Family Process · Terapia familiar
As abordagens colaborativas e o Diálogo Aberto convidam terapeutas a abrir mão de seu poder: a expertise é da pessoa atendida, todas as vozes valem o mesmo. Mas o que mostram as gravações de sessões? Ben Ong, Eleftheria Tseliou, Tom Strong e Niels Buus revisaram dezoito estudos que as analisam linha a linha. O poder nunca desaparece: muda de forma. A pessoa terapeuta escolhe quem fala e sobre o quê, recoloca a segurança na pauta, orienta para os recursos. E talvez seja essa direção, assumida e leve, que torna o diálogo possível.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Poder e diálogo: uma revisão das pesquisas discursivas, de Ben Ong, Eleftheria Tseliou, Tom Strong e Niels Buus, publicado na Family Process (Wiley) (2023), doi: 10.1111/famp.12881, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As duas figuras (diagrama PRISMA e síntese dos temas) não são reproduzidas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
O exercício do poder não só é compatível com a prática colaborativo-dialógica, como pode ser de fato necessário para promover conversas dialógicas.
Ben Ong, Eleftheria Tseliou, Tom Strong e Niels Buus
Resumo
As abordagens colaborativo-dialógicas da terapia familiar recomendam a terapeutas que adotem a posição da pessoa atendida como especialista e promovam a igualdade de múltiplas perspectivas. Isso levou a debates sobre como conceituar o poder nas terapias dialógicas, com trabalhos que teorizam e investigam o poder como social e negociado na interação. Buscamos compreender o poder na terapia dialógica revisando as pesquisas discursivas sobre conversas terapêuticas. Realizamos uma busca sistemática nas bases bibliográficas PsycINFO, PubMed e CINAHL. Revisamos os resultados de 18 estudos que utilizaram análises discursivas de sessões de terapia colaborativo-dialógica e examinamos seus resultados em relação ao poder nas interações. Encontramos um forte foco nas práticas de quem conduz a terapia, e não nas da clientela. A ação terapêutica era apresentada como um catalisador do diálogo, que usa respostas mínimas e ativas para promover conversas dialógicas. O poder também era exercido pela equipe terapêutica em resposta a demandas institucionais e sociais mais amplas, que podem não ser coerentes com algumas interpretações da terapia dialógica. Consideramos as implicações para a prática, em que o exercício do poder para dirigir uma sessão facilita as interações dialógicas.
Este artigo revisa as pesquisas atuais que usam análises discursivas das interações nas abordagens colaborativo-dialógicas da terapia familiar para investigar o exercício do poder. O conceito de poder tem sido uma influência recorrente no desenvolvimento da terapia familiar. A terapia familiar sistêmica foi fortemente influenciada pela perspectiva cibernética de Bateson (1987), que via as famílias como sistemas comunicacionais dotados de mente e regidos por causalidade circular. Bateson (1987) propunha, porém, que o poder sobre o outro implicava uma relação linear, epistemologicamente equivocada, porque via as pessoas como situadas em relações cibernéticas que as restringem reciprocamente (Flaskas e Humphreys, 1993). Considerou-se que essa visão sugeria que cada pessoa era igualmente responsável por manter qualquer padrão de comportamento, até mesmo o abuso, o que se tornou uma posição indefensável do ponto de vista da justiça social e do feminismo (Goldner, 1985; Hare-Mustin, 1987; MacKinnon e Miller, 1987).
Os anos 1980 viram na terapia familiar uma reviravolta, provocada pelo feminismo e pelo construcionismo social, na forma de conceituar as relações e o poder (Flaskas, 2002). Numa perspectiva construcionista social, o significado e a compreensão, incluindo as concepções de poder, são vistos como dependentes de processos sociais (Goldner, 1985; Hare-Mustin, 1987; MacKinnon e Miller, 1987). A obra de Foucault (1979, 2002) enfatizava que o poder não deveria ser visto simplesmente como uma força restritiva exercida por alguém, mas também como uma força constitutiva, distribuída e inscrita nos discursos hegemônicos e nas práticas sociais. Foucault argumentava que “poder/saber” deveriam ser vistos como inseparáveis e sugeria que as pessoas se autorregulam, assim como suas interações com os outros, em relação a um poder/saber onipresente. O poder não era visto como o exercício “negativo” e coercitivo da força, mas como uma força constitutiva, “positiva”, manifestada por meio de práticas e interações sociais. Nessa visão, ninguém detém o poder, e ele não pode ser removido das interações; mas pode ser contestado e, em certa medida, resistido de dentro das relações de poder. Apesar dessa concepção pós-moderna do poder, a terapia familiar parecia continuar a ver o poder como negativo e como algo a evitar, e abordagens de terapia familiar foram modificadas, ou novas abordagens desenvolvidas, buscando contrabalançar o poder terapêutico nas interações terapêuticas (Flaskas e Humphreys, 1993).
Nos Estados Unidos, Anderson e Goolishian (1988) desenvolveram a abordagem dos sistemas de linguagem colaborativos, enquanto na Finlândia Seikkula e colegas desenvolveram o Diálogo Aberto (Haarakangas et al., 2007; Seikkula e Arnkil, 2006). Ambas as abordagens se apoiam numa visão construcionista social da linguagem e do significado (Guilfoyle, 2003), inspirando-se em Bakhtin (1981), Shotter (1996, 2006) e Andersen (1987). Vamos chamá-las de abordagens colaborativo-dialógicas (Anderson e Gehart, 2022) e, embora haja diferenças, sustentamos que elas promovem uma orientação fundamentalmente semelhante da prática terapêutica, que descrevemos a seguir.
Nas abordagens colaborativo-dialógicas, as relações humanas são definidas e organizadas por uma interação comunicativa ativa e criativa, e não por papéis sociais, estruturas, relações de poder e hierarquias preexistentes (Anderson e Goolishian, 1988). A linguagem não se limita a representar a realidade; ela é um recurso usado para construir nossas visões da realidade. Numa perspectiva bakhtiniana (1981), a identidade de uma pessoa se desenvolve por meio das interações com os outros. A cada interação, as pessoas trazem suas maneiras singulares de explicar e compreender o mundo; assim, ao escutar o outro, nossas próprias ideias se adaptam e mudam, e novos significados podem emergir. Além disso, é na interação que os “problemas” de um sistema são definidos e, consequentemente, é por meio de uma troca dialógica que novos significados e compreensões podem emergir e os problemas podem ser redefinidos ou dissolvidos (Anderson e Goolishian, 1988).
