Contemporary Family Therapy · Terapia familiar

Supervisão emancipadora na academia: cultivar um modo de ser de inspiração feminista para incentivar a autorrevelação de pessoas supervisionadas

Por que uma estudante com dificuldades diante de uma família não diz isso na supervisão? A partir de uma vinheta, a de Julia e de seu supervisor, que é também coordenador do programa, professor e orientador, a equipe de Jennah Hanson-Daley relê o silêncio das pessoas supervisionadas à luz do poder. A proposta: menos técnicas e um modo de ser de inspiração feminista, coerente de um papel a outro.

Autores Jennah Hanson-Daley, Travis J. Spencer e Stephen T. Fife (Texas Tech University, Lubbock, EUA); Jeremy L. Pierce (National University, San Diego, EUA)Primeira publicação Contemporary Family Therapy, 9 de setembro de 2025Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Supervisão emancipadora na academia: cultivar um modo de ser de inspiração feminista para incentivar a autorrevelação de pessoas supervisionadas, de Jennah Hanson-Daley, Travis J. Spencer, Jeremy L. Pierce e Stephen T. Fife, publicado na Contemporary Family Therapy (Springer) (2026), doi: 10.1007/s10591-025-09756-w, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A figura é reproduzida na versão original em inglês, com legenda traduzida. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Como parte que detém o poder, cabe a quem supervisiona a responsabilidade de fazer a própria avaliação e de ser a principal instância avaliadora da aliança, em vez de transferir essa responsabilidade para a pessoa supervisionada.

Jennah Hanson-Daley, Travis J. Spencer, Jeremy L. Pierce e Stephen T. Fife

Resumo

A aliança de trabalho na supervisão (SWA, Supervisory Working Alliance) é reconhecida como um componente-chave da supervisão eficaz. Estudos mostram que a falta de uma SWA sólida pode levar a menos autorrevelação da pessoa supervisionada, afetando assim sua capacidade de crescer clínica e profissionalmente. A literatura que propõe aplicações feministas à supervisão clínica destacou a importância de quem supervisiona reconhecer o próprio poder e adotar uma postura colaborativa. No entanto, oferecemos uma perspectiva que faz avançar os modelos feministas ao afirmar que os princípios feministas devem ser aplicados ao modo de ser de quem supervisiona, e não apenas às intervenções usadas. A partir de uma vinheta clínica, este artigo usa conceitos da teoria feminista e da terapia familiar feminista para explorar as complicações ligadas à autorrevelação da pessoa supervisionada, especialmente em um contexto acadêmico. Propomos um modelo de modo de ser de quem supervisiona, fundamentado em princípios feministas, para ampliar a segurança necessária à autorrevelação da pessoa supervisionada.

Palavras-chave: supervisão, terapia familiar feminista, relações duais, autorrevelação da pessoa supervisionada, modo de ser, poder

A supervisão de PLC (pre-licensed clinicians, profissionais da clínica que ainda não obtiveram a licença para atuar) é uma parte essencial dos programas de formação clínica, destinada a apoiar essas pessoas enquanto aprimoram suas habilidades e a garantir uma prática ética. Apesar da falta de unanimidade sobre os elementos centrais de uma supervisão eficaz e ética (Rousmaniere et al., 2016; Watkins, 2020), há amplo consenso e evidência empírica de que a aliança de trabalho na supervisão (SWA) tem um papel-chave na supervisão eficaz (Apostol et al., 2025; Bordin, 1983; Watkins, 2020). Essa aliança é central para o processo e os resultados da supervisão (Watkin, 2018) e pode determinar o grau em que a pessoa supervisionada revela os desafios clinicamente relevantes que enfrenta em sua prática clínica (Mehr et al., 2010). A autorrevelação, tal como discutida neste artigo, refere-se ao compartilhamento deliberado de informações pessoais, experiências, pensamentos e sentimentos da pessoa supervisionada que possam ser relevantes para seu trabalho clínico, seu desenvolvimento profissional ou a aliança de trabalho na supervisão. Uma SWA frágil afeta negativamente a capacidade de autorrevelação da pessoa supervisionada, o que muitas vezes é um fator primordial de uma supervisão menos eficaz (Chircop Coleiro et al., 2023; Ladany et al., 1996). Sem uma revelação vulnerável dos desafios clínicos, profissionais e ligados ao self da pessoa terapeuta (self-of-the-therapist), as pessoas supervisionadas não conseguem trabalhar questões clinicamente relevantes, e a supervisão corre o risco de deixá-las isoladas em seu percurso de crescimento clínico.

Embora a supervisão clínica seja um aspecto central da formação clínica e do controle de acesso à profissão, o processo e os contextos da supervisão trazem vários desafios, tanto para PLC quanto para quem supervisiona. PLC dependem da supervisão para receber uma supervisão e uma formação proveitosas, e também para ter aprovadas as horas clínicas necessárias à diplomação ou à licença. Essa dependência pode levar as pessoas supervisionadas a deixar de compartilhar experiências pessoais, dificuldades clínicas ou outras questões que estejam prejudicando seu trabalho com a clientela (Mehr et al., 2010). A SWA e a autorrevelação da pessoa supervisionada tornam-se mais complexas quando consideramos a interseccionalidade de gênero, raça, cultura, estruturas hierárquicas e as dinâmicas de poder inerentes à supervisão clínica (Green e Dekkers, 2010; McKibben et al., 2019). Somam-se a isso as complexidades das relações duais que PLC vivem nos programas de formação com integrantes do corpo docente, que complicam ainda mais a relação.

