Esta versão foi traduzida do inglês pelo Complexe Systémique com a ajuda da inteligência artificial. Em caso de dúvida, prevalece a versão original.
Systemic Practice and Action Research · Prática sistêmica
E se a pesquisa não parasse no campo, mas atravessasse uma vida inteira? Vinte anos depois do artigo de Judi Marshall que fez do “viver a vida como investigação” uma referência da pesquisa-ação em primeira pessoa, Margaret Gearty e Judi Marshall retomam a noção por dentro: dois retratos, um quadro de temas e três imagens para mostrar como essa prática se molda, se corporifica e se discerne no dia a dia.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Viver a vida como investigação: uma prática sistêmica a serviço da mudança, de Margaret Rose Gearty e Judi Marshall, publicado na Systemic Practice and Action Research (Springer) (2021), doi: 10.1007/s11213-020-09539-4, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. O quadro é apresentado em forma de lista; as três imagens são as do original, com legendas traduzidas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
O viver a vida como investigação, como forma de pesquisa-ação em primeira pessoa, é ao mesmo tempo profundamente político e profundamente pessoal.
Margaret Rose Gearty e Judi Marshall
Resumo
A orientação prática da pesquisa-ação, somada a seus princípios de enraizamento e de participação, torna-a particularmente adequada a questões complexas e interligadas e a problemas sistêmicos da “vida real”. No campo da pesquisa-ação em primeira pessoa, o influente artigo de Judi Marshall (1999), “Living Life as Inquiry”, descreveu como essa pesquisa pode se estender à vida inteira, de modo que questões profissionais e pessoais possam se inscrever em quadros politicamente relevantes. Nas duas últimas décadas, muitas pessoas em formação e em pesquisa trabalharam com a ideia de viver a vida como investigação (VVI) e dela tiraram muita inspiração criativa. No entanto, pouco se escreveu para descrever como essa prática se desenvolve e as muitas formas que ela pode assumir. Este artigo se apoia em nossa longa experiência como pessoas que investigam e como docentes, no trabalho com estudantes e com agentes de mudança que querem enfrentar questões sociais e ambientais. Vinte anos depois do artigo original, realizamos uma revisão reflexiva que incluiu um levantamento da literatura e um trabalho aprofundado com um conjunto de relatos e de práticas atuais. Daí resulta uma ampliação cheia de nuances da linguagem e da prática do viver a vida como investigação, tal como é abordado a partir da singularidade da vida de cada pessoa. Por meio de texturas narrativas e visuais, apresentamos vislumbres das muitas maneiras como a VVI se desenvolve em práticas cotidianas de experimentação, coleta de dados, exploração artística, intervenção e reflexão. Examinamos o que isso significa para a qualidade da investigação posta em ato. O artigo chama atenção em especial para a natureza corporificada da investigação e procura captar sua qualidade fugaz e processual.
Palavras-chave: viver a vida como investigação, pesquisa-ação em primeira pessoa, investigação autorreflexiva, prática corporificada, prática sistêmica
Em 1999, Judi Marshall escreveu um influente artigo de pesquisa-ação no qual oferecia um relato reflexivo, em várias camadas, de sua maneira de levar uma atitude investigativa para a própria vida de pesquisadora e de aspirante a agente de mudança no mundo. O artigo de Marshall (Marshall 1999), intitulado “Living life as Inquiry”, foi publicado na revista Systemic Practice and Action Research. Ele dava corpo à ideia de que a pesquisa é uma questão pessoal e política, e sugeria que o trabalho de pesquisa-ação inclui relacionar e explorar justamente as distinções que, tradicionalmente, poderiam separar esses dois domínios.
Nos vinte anos seguintes, o viver a vida como investigação de Marshall tornou-se uma referência importante no panteão de práticas e ideias que constituem a pesquisa-ação “em primeira pessoa”. O trabalho autorreflexivo, em primeira pessoa, é ele mesmo uma orientação de base da pesquisa-ação, na qual quem pesquisa faz parte do campo e procura levar cada vez mais investigação e consciência à sua presença e aos seus momentos de ação ali (Reason e Bradbury 2001; Coghlan 2003; Marshall e Mead 2005). A investigação em primeira pessoa raramente é uma atividade solitária. Ela contribui com um fio essencial numa pesquisa que costuma se articular com a pesquisa-ação em segunda e em terceira pessoa.
Autores muito diversos, de diferentes tradições, trabalham a partir das práticas de investigação em primeira pessoa e procuram contribuir para elas, na pesquisa-ação e, de modo mais geral, na pesquisa qualitativa, estimulados a adotar a autorreflexividade em tempos de perspectivas múltiplas, paradigmas contestados e de uma “tripla crise de representação, legitimação e práxis” (Denzin e Lincoln 2005: p. 19). Mas, em nossa experiência, muita gente acha a noção de autorreflexividade difícil, por mais que a literatura sobre paradigmas e metodologias de pesquisa a defenda. Em parte, é por isso que queremos explorá-la aqui em profundidade.
Ao destacar aqui esses aspectos da pesquisa, reconhecemos que fazemos a escolha política de dar atenção ao que muitas vezes fica silenciado na prática e na representação da pesquisa, e de formulá-lo. Isso importa, pensamos, porque, ao investigar e ao aspirar a promover mudança, com interesse pela prática sistêmica, intervimos no mundo, com possíveis efeitos, e temos portanto a responsabilidade de prestar atenção ao que fazemos e de prestar contas disso.
Nesse campo, o viver a vida como investigação pode ser situado como uma interpretação particular, ainda que ampla, da pesquisa-ação em primeira pessoa, que contrasta e forma par com abordagens mais estruturadas, como a investigação-ação (Erfan e Torbert 2015; Reason e Torbert 2001) e a ciência da ação (Argyris et al. 1985; Argyris e Schon 1996). Sentimos afinidade com o trabalho integrador de Coghlan, que situa a investigação autorreflexiva em primeira pessoa no centro dos processos de pesquisa-ação em segunda e terceira pessoa (Coghlan e Brannick 2014), ao mesmo tempo que lhe dá fundamento filosófico. Coghlan propõe que a autenticidade na realização da pesquisa-ação, assim como na da própria vida, está não nos dados, mas na prática em primeira pessoa (Coghlan 2008). Onde Coghlan aponta para o território interior, o viver a vida como investigação pode ser visto como uma tentativa de mostrar como é viajar por ele.
Segundo Marshall, viver a vida como investigação (VVI) significa manter aberta a fronteira entre a pesquisa e a vida em geral (Marshall 1999, p. 160), “viver continuamente em processo, ajustando-se, vendo o que emerge” (p. 156), e adotar uma série de estratégias e de modos de agir para sustentar isso. A noção é apresentada como profundamente aspiracional. A partir de dois exemplos de sua vida profissional como professora universitária, Marshall ilustrou sua abordagem investigativa, consciente da exposição de si que isso exigia, ao tornar públicos seus processos privados, incluindo práticas de atenção para trabalhar nessa fronteira sempre em mudança. Ela desenvolveu, por exemplo, curiosidade por saber “quando persistir e quando desistir” (p. 165, idem) em certas situações. Uma vez percebida, e alimentada por sua pesquisa sobre mulheres na gestão, essa questão começou a ricochetear em outros projetos de que ela participava e a se ligar a questões mais amplas de gênero e às teorias feministas da “prática relacional” (Fletcher 1998).
Assim, embora situada na proximidade da experiência vivida, a abordagem de Marshall começa a assumir um propósito político mais amplo. Em seu livro posterior, Marshall (2016a) deu atenção mais explícita às questões de poder e ao pensamento sistêmico, enriquecendo a descrição do viver a vida como investigação como um meio não só de liberar o anseio humano profundo de aprender, mas também de ser criativo a serviço da mudança sistêmica exterior. Dessa forma, o trabalho de Marshall tem apoiado pessoas em formação e em pesquisa que recorrem ao potencial sistêmico, baseado em valores, da pesquisa-ação como meio de chegar a uma sociedade melhor e mais livre (Greenwood e Levin 2007).
