessoas mais velhas (Kong 2018). A aprovação ética foi obtida junto à Universidade de York antes do início da investigação.

Resultados

A “sobrevivente pura” em questão: “Vocês não podem nos deixar sem cuidado”

As reuniões do grupo na primeira fase da investigação eram cheias de queixas sobre o serviço de violência doméstica de Hong Kong (tanto violência por parceiro íntimo quanto abuso infantil), considerado de “baixo desempenho”. O pressuposto de que as mulheres em situação de violência estariam “livres de problemas” ou seriam capazes de “andar com as próprias pernas” depois de deixar os parceiros abusivos era contestado pelas experiências das participantes em sua vida pós-separação. Todas as participantes concordavam que viviam com os impactos da violência por parceiro íntimo, incluindo pobreza, isolamento, traumas, tristeza e tratamento injusto imposto pelos agressores, pelo sistema de assistência social e pela vara de família. Quando as mulheres falavam de seus próprios sofrimentos no grupo de investigação, percebiam que eles ecoavam as experiências de outras integrantes, e um sentimento de solidariedade começou a se desenvolver no grupo (Kong et al. 2020). Frases como “precisamos de ajuda”, “vocês não podem nos deixar sem cuidado” e “se eu conseguisse fazer sozinha, então eu não…” eram usadas com frequência pelas participantes para afirmar sua necessidade de apoio e cuidado e para promover formas empáticas de solidariedade que as ajudavam a se coordenar umas com as outras para produzir mudança (Banks 2014). Essas experiências compartilhadas de sofrimento criaram uma forte ruptura com a identidade de “sobrevivente pura” que o serviço de violência doméstica de Hong Kong havia pressuposto, reforçado e estimulado. A dissonância entre o discurso da sobrevivente pura e a experiência vivida das mulheres em situação de violência levou as próprias mulheres a retomar a identidade de “vítima” para explicitar sua necessidade de apoio e cuidado por parte do Estado e das pessoas. Um dos muitos sofrimentos que continuavam a afetar as mulheres depois da separação dos autores da violência é o impacto físico de longo prazo da violência por parceiro íntimo, por exemplo deslocamentos ósseos, dores de cabeça, tonturas e saúde precária.

“Quando meu ex-marido ficava bravo, batia minha testa no chão. Bum! Bum! Bum!… Ainda sofro com dores de cabeça fortes”, disse YT.

Essas dores crônicas haviam prejudicado a qualidade de vida das mulheres, sua capacidade parental e seu bem-estar mental. As mulheres falavam com frequência de sua vulnerabilidade emocional, como se sentir deprimidas, com raiva ou agitadas, algo que não cessava com a separação nem com o tempo.

“Nossas irmãs [mulheres que viveram violência doméstica] simplesmente não conseguem ser felizes. Todas nós éramos iguais. Quando tínhamos acabado de deixar o sujeito ruim (o parceiro abusivo), ficávamos muito infelizes. Mesmo quando as pessoas à nossa volta celebravam o Ano-Novo Lunar, ficávamos indiferentes ao clima animado. Você simplesmente não consegue ser feliz”, disse YY.

HL acrescentou: “Eu vivi exatamente a mesma coisa. Conheci NF numa festa de Ano-Novo Lunar. As irmãs do abrigo me levaram lá. Não senti gratidão pela gentileza delas; ao contrário, achei-as irritantes e ofensivas. Eu pensava: ‘Estou tão deprimida, por que vocês estão tão felizes quando eu estou tão infeliz?’ Você se sente ainda pior.”

A instabilidade emocional, na forma de explosões súbitas de raiva e oscilações de humor, era evidente nas reuniões da investigação. Essas manifestações se intensificavam sobretudo quando se esperava que as mulheres estivessem “felizes” ou “animadas” por outras “sobreviventes” do grupo, quando sua experiência vivida não correspondia a essas expectativas. As mulheres às vezes reagiam a essas expectativas com comportamentos de retraimento ou microagressões dirigidas a outras participantes, ou até aos próprios filhos.