Assim como as pessoas supervisionadas, docentes que supervisionam em programas de formação em terapia de casal, conjugal e familiar (CMFT, couple, marriage, and family therapy) enfrentam diversos desafios, alguns dos quais podem prejudicar seu trabalho com as pessoas supervisionadas. O corpo docente da pós-graduação costuma ter uma carga pesada de trabalho, composta de ensino, pesquisa, orientação, serviços e responsabilidades administrativas. A carga típica de ensino inclui de duas a quatro disciplinas por semestre, entre as quais pode estar um estágio prático. Em alguns casos, espera-se que docentes façam supervisão clínica sem que ela seja contada em sua carga de ensino. Em CMFT, espera-se que docentes ensinem e supervisionem em alto nível estudantes com expectativas, necessidades, capacidades e estilos de aprendizagem diversos. Mesmo com expectativas diferentes entre instituições, o corpo docente muitas vezes está sujeito a exigências elevadas de produtividade em pesquisa, resumidas na fórmula “publicar ou perecer”, o que gera pressão para se concentrar na redação de projetos de financiamento, na realização de pesquisas empíricas e na publicação em periódicos revisados por pares de alto impacto. Embora o corpo docente de CMFT relate em geral boa satisfação no trabalho, sobretudo quanto ao ensino (Matheson e Rosen, 2012; Viers e Blieszner, 2004), as pressões ligadas ao equilíbrio entre trabalho e família e à efetivação ou promoção podem desviar sua atenção da supervisão, reduzindo potencialmente sua capacidade de resposta às necessidades das pessoas supervisionadas, diminuindo a consciência das dinâmicas de poder e tensionando a SWA.

Dados os múltiplos níveis de poder presentes nessa relação de supervisão, as estruturas acadêmicas que criam expectativas elevadas e os fatores contextuais que se cruzam tanto em quem supervisiona quanto na pessoa supervisionada, é necessário aplicar uma perspectiva feminista para lidar eticamente com as complexidades que surgem no processo de supervisão. Assim, o objetivo deste artigo é fazer avançar a aplicação de uma perspectiva feminista à supervisão clínica e oferecer um modelo de “modo de ser” de quem supervisiona, de inspiração feminista, que aborde as complexidades das identidades da pessoa supervisora e da pessoa supervisionada e a interação entre elas. Com isso, afirmamos que não cabe a quem supervisiona produzir o crescimento pessoal e profissional necessário a PLC; cabe, porém, a quem supervisiona facilitar um contexto em que esse crescimento possa acontecer, o que envolve reconhecer o próprio poder, ter abertura à influência da pessoa supervisionada e disposição para fazer ajustes adequados em sua abordagem, e fortalecer o poder de agir das pessoas supervisionadas ouvindo e validando suas experiências. Começamos com uma vinheta clínica descritiva que exemplifica, passo a passo, as complexidades e as diferenças de poder inerentes às relações de supervisão na academia. Construída a partir das experiências da equipe de autoria e de outras pessoas, tanto na posição de supervisão quanto na de supervisionada, essa vinheta é um composto de experiências de supervisão elaborado para focalizar os fatores contextuais, as relações duais e o modo de ser de quem supervisiona que podem influenciar a SWA, com apoio da literatura que trata dessas questões. Além disso, ao apresentar esse caso, destacamos as dinâmicas de poder complexas associadas aos fatores contextuais e às relações duais e buscamos conscientizar sobre as dificuldades que podem surgir para quem supervisiona e para a pessoa supervisionada se elas não forem abordadas. Também oferecemos pontos de reflexão sobre SWA que promovam um crescimento adequado e essencial da pessoa supervisionada, em especial por meio da autorrevelação, no contexto dos programas de pós-graduação em CMFT.

Vinheta clínica

Julia Gomez é uma mulher latina cisgênero de 25 anos. Ela vem de uma família católica que imigrou do México para os Estados Unidos três anos antes de seu nascimento. Atualmente faz mestrado em uma área clínica de saúde mental e está em seu primeiro semestre de atuação clínica. Há um mês atende a família Sanders, cujos pais se queixam de problemas de comportamento da filha pré-adolescente, Elizabeth. Os Sanders, uma família branca, de classe média e cisgênero, disseram recentemente que os problemas de comportamento de Elizabeth pioraram desde o início da terapia: ela estaria respondendo, se recusando a fazer as tarefas domésticas e saindo de casa escondida. À medida que as queixas dos pais sobre o comportamento de Elizabeth aumentaram, Julia passou a ter dificuldade para fazer o caso avançar.

Como exigência de seu programa acadêmico, Julia se reúne semanalmente com um supervisor para examinar as questões relevantes de seus casos e avaliar seu desenvolvimento clínico. Um componente adicional de sua experiência de supervisão é receber uma avaliação do supervisor e uma nota na disciplina de estágio. Seu supervisor, o Dr. Thomas Martin, é um homem branco, cisgênero, de classe média, na casa dos quarenta anos. Além de ser seu supervisor clínico, o Dr. Martin é o coordenador do programa, seu orientador designado e o professor de uma disciplina de teoria que Julia cursará no ano seguinte. O Dr. Martin valoriza a oportunidade de construir relações com quem ele forma em cada um desses papéis e se esforça para equilibrar as expectativas da academia com seu desejo de ser um mentor autêntico e presente. Na primeira sessão de supervisão, Julia disse ao Dr. Martin que estava com dificuldade de avançar com os Sanders, mas minimizou essas dificuldades atribuindo-as à falta de experiência com o modelo de tratamento escolhido e pediu ajuda para aplicar o modelo. O que Julia não revelou foi que estava com dificuldade de criar vínculo com Elizabeth e de compreender o ponto de vista dela, enquanto tentava responder às preocupações dos pais. Embora não soubesse bem por que tinha essa dificuldade específica, Julia reconhecia que sua história familiar e outros fatores contextuais tinham um papel importante no modo como interagia com a família Sanders e a percebia.

Aliança de trabalho na supervisão

A SWA é um veículo primordial de desenvolvimento e mudança das pessoas supervisionadas (Lampropoulos, 2003; Nicholas e Goodyear, 2020; Park et al., 2019). Para que haja crescimento, porém, a SWA precisa oferecer espaço e incentivo para a autorreflexão e a autorrevelação (Calvert et al., 2020). Dedicar-se a construir uma SWA que priorize a condição de pessoa de quem supervisiona e da pessoa supervisionada pode aumentar a sensação de segurança da pessoa supervisionada na supervisão (Beinart, 2014), favorecendo o ambiente necessário à autorrevelação e, em última instância, aumentando sua autoeficácia (Apostol et al., 2025; Lohani e Sharma, 2023). Esse ambiente seguro, somado à maior autoeficácia e autoconsciência da pessoa supervisionada decorrentes de uma SWA sólida, leva a uma supervisão eficaz, caracterizada pela transformação da pessoa supervisionada e por resultados positivos para a clientela (Lohani e Sharma, 2023).

