Journal of Marital and Family Therapy · Terapia familiar
As famílias que procuram terapia sempre trazem consigo possibilidades de cura relacional, desde que sejam percebidas. Karl Tomm e Lance Taylor, do Calgary Family Therapy Centre, tomam emprestada do psicólogo James Gibson a noção de affordance para descrever esse “já estar lá” e propõem uma sequência de trabalho: perceber a affordance, transformá-la em oportunidade, tomar a iniciativa. Quatro vinhetas mostram como uma palavra, uma exceção ou uma pergunta reflexiva podem virar um padrão relacional.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Affordances e oportunidades para o bem-estar relacional, de Karl Tomm e Lance Taylor, publicado na Journal of Marital and Family Therapy (Wiley) (2025), doi: 10.1111/jmft.70004, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Se alguém acredita que certa affordance já existe, é mais provável que a procure, e, se procurar, é muito mais provável que a encontre.
Karl Tomm e Lance Taylor
Resumo
Este artigo explora o conceito de “affordances” de cura relacional que as pessoas atendidas trazem implicitamente consigo para a terapia. Destaca que a percepção dessas affordances por quem conduz a terapia é um primeiro passo para conceber oportunidades de tomar certas iniciativas que tornem possível o bem-estar relacional. À medida que terapeutas tomam cada vez mais consciência das múltiplas possibilidades de intervir que as pessoas atendidas lhes oferecem, torna-se mais provável que essas oportunidades sejam aproveitadas na terapia. Ao aguçar a capacidade de observação para perceber essas affordances, terapeutas podem conceber com mais facilidade as oportunidades terapêuticas associadas e iniciar intervenções pertinentes. Começamos com algumas bases teóricas e, em seguida, apresentamos algumas vinhetas de trabalho clínico para ilustrar a aplicação desses conceitos no curso de uma terapia familiar.
Palavras-chave: affordances, oportunidades, padrões relacionais, abordagem focada nas soluções, iniciativas terapêuticas
Nota de tradução. O termo affordance, criado por James J. Gibson a partir do verbo to afford (oferecer, proporcionar, permitir), é mantido em inglês, como é usual na psicologia ecológica e no design em língua portuguesa. As siglas dos padrões interpessoais (PIP, HIP, WIP) são mantidas em inglês.
Este artigo pretende ampliar a consciência terapêutica sobre as opções disponíveis para tornar possível que as pessoas atendidas coloquem em ato o bem-estar relacional. O objetivo geral é permitir que essas pessoas avancem rumo a relações mais saudáveis. O foco não estará no bem-estar individual em si, mas no bem-estar das relações. Partimos, no entanto, do pressuposto de que as pessoas envolvidas em relações terão mais bem-estar pessoal quando suas relações forem mais saudáveis. Ao orientar nossas reflexões para um aspecto da terapia, a saber, a coconstrução de maior bem-estar nas relações interpessoais, limitamos nossas ambições ao escrever este artigo. Não procuraremos cobrir toda a gama de possibilidades terapêuticas para quem busca ajuda com suas dificuldades. Supomos que a maioria das pessoas que exercem a terapia, e praticamente todas as que trabalham com terapia familiar sistêmica, já tenham competências significativas para favorecer o bem-estar relacional. Essas pessoas já respondem de diversas maneiras para sustentar relações mais saudáveis. Nossa intenção é partir desse conhecimento preexistente e, esperamos, ampliá-lo com algumas ideias que qualquer terapeuta poderia considerar com proveito em sua prática.
Começamos com uma breve revisão da teoria das affordances de Gibson (1977, 1979) e exploramos sua relevância para preparar o terreno para distinguir oportunidades de tomar iniciativas de intervenção terapêutica. Descreveremos os padrões de interação interpessoal de Tomm (2014) como um possível quadro para recorrer às affordances preferidas a fim de coconstruir o bem-estar relacional. Em seguida, descreveremos uma extensão do foco de Simon e Taylor nas oportunidades (2014, 2024), para esclarecer as etapas que levam das affordances às respostas terapêuticas. Por fim, compartilharemos algumas vinhetas clínicas que mostram iniciativas terapêuticas para abrir espaço para mais bem-estar em relações em curso, incluindo a relação das pessoas consigo mesmas.
Gibson (1977, 1979) foi um psicólogo que adotou uma postura ecológica para descrever como um sistema vivo interage em seu ambiente e em seu nicho. O nicho oferece a um sistema vivo certas possibilidades de interação, que podem ou não ser aproveitadas. Gibson cunhou o termo “affordance” para descrever essas possibilidades e definiu um nicho como um conjunto singular de affordances. Uma affordance constitui uma possibilidade interativa específica em um contexto particular. Por exemplo, certa configuração do terreno pode oferecer abrigo, ou pode oferecer esconderijo ao animal. Se o animal de fato usa a affordance (para se abrigar ou se esconder) é outra questão, que será explorada mais adiante. O que importa aqui é que a affordance preexiste à presença do animal. A affordance já está lá. Sem um ambiente que ofereça certos suportes básicos à vida, o animal não sobreviveria. No entanto, as affordances precisam ser percebidas antes de existirem para o animal e de poderem ser utilizadas. Daí o papel fundador da percepção para que os sistemas vivos sobrevivam e prosperem.
Ao longo dos últimos 50 anos, a noção de affordance foi aplicada em uma grande variedade de campos: ecologia, arquitetura, design, planejamento paisagístico, interfaces humano-computador, robótica, inteligência artificial etc., muitas vezes com interpretações divergentes do conceito original de Gibson. Há consenso de que uma affordance não é uma característica do animal, como uma “força” ou alguma capacidade. O debate é se uma affordance é uma propriedade do ambiente, uma relação entre essa propriedade e o animal, ou ambas (Rietveld e Kiverstein 2014). Subscrevemos esta última perspectiva, ou seja, ambas: as affordances já estão lá e podem ser trazidas à tona pela interação com o que está lá. Isso se alinha com o que às vezes se chamou de postura enativista entre filósofos da mente (Thompson 2010; Maturana e Varela 1987).
Algumas affordances, uma vez percebidas, podem ser avaliadas como “positivas”, no sentido de que, se forem aproveitadas e usadas, permitem a sobrevivência e o bem-estar do animal. Outras são “negativas”, no sentido de que implicam perigo ou riscos para a sobrevivência. Por exemplo, um penhasco oferece o risco de queda. Alguns elementos do ambiente oferecem affordances ao mesmo tempo positivas e negativas. O mesmo penhasco pode oferecer a possibilidade de um passeio agradável pela borda, com uma bela vista, assim como o perigo de cair. No processo de evolução, os sistemas vivos passaram a conservar o “conhecimento instintivo” necessário para perceber e utilizar as affordances positivas, evitando as negativas. Em outras palavras, em virtude de sua deriva filogenética dentro de um nicho específico, os sistemas vivos passam a “saber” como sobreviver e prosperar percebendo as affordances relevantes.