Nas abordagens colaborativo-dialógicas, a pessoa terapeuta ocupa duas posições que representam uma tensão entre colaboração e poder (Anderson e Goolishian, 1988). Primeiro, assume o papel de participante-observador e cocria com a clientela uma compreensão comum do problema a partir de “uma posição igualitária e não hierárquica” (Anderson e Goolishian, 1988, p. 9). Isso inclui uma posição de abertura (Galbusera e Kyselo, 2018) ou de não saber (Anderson e Goolishian, 1992), uma postura de curiosidade que consiste em se colocar sempre em posição de se deixar “informar” pelas pessoas atendidas (Anderson e Goolishian, 1992, p. 29), que têm a expertise de sua própria experiência vivida (Anderson, 2005). Cabe-lhe também contribuir para o diálogo adotando uma postura “pública” (Anderson, 2005, p. 500) ou “autêntica” (Galbusera e Kyselo, 2018), respondendo e compartilhando aspectos de seu próprio diálogo interior, que surgem ao longo da conversa (Seikkula, 2008). Isso ajuda a construir uma nova linguagem compartilhada entre todas as pessoas presentes (Seikkula, 2008). Terapeuta e pessoa atendida participam, assim, mutuamente de uma investigação compartilhada, e quem conduz a terapia oferece suas opiniões e especulações com cautela, respeito e abertura à correção (Anderson, 1995). Segundo, assume o papel de participante gestor da conversa, de “mestre artista da conversa, um arquiteto do diálogo” (Anderson e Goolishian, 1988, p. 1-2). Isso implica a responsabilidade flexível de facilitar uma conversa dialógica em que novos significados e compreensões (o “ainda não dito”) possam emergir (Anderson e Goolishian, 1988, p. 1) e múltiplas perspectivas sejam expressas, “cada uma de um lugar de participação singular, mas igual” (Haarakangas et al., 2007, p. 228), sem direcionar o conteúdo ou o desfecho da conversa para a mudança (Seikkula, 2008).
Um aspecto central das abordagens colaborativo-dialógicas é o conceito de polifonia, ou de múltiplas perspectivas, tanto dentro de uma pessoa quanto entre pessoas (Seikkula, 2008). A equipe terapêutica busca fazer emergir as múltiplas vozes das famílias numa sessão e refletir sobre suas próprias conversas interiores (Seikkula, 2008). Rober (1999) descreve como a pessoa terapeuta pode estar atenta às perspectivas internas de seu papel profissional, que refletem compreensões e hipóteses teóricas, e de seu eu pessoal, que envolve suas experiências, sentimentos e associações que surgem no encontro. Ao responder à família, convém refletir sobre essa conversa interior para evitar concentrar-se demais no eu pessoal (Rober, 1999) ou exercer poder promovendo discursos sociais normalizadores (Rober, 2008). Ao equilibrar suas obrigações profissionais e as múltiplas perspectivas da pessoa atendida e da família, quem conduz a terapia administra múltiplas posições e as relações de poder a elas associadas. Nesse sentido, pode-se considerar que a pessoa terapeuta evita usar o poder para dirigir a conversa a um desfecho específico e busca distribuir mais igualmente o poder e a influência entre os membros da família. O papel terapêutico na abordagem colaborativo-dialógica representa, assim, uma tensão entre igualdade e poder: a “expertise” terapêutica envolve participar e expressar sua opinião a partir de uma posição igualitária e não hierárquica, exercendo ao mesmo tempo o poder de facilitar e gerir uma conversa dialógica, mas sem controlar seu conteúdo ou desfecho.
As abordagens colaborativo-dialógicas foram criticadas por apresentar uma visão simplificada do poder, confundindo-o com controle e dominação e incentivando terapeutas a removê-lo das interações terapêuticas (Guilfoyle, 2003). Como demonstrou Foucault (1979), o poder está situado em estruturas, papéis e práticas sociais e, portanto, não pode ser totalmente removido da prática terapêutica. Assim, quaisquer que sejam as intenções de quem conduz a terapia, as assimetrias de poder persistem devido a discursos sociais que, por exemplo, posicionam terapeutas como “conhecedores especialistas”, com poder e influência relativamente maiores que os das pessoas que buscam sua ajuda (Guilfoyle, 2006, p. 95). A psicoterapia também pode exercer poder por meio de um projeto normalizador que molda o comportamento da clientela segundo as expectativas públicas (Cruikshank, 2019; Seikkula e Arnkil, 2006). Ao adotar uma abordagem terapêutica específica, terapeutas exercem poder sobre como o encontro terapêutico vai se desenrolar. Seikkula e Arnkil (2006) sugerem que é justamente o exercício do poder de adotar a abordagem do Diálogo Aberto que levou a bons resultados de pesquisa.
Grande parte dos escritos sobre as abordagens colaborativo-dialógicas concentrou-se numa apresentação conceitual centrada na “mentalidade” da pessoa terapeuta (Ong e Buus, 2021), com menos atenção às práticas comunicativas interativas e aos elementos sociais do poder que ocorrem na conversa real. Turner (2005) apresenta uma concepção do poder em três partes, que enfatiza sua natureza social e o fato de que uma compreensão completa do poder exige atenção a como ele é produzido e negociado nas interações. A persuasão consiste em convencer outra pessoa de que uma posição ou ação é correta ou válida, e essa pessoa passa a agir de acordo com essa posição por vontade própria. Na coerção, as pessoas são impelidas a agir contra sua vontade. Na autoridade, as pessoas aceitam voluntariamente o direito legítimo de outro de determinar suas crenças e ações. A autoridade não é vivida como dominação coercitiva; é legítima, desejável e aceita voluntariamente. Aplicada à terapia, a clientela pode aceitar a autoridade terapêutica para dirigir a sessão, pois espera ser conduzida a algum desfecho desejável. A autoridade é criada conjuntamente: as pessoas atendidas podem reconhecê-la ou recusá-la resistindo, e terapeutas podem buscá-la procurando alinhamento e engajamento (Watson, 2019).
As abordagens discursivas da análise da interação, como a análise da conversa (Heritage, 2013) e a psicologia discursiva (Edwards e Potter, 1992), têm objetivos variados, mas todas se concentram na análise de interações reais. Por exemplo, a pesquisa em análise da conversa tem usado o conceito de autoridade deôntica, o direito de determinar as ações futuras de outros num domínio específico (Stevanovic e Peräkylä, 2012), para representar como o poder é negociado nas interações. A autoridade deôntica pode estar ligada ao status deôntico de uma pessoa, a autoridade ligada à sua posição ou papel social ou institucional. Isso, porém, é distinto de como uma pessoa apresenta sua postura deôntica na interação. Por exemplo, uma pessoa terapeuta tem status deôntico elevado por seu papel institucional, mas pode usar certos marcadores de cautela para apresentar uma postura deôntica rebaixada. Da mesma forma, a autoridade epistêmica refere-se a direitos e responsabilidades sobre certas áreas de conhecimento (Heritage e Raymond, 2005).
Revisões anteriores de pesquisas discursivas investigaram com sucesso como conceitos teóricos são aplicados na prática. Tseliou et al. (2021) revisaram pesquisas discursivas para examinar como ocorriam os processos de mudança nas abordagens sistêmicas e construcionistas da terapia familiar. A mudança se manifestava em diálogos que avançam e em deslocamentos conversacionais rumo a uma perspectiva relacional ou a uma linguagem não patologizante. Tseliou et al. (2021) também destacaram várias maneiras como o poder é administrado nas sessões de terapia familiar. Por exemplo, observava-se na prática terapêutica um equilíbrio dilemático entre exercer o poder para dirigir uma sessão e convidar os outros a participar mais ativamente. As questões de expertise eram tratadas ora com conselhos, ora com a valorização da expertise dos membros da família. Investigações discursivas como essas podem informar a prática, sensibilizar as equipes clínicas para os dilemas da autoridade em seu trabalho e levá-las a refletir sobre as próprias práticas conversacionais (Nanouri et al., 2022).
