Journal of Marital and Family Therapy · Terapia familiar
Voltar de uma missão é reencontrar uma família que aprendeu a viver sem você. Lastenia Francis entrevistou 23 pessoas veteranas negras das guerras do Afeganistão e do Iraque, todas com diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático. A confiança se reconstrói menos por grandes confidências do que por uma presença constante, uma escuta no ritmo certo e papéis que se movem, com uma identidade racial que protege tanto quanto expõe.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Construir confiança e conexão: uma perspectiva sistêmica familiar sobre a reintegração de pessoas veteranas negras, de Lastenia Francis, publicado na Journal of Marital and Family Therapy (Wiley) (2026), doi: 10.1111/jmft.70144, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A Tabela 1 é apresentada em forma de lista; a Figura 1 é reproduzida na versão original em inglês, com legenda traduzida; as falas das pessoas participantes foram traduzidas para o português, e as pessoas cujo gênero a fonte não indica são designadas de forma neutra; o material suplementar on-line (roteiro de entrevista) não foi reproduzido. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
As famílias que toleravam uma assimetria no engajamento conseguiam reconstruir a confiança aos poucos.
Lastenia Francis
Resumo
A reintegração após um destacamento militar costuma ser vista como um processo individual, embora ocorra dentro de sistemas familiares. Pessoas veteranas negras continuam sub-representadas na pesquisa sobre reintegração, em especial nos estudos centrados na confiança relacional e no estresse racializado. Entrevistas semiestruturadas realizadas com 23 pessoas veteranas das operações Enduring Freedom (OEF) e Iraqi Freedom (OIF) revelaram quatro temas inter-relacionados: presença, comunicação, identidade racial e negociação dos papéis familiares. Os resultados indicam que a confiança foi construída por meio de processos relacionais cotidianos, e não por uma revelação emocional imediata, e que a identidade racial funcionou ao mesmo tempo como recurso e como fonte de tensão. Esses resultados destacam a confiança como um processo relacional moldado pelas dinâmicas familiares e pelos contextos socioculturais, ampliando a literatura sobre reintegração.
Palavras-chave: pessoas veteranas negras, sistemas familiares, reintegração militar, estresse racializado, confiança relacional
A reintegração começa quando a pessoa militar volta para casa depois de um destacamento, mas é muito mais do que um acontecimento pontual. Segundo Elnitsky et al. (2017), a reintegração é um processo contínuo que exige das famílias reorganizar papéis, renegociar relações e se ajustar emocionalmente à volta da pessoa militar, o que afeta não só a família, mas também a comunidade e o ambiente de trabalho. Paley et al. (2013) enfatizam ainda que esses ajustes são sistêmicos e influenciam todos os níveis do sistema familiar. Drew et al. (2022) descrevem a reintegração como algo que ocorre em fases (preparação, retorno ao lar e estabilização a longo prazo), cada uma trazendo suas próprias mudanças de expectativas e de papéis. Durante o destacamento, as famílias se adaptam redistribuindo as responsabilidades de cuidado, a tomada de decisões e as rotinas diárias. No retorno, esses padrões precisam ser cuidadosamente renegociados para se ajustar à nova realidade da família, e não simplesmente revertidos (Pincus et al. 2001). Assim, a reintegração perturba o equilíbrio familiar e exige que todo o sistema se recalibre (Elnitsky et al. 2017; Paley et al. 2013).
Uma perspectiva sistêmica familiar entende a reintegração como uma reestruturação relacional que afeta todo o sistema familiar (Brennan et al. 2021; Paley et al. 2013). Os casais precisam atravessar mudanças na intimidade e nos papéis relacionais; os pais adaptam sua abordagem da hierarquia e da coparentalidade; e as crianças se ajustam a estruturas e expectativas familiares em transformação (Riggs e Riggs 2011). Como esses subsistemas estão interligados, o estresse ou a perturbação em uma relação pode se propagar por toda a família. O’Neal e Mancini (2020) constataram que as dificuldades de reintegração, em especial o conflito entre os pais, podem afetar o ajustamento de adolescentes, o que evidencia a influência mútua entre os processos familiares nesse período. A teoria dos sistemas familiares conceitua, assim, a reintegração como um conjunto de processos contínuos e interativos, em que as experiências de cada membro moldam as respostas dos demais (Paley e Hajal 2022).
A renegociação de papéis e a regulação emocional são centrais na reintegração familiar. Militares muitas vezes voltam para famílias que desenvolveram novas rotinas durante sua ausência, o que pode gerar incerteza e sentimentos de exclusão (Knobloch e Theiss 2012). Papéis flexíveis e comunicação aberta são cruciais para se adaptar a essas mudanças, já que as famílias precisam manter e ajustar novos padrões familiares ao longo do tempo (Glorieux et al. 2023). A comunicação passa da intensidade emocional inicial do reencontro para o trabalho prático de coordenação e apoio no dia a dia (Knobloch-Fedders et al. 2020). Quando as famílias vivem estresse durante a reintegração, são os sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) dos pais, e não o número ou a duração dos destacamentos, que estão diretamente ligados a um pior ajustamento da criança, e os sintomas maternos de TEPT também comprometem a eficácia das práticas parentais (Gewirtz et al. 2018). Sandoz et al. (2015) constataram que a flexibilidade psicológica, isto é, a capacidade dos membros da família de adaptar seu comportamento e sua comunicação a demandas em mudança, é decisiva para amortecer desfechos negativos e favorecer um ajustamento familiar mais saudável após o destacamento. Em última análise, o desfecho da reintegração depende da capacidade do sistema familiar de reorganizar papéis, regular emoções e construir, em conjunto, um novo equilíbrio.
No contexto da reintegração, a confiança é um processo dinâmico que se desenvolve por meio de interações contínuas e da dependência mútua, e não um traço fixo (Melvin et al. 2015). Quando as famílias atravessam, após o destacamento, uma incerteza quanto ao casal, ao compromisso ou às emoções, essa incerteza pode abrir espaço para a dúvida e favorecer interpretações negativas se não for tratada (Knobloch et al. 2021). A comunicação aberta e a revelação honesta reduzem a ambiguidade e constroem uma compreensão compartilhada, fortalecendo os vínculos relacionais (Drew et al. 2022; Knobloch et al. 2023).
Construir e sustentar a confiança durante a reintegração depende de uma comunicação que promova tanto a vulnerabilidade quanto a segurança emocional. Os casais fortalecem a confiança ao compartilhar emoções, reconhecer erros e reparar rupturas relacionais pedindo desculpas e se reconectando (Knobloch et al. 2023; Melvin et al. 2015). O ajuste gradual, expectativas moderadas e paciência ajudam a reduzir a defensividade e a favorecer a confiança (Adler et al. 2011). Blow et al. (2015) defendem que a terapia focada nas emoções é um modelo eficaz para tratar dificuldades relacionais de casais de militares que lidam com o TEPT, pois enfatiza a reestruturação das respostas emocionais e a construção de vínculos de apego seguros. Com o tempo, a confiabilidade e a responsividade constantes constroem um senso de estabilidade e fazem da confiança um processo dinâmico e contínuo dentro do sistema familiar (Kopacz et al. 2018).
A confiança dentro do sistema familiar pode se desgastar quando padrões de interação criam ambiguidade ou risco emocional. Por exemplo, a desconfiança, em especial quando um membro do casal acredita que informações estão sendo escondidas, aumenta a incerteza e mina a confiança mesmo na ausência de uma traição clara (Knobloch et al. 2021). O afastamento emocional, a revelação limitada ou o bloqueio da comunicação sinalizam indisponibilidade, o que a outra pessoa do casal pode interpretar como falta de cuidado ou de compromisso. Knobloch-Fedders et al. (2020) constataram que casais de militares vivem mudanças significativas e oscilantes de proximidade, comunicação e incerteza relacional ao longo da reintegração, à medida que se ajustam à vida após o destacamento. Perkins (2025) destaca que o racismo pode levar a um afastamento protetor e a uma atitude defensiva em casais negros, desencorajando ainda mais a abertura emocional. A confiança também pode ser ameaçada quando a competência de quem ficou em casa é questionada, ou quando a autoridade é retomada depressa demais após o destacamento, o que provoca ressentimento e desconfiança (Adler et al. 2011).