Um exame mais aprofundado da SWA por Zhu e colegas (2021) concluiu que a humildade cultural é um elemento essencial para construir uma SWA eficaz e segura. Wilcox e colegas (2023) reforçam essa conclusão ao constatar que uma avaliação mais alta da humildade cultural de quem supervisiona, feita por PLC, está ligada a uma SWA globalmente mais positiva. Entre as experiências de supervisão culturalmente proveitosas estão a pessoa supervisora se dedicar a aprender sobre questões multiculturais e reconhecer, abrir espaço e considerar como a cultura e a interseccionalidade afetam as diversas pessoas envolvidas no processo de supervisão (Wilcox et al., 2023; Zhu et al., 2021).

Continuação do caso: aliança de trabalho na supervisão

No primeiro encontro de supervisão, depois de breves apresentações e de uma revisão dos objetivos de Julia para a supervisão, o Dr. Martin e Julia começaram a conversar sobre seu trabalho clínico, incluindo sua carga de casos e a conceituação dos casos atuais. Nos objetivos, Julia dizia que gostaria de ajuda com questões do self da terapeuta, mas não especificou quais. Hesitava em se mostrar vulnerável com o Dr. Martin, pois era sua primeira experiência de supervisão clínica com ele, e ela tivera pouco contato com ele desde que ele falara com sua turma, como coordenador do programa, na recepção de ingressantes. À medida que a supervisão continuou ao longo do semestre, Julia seguiu hesitante em abordar questões do self da terapeuta com o Dr. Martin e priorizou perguntas de conceituação de caso e de intervenção, minimizando suas dificuldades pessoais. Julia muitas vezes sentia que a supervisão era uma obrigação ou mais um lugar onde precisava ter bom desempenho, como em outros contextos acadêmicos. Sabia que a relação de supervisão que estava construindo com o Dr. Martin não atendia às suas necessidades, mas não sabia como tratar disso com ele, nem se suas preocupações com a aliança de supervisão e suas dificuldades pessoais seriam compreendidas e validadas.

O Dr. Martin também sentiu distância e hesitação da parte de Julia no início da supervisão. Ele esperava que, à medida que a supervisão avançasse, essa hesitação diminuísse e Julia revelasse questões pessoais mais complexas e clinicamente relevantes para trabalharem juntos. O Dr. Martin relutava em perguntar cedo demais sobre a história e as experiências de vida de Julia fora do trabalho clínico, pois temia que isso causasse desconforto demais enquanto desenvolviam a aliança de supervisão. No entanto, sem o reconhecimento de sua condição de pessoa e dos vários aspectos de sua identidade, Julia continuou sem se revelar e começou a sentir que sua relação com o Dr. Martin não era um lugar de segurança (Wilcox et al., 2023; Zhu et al., 2021). Por fim, Julia continuou com dificuldade de fazer o caso da família Sanders avançar, por reter questões clinicamente relevantes do self da terapeuta que estavam afetando seu trabalho (Lohani e Sharma, 2023).

Questões de poder na supervisão

A supervisão acontece dentro de uma estrutura hierárquica, com diferenças inerentes de poder e influência entre quem supervisiona e a pessoa supervisionada. Um poder não reconhecido, não abordado ou sem limites pode ter efeitos devastadores sobre a SWA e sobre a eficácia geral da supervisão. Um desses efeitos, já estudado, é a falta de revelação, pela pessoa supervisionada, de preocupações clinicamente relevantes sobre a clientela e sobre si mesma (Ladany et al., 1996; Mehr et al., 2010). Sem ações intencionais de quem supervisiona para abordar as dinâmicas de poder na SWA, a pessoa supervisionada pode sentir falta de segurança emocional, o que limita tanto sua capacidade de se revelar quanto a eficácia da SWA (Apostol et al., 2025; Ladany et al., 1999; Mehr et al., 2010). Mehr e colegas (2010) descobriram que a maioria das pessoas supervisionadas retinha informações clinicamente relevantes de quem as supervisionava. Entre os conteúdos comumente retidos estavam insuficiências profissionais, preocupações da vida pessoal, preocupações sobre como a pessoa supervisora percebia a pessoa supervisionada e experiências negativas de supervisão. Além disso, as pessoas supervisionadas apontaram como razões para não se revelar a deferência, a percepção de consequências negativas e o gerenciamento da própria imagem (Apostol et al., 2025; Mehr et al., 2010), todas elas plausivelmente ligadas à diferença de poder entre quem supervisiona e a pessoa supervisionada. Outros resultados vão no mesmo sentido, indicando que as pessoas supervisionadas muitas vezes não se revelam por considerarem a informação sem importância, pessoal demais, ou por uma aliança ruim com quem supervisiona (Ladany et al., 1996). Em última análise, há muitas razões pelas quais uma pessoa supervisionada deixaria de revelar dificuldades na supervisão; sustentamos, porém, que a não autorrevelação se enraíza em questões de poder, algumas das quais decorrem de fatores contextuais de quem supervisiona e da pessoa supervisionada (Apostol et al., 2025; Hernández et al., 2009; Hernández e McDowell, 2010).

Continuação do caso: fatores contextuais

Embora seja vital para o desenvolvimento de PLC revelar quando têm dificuldade de fazer um caso avançar, as identidades sociais e as dinâmicas de poder podem inibir a sensação de segurança das pessoas supervisionadas para se revelar (Apostol et al., 2025). Fatores contextuais, como gênero e idade, são exemplos primordiais de como o poder pode afetar a SWA e a autorrevelação da pessoa supervisionada (Nelson et al., 2006). No caso de Julia, as diferenças contextuais entre ela e o Dr. Martin tiveram um papel em sua hesitação em revelar vulnerabilidades a ele. Em uma sociedade patriarcal, os homens recebem sobre as mulheres um poder imerecido e desmedido (MacKinnon, 1988). Esse poder é ampliado pela antiguidade do Dr. Martin em relação a Julia em experiência clínica, por sua autoridade no programa de formação e por sua idade, o que deixa Julia com a sensação de ter pouco poder para influenciar a SWA que estão construindo.