Gibson afirma que um dado conjunto de affordances no ambiente natural oferece a um animal um certo modo de vida. Ele cita uma série de exemplos de affordances básicas (Gibson 1979, 128-129). Superfícies sólidas oferecem postura, locomoção, colisão e manipulação. Objetos soltos oferecem seu uso como ferramentas, utensílios e armas. Esses são exemplos de seres animados interagindo com objetos inanimados. A situação se torna muito mais complexa quando a interação no nicho inclui interações com outros sistemas vivos. Os animais oferecem uns aos outros uma enorme variedade de possibilidades (por exemplo, predação, competição, acasalamento, cuidado e comunicação), dependendo das particularidades da situação. No entanto, a exigência básica de perceber affordances para sobreviver e prosperar continua a mesma.
Os seres humanos, como animais, também percebem affordances em sua vida cotidiana; na maior parte do tempo, respondem a essas affordances de modo não consciente e fluido, agindo de acordo com suas necessidades e interesses básicos. As affordances mais ricas e elaboradas para os humanos são fornecidas por outros humanos. Um tipo de comportamento humano tipicamente oferece outro tipo de comportamento, e vice-versa. Duas ou mais pessoas conversando podem oferecer umas às outras affordances recíprocas muito rapidamente e em níveis extremamente altos de sofisticação. De fato, a multiplicidade de affordances na interação humana é impressionante. Embora Gibson não tenha se concentrado nas affordances sociais em si, sustentamos, como posição fundadora, que uma enorme variedade de affordances relacionais está inscrita no pano de fundo sociocultural das compreensões humanas sobre as relações, e que a percepção é a chave para tirar proveito das oportunidades que elas podem apresentar. Além disso, nós, humanos, estendemos nossa deriva evolutiva a ponto de nos tornarmos conscientes de pelo menos algumas das affordances de nosso nicho. Percebemos recursivamente certas affordances de nosso ambiente. E tomar consciência de algumas affordances selecionadas aumenta a possibilidade de empregá-las deliberadamente como oportunidades de responder, no nosso caso, de forma terapêutica. Assim, um dos principais focos deste artigo será estimular a percepção das affordances relacionais que “já estão lá” no contexto da terapia. Uma vez percebida, uma affordance pode ser avaliada como positiva ou negativa, e uma oportunidade pode ser formulada para interagir com ela, seja aproveitando a possibilidade (quando é positiva), seja evitando-a (quando é negativa). Voltaremos às oportunidades mais adiante, mas basta dizer aqui que, se a affordance não for percebida (de modo consciente ou não), a oportunidade não surgirá.
Há muitas affordances no ambiente que não são percebidas e das quais, portanto, o organismo não pode tirar proveito. Isso é especialmente verdadeiro entre os seres humanos, em que quase sempre há possibilidades de interação potencial que não são reconhecidas. E, na prática da terapia, não perceber certas affordances pode empobrecer significativamente as próprias contribuições terapêuticas. Por essa razão, nos programas de formação em terapia, a supervisão se dedica a ajudar quem está em formação a aprender a perceber determinadas affordances de mudança terapêutica nas pessoas atendidas, tenham elas sido nomeadas assim ou não. Quando quem está em formação passa a ver pelos olhos da supervisão, além dos próprios olhos, consegue reconhecer mais possibilidades terapêuticas (como será ilustrado na vinheta 4, abaixo).
No encontro terapêutico, a pessoa ou as pessoas atendidas fazem parte da ecologia de quem as atende, e quem atende faz parte da ecologia delas. Tanto as pessoas atendidas quanto terapeutas trazem consigo uma enorme quantidade de conhecimento prévio sobre a vida humana e as relações. Antes mesmo do encontro, já dispõem de redes altamente desenvolvidas e complexas de ideias, crenças, significados e tendências comportamentais. Seu conhecimento, incluindo a compreensão que cada pessoa tem da justiça social, oferece certas possibilidades na interação terapêutica. Entre as compreensões das pessoas atendidas estão algumas affordances gerais derivadas das expectativas culturais sobre a natureza da terapia. Por exemplo, essas pessoas costumam chegar preparadas para oferecer a quem as atende oportunidades de indagar sobre aspectos muito pessoais e íntimos de sua vida e de suas experiências. Em contrapartida, terapeutas costumam oferecer compreensão empática e segurança emocional, garantindo confidencialidade e consideração positiva incondicional (Rogers 1956). O acoplamento recíproco dessas affordances gerais no encontro terapêutico provavelmente contribui para as condições de eficácia dos chamados “fatores comuns” em terapia (Duncan e Miller 2000; Sprenkle, Davis e Lebow 2009).
Além desses fatores comuns, diferentes escolas de terapia destacam tipos específicos de affordances em suas respectivas abordagens. Por exemplo, no campo da terapia narrativa, dá-se atenção especial à ideia de que as pessoas atendidas oferecem implicitamente a quem as atende oportunidades de indagar sobre resultados únicos e sobre uma trama alternativa de sua vida (White 2007). Um resultado único (White e Epston 1990) refere-se a um acontecimento, ação ou experiência que contradiz a história dominante, ou saturada pelo problema, que uma pessoa conta sobre sua situação de vida. Ele destaca momentos em que a pessoa não se conformou à narrativa do problema e a partir dos quais a terapia pode convidá-la a começar a construir uma trama mais fortalecedora sobre sua vida. Na terapia narrativa, parte-se do pressuposto de que os resultados únicos estão lá, mas eles precisam ser percebidos para serem empregados.
Da mesma forma, no campo da terapia focada nas soluções, as pessoas atendidas oferecem a quem as atende oportunidades de indagar sobre as exceções ao problema (Berg 1994; De Shazer 1988, 1991). Em uma extensão recente do trabalho focado nas soluções, Taylor e Simon (2014, 2024) afirmam que quase toda fala de uma pessoa em terapia oferece oportunidades para uma resposta que construa soluções. Na terapia focada nas soluções, parte-se do pressuposto de que as affordances para soluções já existem e simplesmente precisam ser percebidas para serem utilizadas. No campo da prática baseada na resposta (response-based practice; Wade 2007a, 2007b), as pessoas que se dizem atingidas por injustiça ou violência são vistas como oferecendo a quem as atende oportunidades de lhes devolver a dignidade, trazendo à tona e reconhecendo sua capacidade de agir ao resistir a essa violência. Parte-se do pressuposto de que a pessoa inevitavelmente resistiu de alguma forma (no momento da violência) e de que trazer à tona uma consciência dessa resistência lhe dá uma base coerente para se honrar e se valorizar por ter resistido (mesmo que não tenha conseguido fazer cessar a violência).