Em 2018, decidimos fazer um balanço da noção de viver a vida como investigação, vinte anos depois, e realizar uma pesquisa com vistas a escrever este artigo.
Um tema de destaque na literatura que cita o trabalho de Marshall é sua função de legitimar práticas de pesquisa que convidam a prestar atenção à maneira como nos vivenciamos na investigação (Lord e Preston 2009; Allbon 2012). Seu trabalho costuma ser situado em noções mais amplas de prática reflexiva, aparecendo, por exemplo, ao lado de obras de Schon e de Torbert (Coghlan 2003; Nzembayie et al. 2019). A ênfase no desenvolvimento de uma prática integrada, e não apenas na produção de conhecimento, aproxima-o naturalmente dos referenciais da ciência da ação. O que distingue o viver a vida como investigação é sua orientação processual: quem pesquisa não fica à parte, mas mergulha na ação do presente contínuo (Ragland 2006). A imagem proposta por Marshall (1999, p. 157) de um movimento entre “arcos de atenção interior e exterior” foi a mais citada na literatura para explicar o que a VVI implica. Ela é apresentada como um apoio para a consciência e a vida cotidianas (Taylor 2004) e, portanto, para um modo de ser. Ramsey compara o processo aos ritmos poéticos, à criação de novas possibilidades no instante, um processo “conscientemente experimental e transformador” (Ramsey 2018, p. 90). Isso se liga às ideias de uma epistemologia da prática, propostas tanto por Raelin (2007) quanto por Ramsey (2014), em que o saber é uma atividade, e não uma posse. Como diz Raelin, o saber buscado é prático e baseado em habilidades, e tem a ver com “encontrar, aprendendo, a saída” dos momentos em que a expertise, o hábito e a competência nos falham (p. 500). O vocabulário de Marshall, de um viver e de um praticar de instante a instante, parece ressoar de modo interessante com essas epistemologias, assim como com o apelo mais amplo de Ramsey por uma “linguagem do processo” (Ramsey 2014, p. 8) que faça justiça às experiências vividas e lhes dê sustentação. Essa era uma das conexões possíveis que queríamos explorar aqui.
Outra questão era como seria, na prática, o viver a vida como investigação. Apesar do vínculo claro com a prática, é interessante notar que pouquíssimas publicações desde 1999 descrevem em detalhe as próprias práticas de investigação de quem as escreve. Há algumas exceções. Allbon (2012), por exemplo, descreve sua aplicação pessoal da VVI e faz conexões com sua escrita autoetnográfica. Shepherd (2006) expôs suas práticas de diário, apoiando-se nos métodos de investigação radical de Marshall para poder trabalhar com conteúdos e ideias radicais. Sabemos que o espaço e as convenções dos artigos de revista nem sempre permitem explicitar práticas detalhadas. Contudo, a escassez de ilustrações talvez decorra também de um paradoxo: como processo “pós-convencional”, o viver a vida como investigação não oferece nenhuma rubrica diretiva do que fazer. O resultado é que, apesar da insistência de Marshall em que o viver a vida como investigação é algo altamente individual e contextualizado, sua própria expressão dessa abordagem continua um tanto sozinha na galeria. Nossa intenção aqui é ao menos apontar essa lacuna e, em parte, remediá-la, apresentando um material com alguma textura.
Diante do entusiasmo da literatura que cita Marshall (1999), mas de sua relativa falta de especificidade, perguntamo-nos se a VVI não está sendo usada como noção de ancoragem, da qual as pessoas tiram encorajamento e legitimidade para desenvolver seu próprio caminho e suas próprias práticas de investigação. Nossa experiência na educação, com a grande variedade de interpretações que as pessoas dão ao viver a vida como investigação, sugere que talvez seja esse o caso. Investigamos e ensinamos, e trabalhamos com estudantes de mestrado e doutorado em três instituições do Reino Unido, em programas baseados na pesquisa-ação. Esse público estava de algum modo envolvido com a mudança sistêmica, e muitas dessas pessoas se preocupavam especialmente com questões de sustentabilidade e justiça social. A pesquisa-ação em primeira pessoa foi considerada útil, importante e libertadora. Presenciamos muitas maneiras criativas de trabalhar com a ideia de viver a vida como investigação. A expressão cativou o público estudantil: uma aspiração de início parecida com um slogan, que conduz a cultivar no dia a dia práticas de tomada de decisão, coleta de dados, exploração artística, intervenção, prática reflexiva e questionamento no momento certo. A linguagem cuidadosa e cheia de camadas de Marshall, e suas ilustrações, deram força a quem estudava: houve quem se declarasse (às vezes um pouco depressa demais, pode-se dizer!) vivendo a vida como investigação, com graus variados de rigor e profundidade. A expressão pode parecer conceder permissão para explorar, descobrir e ter curiosidade. Cada pessoa desenvolveu as próprias práticas, com grande variedade, trazendo para isso sua experiência de vida. Com esta pesquisa, quisemos compreender melhor essa evolução do slogan para a prática profunda, perguntando: como se desenvolve uma prática de viver a vida como investigação, e como ela muda com o tempo?
A investigação autorreflexiva está exposta à crítica de autoindulgência. Embora não tenhamos encontrado essa crítica muito discutida na literatura que cita Marshall (1999), sabemos que a reflexão pode ser apresentada sem espírito crítico como uma “coisa boa a fazer”, e isso exige cautela. Nossa experiência nos ajudou a reconhecer os desafios, tanto generativos quanto degenerativos, dessa abordagem, e partimos com o interesse de fazer um balanço deles. Quando toda a vida está aberta à curiosidade, acusações de autoindulgência ruminativa podem se enfrentar com réplicas em defesa de uma autoexpressão investigativa e valiosa. Não são tensões fáceis, mas são instrutivas. A maneira como quem investiga lida com esses dilemas aponta para questões de qualidade que também queríamos abordar neste texto.
Em resumo, partimos, em linhas gerais, com as seguintes intenções. Pensando em quem pratica a pesquisa-ação sistêmica, procuramos dar textura à expressão original do viver a vida como investigação, para ampliar e expor melhor as dimensões de variabilidade e os processos de qualidade possíveis. Reconhecendo os vinte anos de engajamento contínuo em nossos programas educacionais, parece oportuno começar a trazer, ao lado da voz inicial de Marshall, novas percepções vindas da prática e, com isso, manter a abertura às suas bordas generativas e degenerativas. Temos curiosidade de ver como essas percepções poderiam nos ajudar a desenvolver os vínculos existentes com as epistemologias da prática e a estabelecer uma linguagem mais firme, que possa tanto ancorar ainda mais o viver a vida como investigação no campo da pesquisa-ação quanto criar conexões interessantes fora dele.
Esse processo de investigação foi iniciado pela pessoa que assina em primeiro lugar (M), que depois convidou a segunda (J) a se juntar a ela. Havia nisso, da parte de M, um elemento de homenagem às contribuições de J para a pesquisa-ação, incluindo o artigo de 1999 e o livro que veio depois (Marshall 2016a), junto com o desejo de reavivar as conversas sobre investigação nos meios de formação e de prática que ela frequentava. J estava muito aberta a explorar de novo a investigação em primeira pessoa e a enfrentar o desafio e o questionamento que ela sabia que M traria. O entusiasmo pelo tema surgiu facilmente entre nós. O vigésimo aniversário do artigo original, somado ao interesse contínuo do público estudantil pela abordagem, indicava uma necessidade e uma pertinência. O artigo foi então elaborado numa longa série de ciclos de investigação ao longo de doze meses. Os métodos adotados pretendiam explorar a investigação em primeira pessoa por dentro e com alguma profundidade, para ir além das formulações iniciais. Retrospectivamente, podemos identificar três fases.