Além do gênero e da idade, a raça e a cultura influenciam a dinâmica de poder presente na relação de supervisão. Julia reconhecia que a própria cultura e sua história familiar estavam afetando seu trabalho clínico com a família Sanders. No entanto, por causa das diferenças de raça e cultura entre ela e o Dr. Martin, e da falta de discussão sobre o impacto desses fatores contextuais na supervisão, Julia hesita em tocar no assunto. Embora prejudicial ao andamento do caso da família Sanders, a hesitação de Julia em se revelar é compreensível por duas razões. Primeiro, Julia vem de uma cultura hierárquica que enfatiza a autoridade e o respeito (Díaz-Guerrero, 1975). Ela percebeu que, ao atender a família Sanders, muitas vezes tinha dificuldade de dar espaço à perspectiva de Elizabeth, deixando mais espaço para os pais expressarem sua frustração com Elizabeth sem serem questionados. Isso levou a uma ruptura na aliança terapêutica entre Julia e Elizabeth, e Julia se sentiu empacada no trabalho com a família. Como o Dr. Martin tem uma origem cultural e racial diferente da sua, Julia teme que ele não consiga entender como sua origem está afetando seu trabalho ou, pior, que julgue que seu viés a torna inapta para ser terapeuta.

Segundo, a relutância de Julia em se revelar ao Dr. Martin pode ser compreendida à luz do contexto de poder e de discriminação racial nos Estados Unidos. A discriminação contra pessoas latinas afeta todos os aspectos de sua vida cotidiana, incluindo perspectivas de trabalho, resultados educacionais, acesso à saúde e bem-estar mental e emocional (Ayón e Becerra, 2013; Findling et al., 2019; Torres et al., 2011). Os efeitos dessa discriminação disseminada podem ser ainda mais intensos para famílias imigrantes, em razão do discurso político polarizador, das deportações violentas e das práticas desumanas na fronteira dos Estados Unidos nos últimos anos (Ayón e Becerra, 2013; Cheatham e Roy, 2023). Como Julia não é apenas latina, mas também vem de uma família imigrante, hesita em revelar ao Dr. Martin como sua cultura pode estar afetando sua conceituação do caso e o tratamento dessa família, pois se preocupa com a forma como ele poderia reagir à revelação de sua origem e de sua história familiar. Seu medo é agravado pelas microagressões que já sofreu de pessoas com origens semelhantes às do Dr. Martin.

Por outro lado, embora o Dr. Martin não compartilhe as experiências culturais de Julia, ele tem consciência da discriminação contra pessoas latinas nos Estados Unidos. Acredita não ter nenhum viés pessoal em relação à cultura dela e se esforça para demonstrar isso não tratando Julia de modo diferente das outras pessoas em formação. No entanto, continua sem trazer à tona o tema de suas identidades diferentes, pelo que entende como respeito à autonomia de Julia diante de um assunto que pode ser sensível, pois teme que isso crie ainda mais distância entre os dois na relação de supervisão.

Relações duais

Embora a supervisão inclua um extenso processo de avaliação e de controle de acesso à profissão (Russell et al., 2007), ela é também uma experiência de formação íntima e colaborativa (Stargell et al., 2020). Essas duas dinâmicas, que muitas vezes geram tensão, exigem muita clareza sobre o papel de cada parte na supervisão, incluindo as respectivas responsabilidades e a forma de lidar com conflitos ou medidas de remediação. Por exemplo, o processo de avaliação inerente à supervisão pode aumentar a ansiedade de PLC, especialmente em situações de controle de acesso à profissão, possivelmente a ponto de o nível de ansiedade prejudicar seu desempenho clínico e sua capacidade de aprender (Ellis et al., 2015; Lambie et al., 2023). No entanto, quando quem supervisiona também exerce, junto à pessoa PLC, a docência, a orientação principal, a participação em banca e/ou a mentoria de pesquisa etc., como se vê especialmente nos programas acadêmicos de terapia de casal, conjugal e familiar (CMFT), pode ficar cada vez mais difícil esclarecer e manter os papéis da supervisão.

Biaggio e colegas (1997) comparam a relação terapeuta-cliente às relações entre docentes e pessoas subordinadas, descrevendo como cada membro da relação que detém poder recompensa, desaprova, coage ou persuade a outra parte. Embora semelhantes à relação terapeuta-cliente, as relações entre docentes e pessoas subordinadas costumam se caracterizar por relações duais inevitáveis (Koocher e Keith-Spiegel, 2016), que muitas vezes deixam estudantes e pessoas supervisionadas desconfortáveis na relação ou, no pior dos casos, discriminadas (Biaggio et al., 1997; Kitchener, 1988). Embora ainda não tenha sido estudado, também se poderia argumentar que as relações duais entre quem supervisiona e a pessoa supervisionada têm benefícios nos contextos acadêmicos. Por exemplo, os papéis múltiplos oferecem mais oportunidades de aprofundar a confiança e o respeito mútuos das relações de mentoria, que podem enriquecer muito além da formação clínica e florescer em vínculos para a vida toda (Barnett et al., 2002). Contudo, Kolbert e colegas (2002) constataram que docentes que exercem papéis duais muitas vezes não percebem as percepções negativas que estudantes têm dessas relações duais, o que aumenta o risco de tratamento injusto e de falta de autorrevelação nas relações de supervisão com docentes. Equilibrar as pressões desses papéis distintos pode deixar PLC andando na corda bamba para evitar um suicídio acadêmico e político (Ladany et al., 1996), esforçando-se para garantir que nada do que digam ou façam traga consequências negativas (Mehr et al., 2010). É possível que as múltiplas relações que uma universidade espera que quem supervisiona tenha com PLC gerem desconfiança e minem a coconstrução de uma SWA saudável, culturalmente sensível e eficaz.

Além disso, as exigências que a universidade faz a docentes que supervisionam, de publicar e se destacar em muitas outras áreas, podem deixar a supervisão em segundo plano, às vezes restando pouco tempo e energia para uma supervisão eficaz. Isso pode explicar por que uma queixa comum das pessoas supervisionadas é que a supervisão ofereceu observação e feedback insuficientes (Ladany et al., 2013). Além disso, a pressão do contexto acadêmico mais amplo pode levar à potencial exploração de pessoas supervisionadas para ganhos acadêmicos (Cohen e Baruch, 2022), o que prejudicaria ainda mais a aliança, apesar de códigos de ética claros que proíbem a exploração de pessoas em posição subordinada (AAMFT, 2015; ACA, 2014; APA, 2017; NASW, 2021). Em última análise, isso também pode impedir a autorrevelação de PLC, em razão de lealdades mutáveis e às vezes conflitantes entre elas e quem as supervisiona, enquanto ambas as partes tentam navegar em um sistema ecológico acadêmico mais amplo.