As hierarquias raciais embutidas nas organizações militares moldam profundamente a experiência de pessoas negras nas Forças Armadas, criando dificuldades cotidianas (por exemplo, assédio, mentoria limitada e barreiras à ascensão) com consequências que vão além da carreira militar (Cancelmo et al. 2025). O preconceito racial persistente nas Forças Armadas tem efeitos duradouros, entre eles uma maior vulnerabilidade ao trauma (Burk e Espinoza 2012). Dohrenwend et al. (2008) constataram que pessoas veteranas negras da Guerra do Vietnã apresentaram TEPT em taxas mais altas do que pessoas veteranas brancas, e que o racismo dentro e fora das Forças Armadas contribuiu diretamente para essa disparidade. Sohn e Harada (2008) demonstraram que a discriminação racial está ligada a piores desfechos de saúde entre pessoas veteranas de minorias. A reintegração de pessoas veteranas negras exige curar-se tanto do trauma militar quanto do trauma racial, pois essas feridas se cruzam e se somam (Winters et al. 2023). Esse duplo fardo pesa sobre as relações familiares, já que a hipervigilância protetora pode dificultar a abertura emocional.
A interseccionalidade, tal como definida por Crenshaw (1989) e ampliada por Collins (2019), é mais do que um conceito teórico: é uma realidade vivida que molda a reintegração de pessoas veteranas negras e expõe os limites de quadros que ignoram a raça. Burk e Espinoza (2012) documentam que a história de pessoas negras nas Forças Armadas estadunidenses é marcada por exclusão, segregação e benefícios desiguais, enquanto Carlson et al. (2018) argumentam que esse legado alimenta a desconfiança e faz do retorno ao lar uma negociação com a iniquidade sistêmica e a memória coletiva. Essas complexidades distinguem as pessoas veteranas negras das análises mais amplas sobre “militares de cor” e evidenciam a necessidade de pesquisas específicas. O estresse racializado agrava o trauma. Coleman (2016) constatou que pessoas veteranas negras com alta exposição ao combate apresentam TEPT mais grave do que pessoas veteranas brancas e hispânicas. McClendon et al. (2021) demonstram que, entre veteranas negras, o estresse discriminatório na interseção entre raça e gênero prediz fortemente o agravamento do TEPT. Winters et al. (2023) constataram que as identidades racial e militar de veteranos negros do sexo masculino interagem para moldar suas experiências de reintegração após o destacamento e sua saúde mental.
A reintegração de pessoas veteranas negras é moldada não apenas pela logística da transição, mas pelas realidades vividas do racismo sistêmico, do viés institucional e de um estresse racializado incessante. Perkins (2025) descreve como a discriminação é absorvida e incorporada, afetando tanto as respostas ao estresse quanto as relações íntimas. Burk e Espinoza (2012) documentam a exclusão persistente e as barreiras que pessoas veteranas negras encontram ao voltar à vida civil, enquanto Cancelmo et al. (2025) destacam o impacto do viés institucional, sobretudo nos desligamentos administrativos. Winters et al. (2023) mostram que o racismo acumulado alimenta a hipervigilância e mina a confiança, ambas decisivas para uma reintegração bem-sucedida. Whealin et al. (2024) constatam que o custo psicológico do racismo sistêmico pode se intensificar após o serviço militar, agravando o trauma relacionado ao destacamento. Pessoas veteranas negras carregam um fardo de serviço ampliado por danos racializados contínuos. Cancelmo et al. (2025) identificam ainda disparidades estruturais, como a proporção desmedida de desligamentos “não honrosos” (Other Than Honorable, OTH), benefícios limitados e uma vida familiar sob tensão. A precariedade financeira, as barreiras de acesso à saúde e a desconfiança institucional perturbam a comunicação, a confiança e o clima emocional da família.
A reintegração de pessoas veteranas negras e de suas famílias é complicada por desigualdades estruturais e por narrativas excludentes. Nillni et al. (2023) constataram que a discriminação no trabalho, na moradia, na saúde e na vida pública funciona como um estressor psicossocial diário, que alimenta as disparidades de saúde mental entre pessoas veteranas racializadas. Burk e Espinoza (2012) documentam como o legado da segregação, a falta de reconhecimento e a ascensão limitada de pessoas negras nas Forças Armadas estadunidenses refletem padrões mais amplos de estratificação racial. Carlson et al. (2018) e Williams-Washington e Mills (2018) destacam ainda como essas desigualdades estão incrustadas nas instituições estadunidenses e moldam as experiências vividas. Perkins (2025) mostra que as microagressões e os encontros racializados no trabalho perturbam as dinâmicas familiares, influenciando a expressão emocional, acirrando conflitos e minando a sensação de segurança em casa. Essas dificuldades persistentes são agravadas pelo trauma histórico e intergeracional (por exemplo, a escravidão, as leis de segregação Jim Crow, o encarceramento em massa), já que o trauma racial perdura entre gerações devido à exposição crônica a danos sistêmicos (Cénat 2023; Coleman 2016).
Coleman (2016) e Lee et al. (2023) demonstram que o trauma intergeracional transmite o estresse racializado entre gerações, moldando o cuidado, a confiança e as fronteiras emocionais nas famílias negras. Carlson et al. (2018) enfatizam que essas adaptações, enraizadas na sobrevivência e no amor, transformam a maneira como o apoio familiar é dado e recebido. No entanto, Knobloch et al. (2023) observam que a maior parte da pesquisa sobre reintegração se concentra em famílias brancas, deixando as experiências das famílias negras menos exploradas. Com muita frequência, a raça é tratada como um campo a assinalar, e não como uma força estrutural na reintegração. Dorsey Holliman et al. (2018) destacam que boa parte dos estudos se concentra na patologia e negligencia a resiliência encontrada na espiritualidade, nas redes de parentesco e na identidade racial, recursos vitais para o bem-estar de pessoas veteranas negras. Em consequência, os quadros convencionais deixam de ver como o racismo estrutural e o estresse interseccional moldam as famílias de pessoas veteranas negras. Colocar essas realidades no centro nos leva além de paradigmas que ignoram a raça e permite refletir as histórias complexas de pessoas veteranas negras e de suas famílias.
Em síntese, a literatura destaca que a reintegração é um processo complexo que afeta toda a família (Adler et al. 2011; Elnitsky et al. 2017; Paley et al. 2013) e que exige ajuste contínuo de papéis, emoções e relações (Drew et al. 2022; Knobloch-Fedders et al. 2020; Riggs e Riggs 2011). A confiança é central: cresce por meio da comunicação, da vulnerabilidade e da responsividade, mas pode ser facilmente abalada pela incerteza, pelo afastamento ou por mudanças de poder ou de segurança (Knobloch et al. 2021; Knobloch et al. 2023; Melvin et al. 2015). Para pessoas veteranas negras e suas famílias, essas dificuldades são agravadas pelo estresse racializado, pelas desigualdades sistêmicas e pelas identidades que se cruzam (Burk e Espinoza 2012; Carlson et al. 2018; McClendon et al. 2021; Perkins 2025; Winters et al. 2023). Embora a pesquisa tenha examinado a reintegração, a confiança e as experiências racializadas como temas separados, sabemos pouco sobre como eles se articulam na vida das famílias de pessoas veteranas negras. Não está claro como o estresse racializado e as experiências militares moldam, juntos, a confiança e o vínculo durante a reintegração. Este estudo busca preencher essa lacuna explorando como pessoas veteranas negras e suas famílias vivem a reintegração e como ela afeta a confiança e o vínculo na vida familiar.
Este estudo usou uma abordagem de teoria fundamentada construtivista para explorar as experiências de reintegração de pessoas veteranas negras após o destacamento, com ênfase na confiança relacional, na comunicação, nas transições de papel e na construção de sentido nos contextos familiar e social. A teoria fundamentada construtivista enfatiza a coconstrução de sentido entre quem pesquisa e as experiências vividas de quem participa, e leva em conta os fatores socioculturais e institucionais que moldam essas realidades (Charmaz 2025). O objetivo inicial era envolver tanto as pessoas veteranas quanto membros de suas famílias, para examinar a reintegração como processo relacional, mas a maioria das pessoas veteranas relutou em incluir parentes, o que limitou a participação das famílias. Assim, a análise se concentrou principalmente nos relatos das pessoas veteranas, dos quais emergiram temas de distância relacional, afastamento emocional e barreiras à confiança e ao engajamento.