Na primeira fase, procuramos produzir um conjunto de materiais-fonte coerentes com o viver a vida como investigação, apoiando-nos em nossa longa história de trabalho com pesquisa-ação. Além disso, em sintonia com o impulso retrospectivo que havia dado início a este trabalho, encomendou-se uma revisão da literatura das publicações que citam Marshall (1999). Ela foi realizada por uma assistente de pesquisa (Ilma), recém-formada em um mestrado baseado na pesquisa-ação que uma de nós havia dirigido.
Paralelamente, nós, as duas pessoas que assinam, escrevemos relatos autorreflexivos sobre nossas práticas de investigação em primeira pessoa e sobre nossa visão atual dessa forma de pesquisar e de viver. Ilma também foi convidada a escrever sobre sua experimentação empírica e sobre o acompanhamento de suas práticas de investigação, tal como tinham se desenvolvido durante o mestrado e depois dele. O interesse recaía em especial sobre como essas práticas vinham mudando desde a formatura, pois esse momento representava uma passagem entre a investigação exigida e apoiada pelos estudos e a investigação como prática contínua.
Na segunda fase do projeto, procuramos ampliar a diversidade de relatos de investigação e refletir analiticamente sobre o material já produzido. Escrevemos retratos de outras duas pessoas formadas no mestrado (Charles e Rachel, um pseudônimo) cujas práticas de investigação nos pareciam mostrar estilos interessantes e contrastantes. As duas pessoas atuavam na mudança sistêmica, eram movidas por pautas de sustentabilidade e usavam a investigação como meio de promover mudança por dentro e por fora. Os retratos nos ajudaram a explorar como as práticas de investigação podem se tornar mais claras em mestrados baseados na pesquisa-ação.
Submetemos esses retratos às pessoas envolvidas, pedindo autorização para usar o material e convidando-as a comentá-lo. As versões iniciais dos retratos foram aprovadas, e novas percepções foram oferecidas. Com os relatos da equipe de pesquisa, isso nos deu cinco relatos de investigação para trabalhar. Não consideramos isso tanto uma amostra, mas uma base suficiente para explorar.
Desenvolvendo esse material inicial, entramos em pequenos ciclos de conversa, interpretação e construção iterativa de sentido, por meio de trocas de e-mails (das quais Ilma às vezes participava) e de reuniões de pesquisa, realizadas sobretudo por videoconferência. As reuniões eram gravadas para facilitar a revisão contínua. Trabalhar assim gerou muito material divergente, coerente com nossa experiência das maneiras diversas de fazer pesquisa-ação em primeira pessoa e de como as práticas se desenvolvem com o tempo. Identificamos, avaliamos criticamente e testamos os temas que emergiam do material.
O envolvimento no projeto de pesquisa aguçou nossa atenção às investigações em curso em nossas vidas, ajudando reflexões e avaliações críticas dos processos de pesquisa a virem à tona. Constatamos, nessa fase, que todas as nossas comunicações se tornavam relevantes para a pesquisa. Por exemplo, cada vez que trocávamos e-mails e fazíamos reuniões de pesquisa, falávamos um pouco das investigações em curso em nossa vida profissional e para além dela, e depois refletíamos sobre o que talvez estivéssemos aprendendo sobre a pesquisa-ação, especialmente sobre a investigação em primeira pessoa. Esses processos mostravam bem como a investigação em primeira pessoa muitas vezes se beneficia do envolvimento com outras pessoas, parceiras de aprendizagem que podem oferecer apoio e questionamento valiosos.
Era preciso equilibrar o trabalho com nossas fontes de dados divergentes, mantendo ao mesmo tempo o rumo de nossas perguntas de pesquisa o bastante para favorecer a convergência. Como coinvestigação, nossa abordagem abria espaço para a “interdependência entre caos e ordem” (Heron 1999, p. 127), e trabalhamos ao longo do tempo com múltiplos fios em aberto, resistindo ao impulso de arrumá-los.
Um primeiro quadro de temas foi elaborado a partir desse material, e foi testado, conferido e adaptado várias vezes à medida que o projeto avançava. Esse processo iterativo nos permitiu identificar fios convergentes no material de pesquisa e nas discussões e, por agrupamento, situar a distinção entre desenvolvimento e realização da investigação que surgiu neste trabalho. O quadro resultante tornou-se assim uma pedra de toque para o que ia emergindo. Ele é apresentado mais adiante.
Trabalhando dessas maneiras, integramos processos de qualidade, como faz a pesquisa-ação em primeira e segunda pessoa. Ao longo do trabalho, exercemos tanto a desconfiança quanto a ambição. Diante de nosso material, perguntamo-nos conscientemente: “o que ou quem está faltando aqui?”, e isso nos ajudou a ver os limites de nossos cinco relatos de investigação, o que e quem eles poderiam ou não representar, como comentamos adiante. Ao mesmo tempo, tínhamos a ambição de alcançar certa plenitude no que poderíamos apresentar.
Durante a segunda fase, percebemos que usávamos metáforas para retratar a investigação e nos perguntamos se imagens visuais ou sensoriais poderiam nos ajudar nisso. Decidimos buscar metáforas visuais para captar a investigação de maneiras que as palavras talvez não permitissem. As imagens que encontramos ou criamos começaram a se entrelaçar com nossas percepções temáticas.
Na terceira e última fase, cristalizamos e fizemos convergir os temas principais deste artigo. Isso envolveu não só determinar o que tínhamos descoberto, mas decidir o que era importante dizer e poderia ser útil para outras pessoas, e como apresentá-lo. Ao longo de todo o processo de pesquisa, tínhamos prestado atenção a múltiplas formas de dados e queríamos oferecê-las no próprio artigo.
Nas diversas fases de análise que se seguem, queremos desenvolver em especial três percepções-chave surgidas na pesquisa:
As abordagens e práticas de investigação tendem a ser próprias da pessoa envolvida e do contexto em que ela atua, tanto em seu desenvolvimento quanto em sua realização contínua. Há, portanto, um acoplamento estreito entre uma vida vivida, passada e presente, e a “prática” da investigação dentro dessa vida. Além disso, a investigação parece evoluir continuamente, moldada à medida que a vida se desenrola. Embora os processos de qualidade também sejam individualizados, é possível identificar preocupações e perguntas comuns.
A corporificação é um aspecto-chave da investigação, e, ao dar atenção a ela, ampliamos a compreensão da pesquisa-ação em primeira pessoa. Por corporificação, referimo-nos às práticas de percorrer, num vaivém, a cognição na mente e a sensação no corpo, em busca do que está acontecendo e do que é relevante. Nosso material de pesquisa mostrou continuamente uma corporificação enraizada, sugerindo que a investigação está longe de ser uma questão apenas intelectual. O continente da corporificação, e a expressão por meio da corporificação, ampliam, acreditamos, a plenitude do que podemos sugerir.
Uma atenção maior às práticas corporificadas de investigação lança mais luz sobre a natureza intrinsecamente processual da investigação. Por processual, referimo-nos a uma interpretação da investigação mais flexível do que a retratada até aqui, que remete a estados fugazes de ser e de ação, e não a estados fixos de saber.
Procuramos dar a este artigo uma forma coerente com nossa maneira de trabalhar e com essas percepções emergentes. Nossos esforços de pesquisa resultaram em diferentes gêneros de produção, entre eles retratos, metáforas visuais e um quadro de temas que serve de pedra de toque.
Ao abordar esse tema, chamou-nos a atenção um desafio de articulação e a maneira como ele levanta questões de linguagem. A investigação viva e cheia de nuances é difícil de retratar. Richardson e St Pierre convidam quem escreve em paradigmas de pesquisa pós-convencionais a acolher esse caráter esquivo. Elas defendem um “campo de jogo” mais amplo na escrita da pesquisa, no qual os gêneros podem se misturar e a tarefa é cristalizar, e não triangular, o sentido, trabalhando com formas potencialmente múltiplas de “dados” (Richardson e St Pierre 2005). É nesse espírito exploratório que apresentamos o material resultante como diferentes “texturas” que respondem às nossas perguntas iniciais. Essas texturas têm modos diferentes, narrativo, visual e analítico, que oferecem olhares diferentes sobre nosso material e são, elas mesmas, uma tentativa de ampliar a “linguagem”. Procuramos assim corporificar no texto o viver a vida como investigação, na esperança de preservar a qualidade em camadas e caleidoscópica do artigo original e de manter a coerência com sua imagem de uma investigação que “trata pouca coisa como fixa, acabada ou bem definida” (Marshall 1999, p. 156).
