Journal of Family Trauma, Child Custody & Child Development · Violência
Por que tantas crianças maltratadas se calam, ou não são ouvidas? A equipe de Shauna Rohner entrevistou 29 pessoas adultas irlandesas que sofreram violência na família ou em instituições religiosas. O segredo de família de um lado, o poder da Igreja do outro e, em toda parte, a falta de apoio tornaram a fala impossível por muito tempo.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Uma perspectiva sociointerpessoal sobre a revelação da adversidade na infância: uma abordagem qualitativa comparativa com pessoas sobreviventes irlandesas, de Shauna L. Rohner, Aileen N. Salas Castillo, Jessica Michel, Andreas Maercker, Alan Carr e Myriam V. Thoma, publicado na Journal of Family Trauma, Child Custody & Child Development (Taylor & Francis) (2023), doi: 10.1080/26904586.2023.2177234, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As duas tabelas são apresentadas em forma de lista; a figura é reproduzida com legenda traduzida (esquema original em inglês); as declarações finais do artigo estão reunidas nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Era um segredo na nossa família, e a gente não podia falar disso.
Uma participante, citada por Shauna L. Rohner et al.
Resumo
A adversidade na infância (isto é, abuso sexual, físico ou emocional e negligência física ou emocional) é um problema difundido, mas frequentemente subnotificado. Embora a revelação possa ser importante para a recuperação, os achados são inconsistentes e muitas vezes não consideram contextos sociais e interpessoais mais amplos. Este estudo teve como objetivo examinar a revelação entre pessoas sobreviventes de adversidade na infância a partir de uma perspectiva sociointerpessoal. Buscou ainda explorar as influências culturais e contextuais sobre a revelação, avaliando pessoas sobreviventes de dois contextos distintos de adversidade. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com 12 pessoas irlandesas sobreviventes de um contexto de adversidade intrafamiliar (idade média: 57,4 anos; 11 mulheres) e 17 pessoas irlandesas sobreviventes de um contexto de adversidade institucional (idade média: 60,7 anos; 10 mulheres). Os dados foram analisados por meio da análise de framework e da aplicação do modelo sociointerpessoal. Os achados indicam revelações malsucedidas e ausência de revelação na infância, com aumento da revelação na vida adulta. Os temas identificados apontam fatores ligados à revelação comuns aos dois grupos (por exemplo, vergonha, inação, falta de apoio infraestrutural e social, reconhecimento social), bem como achados específicos de cada contexto (por exemplo, o segredo de família arraigado na amostra intrafamiliar, o poder e a influência da Igreja na amostra institucional). Os resultados ressaltam a necessidade de considerar não apenas a relação entre a criança e quem cometeu a violência, mas também os complexos contextos sociais, culturais e interpessoais em que a pessoa está inserida.
Palavras-chave: adversidade na infância, revelação, análise de framework, métodos de pesquisa qualitativa, fatores sociointerpessoais
A adversidade e o trauma na infância, na forma de abuso sexual, físico ou emocional e de negligência física ou emocional, são um problema difundido, mas frequentemente subnotificado. Uma revisão de metanálises avaliou 244 publicações com 551 taxas de prevalência de adversidade na infância no mundo todo (Stoltenborgh et al., 2015). Os resultados revelaram uma grande distância entre as taxas de prevalência baseadas em informantes e as autorrelatadas, sendo estas mais altas: 36,3% para abuso emocional, 22,6% para abuso físico, 7,6% para abuso sexual (meninos), 18,0% para abuso sexual (meninas), 18,4% para negligência emocional e 16,3% para negligência física (Stoltenborgh et al., 2015). Esses achados situam a adversidade na infância como uma questão global de saúde pública e de direitos humanos. A infância é uma etapa vulnerável do desenvolvimento humano, em que as pessoas dependem amplamente do ambiente imediato para receber cuidado e atenção (Hertzman, 2013). Quando esse ambiente é marcado pela adversidade ou pela disfunção, pode haver consequências prejudiciais para a saúde, o bem-estar e o desenvolvimento da criança (por exemplo, comportamentos de risco, prejuízos à saúde física, transtornos mentais, dificuldades de ajustamento psicossocial) (Carr et al., 2020a; Kalmakis & Chandler, 2015).
Embora haja muitas pesquisas sobre as consequências negativas da adversidade na infância, comparativamente pouca atenção tem sido dada aos contextos em que essas adversidades ocorrem. Isso é crucial, pois o ambiente específico de adversidade pode influenciar as trajetórias de ajustamento a longo prazo (Assink et al., 2019). Uma classificação comum dos ambientes de adversidade segundo o contexto distingue a adversidade intrafamiliar (quando quem comete a violência é da família) da extrafamiliar (quando quem comete a violência não é da família). Há evidências de que o abuso intrafamiliar pode começar mais cedo, durar mais e ser mais frequente do que o abuso extrafamiliar (Loinaz et al., 2019). Além disso, pesquisas mostram que as crianças tendem a demorar mais para relatar abuso físico e sexual quando cometido pelos pais do que quando cometido por pessoas de fora da família (Hershkowitz, 2006). Essas complexidades mostram a importância de avaliar os contextos de adversidade.
Um ambiente extrafamiliar, o acolhimento institucional, vem recebendo atenção crescente da pesquisa. Uma revisão sistemática recente identificou associações significativas entre o abuso infantil institucional e desfechos negativos ao longo da vida nos domínios da saúde física e mental e do ajustamento psicossocial (Carr et al., 2020b). O abuso infantil institucional pode ser de particular interesse quando se comparam ambientes de adversidade, pois a instituição pode representar uma contrapartida extrafamiliar do microssistema familiar (Derksen, 2010).