“Talvez você não conheça o temperamento dela. Ela (uma das nossas participantes) me repreende e grita comigo sempre que não faço as coisas como ela espera. É muito difícil aguentar. É estressante”, disse PF.

“Fiquei tão triste quando ouvi minha filha me chamar de ‘inútil’ repetidas vezes! Tranquei-me no banheiro e ela veio ver se eu estava bem… Quase enlouqueci, a ponto de ter medo de bater nela! Caí no choro e fugi de casa… Era de noite”, disse YT.

As participantes afirmavam que as perturbações emocionais eram comuns entre as mulheres que haviam deixado parceiros abusivos e que elas se interpunham firmemente no caminho de sua “recuperação” (Abrahams 2007). As participantes também passaram a perceber que a longa exposição ao controle coercitivo havia minado sua capacidade de controlar a raiva, especialmente diante de comentários e críticas das pessoas. A raiva, como forma de criar distância psicológica, é um modo comum e relativamente mais seguro de resistir à violência e ao microgerenciamento exercidos pelos parceiros abusivos (Ben-Ari et al. 2003). No entanto, quando as explosões de raiva se tornam uma resposta condicionada às críticas, podem afetar a capacidade das mulheres de reconstruir redes sociais e intimidade em sua vida pós-separação. O bem-estar psicossocial das mulheres também pode ser agravado pela privação financeira, consequência comumente identificada do controle coercitivo (Stark 2007; Stark 2013; WHO 2013). A falta de apoio e de recursos continuava a minar a autoimagem das mulheres, envergonhando-as e culpando-as por “não conseguirem proteger” os filhos. Por exemplo, KW dependia de bancos de alimentos havia meses e expressava um grande remorso por sua “incapacidade” de prover o sustento.

“Meu filho e eu já estamos comendo miojo e comida enlatada há 2 meses. Era tudo comida em conserva, nada saudável para um menino na puberdade”, disse KW.

Ao se verem como “vítimas” de violência doméstica no contexto pós-separação, as participantes encontraram o vocabulário para contestar a ideia de que “deixar o agressor pode curar todos os problemas das mulheres em situação de violência” e para justificar a necessidade de apoio e cuidado após a separação. Ao recorrer aos recursos linguísticos da “condição de vítima” para obter cuidado e apoio para as mulheres separadas, hoje mal atendidas, a identidade de “sobrevivente pura” foi perturbada e problematizada.

Reconstruir a identidade de sobrevivente: “chungsangje” como discurso do renascimento

Reapropriar-se da “identidade de vítima” em meio à expectativa esmagadora de se tornarem “sobreviventes” pareceu ajudar as participantes a identificar suas necessidades de cuidado e apoio. O ciclo reflexão-ação-reflexão levou o grupo a refletir mais sobre que ações poderiam realizar para responder a essas preocupações, o que resultou, em seguida, nas respostas de serviço desenvolvidas no grupo de investigação. Entre elas estavam “conferências de resolução de problemas pessoais”, “apoio emocional” e “exercícios de fortalecimento da saúde”, conduzidos pelas participantes para atender outras mulheres em situação de violência. Quando as forças das participantes se tornavam visíveis nos processos coletivos de resolução de problemas, mais participantes relembravam os “bons velhos tempos”, quando viviam com confiança, dignidade e orgulho. A maioria desses momentos positivos havia ocorrido antes da migração para Hong Kong. Eram épocas em que suas qualificações eram reconhecidas, seus empregos eram estáveis e suas capacidades, valorizadas. PF, YT e YY reconheceram como sua autoestima foi minada pelo processo de migração para Hong Kong. Em uma conversa (2ª sessão):

“Na verdade, nossas irmãs são todas muito capazes.” YY

“É o governo de Hong Kong que não reconhece nossas qualificações. Muitas de nós estudaram bastante.” YY e YT