Continuação do caso: relações duais

Outro aspecto a considerar ao conceituar a falta de autorrevelação de Julia são as múltiplas relações entre Julia e o Dr. Martin. Como é comum nos programas de CMFT, Julia e o Dr. Martin atuam em vários papéis diferentes que se cruzam. Julia, além de supervisionada, é uma profissional da clínica ainda sem licença, orientanda e estudante; o Dr. Martin, além de supervisor, é também coordenador do programa, professor, pesquisador, orientador e clínico em atividade. Apesar de os códigos de ética clínica recomendarem que quem supervisiona evite relações duais sempre que possível (AAMFT, 2015), os muitos papéis que se exercem nos programas acadêmicos e de formação muitas vezes tornam isso impossível. Para Julia, a relutância em se revelar vai além da vulnerabilidade diante de um supervisor, pois significa que ela também estaria compartilhando aspectos de sua vida pessoal e de suas dificuldades com o coordenador do programa, seu professor e seu orientador. As consequências ligadas a essa relação dual preocupam Julia, que teme que compartilhar suas dificuldades seja visto como um mau desempenho em seu papel de terapeuta, o que poderia afetar a forma como o Dr. Martin avalia seu nível de competência nos outros papéis em que também é avaliada por ele.

As informações que ela compartilha com o Dr. Martin na supervisão não são esquecidas quando o Dr. Martin muda de papel e passa a ser professor da disciplina ou orientador. Essas informações moldam inevitavelmente a percepção que o Dr. Martin tem de Julia ao longo de toda a pós-graduação, ainda que sem intenção, influenciando assim a forma como ele interage com ela nos outros papéis. Essas relações adicionais aumentam o poder que o Dr. Martin tem sobre Julia, o que reforça a relutância dela em se revelar, prejudicando seu crescimento como terapeuta e o progresso das pessoas que ela atende.

Modo de ser

O modo de ser de quem supervisiona reflete seu self no momento presente, ao se relacionar com os outros (Davis et al., 2021; Fife et al., 2014). O modo de ser é um conceito fundamentado na filosofia relacional de Martin Buber, que propôs que, em qualquer momento, nos relacionamos com os outros de uma de duas maneiras: como objetos (Eu-Isso) ou como pessoas reais (Eu-Tu) (Buber, 1958). Quando nos relacionamos com os outros no modo Eu-Isso, nós os vemos como obstáculos, veículos ou irrelevâncias (Fife, 2015). Quando nos relacionamos no modo Eu-Tu, respondemos à humanidade dos outros, reconhecendo que, como nós, as outras pessoas têm necessidades, esperanças, planos e desafios próprios. Um modo de ser Eu-Tu inclui o processo de refletir sobre a própria posição social, os próprios lugares de poder e a própria interseccionalidade (Zu, 2022). As múltiplas relações que quem supervisiona mantém com PLC exigem um modo de ser responsivo e confiável que atravesse cada uma dessas relações. O modo de ser de quem supervisiona afeta diretamente a vulnerabilidade da pessoa PLC e sua disposição para se revelar (Hutman et al., 2023; Stargell et al., 2020). Por exemplo, uma pessoa supervisionada que se sente um obstáculo ou um incômodo para quem a supervisiona terá menos probabilidade de compartilhar detalhes de suas dificuldades. Por outro lado, quando a atenção de quem supervisiona está voltada para a pessoa supervisionada e responde às suas necessidades, esta pode se mostrar mais vulnerável ou aberta sobre os desafios que está vivendo. O Código de Ética da AAMFT enfatiza que quem supervisiona em CMFT deve tomar todas as precauções necessárias para evitar relações prejudiciais a PLC (AAMFT, 2015). Portanto, é responsabilidade de quem supervisiona manter atenção ao próprio modo de ser ao oferecer supervisão e ao modo como isso pode estar ajudando ou atrapalhando as pessoas supervisionadas.

Continuação do caso: modo de ser

Por causa dos múltiplos papéis que se espera que o Dr. Martin exerça e das exigências de seu cargo na universidade, ele muitas vezes se sente sobrecarregado e sem tempo suficiente para preparar a supervisão clínica com Julia. Embora goste de seu papel de supervisor, o Dr. Martin reconhece que outras tarefas recebem mais reconhecimento em sua posição acadêmica. Em um encontro recente de supervisão, Julia chegou com perguntas prontas sobre a aplicação de uma intervenção específica em seu trabalho com a família Sanders. O Dr. Martin sabia que precisava abordar outros aspectos do desenvolvimento de Julia além da aplicação de modelos e intervenções terapêuticas, mas se sentia particularmente esgotado naquele semestre por causa de um projeto de pesquisa exigente e de uma carga administrativa pesada. Embora um pouco distraído por essas responsabilidades, ele voltou a atenção para a supervisão e começou a fazer a Julia perguntas sobre o self da terapeuta, sem antes abordar a distância que sentia em relação a ela e sua evidente falta de autorrevelação. Quando encontrou resistência da parte de Julia, respondeu com menos compaixão do que de costume e continuou pressionando Julia na direção de mais autoconsciência e autorrevelação. Julia começou a se sentir ansiosa e disse que estava desconfortável e sem saber se queria responder a mais perguntas pessoais. Depois de um comentário do Dr. Martin sobre a importância da autorreflexão, eles voltaram a falar de um novo modelo terapêutico que ela queria experimentar com a família Sanders, na esperança de que ele desencadeasse algum progresso. Encerraram a supervisão um pouco mais cedo, e o Dr. Martin sabia que precisava agir de outra forma se quisesse ajudar Julia a se desenvolver como uma clínica competente.