Na pesquisa sobre adversidade na infância, houve um afastamento da perspectiva patológica em direção a um foco na resiliência e na capacidade adaptativa, bem como nos fatores que contribuem para elas (Höltge et al., 2018). Nessa nova perspectiva, o conceito de revelação, isto é, a exposição ou o desvelamento de experiências traumáticas, surgiu como variável-chave no ajustamento após a adversidade (Müller & Maercker, 2006). Uma metanálise de 146 estudos sobre a revelação relatou benefícios em cinco dos seis principais desfechos, a saber, saúde psicológica, funcionamento fisiológico, saúde relatada, impacto subjetivo da intervenção e funcionamento geral (Frattaroli, 2006). No entanto, os achados sobre a revelação do trauma são inconsistentes, e algumas pesquisas sugerem um lado negativo da revelação. Pesquisas sobre o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) identificaram atitudes disfuncionais em relação à revelação, incluindo a relutância ou a urgência em revelar e reações emocionais intensas durante a revelação (Müller & Maercker, 2006). Da mesma forma, um estudo com pessoas adultas sobreviventes de abuso infantil na Igreja Católica austríaca constatou que as pessoas com sintomas psíquicos elevados (em comparação com sintomas ausentes ou leves) relataram relutância significativamente maior em revelar e mais reações emocionais durante a revelação (Lueger-Schuster et al., 2014). Esses estudos mostram que a revelação pode ter um papel complexo no ajustamento após a adversidade e ressaltam a necessidade de mais esclarecimentos.
Embora as primeiras pesquisas sobre revelação tenham se concentrado em fatores individuais (por exemplo, idade, gênero), a revelação não é um processo unilateral, pois envolve uma troca entre a pessoa e seus ambientes sociais e interpessoais (Alaggia et al., 2019). Um estudo com entrevistas examinou a revelação informal entre crianças que sofreram abuso sexual e seus pais (McElvaney et al., 2014). Os fatores interpessoais foram decisivos para a capacidade da criança de contar, incluindo receber perguntas ou estímulos para revelar, outras pessoas criarem oportunidades de revelação e o encorajamento dos pares. Os resultados destacaram as dinâmicas dialógicas e interpessoais envolvidas no processo de revelação (McElvaney et al., 2014). Em consonância com essa perspectiva, o modelo sociointerpessoal de Maercker e Horn (2013) foi aplicado no presente estudo, pois descreve interações entre fatores sociointerpessoais que podem facilitar ou dificultar o processamento do trauma e o ajustamento pós-traumático. O modelo propõe três níveis de contextos sociais em que a pessoa está inserida (Maercker & Horn, 2013): (1) o nível individual amplia as perspectivas tradicionais centradas no indivíduo ao considerar afetos e cognições sociais (por exemplo, vergonha, culpa, raiva); (2) o nível das relações sociais próximas descreve as interações em relações de grande intimidade psicológica (por exemplo, apoio social, trocas negativas, empatia, revelação); e (3) o nível dos contextos sociais distantes abrange processos sociais e culturais que influenciam o processamento do trauma (por exemplo, orientações de valores culturais, reconhecimento ou injustiça sociais) (Maercker & Horn, 2013). Estudos que aplicaram esse modelo a diferentes populações, como pessoas que foram submetidas a trabalho infantil forçado (Maercker et al., 2016), ou à avaliação do transtorno de adaptação (Lorenz et al., 2018), identificaram fatores sociointerpessoais significativos, entre eles a solidão, a revelação (disfuncional), o apoio social percebido e o reconhecimento social. Contudo, são necessárias pesquisas aprofundadas para examinar as influências sociointerpessoais relevantes na revelação da adversidade na infância.
O objetivo do presente estudo foi examinar a revelação do trauma entre pessoas sobreviventes de adversidade na infância a partir de uma perspectiva sociointerpessoal. O estudo buscou ainda compreender melhor as influências culturais e contextuais sobre a revelação do trauma, avaliando pessoas sobreviventes de dois contextos de adversidade, a saber, a adversidade intrafamiliar e a institucional na infância. Para avaliar os fatores ligados à revelação dentro dos diferentes níveis sociointerpessoais e entre eles, adotou-se uma abordagem qualitativa, a fim de oferecer uma compreensão aprofundada desse tema complexo.
Este estudo se baseia nos dados qualitativos de um projeto de pesquisa mais amplo sobre resiliência e envelhecimento saudável em pessoas idosas que viveram adversidades na infância na Irlanda. O estudo é um esforço colaborativo, conduzido por uma equipe de pesquisa do Instituto de Psicologia da Universidade de Zurique com o University College Dublin, o National College of Ireland e a Universidade do Ulster. Por isso, o protocolo do estudo foi aprovado tanto pelo Comitê de Ética da Faculdade de Artes e Ciências Sociais da Universidade de Zurique, na Suíça (ID 18.6.1), quanto pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos — Humanidades do University College Dublin (ID HS-18-30-Carr). Em conformidade com a Declaração de Helsinque, o estudo foi realizado com o consentimento livre e esclarecido, por escrito, de todas as pessoas participantes.
A amostra foi composta por pessoas irlandesas com experiências de adversidade na infância e/ou na adolescência. Os demais critérios de inclusão eram ter o inglês como língua materna, ter 50 anos ou mais e não ter diagnóstico de comprometimento cognitivo ou demência. A amostra foi formada por dois grupos: (1) pessoas sobreviventes de adversidade intrafamiliar, vivida no ambiente familiar doméstico; e (2) pessoas sobreviventes de adversidade institucional, vivida em uma instituição de assistência social. Estimou-se um tamanho mínimo de amostra de 12 entrevistas com base em recomendações da pesquisa empírica para alcançar a saturação teórica (Guest et al., 2006). O recrutamento incluiu contatos com organizações lideradas por pessoas sobreviventes, divulgação boca a boca entre sobreviventes, entrevistas de rádio com a pessoa responsável pelo estudo (que assina em primeiro lugar) e a distribuição de folhetos em espaços públicos e em redes sociais, fóruns de acesso aberto e blogs. As pessoas interessadas entraram em contato com a equipe do estudo e responderam a um conjunto de perguntas de triagem para verificar a elegibilidade. As pessoas elegíveis para a entrevista qualitativa foram alocadas em seu grupo (sobreviventes de adversidade intrafamiliar ou institucional), e os grupos foram pareados quanto à gravidade das adversidades na infância com o Adverse Childhood Experiences—International Questionnaire (ACE-IQ; Organização Mundial da Saúde [OMS], 2020). Duas pessoas foram excluídas na triagem por não atenderem aos critérios de inclusão, e duas desistiram antes da entrevista por motivos pessoais.