Histórias e conversas sobre orgulho e forças pessoais estabeleceram as propriedades de “sobrevivente” como um modo de viver. Isso se tornou um ponto de referência para retomar as forças que as participantes tinham antes de entrar na relação abusiva. As participantes examinaram o termo “sobrevivente”, que, traduzido para o chinês, pode ter dois sentidos diferentes: “chungsangje” (重生者), que designa alguém que morreu, mas voltou à vida com novas forças; e “hengchuenje” (倖存者), que designa alguém que sobreviveu a uma experiência desastrosa por pura sorte. O segundo termo não carrega apenas uma conotação negativa de passividade e impotência; também sugere que as mulheres podem não ter a mesma sorte da próxima vez. As participantes rejeitaram o termo “hengchuenje” para descrever a si mesmas e ao grupo e adotaram por unanimidade o termo “chungsangje” para representar as qualidades pessoais positivas e as forças redescobertas ao atravessar o trauma. “Chungsangje” também capta a sequência “nascer-morrer-renascer” de sua experiência vivida de atravessar e, sobretudo, de romper com o parceiro abusivo. A criação e o uso contínuo de “chungsangje” como conceito organizador de ações, como o cuidado e a oferta de serviços no grupo, ajudaram a justificar e a impulsionar o desenvolvimento de novas habilidades para apoiar outras mulheres que ainda tentavam romper com parceiros abusivos ou que lidavam com os desafios pós-separação fora do grupo de investigação.

A identidade de chungsangje captava as forças pessoais e coletivas fundamentadas nas próprias histórias, culturas e experiências das participantes, e ampliava o repertório linguístico para acessar e mobilizar essas forças e habilidades ao fazer planos e conceber ações. A nova identidade apoiou as participantes na transição de mulheres ajudadas para mulheres que ajudavam. Surgiu no grupo de investigação a necessidade de redistribuir responsabilidades (e poder) entre elas, para garantir que cada integrante tivesse uma oportunidade mais igual de servir e de ser servida.

“Acho bom que a gente possa começar a redistribuir as responsabilidades para as outras (irmãs)… antes eu sempre fazia o papel de organizadora… quando a gente ainda estava na associação (um grupo local de sobreviventes), éramos sempre eu e SW que fazíamos o trabalho, e as outras irmãs só vinham e aproveitavam. Fazer as compras dava, na verdade, muito trabalho… e todas inventavam desculpas para não participar. Da próxima vez (quando organizarmos eventos), a gente devia incentivá-las a participar mais”, disse PF.

Ao revisitar o passado positivo das mulheres, revelou-se também o impacto da migração sobre seu sentimento de aprisionamento e de vulnerabilidade. A migração da China continental para Hong Kong interrompeu o reconhecimento formal e o informal na vida das participantes. O reconhecimento formal tinha a ver com ter um “papel de liderança no trabalho”, uma “qualificação profissional”, um “papel profissional no trabalho” e uma “formação acadêmica avançada”. O reconhecimento informal significava “ser digna de confiança”, “ser valorizada” e “ser incluída em redes sociais”. A migração e a violência por parceiro íntimo agravaram a desconexão social vivida pelas participantes, privando-as das relações e redes sociais em que suas forças e capacidades podiam ser reconhecidas e valorizadas. A ausência de reconhecimento também afetou a autoimagem das participantes, tornando-a mais suscetível à destruição e à manipulação pelos parceiros abusivos.

“Quando saí, eu ainda achava que ele estava tão certo, que eu era inútil. Que eu nunca tinha servido para nada. Eu realmente acreditava nessa descrição de mim mesma…”, eu disse, e todas as outras participantes ecoaram essas palavras. (2ª sessão)

Assim, palavras de encorajamento, como “você é incrível”, “graças a você, conseguimos…”, “vamos superar isso”, (aplausos) e (joinha) (no WhatsApp), tornaram-se uma das respostas mais comuns ao engajamento e às conquistas das participantes. Quando as mulheres não conseguiam obter reconhecimento formal por causa de novos critérios de qualificação (especificamente a proficiência em inglês, em uma ex-colônia britânica), as participantes se apoiavam muito nessas palavras de encorajamento como forma de compensação psicológica.