A amostra foi composta por 23 pessoas veteranas negras que serviram na Operação Enduring Freedom (OEF) ou na Operação Iraqi Freedom (OIF), antes de 2020. Quem participou tinha entre 25 e 59 anos, a maioria entre 25 e 39 anos. Catorze pessoas serviram no Exército, cinco no Corpo de Fuzileiros Navais e quatro na Marinha. As origens autodeclaradas foram africana (n = 3), afro-americana (n = 8) e afro-caribenha (n = 12). As estruturas familiares incluíam situações de conjugalidade (casamento ou união estável; n = 10, das quais apenas nove moravam com a pessoa parceira), de parentalidade (filhos em casa; n = 8), de família estendida (vários adultos, sem parceria; n = 7) e de vida independente (n = 4). Essas configurações foram consideradas influências contextuais sobre a reintegração, e não variáveis para comparação direta. Três familiares participaram de entrevistas complementares; esses dados, porém, foram excluídos da análise temática para manter o foco analítico nas experiências vividas das pessoas veteranas. Todas as pessoas participantes tinham diagnóstico prévio de TEPT emitido pelo Departamento de Assuntos de Veteranos (Department of Veterans Affairs, VA), embora a gravidade dos sintomas não fosse critério de inclusão. O recrutamento foi feito por meio de programas do VA na cidade de Nova York, de divulgação nas redes sociais e de amostragem em bola de neve. Todas as informações identificáveis foram anonimizadas para garantir a confidencialidade. Um resumo das características demográficas das pessoas veteranas participantes, incluindo idade, ramo de serviço, identidade racial ou étnica e escolaridade, é apresentado na Tabela 1.
Tabela 1 — Características das pessoas participantes (N = 23 pessoas veteranas)
Nota: os dados demográficos se referem às 23 pessoas veteranas participantes; os familiares (n = 3) não responderam aos questionários demográficos e, por isso, não constam desta tabela. A participante 12 (esposa de uma pessoa veterana) foi totalmente retirada, mas os pseudônimos não foram alterados.
Em 2020, foram realizadas entrevistas semiestruturadas de 60 a 90 minutos, presencialmente ou a distância, conforme a preferência de cada participante. O roteiro explorava a reintegração, a identidade racial e cultural e as dinâmicas familiares, com foco na confiança e no vínculo relacionais (ver o Apêndice SA para o roteiro completo). As entrevistas começavam com “Fale-me das suas experiências de reintegração após o destacamento”, o que permitia que cada pessoa definisse a reintegração em seus próprios termos. Perguntas de seguimento exploravam mudanças nas relações, no apoio e nas tensões dentro da família. Entre as perguntas de aprofundamento estavam: “O que tem parecido diferente na sua relação desde a reintegração?”, “O que significa para você sentir-se em conexão?”, “O que ajuda você a ter a sensação de apoio?” e “O que torna mais fácil ou mais difícil contar com alguém?”. À medida que as pessoas participantes destacavam temas de distância relacional, confiabilidade e reconexão, perguntas adicionais sobre confiança e vínculo foram sendo acrescentadas de forma iterativa. Assim, a confiança se tornou um foco a partir das narrativas de quem participou, e não uma categoria analítica predeterminada.
Para dar conta do foco em pessoas veteranas negras, o roteiro incluía perguntas sobre identidade racial e experiências militares, como: “Quando você tomou consciência da sua raça pela primeira vez, e como ela molda seus papéis na família (por exemplo, na parceria, na parentalidade)?” e “Como você vê a influência da sua raça nas suas experiências militares?”. Outras perguntas abordavam a disponibilidade emocional, a comunicação e as transições de papel após o destacamento. Embora a raça não fosse inicialmente uma categoria analítica, as pessoas participantes descreveram com frequência situações de discriminação, o que evidenciou sua relevância para a confiança e o vínculo. Todas as entrevistas foram gravadas em áudio, transcritas na íntegra, desidentificadas e complementadas por notas de campo. Foram obtidos a aprovação de um comitê de ética institucional (Institutional Review Board) e o consentimento informado.
A autora é uma mulher negra e terapeuta de casal e família licenciada, com experiência clínica no atendimento à população veterana. Sua trajetória moldou o recrutamento, a coleta e a análise dos dados. Algumas pessoas veteranas hesitaram inicialmente em participar, o que reflete uma desconfiança mais ampla em relação à pesquisa nas comunidades negras (George et al. 2014; Henderson et al. 2024; Scharff et al. 2010; Tamlyn et al. 2023). A participação aumentou graças à identidade racial compartilhada e às indicações entre pares, o que mostra como origens comuns favorecem a confiança (Moore et al. 2023). Práticas reflexivas foram usadas para examinar a influência da identidade e da formação da autora sobre a codificação e o desenvolvimento teórico, em apoio aos padrões de qualidade da pesquisa qualitativa e reforçando a credibilidade analítica (Berger 2015).
A análise dos dados seguiu os procedimentos da teoria fundamentada construtivista de Charmaz (2025), começando por uma codificação linha a linha para captar a linguagem de quem participou e passando a uma codificação focalizada para agrupar os códigos significativos em categorias de ordem superior. A codificação teórica definiu as relações entre confiança, afastamento relacional e reintegração. A redação de memorandos e a comparação constante documentaram as percepções e refinaram as categorias ao longo do tempo (Birks et al. 2008). Durante o processo analítico, os dados dos familiares foram inicialmente incorporados. No entanto, como apenas três familiares participaram, e para preservar o foco do estudo nas experiências das pessoas veteranas, esses dados foram excluídos da estrutura temática principal. O conjunto de dados foi então reexaminado para garantir que os temas continuassem ancorados nas narrativas das pessoas veteranas, o que levou a um refinamento da ênfase temática. A análise prosseguiu até se alcançar a suficiência teórica, indicada pela ausência de novas percepções conceituais em dados adicionais (Charmaz 2025).
Várias estratégias reforçaram a confiabilidade. A checagem com parte das pessoas participantes, que revisaram e comentaram as interpretações preliminares, ajudou a sustentar a credibilidade dos resultados (Birt et al. 2016). Além disso, a discussão com colegas com experiência em pesquisa qualitativa e em pesquisa sobre sistemas familiares fortaleceu o rigor analítico. Uma trilha de auditoria documentou as decisões de codificação e as mudanças analíticas, garantindo a dependabilidade e a confirmabilidade (Birks et al. 2008). Também foi mantido um diário reflexivo para examinar como o posicionamento da pesquisadora influenciava a interpretação (Berger 2015).
Os resultados indicam que as pessoas veteranas negras e suas famílias estabeleceram a confiança durante o processo de reintegração por meio de interações relacionais contínuas, e não de acontecimentos isolados. Emergiram quatro temas interligados: presença, comunicação, identidade racial e negociação dos papéis familiares. Esses temas mostram como a confiança pode ser moldada, tensionada e reconstruída ao longo do tempo. A confiança era influenciada pela disponibilidade emocional, pela sintonia relacional, pela construção compartilhada de sentido e pela adaptação dos papéis dentro dos sistemas familiares.
As pessoas participantes descreveram a confiança como algo reconstruído aos poucos, por meio de padrões relacionais consistentes, e não restaurado num único momento. A confiança era moldada por experiências recorrentes de disponibilidade emocional e de confiabilidade, conforme os membros da família estivessem ou não consistentemente “ali”, de um modo que parecesse estável e seguro. Quando a presença era vivida como previsível e engajada, a segurança relacional se fortalecia. Por outro lado, a inconsistência emocional ou uma ausência percebida intensificavam o isolamento e reforçavam o afastamento. As pessoas veteranas explicaram que os padrões de presença e ausência influenciavam diretamente sua disposição a se reengajar: a disponibilidade sustentada favorecia a conexão, e a inconsistência provocava um distanciamento autoprotetor.