As entrevistas semiestruturadas foram realizadas entre agosto e dezembro de 2018, em diferentes locais, conforme a preferência e a mobilidade das pessoas participantes (por exemplo, em casa, na universidade, por Skype). Para orientar as entrevistas, foi elaborado e testado um roteiro com quatro temas principais: experiências de adversidade na infância, estratégias de enfrentamento, reflexão sobre os desfechos e a vida depois da adversidade na infância (para mais detalhes, ver Mc Gee et al., 2020). As entrevistas duraram entre 60 e 120 minutos e foram gravadas em áudio. A equipe de entrevistas tinha seis pessoas pesquisadoras; cada entrevista era conduzida por uma pessoa principal, com o apoio de uma segunda pessoa que fazia anotações. As pessoas participantes podiam estar acompanhadas por alguém de sua escolha para apoio moral (que não participava da entrevista), o que duas delas fizeram. Ao final de cada entrevista, as pessoas participantes passaram por um momento de debriefing, receberam opções de apoio psicossocial e foram compensadas pelo tempo e pelo deslocamento com uma pequena contribuição financeira (20 euros), informada apenas ao final da entrevista.
A transcrição literal das entrevistas foi feita com o software f4transkript (Audiotranskription, 2021). Todas as transcrições foram revisadas e anonimizadas por duas pessoas falantes nativas de inglês (de nacionalidade irlandesa), entre elas a pessoa responsável pelo estudo (que assina em primeiro lugar). As transcrições foram então importadas para o software MAXQDA (versão 20.4.1; VERBI GmbH, 2020) para análise pelo método de análise de framework (Ritchie & Spencer, 1994). A análise de framework permite processar e organizar sistematicamente conjuntos de dados complexos e se baseia em cinco etapas bem definidas: (1) familiarização com os dados; (2) identificação de um referencial temático para a codificação; (3) aplicação do referencial de codificação por meio da indexação das transcrições; (4) organização dos dados em quadros e síntese; e (5) mapeamento e interpretação dos dados à luz das perguntas de pesquisa e da teoria e das pesquisas pertinentes (Ritchie & Spencer, 1994). A estruturação clara e a agregação dos dados em uma matriz são uma característica central desse método, que facilita comparações entre casos e dentro de cada caso (Ritchie & Spencer, 1994). O método também favorece a consideração de informações orientadas pelos dados e pela teoria, o que permite aplicar o modelo sociointerpessoal (Maercker & Horn, 2013) para identificar fatores ligados à revelação nos diferentes níveis do modelo. Quanto à confiabilidade e à validade dos achados, o valor de Kappa foi calculado como medida de confiabilidade e indicou alta concordância entre as pessoas codificadoras (κ = 0,89) (McHugh, 2012). Um processo de triangulação durante a fase de indexação garantiu alta consistência da codificação: duas pessoas codificaram independentemente todas as transcrições e discutiram os códigos finais e as divergências com a pessoa responsável pelo estudo (que assina em primeiro lugar). Também se obteve alta confiabilidade com a participação de pessoas externas na codificação, para validação cruzada de uma seleção de transcrições (Guion et al., 2011). Foi feita uma validação com as pessoas participantes: os temas foram discutidos com algumas delas, o que resultou em pequenos ajustes e em concordância geral.
Todas as citações das pessoas participantes vêm acompanhadas das seguintes informações: identificação (F = amostra [intra]familiar; I = amostra institucional), gênero e idade.
Foram realizadas entrevistas com 29 pessoas sobreviventes de adversidade na infância, em dois grupos: 12 sobreviventes de adversidade intrafamiliar, 11 mulheres e um homem, com idade média de 57,4 anos (DP = 6,27; faixa = 51–72 anos); e 17 sobreviventes de adversidade institucional, 10 mulheres e sete homens, com idade média de 60,7 anos (DP = 7,44; faixa = 50–77 anos). As avaliações subjetivas do nível socioeconômico (NSE) foram feitas em uma escala de 1 a 10, sendo 1 o mais baixo e 10 o mais alto. O NSE médio foi de 5,82 na amostra intrafamiliar (faixa: 2–7; DP = 1,47) e de 3,44 na amostra institucional (faixa: 1–7; DP = 1,89). A amostra institucional havia passado em média 10,2 anos em acolhimento institucional (faixa: <1–18 anos). Uma visão geral das informações sociodemográficas das duas amostras está na Tabela 1. Quanto à adversidade na infância, na amostra intrafamiliar as formas mais relatadas foram o abuso emocional (91,7%) e o abuso físico (90,9%), seguidos do abuso sexual (75,0%), da negligência emocional (58,3%) e da negligência física (16,7%). A amostra institucional relatou frequências ligeiramente mais altas: negligência emocional (94,0%), abuso emocional (93,8%), abuso físico (93,3%), negligência física (93,3%) e abuso sexual (77,8%).
Tabela 1 — Visão geral das características sociodemográficas das amostras intrafamiliar e institucional
Para cada característica: número (n) e porcentagem na amostra intrafamiliar (n = 12) e depois na amostra institucional (n = 17); “–” = nenhuma pessoa.