A identidade de “chungsangje” reconhece a coexistência de forças e vulnerabilidades na história, nas memórias e nas práticas de vida das mulheres, e cria contradições internas em sua autocompreensão que favorecem a reflexão sobre como certas qualidades pessoais ou modos de viver haviam sido enquadrados como vulnerabilidades ou como forças pelos discursos dominantes do individualismo, da condição de sobrevivente e da condição de vítima. Essas reflexões levaram ao reconhecimento de compreensões e experiências heterogêneas das participantes no modo de encarnar sua identidade de “chungsangje”, incluindo as diferentes maneiras como elas “se relacionavam com o agressor” e “se relacionavam com a sociedade”. As que se identificavam como chungsangje se sentiam mais prontas para se reengajar na comunidade e contribuir com ela. Em vez de serviços personalizados e particularizados, preferiam serviços que promovem o bem-estar geral das pessoas (isto é, atividades de fortalecimento da saúde e de socialização) e serviços que oferecem oportunidades de aprendizagem (isto é, ações comunitárias, sessões de desenvolvimento de habilidades e conhecimentos sobre saúde). No entanto, o modo como uma “chungsangje” se relacionava com o agressor também determinava até que ponto ela gostaria de “se relacionar com a sociedade”. Por exemplo, as que mantinham uma relação com os parceiros abusivos relutavam em se tornar figuras públicas na defesa dos direitos das mulheres em situação de violência. YT, que havia deixado o agressor fisicamente, mas não psicologicamente, mantinha o desejo de se reaproximar dele. Por isso, queria esconder os comportamentos socialmente indesejáveis do ex-marido, para abrir caminho a uma possível reconciliação no futuro.

YY perguntou se YT ainda amava o ex-marido; YT defendeu o ex-marido e disse que a relação deles não teria se deteriorado se ele nunca tivesse jogado. YT chegou a dizer que não teria se divorciado se ele não tivesse tomado a iniciativa. O “amor”, o “desejo de reaproximação”, o “desejo de cuidado” etc. se revelaram conceitos que representavam o modo como YT se relacionava com o ex-marido. Esses conceitos contrastavam com a “raiva”, a “indiferença”, o “medo”, o “desejo de separação” etc. encontrados em muitas outras participantes. (Nota de campo, 25 de maio de 2013)

Quanto à participante HL, que havia deixado o parceiro abusivo física e psicologicamente, mas continuava em contato com ele como amigo, ela também consideraria inadequada a ação pública, porque poderia abalar a amizade entre os dois.

A construção identitária como processo contínuo

A identidade de chungsangje, compreendida e encarnada de modos diferentes por diferentes mulheres, ilustra o trabalho identitário das mulheres em sua vida pós-separação. Ao revisitar experiências misturadas e confusas em relação a suas diferentes posições sociais, as participantes mobilizaram e se reapropriaram criativamente de símbolos inscritos na condição de vítima e na condição de sobrevivente, para buscar maneiras de descrever, justificar e dotar de recursos suas ações, a fim de resistir ao controle coercitivo e enfrentar seus impactos (Fontes 2015). A identidade de chungsangje, apesar da diversidade de compreensões e de modos de encarná-la no grupo, ainda podia correr o risco de desempoderar as mulheres, sobretudo quando algumas participantes perceberam que “ainda não” eram a “chungsangje” ideal.

A construção da “chungsangje em devir” surgiu quando as participantes perceberam que “de vítima a chungsangje” era um processo no qual talvez não conseguissem cumprir o tempo todo todas as qualidades de uma “chungsangje”.

“Conheço várias irmãs que vivem separadas dos agressores há mais de dez anos. Mesmo assim, elas ainda sofrem… ainda não atravessaram aquilo. Não é uma questão de tempo, mas do seu estado psicológico… se você consegue romper as barreiras psicológicas que te travam, esse é o seu sucesso. Sucesso não significa necessariamente defender uma política ou mudar os serviços”, disse NF.