E no campo da terapia de casal de inspiração narrativa (Madigan 2019), a história específica do início da relação, quando o casal se formou, oferece a oportunidade de trazer à tona os valores e crenças comuns que permitiram ao casal criar, antes de tudo, sua relação singular. Fazer uma investigação histórica seletiva no começo da terapia de casal fornece uma base para reavivar o respeito mútuo e o cuidado, dentro da qual possíveis mudanças terapêuticas podem ser exploradas com mais segurança. Em todos esses exemplos, affordances positivas preexistentes já estão disponíveis e oferecem oportunidades de tomar iniciativas terapêuticas específicas. No entanto, elas precisam ser percebidas e privilegiadas na terapia antes de poderem ser utilizadas. Por isso, o pressuposto geral de Gibson sobre o “já estar lá” ecológico das affordances é relevante.
Para apoiar a compreensão das “affordances relacionais” disponíveis na terapia, propomos o conceito de acoplamentos ou complementaridades contextualizados. Gibson disse ter cunhado o termo affordance para representar a interação entre o animal e o ambiente:
As affordances do ambiente são o que ele oferece ao animal, o que ele proporciona ou fornece, para o bem ou para o mal. O verbo to afford está no dicionário, mas o substantivo affordance não. Eu o inventei. Refiro-me com ele a algo que diz respeito tanto ao ambiente quanto ao animal, de uma forma que nenhum termo existente faz. Ele implica a complementaridade entre o animal e o ambiente.
(Gibson 1979, p. 127)
Para nossos propósitos em terapia familiar, pelo menos duas complementaridades distintas estão em jogo. Uma é a das pessoas atendidas em seu ambiente natural, que inclui outras pessoas, outros seres animados e objetos inanimados. A outra é a da pessoa terapeuta no ambiente da terapia, que inclui as pessoas atendidas, os membros da equipe clínica, a história e as crenças preconcebidas trazidas por todas as pessoas envolvidas, bem como o espaço físico. Em outras palavras, há affordances relacionais a considerar tanto no “sistema familiar” quanto no “sistema terapêutico”.
Quanto ao acoplamento das pessoas atendidas com seu ambiente natural, mantemos o pressuposto de que esse ambiente apresenta tanto affordances que sustentam a vida quanto affordances que a ameaçam; prosperar depende de perceber e aceitar as possibilidades que sustentam a vida, assim como de recusar as que a ameaçam. No acoplamento da pessoa terapeuta com o ambiente da terapia, também se encontrará uma gama de affordances, algumas mais propícias que outras à coconstrução de mudanças úteis, dependendo em parte do modelo de prática de quem conduz a entrevista. “Prosperar” no sistema terapêutico depende de utilizar as affordances que favorecem o bem-estar no sistema familiar. A mentalidade de quem entrevista com orientação para as affordances pode ser guiada pela pergunta operativa: o que essas pessoas estão trazendo para o processo que poderia ser destacado em colaboração para aumentar o bem-estar relacional? Uma orientação mais voltada para os déficits pode ser guiada por outra pergunta: o que está faltando ou quebrado, que eu preciso fornecer ou consertar? Parece que haveria pontos de interseção significativos entre esses dois acoplamentos. A terapia poderia ser entendida como uma atividade destinada a ajudar as pessoas atendidas a acessar com mais sucesso as affordances positivas de seu ambiente e a recusar com mais sucesso as affordances negativas.
Affordances e oportunidades são conceitos estreitamente relacionados, mas é útil diferenciá-los para lhes dar significados um pouco diferentes. Ambos são distinções que podem ser trazidas à tona por quem observa (no nosso caso, quem conduz a terapia). As affordances referem-se às capacidades percebidas ou reais de um ambiente e às interações que são possíveis. As oportunidades representam um fenômeno cognitivo mais amplo: são mais conceituais e incluem os desejos, as intenções e/ou as esperanças de quem percebe em relação a um resultado preferido. É certo que as oportunidades também dependem da percepção, mas são orientadas de forma proativa para conceber circunstâncias ou situações que levem a resultados positivos (como cooperação, colaboração, resolução de problemas, construção de soluções, sinergia etc.).
Uma vantagem significativa de diferenciar affordances de oportunidades é que isso permite colocar em primeiro plano a constatação de que as affordances já existem, mesmo quando não estão sendo percebidas, ao passo que as oportunidades só surgem quando quem observa concebe algum benefício em utilizar uma affordance percebida. O que é próprio do reconhecimento de uma oportunidade é a intenção positiva de quem observa ao distingui-la e utilizá-la. As affordances podem ser positivas ou negativas, dependendo de como são avaliadas. Já as oportunidades (no contexto da terapia) são positivas por definição, sejam elas utilizadas ou não.
O pressuposto do “já estar lá” das affordances é extremamente importante. Se alguém acredita que certa affordance já existe, é mais provável que a procure, e, se procurar, é muito mais provável que a encontre. De fato, o simples fato de considerar a noção de affordance deve levar quem observa a olhar mais de perto o ambiente ou o nicho para perceber suas affordances potenciais. Neste artigo, convidamos terapeutas em geral a adotar o conceito de affordance e incentivamos que se apoiem mais em hábitos mais firmes de procurar os tipos de affordances que as pessoas atendidas trazem consigo para a terapia. A razão é que, uma vez que uma affordance é reconhecida e compreendida, a possibilidade de construir com base nela uma oportunidade realista aumenta muito. Já mencionamos como as abordagens narrativas, focadas nas soluções, baseadas na resposta e a terapia de casal de inspiração narrativa já fazem isso implicitamente. Um dos propósitos deste artigo é nos inclinar mais a identificar affordances terapêuticas que já estão lá. Um segundo propósito é esclarecer a sequência da atividade terapêutica que vai da percepção das affordances à formulação de oportunidades e à tomada de iniciativa para responder terapeuticamente. Grande parte dessa sequência já foi elaborada na terapia focada nas soluções (Simon e Taylor 2024) e será revista mais adiante. Mas, antes, vamos nos concentrar nas affordances para a interação recíproca nas relações.
Nos últimos 35 anos, Tomm e colegas do Calgary Family Therapy Centre desenvolveram o IPscope, uma ferramenta perceptivo-conceitual sistêmica, para distinguir diferentes tipos de padrões de interação relacional (Tomm 2014). Terapeutas podem usar esse instrumento para gerar uma consciência seletiva sobre o que pode estar acontecendo no espaço relacional, simplificando a enorme complexidade da interação interpessoal enquanto os membros da família se envolvem em relações contínuas. Por exemplo, um comportamento de crítica tipicamente convida a um comportamento de defesa, e a defesa então tipicamente convida a mais crítica, refletindo uma complementaridade recíproca em seu ambiente natural. Esses comportamentos tendem a se acoplar, tornando-se um componente interacional recorrente da relação. Dentro desse padrão comum de “crítica acoplada à defensividade”, um comentário crítico oferece a possibilidade de uma defesa, e a defesa, por sua vez, oferece a possibilidade de mais crítica. Mesmo que o padrão não seja desejado e que as affordances negativas não precisem ser aproveitadas pelas pessoas envolvidas, muitas vezes elas o são, simplesmente porque a reciprocidade do acoplamento se torna muito habitual. As pessoas envolvidas conhecem muito bem essas affordances mútuas e reencenam prontamente os comportamentos correspondentes, reproduzindo o padrão problemático repetidas vezes sem perceber que estão mantendo ativamente o problema. Nem é preciso dizer que, sempre que esse tipo de padrão interpessoal patologizante (PIP) passa a dominar uma relação, as duas pessoas envolvidas acabam vivendo em um sofrimento indesejado.