Seguindo Foucault e Guilfoyle, acreditamos que o poder é um elemento inescapável das interações em terapia familiar. Adotaremos uma abordagem interacional do conceito de poder para esclarecer como ele é produzido e negociado nas conversas reais e mostrar como pode ser conceituado e teorizado como fenômeno interacional. O objetivo deste artigo foi, portanto, realizar uma revisão exaustiva da literatura de estudos empíricos que examinam as interações discursivas da prática colaborativo-dialógica e examinar criticamente e sintetizar como o conceito de poder aparece em seus resultados. Esperamos que esses resultados contribuam para uma compreensão mais matizada de como o poder opera nas modalidades psicoterapêuticas colaborativo-dialógicas e informem o desenvolvimento, a teorização e a prática dessas abordagens. Ao ler este artigo, convidamos, portanto, as equipes clínicas a refletir sobre como suas práticas discursivas posicionam as pessoas atendidas e que respostas elas convidam e recebem em troca no que diz respeito a poder e autoridade.
Realizamos buscas sistemáticas em bases de dados por estudos que envolvessem análises discursivas do Diálogo Aberto e de práticas dialógicas. A primeira etapa usou as bases PsycINFO, PubMed e CINAHL. Fizemos duas buscas por blocos. A primeira usou os termos “open dialogue” OU “dialogical”, e a segunda, “power” OU “deontic*” OU “authority”. Combinamos os dois blocos com “E”, obtendo um total de 1.207 referências após a remoção de duplicatas. Usamos o Covidence para reunir, gerenciar e triar as referências. As referências foram triadas por duas pessoas, de forma independente, segundo os critérios de inclusão: (a) pesquisa empírica discursiva com dados de sessões reais de psicoterapia em que terapeutas relatavam usar uma abordagem dialógica; (b) terapia individual, de casal ou familiar; e (c) alguma forma de análise discursiva centrada na interação conversacional, incluindo transcrições de conversa com análise linha a linha. Alguns estudos usavam procedimentos analíticos adicionais, como entrevistas realizadas depois que as pessoas envolvidas reviam o vídeo de uma sessão (por exemplo, Lidbom et al., 2014, 2015). Esses estudos foram excluídos por se concentrarem nas respostas às entrevistas, e não nas interações discursivas. Outros artigos com abordagem semelhante (Guregård e Seikkula, 2014; Rober et al., 2006) foram incluídos, pois a análise discursiva era suficientemente enfatizada e distinta para ser considerada de forma independente. Após a triagem de títulos, resumos e textos completos, quatro artigos atenderam aos critérios de inclusão. Em seguida, fizemos buscas sistemáticas em cadeia na lista de referências de cada artigo, repetindo a operação para cada novo artigo incluído. As buscas resultaram em 14 referências adicionais, num total de 18 artigos para revisão (ver Figura 1, diagrama PRISMA).
Figura 1. Diagrama PRISMA, adaptado de Moher et al. (2009). Figura não reproduzida.
O primeiro autor revisou todos os estudos e reuniu informações gerais sobre localização geográfica, modalidade terapêutica e abordagem analítica. Também extraiu os trechos da análise e da discussão de cada artigo relacionados ao poder. Segundo Turner (2005), o poder pode se manifestar pela influência sobre os outros por meio do conhecimento ou pela direção das ações dos outros, legítima ou não. Ao examinar e selecionar os dados para esta síntese, o primeiro autor procurou qualquer parte da análise que relatasse diferenças na influência relativa da pessoa terapeuta ou dos membros da família, em especial em relação ao conhecimento ou às ações. Esses trechos dos artigos formaram nosso conjunto de dados para análise; foram registrados na ferramenta de extração de dados do Covidence e exportados para o NVivo para análise posterior. Não usamos os próprios trechos transcritos de conversas como fonte de dados para nossa reinterpretação, pois não tínhamos compreensão suficiente dos trechos, de seu contexto conversacional ou das gravações originais para uma análise rigorosa. Não avaliamos a qualidade das pesquisas.
A análise dos dados, conduzida pelo primeiro autor, começou com uma codificação aberta indutiva dos dados extraídos no NVivo. Os códigos foram então comparados, contrastados e agregados em agrupamentos temáticos maiores, oferecendo uma visão geral dos dados. A construção dos temas concentrou-se no significado semântico, ou de superfície, da codificação, numa abordagem mais descritiva dos temas, depois interpretados e analisados quanto a seus pressupostos, significados e implicações para a prática dialógica. Nossa construção dos temas representa, portanto, uma forma “cientificamente descritiva” de análise temática (Finlay, 2021, p. 105), e não uma abordagem interpretativa reflexiva (Braun e Clarke, 2022). Reconhecemos, no entanto, que nossa construção dos temas representa nossa perspectiva interpretativa, influenciada por nosso objetivo de oferecer uma compreensão do poder mais matizada do que a oferecida pela teorização atual da literatura dialógica.
Nossa equipe incluía pessoas com experiência de pesquisa e de prática na abordagem do Diálogo Aberto (BO e NB). Elas tinham, portanto, grande afinidade com as abordagens dialógicas e sua promessa de uma abordagem mais igualitária do cuidado em saúde. No entanto, também consideravam que, em várias áreas, faltou detalhamento e reflexão sobre como as ideias dialógicas se integram aos sistemas de saúde convencionais, como no caso do conceito de poder. As outras duas pessoas da equipe (ET e TS) tinham ampla experiência em terapia familiar e em pesquisa discursiva. Esperávamos que essa composição da equipe pudesse equilibrar as perspectivas da pesquisa e da prática e ampliar o quadro interpretativo da análise. Toda a equipe discutiu os principais resultados, suas interpretações, sua importância e suas implicações para os objetivos do estudo.
Um total de 18 artigos publicados ao longo de vinte anos, de 2002 a 2022, foi incluído nesta revisão (ver Tabela S1). A maior parte dessas pesquisas é da última década, com 16 artigos publicados desde 2012. Dez artigos estudaram terapia de casal, sete estudaram terapia familiar e um não especificou. Havia pouca diversidade de dados: seis estudos usaram o mesmo conjunto de dados de uma única terapia de casal, cinco deles publicados num mesmo livro (Borcsa e Rober, 2016); três artigos usaram outro conjunto de dados de terapia de casal; e três estudos vieram do mesmo conjunto de dados de terapia familiar. Assim, 12 dos 18 estudos usaram apenas três conjuntos de dados diferentes. A pesquisa também estava fortemente concentrada na Europa, com 15 estudos em contextos europeus, com colaborações internacionais, e três estudos da Austrália. Havia uma variedade maior de abordagens analíticas: as Investigações Dialógicas de Momentos de Mudança (DIHC) e a análise da conversa (AC) foram usadas em sete estudos cada, a análise do discurso em três estudos, e a psicologia discursiva e a análise dialógica de sequências em dois estudos cada. O sistema de codificação de processos narrativos, a análise narrativa, a recordação de processos interpessoais e a análise temática foram mencionados uma vez cada. Cinco estudos relataram usar vários tipos de análise.