As pessoas veteranas identificaram a consistência como uma força estabilizadora durante a reintegração, enfatizando que a comunicação regular e contatos previsíveis reduziam o isolamento e favoreciam a confiança. O contato contínuo, descrito com expressões como “a gente sempre se comunicava” e “a gente se falava quase todo dia”, ajudava a sustentar a segurança relacional mesmo em meio ao entorpecimento emocional. Para algumas pessoas, essa consistência começou durante o destacamento e continuou após o retorno. O participante 23 lembrou o contato constante da mãe durante todo o destacamento e na volta para casa, explicando: “Ela queria garantir que eu não me sentisse mal-amado.” Da mesma forma, o participante 3 descreveu o envolvimento persistente da mãe, apesar de ela desaprovar seu serviço militar e de seus próprios problemas de saúde: “Ela vive perguntando: ‘O que você vai fazer hoje? Por que não passa aqui?’”
Para outras pessoas, o valor da consistência ficou mais claro com o tempo, em especial após períodos de afastamento. O participante 5 viveu inicialmente os contatos repetidos do primo como intrusivos, mas depois os reconheceu como apoio: “No começo, eu achava irritante… Só fui dar valor recentemente. Eu não percebia que eles estavam, na verdade, me apoiando.” Várias pessoas veteranas descreveram um distanciamento como resposta ao trauma, ao mesmo tempo que se beneficiavam da presença confiável de outras pessoas. O participante 10 reconheceu: “Minha esposa diz que eu não me abro o suficiente com ela… Então eu me distancio.” Ainda assim, enfatizou: “Eu lutei e consegui depois do Exército em grande parte porque minha família estava lá por mim… Eles simplesmente estavam lá.” O participante 13 também observou que a confiança se fortalecia com contatos por iniciativa da outra pessoa: “Gosto que a minha namorada me procure durante a semana para saber como estou.”
A confiança diminuía quando as relações eram inconsistentes, emocionalmente dessintonizadas ou vistas como pouco confiáveis. Pessoas veteranas relataram “nenhum apoio” e a sensação de serem “ignoradas”, “rejeitadas” ou “socialmente isoladas”, especialmente quando um envolvimento inicial não se sustentava. A pessoa participante 9 observou que um contato breve minava a confiança: “Mesmo que eles tenham aparecido no começo, não ficaram tempo suficiente para eu confiar neles.” A pessoa participante 11 descreveu um apoio presente, mas distante, que complicava a segurança relacional: “Eles estavam lá, mas esperavam que eu resolvesse tudo por conta própria.” Essas experiências incentivavam a autossuficiência e o afastamento, em vez da vulnerabilidade.
A confiança se desgastava ainda mais quando o apoio parecia condicional ou diminuía nos momentos de sofrimento. A pessoa participante 17 refletiu: “Parecia que todo mundo estava desistindo de mim, me empurrando a encarar os problemas antes da hora para mim.” A participante 18 também descreveu expectativas frustradas no casamento: “Quero mais apoio do meu marido nessa questão, mas não estou recebendo.” Para a participante 20, a ausência persistente levou a sentir-se “ignorada e rejeitada” e “socialmente isolada”, o que resultou, com o tempo, num afastamento protetor. A inconsistência não apenas enfraquecia a conexão: ela mudava as expectativas quanto à disponibilidade dos outros, reforçava a atitude defensiva e limitava a restauração da confiança durante a reintegração.
As pessoas participantes identificaram a comunicação como essencial para a segurança relacional durante a reintegração. As pessoas veteranas observaram que o tom, a responsividade e a sintonia emocional importavam mais do que a frequência. Trocas respeitosas e emocionalmente seguras incentivavam a reconexão, enquanto respostas desdenhosas ou dessintonizadas levavam ao afastamento e aumentavam a distância emocional. A comunicação era um fator-chave na disposição das pessoas veteranas a se manterem engajadas nas relações.
As pessoas veteranas caracterizaram a comunicação de apoio como aquela que demonstra respeito, compreensão e consciência emocional, evitando qualquer sensação de pressão para revelar experiências pessoais. Expressaram preferência por conversas alinhadas à própria disposição de se engajar e conduzidas num ritmo confortável. O participante 1 enfatizou que desenvolver uma comunicação eficaz levou tempo:
Acho que conseguimos lidar com isso aprendendo um com o outro… Mesmo que eu tenha levado três meses para comunicar o que sentia, ela ficou feliz por eu ter posto isso em palavras. Uma parte essencial da nossa forma de enfrentar as coisas é a comunicação aberta e a compreensão.
O participante 23 valorizava mais as demonstrações de cuidado do que ser submetido a perguntas excessivas: “A gente se comunicava e rezava junto… Eles vinham saber como eu estava e se certificavam de que eu estava à vontade.” Para o participante 4, a comunicação de apoio consistia em ser tratado como alguém capaz e independente, e não como alguém frágil ou debilitado. Ele expressou frustração quando outras pessoas agiam com cautela excessiva ou interpretavam sua franqueza como prova de dano psicológico: “As pessoas muitas vezes acham que, se você é ríspido, é porque a guerra estragou você… Só me deixem fazer meu trabalho sem me tratar como se eu tivesse de pegar leve. Não sou frouxo. Percebi que isso é desnecessário.” O participante 8 relatou sentir-se encorajado pelo apoio familiar: “Minha família tem se preocupado com minhas dificuldades de readaptação e tem me apoiado muito, torcendo por mim à medida que avanço na terapia.” Para a pessoa participante 15, o apoio se definia pela ausência de pressão: “As pessoas mais próximas de mim não me pressionavam a contar tudo. Só estar ali e conversar sobre coisas normais ajudou mais do que as pessoas imaginam.” No conjunto, as pessoas veteranas descreveram a comunicação de apoio como “aberta”, “compreensiva”, “confortável” e “ancorada”. Relataram sentir-se ouvidas quando os outros respondiam com respeito e consciência emocional, sem esperar que revelassem mais do que se sentiam prontas para compartilhar.
As pessoas veteranas descreveram a comunicação sem apoio como aquela em que os outros estavam emocionalmente ausentes, faziam suposições ou demonstravam pouco interesse por suas experiências internas. Em vez de incentivar o compartilhamento, essas interações faziam com que se sentissem desconsideradas ou ignoradas, o que aumentava a sensação de isolamento durante a reintegração. O participante 6 descreveu a comunicação sem apoio como indiferença emocional no casamento, em especial em relação às suas experiências militares:
Não recebi apoio de ninguém. Minha esposa não liga para as minhas experiências militares. Não tenho nenhum apoio dela… Tenho me sentido sozinho, principalmente desde que a pessoa que mais se importaria morreu.
Para o participante 2, comunicação sem apoio significava que os outros faziam suposições sem tentar compreendê-lo. Ele sentia que os familiares projetavam as próprias opiniões em vez de ouvir as dele:
Não tive apoio da minha namorada; ela só estava focada em engravidar. Ela não me apoiava. Minha mãe também não era um apoio. Meu irmão e eu nunca nos demos bem. Ele acha que sabe o que alguém está passando, mas você não consegue entender de verdade a experiência do outro sem ter passado por ela. Eu ficava mais na minha. Não confiava em ninguém e não ligava para a opinião dos outros.
O participante 7 associou a comunicação sem apoio a sentir-se invisível e emocionalmente negligenciado na família: “Fico com raiva fácil. Não gosto de passar tempo com a minha família. Meu casamento está desgastado. Em casa, ninguém me vê de verdade. Minha esposa e eu quase não nos comunicamos; ela está absorvida pelos problemas ligados ao coronavírus.”
Mesmo quando os outros demonstravam preocupação, a falta de uma compreensão real ainda podia prejudicar a confiança. O participante 8 descreveu uma comunicação mais voltada para tranquilizar ou para querer que as coisas voltassem ao normal do que para compreender como ele havia mudado por dentro:
Eles não acham que entendem de verdade o que eu passei. Não conseguem aceitar que eu estou diferente. Querem que eu melhore e volte a ser quem eu era… Mantenho eles à distância porque, apesar do apoio, não dariam conta de tudo o que eu preciso expressar.
No geral, a comunicação sem apoio não dizia respeito apenas ao que era dito ou deixado de dizer, mas à falta de uma compreensão real. Quando as pessoas veteranas se sentiam incompreendidas, desconsideradas ou pressionadas a agir como antes, muitas vezes se distanciavam emocionalmente para se proteger.