A boa notícia é que essas mesmas pessoas sempre trazem também affordances positivas para suas relações. Viver em padrões de cuidado mútuo e respeito amoroso é uma condição fundamental para a sobrevivência dos seres humanos (Maturana e Varela 1987; Maturana, Verden-Zoller e Bunnell 2009). Affordances para colocar em ato padrões de interação positivos sempre fazem parte de nosso nicho social. A maneira como esses diversos padrões relacionais se desdobram nas famílias e em outros sistemas humanos varia enormemente. O quadro do IPscope postula que, com o tempo, cada família, como sistema relacional, desenvolve um repertório de diferentes tipos de padrões de interação interpessoal (Tomm 2014), que passam a fazer parte de sua cultura local. Esse repertório inclui affordances não só para PIP, mas também para padrões interpessoais de cura (HIP) e padrões interpessoais de bem-estar (WIP). O potencial de reencenar qualquer um desses padrões relacionais preexistentes já está lá. Por exemplo, um comportamento de reconhecer o outro oferece prontamente uma resposta de apreço por esse reconhecimento, e o apreço, por sua vez, oferece mais reconhecimento. A familiaridade prévia com esse padrão de bem-estar, “reconhecer acoplado a apreciar”, oferece a possibilidade de que ele seja trazido à tona no sistema terapêutico para ser colocado em ato no sistema familiar. Um padrão de cura comum inclui “expressar arrependimento acoplado a aceitar o arrependimento”. Um padrão de cura relacional ainda mais poderoso envolve “pedir desculpas acoplado a perdoar”, que a maioria das famílias estabelece em algum grau como parte de seu repertório. Ele também costuma estar disponível como affordance. Em outras palavras, affordances positivas para se engajar em padrões de cura e de bem-estar existem ao lado das affordances negativas. Ter em mente essas possibilidades positivas preexistentes na cultura do sistema familiar aumenta a probabilidade de que terapeutas as percebam e depois as utilizem na terapia. Por exemplo, se um membro da família for incentivado, na terapia, a responder ao comentário crítico de outro membro reconhecendo a preocupação afetuosa por trás desse comentário, um padrão relacional preexistente inteiramente diferente poderia ser trazido à tona.
Se a boa notícia é que as pessoas atendidas sempre oferecem a terapeutas affordances para que a terapia seja terapêutica, a má notícia é que muitas vezes essas affordances não são vistas nem ouvidas, e, com isso, perdem-se oportunidades de utilizá-las. Nosso trabalho, na terapia sistêmica, é ganhar habilidade suficiente para perceber as possibilidades das affordances positivas, transformá-las conceitualmente em oportunidades de mais bem-estar relacional e, então, tomar iniciativas para permitir que os membros da família aproveitem essas oportunidades e se respondam mutuamente segundo padrões de interação preferidos.
A terapia breve focada nas soluções foi desenvolvida por Insoo Kim Berg e Steve de Shazer, com colegas do Brief Family Therapy Centre em Milwaukee, Wisconsin (De Shazer 1985, 1988). Uma premissa-chave da prática focada nas soluções, que se cristalizou com o tempo, é que os problemas que as pessoas trazem para a terapia apresentarão exceções, ou seja, momentos em que o problema poderia acontecer mas não acontece, e que essas exceções contêm pistas para soluções. Em outras palavras, as pessoas atendidas quase sempre oferecerão oportunidades de perceber exceções a seus problemas, e essas exceções darão, às pessoas atendidas e a quem as atende, oportunidades de construir soluções.
Por volta do ano 2000, vários membros da comunidade internacional da prática focada nas soluções tomaram conhecimento de uma equipe liderada por Janet Bavelas na Universidade de Victoria (Beavin-Bavelas 2022), que havia décadas estudava o diálogo face a face com as ferramentas da microanálise conversacional. Entre esses membros, Taylor e Simon (2014) iniciaram um estudo das palavras-chave na conversa terapêutica. A conclusão central desse trabalho (ampliada recentemente em Simon e Taylor 2024) é que as falas das pessoas em terapia contêm múltiplas oportunidades de respostas que constroem soluções por parte de quem entrevista, e que, para cada oportunidade percebida, haverá também múltiplas possibilidades de resposta terapêutica. Uma consciência crescente dessas oportunidades e possibilidades prepara o terreno para a escolha de um par oportunidade-resposta preferido como resposta terapêutica à fala original. Algumas oportunidades são percebidas, por quem entrevista, como mais promissoras que outras. Algumas affordances apresentadas pelas pessoas atendidas são consideradas, na terapia, como oferecendo naquele ponto da entrevista um caminho mais direto para o bem-estar. A utilidade dessa consciência está em orientar a atenção de quem entrevista para a linguagem específica das pessoas atendidas e em fazer, passo a passo, escolhas ponderadas de resposta ao longo da entrevista. O ponto de partida de Taylor e Simon foi reconhecer as oportunidades presentes nas falas das pessoas atendidas. A presença de affordances nessa formulação era implícita, mas não era reconhecida como tal.
Neste artigo, estendemos o modelo da sequência oportunidade-resposta acrescentando o elemento pelo qual as pessoas atendidas primeiro oferecem a quem as atende certas possibilidades no sistema que formam juntos. Como observado antes, as pessoas atendidas trazem para a terapia affordances preexistentes para uma possível mudança terapêutica. Essas affordances são a base sobre a qual as oportunidades são construídas. Uma affordance preexistente genérica seria a esperança (implícita ou explícita) da pessoa de que algo em sua situação possa melhorar, ou pelo menos de que as coisas possam ser diferentes. Outra é a esperança de que a terapia possa trazer à situação algo útil. A forma exata como essas esperanças se manifestam em uma terapia específica varia muito, mas elas estão sempre lá. Talvez a maneira mais simples e direta pela qual essas affordances podem se revelar esteja nas palavras específicas que as pessoas usam ao compartilhar suas experiências na conversa terapêutica. Certas palavras, expressões, frases e nuances associadas oferecem oportunidades singulares de resposta terapêutica.