YT respondeu: “Acho que ainda não cheguei lá.” (18ª sessão)

As barreiras e problemas que se interpunham no caminho das participantes para se tornarem a chungsangje ideal foram identificados nas conversas do grupo. Por exemplo, “não conseguir superar as experiências de ter sofrido abuso”, “não estar pronta para revelar a própria história de abuso” e “estado psicossocial oscilante”. A identidade de chungsangje em devir ajudou as participantes a entender por que, em geral, se sentiam bem com sua situação, mas ainda sofriam com oscilações emocionais ocasionais, humores depressivos e desengajamento social.

“Sim! Eu era igualzinha à MM… dizia sim num momento e não no seguinte. Eu simplesmente não conseguia entender minhas oscilações. Sinceramente, nesses 3 anos, nunca voltei a Tuen Mun, onde eu morava com o sujeito ruim”, disse KW quando explorávamos a influência persistente das experiências de abuso sobre nós. (19ª sessão)

As participantes do grupo, que moravam todas separadas dos agressores, reconheciam que a separação física era eficaz para eliminar a causa da vitimização e para dar tempo à recuperação e ao “renascimento/chungsang (重生)”. As que não haviam saído fisicamente eram consideradas pelas participantes como “vítimas”, já que a causa da vitimização ainda estava presente. Já as que haviam saído fisicamente, mas continuavam psicologicamente presas ou afetadas, eram situadas pelo grupo como “chungsangje em devir (重生緊)”. Para aquelas que o grupo descrevia como chungsangje, mas que se descreviam como chungsangje em devir, como PF e YY, a negociação identitária se estendeu por toda a segunda metade da investigação.

A “chungsangje em devir” foi inventada pelas participantes para manter o tom baseado em forças de sua identidade. Ao mesmo tempo, permitia-lhes mostrar a necessidade de cuidado e ajuda sem voltar à condição de vítima. As chungsangje em devir se percebiam como diferentes das “vítimas” em termos de estabilidade financeira e psicológica e da frequência com que suas vulnerabilidades se manifestavam. Em termos de condições de vida, as chungsangje em devir estavam menos instáveis, por exemplo por terem moradia definitiva e segurança financeira. As “chungsangje em devir” se concentravam, portanto, mais em formação de habilidades práticas e no aprendizado das políticas relevantes, para se preparar para ajudar outras pessoas. Por exemplo, foram realizadas uma oficina de apoio emocional e sessões de redação de posicionamentos políticos, para aperfeiçoar habilidades e ampliar conhecimentos na oferta de serviços para “vítimas” e “chungsangje em devir”. A criação da “chungsangje em devir” no grupo de investigação também sugeriu que o renascimento só poderia ter êxito com a presença de outras pessoas empáticas e apoiadoras. Essas pessoas podem apoiar cada uma na busca e na encarnação de identidades diferentes das moldadas pela dicotomia dominante “vítima ou sobrevivente”.

Discussão

Ao buscar, no grupo de investigação, maneiras de enfrentar os desafios pós-separação, as mulheres em situação de violência também contestaram a aplicação categórica das identidades de vítima ou de sobrevivente. A aplicação categórica de uma ou de outra dessas identidades claramente não conseguia captar ao mesmo tempo a necessidade de apoio das mulheres em sua vida pós-separação e seu desejo de apoiar outras mulheres. Seu trabalho identitário mostrou que vítima e sobrevivente não são identidades estáticas, mas conjuntos de recursos simbólicos dos quais as mulheres podiam se valer para expressar suas experiências vividas e necessidades, heterogêneas, confusas e dinâmicas. Recusar a aplicação categórica também problematizou ainda mais a dicotomia “ou vítima ou sobrevivente” quando as participantes começaram a examinar as discrepâncias entre seus desafios de vida, por exemplo a maternidade em contexto de violência doméstica (Radford e Hester 2006; Fauci e Goodman 2019) e de pobreza, e as categorias identitárias impostas a elas pelos serviços de violência doméstica de Hong Kong. A discrepância obrigou as mulheres a buscar e encarnar identidades alternativas, que refletissem melhor suas circunstâncias de vida e fossem mais úteis para reorganizar os recursos humanos e materiais necessários à resolução de seus problemas.