Durante o processo de reintegração, a identidade racial influenciava a forma como as pessoas veteranas lidavam com a confiança na família, sobretudo nas decisões de revelar ou não as experiências de racismo vividas durante o serviço militar. As pessoas participantes identificaram a identidade racial tanto como fonte de resiliência e de sentido quanto como um contexto que aumentava a vigilância e a reserva emocional. Surgiu uma tensão central: reconhecer os danos raciais favorecia a conexão ou introduzia um risco nas relações familiares? No conjunto, a identidade racial operou como um fator dinâmico que moldava a confiança, a comunicação e o pertencimento ao longo da reintegração.
Para muitas pessoas veteranas, a identidade racial funcionou como um recurso que oferecia sentido, orientação e ancoragem relacional durante a reintegração. Longe de ser periférica à vida familiar, ela influenciava a forma como interpretavam o estresse, definiam responsabilidades e ofereciam cuidado dentro de casa. A pessoa participante 24 refletiu: “Meu pai costumava me dizer que, por sermos negros, tínhamos de trabalhar o dobro. Só entendi isso no Exército, e ainda mais agora, criando meu filho. Eu me preocupo todo dia: se ele não se comportar na escola, vai ser tratado como os outros meninos negros que acabaram mortos? Esse medo molda o jeito como eu crio meu filho e como me reintegro.” Embora enraizada na preocupação, essa consciência racial oferecia um quadro para uma parentalidade intencional e vigilante, reforçando um compromisso de presença e proteção na família. Desse modo, a identidade racial oferecia estrutura e propósito em meio à instabilidade do ajuste após o destacamento.
Outras pessoas participantes descreveram a identidade racial como fonte de continuidade e de compreensão compartilhada que fortalecia os vínculos relacionais. O participante 2 enfatizou que “conhecer a [sua] história” o ajudava a contextualizar tanto suas experiências militares quanto o futuro da filha, enquanto a participante 18 relacionava seu serviço às experiências de discriminação do pai, veterano da Segunda Guerra Mundial, observando: “Parece que nada mudou.” Essas narrativas faziam da identidade racial uma âncora intergeracional, ligando passado e presente de maneiras que informavam a construção de sentido da família. A identidade racial compartilhada também aumentava a segurança emocional nas relações íntimas. Pessoas veteranas relataram sentir-se mais “compreendidas” e “menos sobrecarregadas” para explicar suas experiências raciais quando a pessoa parceira compartilhava sua origem racial. O participante 1 explicou que a identidade da esposa como mulher negra “aumentava a sensibilidade dela à discriminação” que ele sofria, e o participante 10 se sentia “seguro” para falar do racismo no trabalho com a esposa sem precisar contextualizá-lo. No conjunto, esses relatos indicam que a identidade racial funcionava como uma ponte relacional, sustentando a confiança, a acessibilidade emocional e a coesão durante a reintegração.
Para algumas pessoas veteranas, a identidade racial aumentava a vigilância e complicava o desenvolvimento da confiança durante a reintegração. Em vez de oferecer uma sensação de estabilidade, ela levava a um exame mais desconfiado das intenções alheias e restringia a abertura emocional nas famílias. A pessoa participante 21 explicou: “Eu não via a minha raça como algo ruim até chegar aos Estados Unidos, onde sofri assédio por causa do meu sotaque haitiano e da cor da minha pele. Ficou mais difícil confiar nas pessoas, até na família, quando voltei, porque eu estava sempre desconfiando das intenções delas.” Esse relato mostra como experiências racializadas vividas fora de casa podem influenciar as relações íntimas, fazendo da reintegração uma avaliação contínua da segurança, e não um simples retorno à proximidade familiar.
Outras pessoas participantes descreveram a identidade racial como fonte de medo intensificado e de menor segurança emocional. O participante 16 contou:
Ser negro… parece que nunca foi bom o bastante, nem para a minha família quando eu era criança. E agora, voltando, continua não sendo bom o bastante. Vejo isso no noticiário todo dia: pessoas negras morrendo sem motivo. Tem dias em que não quero ser negro. Tenho mais medo de morrer aqui do que tinha quando estava no Afeganistão.
Para esse participante, a identidade racial estava associada a uma sensação persistente de ameaça, o que dificultava perceber a casa como um ambiente seguro. Essa tensão era ainda mais forte para pessoas veteranas com múltiplas identidades marginalizadas. A participante 20 descreveu ter sido “assediada porque eu era negra, porque eu era mulher, porque eu tinha estudo” e ter levado essas experiências cruzadas de invalidação para relações em que o apoio emocional era inconsistente.
As diferenças raciais dentro dos casais também restringiam a confiança. A participante 18 afirmou: “Tem sido difícil, principalmente quando tenho ao meu lado alguém que não sabe o que significa ser uma pessoa negra. Ele não entende o que eu passo em diferentes ambientes. Ele não vê o racismo porque é branco.” Da mesma forma, o participante 3 refletiu: “Ela não entendia de verdade o que era ser uma pessoa negra, porque parecia mais branca. Era difícil se conectar.” Nesses casos, a incompreensão antecipada reduzia a abertura e reforçava a contenção emocional. Mesmo quando pessoas veteranas tentavam minimizar a importância da raça como estratégia de enfrentamento, a tensão de fundo persistia. O participante 13 observou: “Eu não vejo muito a raça; eles veem… Eu não queria ser definido pela minha raça. Eu queria ser honrado”, enquanto a participante 14 reconheceu: “Não acho que eu consiga escapar de nenhuma dessas identidades… O noticiário me lembra disso todo dia.” No conjunto, esses relatos indicam que a identidade racial restringia a confiança não por falhas individuais, mas porque ameaças racializadas persistentes tornavam a vulnerabilidade arriscada, mesmo dentro das relações familiares.
A reintegração foi descrita como um período de renegociação dos papéis familiares, e não como uma simples retomada das responsabilidades anteriores. O serviço militar influenciava as expectativas sobre hierarquia, autoridade e estrutura, enquanto os sistemas familiares frequentemente haviam se adaptado na ausência da pessoa militar. Ao voltar, as pessoas veteranas muitas vezes se deparavam com pressupostos conflitantes sobre liderança, cuidado e tomada de decisões. O grau de flexibilidade ou de rigidez nessas negociações de papéis tinha um peso decisivo na construção da confiança, da segurança emocional e das oportunidades de reparação relacional durante a reintegração.
A flexibilidade de papéis surgiu como um mecanismo primordial de reconstrução da confiança e da conexão durante a reintegração. Em vez de voltar às hierarquias anteriores ao destacamento, as famílias relataram exercer uma liderança compartilhada, redistribuir responsabilidades e adaptar os processos de decisão conforme capacidades emocionais oscilantes. A confiança se fortalecia quando a autoridade se deslocava com fluidez, sem minar a identidade nem o respeito de cada pessoa. Por exemplo, a pessoa participante 19 demonstrou responsabilidade compartilhada ao afirmar: “Quando estou com raiva, exagero na reação, e é por isso que deixo minha esposa cuidar da disciplina dos nossos filhos.” Essa disposição a abrir mão do controle disciplinar indicava respeito mútuo por capacidades em transformação e uma prioridade dada à estabilidade familiar sobre expectativas de papel rígidas. Da mesma forma, a participante 14, casada com outra veterana, descreveu a alternância da liderança conforme qual das duas estivesse enfrentando dificuldades de saúde mental, explicando que, quando a esposa tinha uma crise, ela “assumia a frente nas decisões”, e vice-versa. Esse arranjo recíproco exemplificava uma adaptação colaborativa, e não a adesão a uma hierarquia fixa.
Para algumas pessoas veteranas, a flexibilidade de papéis envolvia redefinir identidades de cuidado e aceitar a influência dos familiares. O participante 2 descreveu como a paternidade interrompeu padrões de raiva que se seguiram à discriminação sofrida nas Forças Armadas: “A chegada da minha filha me obrigou a mudar… Se ela trouxesse para casa um homem como eu… eu teria vergonha.” Nesse caso, a confiança foi restabelecida por meio da responsabilização e da mudança de comportamento em resposta às necessidades da família. Da mesma forma, o participante 7 identificou a paternidade como uma força estabilizadora em períodos de sofrimento relacionado ao TEPT: “Ser pai é provavelmente a coisa mais importante para mim… Ter dois meninos me mantém com os pés no chão”, apesar das dificuldades persistentes na relação conjugal. A ampliação dos papéis emocionais também indicava flexibilidade; por exemplo, o participante 3 aprendeu intencionalmente a expressar afirmação, dizendo: “Tive de aprender a dizer à minha filha que ela é bonita… para que ela não fosse procurar isso em outro lugar.” O participante 16 reconheceu a importância da preocupação da parceira para motivá-lo a buscar cuidado: “Se ela não estivesse preocupada, não sei se eu teria levado meu TEPT a sério.” No conjunto, esses relatos demonstram que a confiança se reforçava quando as famílias acolhiam a vulnerabilidade, incentivavam o retorno de cada pessoa e adaptavam os papéis de forma colaborativa após a ausência ou a lesão. A flexibilidade, e não a rigidez, facilitava a reparação relacional.