Abordar fatores contextuais, relações duais e modo de ser na supervisão: feminismo e terapia familiar feminista

À medida que a atenção às questões das mulheres continuou a crescer, de meados ao fim do século XX, os modelos de terapia familiar passaram a ser criticados por não reconhecerem o papel do gênero nos sistemas familiares (Evans et al., 2005; Goodrich et al., 1988; Hare-Mustin, 1978; Hall e Greene, 1994; Holmes, 2023; Silverstein e Goodrich, 2003; Walters et al., 1988). Disso surgiu um referencial de terapia familiar feminista com três componentes principais: o feminismo é humanista e se volta para as regras que ditam os padrões de interação entre homens e mulheres; as experiências das mulheres devem ser ouvidas e consideradas em pé de igualdade nas relações, nas famílias e na sociedade; e o feminismo se volta para o papel da sociedade, que perpetua crenças sexistas e de dominação masculina, e não para o papel do indivíduo (Walters et al., 1988). À medida que as feministas continuaram a defender a igualdade, definições ampliadas de feminismo ganharam popularidade. As novas definições se concentraram na interseccionalidade, termo cunhado por Crenshaw (1989, 1995). Bowleg (2012) oferece uma definição clara para compreender a importância da interseccionalidade para o feminismo:

A interseccionalidade é um referencial teórico para compreender como múltiplas identidades sociais, como raça, gênero, orientação sexual, nível socioeconômico e deficiência, se cruzam no nível micro da experiência individual para refletir sistemas interligados de privilégio e opressão (isto é, racismo, sexismo, heterossexismo, classismo) no nível macro, socioestrutural. (p. 1267)

Com uma visão mais inclusiva, o feminismo e a terapia familiar feminista destacam o caráter cumulativo da discriminação que as minorias enfrentam em razão de suas múltiplas identidades sociais, como classe, cultura, raça e orientação sexual (Almeida, 1994; Brown, 2016; Gunderson, 2022; Hill e Ballou, 2005; Silverstein e Goodrich, 2003; Turan et al., 2019; Walters et al., 1988; Wandschneider et al., 2022). Assim, este artigo dá continuidade à conversa sobre interseccionalidade, recorrendo a princípios da terapia familiar feminista e do movimento feminista para destacar as dinâmicas de poder e as identidades sociais em jogo na SWA.

Um “modo de ser” de inspiração feminista

A não autorrevelação das pessoas supervisionadas é comum na área clínica de saúde mental, um padrão que não deixa de ter consequências, como impactos negativos na SWA e resultados piores para as pessoas supervisionadas e para a clientela (Lohani e Sharma, 2023). Para mudar essa tradição, propomos que quem supervisiona adote um modo de ser de inspiração feminista, escolhido especificamente para incentivar a autorrevelação de experiências pessoais e de questões clinicamente relevantes pelas pessoas supervisionadas, o que é essencial para que a supervisão seja eficaz (Mehr et al., 2010; Staples-Bradley et al., 2019). A incorporação de princípios feministas e o desenvolvimento de intervenções específicas de supervisão feminista não são ideias novas (Brown, 2016; Porter e Vasquez, 1997; Prouty et al., 2001). No entanto, dar mais atenção às perspectivas feministas na supervisão clínica e aplicá-las mais pode ter um impacto positivo significativo na SWA e na autorrevelação das pessoas supervisionadas. Incentivamos o uso de métodos feministas de supervisão, como usar uma linguagem que fortaleça o poder de agir e reconhecer as diferenças de poder existentes nas relações de supervisão (Brown, 2016; Porter e Vasquez, 1997; Prouty et al., 2001). Além disso, defendemos uma abordagem colaborativa para reduzir o desequilíbrio de poder e insistimos para que quem supervisiona promova conversas e aprendizagens multiculturais com as pessoas supervisionadas (Brown, 2016; Porter e Vasquez, 1997; Prouty et al., 2001; Wilcox et al., 2023; Zhu et al., 2021). Adotar uma orientação feminista e engajar-se em aprendizagens multiculturais são fatores facilitadores de uma supervisão eficaz e podem ajudar ainda mais a criar uma SWA sólida, na qual a pessoa supervisionada se sinta segura para se revelar (McKibben et al., 2019; Wilcox et al., 2023; Zhu et al., 2021).

Adotar um modo de ser de inspiração feminista exige que quem supervisiona envolva ativamente PLC em conversas sobre diferenças de cultura, identidade e poder e suas implicações (McKibben et al., 2019; Walsh et al., 2017). A sensibilidade à diversidade e a humildade cultural começam por quem supervisiona, e cabe a essa pessoa introduzir, conduzir, avaliar e elaborar temas e práticas culturais, contextuais e interseccionais. Isso exige que quem supervisiona priorize seu modo de ser com as pessoas supervisionadas mais do que comportamentos específicos de supervisão (Anderson, 2012; D'Aniello et al., 2016; Fife et al., 2014). Como já mencionado, o modo de ser é um conceito definido como “uma maneira de se posicionar com” outra pessoa (Anderson, 2012, p. 13; Davis et al., 2021). O conceito de “modo de ser” foi discutido por outras pessoas, com foco em seus benefícios para a relação terapêutica. Fife e colegas desenvolveram um metamodelo, a pirâmide terapêutica, que propõe o modo de ser como o alicerce de relações terapêuticas eficazes (Fife et al., 2014). Como a relação de supervisão é isomórfica à relação terapêutica (Watkins, 2017), dar ênfase ao modo de ser de quem supervisiona pode ter efeitos benéficos sobre a SWA (Watkins, 2018). Por isso, propomos uma adaptação da pirâmide terapêutica desenvolvida por Fife e colegas (2014), ajustada a um referencial de supervisão de inspiração feminista, com ênfase no modo de ser de quem supervisiona.

Como explicou a equipe que criou a pirâmide terapêutica, “o modo de ser se refere à atitude, no momento presente, que terapeutas têm em relação à clientela e oferece um alicerce para a aliança terapêutica” (Fife et al., 2014, p. 24). No entanto, para realmente “valorizar a condição de pessoa da clientela e colocar as necessidades da clientela em primeiro lugar” (Fife et al., 2014, p. 25), é preciso considerar o contexto em que essa condição de pessoa está situada. Da mesma forma, se quem supervisiona espera construir uma SWA sólida e incentivar a autorrevelação necessária ao desenvolvimento da pessoa supervisionada, precisa também “valorizar a condição de pessoa [da pessoa supervisionada] e colocar as necessidades [da pessoa supervisionada] em primeiro lugar” (Fife et al., 2014, p. 25).