O termo “poder” raramente era usado diretamente nas análises. Os estudos usavam termos diferentes conforme o tipo de abordagem analítica. Os artigos que usavam a DIHC e a análise dialógica de sequências preferiam o termo dominância (por exemplo, Avdi et al., 2015; Seikkula, 2002; Vall et al., 2016), com distinções entre dominância semântica (quem determina o conteúdo temático), dominância interacional (quem determina quem fala) e dominância quantitativa (tempo de fala). Os artigos que usavam a AC tendiam a tratar do poder por meio do conceito de autoridade, o que incluía reivindicações de conhecimento (autoridade epistêmica) e a capacidade de determinar as ações futuras dos outros na sessão (autoridade deôntica). Estudos com outras abordagens analíticas usavam termos variados, como terapeutas moldando a conversa (Avdi, 2016) ou o quanto a pessoa terapeuta era ativa em seu questionamento (Laitila, 2016).
Nesta revisão, desenvolvemos duas grandes áreas temáticas, o poder da pessoa atendida e o poder da pessoa terapeuta. Embora os estudos em geral analisassem conjuntamente as falas de terapeutas e da clientela, a divisão aqui ilustra o quanto se inclinavam para a investigação das ações terapêuticas. O segundo tema se divide ainda nos subtemas terapeutas como catalisadores do diálogo, que inclui as maneiras mínimas e ativas pelas quais esse poder se exerce, e terapeutas diante das obrigações institucionais, que se refere às demandas institucionais e sociais que afetam seu uso. A Figura 2 representa nossos temas e os artigos que contribuem para cada um.
Figura 2. Síntese dos temas e das referências de apoio. Figura não reproduzida.
Esse poder estava notavelmente presente na atribuição de culpa pelos problemas de uma relação (Avdi, 2016; Wahlström, 2016). Consideramos a culpabilização um exercício de poder, pois representava uma reivindicação superior de descrever o comportamento do outro como problemático. A culpa era associada a uma ordem moral ou a discursos dominantes sobre as relações, e sustentada por eles. Por exemplo, num estudo de terapia de casal, o poder estava associado à capacidade de uma parceira de construir uma história dominante coerente com os discursos segundo os quais as relações exigem proximidade emocional e conversa entre os parceiros. Ao aderir a esse discurso dominante, uma parceira podia atribuir ao parceiro certos direitos e deveres apropriados e, em consequência, colocá-lo numa contraposição contrária e responsabilizável se ele não correspondesse a essas expectativas (Päivinen e Holma, 2016). Outro estudo descreveu histórias dominantes como invocando uma responsabilidade moral do parceiro (Wahlström, 2016). Por exemplo, uma parceira descreveu o problema de não conseguir conversar com o parceiro como uma “necessidade” não atendida: “É a ‘necessidade’ dela de conversar, não o ‘desejo’ nem a ‘exigência’ dela. Para o parceiro, recusar uma necessidade é um ato moralmente questionável, o que é bem diferente de recusar um desejo, e mais ainda uma exigência” (Wahlström, 2016, p. 156-157). Um parceiro também podia atribuir culpa ao outro para justificar sua própria não responsabilização e sua baixa capacidade de mudar a situação (Vall et al., 2014). Assim, embora a culpabilização invocasse uma poderosa reivindicação sobre a responsabilidade do outro pelos problemas e sua necessidade de mudar, ela também implicava a falta de poder de quem culpa e sua incapacidade de mudar a situação.
As pessoas atendidas também expressavam poder por meio dos elementos estruturais da conversa, por exemplo introduzindo temas para discussão e, assim, orientando a direção temática da sessão (Rober et al., 2006), ou ocupando mais tempo de fala e limitando a fala dos outros (Vall et al., 2016). Esse poder era um tanto limitado pelo de quem conduzia a terapia, que podia, em última instância, aceitar, rejeitar (Rober et al., 2006) ou evitar as iniciativas temáticas da clientela (Avdi, 2016; Guregård e Seikkula, 2014). Da mesma forma, cabia a elas aceitar ou rejeitar as formulações terapêuticas. Por exemplo, Avdi (2016) descreve como uma formulação oferecida em sessão, que enfatizava os recursos e a capacidade de agir de um casal, foi rejeitada pelo casal.
Esses exemplos mostram como as pessoas atendidas contribuíam ativamente para a sessão e demonstravam certo poder ao atribuir responsabilidades e culpas, orientar a direção temática da sessão e resistir às formulações terapêuticas. No entanto, esse poder era na maioria das vezes apresentado como algo conferido, promovido ou permitido por terapeutas (Avdi et al., 2015), e não como algo que a própria clientela reivindicava diretamente.
Dava-se importância particular ao trabalho terapêutico, apresentado como central para a promoção do diálogo. Essa importância foi afirmada mais explicitamente por Vall et al. (2014, p. 277), para quem, nas abordagens dialógicas, “o terapeuta é incluído como foco principal”. Resumimos os resultados desses estudos em dois temas sobre esse poder: terapeutas como catalisadores do diálogo, incluindo a modelagem mínima e ativa da conversa, e terapeutas diante das demandas institucionais.
A ocorrência do diálogo era apresentada como resultado direto das práticas conversacionais de terapeutas. Ou seja, a ação terapêutica era apresentada como essencial para constituir uma conversa dialógica e promover outros resultados desejáveis, como a reflexividade e a capacidade de agir das pessoas atendidas (Seikkula e Olson, 2016). Os estudos detalhavam duas maneiras pelas quais a condução terapêutica pode produzir diálogo: pela modelagem mínima ou ativa da conversa.
A modelagem mínima se traduzia na aceitação não desafiadora da fala da clientela (Laitila, 2016), ou numa “responsividade econômica” (Seikkula e Olson, 2016, p. 67), e incluía o uso de continuadores, repetições do que acabara de ser dito e avaliações simples (Avdi, 2016; Laitila, 2016). Essas respostas mostravam escuta e envolvimento na conversa, bem como a intenção de incentivar as pessoas atendidas a elaborar narrativas mais ricas, novos significados e a falar de experiências e emoções difíceis (Avdi, 2016). Laitila (2016) descreve isso como “junção e sintonia responsivas, não desafiadoras” (p. 37). Argumenta-se que essas respostas mínimas deixavam às pessoas atendidas o controle da direção da conversa e facilitavam a passagem do monólogo ao diálogo e, consequentemente, de posições de vítimas a posições de agentes (Avdi, 2016; Avdi et al., 2015; Olson et al., 2012). Até perguntas simples, como a de saber sobre o que se queria falar, eram consideradas “construtoras de capacidade de agir”. Por exemplo:
… o terapeuta então pediu aos parceiros que definissem como queriam usar o restante da sessão… a pergunta do terapeuta posicionou o casal como agentes competentes para traçar o curso de seu tratamento. Ela reforçou ainda a dialogicidade do diálogo, não apenas dando voz, mas também construindo capacidade de agir. (Olson et al., 2012, p. 430)
As respostas mínimas de terapeutas eram, assim, apresentadas como uma influência poderosa sobre a conversa, por promoverem respostas dialógicas e capacidade de agir.