A tensão de papéis ficava evidente quando pessoas veteranas precisavam assumir papéis de estabilização ou de autoridade sem receber apoio recíproco, o que restringia as oportunidades de vulnerabilidade e diminuía a confiança. Ao contrário da redistribuição flexível de papéis, esses padrões envolviam atribuições rígidas ou involuntárias que agravavam o isolamento emocional. O participante 1 ilustrou essa dinâmica ao descrever a supercompensação pela perda da autoridade militar após uma lesão:
Voltando ferido, eles não me viam mais como líder, só como um cara negro quebrado. Em casa, isso se traduziu em eu supercompensar, sendo mais rígido e mais agressivo com a minha esposa e o meu filho, porque eu sentia que precisava manter alguma autoridade em algum lugar.
Nesse contexto, a perda de status institucional aumentava a pressão para reafirmar a autoridade dentro do sistema familiar, reforçando o controle em detrimento da conexão.
Para algumas pessoas participantes, a tensão de papéis se manifestava como um fenômeno intergeracional. O participante 13 contou que lhe foi atribuído um papel de figura paterna antes da reintegração e que se sentiu preso a essa posição ao voltar: “Quando voltei, eu sentia que estava cuidando de todo mundo… Fui forçado a ser a figura paterna da minha família. Eu odiava meu pai por ter me colocado nesse papel. Eu não estava pronto.” Seu ressentimento em relação ao pai e a sensação de uma responsabilidade prematura exemplificavam uma parentificação, e não uma adaptação colaborativa. A falta de apoio emocional persistiu em suas relações adultas, e ele descreveu ter buscado conexão num relacionamento extraconjugal porque “não sentia ter mais ninguém a quem recorrer”. A expectativa persistente de que ele garantisse estabilidade para os outros, sem receber apoio, limitava a confiança e a intimidade. Da mesma forma, o participante 8 descreveu uma inversão contínua de papéis com o pai: “Desde que voltei para casa, sinto que sou eu que apoio principalmente meus pais… meu pai parecendo mais a criança.” Sua confusão quando o pai tentou saber como ele estava (“Por que ele está preocupado comigo agora? … Foi confuso, ofensivo e constrangedor”) ilustrava como expectativas de cuidado arraigadas minavam a reciprocidade. Em vez de favorecer uma liderança compartilhada, essas dinâmicas impunham uma responsabilidade unilateral. No conjunto, esses relatos demonstram que papéis rígidos ou impostos restringiam as oportunidades de vulnerabilidade e de cuidado recíproco, enfraquecendo assim a segurança emocional durante a reintegração.
Este estudo examinou como pessoas veteranas negras e suas famílias vivem a reintegração após o destacamento, com foco nos processos sistêmicos que moldam as dinâmicas relacionais. A Figura 1 ilustra como confiança, comunicação, flexibilidade de papéis e identidade cultural interagem para fortalecer ou tensionar o vínculo familiar durante a reintegração. Esses processos inter-relacionados evidenciam que a reintegração não é um ajuste individual, mas uma negociação no nível da família, influenciada por contextos culturais, relacionais e sociopolíticos.

A presença atuou como fator estabilizador em meio às mudanças sistêmicas mais amplas associadas à reintegração, corroborando a pesquisa sobre sistemas familiares que caracteriza esse período por fronteiras difusas e confusão de papéis (Paley et al. 2013; Pincus et al. 2001; Riggs e Riggs 2011). Este estudo amplia os resultados de Knobloch-Fedders et al. (2020), que constataram que a proximidade emocional oscila durante o ajuste após o destacamento. As pessoas participantes deste estudo descreveram a confiança como algo que se desenvolve por demonstrações repetidas de disponibilidade, e não por acontecimentos emocionais únicos. Esse processo está alinhado ao Modelo de Estresse da Família Militar (Military Family Stress Model; Gewirtz et al. 2018), que identifica a confiabilidade relacional como essencial para a estabilização sistêmica, o ajustamento diádico e a eficácia das práticas parentais diante de estressores ligados ao destacamento, como o TEPT parental. É importante notar que, enquanto grande parte da literatura existente enfatiza a importância da intensidade emocional para restaurar a intimidade (Sandoz et al. 2015), os resultados atuais sugerem que é a presença previsível, e não a reciprocidade imediata, que ancora a confiança durante a reintegração, ecoando e ampliando as contribuições de trabalhos longitudinais anteriores.
Esses resultados questionam leituras do afastamento centradas nos sintomas, que têm sido proeminentes na literatura que relaciona os sintomas de TEPT à tensão relacional e à diminuição do engajamento (Brennan et al. 2021; Diehle et al. 2016; Renshaw et al. 2008). Enquanto estudos anteriores costumam apresentar o afastamento como obstáculo à intimidade, o presente estudo se alinha a Knobloch e Theiss (2012) e a Paley e Hajal (2022) ao ver o afastamento como uma estratégia de regulação influenciada pela vigilância, pelo luto e pela sobrecarga emocional. É importante notar que este estudo amplia os modelos anteriores ao mostrar que a confiança não é necessariamente desgastada pelo afastamento em si, mas pela inconsistência ou pela condicionalidade da presença durante os períodos de afastamento. As famílias que toleravam uma assimetria no engajamento conseguiam reconstruir a confiança aos poucos, o que evidencia a centralidade de uma presença sustentada, mais do que do acesso emocional imediato, no processo de reintegração.
A comunicação moldava a confiança não pela frequência nem pelo domínio de habilidades, mas pela sintonia e pelo ritmo emocional, um resultado que se apoia na pesquisa existente sobre a manutenção das relações após o destacamento e a amplia (Knobloch et al. 2023). Os estudos de Wen et al. (2020) e de Sayers (2011) enfatizaram a importância da comunicação de apoio para casais de militares, observando que a responsividade e a contenção facilitam o engajamento e reduzem o sofrimento. Em consonância com esses modelos, as pessoas veteranas deste estudo valorizavam uma comunicação marcada por respeito, responsividade e contenção, que permitia o engajamento sem forçar a vulnerabilidade. As abordagens orientadas pelo apego (Riggs e Riggs 2011) e os quadros sistêmicos (Paley e Hajal 2022) destacam há muito a importância da responsividade e da disponibilidade emocionais durante a reintegração. Os presentes resultados corroboram esses quadros, mostrando que, quando a comunicação era emocionalmente sintonizada e seguia o ritmo da disposição das pessoas veteranas, favorecia a segurança relacional e um engajamento sustentado. Por outro lado, a comunicação emocionalmente ausente ou guiada por suposições, identificada como obstáculo à intimidade por Knobloch-Fedders et al. (2020), também esteve associada, nesta amostra, ao afastamento e a uma menor revelação de si.
Indo além de uma literatura anterior que muitas vezes apresenta a comunicação como um conjunto de habilidades ensináveis (Blow et al. 2015; Sayers 2011; Wen et al. 2020), este estudo demonstra que as pessoas veteranas viviam a comunicação sobretudo como uma medida da segurança relacional. Isso está alinhado aos modelos sistêmicos de regulação emocional (Paley e Hajal 2022), que enfatizam a corregulação dentro do sistema familiar, e a Knobloch e Theiss (2012), que constataram que a eficácia da comunicação depende da acessibilidade mútua e da capacidade de se reengajar após períodos de silêncio. Nesse contexto, o silêncio nem sempre indicava desconexão; às vezes servia de pausa reguladora, ecoando os resultados de Knobloch e Theiss (2012), desde que a acessibilidade mútua (isto é, continuar fisicamente ali, sinalizar a intenção de voltar à conversa, manter um tom suave ou o contato visual) e o reengajamento continuassem possíveis. Já a indisponibilidade emocional prolongada (isto é, fechamento emocional, rigidez ou desengajamento prolongado que deixa o membro da família inseguro quanto à disponibilidade e à segurança relacional), em consonância com as evidências de Knobloch-Fedders et al. (2020), sinalizava afastamento e desgastava a confiança. Assim, esses resultados tanto confirmam quanto ampliam os modelos anteriores, ao destacar o papel central da segurança relacional, do ritmo emocional e da corregulação na comunicação eficaz durante a reintegração das famílias de pessoas veteranas negras.