Apresentamos primeiro os dois retratos de pessoas formadas no mestrado que desenvolveram abordagens de investigação no contexto de seus estudos. Eles foram escritos por nós, como explicado acima, para ilustrar maneiras contrastantes de “entrar” numa investigação sistemática e articulada, para quem está em formação. Enquanto o primeiro retrato mostra como a aplicação repetida dos referenciais da investigação-ação sustentou a abordagem investigativa de um estudante no desenvolvimento organizacional, o segundo mostra como uma estudante recorreu às suas práticas artísticas e corporificadas já existentes e, de certo modo, deu a elas um novo propósito. Vamos desenvolver essas diferenças na discussão abaixo.
Charles era engenheiro e cientista, com cerca de 55 anos, e ocupava um cargo estratégico na sede britânica de uma organização internacional de consultoria na área de recursos hídricos. Ele queria defender com vigor mais atenção à sustentabilidade, mas não queria que as pessoas pensassem que ele tinha “perdido o juízo” e precisava ser aposentado. Queria “balançar o barco sem cair dele”.
Desde o início, Charles indicou que cursar o mestrado era um experimento sobre quem ele era e poderia se tornar. Por exemplo, num “jogo” de simulação de três horas sobre estoques pesqueiros, no primeiro workshop, ele logo percebeu como era importante calcular os números de estoque e de esgotamento se o grupo quisesse evitar a sobrepesca, mas não insistiu quando os outros membros da equipe não lhe deram ouvidos. Ele não queria ser rotulado como o especialista técnico logo no início do programa. Refletiu sobre isso no debriefing da sessão.
Charles tinha uma abordagem engajada e metódica em seu trabalho no curso. Logo no começo, achou que o referencial da investigação-ação (Fisher et al. 2003) fazia sentido suficiente para ele e o adotou com empenho, prestando atenção a propósitos, estratégias, comportamentos e efeitos. Ele montou pequenos projetos nesses termos, repetidamente, ao passar pelos ciclos de aprendizagem entre os workshops, e escreveu trabalhos de aprendizagem. O que parecia começar como uma fórmula tornou-se um processo para aprofundar o que ele pensava, fazia e sentia, ajudando-o a enquadrar e a empreender ações.
Charles foi muito explícito sobre como a pesquisa-ação em primeira pessoa lhe abriu emoções para viver e explorar como nunca tinha feito antes. Ele diz: Acho que uma consciência emocional mais ampla, a ideia de que não se trata só de fatos, mas de como cada um de nós se sente diante deles, me ajudou de verdade a aceitar muito melhor pontos de vista diferentes e, com isso, a colaborar de forma mais eficaz.
Trabalhar com as emoções ajudou-o a ter coragem em circunstâncias que, de outro modo, teriam sido intimidadoras, mesmo com sua posição na empresa. Hoje ele diz às pessoas a quem ensina que “as abordagens experimentais da ação ajudam você a tentar coisas apesar dos medos e da incerteza, porque protegem você de se culpar se as coisas não funcionarem como esperado.”
Charles realizou de forma sistemática pesquisa-ação em primeira, segunda e terceira pessoa numa ampla gama de atividades organizacionais e profissionais. Por exemplo, foi convidado a conduzir um seminário de gestão do conhecimento em sua empresa. Apresentou informações ambientais, insistindo em mensagens de alerta sobre danos, indo além do que considerava aceitável, o que ele via como desafiador e arriscado. Explorou antecipadamente como fazer isso e conversou a respeito com colegas de aprendizagem do mestrado. Fez a apresentação com certa apreensão. Era durante um almoço. Pediu às pessoas que escrevessem seus comentários nos guardanapos. Foi uma boa prática de investigação-ação e aliviou sua ansiedade sobre como tinha sido recebido. Os comentários foram elogiosos. Ele tinha se manifestado, mas, ao que parece, não tinha ido longe demais.
Em seguida, ele criou um grupo de investigação cooperativa com pessoas voluntárias de diferentes áreas e níveis, que examinava como a empresa poderia tratar as questões de sustentabilidade em suas próprias práticas. Ele sabia que os membros do grupo tinham acessos diferentes ao poder e que as consequências, incluindo possíveis repercussões na carreira, podiam variar de uma pessoa para outra. Por isso, fez uma exploração aprofundada das teorias do poder e mapeou suas implicações práticas para homens brancos mais velhos como ele e para colegas em posições mais júnior e diferentes dele, levando-as em conta com o grupo de investigação e na ação organizacional.
Charles influenciou as conferências anuais e outros eventos de sua empresa para que incorporassem e discutissem mais questões de sustentabilidade. Escreveu cartas cuidadosamente elaboradas a revistas profissionais, defendendo que a formação em engenharia desse mais atenção à sustentabilidade. Assim, desencadeou ondas de investigação em terceira pessoa dentro e fora de sua organização.
Ele foi nomeado professor visitante da Royal Society of Engineering na Universidade de Cambridge por três anos. Mantendo sua abordagem investigativa para moldar o conteúdo e o estilo de seu ensino, incentivou o público internacional do mestrado a se ver como força de mudança para a sustentabilidade.
Charles continuou trabalhando para sua organização e falando internacionalmente sobre seu trabalho depois da aposentadoria formal. Ele estava destinado a se desenvolver. O mestrado e a pesquisa-ação chegaram na hora certa para ele.
Rachel era uma enfermeira educadora muito atarefada do NHS, preocupada com questões de justiça social e de mudança climática, e queria influenciar as pautas de sustentabilidade em seu local de trabalho. Sentia um cuidado profundo pelas pessoas que estão à margem da sociedade. Durante o mestrado, explorou seu próprio sentimento de marginalidade e de diferença, refletindo sobre como ele vinha de sua criação (por exemplo, ter estudado numa escola Steiner), de sua herança de classe social e de suas próprias deficiências ocultas, entre elas a dislexia. Ela sentia que esse sentimento de diferença lhe dava uma compreensão inata da diversidade.
Rachel chegou ao mestrado já convencida da importância do desenvolvimento pessoal e familiarizada com maneiras alternativas de ser e de aprender, em especial a Movement Medicine1 (uma prática somática corporificada), a PNL e as abordagens gestálticas. Ao encontrar parte do trabalho vivencial profundo do mestrado, ela “sentiu como se estivesse voltando para casa”.
Rachel tinha um senso agudo de dever e de serviço. Seu local de trabalho era estressante, sua vida familiar agitada e exigente. Ela precisava se recompor. Com Rachel, não havia dúvida sobre saber “como” viver a vida como investigação: ela tinha uma base sólida para encontrar seu caminho. Tratava-se mais de se dar permissão para isso, em parte estimulada pela leitura de Marshall (1999). Ela disse: “isso legitimou o que já era natural para mim como ‘investigação’”.
Rachel experimentou fazer pequenos esboços abstratos e coloridos. Isso a ajudou a abordar áreas de sua vida em que se sentia travada, inclusive a escrita dos trabalhos do curso. Ela achava o esboço reflexivo catártico: ajudava-a a se acalmar, a “aquietar a mente” e a escolher entre as muitas ideias e perspectivas que, de outro modo, poderiam congelar seu pensamento. Essa prática artística evoluiu e passou a incluir a escrita criativa, a conexão com a natureza no parque do bairro e, de modo marcante, durante cem dias, ela dançou todos os dias: uma forma de prática corporificada fortemente influenciada pela dança dos 5 ritmos de Gabriel Roth e pela experiência de Rachel com a Movement Medicine. Ela queria encontrar uma prática sagrada:
“Tudo gira em torno da resiliência: a prática leva a uma resiliência e muda a maneira como você se apresenta.”2
Ela começou a aplicar a prática investigativa às suas experiências “lá fora, no mundo”; por exemplo, quando teve de fazer uma palestra sobre sustentabilidade no trabalho, relatou ter se sentido mais integrada e inspirada, observando:
“Isso representa um eu integrado, fazendo o trabalho interior e exterior que é a minha vocação… quando consigo acessar esse lugar, sinto que tenho mais recursos.”