Em contraste, terapeutas podiam assumir um papel mais ativo, moldando seletivamente a conversa por meio de perguntas, reflexões e seleção de temas e de falantes. Num exemplo de questionamento, foi feita a seguinte pergunta a uma esposa que tinha começado a chorar: “O que você pensa sobre o que está ouvindo agora?” (Vall et al., 2018, p. S53-S54). A esposa responde que o marido não entende e que ela deveria poder sentir e dizer qualquer coisa em casa sem sentir medo. Argumenta-se que a atenção dada em sessão ao choro da esposa, e a construção da pergunta, suscitaram um metadiálogo reflexivo em que “os cônjuges já não estão falando e discutindo sobre algo que aconteceu em sua vida, mas refletindo sobre a própria fala e assumindo sua própria posição no contexto terapêutico (são capazes de se posicionar)” (Vall et al., 2018, p. S54-S55).
Nas reflexões, terapeutas conversam entre si enquanto as pessoas atendidas são orientadas a ouvir sem interromper. Esse processo permite introduzir na conversa os próprios pensamentos da equipe para promover a polifonia e respostas reflexivas nas famílias. As reflexões também representam um poder terapêutico: o de dirigir a sessão e de ocupar um tempo de fala privilegiado e ininterrupto (Ong et al., 2021a). No entanto, durante essas reflexões, a autoridade epistêmica das afirmações é explicitamente rebaixada: elas são apresentadas como “pensamentos” ou “indagações” refutáveis, e não como verdades objetivas sobre a família (Ong et al., 2022; Schriver et al., 2019). Por exemplo, “eu acho” servia, nas reflexões, para marcar os comentários interpretativos sobre a clientela.
“Eu acho” rebaixava a reivindicação de conhecimento dos enunciados. Isso mostrava uma orientação para o acesso limitado de quem reflete à mente dos participantes… [isso] ajudava quem refletia a mostrar discrição e sensibilidade, cuidando de não postular nada a que não tivesse “direito”. (Schriver et al., 2019, p. 29)
Em consonância com os princípios teóricos (Galbusera e Kyselo, 2018), terapeutas apresentam seus pensamentos de forma cautelosa para incentivar mais diálogo. Parecem, assim, ter consciência do poder de suas reivindicações de conhecimento e procurar rebaixar suas afirmações e deferir ao saber das pessoas atendidas.
Ong et al. (2021b) e Rossen et al. (2020) descrevem como terapeutas selecionam temas e falantes por meio de uma prática de solicitação de posicionamentos. Isso envolvia solicitar o posicionamento de uma pessoa atendida e, em seguida, selecionar outra pessoa para comentar algum aspecto desse posicionamento. É o que representa a forma de pergunta prototípica: “Y, o que você acha do que X acabou de dizer?” (Rossen et al., 2020, p. 719). Quem conduz a sessão exerce poder ao selecionar os temas relevantes para discussão (ver também Avdi, 2016), bem como quem pode falar e quando. Rober et al. (2006) identificam um fenômeno semelhante: os temas trazidos pela família eram analisados como “convites”, que só eram explorados se “aceitos” por terapeutas. Apesar desse exercício de poder, havia o empenho de construir as perguntas de solicitação de posicionamento de modo a minimizar sua influência sobre os tipos de resposta possíveis. Para isso, formulam-se perguntas em termos muito gerais, com vários componentes, e usam-se expressões como “fico me perguntando” para apresentar os pensamentos como refutáveis. Diz-se que isso promove uma flexibilidade responsiva, pois as pessoas atendidas podem escolher a quais aspectos do turno terapêutico responder e quais ignorar:
Assim, embora a sessão esteja sendo dirigida pela seleção de falante, tema e pergunta, “fico me perguntando”, combinado à inespecificidade da pergunta que solicita posicionamento, remove certo grau da diretividade associada a uma pergunta mais específica… A pergunta feita, com “fico me perguntando” e a inespecificidade de perguntar sobre “o que surgiu”, dá à mãe a liberdade de responder a uma parte anterior da conversa que não tinha sido especificamente selecionada. Exerce-se, assim, a autoridade deôntica de selecionar quem fala em seguida, atenuando ao mesmo tempo a autoridade para ditar o conteúdo desse turno. (Ong et al., 2021b, p. 125)
Cabe, portanto, a terapeutas o papel delicado de exercer poder para controlar a conversa minimizando ao mesmo tempo sua influência sobre a forma como se espera que uma pessoa atendida responda. Esse exercício de poder não é necessariamente incompatível com uma abordagem dialógica, já que se propôs que é a atitude diretiva de quem conduz a sessão que torna possível a interação dialógica (Ong et al., 2021a, 2021b; Seikkula e Arnkil, 2006; Vall et al., 2016, 2018).
Os resultados desses estudos sugerem que há um padrão na forma como terapeutas usam o poder dentro das sessões e ao longo delas. No início das sessões, terapeutas priorizam a responsividade mínima, isto é, repetições, continuadores e iniciadores de reparo, para incentivar a elaboração de narrativas detalhadas e a expressão de emoções pelas pessoas atendidas com mínima contribuição terapêutica. No entanto, essas respostas mínimas não são neutras: orientam as narrativas das famílias e, ao mesmo tempo, promovem alguma flexibilidade na forma de responder. Mais adiante nas sessões, terapeutas assumem um papel mais ativo para garantir que novas perspectivas sejam expressas ou quando há um “emperramento” entre as pessoas presentes (Ong e Buus, 2021). Essas práticas mais ativas incluem conversas reflexivas para introduzir os pensamentos da equipe, perguntas para focalizar temas específicos, seleção de falantes para equilibrar os tempos de fala ou dar voz a pontos de vista alternativos, para tratar da segurança ou de outras preocupações institucionais, ou para reforçar mudanças positivas e recursos. Nesses momentos, recorre-se, assim, mais ativamente à dominância interacional ou à autoridade deôntica, regulando a tomada de turno e o foco temático. As reivindicações epistêmicas também ficam mais claras, mas acompanhadas de numerosas formas rebaixadas de práticas verbais e não verbais que sugerem “cautela”.
Quem pratica as abordagens colaborativo-dialógicas não atua no vácuo; sua prática se insere em organizações de saúde e em discursos sociais que têm expectativas e demandas, além das obrigações de prática decorrentes da teoria colaborativo-dialógica. Nos estudos revisados, havia evidências de terapeutas exercendo poder nas sessões para atender a essas demandas institucionais, que por vezes entravam em conflito com uma abordagem colaborativo-dialógica. Essas demandas incluíam a realização de avaliações de saúde mental, a promoção da segurança e a orientação para os discursos da psicoterapia.