As oportunidades não surgem do nada. Elas se ancoram nas affordances que as pessoas trazem para a terapia e na imaginação das pessoas atendidas e/ou de terapeutas sobre o que poderia ser diferente. Uma vez percebida uma affordance e concebida uma oportunidade, pode-se passar à construção de uma resposta. Um esquema de construção de respostas é conhecido como procedimento preservar-omitir-acrescentar (Korman, Bavelas e De Jong 2013). Ao construir uma resposta verbal, terapeutas “preservam” uma palavra-chave ou expressão da fala da pessoa, “omitem” o restante da fala e, então, “acrescentam” palavras com intenção terapêutica. O trecho de conversa terapêutica a seguir (Simon e Taylor 2024, 77) ilustra essa construção de resposta:
Terapeuta: Digamos que você acordasse de manhã… sem essa visão negativa, como você começaria a perceber que está diferente?
Cliente: Hum. Em vez de acordar e talvez fazer correndo minha rotina da manhã, talvez eu fosse com calma e relaxasse um pouco mais. Tem uma pressão, tipo, o tempo todo, então talvez eu ficasse com um pouco mais de calma.
Terapeuta: É. Tá. E, já que você começou o dia desse jeito, com mais relaxamento, indo um pouco mais devagar, com mais calma, como o dia seria diferente?
Nesse trecho, a terapia recorre à affordance preexistente das esperanças da pessoa de que algo seja diferente e abre espaço para que ela reflita (usando uma pergunta do tipo “imagine se” ou “suponha que”). A pessoa revela as esperanças específicas de mais relaxamento e calma. A oportunidade é então aproveitada para formular uma resposta terapêutica, preservando as palavras esperançosas da pessoa, eliminando as outras palavras e acrescentando “como o dia seria diferente?”, para suscitar detalhes da diferença e convidar a um “adensamento” das possibilidades na direção preferida.
Exercitar essa sequência de perceber affordances, conceber oportunidades e gerar respostas terapêuticas poderia fortalecer significativamente as competências de qualquer terapeuta. Esse processo poderia ser descrito como oportunizar (opportunizing; Christiansen 2005) e será demonstrado abaixo em alguns exemplos clínicos, na seção sobre iniciativas terapêuticas. Basta dizer aqui que oportunizar envolve aproveitar uma affordance e concebê-la de modo a orientar deliberadamente as interações das pessoas em seu nicho rumo a resultados preferidos.
Para levar um pouco mais longe o pressuposto do “já estar lá” das affordances, gostaríamos de destacar a disponibilidade de affordances imanentes às quais terapeutas podem recorrer. Assim como as esperanças que as pessoas trazem para a terapia, as affordances imanentes são pressupostas na terapia e presumidas disponíveis mesmo quando ainda não se manifestaram. Elas são mais complexas que as affordances de superfície, que surgem do que as pessoas efetivamente dizem ou fazem na sessão. As affordances imanentes estão inscritas em uma rica história de lembranças, de valores e crenças culturais internalizados e de experiências relacionais anteriores. Essas compreensões podem ser trazidas à tona de forma proativa, como affordances, a partir desse pano de fundo de conhecimento prévio, e colocadas em primeiro plano no aqui e agora da conversa terapêutica. Por exemplo, a affordance de cura relacional que é o perdão pode não ser percebida pelos membros da família durante um conflito ativo, mas poderia ser tirada da latência e colocada em foco na terapia, já que o processo relacional de perdoar é familiar a terapeutas. Ao fazer isso, porém, é preciso um cuidado redobrado para manter a sintonia (escutar a disposição da pessoa para perceber a affordance) e garantir que haja pontos em comum suficientes nos significados, compreensões e falas usados pelas pessoas atendidas e por terapeutas para que as affordances imanentes se tornem evidentes de modo coerente.
À medida que as pessoas atendidas oferecem affordances, com ou sem consciência disso, e terapeutas concebem oportunidades potenciais de mais bem-estar, estabelece-se uma colaboração em um processo de coconstrução de possibilidades preferidas. Nessa colaboração, uma terapeuta sistêmica não é nem passiva nem neutra. Ela costuma ser muito ativa, fazendo perguntas de esclarecimento para revelar affordances relevantes que possam estar disponíveis, transformando-as em oportunidades e tomando a iniciativa de ajudar as pessoas a se beneficiarem dessas oportunidades. E, embora ela possa ser neutra quanto aos objetivos específicos que uma pessoa persegue, tem sempre um viés ético a favor do movimento em uma direção construtiva, ou seja, rumo a mais bem-estar. Isso às vezes pode se tornar bastante desafiador, sobretudo no trabalho familiar conjunto. Os objetivos dos diferentes membros da família muitas vezes divergem, e uma direção construtiva para uma pessoa pode não ser construtiva para outra. É por essa razão que preferimos, tanto quanto possível, dar prioridade ao bem-estar relacional, uma vez que, em nossa experiência, mais bem-estar individual para as pessoas envolvidas virá em seguida. Em outras palavras, sempre que possível, privilegiamos um par oportunidade-resposta do qual todas as partes tenham mais chances de se beneficiar. E é aí que o IPscope se torna um recurso valioso para as decisões terapêuticas. A intervenção com maior probabilidade de ativar ou trazer à tona um padrão de cura (HIP) ou um padrão de bem-estar (WIP) recebe prioridade. Cada situação familiar é singular quanto aos HIP ou WIP específicos que a terapia pode perceber e escolher invocar. É possível, no entanto, que terapeutas que trabalham com o IPscope desenvolvam melhores habilidades para perceber e distinguir os HIP e WIP mais promissores que as pessoas atendidas lhes oferecem, bem como as oportunidades que poderiam ser trazidas à tona em qualquer situação familiar particular, em qualquer momento particular. Está fora do escopo deste artigo tentar descrever a miríade de opções interventivas que poderiam ser usadas para isso em terapia sistêmica. Vamos nos limitar aqui a enfatizar a sequência de affordances seguidas de oportunidades e a dar alguns exemplos de iniciativas terapêuticas nas vinhetas de conversa terapêutica a seguir, extraídas de nossas práticas clínicas.
Em uma entrevista recente sobre parentalidade com a mãe e o pai de duas meninas de 9 e 12 anos (ausentes da entrevista), os pais apontaram as “brigas constantes” entre as filhas como sua principal preocupação. Sugeriram que a mais velha, Judy1, era quem começava as “alfinetadas” mútuas e a fonte das “reclamações constantes” que frequentemente “estragavam totalmente o dia de toda a família, em casa e nos passeios”. Um tom de desânimo acompanhava os exemplos de interações problemáticas que os pais iam repassando. Quase como um componente das queixas, a mãe disse: “as únicas vezes em que as meninas se comportam são quando estamos de férias no Havaí, quando temos visita e quando as duas estão de castigo por mau comportamento”.
Terapeuta: Vocês podem escolher uma dessas vezes em que tinham visita, ou em que as meninas estavam de castigo?
Mãe: Bom… ontem… e elas acabaram descendo para fazer um filme.
Terapeuta: Quanto tempo elas ficaram lá embaixo fazendo um filme?
Mãe: Meia hora… ou talvez 45 minutos.