Nossa adaptação da pirâmide terapêutica (fig. 1) destaca aspectos da identidade social que a terapia familiar feminista enfatiza em sua prática, incorporando fatores contextuais ao alicerce do modo de ser de quem supervisiona. Cada “tijolo” de fator contextual compõe e influencia o modo de ser de quem supervisiona, ressaltando a importância de os princípios da terapia familiar feminista estarem embutidos no alicerce da SWA. À medida que quem supervisiona considera cada tijolo de fator contextual da pessoa supervisionada, constrói um modo de ser de supervisão de inspiração feminista, valoriza a condição de pessoa da pessoa supervisionada e fica em melhores condições para lidar com as diferenças de poder que afetam a relação de supervisão. No entanto, dados os múltiplos papéis que quem supervisiona pode exercer em relação às pessoas supervisionadas, a aplicação dessas ideias deve se estender para além da SWA quando se trabalha com PLC. Incentivamos quem tem múltiplos papéis junto às pessoas que supervisiona a manter esse modo de ser na sala de aula, na orientação, na mentoria de pesquisa e em outras atividades frequentemente presentes nos programas acadêmicos e de formação. Assim, evita-se a dualidade de identidades e é possível manter de forma mais consistente uma relação Eu-Tu com as pessoas supervisionadas, favorecendo um ambiente seguro e inclusivo para a autorrevelação e o desenvolvimento clínico (Nicholas e Goodyear, 2020).

Pirâmide em três níveis: na base, um muro de tijolos (capacidade, nível socioeconômico, orientação sexual, etnia, gênero, cultura, religião, idade, raça) envolve o modo de ser; acima, a aliança de trabalho na supervisão; no topo, as habilidades e técnicas.
Figura 1. Pirâmide de supervisão de inspiração feminista. Nota: adaptada da pirâmide terapêutica (Fife et al., 2014) (esquema original em inglês).

Perguntas de reflexão para quem supervisiona

A seguir estão perguntas para quem supervisiona, com o objetivo de incentivar a reflexão sobre as práticas atuais de supervisão, as áreas de desconforto e as maneiras de aplicar um modo de ser de inspiração feminista ao próprio estilo de supervisão. Convidamos as pessoas leitoras que exercem a função de supervisão, especialmente em programas acadêmicos com PLC, a considerar com cuidado essas perguntas enquanto refletem sobre a vinheta clínica e sobre as próprias experiências de supervisão.

  • Como eu descreveria meu modo de ser atual com as pessoas que supervisiono? Há aspectos do meu modo de ser atual que ajudam e/ou prejudicam?
  • A quais fatores contextuais (ou “tijolos” da pirâmide) preciso dar mais atenção no trabalho com as pessoas que supervisiono? Quanto me sinto à vontade para discutir questões de identidade, cultura, interseccionalidade e influências sistêmicas com essas pessoas? O que pode estar me impedindo? Como posso incentivar conversas sobre essas questões com as pessoas que supervisiono, em benefício da nossa SWA e da prática clínica delas?
  • Que dinâmicas de poder implícitas existem nas minhas relações de supervisão, e como lido com elas atualmente? Como eu poderia lidar com as dinâmicas de poder na supervisão de forma a favorecer mais autorrevelação por parte das pessoas supervisionadas?
  • Quais são os próximos passos concretos que posso dar para criar um ambiente de supervisão que promova a autorrevelação das pessoas supervisionadas?

Aplicação da pirâmide de supervisão de inspiração feminista

Como se vê na vinheta clínica, quando se examinam o modo de ser de quem supervisiona e a SWA por uma lente feminista, questões de gênero, raça, cultura, estruturas hierárquicas e dinâmicas de poder se tornam evidentes. Além da consciência desses fatores, é importante compreender que o modo de ser Eu-Tu descrito por Buber inclui “uma resistência contínua às generalizações, universalidades e categorias que obscurecem a singularidade irredutível do Outro” (Fife, 2015, p. 211). Assim, um modo de ser que facilite um diálogo seguro e aberto sobre as preocupações ou dificuldades das pessoas supervisionadas é consciente dos diferentes aspectos de suas identidades e responde a eles, mas não as classifica segundo esses fatores. Quem supervisiona e “realmente tem em mente” a pessoa supervisionada terá “a intenção de estabelecer uma relação mútua viva entre ele mesmo [sic] e elas” (Buber, 1965, p. 19). A seguir, apresentamos uma continuação da vinheta clínica em que o supervisor aplica um modo de ser de inspiração feminista em sua supervisão, considera as perguntas de reflexão propostas e implementa mudanças a partir de suas necessidades e experiências.

Continuação do caso: modo de ser de inspiração feminista

Depois do tenso encontro de supervisão anterior com Julia, o Dr. Martin conversa com outro membro do corpo docente sobre como poderia reparar sua SWA com Julia, para que possam abordar questões mais vulneráveis do self da terapeuta. Essa pessoa observa que diferenças de posição social e de poder podem estar afetando a SWA, o que intriga o Dr. Martin. Ao longo de sua carreira, ele teve consciência da importância de temas como privilégio e poder e incentivou as pessoas que supervisionava e estudantes a estarem conscientes dessas dinâmicas em sua relação terapêutica com a clientela. No entanto, reconhece que sua compreensão da humildade cultural nem sempre se traduziu bem em sua relação com as pessoas que supervisiona. Depois de refletir sobre suas práticas atuais de supervisão, decide abordar o assunto com delicadeza com Julia no próximo encontro de supervisão. Faz o possível para facilitar um ambiente seguro, reconhecendo com empatia os desafios que ela pode estar vivendo na relação entre os dois, incluindo as questões de gênero, idade, raça, cultura e relações duais, e verificando com ela, o tempo todo, se esses desafios que ele percebe precisam ser esclarecidos ou são validados. Ele também pede desculpas por não ter tido essa conversa no início do trabalho conjunto. Ele se importa genuinamente e demonstra uma curiosidade humilde ao pedir que ela explique melhor como tem sido essa experiência para ela. Sentindo a sinceridade dele, Julia compartilha suas preocupações e por que hesitou em revelar suas dificuldades, destacando em especial o medo de que ele desenvolva uma percepção negativa de suas capacidades como terapeuta, que poderia se estender a interações futuras no programa, como aulas e orientação. Ele faz mais perguntas e escuta com atenção enquanto Julia fala mais sobre seus sentimentos. O Dr. Martin se esforça para abrir mão de poder, comprometendo-se a permanecer atento às preocupações que ela expôs. Agradece a Julia pela vulnerabilidade, e juntos discutem um plano para que a supervisão seja mais significativa e constantemente segura para ela revelar o que está enfrentando. Ele também pergunta se podem continuar a conversar sobre as experiências de Julia na supervisão e sobre outras preocupações que ela possa ter daqui para a frente, ao longo de todo o tempo de supervisão. Diz que espera aprender com a experiência dela para poder estar atento à criação de segurança para outras pessoas em formação.

