Red Sistémica · Psicopatologia
A literatura sobre o transtorno do déficit de atenção e impulsividade, com ou sem hiperatividade, é abundante para as crianças; é bem mais rara para os adultos. Ora, o TDA/H persiste além da adolescência em mais da metade das pessoas, e pesa sobre o cotidiano, as relações pessoais, o trabalho e o manejo do dinheiro. A terapeuta familiar Estrella Joselevich se interessa aqui pelas situações frequentes nos vínculos de casal.
Nota da redação
A Red Sistémica republica este texto sob a menção “Fragmento”: o artigo completo se encontra no n.º 81 de Perspectivas Sistémicas. A continuação do trecho é objeto da segunda parte.
“Os sintomas principais e secundários têm impacto sobre o vínculo; eles nunca se produzem no vazio.”
Estrella Joselevich
A literatura e os materiais difundidos sobre o transtorno do déficit de atenção e impulsividade, com ou sem hiperatividade (1), nas crianças são abundantes, alguns de excelente qualidade científica e clínica e de grande valor pedagógico; os que dizem respeito aos adultos são bem menos numerosos. Que o TDA/H prossiga além da adolescência numa enorme proporção de pessoas (mais de 50%) é hoje estudado: ele pesa sobre o cotidiano, e os domínios das relações pessoais, do desempenho no trabalho e do manejo do dinheiro seriam bons exemplos disso.
É habitual que o perfil sintomático seja mais complexo nos adultos e, precisamente por se tratar de adultos, observam-se facetas múltiplas e consequências secundárias acumuladas em poderosos emaranhados dinâmicos. Isso acarreta para eles uma série de dificuldades em realizar certas atividades importantes de sua vida, como o trabalho, e pesa também sobre suas relações pessoais e sua afetividade. Esta apresentação se referirá em particular às situações frequentes nos vínculos de casal, o que circunscreve a temática a considerar.
A pessoa que sofre de um TDA/H apresenta fragilidades relativas à autorregulação, as quais, ao longo do desenvolvimento, acompanham um déficit de desempenho e de eficácia para se conduzir e se controlar à vontade. Isso comporta limitações na execução contínua das atividades, em sua realização sustentada.
Consideramos o ser humano em sua unidade biopsicossocial e, ao trabalhar com as pessoas que apresentam um TDA/H, situamo-nos nesse território de articulações complexas.
O TDA/H é de base neurobiológica, e em sua evolução e em seu desdobramento intervêm ativamente as características e os fenômenos contextuais.
Assim, a qualidade das inter-relações, a forma de comunicação, as crenças, os afetos e a organização do vínculo serão indubitavelmente fenômenos participantes. Outros aspectos, como os fatores socioeconômicos e culturais, serão também variáveis de peso a considerar na interação dos diferentes fatores presentes nesse quadro diagnóstico. E, dinamicamente, as atitudes mais típicas e os comportamentos dessas pessoas, como sua comunicação e suas manifestações emocionais, influenciam ativamente os outros, seu entorno relacional.
Nessa construção conjunta, queremos precisar que nossa posição, apoiada em dados sólidos oriundos da pesquisa, mostra que a disfunção familiar, por exemplo, não gera um TDA/H, mas que ela de fato facilita os sintomas, contribuindo para desencadeá-los com mais frequência e intensidade. Estes são, de forma característica no TDA/H, de aparecimento variável e em relação com circunstâncias diversas, internas ou externas. O ambiente influencia, portanto, notavelmente sua evolução.
Para lembrar
O TDA/H tem base neurobiológica: a disfunção familiar não o produz. Mas o contexto, a qualidade dos vínculos, a comunicação, as crenças, as condições socioeconômicas, modula fortemente a frequência e a intensidade dos sintomas, e estes, por sua vez, agem sobre as pessoas ao redor.