O trabalho identitário cumpre, portanto, uma função adaptativa para as pessoas em uma comunidade (Fowler 2010). Ele desafia e revisa as narrativas e os discursos restritivos que impedem as pessoas de compreender e resolver seus problemas. No mesmo sentido, os diferentes modos de viver a identidade de chungsangje, conforme o modo como cada uma se relaciona com o parceiro abusivo e com a sociedade, permitiram às participantes reconhecer outras possibilidades de resistir à violência e aos maridos violentos além da saída. Essas experiências contestam o discurso que privilegia a “saída” entre outras “escolhas” de relação com os parceiros abusivos. Na investigação, as experiências de HL e YT não se ajustavam às histórias-padrão da “vítima pura” e do “agressor vilão” (Loseke 2001), porque ambas escolheram manter relações com os ex-maridos, na forma de amizade ou de romance, recusando-se ao mesmo tempo a ser abusadas novamente. As expectativas sociais de que as mulheres em situação de violência exibam uma identidade coerente, ou vítima ou sobrevivente, poderiam prejudicar tanto sua capacidade de dar sentido à experiência vivida quanto sua agência para se adaptar ou resolver os problemas da vida cotidiana. As narrativas das mulheres coletadas neste estudo contestam claramente a dicotomia “ou vítima ou sobrevivente” reproduzida e reforçada pelo quadro dos serviços de violência doméstica de Hong Kong. A identidade de “chungsangje em devir” representa as experiências de “vítima e sobrevivente” das mulheres, bem como sua aspiração de deixar a condição de vítima na fase pós-separação.

Proteção e empoderamento revisitados: rumo a um modelo relacional de apoio às mulheres

O trabalho de proteção é central para proteger as “vítimas” de violência doméstica. Ele permite que “vítimas antes ignoradas, menosprezadas e culpadas [passem a ser] assistidas, orientadas, defendidas, abrigadas e apoiadas” (Mcdermott e Garofalo 2004: 1246). Embora a proteção das vítimas vise a retirar das mulheres a culpa que sentem pelo abuso dirigido a elas, ela também se apoia no conceito de vítimas “inocentes” ou “sem culpa”, incapazes de resistir à violência contra elas ou de detê-la. Esses pressupostos da condição de vítima pura sugerem um potencial de desempoderamento, sobretudo quando o trabalho de proteção 1) se aproxima da gestão e da redução de riscos (Donovan 2013; Robbins et al. 2014), por causa da cultura cada vez mais gerencialista dos serviços de assistência social (ver também a figura 1), e 2) se baseia em uma compreensão individualista do bem-estar das mulheres, independente do bem-estar dos filhos e da relação mãe-filho (Kong 2018). Esses elementos desempoderadores estão presentes nas diretrizes processuais para o atendimento de casos de violência por parceiro íntimo em Hong Kong (ver a figura 1), que colocam a redução de riscos no centro do trabalho de proteção e tendem a interromper os serviços de apoio assim que “a violência cessa”. As Guidelines revelam claramente a expectativa do governo de que as mulheres sejam capazes de lidar com seus problemas uma vez removida de sua vida a fonte de opressão (os autores da violência). Essa expectativa em relação às mulheres explica a falta de apoio governamental disponível para as mulheres que deixaram os parceiros abusivos, embora os impactos físicos, psicológicos, sociais e financeiros de longo prazo estejam bem documentados no estudo multipaíses da OMS (2013). Essa abordagem da proteção de adultos está em contradição com as experiências das participantes como “chungsangje” e “chungsangje em devir”: a resistência, as forças, as vulnerabilidades e as necessidades de ajuda das mulheres coexistem e se deslocam ao longo do tempo, em resposta aos desafios que surgem em sua vida pós-separação. O trabalho identitário é, portanto, uma encenação contínua de si que ajuda a justificar e a reorganizar relações e práticas de vida, para que as mulheres possam obter dos outros o apoio e a ajuda necessários e usar recursos pessoais e públicos para resolver seus problemas.