A identidade racial desempenhou um papel duplo na confiança, na revelação de si e no vínculo durante o processo de reintegração. Esse resultado é coerente com pesquisas anteriores que documentam a importância da identidade racial tanto como recurso protetor quanto como fonte de vulnerabilidade para pessoas veteranas negras e suas famílias (Dorsey Holliman et al. 2018; McClendon et al. 2021). As pessoas participantes indicaram que sua identidade racial oferecia sentido cultural, orgulho e uma sensação de compreensão compartilhada, ecoando os achados de Carlson et al. (2018) sobre o efeito amortecedor dos recursos culturais, ao mesmo tempo que aumentava a vigilância e a reserva emocional, como descrito na pesquisa sobre estresse de minorias e trauma racial (Nillni et al. 2023; Whealin et al. 2024). A tensão descrita pelas pessoas participantes, quanto a saber se falar de experiências de danos racializados nas relações familiares parecia seguro ou pesado, está alinhada a trabalhos que apresentam os danos racializados como cumulativos, intergeracionais e contínuos (Cénat 2023; Sharifian et al. 2024).
Em consonância com estudos que demonstram que a discriminação e as desigualdades socioculturais moldam a exposição ao trauma e suas consequências para a saúde mental para além das experiências de combate (McClendon et al. 2021; Nillni et al. 2023; Whealin et al. 2024), este estudo enfatiza que a reintegração está inserida em contextos racializados persistentes. Enquanto grande parte da literatura existente se concentra em trajetórias sintomáticas individuais e em disparidades (Carlson et al. 2018; Sharifian et al. 2024; Winters et al. 2023), nossos resultados ampliam esses trabalhos ao alargar o olhar para a forma como a identidade racial e o estresse racializado são negociados dentro dos sistemas familiares, afetando a segurança relacional e a confiança (Dorsey Holliman et al. 2018). Mais especificamente, a identidade racial compartilhada nas famílias muitas vezes diminuía a necessidade de explicação e facilitava a conexão emocional, em consonância com a pesquisa sobre amortecedores culturais (Carlson et al. 2018). Por outro lado, as diferenças raciais dentro dos casais podiam limitar a revelação de si por receio de incompreensão ou de invalidação, levando a estratégias de autoproteção, o que amplia os achados anteriores sobre estresse de minorias e dinâmicas relacionais (Cénat 2023; Sharifian et al. 2024).
A reintegração exigiu que as famílias renegociassem papéis influenciados pela hierarquia militar, pela adaptação à ausência e pelas expectativas em transformação na volta da pessoa veterana, um processo bem documentado na literatura sobre sistemas familiares e sobre transição militar (Gil-Rivas et al. 2017; Knobloch e Theiss 2012; Riggs e Riggs 2011). A flexibilidade de papéis, definida como a capacidade de compartilhar responsabilidades, a abertura a papéis em mudança e a responsividade ao retorno relacional, tem se mostrado favorável à confiança e à segurança emocional tanto em famílias militares quanto em famílias civis (Hicks et al. 2024; Riggs e Riggs 2011). Em especial, os estudos de McGaw et al. (2020) e de Brennan et al. (2021) sugerem que a tensão de papéis pode surgir quando membros da família são pressionados a manter responsabilidades de cuidado ou a lidar com expectativas ambíguas, o que muitas vezes altera as dinâmicas e aumenta o estresse relacional.
Esses resultados estão alinhados aos modelos sistêmicos que veem a reintegração como um processo de estresse familiar (Gil-Rivas et al. 2017) e às pesquisas que indicam que o estresse militar e os sintomas de TEPT afetam o funcionamento da pessoa parceira e da família para além da própria pessoa veterana (Brennan et al. 2021; McGaw et al. 2020). Indo além desses quadros, este estudo enfatiza que a negociação de papéis é fundamentalmente um processo de confiança relacional, e não apenas um ajuste logístico ou prático. Essa perspectiva ecoa Knobloch e Theiss (2012), que destacam a renegociação da autoridade e do cuidado como central para a adaptação após o destacamento. As pessoas veteranas deste estudo relataram desconfiança quando os sistemas familiares não conseguiam acolher a vulnerabilidade ou distribuíam o cuidado de modo a sobrecarregar os demais. Por outro lado, a flexibilidade de papéis favorecia a conexão e restaurava a confiança na capacidade da família de compartilhar responsabilidades, reforçando os achados de Hicks et al. (2024) sobre o valor de uma negociação adaptativa de papéis para a segurança emocional.
Essa perspectiva enriquece os quadros relacionais que tratam da ambiguidade e da adaptação de papéis após o destacamento (Gil-Rivas et al. 2017; Knobloch e Theiss 2012) e oferece um contexto para integrar interpretações das rupturas de confiança informadas pela noção de dano moral (Buechner 2020). Mesmo em famílias que ofereciam apoio material, a confiança continuava frágil quando a construção interna de sentido, a vulnerabilidade e a segurança relacional eram perturbadas, em consonância com os achados de Sayers (2011) e de McGaw et al. (2020), que destacam o impacto persistente da exclusão dos papéis domésticos anteriores. Isso evidencia que a confiança depende não apenas do apoio externo, mas também da capacidade do sistema familiar de reorganizar autoridade, papéis e cuidado de forma responsiva. A pesquisa sugere que pessoas veteranas que estiveram em combate muitas vezes se sentem excluídas de seus antigos papéis domésticos ou como visitas na própria casa (Brennan et al. 2021; Sayers 2011). Assim, uma reavaliação cuidadosa da história anterior ao destacamento e das dinâmicas conjugais é necessária para distinguir as dificuldades de reintegração de problemas estruturais preexistentes, como enfatizado em trabalhos recentes sobre a adaptação das famílias militares (Gil-Rivas et al. 2017).
Reconhecer a reintegração como um processo relacional, e não apenas como uma questão de tratamento individual, tem consequências significativas para terapeutas de casal e família que atendem pessoas veteranas negras e suas famílias. Essa perspectiva é sustentada por um corpo crescente de pesquisas que defende abordagens sistêmicas e sensíveis ao contexto no cuidado às famílias militares (Gewirtz et al. 2018; Hodgson e Lamson 2020; Sayers 2011). Em consonância com esses quadros, a confiança é cultivada não pela pressão para revelar emoções, mas pela cocriação da segurança relacional, que inclui presença sustentada, sintonia emocional e flexibilidade de papéis (Blow et al. 2015; Drew et al. 2022). Estudos recentes destacam o valor de reenquadrar o silêncio e o afastamento como estratégias reguladoras potencialmente protetoras, e não como resistência (Collins e Tam 2024; Knobloch et al. 2023; Paley e Hajal 2022), e enfatizam a importância de sinais sistêmicos como o tom, o ritmo e a persistência para transmitir disponibilidade e apoio. As intervenções de terapia familiar centradas na renegociação de papéis, no compartilhamento de responsabilidades e na abertura ao retorno do outro estão alinhadas às evidências de que a flexibilidade adaptativa de papéis e a resolução colaborativa de problemas favorecem a confiança e a segurança emocional durante a reintegração, sobretudo quando hierarquias rígidas ou expectativas de cuidado tornam a vulnerabilidade difícil (Hicks et al. 2024; Lee et al. 2023; Sayers 2011).