Rachel desenvolveu sua abordagem de investigação no contexto agitado de sua vida. Seus esboços artísticos se tornaram uma disciplina.
“Essas explorações da cor continuaram… em algumas ocasiões eu… percebia que estava passando de um estado de espírito negativo para um positivo só de fazê-las; muitas vezes eu as achava tranquilizadoras. Não havia nada de perfeito nelas; muitas vezes eram feitas no fim da noite, quando as cortinas do cansaço se fechavam, ou enquanto a água fervia ou a comida cozinhava.”
“Eu precisava me reconectar com a criatividade, com o que me dá sentido e alegria. Precisava me dar permissão para fazer as coisas que amo, para me conectar comigo, com a felicidade, com o bem-estar.”
O esboço e sua prática de dança a convidam, segundo relatou, a um “saber do corpo inteiro”, “um espaço onde o inconsciente pode se tornar consciente e se expressar”, um espaço no qual uma textura mais ampla da experiência pode ser conhecida e no qual há novas maneiras de refletir e de saber.
A abordagem investigativa de Rachel era, no início, mais voltada à expansão de si. Com o tempo, as explorações desembocaram em ação na vida cotidiana. No trabalho, Rachel assumiu um papel de defensora da sustentabilidade, com uma confiança e uma clareza no que fazia reforçadas por sua prática investigativa e pelo compartilhamento dessa prática com o grupo de aprendizagem do mestrado.
“Minha arte me alimentou, alimentou meu espírito, quem eu sou… Isso significa que posso me sustentar na minha própria credibilidade e me torna capaz de promover mudança social.”
A reconexão com a arte e com o “saber do corpo inteiro” foi significativa e nutritiva, mas também teve custos. Rachel ficava “exausta” às vezes e precisava se desligar para dar conta da pressão dos estudos, da parentalidade e do trabalho.
Embora os caminhos de entrada na investigação de Charles e de Rachel tenham sido bem diferentes, o cultivo de uma disciplina que estimula e orienta a ação é evidente em cada relato. Os referenciais estruturantes de Torbert e colegas guiam Charles em ciclos de investigação repetidos e disciplinados, enquanto são sobretudo as evocações processuais de Marshall que inspiram Rachel a criar suas próprias estruturas artísticas de exploração. Cada uma dessas pessoas, à sua maneira, abre tempo e espaço para refletir, preparar-se, traçar estratégias e agir a partir da investigação, e assim trabalhar com suas perguntas de investigação. O que se desenvolve aqui é antes de tudo um saber prático (Heron 1996): apoiada por novos fazeres, ou por fazeres antigos agora configurados de outro modo (esboço, escrita, trabalho a partir de referenciais), a direção da atenção em suas vidas muda, ou se renova.
Chamaram-nos a atenção as ampliações da percepção que acompanharam esse movimento. Charles presta atenção a um registro emocional mais amplo e, com isso, seu saber se torna mais corporificado. Pela dança e pela arte, Rachel começa a corporificar intencionalmente maneiras mais amplas de saber, para se expressar e estar no mundo. O viver a vida como investigação já é reconhecido na literatura como um processo plenamente corporificado. Marshall é citada como exemplo de uma acadêmica que faz sua experiência vivida atravessar suas publicações, procurando pôr em ato na escrita aquilo que defende. Nesta pesquisa, pudemos vislumbrar a natureza corporificada da prática. Em todo o nosso material, as pessoas que investigavam mostraram, de maneiras singulares, atenção às emoções, aos sentimentos e às sensações físicas para orientar suas escolhas nos processos de investigação.
Isso nos leva à primeira de três texturas visuais destinadas a mostrar aspectos do viver a vida como investigação. Ao longo da pesquisa, perguntamo-nos que metáforas ou apresentações artísticas poderiam oferecer o que é mais difícil de dizer em palavras. A primeira aparece na figura 1: um esboço a lápis feito por Ilma no início de 2019.

Nesta seção, apresentamos nosso quadro pedra de toque de temas, fios e perguntas que emergiram de nossa construção iterativa de sentido e foram testados nela. O material que ele apresenta foi extraído do conjunto completo de relatos com que trabalhamos. Às vezes o ilustramos com as histórias de Charles e de Rachel, porque suas diferenças ajudam a mostrar os temas, e você já leu seus retratos. Este quadro é um trabalho em andamento, que não pretende se tornar definitivo ou fixo. Em sua versão mais recente, percebemos que ele reflete dois fios de percepções emergentes: um relativo ao desenvolvimento da investigação na vida de alguém e o segundo relativo à realização dos processos de investigação.
Chamou-nos a atenção que, embora existam termos gerais que descrevem ou recomendam práticas de investigação, uma pessoa que investiga só pode desenvolver uma prática em relação com a própria vida. Vários fios da seção A do quadro 1 exploram esse desenvolvimento e a natureza dessas práticas pessoais singulares. As histórias contrastantes de Rachel e de Charles mostraram como o momento ou os momentos-chave de instalar disciplinas de investigação na vida também são abordados de modo único por cada pessoa que investiga.
A seção B do quadro 1 concentra-se então nos pontos comuns relativos à realização da investigação que surgiram nos cinco relatos explorados. A célula 6 retoma o tema da corporificação, já apresentado, enquanto a célula 7 reúne uma série de perguntas que, a nosso ver, indicam processos de qualidade integrados, implícitos e em ação nos processos contínuos e reflexivos da investigação.
Quadro 1 — Fios relativos à investigação tal como se expressam nos relatos reflexivos
Seção A: desenvolvimento de quem investiga, singular, contínuo e enraizado na experiência de vida
Seção B: realização da investigação, padrões e perguntas
É importante observar aqui que nossos dados não desenvolveram o potencial degenerativo que pode haver na investigação em primeira pessoa, embora ele estivesse presente em nossas conversas. Refletiremos sobre os aspectos generativos e degenerativos da investigação na discussão final.
No restante do artigo, seguimos as indicações da seção B do quadro. Desenvolveremos primeiro o questionamento reflexivo contínuo que surgiu em nosso material e que é resumido na célula 7. Propomos que esse tipo de questionamento é um marcador de qualidade. Mostraremos também como a investigação é fortemente corporificada. Na próxima seção, nossos corpos aparecem de diferentes maneiras como instrumentos, muitas vezes orientando escolhas decisivas sobre prestar ou não atenção, no desenvolvimento de uma investigação em curso. Assim, o que segue mostra os processos dinâmicos e mutuamente imbricados de questionamento e de vida corporificada que surgem. Embora se realizem em momentos específicos e situados da vida, acreditamos que também mostram algo da natureza da própria investigação, de sua atitude absorvente e de sua maneira contínua e provisória de fazer escolhas. Isso nos leva à textura visual B e à figura 2, abaixo, que parece buscar uma perspectiva sobre a natureza da própria investigação traçando caminhos ao longo de uma vida.

Todo o material abaixo deve ser lido tendo em mente que a pesquisa-ação em primeira pessoa é uma atividade intrinsecamente incerta e precária, que pode envolver exposição e vulnerabilidade. Como ela trata por natureza de questões que importam, haverá coisas em jogo, inclusive a legitimidade e o bem-estar de quem investiga. Como a história de Charles sugeria, as investigações de quem cursava nossos mestrados envolviam muitas vezes uma experimentação capaz de criar problemas. Adotar certas formas de pesquisa-ação pode ajudar, mas não faz os riscos desaparecerem. A investigação em primeira pessoa deveria, portanto, ser feita com questionamento crítico e com cuidado consigo e com os outros. As escolhas examinadas abaixo são, assim, desafiadoras, arriscadas, nada rotineiras.