Idade (anos)
Gênero
Situação conjugal
Escolaridade mais alta
Situação de trabalho
Três temas principais emergiram dos dados sobre os fatores e o processo ligados à (não) revelação da adversidade na infância: (1) Assunto de família, na amostra intrafamiliar; (2) Religião e sociedade (o poder da Igreja), na amostra institucional; e (3) Disponibilidade de apoio, nas duas amostras. Esses temas são apresentados com referência ao modelo sociointerpessoal, isto é, aos níveis individual, das relações próximas e dos contextos sociais distantes (Maercker & Horn, 2013). Ver a Tabela 2 para uma visão geral dos temas e a Figura 1 para os temas e fatores representados nos níveis do modelo sociointerpessoal.

Tabela 2 — Visão geral dos temas: fatores e processos ligados à revelação
Assunto de famíliaa
A percepção da família como unidade social e as crenças associadas à família, que influenciaram a (não) revelação da adversidade na infância na amostra intrafamiliar.
Religião e sociedade (o poder da Igreja)b
A posição e a influência da Igreja na sociedade irlandesa da época, e o posterior reconhecimento pelo Estado e pela sociedade, que influenciaram a (não) revelação da adversidade na infância na amostra institucional.
Disponibilidade de apoio
As oportunidades e o acesso a recursos de apoio (por exemplo, apoio infraestrutural, apoio social), que influenciaram a (não) revelação da adversidade na infância nas amostras intrafamiliar e institucional.
a Tema presente apenas na amostra intrafamiliar. b Tema presente apenas na amostra institucional.
O tema Assunto de família descreve a percepção da família como unidade social e as crenças associadas à família, que influenciaram a (não) revelação da adversidade na infância na amostra intrafamiliar. Na infância, 9 das 12 pessoas da amostra intrafamiliar tiveram revelações malsucedidas, pois a maioria das tentativas de revelação foi recebida com descrença, desconsideração ou inação. Por exemplo, uma participante foi levada ao hospital por causa dos ferimentos sofridos durante o abuso sexual. No entanto, as evidências do abuso foram descartadas em favor da versão de quem o cometia, e nada foi feito:
“Mas ele me estuprou com tanta violência que eu tive um prolapso de útero. (…) Eu pensei: ‘finalmente alguém vai perceber [se dar conta] aqui’. Ele [o pai, autor da violência] ficou do lado de fora do box enquanto o médico me examinava. E aquele médico sabia exatamente o que estava vendo. (…) Meu pai disse: ‘ela está naquela idade, acho que estava brincando com um pau ou alguma coisa assim’. E ficou por isso mesmo.” (F03, mulher, 56 anos)
Um fator-chave da não revelação para as pessoas da amostra intrafamiliar era a necessidade de preservar a unidade familiar guardando o “segredo de família” (F06, mulher, 53 anos): “Era um segredo na nossa família, e a gente não podia falar disso.” (F12, mulher, 57 anos). Isso estava ligado a um sentimento de lealdade à família: “A gente meio que sente: não posso dizer nada a ninguém, porque estaria sendo desleal” (F04, mulher, 56 anos). Essa não revelação se estendeu à vida adulta, pois estava “arraigado em mim… desde pequena, simplesmente não se fala disso.” (F06, mulher, 53 anos). A não revelação na vida adulta também se devia à falta de um ponto claro de ruptura com o ambiente intrafamiliar e à impossibilidade de escapar de quem tinha cometido a violência. Consequentemente, a morte dessa pessoa foi muitas vezes “o ponto de virada” (F08, mulher, 53 anos) para a revelação, pois não havia mais represálias a temer: “Quando ele morreu, isso meio que tirou… não há mais nada a temer.” (F04, mulher, 56 anos). As pessoas participantes se sentiram libertas da narrativa que lhes fora incutida, a de guardar o segredo de família: “Não viver uma vida secreta, ou, sabe, nada… Poder falar.” (F11, mulher, 54 anos). Em contraste, a morte de quem cometeu a violência não teve a mesma importância para a revelação na amostra institucional; apenas uma pessoa mencionou a necessidade de ir ao enterro “para ver se o diabo tinha finalmente ido embora” (I02, homem, 50 anos).
Um caso singular de revelação na vida adulta na amostra intrafamiliar, por seu caráter público, foi o de três irmãs que revelaram em diferentes espaços. Primeiro, revelaram em um processo judicial contra o pai (autor da violência), o que as ajudou a se libertar de sentimentos de vergonha e estigma interiorizados havia muito tempo: “Acho que, assim que tomamos a decisão de processar (…), daquele dia em diante, acho que não carregamos mais o estigma.” (F03, mulher, 56 anos). Depois, revelaram escrevendo um livro sobre suas experiências, o que as ajudou a processar o abuso: “Escrever a sua história é muito bom mesmo, porque é como vomitar, você está se purgando.” (F01, mulher, 62 anos). Também lançaram uma campanha pública de conscientização sobre o abuso infantil intrafamiliar, falando abertamente e encorajando outras pessoas a se manifestar, para remover o estigma e “o segredo, a normalidade que acompanha o abuso sexual.” (F02, mulher, 57 anos).