A sintonia cultural e a advocacy sistêmica também são centrais para um trabalho clínico eficaz com pessoas veteranas negras e suas famílias. A pesquisa demonstra de forma consistente que a identidade racial molda a reintegração tanto como fonte de resiliência quanto como fonte de tensão (Carlson et al. 2018; Dorsey Holliman et al. 2018; Nillni et al. 2023), o que evidencia a necessidade de situar as questões clínicas em contextos racializados e sociopolíticos mais amplos (Sharifian et al. 2024; Whealin et al. 2024). O estresse discriminatório está associado a piores desfechos de saúde mental entre pessoas veteranas racializadas (McClendon et al. 2021; Winters et al. 2023), enquanto recursos culturais como a espiritualidade, as narrativas intergeracionais e os laços comunitários podem amortecer o sofrimento e facilitar a recuperação (Carlson et al. 2018; Dorsey Holliman et al. 2018; Goodman et al. 2018). Terapeutas de casal e família estão numa posição privilegiada para integrar essas dinâmicas ao tratamento e para apoiar as famílias na superação de barreiras institucionais por meio da advocacy, da colaboração com os serviços do VA e da conexão com recursos culturalmente responsivos e apoios comunitários (Golojuch et al. 2025; Hodgson e Lamson 2020; Lee et al. 2023).
Este estudo tem várias limitações. A amostra, composta por 23 pessoas veteranas negras recrutadas principalmente por meio de programas do VA na cidade de Nova York, pode restringir a transferibilidade dos resultados para outras regiões ou para pessoas veteranas fora dos sistemas formais de cuidado. O recurso a indicações comunitárias e a uma confiança já estabelecida também pode ter introduzido viés de seleção. A desconfiança persistente, as preocupações com a confidencialidade e as barreiras institucionais entre pessoas veteranas afro-americanas (Barrett et al. 2017) provavelmente influenciaram a participação, estreitando ainda mais a diversidade das experiências de reintegração. Para enfrentar essas questões, a pesquisa futura deve desenvolver e avaliar estratégias de recrutamento que enfrentem diretamente a desconfiança, como parcerias com organizações lideradas por pessoas veteranas e ações de aproximação culturalmente responsivas (Castro et al. 2015).
Este estudo não priorizou nem considerou sistematicamente o tempo decorrido desde a reintegração de cada pessoa veterana, e não coletou dados sobre o número de ciclos de destacamento cumpridos antes da reintegração. Esses fatores provavelmente moldam a forma como as pessoas veteranas lembram e interpretam suas experiências, já que quem voltou há mais tempo ou passou por vários destacamentos pode ver a confiança, a conexão e o ajuste de modo diferente de quem voltou mais recentemente ou passou por um único destacamento (Adler et al. 2011). A pesquisa futura deve considerar de modo mais deliberado tanto o momento da reintegração quanto o histórico de destacamentos, para aprofundar a compreensão de como essas variáveis influenciam as experiências após o destacamento.
As considerações metodológicas relacionadas à raça também são significativas. O recrutamento, a participação e a revelação de si das pessoas participantes afro-americanas são influenciados pela desconfiança histórica, pela identidade de quem pesquisa e pela afiliação institucional (Gibson e Abrams 2003). Esses fatores, junto com a confiança e as dinâmicas de poder percebidas durante as entrevistas, podem ter moldado as narrativas. O uso contínuo de estratégias culturalmente responsivas e construtoras de confiança, para lidar com danos institucionais passados, continua essencial para aumentar a transparência e o conforto de quem participa (Henderson et al. 2024). Além disso, o processo analítico contou com uma única pessoa na codificação, o que pode introduzir viés interpretativo e limitar a inclusão de múltiplas perspectivas analíticas; a credibilidade foi sustentada pela checagem com as pessoas participantes, pela discussão com pares e por uma trilha de auditoria (Birt et al. 2016).
A participação limitada dos familiares restringiu o exame da reintegração como um processo familiar interacional. Embora entrevistas diádicas tenham sido permitidas para proteger a segurança psicológica e a autonomia das pessoas veteranas, barreiras logísticas e relacionais restringiram ainda mais o envolvimento dos familiares, reduzindo as oportunidades de triangulação e de observação em tempo real das dinâmicas familiares. As entrevistas diádicas oferecem contribuições valiosas sobre como o casal coconstrói sentido (Szulc e King 2022). Além disso, as pessoas participantes viviam em arranjos variados, incluindo contextos independentes e familiares; o estudo, no entanto, não examinou explicitamente como as experiências de reintegração podem diferir entre esses contextos. Em consequência, a variação dos processos relacionais moldada por contextos de vida distintos não foi plenamente captada. Estudos futuros devem considerar desenhos flexíveis que integrem abordagens paralelas e diádicas, apoiando a análise sistêmica e mantendo salvaguardas informadas pelo trauma.
Todas as pessoas veteranas participantes relataram diagnóstico de TEPT, o que resultou numa amostra diagnosticamente homogênea. Os processos de reintegração podem ser diferentes para pessoas veteranas sem TEPT ou com diferentes níveis de gravidade dos sintomas e de comorbidade. Estudos futuros devem incluir pessoas veteranas com perfis de saúde mental mais diversos, para esclarecer como a confiança relacional, a comunicação e a negociação de papéis variam conforme o contexto diagnóstico.
Por fim, a coleta de dados ocorreu em 2020, durante a pandemia de COVID-19 e num momento de maior consciência nacional sobre a violência antinegra após o assassinato de George Floyd. Esse contexto sociopolítico provavelmente intensificou o trauma histórico e a desconfiança institucional nas comunidades negras (Crooks et al. 2021). O racismo estrutural persistente e o estresse racializado nos sistemas familiares afro-americanos (George et al. 2014) podem ter moldado as narrativas, amplificando a vigilância, a comunicação defensiva e a tensão relacional. A pesquisa futura deve incluir estudos longitudinais em contextos sociopolíticos diversos, para distinguir características duradouras da reintegração daquelas moldadas por acontecimentos históricos. Indo além da análise descritiva, a pesquisa futura deve avaliar intervenções sistêmicas que apoiem a reintegração de pessoas veteranas negras e identificar os melhores momentos para o engajamento terapêutico. Desenhos centrados em intervenções, longitudinais e construídos em parceria com as comunidades vão fortalecer tanto a relevância clínica quanto o rigor ético.
Complexe Systémique: a reter
O estudo desloca o olhar de modo útil: a reintegração não é a adaptação de um indivíduo traumatizado, mas a reorganização de um sistema que mudou durante a ausência. Sua principal contribuição está numa distinção sutil: não é o afastamento da pessoa veterana que desgasta a confiança, e sim a inconsistência da presença dos familiares durante esse afastamento. O silêncio pode ser uma pausa reguladora enquanto o vínculo continua acessível; a pressão para se abrir, ao contrário, afasta. O tema dos papéis traz mecanismos conhecidos da terapia sistêmica: supercompensação de uma autoridade perdida, parentificação, inversão de papéis com um pai. A identidade racial, por fim, atua nos dois sentidos: recurso de sentido e de continuidade entre gerações, mas também vigilância que torna a vulnerabilidade arriscada, até dentro do casal quando a outra pessoa não compartilha essa experiência. Os limites são reconhecidos: uma única pessoa na codificação, famílias quase ausentes dos dados, uma amostra de Nova York inteiramente diagnosticada com TEPT e entrevistas realizadas em 2020. Para ler junto com o artigo sobre os primeiros socorros psicológicos para famílias em tempo de guerra e com o estudo de caso sobre a terapia breve focada nas soluções com casais afro-americanos.
Notas do original
Financiamento. A autora não tem nada a declarar.
Agradecimentos. A autora agradece às pessoas veteranas negras e a suas famílias, que compartilharam generosamente suas experiências.
Referências
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Tradução não oficial em português de Construir confiança e conexão: uma perspectiva sistêmica familiar sobre a reintegração de pessoas veteranas negras, de Lastenia Francis, Journal of Marital and Family Therapy, vol. 52, no 3 (2026), doi: 10.1111/jmft.70144, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Building Trust and Connection: A Family Systems Perspective on Black Veteran Reintegration”, publicado em Journal of Marital and Family Therapy (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Francis, L. (2026). Construir confiança e conexão: uma perspectiva sistêmica familiar sobre a reintegração de pessoas veteranas negras (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/construir-confianca-e-conexao-a-reintegracao-de-pessoas-veteranas-negras (Obra original publicada em 2026 em Journal of Marital and Family Therapy, 52(3), e70144 (2026); republicada em 2026 por Journal of Marital and Family Therapy, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/jmft.70144)
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