A atenção às demandas institucionais se manifesta em sequências de perguntas e respostas que buscam informações sobre os sintomas da pessoa atendida, como numa avaliação psiquiátrica (Avdi et al., 2015; Guregård e Seikkula, 2014; Seikkula, 2002). Por exemplo:
… [o terapeuta] assume sobretudo a posição de entrevistador clínico, no sentido de que molda a interação num formato de pergunta e resposta; embora pareça interessado nas experiências [do cliente], suas perguntas se orientam principalmente para um referencial de descrição de sintomas… essa interação monológica não cria oportunidades de expressão emocional ou de nova compreensão. Além disso, pode-se argumentar que ela está associada à posição de capacidade de agir reduzida [do cliente]. (Avdi et al., 2015, p. 334 e 336)
O estudo argumenta que essa forma de questionamento entra em conflito com uma abordagem dialógica, pois coloca a pessoa atendida numa posição não agentiva, com pouco poder para decidir os temas da conversa ou para se engajar no diálogo.
Na terapia de casal para violência psicológica entre parceiros íntimos, terapeutas se orientavam por uma responsabilidade de manter a segurança e a responsabilização dentro e fora das sessões. Vall et al. (2014) mostraram como o tema da segurança e dos possíveis efeitos agravantes da terapia sobre a violência era levantado explicitamente em sessão. Segundo o estudo, ao levantar a questão da segurança e discuti-la de modo dialógico, quem conduz a terapia pode “prevenir qualquer possível efeito ruim” e “o casal toma mais consciência da importância da segurança” (Vall et al., 2014, p. 287). A equipe terapêutica também se empenhava em promover a responsabilização de cada membro do casal dirigindo-se diretamente a uma pessoa: “Quem conduz a terapia tenta fazer do marido um agente responsável por meio do convite a explicar o estresse que ele sente na situação doméstica” (p. 284), ou por meio de múltiplos destinatários: “perguntas desse tipo permitem aos clientes sentir-se interpelados sem que a interpelação seja feita diretamente. Isso significa que a pessoa interpelada indiretamente pode sentir-se menos pressionada e, ao mesmo tempo, caminhar para a aceitação da responsabilidade” (p. 293).
Vall et al. (2016) enfatizaram a importância de terapeutas dirigirem a sessão para impedir que padrões disfuncionais se repitam na sessão de terapia: “Aqui o uso da dominância interacional mostra seus méritos, pois permite aos terapeutas regular a fala e minimizar a dominância do casal e o ‘jogo de poder e controle’” (p. 230). Da mesma forma, Rober et al. (2006) mostraram como terapeutas evitavam um tema sobre violência porque as crianças presentes na sessão eram consideradas vulneráveis demais naquele momento. Nesses exemplos, a condução da terapia parece guiada não só pelos princípios colaborativo-dialógicos, mas também por responsabilidades: garantir a segurança e a responsabilização, interromper padrões de comportamento e proteger crianças consideradas vulneráveis.
Outra orientação terapêutica para as demandas institucionais é a promoção de mudanças positivas. Laitila (2016) e Avdi (2016) descreveram como terapeutas usavam formas de questionamento mais ativas, focadas em mudanças ou resultados positivos para as pessoas atendidas e no uso de seus próprios recursos para alcançá-los. Por exemplo:
Na sessão final, porém, o questionamento ativo assumiu outra forma. Enfatizava diferenças, mudança e resultados, empoderamento e orientação para recursos, em comparação com a primeira sessão e as seguintes. O foco nos recursos e o tom positivo estavam presentes para consolidar e estabilizar as mudanças realizadas, atribuir o mérito ao casal e servir ao processo terapêutico contínuo do casal cliente no momento do encerramento das sessões. (Laitila, 2016, p. 41)
Evidenciava-se, assim, uma orientação para a importância de consolidar as mudanças positivas e de enfatizar a responsabilidade pessoal por elas. Da mesma forma, recorria-se a reformulações da fala anterior da clientela. As reformulações retomavam aspectos dessa fala e os representavam de maneira congruente com a instituição. Avdi (2016) identificou como terapeutas reformulavam os conflitos de um casal como algo esperado em sua situação: “quem conduz a terapia apresenta a visão de que os problemas que o casal enfrenta fazem parte do curso normal da ‘construção de uma nova família’” (p. 83). Isso servia para “normalizar” a experiência do casal e oferecer uma reinterpretação alternativa e mais positiva de sua situação. Essas reformulações, embora rebaixadas, equivaliam a reivindicações de conhecimento de terapeutas para descrever a experiência das pessoas atendidas da maneira preferida.
A prática também se orientava por discursos mais abstratos sobre a psicoterapia. Por exemplo, Päivinen e Holma (2016) mostraram como a equipe terapêutica se alinha implicitamente à posição da esposa sobre a importância de conversar:
A partir de sua posição institucional, os terapeutas fazem ativamente perguntas detalhadas para ajudar o casal a reconstruir a história dominante construída durante a terapia. Com essa exploração, aceitam a história dominante construída por Victoria e agem de acordo com o discurso dominante do mundo da psicoterapia: experiências e sentimentos precisam ser compartilhados. (Päivinen e Holma, 2016, p. 97)
Assim, nesse exemplo, a equipe terapêutica não apenas se alinhou à esposa (Victoria), mas essa posição também refletia um discurso social de que conversar é útil na psicoterapia. A equipe parecia, assim, conduzir a sessão sob a influência não só dos princípios de uma abordagem colaborativo-dialógica, mas também de discursos sobre o papel da terapia.
Esses estudos mostraram que terapeutas agiam de acordo com responsabilidades institucionais, bem como promoviam mudanças positivas e interrompiam a violência de acordo com normas e valores mais amplos. Isso envolvia, mais uma vez, uma tensão entre colaboração e poder: um exercício unilateral de poder, ao decidir o tema da conversa, e ao mesmo tempo a condução da conversa de uma maneira que convida ao diálogo e à discussão.
Os estudos desta revisão sugerem que o poder não é a antítese da prática colaborativo-dialógica. Ao contrário, o poder é onipresente e está presente em múltiplas formas, usadas tanto pela clientela quanto por terapeutas. Os estudos relatavam regularmente que falas terapêuticas levavam a mudanças imediatas nas famílias, o que sugere que o exercício do poder não só é compatível com a prática colaborativo-dialógica, como pode ser de fato necessário para promover conversas dialógicas.
Os estudos mostravam um foco esmagador no poder da pessoa terapeuta, menos atenção ao poder das pessoas atendidas e quase nenhuma atenção ao poder entre os membros da família. Esse foco no lado terapêutico sugere que essa pesquisa se dirige sobretudo a um público clínico e busca fornecer evidências de práticas de terapeutas que possam ser úteis às equipes clínicas em seu trabalho. De fato, grande parte dessa pesquisa foi conduzida por pessoas que conciliam prática e pesquisa. Além disso, as descrições teóricas anteriores da prática colaborativo-dialógica focavam a mentalidade da pessoa terapeuta, com menos atenção a como essa mentalidade se traduz nas interações reais (Ong e Buus, 2021), e esta revisão reflete a continuidade desse interesse pelo polo terapêutico em detrimento das famílias e dos casais. Esse foco arrisca uma visão simplificada de como a terapia avança e superestima o impacto terapêutico ao minimizar a contribuição das pessoas atendidas. Pesquisas futuras poderiam considerar como a pessoa atendida e os membros da família vivenciam as diferentes expressões do poder terapêutico nas sessões: por exemplo, como são recebidas as respostas mínimas, ou como são vividas as falas mais diretivas e os exercícios de poder.