Esquema que analisa os princípios das diretrizes processuais de Hong Kong para o atendimento de casos de violência por parceiro íntimo (revisão de 2011)
Figura 1. Análise dos princípios das diretrizes processuais para o atendimento de casos de violência por parceiro íntimo (Procedural Guidelines for Handling Cases of Intimate Partner Violence, revisão de 2011) em Hong Kong (esquema original em inglês)
Esquema do ciclo reflexão-ação-reflexão modificado usado na Investigação Cooperativa Fundamentada
Figura 2. Ciclo reflexão-ação-reflexão modificado (reconstruído a partir de Author 2016) (esquema original em inglês)

Como alternativa à proteção, o empoderamento das mulheres tem sido considerado um importante modelo preventivo e de apoio para enfrentar a violência por parceiro íntimo. Ele visa a atacar as causas profundas da desigualdade de gênero e os impactos físicos, psicológicos, sociais e financeiros que a violência pode ter sobre as mulheres (Tiwari et al. 2005; Tiwari et al. 2012; Hester, 2013). Enquanto o Reino Unido passou por ondas de movimentos feministas que desafiaram o patriarcado, o movimento de mulheres em Hong Kong começou rejeitando a importação ocidental da igualdade de gênero, que poderia estar “ameaçando a integridade da família ou pisoteando os homens” (p. 104). Esses primeiros anos do movimento de mulheres moldaram as práticas de empoderamento, levando as mulheres de Hong Kong a se concentrar no aprimoramento de habilidades pessoais e no fortalecimento de capacidades individuais (Ibid.). Esse foco se alinha muito bem a outros modelos de empoderamento praticados com gestantes chinesas de Hong Kong em situação de violência (Tiwari et al. 2005) e com mulheres em situação de violência que vivem na comunidade (Tiwari et al. 2012). Esses modelos buscam “engajar-se com cada mulher em situação de violência para empoderá-la e vinculá-la aos serviços comunitários, com apoio contínuo, aconselhamento informal ou ambos, conforme a necessidade” (Ibid.: 537). O tom individualista das práticas de empoderamento em Hong Kong persiste e é reafirmado nas Strategies and Measures in Tackling Domestic Violence in Selected Places [Estratégias e medidas de enfrentamento da violência doméstica em locais selecionados], publicadas pela Secretaria do Conselho Legislativo de Hong Kong (Lee 2008: 35):

“Empoderamento e abordagem centrada na vítima: os serviços devem garantir que as vítimas identifiquem e expressem suas necessidades e tomem decisões em um ambiente de apoio e sem julgamentos, que as vítimas sejam tratadas com dignidade, respeito e sensibilidade; e promover a participação de quem usa os serviços no desenvolvimento e na oferta do serviço.”

A combinação do empoderamento com a abordagem centrada na vítima, adotada pelo governo da RAE de Hong Kong, reflete o pressuposto de que as mulheres são indivíduos autônomos capazes de tomar decisões racionais, de agir em seu melhor interesse e de ser elas mesmas quando não são coagidas por outra pessoa.