O tema Religião e sociedade (o poder da Igreja) descreve a posição e a influência da Igreja na sociedade irlandesa da época, assim como o posterior reconhecimento pelo Estado e pela sociedade, que influenciaram a (não) revelação da adversidade na infância na amostra institucional. Na infância, cerca de metade (8 de 17) das pessoas da amostra institucional relatou não revelação ou uma relutância persistente em revelar, pois “eles [a Igreja] controlavam tudo. Não dava para abrir a boca sobre nada.” (I08, mulher, 61 anos). As pessoas participantes sentiam que “na verdade não tinham nenhum porto seguro” (I02, homem, 50 anos), em razão do caráter religioso da sociedade irlandesa e do poder da Igreja naquela época:
“Todo aquele abuso acontecia e, mesmo assim, eles saíam pelo mundo e eram postos em pedestais. E o poder que tinham sobre nós, e o poder que tinham lá fora… ninguém fazia nem uma pergunta.” (I07, mulher, 66 anos)
Cerca de metade (9 de 17) das pessoas da amostra institucional fez pelo menos uma tentativa de revelação na infância. Para a maioria (8 de 9), porém, a revelação foi malsucedida, o que muitas atribuíram ao poder da Igreja, somado ao seu (baixo) status social. Naquela época, uma sociedade eclesiástica permeava a Irlanda: “Era religião no café da manhã, religião no almoço, religião no jantar.” (I10, mulher, 57 anos). As figuras religiosas eram tidas em alta estima, consideradas moralmente irrepreensíveis, e estavam presentes em muitos setores da sociedade, incluindo a educação, a saúde e as instituições. As pessoas participantes, ao contrário, eram consideradas “mais baixas do que qualquer um na população da Irlanda” (I02, homem, 50 anos) e sofriam estigma e discriminação. Por causa desse desequilíbrio de poder e de posição social, sentiam que não acreditariam nelas: “A gente reclamava muitas vezes, mas a reclamação sempre passava por cima deles. Porque eles eram os responsáveis, essas pessoas eram as responsáveis por nós, e a palavra delas valia mais que a nossa.” (I12, homem, 63 anos). Tamanho era o poder da Igreja na sociedade que ele alimentava uma cultura de silêncio e complacência em que “muita gente sabia que aquilo [o abuso] estava acontecendo, mas simplesmente fazia vista grossa” (I16, mulher, 61 anos). Poucas pessoas receberam ajuda ou reconhecimento depois de revelar, o que intensificou os sentimentos de vergonha ou culpa e desestimulou novas tentativas: “Me fizeram sentir que eu é que estava errada, que eu é que era a culpada. E, sinceramente, que coisa horrível de se fazer com uma criança pequena que pediu ajuda.” (I07, mulher, 66 anos).
Na vida adulta, o declínio do poder da Igreja permitiu que as pessoas sobreviventes se manifestassem e revelassem suas experiências. Em consequência, o Estado criou uma comissão e um processo de reparação para investigar essas denúncias e indenizar financeiramente as pessoas sobreviventes. Isso também ajudou a iniciar um debate público sobre o tema: “Todos nós falando juntos sobre o que aconteceu, coisa que nunca tínhamos feito, até sair o pedido de desculpas [do Estado]. Acho que foi aí que as pessoas começaram a falar.” (I16, mulher, 61 anos). Para algumas pessoas participantes, no entanto, o processo de reparação foi uma experiência negativa de revelação forçada, em que eram pressionadas a revelar e a reviver as experiências de abuso: “Mas isso me ajudou? Porque ali estava uma coisa sobre a qual eu não estava pronta para falar. Meio que foi imposto a mim.” (I11, mulher, 66 anos). Outro aspecto negativo da maior exposição estava ligado às percepções de gênero: um participante relatou a dificuldade de revelar o abuso sexual sendo homem, diante das expectativas e dos estereótipos de gênero: “Eu não conseguia falar com ela [a esposa] sobre o que tinha acontecido comigo. (…) porque eu sentia que seria menos homem se contasse que fui estuprado quando era garoto.” (I02, homem, 50 anos). Ainda assim, a exposição na mídia e o reconhecimento social deram à maioria das pessoas participantes uma sensação de validação e de compreensão que não tinham tido na juventude: “Agora alguém está falando do que aconteceu com todos nós. (…) E agora eu sou validada! (…) Não se falava muito disso na época, então a gente nunca sabia se acreditavam ou não.” (I09, mulher, 63 anos). Várias pessoas participantes chegaram a descrever sentimentos de força ou de resiliência depois de revelar mais tarde na vida:
“Acho que estamos lidando melhor com as coisas desde que falamos, desde que dissemos: ‘vocês fizeram isso com a gente, vocês nos fizeram mal, vocês nos prenderam, vocês nos escravizaram’. Acho que é daí que muitos de nós tiramos a nossa força… Porque, senão, a gente tinha aquilo dentro de nós, estava trancado lá dentro.” (I07, mulher, 66 anos)
O último tema, Disponibilidade de apoio, descreve as oportunidades e o acesso a recursos de apoio, incluindo apoio infraestrutural e social, que influenciaram a (não) revelação nas duas amostras. Na infância, a não revelação era reforçada pela falta de serviços de apoio e de apoio social, e as pessoas participantes afirmaram que “ninguém sabia o que fazer com toda essa questão. Não havia a quem recorrer, não havia apoio, não havia recursos” (F02, mulher, 57 anos). Algumas pessoas participantes relacionaram a falta de apoio à cultura de silêncio que cercava o abuso infantil naquela época: “Ninguém falava disso [do abuso infantil] naquela época. Então a cultura de então era assim, silêncio mesmo.” (F09, mulher, 52 anos). Muitas descreveram o forte contraste entre a falta de opções de apoio que tiveram e as que existem hoje para as crianças, como “aconselhamento, e há pessoas disponíveis nas escolas e em outros lugares com quem dá para conversar” (F06, mulher, 53 anos), ou poder “pegar o telefone agora e ligar para a ChildLine ou algo assim, sabe. Isso não existia no meu tempo.” (F09, mulher, 52 anos). As pessoas sobreviventes da adversidade institucional também refletiram sobre a melhora do apoio formal nos serviços de acolhimento: “Agora tem pessoas de referência, tem pessoas para cuidar, e tem tudo isso para ajudar. Eu não tinha ninguém.” (I09, mulher, 63 anos).