Há adultos com TDA/H que, por suas maneiras espontâneas de viver, obtêm satisfações que “se ajustam” às suas circunstâncias: mais independentes, podem buscar horizontes mais vastos e encontrar ou desenvolver suas próprias modalidades, respeitando seus interesses e seu jeito de ser; compensam assim os efeitos de suas dificuldades. Um contexto dotado de certas estruturas de apoio, de bons estímulos e de uma comunicação eficaz, em trocas respeitosas, é fundamental. Uma qualidade de vida afetiva satisfatória, em condições de segurança e de contato emocional comprometido, é outro aspecto essencial.
Quando uma escolha de vida mais harmoniosa com o estilo e o interesse próprios, autênticos, não é acessível, o cotidiano tende a se tingir mais intensamente dos sintomas. Do mesmo modo, os conflitos emocionais, as fortes tensões, o estresse e a fadiga contribuem geralmente para uma frequência e uma severidade sintomáticas aumentadas.
Entre os fatores ambientais desfavoráveis, a pobreza acentuada desempenha um papel preponderante quanto à gravidade das consequências secundárias de risco.
Quando o modo de vida se ajusta
Independência, horizontes mais amplos, modalidades próprias que respeitam os interesses e o jeito de ser; apoio, estímulos, comunicação respeitosa, segurança afetiva: as dificuldades são compensadas.
Quando não se ajusta
Conflitos emocionais, tensões, estresse, fadiga, pobreza acentuada: o cotidiano se tinge dos sintomas, mais frequentes e mais severos.
Os déficits crônicos nos comportamentos essenciais a uma vida eficaz e coerente, e sua acumulação com consequências secundárias, podem ir de uma autoestima baixa e perpetuamente ferida, com frustração crônica e poucas realizações, até a incapacidade de concluir os estudos em níveis adequados de formação e de qualificação, um funcionamento deficitário dos processos cognitivos, a impossibilidade de conservar um emprego, de manter uma relação de casal satisfatória ou de acompanhar bem o desenvolvimento dos filhos. Essas dificuldades, ou mesmo esses fracassos, atingem horizontes graves com atitudes explosivas e agressivas, acidentes, perdas econômicas importantes, promiscuidade ou negligência nas relações sexuais, tendências aditivas, sérias desconexões no casal, com eventuais problemáticas que se articulam em cascata, em círculos viciosos que se autoperpetuam.
[…]
Os sintomas principais e secundários têm impacto sobre o vínculo; eles nunca se produzem no vazio… (continua).
Notas do original
(*) O artigo completo se encontra no n.º 81 da revista Perspectivas Sistémicas, correspondente aos meses de maio-junho de 2004, à venda nas bancas e nas livrarias especializadas da capital federal, ou por assinatura no interior e no exterior.
Quem é Estrella Joselevich
Estrella Joselevich é terapeuta familiar, docente responsável de pós-graduação na Faculdade de Psicologia da Universidade de Buenos Aires (1995-2004). Participou de uma pesquisa conjunta com a Universidade da Califórnia (Estados Unidos, 2000-2003) sobre a “avaliação clínica do TDA/H no adulto”. Ministrou seminários sobre a síndrome do déficit de atenção e hiperatividade na Argentina e no exterior. Foi coautora e coordenadora do livro Síndrome de Falta de Atención con y sin Hiperactividad en niños, adolescentes y adultos (Paidós, 2000) e é autora de Mejorando su Calidad de Vida (no prelo, Paidós).
Este artigo é a tradução para o português de “La Relación de Pareja con un Miembro con Síndrome de Déficit de Atención e Impulsividad, ya sea con o sin Hiperactividad”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Perspectivas Sistémicas, n° 81, mai-juin 2004). Traduzido e republicado com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Joselevich, E. (2022). A relação de casal com um parceiro que apresenta transtorno do déficit de atenção e impulsividade, com ou sem hiperatividade (1ª parte) (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/a-relacao-de-casal-com-um-parceiro-que-apresenta-transtorno-do-deficit-de-atencao-e-impulsividade-com-ou-sem-h (Obra original publicada em 2004 em Perspectivas Sistémicas, n° 81, mai-juin 2004; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/07/19/la-relacion-de-pareja-con-un-miembro-con-sindrome-de-deficit-de-atencion-e-impulsividad-ya-sea-con-o-sin-hiperactividad/)
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