O Dr. Martin, como parte de suas exigências de educação continuada, busca mais formação em supervisão, especialmente sobre como lidar com o poder na supervisão e sobre as formas como a SWA é influenciada pela interseccionalidade de quem supervisiona e da pessoa supervisionada. Ele continua a conversar com Julia e com todas as pessoas que supervisiona sobre as dinâmicas de poder em suas SWA. Em novas relações de supervisão, aborda as questões de poder como preocupação primordial e alicerce da SWA, para facilitar ainda mais a segurança e a autorrevelação necessária. Além disso, ao passar, junto às pessoas que supervisiona, para o papel de coordenador do programa, professor de disciplina, mentor de pesquisa ou orientador, ele permanece atento ao próprio modo de ser e se esforça para ser coerente em suas relações e manter o compromisso de abordar o poder e a interseccionalidade.

Conclusão

Este artigo explorou a utilidade das práticas de supervisão clínica aplicando-lhes uma lente feminista. Mais especificamente, examinamos as dinâmicas de poder presentes nas relações de supervisão com profissionais da clínica ainda sem licença, que muitas vezes levam à não autorrevelação das pessoas supervisionadas. Ao aplicar princípios feministas ao modo de ser de quem supervisiona e ao considerar a interseccionalidade das identidades da pessoa supervisora e da pessoa supervisionada, docentes que supervisionam podem reduzir o desequilíbrio de poder inerente à relação de supervisão. A qualidade da supervisão e da aliança de trabalho na supervisão pode ser ampliada quando quem supervisiona encarna um modo de ser que reconhece com humildade a combinação dos fatores contextuais de quem supervisiona e da pessoa supervisionada como componentes imperativos da SWA: um modo de ser coerente entre os diferentes papéis de supervisão e as inevitáveis posições de poder; um modo de ser que demonstra uma forma saudável de lidar com essas questões difíceis, não apenas para as pessoas supervisionadas, mas com elas; um modo de ser radicalmente atento ao que é preciso para facilitar um ambiente de supervisão seguro e incentivar uma autorrevelação adequada e imperativa para o desenvolvimento da pessoa supervisionada.

Embora nossa vinheta clínica ofereça exemplos de comportamentos que podem ocorrer com um modo de ser de inspiração feminista, a aplicação dos princípios feministas na supervisão é idiossincrática a cada pessoa supervisora e a cada contexto de supervisão, e cada pessoa supervisora deve avaliar como pode adotar pessoalmente um modo de ser de inspiração feminista. A ausência intencional de comportamentos prescritivos neste artigo funciona como ponto de autorreflexão para que cada pessoa leitora avalie seu modo de ser atual e explore como ele pode abraçar plenamente uma abordagem de inspiração feminista. Como parte que detém o poder, cabe a quem supervisiona a responsabilidade de fazer a própria avaliação e de ser a principal instância avaliadora da SWA, em vez de transferir essa responsabilidade para a pessoa supervisionada. Deixar a avaliação para a pessoa supervisionada pode perpetuar um ambiente de supervisão inseguro. Incentivamos as pessoas que se identificam com esta mensagem a compartilhá-la com ousadia com quem supervisiona em seus círculos sociais. Esperamos que, em toda parte, quem supervisiona acolha este modelo de supervisão de inspiração feminista enquanto ensinamos, orientamos e acompanhamos a próxima geração da clínica em saúde mental, e que profissionais da clínica ainda sem licença se sintam em segurança e com poder de agir para se mostrar vulneráveis na supervisão.

Complexe Systémique: a reter

O artigo desloca a questão da supervisão: o silêncio da pessoa supervisionada não é uma resistência a vencer, mas uma resposta coerente a um contexto. Quando a mesma pessoa supervisiona, dá nota, leciona e coordena o programa, cada confidência circula de um papel a outro; calar-se torna-se uma forma razoável de se proteger. Leitura muito sistêmica, no fundo: é a configuração das relações que produz o sintoma, e o isomorfismo entre supervisão e terapia obriga a tratar a pessoa supervisionada como se gostaria que as famílias fossem tratadas. A vinheta mostra bem o fracasso de uma boa vontade que ignora as diferenças de gênero, idade, raça e cultura. É de lamentar que a reparação dependa inteiramente da lucidez do supervisor e que a instituição, que organiza esses papéis múltiplos, não seja mais questionada. Os limites são os de um texto conceitual: uma vinheta composta, nenhum dado empírico, um contexto universitário estadunidense. Para ler junto com o artigo sobre a supervisão na terapia sistêmica e com a revisão das pesquisas discursivas sobre poder e diálogo.

Notas do original

Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver conflitos de interesse.

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Tradução não oficial em português de Supervisão emancipadora na academia: cultivar um modo de ser de inspiração feminista para incentivar a autorrevelação de pessoas supervisionadas, de Jennah Hanson-Daley, Travis J. Spencer, Jeremy L. Pierce e Stephen T. Fife, Contemporary Family Therapy, vol. 48, no 2 (2026), doi: 10.1007/s10591-025-09756-w, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (figura em inglês). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Empowering Supervision in Academia: Fostering a Feminist-Informed Way of Being To Encourage Supervisee Self-Disclosure”, publicado em Contemporary Family Therapy (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Hanson-Daley, J., Spencer, T. J., Pierce, J. L., et Fife, S. T. (2026). Supervisão emancipadora na academia: cultivar um modo de ser de inspiração feminista para incentivar a autorrevelação de pessoas supervisionadas (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/supervisao-emancipadora-na-academia-um-modo-de-ser-de-inspiracao-feminista (Obra original publicada em 2025 em Contemporary Family Therapy, 48(2), 209-220 (2026); republicada em 2026 por Contemporary Family Therapy, https://link.springer.com/article/10.1007/s10591-025-09756-w)

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