Para ilustrar a natureza precária da investigação, oferecemos também nesta seção, em quadros destacados, duas histórias das investigações em curso das duas pessoas que assinam o artigo.
Com o reconhecimento da investigação como algo entretecido numa vida plena em movimento e que se cruza com ela, as práticas de discernimento, em termos de “a que prestar atenção”, surgiram como importantes. Refinar a curiosidade para se deter em algumas experiências e não em outras é o imperativo de qualquer pesquisa. Com dados sem limites, as escolhas sobre o que notar, registrar e a que responder, contínuas no viver a vida como investigação, formam uma prática em si. “A investigação se entreteceu na minha vida”, escreveu M. Como, então, distinguir a investigação da própria vida? A prática é a de um questionamento reflexivo contínuo. Ela diz respeito à escolha e ao discernimento e, em última instância, à qualidade do processo de investigação. O quadro 1 (célula 7) esclarece algumas dessas perguntas, desenvolvidas abaixo, enquanto a textura visual B destaca seu caráter não resolvido.
J: o que na vida está capturando minha curiosidade, combinando entusiasmo e um toque de medo diante do que eu poderia encontrar pela investigação?
M: estou investigando o centro do que importa?
Ao longo dos anos, sugerimos uma série de heurísticas (como as duas citações acima) para ajudar quem estava em formação a escolher suas perguntas-chave de investigação e a abrir caminho numa proliferação de “dados” disponíveis. Mas esses guias às vezes podem transmitir a falsa impressão de que haveria ali uma linha limpa e esquiva a ser descoberta.
Notamos que o público estudantil reservava tempo para praticar de forma sistemática a coleta e a seleção de dados. Charles formulou sua abordagem investigativa e se manteve fiel a ela, preparando com afinco uma apresentação para sua empresa e reunindo material a partir do que aconteceu. Ilma acompanhou como suas práticas de investigação mudaram, se mantiveram ou se apagaram depois da formatura. Ela continuou a prática de diário adotada no mestrado e observou que isso a ajudava a decidir onde colocar a atenção. Escreveu que “dois anos registrando os dados ainda frescos, expressando-os visualmente e depois revendo-os de forma deliberada e crítica se transformaram num saber prático sobre aquilo a que prestar atenção”.
Para J e M, a investigação acontece diante de vidas em curso que podem, inevitavelmente, tornar-se monótonas, difíceis ou desafiadoras. Viver a vida como investigação não era tanto uma exigência a mais, mas um lembrete e um meio de permanecer na abertura ao que estava acontecendo. Chamou-nos a atenção o cuidado, nos escritos de J e de M, com o “frescor”. A própria investigação precisava estar viva em sua curiosidade, entretecer-se bem na vida e não se tornar um fim em si mesma.
A escolha de investigar às vezes era bastante deliberada. J escreveu sobre sua decisão de se colocar em postura investigativa numa reunião na casa de repouso de sua mãe: “Faço isso em parte para me manter um pouco renovada, em vez de acomodada no hábito” (sobre esse contexto de investigação, ver o quadro abaixo). Em outros momentos, não era tanto uma escolha quanto um recurso imposto pela necessidade. Quando sua mãe ficou gravemente doente, M falou da escrita diária como um meio de “sobrevivência”, um propósito particular da investigação.
Um exemplo de investigação no limite, em ação: J.
Durante esta pesquisa, nós, as autoras, discutimos os desafios e os riscos da investigação ativa. Por exemplo, J buscava agir com outros familiares de residentes, por meio de uma “equipe de desenvolvimento” semiformal e negociada, para impulsionar melhorias na casa de repouso onde sua mãe vivia. Entre os muitos limites que ela considerou:
Como falar, com uma voz adequada, com as direções e as interinidades da casa, que mudavam com frequência, sobretudo considerando seus interesses profissionais em pesquisa-ação e mudança organizacional;
Como desempenhar seu papel sem atropelar outros familiares, com suas preocupações e seus modos de se expressar;
Como levantar questões sistêmicas, sobre as quais os familiares sentem ter um olhar especial, sem parecer criticar a equipe de cuidado nem abrir caminho para iniciativas da direção que passassem por cima da equipe em vez de ouvi-la;
Como não se tornar um incômodo, com repercussões negativas para os cuidados da mãe;
Como manter a energia quando as melhorias prometidas não apareciam, ou quando as condições regrediam;
Como avaliar se estava fazendo o suficiente e o que seria uma ação oportuna, sobretudo quando havia mais uma mudança de direção.
A qualquer momento, J podia estar equilibrada sobre vários limites. E havia também questões potencialmente delicadas de gênero (e de idade?) e de voz a considerar.
Como saber, então, se uma investigação está viva? Estruturados ou não dentro de um projeto de mestrado, hábitos diligentes podem empurrar uma investigação para a frente de modo automático, ao passo que atenção demais aos detalhes finos da vida pode fixar ou congelar a atenção. Vemos nisso um processo de qualidade: uma prática de tomar o pulso de uma investigação para verificar seus sinais de vitalidade. J observou aqui como checar repetidamente “como estou, aqui e agora?” ajuda a trazer à tona a experiência tácita. Quando se percebe dificuldade, ou apatia, a investigação pode ser um hábito guardião, que nos ajuda a dar um passo atrás, ou a ir mais fundo (Marshall 2016b), ou a rever diretamente os propósitos (Fisher et al. 2003), abrindo a possibilidade de uma reformulação como movimento-chave da investigação. Notamos que tomar o pulso às vezes era um movimento corporificado, mais do que um movimento de pensamento: M escreveu sobre como sair para correr tem lhe sido útil, ao permitir que a clareza de suas intenções volte à tona:
M: Quando corro, só há tempo para me concentrar na respiração e em sobreviver à imposição física da corrida. Um pé na frente do outro. Céu, fôlego, a estrada à frente. Os pensamentos ficam bem mais para trás durante esse processo. Depois, estou cheia de energia e com uma atitude nitidamente diferente. De algum modo, minha intenção fica mais clara.
Essas práticas de clarificação e de tomada de pulso são propostas como contrapeso à narrativa da perseguição, que pode ofuscar qualquer tipo de investigação em primeira pessoa. Apontamos aqui para as maneiras que quem investiga pode cultivar para ajudar a decidir quando desistir (Marshall 1999) ou deixar uma linha de exploração se apagar.
Respeitar as emoções e trabalhar com elas, ao lado de outras formas de saber, está intrinsecamente entretecido no viver a vida como investigação. Nos mestrados, as pessoas eram convidadas e ajudadas a trazer para a investigação todo o seu registro de emoções. E foi o que fizeram. Cada pessoa precisava então desenvolver as próprias práticas de investigação para trabalhar assim, de forma multidimensional.
Quando o terreno emocional interior de quem pesquisa está sob exame, há um calor emocional que o acompanha e com o qual é preciso trabalhar e fazer escolhas. A agitação interior é muitas vezes uma característica da investigação. No entanto, investigar às cegas “onde está a sua energia” pode levar a um movimento browniano, em que as perguntas se prendem às emoções. A textura visual A mostra a apresentação artística de Ilma de um trabalho com essa agitação, dando-lhe tempo para se clarear. Num exemplo que desenvolveu, J escreveu sobre a busca do “que é realmente importante” quando acompanhou um sentimento difuso de inquietação na mente e no corpo, que se prendera a uma questão prática e ocupava sua atenção de forma desproporcional, segundo ela.
Um exemplo de investigação no limite, em ação: M.