Diferentemente da infância, a vida adulta foi marcada, para os dois grupos, por maior disponibilidade de recursos de apoio, o que facilitou a revelação. O apoio social foi de extrema importância para os dois grupos na vida adulta, e as pessoas participantes criaram as próprias redes de apoio: “Tenho amizades muito boas agora, um pequeno grupo de pessoas muito próximas com quem eu poderia falar sobre qualquer coisa. E isso era algo que eu não tinha quando criança.” (F12, mulher, 57 anos). Quanto aos serviços de apoio, algumas pessoas da amostra institucional recorreram a serviços de aconselhamento psicológico financiados pelo Estado para processar mais tarde na vida as experiências de adversidade: “Quando saiu o pedido de desculpas do Estado, eles ofereceram aconselhamento (…) o bom dela [a conselheira] é que ela não perguntava muito, só me deixava falar.” (I01, mulher, 50 anos). O acesso a estruturas de apoio (por exemplo, aconselhamento psicológico, grupos e centros de apoio) foi crucial para a revelação na amostra intrafamiliar, ajudando a lidar com os sentimentos de culpa ou de vergonha carregados desde a infância:
“Acho que foi meio que o aconselhamento que me fez acreditar que nada daquilo era culpa minha. Sabe, eu sempre disse que a gente tinha feito alguma coisa que fazia ela [a mãe] bater na gente. Mas ela [a conselheira] me fez acreditar que nunca foi culpa minha.” (F12, mulher, 57 anos)
“O vínculo que todos nós temos, sabe, e ele é mais forte do que o de algumas famílias. E não é tanto que a gente o tenha feito assim, e também não aconteceu do nada… é resultado direto de onde a gente estava, de como a gente cresceu.” (I11, mulher, 66 anos)
Este estudo examinou a revelação do trauma entre pessoas sobreviventes de dois contextos de adversidade na infância, o intrafamiliar e o institucional, a partir de uma perspectiva sociointerpessoal. Os achados indicam, nas duas amostras, uma infância marcada por revelações malsucedidas e pela não revelação, com aumento da revelação na vida adulta. Três temas identificaram fatores e processos ligados à revelação relevantes para as duas amostras (por exemplo, vergonha, inação, falta de apoio infraestrutural e social, reconhecimento social), bem como achados específicos de cada contexto (por exemplo, o segredo de família arraigado na amostra intrafamiliar, o poder e a influência da Igreja na amostra institucional). Esses achados evidenciam a interação de fatores situados em diferentes níveis sociointerpessoais na influência sobre a (não) revelação (Maercker & Horn, 2013).
Nas duas amostras, a não revelação na infância estava ligada a sentimentos de vergonha, perpetuados pelas normas culturais e pelos valores sociais predominantes na Irlanda daquela época (por exemplo, a subordinação das crianças, a cultura de silêncio em torno do abuso infantil), e à descrença ou à inação correspondentes de membros da comunidade. Esses achados são sustentados pela pesquisa de foco cultural de Fontes e Plummer (2010), triangulada com dados de casos clínicos. Os resultados identificaram barreiras socioculturais à revelação, entre elas a centralidade da vergonha e o tabu de falar sobre sexualidade ou abuso (Fontes & Plummer, 2010). Em consonância com o modelo sociointerpessoal (Maercker & Horn, 2013), os presentes achados reforçam a ideia de que fatores socioculturais têm papel na revelação do abuso infantil, como parte de uma interação complexa com fatores individuais e interpessoais.
Além dos fatores comuns, as dinâmicas da revelação no presente estudo também revelaram características divergentes nas duas amostras, o que ressalta a importância de uma perspectiva da revelação sensível ao contexto. O primeiro tema, Assunto de família, identificou vários fatores ligados à revelação específicos do contexto de adversidade intrafamiliar. A experiência de adversidade na infância era enquadrada pelo valor social atribuído à unidade familiar como intocável (isto é, nível dos contextos sociais distantes; Maercker & Horn, 2013), o que muitas vezes resultava em inação depois de uma revelação (malsucedida). Isso é sustentado por pesquisas internacionais sobre normas sociais relativas à violência contra crianças, segundo as quais não interferir em assuntos de família é uma norma social de comportamento profundamente enraizada em crenças normativas e em expectativas sociais (Fundo das Nações Unidas para a Infância [UNICEF], 2016). Como essas normas podem influenciar a (falta de) resposta ao abuso infantil, são necessárias mais pesquisas sobre esse aspecto sociocultural muito negligenciado da revelação da adversidade na infância.
Uma barreira crítica à revelação intrafamiliar eram as complexidades da relação familiar: as pessoas participantes não falavam por medo de desfazer a família ou por sentimentos de (des)lealdade (isto é, níveis individual e das relações próximas; Maercker & Horn, 2013). Isso é coerente com a pesquisa de Collin-Vézina et al. (2015) sobre o abuso sexual infantil, que mostrou que o medo do afastamento dos pais era uma barreira crítica à revelação. Da mesma forma, um estudo com entrevistas com pessoas sobreviventes de abuso sexual infantil intrafamiliar constatou que o desejo de proteger as relações com os membros da família e a necessidade de apresentar uma identidade familiar e pessoal normativa eram justificativas comuns para ocultar o abuso (Tener, 2018). Acrescentando-se a essa questão de múltiplas camadas, algo exclusivo da amostra intrafamiliar era a impossibilidade de escapar do ambiente adverso, em razão do vínculo familiar e da presença física ou emocional contínua de quem cometeu a violência. Consequentemente, a morte dessa pessoa representou um facilitador-chave da revelação. Isso é coerente com um estudo recente sobre experiências de luto e abuso sexual infantil, em que a morte de quem cometeu o abuso esteve associada a uma sensação de liberdade para falar (Lin et al., 2021). Embora os presentes achados sugiram a complexidade da dinâmica entre a criança e quem comete a violência, a morte de um familiar que cometeu a violência pode vir acompanhada de emoções conflitantes, sentimentos complicados de perda e possíveis mudanças na identidade (e na autoimagem) da pessoa sobrevivente dentro do sistema familiar. Por isso, são necessários estudos aprofundados para compreender e apoiar melhor o delicado processo de revelação do abuso infantil intrafamiliar.