Terapeuta: E como elas fazem filmes?
Mãe: Não sei… é um aplicativo… ou algo assim.
Terapeuta: Quem sugeriu o projeto do filme?
Mãe: A Judy [a filha mais velha].
Terapeuta: Se eu tivesse uma escala em que 10 fosse se dar bem e 0 o oposto, onde vocês situariam a interação das meninas ontem, fazendo o filme?
Pai: Ah… nove.
Mãe: Ou até nove e meio.
Uma mudança clara na atitude dos pais depois dessa troca foi notada tanto por quem conduzia a entrevista quanto por um membro da equipe que observava. Suas expressões faciais e seu tom de voz se iluminaram. Os pais relaxaram e começaram a interagir de forma cooperativa para produzir ideias úteis. Poderíamos caracterizar esse movimento como uma mudança generativa, de uma linguagem de queixa e desesperança para uma linguagem de esperança e possibilidade, a julgar pelos comentários que ouvimos em seguida:
As revelações dos pais sobre os momentos em que o problema não acontece são exemplos clássicos de exceções ao problema, um elemento central da prática focada nas soluções. Elas foram oferecidas espontaneamente, sem pedido ou convite específico de quem entrevistava, como muitas vezes acontece. Ao revelar essas exceções, os pais ofereceram à terapia a oportunidade de destacar seletivamente um processo relacional construtivo entre as irmãs. Em termos de análise de oportunidades, essas exceções ao problema fornecem a base de uma oportunidade de construção de soluções. As exceções ofereceram a quem entrevistava a opção de se concentrar seletivamente nas palavras dos pais, de fazer perguntas detalhadas para recuperar a sensação de que aquilo realmente aconteceu e de empregar uma pergunta de escala (Berg 1994; De Shazer 1994) como ferramenta para ampliar a experiência de sucesso. As respostas de construção de soluções, por sua vez, ofereceram aos pais a oportunidade de passar da queixa às soluções possíveis, uma oferta implícita que eles parecem ter aproveitado, a julgar por seus comentários posteriores, mais esperançosos e generativos.
É interessante refletir sobre os padrões relacionais de interação nesse trecho. No início da conversa, a mãe e o pai apresentavam um acoplamento de queixa (sobre as brigas das filhas) e de acúmulo de queixas (acrescentando novos exemplos de mau comportamento aos que o outro genitor havia mencionado). O padrão “queixa acoplada a acúmulo” oferecia a oportunidade de entrar mais fundo nas decepções e dificuldades parentais. Felizmente, essa affordance negativa não foi aproveitada. Em vez disso, aproveitou-se a affordance positiva de se engajar com a importante exceção da produção do filme. Como resultado, emergiu um padrão mais curativo: imaginar possibilidades de compreensão e orientação alternativas do comportamento das filhas, acoplado a afirmar as possibilidades sugeridas pelo outro genitor. O HIP “imaginar acoplado a afirmar” potencialmente posicionou os pais para se relacionarem de modo mais positivo com as filhas quando voltassem para casa.
Um pai arrependido procurou terapia como parte de um esforço para se reconciliar com o filho de 11 anos, que se recusava a ir à casa do pai depois da separação dos pais. Havia um histórico de violência física no passado, durante episódios de bebedeira, quando o menino não obedecia às orientações parentais. O pai tinha parado de beber desde a separação e havia pedido desculpas ao filho por seu comportamento violento no passado. No entanto, o filho continuava se recusando a ir à casa do pai, apesar de a mãe incentivá-lo ativamente a fazê-lo.
Pai: Quero passar mais tempo com ele. Não sei o que fazer. Parei de beber, pedi desculpas, prometi dar a ele acesso total ao celular, mas ele continua não vindo.
Mãe: O pai dele realmente mudou muito para melhor, e acho que eles precisam de mais tempo juntos.
Terapeuta: Parece que vocês dois são muito a favor de uma boa ligação entre pai e filho. (Virando-se para o filho) Você está sentindo alguma pressão para passar mais tempo com seu pai?
Filho: Tô.
Terapeuta: A pressão torna mais fácil ou mais difícil aceitar o pedido dele?
Filho: Mais difícil.
Pai: Acho que ele ainda guarda ressentimento de mim por ter batido nele quando eu bebia. Por que ele não pode simplesmente me perdoar pelos erros que cometi há tanto tempo? Já pedi desculpas tantas vezes!
Terapeuta: Digamos que ele não consiga deixar para trás as lembranças do passado; você acha que seria possível você perdoá-lo por ainda não ter perdoado você?
Pai: (depois de uma pausa, com um tom mais suave) Ah, eu não tinha pensado nisso. … Talvez eu pudesse…
Filho: (tomando a palavra espontaneamente, dirigindo-se ao pai) Desculpa, eu quero muito ir para a sua casa, mas ainda estou com um pouco de medo…
Nesse exemplo, o terapeuta percebeu a intensidade do desejo de reconciliação do pai como o que bloqueava aquilo que ele esperava. A intensidade era sentida como uma pressão sobre o menino para que obedecesse. Assim, ela constituía uma affordance negativa. A pressão tipicamente oferece resistência, e a resistência tipicamente oferece mais pressão. Em outras palavras, o padrão interpessoal patologizante (PIP) “pressão acoplada à resistência” parecia ativo na relação, apesar dos esforços genuínos dos pais para escapar dele. O terapeuta reconheceu a oportunidade de convidar a família a refletir sobre esse padrão e a tomar consciência das affordances negativas. Ele fez isso fazendo ao menino algumas perguntas para abrir espaço para que revelasse sua experiência de pressão e sua reação de resistência. A esperança, claro, é que, com maior consciência das consequências de escolher aproveitar affordances negativas, os membros da família procurem se orientar para evitar utilizá-las.
O terapeuta também percebeu a familiaridade da família com o padrão de interação “pedir desculpas acoplado a perdoar”, que normalmente é muito positivo e oferece cura em relações feridas. Nesse caso, a affordance negativa da intensidade havia, sem querer, usado uma affordance potencialmente positiva do padrão de cura como instrumento no processo de pressão (ele deveria me perdoar). Nenhum dos genitores parecia perceber como a pressão do pai para que o filho perdoasse estava, na verdade, mantendo o PIP. O terapeuta reconheceu a oportunidade de aproveitar a positividade da affordance do perdão, convidando o pai a mudar de posição dentro do padrão de cura (pedir desculpas acoplado a perdoar), para que seus efeitos desejados pudessem se realizar. Ele conseguiu isso fazendo ao pai uma pergunta reflexiva (Tomm 1987) sobre se ele poderia perdoar o filho por ainda não ser capaz de perdoá-lo. Quando o pai reconheceu essa possibilidade e começou a considerar a opção de passar de pedir desculpas a perdoar, o menino assumiu a posição complementar no mesmo padrão de cura relacional e espontaneamente começou a pedir desculpas.