Um dos lugares de investigação “precária” para M estava em sua vida organizacional: ela era responsável por lançar um novo mestrado baseado em pesquisa-ação enquanto, ao seu redor, o apoio e a estratégia institucionais estavam em plena mudança após uma fusão. Nesse contexto, ao longo de vários meses, M precisou de ritmos e de níveis de atenção diferentes ao transitar entre diversos grupos envolvidos: seus colegas próximos do corpo docente, a alta direção que revisava o programa e com a qual ela tinha pouca história relacional, e as próprias pessoas que viriam a estudar no curso. Sua abordagem de investigação se ancorava em uma pergunta central: “qual era o caminho da integridade aqui?” Seu limite de investigação era encontrar uma posição que “fizesse sentido ético” e que também fosse emocionalmente sustentável para M. Isso envolvia perguntas como:
Qual seria uma resposta refletida e oportuna a sinais em mudança e, por vezes, a um apoio cada vez menor;
Quando e como separar o sofrimento emocional dentro e ao redor dela de “dados” corporificados valiosos sobre o que fazer a seguir;
Como interpretar os momentos de “travamento” e quando agir, de forma rápida e decidida;
Quando esperar, pedir conselho, consultar;
Como atravessar essas mudanças com colegas enquanto assumia plenamente suas responsabilidades;
Como estar presente para as pessoas em formação, com qualidade e atenção ao trabalho que elas precisavam fazer.
O caminho através dessas mudanças foi, ainda assim, confuso para M e seus colegas. No entanto, não foi puramente reativo: o enquadre da investigação ajudou a sustentar a ação em muitos momentos importantes.
Nos relatos das duas pessoas que assinam, o discernimento era uma prática fluida. Deixamo-nos orientar pela experiência corporificada e pelo saber emocional. Recorremos a propósitos, às vezes reavivando-os. E notamos longos períodos de espera, quando a ação não tomava forma e não agir tornava-se investigação em si. M escreveu sobre “esperar as coisas passarem”, discernindo “o que é o quê” antes de decidir o que fazer. Era, portanto, uma prática corporificada que buscava equilíbrio dentro do arco de atenção interior. Incluía práticas de notar, ajustar e acompanhar as coisas que se desenrolavam ou continuavam travadas. Essas práticas já tinham sido sugeridas pela heurística anterior de Marshall de saber “quando persistir ou desistir” (Marshall 1999, p. 165). Nosso material nos mostrou mais sobre a natureza processual e contínua da realização dessas investigações. Mostrou também que a corporificação é muito significativa ao influenciar as passagens, de instante a instante, da espera à ação.
Respondendo ao convite de M para oferecer uma imagem, J escolheu a imagem da garça e da ioga mostrada na figura 3. A textura visual C resultante expressa essas ressonâncias de outra maneira.

A imagem da garça e da ioga evoca o momento da “passagem à ação”. Ela reflete também perguntas que surgiram em todo o material e em nossas conversas de construção de sentido sobre quando e como passar à ação de modo investigativo e como as práticas reflexivas podem nutrir essas passagens. Um tema emergente, em sintonia com a literatura, era o modo como a investigação dá permissão para se envolver com a própria vida de maneira corajosa e experimental. O interesse em contribuir para a mudança sistêmica motivava tanto o público estudantil quanto a nós. Vimos isso diretamente no exemplo de Charles acima, em que a investigação oferecia um continente a partir do qual a ação e a experimentação em seu local de trabalho podiam ser planejadas. No caso de Rachel, a ligação não era tão direta. Suas ações exteriores no mundo só ganharam recursos depois que ela se permitiu um tempo para olhar para dentro. Isso também não poderia ser visto como uma passagem a uma ação “interior”? Achamos importante ampliar esse tipo de questionamento. Em nossa experiência educacional, quem está em formação às vezes expressa medo do “solipsismo” ou da autoindulgência, que ameaçam fechar a porta ao reconhecimento de aspectos entrelaçados da experiência, que poderiam então ser reprimidos ou tornados indiscutíveis.
Do mesmo modo, em nosso material, a relação entre o modo reflexivo e a ação no mundo mostrou-se complexa. M comparou-a a uma dança e escreveu sobre buscar “um ritmo investigativo pessoal e cultivar uma passagem confiante à ação”, vendo como problemáticas as designações rígidas de “reflexão” e “ação”.
Como a ideia de um movimento entre “arcos de atenção interior e exterior” foi a característica da VVI mais citada em nosso levantamento da literatura que remete a Marshall (1999), quisemos explorar o que aprendemos sobre essa dinâmica.
Em nossa reflexão, fomos nos afastando cada vez mais da ideia de “episódios de ação” isolados, com zonas explícitas e aparentemente delimitadas de ação e de reflexão, e passamos a nos interessar pelos movimentos e pelas dinâmicas dentro de padrões ou campos de investigação emaranhados.
Vemos esses “movimentos” reflexivos não tanto como transições nítidas entre estados. Eles são corporificados e dinâmicos: uma maneira fundida de prestar atenção à experiência tanto dentro quanto fora de nós, como Coghlan (2007) sugere ser central na investigação autorreflexiva. Descobrimos que colocar a atenção no interior serve à ação exterior de modo interessante. Os arcos exteriores poderiam agora ser descritos como uma expressão do foco e da atenção interiores. A seção anterior e a textura visual C, da garça, exploraram essas ideias.
A realização dessa dinâmica pareceu flexível, à medida que atravessamos “estados fugazes” de atenção em vez de saber de maneira definitiva, por exemplo, quando persistir ou desistir. Isso sugere uma agilidade, de corpo e mente, que se fortalece como um músculo, por meio de disciplinas de prática. Seguir e desdobrar essa visão processual acaba por dissolver a distinção entre arcos de atenção interior e exterior. Poderíamos perguntar, em vez disso, como essas atenções se integram num processo que se desenrola e podem ser compreendidas de forma dinâmica.
Ao refinar a noção de viver a vida como investigação e dar-lhe textura, acreditamos ter esclarecido sua natureza intrinsecamente processual. À medida que a pesquisa avançava, a busca de Ramsey por explicitar uma linguagem do processo enraizada (Ramsey 2014, p. 8), que faça justiça às experiências vividas, encontrou em nós um eco cada vez maior.
Como Ramsey, as pessoas que investigavam em nossa pesquisa buscavam “opções relacionais de ação” (Ramsey 2014, p. 17): não quaisquer opções, mas opções que se conectam com os contextos e com outras pessoas e que, ao mesmo tempo, se entretecem bem em nossas vidas e propósitos. Nossa pesquisa lança luz sobre o que Ramsey reivindicava: “uma compreensão mais refinada do processo pelo qual poderíamos aprender a nos tornar praticamente sábios, pelo qual poderíamos aprender a fazer julgamentos mais hábeis em nossa prática” (em Ramsey 2014, p. 9). A partir de nossos ciclos de construção de sentido, vemos a ação contínua como efêmera, e não determinada por uma reflexão “individual” (isolada). O saber impregnado de reflexão é processo em ação. Assim, torna-se contingente, fugaz. Essa reflexão não cria um saber distinto, como um recurso a ser mobilizado, mas abre a possibilidade de cada momento ser criado de novo. Com Ramsey (2018), preocupa-nos que o olhar acadêmico não esteja afinado para perceber esses fenômenos momentâneos. Como, então, retratar a arte transitória do devir? Ramsey explorou a poética social como forma coerente para evocar a efemeridade do processo. Neste artigo, trabalhamos com imagens e múltiplas “texturas”, como experimento de expressões ampliadas do que não pode ser inteiramente dito em palavras.
O material com que trabalhamos pouco nos disse sobre aspectos potencialmente degenerativos da investigação. Talvez a expressão mais direta tenha sido a exaustão que Rachel às vezes sentia ao manter processos de investigação numa vida já complexa. Exploramos os potenciais degenerativos em nossas conversas de pesquisa.