Havia uma notável ausência de pesquisas sobre as relações de poder entre membros da família. Alguns estudos examinaram as diferenças de perspectiva de cada cônjuge na terapia de casal para violência psicológica entre parceiros íntimos (por exemplo, Vall et al., 2014, 2016, 2018); mas tendiam a focalizar o poder terapêutico e a forma como esse poder mediava a dominância semântica e quantitativa relativa de uma esposa e de um marido. Isso é um tanto surpreendente, considerando que as primeiras críticas do poder na terapia familiar se concentravam no abuso dentro das famílias, e dá a impressão de que as perspectivas em jogo são relativamente iguais, sobretudo quando mediadas pelo poder de quem conduz a terapia. Essa relativa “cegueira” para os diferenciais de poder entre membros da família pode se dever ao número relativamente pequeno de artigos de pesquisa nessa área e ao papel periférico das abordagens colaborativo-dialógicas na prática atual. A prática colaborativo-dialógica ainda é marginal em comparação com outras formas de psicoterapia, e pode ser que a pesquisa esteja tentando estabelecer a abordagem focando os resultados conversacionais que terapeutas conseguem alcançar. Quaisquer que sejam as razões desse desequilíbrio, essas pesquisas minimizaram o papel e a voz das pessoas atendidas na prática colaborativo-dialógica, o que é em si um exercício de poder. Pesquisas futuras poderiam corrigir esse desequilíbrio focando mais como terapeutas e pessoas atendidas desenvolvem mutuamente uma conversa dialógica.
Outro aspecto do poder não tratado nessa pesquisa é a própria escolha de usar uma abordagem colaborativo-dialógica. A escolha da abordagem terapêutica não é, em geral, algo sobre o qual as pessoas atendidas tenham influência, pois é predeterminada por terapeutas antes mesmo do primeiro encontro. Parte da clientela, porém, prefere que terapeutas exerçam expertise por meio de seu julgamento clínico e da prescrição de intervenções diretivas (Buus et al., 2021). Uma abordagem dialógica predeterminada pode ser potencialmente tão desafiadora para a clientela quanto uma abordagem medicalizada, ainda que com implicações diferentes. Uma abordagem colaborativa supõe um processo de decisão conjunta sobre o tratamento, que não se aplica às decisões sobre a própria abordagem terapêutica.
Esta revisão destacou como a prática terapêutica nas abordagens colaborativo-dialógicas é influenciada por obrigações e discursos sociais. Isso se reflete quando terapeutas se orientam por obrigações institucionais, como a avaliação dos sintomas das pessoas atendidas, quando enfatizam recursos e resultados positivos e quando adotam uma posição contra a violência. Como argumentam Guilfoyle (2003) e Foucault (1979, 2002), na função de distribuir conhecimento e expertise, terapeutas são um meio e um ponto de chegada pelos quais o poder é exercido na sociedade. A terapia familiar não é neutra em termos de valores, e terapeutas podem, sem perceber, funcionar como membros de um sistema que orienta a clientela para modos de autorregulação de acordo com valores sociais. Esses valores podem ser relativamente pouco controversos e produtivos, como uma posição contra a violência familiar, mas essas normas também podem representar uma forma de opressão, ao transformar um aspecto do eu, como a autoestima, a capacidade de recorrer a recursos, o pensamento positivo ou a impotência, em objeto de reforma social (Cruikshank, 2019). Em certo sentido, terapeutas exercem uma reforma social e precisam, portanto, reconhecer esse aspecto de seu papel e considerar se suas ações beneficiam as famílias ou derivam de uma posição potencialmente paternalista que perpetua formas de controle social ou de opressão.
Guilfoyle (2003) afirmava que terapeutas das abordagens dialógicas não deveriam negar e, portanto, ocultar a existência e o funcionamento do poder, mas examinar como o poder opera e teorizar como ele deve ser incorporado às abordagens colaborativo-dialógicas. Esta revisão sugere que há (pelo menos) duas grandes áreas em que as abordagens colaborativo-dialógicas se cruzam com o poder. A primeira é o poder sobre quem tem acesso privilegiado ao conhecimento e à verdade. Ele tem sido descrito como autoridade epistêmica ou dominância semântica e se liga às posições teóricas do “não saber” e da “abertura”. Essa pesquisa sugere que terapeutas em geral deferem o conhecimento às pessoas atendidas, concentrando-se em suscitar sua elaboração. Quando introduzem suas interpretações, agem com cautela, usam marcadores de rebaixamento e convidam a clientela a responder e discordar. Mas, quando surgem questões de segurança ou de violência, terapeutas têm a obrigação de tomar uma posição mais clara. Essa posição também pode ser desenvolvida pelo conceito de ética conversacional ou discursiva (Smoliak et al., 2018; Strong e Sutherland, 2007). Essa perspectiva reconhece que as pessoas atendidas não têm um papel passivo, mas moldam ativamente a conversa e as respostas terapêuticas (Strong e Sutherland, 2007). O papel da pessoa terapeuta diz respeito a como responder a diferenças ou desacordos e a quais valores morais defende em suas interações. A ética discursiva promove oportunidades para que cada pessoa expresse opiniões diferentes (Smoliak et al., 2018), mesmo quando os significados são contestáveis e negociáveis (Strong e Sutherland, 2007). Cabe, portanto, a terapeutas convidar a contestação e acolhê-la com a abertura e a responsividade apropriadas quando ela surge.