Uma mulher de 22 anos foi encaminhada com a família para terapia quando uma enfermeira notou uma tensão significativa na família durante uma consulta de acompanhamento em um ambulatório, depois de ela ter sido hospitalizada por “psicose”. A jovem morava com os pais e um irmão mais novo. Alguns anos antes, tinha rompido de forma grave com parte de seu círculo de amizades e abandonado a universidade. Não tomava nenhuma iniciativa para conseguir um emprego remunerado e havia se retirado de toda interação social. Os pais insistiram para que a filha os acompanhasse à primeira entrevista.
Terapeuta: O que vocês esperam ao vir para a terapia familiar?
Mãe: Estamos desesperados.
Pai: O que ajudar…
Terapeuta: (para a filha) Como você se sente por ter sido encaminhada para a terapia familiar?
Filha: (abre a boca como se fosse falar, mas para de repente, fecha os olhos, abaixa a cabeça e fica em silêncio.)
A mãe passa a oferecer espontaneamente informações detalhadas sobre as dificuldades psíquicas passadas da filha, internações psiquiátricas, vários exames e múltiplas terapias. Nesse processo, a mãe fica muito chorosa. Ela continua descrevendo como a filha fica quase o tempo todo no quarto e nunca faz nenhuma tarefa doméstica. O pai expressa frustração por não conseguir fazer a filha fazer nada. Descreve como precisa forçá-la a sair do quarto para fazerem as refeições juntos. Enquanto os pais falam, a filha parece se desligar e permanece totalmente sem reação.
Terapeuta: (tentando deslocar o foco da filha para os pais) O que acontece com vocês, como pais, quando a veem se fechar assim?
Mãe: Estamos morrendo de preocupação de que ela possa ter algum tipo de demência.
Terapeuta: Que efeito vocês imaginam que nossa conversa sobre as preocupações de vocês pode estar tendo sobre ela?
Mãe: Não sei o que se passa com ela. Ela quase nunca diz nada.
Terapeuta: Quem notaria primeiro pequenos passos que ela possa dar para se expressar?
Pai: Eu noto que às vezes ela fica irritada e xinga baixinho quando tento forçá-la a sair do quarto.
Terapeuta: Como vocês reagem quando ela xinga?
Pai: Somos uma família cristã e não aceitamos nenhum palavrão.
Terapeuta: Vocês conseguem imaginar que, se ela pudesse expressar a frustração de forma aberta e livre, em vez de guardá-la para si, vocês poderiam ter uma pequena janela para o que está acontecendo dentro dela?
Pai: Talvez…
Terapeuta: Eu me pergunto se ela não internalizou alguns valores cristãos ao extremo, talvez a ponto de estar agora oprimida por uma proibição de xingar que a força ao silêncio. Vocês topariam experimentar a abordagem oposta, pelo menos temporariamente, e incentivá-la ativamente a gritar e berrar sempre que ela parecer frustrada, para ver o que acontece?
Mãe: Estamos dispostos a tentar qualquer coisa.
Depois da sessão, os pais seguiram a sugestão e apoiaram ativamente a filha na expressão da raiva. Ela foi se abrindo aos poucos, tanto em casa quanto na terapia. De fato, nas sessões seguintes, ela contestou explicitamente as “preocupações excessivas” e a “intromissão” dos pais. Depois de alguns meses, ela estava bem o suficiente para fazer novas amizades e se matricular em um curso na universidade.
Já na primeira sessão, a família ofereceu a oportunidade de observar um processo relacional patologizante de “fixação no paciente identificado” (IP gazing), no qual “um escrutínio preocupado acoplado a retraimento e distanciamento” parecia agravar uma situação já difícil. Ao perguntar logo de início à filha o que ela sentia em relação à terapia, isto é, ao convidá-la a participar de um “autoescrutínio”, a condução da entrevista pode ter reforçado, sem querer, esse padrão patologizante. Com base no pressuposto de que devia haver affordances positivas disponíveis para se conectar com outras pessoas, a pergunta passou a ser sobre pequenas iniciativas que ela pudesse ter tomado para se comunicar (deslocando ao mesmo tempo o foco dela para quem poderia notá-las). Isso gerou a oportunidade de imaginar um padrão de cura, “incentivar a expressão aberta da raiva acoplado a correr o risco de se expressar mais livremente”, que foi apresentado como um experimento possível. A família aproveitou essa oportunidade e acabou conseguindo entrar em um padrão de bem-estar relacional mais estável: “pais que dão mais espaço à livre expressão das emoções, acoplado a uma filha que se arrisca a uma autoexpressão mais aberta e sincera”.
Este exemplo é um pouco diferente, pois inclui um processo de supervisão com a ilustração de um estímulo perceptivo. No início da pandemia, o Calgary Family Therapy Centre (onde trabalhamos) deixou de oferecer atendimentos presenciais. Em vez disso, iniciamos a terapia on-line para continuar atendendo as famílias. O Centro pratica uma supervisão próxima de quem faz estágio, em geral privilegiando o acompanhamento das sessões ao vivo. Ao explorar possibilidades de um equivalente virtual para esse aspecto de nossa prática, começamos a usar a função de chat da nossa plataforma de reuniões virtuais para nos comunicar em particular com terapeutas durante a própria sessão. Para as pessoas capazes de lidar com várias tarefas ao mesmo tempo, constatamos que essa opção técnica permitia um retorno imediato e substancial a quem conduzia a entrevista, ao longo de toda a sessão.
A propósito, é interessante notar parte do conteúdo das mensagens ao vivo enviadas pela supervisão a quem estava em formação e conduzia as entrevistas:
Um breve relato de uma sessão recente exemplifica esse procedimento em ação. Uma estagiária atendia os dois genitores de uma família classificada como de “alta discrepância”, uma descrição usada no Centro para designar acoplamentos relacionais persistentes que apresentam fortes diferenças, muitas vezes escalando para um conflito aberto. O pai tinha saído recentemente de casa e estava dando entrada no divórcio. A mãe expressava “choque e mágoa” diante desse “acontecimento repentino”. Os genitores apresentavam preocupações comuns quanto ao impacto sobre os filhos. O pai “esperava ver a filha”, que se recusava a vê-lo, declarando que “precisava de tempo para se curar”. À medida que a entrevista avançava, um dos genitores, pelo tom ou pela escolha das palavras, irritava repetidamente o outro, que respondia na mesma moeda, e a interação logo se deteriorava em um PIP de “culpar acoplado a contraculpar”. Esse padrão tinha o efeito de desviar a atenção da esperança central dos genitores e, de fato, da missão do Centro, a saber, promover a saúde das crianças, e de ofuscá-la.
A estagiária que conduzia a entrevista estava se saindo bem nessas circunstâncias difíceis, permitindo alguma expressão autêntica de mágoa e ressentimento e, em seguida, intervindo para criar uma “pausa”, para “deixar os sentimentos se acalmarem” e “voltar à saúde futura das crianças”. Em certo momento, a mãe disse, exasperada:
Mãe: Tudo o que eu peço é um pouco de gentileza e consideração.