Não vemos a investigação em primeira pessoa como intrinsecamente autoindulgente, como se poderia acusá-la de ser. Consideramos a autorreflexão ativa uma responsabilidade de qualquer pessoa que se dedique a qualquer tipo de pesquisa. Ainda assim, sabemos por nossa experiência de investigação e de ensino que às vezes a investigação pode se voltar demais para dentro, a ponto de o autoquestionamento se tornar um fim em si. Se isso não for complementado por uma investigação voltada para fora, a pessoa que investiga pode se sentir presa em padrões autocríticos dos quais é difícil escapar. Isso também pode travar a passagem à experimentação na ação. Essas possibilidades podem ser influenciadas por padrões pessoais, falta de autoconfiança ou circunstâncias especialmente hostis num dado momento. Se isso acontecer, o processo se torna, ele mesmo, objeto de investigação.
Embora as pessoas que contribuíram com relatos para esta pesquisa às vezes achassem a investigação desafiadora, e possam muito bem ter vivido essas dinâmicas em algum momento, afirmamos em conjunto seu valor em nossas vidas e desenvolvemos estratégias para manter a curiosidade sobre os próprios processos de investigação. As duas pessoas que assinam notaram que prestar atenção a como investigamos ajuda a tornar mais conhecidos e mais fáceis de evitar alguns dos aspectos mais degenerativos a que tendemos (que descrevemos em conversa como uma ruminação excessiva ou uma falta de alegria).
Por meio de nossos relatos e reflexões, exploramos como a noção de ancoragem do viver a vida como investigação pode ser desenvolvida e posta em ato na prática. Vemos nossas descrições e análises emergentes como uma contribuição metodológica: elas esclarecem não só a prática do viver a vida como investigação, mas ampliam também a compreensão da investigação em primeira pessoa de modo mais geral, na pesquisa-ação e na pesquisa qualitativa. Nossa contribuição se expressa especialmente nos três temas centrais do artigo.
Constatamos que o viver a vida como investigação é singular e pessoal: uma prática “aglutinadora”, que combina métodos, disciplinas e afinidades de dentro de uma vida vivida em contínua evolução. Observamos a qualidade corporificada do viver a vida como investigação e, com isso, chegamos a uma compreensão mais refinada da natureza processual da investigação em primeira pessoa em geral. A partir dessa compreensão, a investigação é um processo contínuo, multifacetado, que muda de forma o tempo todo, e não um conjunto de estados distintos como “ação” e “reflexão”. Não encontramos exatamente uma linguagem para isso (como Ramsey suporia), mas apresentamos texturas de sua expressão evocativa. Este trabalho deixou mais claro para nós como é importante trabalhar com o saber emocional e corporificado de maneira aprofundada e integrada, ao lado de outras formas de saber, inclusive as dimensões cognitivas e intelectuais da investigação nas quais Ramsey se concentra (Ramsey 2014, p. 9; Ramsey 2018, p. 95).
Não existe uma receita pronta para aprender a viver a vida como investigação, embora saibamos que as pessoas muitas vezes usam, de início, referenciais e estruturas como degraus úteis para se orientar (por exemplo, adotando as noções de arcos de atenção interior e exterior, ou, como fez Charles, os quatro territórios da consciência de Torbert). Essas rubricas podem ser adotadas, mas precisam ser superadas numa prática desenvolvida, como Charles fez depois.
É necessária, antes, uma espécie de humildade (Walton 2011) ao abordar a investigação, para ter presentes seus fundamentos epistemológicos, que sugerem que o saber está inextricavelmente ligado a quem sabe (Coleman 2015) e que a experiência que se desenrola, tal como é vivida dentro de uma vida, é o lugar primeiro de onde pode vir um conhecimento relevante. Cada pessoa pode então exercer a reflexividade na maneira de adotar a investigação e de criar suas próprias práticas de qualidade. Aplicar essa atenção à maneira como nos vivenciamos na investigação e na própria vida nos leva a algo fundamental: como sugere Coghlan, à própria “estrutura do conhecimento humano” (Coghlan 2010).
Os limites das rubricas nos levaram a experimentar múltiplos modos de representação (relatos, análises e imagens visuais), “texturas” que pretendem oferecer a quem desenvolve sua investigação estímulos coerentes com as experiências vividas de investigação. Vemo-nos assim jogando nas fronteiras do que conta como saber e representação legítimos (Richardson e St Pierre 2005). Reconhecemos, portanto, a natureza politicamente arriscada desse tipo de trabalho investigativo e o desafio que ele lança às normas epistemológicas aceitas.
Reconhecemos a limitação de nossa amostra e como ela restringe o que podemos dizer. E, no entanto, mesmo com esse pequeno grupo, chama-nos a atenção a variedade de interpretações e de formas que a investigação assumiu. Esperamos que esta exploração incentive outras pessoas a relatar sua prática e a experimentar formas de representação. Aguardamos com interesse a leitura desses trabalhos e o diálogo com eles.
Em conclusão, pensamos ter mostrado que o viver a vida como investigação, como forma de pesquisa-ação em primeira pessoa, é ao mesmo tempo profundamente político e profundamente pessoal. É político na medida em que oferece uma maneira de ancorar a pesquisa e de conectá-la a uma agenda de mudança sistêmica. É pessoal porque, fundamentalmente, trata de aprender uma curiosidade permanente e de manter a atenção desperta para as escolhas e possibilidades envolvidas em levar uma vida ética e enriquecedora.
Complexe Systémique: a reter
O artigo não se dirige em primeiro lugar ao público clínico, mas fala diretamente do seu ofício: o que fazer com o que se sente na sessão, e como transformar isso em saber sem cair na autoindulgência? Gearty e Marshall descrevem a investigação em primeira pessoa como uma disciplina singular, corporificada e processual: escolher a que prestar atenção, verificar se a investigação continua viva, trabalhar com as emoções, esperar antes de agir. Para a prática sistêmica, reencontra-se aqui o self da pessoa terapeuta como instrumento, o vaivém entre o que acontece em si e o que acontece no sistema, e maneiras de escrever (diário, imagens, retratos) que podem alimentar a supervisão e a formação. Os limites são claros: apenas cinco relatos, três deles da própria equipe, pessoas já convencidas da abordagem, e um lado degenerativo (ruminação, exaustão) que o material mal ilumina. Convém ler o texto como um convite metodológico, e não como uma demonstração. Para ler junto com o artigo sobre o uso de si da pessoa terapeuta e com o artigo sobre a escrita como ferramenta de formação terapêutica.
Notas do original
1 https://www.schoolofmovementmedicine.com/movement-medicine/what-is-movement-medicine/
2 Todas as citações foram extraídas, com autorização, dos trabalhos de aprendizagem de Rachel e do portfólio de seu projeto final.
Agradecimentos. As duas pessoas que assinam agradecem a Ilma Stankeviciute, que realizou a revisão da literatura e às vezes se juntou à equipe de pesquisa como parceira de investigação; a Charles e Rachel, que aceitaram figurar nos retratos, pela generosidade de seu tempo e de suas reflexões; às avaliações anônimas e a três colegas que comentaram generosamente uma primeira versão do artigo; e às suas respectivas instituições, Ashridge Executive Education at Hult International Business School e Lancaster University Management School, pelos espaços estimulantes em que puderam explorar as questões tratadas neste artigo.
Disponibilidade de dados, materiais e código. Não se aplica.
Conflitos de interesse. Não se aplica.
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Tradução não oficial em português de Viver a vida como investigação: uma prática sistêmica a serviço da mudança, de Margaret Rose Gearty e Judi Marshall, Systemic Practice and Action Research, vol. 34, no 4 (2021), doi: 10.1007/s11213-020-09539-4, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (quadro apresentado em lista, legendas das figuras traduzidas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Living Life as Inquiry – a Systemic Practice for Change Agents”, publicado em Systemic Practice and Action Research (2021) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Gearty, M. R., et Marshall, J. (2021). Viver a vida como investigação: uma prática sistêmica a serviço da mudança (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/viver-a-vida-como-investigacao-uma-pratica-sistemica-a-servico-da-mudanca (Obra original publicada em 2020 em Systemic Practice and Action Research, 34(4), 441-462 (2021); republicada em 2021 por Systemic Practice and Action Research, https://link.springer.com/article/10.1007/s11213-020-09539-4)
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