O segundo aspecto do poder diz respeito a quem tem poder para dirigir a conversa. A literatura discursiva o descreve como autoridade deôntica ou dominância interacional, e ele se alinha à ideia teórica da pessoa terapeuta como “arquiteto do diálogo” (Anderson e Goolishian, 1988, p. 1). Nossos resultados sugerem que quem conduz a terapia mantém o controle da direção da conversa, embora o atenue. Ou seja, terapeutas convidam outros falantes (Ong et al., 2021b; Rossen et al., 2020), fazem perguntas (Laitila, 2016) e oferecem reflexões e formulações (Avdi, 2016; Vall et al., 2016). Esse uso do poder parece influenciar a conversa de modo a convidar à participação, focalizar temas e promover a expressão de múltiplas perspectivas, e é aceito como a direção legítima das ações do grupo (Turner, 2005). O poder ligado à direção de uma conversa é onipresente, pois a conversa se estrutura por um mecanismo de tomada de turnos baseado em pares adjacentes, em que turnos iniciais tornam relevantes turnos de resposta ajustados (Kendrick et al., 2020). Em essência, os pares adjacentes significam que sempre haverá um falante exercendo algum poder ao produzir um turno inicial. A pergunta relevante para a terapia colaborativo-dialógica é como terapeutas constroem esses turnos iniciais e com que frequência esses turnos são compartilhados entre terapeutas e pessoas atendidas. Por exemplo, como terapeutas respondem às iniciativas da clientela de moldar a conversa, como os silêncios e a introdução de novos temas? Outra pergunta diz respeito à medida em que a pessoa terapeuta molda ativamente a conversa. Uma forma de engajamento ativo, por exemplo, é a persistência terapêutica: manter um tema ou projeto conversacional específico, manter uma posição específica ou buscar algum desfecho (Sutherland, Dienhart e Turner, 2013; Sutherland, Turner e Dienhart, 2013). Essa persistência incorpora uma responsividade à conversa e pode incluir sua postura ao manter uma posição dialógica e/ou buscar um tema de investigação para aprofundar a compreensão. Ela parece coerente com os princípios colaborativo-dialógicos, na medida em que desenvolve compreensões mais profundas e a expressão da polifonia; mas também pode beirar uma condução unilateral, afastando a conversa de temas que interessam às pessoas atendidas. Permanece, assim, uma questão aberta para pesquisas futuras como essa persistência (assim como outras práticas conversacionais) é coerente com o diálogo e o promove, junto com uma compreensão mais aprofundada.
Nas abordagens colaborativo-dialógicas, terapeutas buscam, assim, um equilíbrio entre moldar um processo que promova a inclusão e não predeterminar os desfechos. Usando a descrição de Turner (2005), terapeutas detêm a autoridade para facilitar as ações conversacionais do grupo de terapia familiar, mas evitam tentativas de persuasão. Quem pratica as abordagens dialógicas parece, assim, reconhecer implicitamente que orientar a estrutura de uma sessão pela seleção de temas e falantes é apropriado, enquanto orientar o que as pessoas deveriam pensar e fazer, dentro de certos limites éticos, não é.
A primeira etapa de nossa busca bibliográfica recuperou apenas quatro artigos e foi amplamente complementada por nossas buscas em cadeia nas listas de referências e em artigos citantes. Isso reflete a novidade do campo, pois nos apoiamos em buscas por texto livre, menos confiáveis do que descritores controlados. Optamos, assim, por uma estratégia de busca mais ampla, que resultou em mais resultados e numa triagem mais trabalhosa. Incluímos artigos que declaravam que as equipes clínicas tinham usado uma abordagem dialógica. Atualmente, não há critérios de fidelidade amplamente aceitos para as abordagens dialógicas. A adesão a uma abordagem dialógica se baseia, portanto, em grande parte nos sete princípios originais ou nos elementos-chave do Diálogo Aberto (Olson, Seikkula e Ziedonis, 2014; Waters et al., 2021). A continuidade das pesquisas sobre a interação provavelmente contribuirá para diretrizes de fidelidade mais claras, mas, por ora, a pesquisa precisa confiar nas equipes clínicas que declaram usar a abordagem. Isso significa que uma ampla gama de práticas pode ser considerada “dialógica”, o que cria possíveis dificuldades para tirar conclusões sobre a abordagem. Nossa análise dos artigos e a síntese posterior dos temas refletem naturalmente nosso processo interpretativo. Entendemos que toda pesquisa tem um elemento interpretativo e que reconhecê-lo é uma força e uma característica da pesquisa qualitativa (Braun e Clarke, 2022). Buscamos um processo rigoroso, com a contribuição de várias pessoas da equipe para dar profundidade e reflexão à análise, e reconhecemos que outras equipes de pesquisa provavelmente terão outras interpretações dos dados. Fomos transparentes quanto aos nossos pressupostos de partida, como descrito na introdução e na seção de método. Esta revisão focalizou interações observáveis, que mostram como o poder é visivelmente exercido nas interações terapêuticas. Reconhecemos que o poder nem sempre é visível e que há influências institucionais e sociais mais amplas em jogo, que merecem investigação.
Até hoje, a conceituação do poder nas terapias dialógicas tem sido relativamente pouco desenvolvida. Esperamos que esta revisão contribua para uma conceituação mais detalhada de como o poder está presente e é usado por terapeutas que empregam abordagens colaborativo-dialógicas. Propomos que, nas abordagens colaborativo-dialógicas, terapeutas reconheçam o poder de sua posição e o usem de maneira a orientar a conversa para promover a expressão de múltiplas perspectivas e oferecer a cada pessoa presente oportunidades de falar. Propomos ainda que terapeutas expressem suas próprias perspectivas, mas de um modo que não reivindique maior importância do que a das outras pessoas presentes e que convide explicitamente comentários e até desacordos. Nossa revisão destaca como terapeutas e equipes de pesquisa também são agentes sociais que representam morais e valores sociais e institucionais. Assim, uma declaração mais clara de sua posição ética e de seus valores pode ser necessária para a transparência na prática clínica.
Complexe Systémique: a reter
Esta revisão desfaz um velho mal-entendido das abordagens colaborativas: não se livra do poder negando-o, apenas se desloca. Com Foucault e Guilfoyle, a equipe o considera inevitável, e a distinção de Turner entre autoridade, persuasão e coerção torna a constatação utilizável. Na abordagem dialógica, a pessoa terapeuta mantém a autoridade sobre a forma da conversa, quem fala, sobre o quê, quando se reflete, e renuncia a persuadir quanto ao conteúdo. Dois pontos cegos se destacam com clareza. Quase nada sobre o poder entre membros da família, embora a crítica feminista dos anos 1980 tenha nascido da violência intrafamiliar. E nada sobre a própria escolha da abordagem, imposta à clientela antes da primeira sessão. A conclusão é sóbria: declarar a própria posição ética em vez de acreditá-la neutra. Limitações: apenas dezoito estudos, doze deles apoiados em três conjuntos de dados, e uma análise conduzida sobretudo por uma única pessoa. Ler com a análise das repetições do terapeuta, que mostra esse poder palavra por palavra, e com o artigo sobre o construcionismo social e as terapias narrativas, por onde Foucault entrou na terapia familiar.
Notas do original
Agradecimentos. Ben Ong e Niels Buus contam com o generoso apoio do Open Dialogue Centre de Sydney. Publicação em acesso aberto viabilizada pela Universidade Monash, no âmbito do acordo Wiley-Universidade Monash firmado por meio do Council of Australian University Librarians.
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Tradução não oficial em português de Poder e diálogo: uma revisão das pesquisas discursivas, de Ben Ong, Eleftheria Tseliou, Tom Strong e Niels Buus, Family Process, vol. 62 (2023), doi: 10.1111/famp.12881, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (figuras não reproduzidas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Power and dialogue: A review of discursive research”, publicado em Family Process (2023) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Ong, B., Tseliou, E., Strong, T., & Buus, N. (2023). Poder e diálogo: uma revisão das pesquisas discursivas (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/poder-e-dialogo-uma-revisao-das-pesquisas-discursivas (Obra original publicada em 2023 em Family Process, 62(4) (2023); republicada em 2023 por Family Process, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/famp.12881)
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