O segundo tema, Religião e sociedade (o poder da Igreja), identificou fatores ligados à revelação específicos do contexto de adversidade institucional. Como as instituições eram dirigidas por ordens religiosas, o poder da Igreja na sociedade era uma barreira-chave à revelação na infância. Isso está de acordo com a pesquisa de Spröber et al. (2014) com sobreviventes de abuso sexual infantil em instituições religiosas na Alemanha. Os resultados identificaram fatores propícios à ocorrência de abuso sexual repetido por longos períodos, incluindo pressupostos sociais sobre os direitos das crianças (por exemplo, poucos direitos, prática regular de castigos físicos) e a natureza das estruturas institucionais (por exemplo, estruturas hierárquicas de poder e dependência, viés de credibilidade a favor das figuras de autoridade) (Spröber et al., 2014). No presente estudo, a onipresença dos valores religiosos na sociedade irlandesa e, especificamente, a interdição do discurso sobre sexo dificultaram a revelação do abuso (sexual) nos dois grupos. Isso pode refletir a ligação entre religião e identidade nacional na Irlanda dos séculos XIX e XX e a implantação da Igreja em diversos setores sociais, o que pode ter contribuído para os altos níveis de adesão aos ensinamentos da Igreja (Féich & O’Connell, 2015; McLoone-Richards, 2012).
Na vida adulta, uma diferença significativa entre as duas amostras foi o grau de reconhecimento social (isto é, nível dos contextos sociais distantes; Maercker & Horn, 2013) das pessoas sobreviventes da adversidade institucional, em comparação com as sobreviventes do abuso intrafamiliar. Isso pode se dever ao caráter público do tema. A ação do Estado sobre o abuso institucional e a atenção da mídia que a acompanhou aumentaram a exposição da sociedade ao problema e sua compreensão, encorajando as pessoas sobreviventes a se manifestar. Embora faltasse reconhecimento social às sobreviventes do abuso intrafamiliar, uma exceção notável foram as três irmãs que escreveram um livro sobre suas experiências e lançaram uma campanha pública de conscientização em favor de sobreviventes do abuso (sexual) infantil intrafamiliar. Dado o efeito benéfico do reconhecimento social e da revelação (por exemplo, Mc Gee et al., 2020), uma ação-chave para facilitar a revelação e melhorar os desfechos pode ser ampliar a conscientização e o reconhecimento sociais do abuso (sexual) infantil intrafamiliar.
O último tema, Disponibilidade de apoio, identificou a (falta de) apoio como importante para a revelação, independentemente do contexto de adversidade. As duas amostras relataram que a falta de apoio social (isto é, nível das relações próximas) e de apoio infraestrutural (isto é, nível dos contextos sociais distantes; Maercker & Horn, 2013) foi uma barreira à revelação na infância. Já na vida adulta, a maior disponibilidade de recursos de apoio criou oportunidades de revelação. Isso é coerente com pesquisas anteriores sobre o impacto do apoio social percebido após o abuso (sexual) infantil (por exemplo, Collin-Vézina et al., 2015). Um achado singular do presente estudo foi a importância do apoio entre pares para as pessoas sobreviventes da adversidade institucional (isto é, nível das relações próximas; Maercker & Horn, 2013), já que suas experiências compartilhadas de adversidade facilitaram a revelação. Isso está de acordo com a pesquisa recente de Sheridan e Carr (2020), que constatou que as interações entre sobreviventes que ofereciam apoio duradouro, relação autêntica e aceitação das experiências de vida eram um aspecto do crescimento pós-traumático após o abuso infantil institucional. Os presentes achados sugerem ainda que a experiência de trauma coletivo, e o consequente senso de comunidade e de apoio entre pares, também podem facilitar a revelação e o fortalecimento das pessoas sobreviventes.
Quanto às implicações, os achados podem orientar a pesquisa e a prática clínica futuras no que diz respeito a criar ambientes seguros para a revelação de informações potencialmente traumáticas ou estigmatizantes, como o abuso infantil. São necessárias abordagens psicoterapêuticas (e de pesquisa) sensíveis às influências socioculturais sobre a revelação (por exemplo, a cultura de silêncio, o abuso sexual como tema tabu), bem como aos desafios específicos de cada contexto de adversidade (por exemplo, crenças religiosas ou familiares arraigadas). Além disso, o sucesso do apoio entre pares e das redes lideradas por sobreviventes na amostra institucional pode indicar uma oportunidade de incorporar iniciativas conduzidas por sobreviventes à prática clínica, como o aconselhamento assistido por pares (Konya et al., 2020). Isso poderia aumentar a adesão das pessoas sobreviventes de abuso infantil aos serviços de apoio psicossocial. No plano das políticas públicas, os achados indicam a necessidade de programas de psicoeducação e de campanhas públicas para enfrentar normas sociais e culturais nocivas subjacentes, como a normalização da violência doméstica, e o estigma e o silêncio em torno do abuso infantil (Powell & Scanlon, 2015). Isso pode ser particularmente relevante para ampliar o reconhecimento social e facilitar a revelação do abuso (sexual) infantil no contexto irlandês, dada a interdição histórica do debate público sobre o tema (McLoone-Richards, 2012). Além disso, algumas pessoas da amostra institucional relataram ter se sentido despreparadas ou forçadas a revelar durante a investigação do Estado e o processo de reparação. Isso poderia orientar a condução futura de casos investigativos ou periciais desse tipo, priorizando uma revelação acompanhada por terapia como parte do processo (Alaggia et al., 2019). Por fim, como a falta de estruturas de apoio foi uma barreira à revelação na infância, é crucial aumentar o financiamento para facilitar o acesso a serviços e recursos de apoio e criar caminhos para a revelação.