Pai: Bom… tem coisas para resolver… com a casa… e as contas…
[Enquanto a conversa continuava em tom de discussão, na direção dessas tarefas e responsabilidades práticas, a supervisão enviou uma mensagem privada de chat à estagiária: “ela disse gentileza e consideração”. A estagiária registrou o comentário e logo pôs essa percepção em prática.]
Terapeuta: Mary, você falou em gentileza e consideração…
Mãe: É… alguns dos e-mails me dizendo o que fazer… me culpando por jogar as crianças contra ele…
Pai: [Depois de uma pausa pensativa] Eu sei… e-mails… às vezes as pessoas entendem as coisas do jeito errado… e talvez eu pudesse ter mais cuidado… com a forma como digo as coisas… eu só quero muito ver minha filha… quando eu disser algo que magoe, você poderia me dizer? …
Mãe: Eu quero que as crianças possam ver o pai… desde que se sintam seguras…
Pai: O que for preciso… até a Jane (terapeuta) ou outra pessoa estar presente…
Uma maneira de entender essa troca e a mudança generativa que ocorreu durante a sessão seria dizer que, com o acompanhamento ao vivo da supervisão, a estagiária que conduzia a entrevista conseguiu perceber a affordance positiva de superfície nas palavras da mãe, “gentileza e consideração”. Ela pôde então acoplá-la à affordance parental imanente do esforço comum para cuidar das crianças e manter a ligação com elas. A mãe, nesse caso, trouxe para a conversa a affordance de uma preferência pela gentileza com sua expressão “gentileza e consideração”. Embora o comentário tenha surgido como componente de uma queixa sobre a negatividade na interação com o marido, de quem estava afastada, ele pôde ser percebido como positivo e foi usado com sucesso como uma oportunidade para deslocar a relação dos dois rumo ao bem-estar, mesmo em circunstâncias muito difíceis.
Gostaríamos de concluir enfatizando a responsabilidade que temos, como terapeutas, de trabalhar pelo bem-estar das pessoas que atendemos. Elas nos procuram com suas dificuldades e vulnerabilidades e confiam que responderemos de maneiras que possam ajudar. Para uma prática ética, nossas respostas precisam estar alinhadas com as esperanças dessas pessoas e orientadas para mais bem-estar. Além disso, precisamos nos esforçar para fortalecê-las, de modo que possam continuar avançando rumo a mais bem-estar fora da terapia, sem criar dependência em relação a nós. É mais provável que as melhoras se mantenham quando intervimos seletivamente para privilegiar acoplamentos recíprocos de bem-estar no nicho natural das relações dessas pessoas. Consequentemente, cabe a nós agir com muita intencionalidade naquilo que fazemos e deixamos de fazer na terapia.
Acreditamos que, se nós, terapeutas, ganharmos rigor no reconhecimento e na colocação em ato de sequências preferidas no processo terapêutico, aumentam as chances de conseguirmos favorecer o bem-estar das pessoas que atendemos. Há muitas maneiras de ganhar disciplina em nosso trabalho de terapeutas. O tipo de rigor que incentivamos neste artigo consiste em engajar-se em sequências recorrentes: perceber as affordances de cura relacional das pessoas atendidas, construir oportunidades para padrões de interação preferidos e tomar iniciativas para possibilitar a realização dessas oportunidades. Como observado antes, o “já estar lá” das affordances nos dá confiança para procurar percebê-las. Nossa intenção de apoiar mais bem-estar relacional nos dá uma direção para converter conceitualmente determinadas affordances em oportunidades construtivas. Sempre que possível, incentivamos a escolha de oportunidades que se encaixem em padrões relacionais recíprocos, que conferem mais durabilidade e estabilidade às relações do sistema familiar. E, por fim, nossa paixão por ajudar as pessoas que atendemos nos mobiliza a tomar a iniciativa de abrir espaço para que elas aproveitem as affordances positivas que lhes estão disponíveis.
Isso não quer dizer que sejamos contra a espontaneidade intuitiva na prática da terapia. Acreditamos que a intuição pode se ampliar quando se faz um esforço deliberado de refletir sobre as próprias práticas e de aumentar a consciência das possibilidades. Por exemplo, se, ao ler este artigo, surgir em você a vontade de se orientar para perceber as affordances positivas que as pessoas que você atende trazem para sua prática, talvez você as note com mais facilidade em suas próximas sessões. E, se aprender a receber essas affordances como “presentes” que essas pessoas lhe dão para apoiar seu trabalho, terá ainda mais vontade de retribuir com intervenções que utilizem essas oportunidades terapêuticas.
Complexe Systémique: a reter
O artigo dá um nome preciso a um gesto que muita gente na clínica faz sem formalizá-lo: identificar, naquilo que a família já diz ou faz, o recurso que permitirá que a mudança comece. Ao tomar emprestada de Gibson a noção de affordance, Tomm e Taylor deslocam a pergunta do déficit para o que “já está lá” e distinguem três tempos: perceber a affordance, convertê-la em oportunidade, tomar a iniciativa. O quadro do IPscope dá a essa sequência uma direção propriamente sistêmica: não se trata de fortalecer uma pessoa, mas de virar um acoplamento, de “pressão acoplada à resistência” para “pedir desculpas acoplado a perdoar”. A vinheta do pai que pressiona o filho a perdoá-lo é exemplar nesse sentido: uma única pergunta reflexiva desloca o pai dentro do padrão, e o filho pede desculpas espontaneamente. Vale manter um olhar crítico: as vinhetas são breves, escolhidas entre casos de sucesso, e o viés ético assumido, nem passivo nem neutro, exige vigilância sobre o que a equipe clínica chama de “bem-estar”. Para a formação, a supervisão ao vivo por chat oferece uma pista concreta. Para ler junto com a entrevista com Karl Tomm sobre o desassossego relacional e com o artigo de Janet Bavelas e colegas sobre a coconstrução do sentido.
Notas do original
1 O nome foi alterado para proteger a privacidade das pessoas envolvidas.
Referências
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Tradução não oficial em português de Affordances e oportunidades para o bem-estar relacional, de Karl Tomm e Lance Taylor, Journal of Marital and Family Therapy, vol. 51, no 2 (2025), doi: 10.1111/jmft.70004, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Affordances and Opportunities for Relational Wellness”, publicado em Journal of Marital and Family Therapy (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Tomm, K., et Taylor, L. (2025). Affordances e oportunidades para o bem-estar relacional (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/affordances-e-oportunidades-para-o-bem-estar-relacional (Obra original publicada em 2025 em Journal of Marital and Family Therapy, 51(2), e70004 (2025); republicada em 2025 por Journal of Marital and Family Therapy, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/jmft.70004)
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