O modelo cartesiano de self que sustenta os modelos de empoderamento em Hong Kong, porém, contradiz as experiências das mulheres em situação de violência. As mulheres dão sentido à sua realidade e às suas preferências de vida no contexto das relações. Por exemplo, neste projeto, as relações em transformação das mulheres com os filhos, com os ex-parceiros e com as outras participantes criam e limitam o espaço em que seus sofrimentos e suas forças podem ser reconhecidos, validados e levados em conta na ação. Para recriar um espaço de reconhecimento das histórias marginalizadas e, portanto, das identidades, as participantes realizaram um trabalho identitário que problematizou a aplicação categórica, a elas, da identidade de vítima ou de sobrevivente. Elas construíram criativamente identidades culturalmente mais adequadas, que lhes permitiam expressar tanto forças quanto vulnerabilidades. As identidades resultantes ofereciam com frequência um espaço sociorrelacional renovado, no qual as experiências marginalizadas das mulheres podiam ser reconhecidas, validadas e mobilizadas como recursos para resolver os desafios de vida que surgiam. O trabalho identitário, portanto, não é o projeto de um indivíduo em busca de um self verdadeiro ou autêntico, mas um “projeto relacional” (Combs e Freedman 2016) de reconstrução das relações. Ele pode ocorrer entre as próprias mulheres e entre as mulheres e pessoas significativas, como os filhos e os ex-parceiros abusivos. A abordagem relacional que emerge do projeto consiste em reconhecer a fluidez e a multiplicidade das identidades encarnadas pelas mulheres em situação de violência em diferentes tempos e espaços. Trata-se de ver o trabalho identitário como uma prática decisiva para trazer à tona as histórias marginalizadas das mulheres e reorganizar as relações sociais de modo a enfrentar diferenças de poder, como as que existem entre quem recebe compaixão e quem a oferece, entre pessoas dependentes e independentes, e entre vítimas e sobreviventes. O trabalho identitário só pode ser empoderador quando o vemos como um projeto relacional e quando cultivamos relações de apoio, empáticas e igualitárias (ver Kong 2018) para que ele aconteça. Este estudo sugere, portanto, uma nova direção de serviço para apoiar as mulheres que deixaram parceiros abusivos: investir em relações sociais e cultivá-las, de modo a permitir que as mulheres revisitem, reavaliem e se reapropriem de suas experiências para enfrentar os desafios de sua vida pós-separação e viver as identidades que preferem, como pessoas, para além da vítima ou da sobrevivente (Nissim-Sabat 2009).

Complexe Systémique: a reter

O artigo desloca uma pergunta que a clínica da violência por parceiro íntimo muitas vezes formula mal: o que acontece com uma mulher depois que ela sai da relação? O sistema de Hong Kong, centrado na crise, encerra o caso quando “a violência cessa”, como se a separação resolvesse tudo. As participantes descrevem o contrário: dores físicas, raivas súbitas, pobreza, vergonha diante dos filhos, isolamento agravado pela migração. Sobretudo, mostram que os dois rótulos oferecidos pelos serviços, vítima a proteger ou sobrevivente a empoderar, as aprisionam, cada um à sua maneira. A palavra que elas escolhem, chungsangje, “renascida”, e depois “chungsangje em devir”, permite dizer ao mesmo tempo suas forças e sua necessidade de ajuda. Para uma leitura sistêmica, o interesse é duplo: a identidade aparece como produto das relações, e o grupo se torna o lugar onde essas relações se reorganizam, entre mulheres, com os filhos, às vezes com o ex-companheiro. Cabe, porém, cautela: sete mulheres, uma única pesquisadora que também é participante, e uma proteção que continua indispensável. Para ler junto com a entrevista com Allan Wade sobre dignidade e resistência à violência e com o artigo sobre como conduzir uma pesquisa-ação participativa.

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Tradução não oficial em português de Para além da “proteção” e do “empoderamento” em Hong Kong: rumo a um modelo relacional de apoio às mulheres que deixaram parceiros abusivos, de Sui-Ting Kong, Journal of Family Violence, vol. 36, no 6 (2021), doi: 10.1007/s10896-020-00185-x, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Beyond ‘Safeguarding’ and ‘Empowerment’ in Hong Kong: Towards a Relational Model for Supporting Women Who Have Left their Abusive Partners”, publicado em Journal of Family Violence (2021) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Kong, S.-T. (2021). Para além da “proteção” e do “empoderamento” em Hong Kong: rumo a um modelo relacional de apoio às mulheres que deixaram parceiros abusivos (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/para-alem-da-protecao-e-do-empoderamento-em-hong-kong-rumo-a-um-modelo-relacional (Obra original publicada em 2020 em Journal of Family Violence, 36(6), 683-694 (2021); republicada em 2021 por Journal of Family Violence, https://link.springer.com/article/10.1007/s10896-020-00185-x)

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