Os resultados devem ser considerados à luz das limitações do estudo. Primeiro, o desenho retrospectivo pode gerar vieses de memória (Althubaiti, 2016), o que indica a necessidade de futuros estudos prospectivos sobre a revelação do abuso infantil em diversos contextos de adversidade. Segundo, apesar de grandes esforços para recrutar mais homens, a amostra intrafamiliar foi predominantemente feminina. Uma explicação, levantada por um participante do estudo, pode estar nos estereótipos e nas expectativas negativas em torno da masculinidade, que podem impedir ou retardar a revelação entre os homens (por exemplo, Collin-Vézina et al., 2015). Para refletir melhor as experiências masculinas de abuso infantil (intrafamiliar) e de revelação, estudos futuros deveriam avaliar amostras mais equilibradas quanto ao gênero, com recrutamento direcionado de homens sobreviventes. Terceiro, a participação voluntária pode gerar um viés de autosseleção. Isso pode ser particularmente problemático em um estudo sobre a revelação do abuso infantil, já que quem não revelou pode ter menor probabilidade de participar. Estudos futuros com levantamentos on-line anônimos, quantitativos ou qualitativos, podem estimular a participação e a revelação sobre temas tão sensíveis (Braun et al., 2021). Apesar dessas limitações, este estudo oferece uma contribuição valiosa sobre a revelação do abuso infantil ao adotar uma abordagem qualitativa comparativa e uma perspectiva sociointerpessoal abrangente. Até onde a equipe de pesquisa sabe, este é o primeiro estudo a aplicar o modelo sociointerpessoal (Maercker & Horn, 2013) para mapear fatores (individuais, interpessoais e socioculturais) ligados à revelação entre pessoas irlandesas sobreviventes de abuso infantil intrafamiliar e institucional.
Três temas mostraram fatores e processos ligados à revelação do abuso infantil em diferentes níveis sociointerpessoais (Maercker & Horn, 2013). Na infância, as pessoas sobreviventes da adversidade intrafamiliar e institucional enfrentaram barreiras comuns à revelação, incluindo a falta de apoio infraestrutural e social, sentimentos de vergonha agravados por normas sociais e culturais repressivas e a inação de pessoas ou comunidades. Na amostra intrafamiliar, sentimentos arraigados de lealdade familiar e a impossibilidade de escapar do ambiente adverso favoreceram a não revelação, que se estendeu à vida adulta. Já na amostra institucional, a não revelação na infância foi influenciada pelo poder da Igreja na sociedade, e a revelação aumentou na vida adulta à medida que a influência da Igreja diminuía e o reconhecimento social crescia. Como a revelação pode representar um primeiro passo para lidar com a adversidade na infância e receber o apoio adequado, compreender as barreiras e os facilitadores de uma revelação bem-sucedida é de extrema importância para a pesquisa e para a prática. Acima de tudo, esses achados ressaltam a necessidade de considerar não apenas os fatores ligados à relação entre a criança e quem comete a violência, mas também os complexos contextos sociais, culturais e interpessoais em que a pessoa está inserida.
Complexe Systémique: a reter
O interesse do estudo está em seu deslocamento do olhar: a revelação não aparece como um ato individual de coragem, mas como um acontecimento relacional, que depende de quem escuta, do que a família e a sociedade permitem dizer e do momento. Nas famílias, a lealdade e o segredo, sustentados pela presença duradoura da pessoa violenta, travam a fala até a vida adulta, às vezes até a morte dessa pessoa. Nas instituições, era o prestígio da Igreja que tornava a fala inacreditável, e foi o reconhecimento público que a tornou possível, às vezes ao preço de uma revelação forçada. Para a clínica, vale reter que um enquadre terapêutico não basta para tornar possível o dizer: é preciso trabalhar as lealdades, as alianças e o contexto, e oferecer acompanhamento nos procedimentos que exigem um relato. Os limites são os de um estudo retrospectivo com 29 pessoas idosas, voluntárias, majoritariamente mulheres no grupo familiar, na Irlanda de uma época específica. Para ler junto com o artigo sobre a gestão da revelação nos relatos de crianças e com o artigo sobre os segredos de família como portas de entrada.
Notas do original
Normas éticas e consentimento livre e esclarecido. O protocolo do estudo foi aprovado tanto pelo Comitê de Ética da Faculdade de Artes e Ciências Sociais da Universidade de Zurique, na Suíça (ID 18.6.1), quanto pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos — Humanidades do University College Dublin (ID HS-18-30-Carr). O estudo foi conduzido em conformidade com a Declaração de Helsinque.
Agradecimentos. A equipe agradece a todas as pessoas entrevistadas que compartilharam generosamente suas experiências para este estudo, bem como a Clodagh Cogley, Nathalie Golec, Tina Tanner, Penelope Adams e Flavia Eigenmann pela ajuda na condução do estudo. Este estudo também recebeu apoio do Programa de Pesquisa Prioritária da Universidade de Zurique (URPP) “Dynamics of Healthy Aging”.
Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver conflitos de interesse.
Referências
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Tradução não oficial em português de Uma perspectiva sociointerpessoal sobre a revelação da adversidade na infância: uma abordagem qualitativa comparativa com pessoas sobreviventes irlandesas, de Shauna L. Rohner, Aileen N. Salas Castillo, Jessica Michel, Andreas Maercker, Alan Carr e Myriam V. Thoma, Journal of Family Trauma, Child Custody & Child Development, vol. 20, no 4 (2023), doi: 10.1080/26904586.2023.2177234, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em forma de lista, legenda da figura traduzida). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “A socio-interpersonal perspective on the disclosure of childhood adversity: A qualitative comparative approach in Irish survivors”, publicado em Journal of Family Trauma, Child Custody & Child Development (2023) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Rohner, S. L., Salas Castillo, A. N., Michel, J., Maercker, A., Carr, A., et Thoma, M. V. (2023). Uma perspectiva sociointerpessoal sobre a revelação da adversidade na infância: uma abordagem qualitativa comparativa com pessoas sobreviventes irlandesas (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/uma-perspectiva-sociointerpessoal-sobre-a-revelacao-da-adversidade-na-infancia (Obra original publicada em 2023 em Journal of Family Trauma, Child Custody & Child Development, 20(4), 507-527 (2023); republicada em 2023 por Journal of Family Trauma, Child Custody & Child Development, https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/26904586.2023.2177234)
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